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CONTRATRANSFERENCIA_SETTING_ANALITICO Blog Masonry - Results from #264

Quando acontece a contratransferência no setting analítico

Por Ana Cristina Campos D'almeida -  Com este estudo pretendo desenvolver uma reflexão sobre o aspecto multidimensional do encontro analítico, bem como enfatizar a importância da existência de uma comunicação não linear e o quanto esta comunicação traduz os movimentos de transferência e contratransferência que fluem neste encontro e que lhe dão vida e significado. Proponho também, um olhar sobre a qualidade de nosso sentimento enquanto analista em querer entender determinados conhecimentos adquiridos através de leituras e estudos e experimentá-los no setting.  Palavras Chaves: Inconsciente, objetos subjetivos, transferência, contratransferência, vinculo analítico, Impacto emocional, comunicação verbal e não verbal, desejo de entendimento, intuir e o sentir analítico. Introdução: Este trabalho não se trata de um caso em específico, mas de sentimentos e metas (sic) que me propus a viver no setting, a partir de estudos que realizei durante a formação em psicanálise, e que influenciaram minha postura como analista no início de meu estágio clínico. Isso tudo tem relação também com as sensações que sentia durante a sessão analítica, sensação de sonolência, peso, boceja e cansaço decorrentes do que estava acontecendo no setting. Reconheço através destas sensações que passei a compartilhar com meu paciente, um nível de sensações e sentimentos que iam para além da comunicação verbal, estendendo-se para um nível de comunicação visceral, trazendo com isto, uma nova qualidade, uma nova ordem a este encontro analítico. Quero compartilhar também o que inicialmente estas sensações mobilizavam em mim, enquanto analista, centrada que estava em minhas metas estabelecidas (ledo engano) a partir dos estudos realizados, presa em conceitos e ideias, que hoje reconheço idealizadas, as quais provocaram um desejo de entendimento daqueles estudos, através dos movimentos do setting. Foi somente a partir das orientações do revisor, na elaboração deste artigo³, que passei a reconhecer que para mim, primeiro vinha o conceito que me encantou após a vivência no setting, a qual passava a estar moldada em função do conceito elegido por conceito por mim.  A contratransferência do analista Esta parte do meu trabalho está centrado no momento em que abria a porta do meu consultório para receber meu paciente: proponho um olhar, uma reflexão para este meu instante mental. Era na fase inicial de meu estágio clínico, minha mente repleta de metas, com desejos e sonhos a experimentar, povoada por desejos de entender, de vivenciar aquilo que eu supus que fosse a partir de materiais tirado de leituras. Havia uma leitura que me encantava mais do que todas as demais, o livro era este: ‘Quem é o sonhador que sonha o sonho? : Um estudo de presenças psíquicas’ (GROTSTEIN, 2003) Fiquei realmente encantada com esta perspectiva, a existência de presenças psíquicas, e passei a procura-las da mesma forma que os caçadores de fantasmas o fazem. Meu desejo de entender do que se tratava isto e de como eu poderia sentir estas presenças, orientou toda a minha ação analítica, naquela fase inicial de atendimento. Para mim, naquele período meu paciente era um manancial de presenças psíquicas e eu seria aquela que as decifraria para ele. Esta busca, portanto, passou a ser uma meta que se estendeu a todo atendimento realizado naquele período. Até que ao realizar a primeira versão deste estudo compreendi que esta busca por presenças psíquicas era de fato a expressão do meu desejo de entendimento, sendo, portanto, a extensão de minha própria contratransferência, e, foi através deste reconhecimento que consegui me reorientar e reorganizar meu sentido e significado como analista. Percebi-me atuante no setting tanto quanto o meu paciente, e penso que até mais, já que entre ele e eu havia uma busca de minha parte por entender o que seriam estas supostas presenças psíquicas (as que li no livro acima citado), imersa em um processo de idealização a partir de uma breve leitura sobre o assunto. Ao perceber isso tudo, consegui ter alguns insights sobre minha atuação, pois compreender isto foi forte para mim, mas profundamente libertador pois aprendi a estudar – ou seja, ler, entender e seguir a diante e não ficar presa em especulações. Para esta postura de receber meu paciente com o desejo de entender aquilo que estudei anteriormente – aprendi que tem um nome – Contratransferência. Depois de meu revisor da primeira versão desse trabalho ter me mostrado o real significado do que estava acontecendo comigo, e do que isto poderia resultar das sessões realizadas, senti vontade de começar tudo novamente, só que desta vez não era mais a partir de uma ideia que me encantou e que me gerou desejos e suposições, mas de um fato clínico gerado por mim, enquanto analista. Senti a necessidade de estudar para entender e transformar minha postura enquanto analista. Passei a refletir qual o sentido e o propósito do encontro analítico. “O que é um encontro analítico? Uma relação que produz um impacto emocional mútuo – troca de informações – tanto no âmbito verbal como não verbal.” (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 30) Ao reconhecer que um encontro analítico é uma relação que produz impacto emocional mútuo – refleti, qual o impacto emocional que eu proporcionava ao meu paciente se na realidade estava utilizando aquele setting para testar minhas suposições? Neste momento refleti sobre o que eu estava de fato gerando em meu paciente? Foi quando me deparei com a contratransferência – “O que é Contratransferência? Uma escuta por meio dos sentimentos do analista, o que o paciente diz e o que o paciente não diz, por ignorá-lo no nível do Cs. Uma teoria de dupla, de vínculo dos fenômenos que ocorrem no par analítico e não apenas no paciente”. (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 30)No encontro analítico existe um par, existe uma interação e é a partir desta, que surge o vínculo que une os dois. Reconheço-me procurando por presenças psíquicas, querendo ter a experiência de estar diante do sonhador e ao mesmo tempo completamente alheia a interação que se construía entre eu, analista e o meu paciente, interação esta que só se dá a partir do momento presente do setting. Na realidade este desejo de entender pode ser denominado de ... “Contratransferência Indireta – transferência do analista em relação a totalidade dos objetos, que de modo indireto, são transferidos para o paciente”. (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 30)  Compreendo hoje, que o que influenciou meu sentimento para que tal fato ocorresse foi minha excessiva onipotência, na medida em que o cenário em mim, já estava todo montado cabendo ao meu paciente apenas concretizá-lo.  Nesta hora em que estou escrevendo isto eu penso, onde estava minha neutralidade? Na medida em que eu estava completamente imersa em uma fantasia de entendimento e experimentação de algo que apenas estudei e me encantei ao ler? Fica aqui uma reflexão...  A contratransferência como comunicação: O outro item também em relação à contratransferência que pretendo tratar é sobre as sensações que sinto durante o setting, tais como o sono, o peso, o cansaço e o bocejo. Em determinados momentos do encontro terapêutico, minha luta passa a ser comigo mesmo e com as sensações que passam a fazer parte do momento terapêutico e da resistência que tenho de fazer para preservar o ritmo da sessão. Em uma destas ocasiões meu paciente falava de seu sentimento de não dar conta de seus compromissos, um sentimento de incapacidade e inadequação, como se tudo o que fizesse fosse insuficiente e insatisfatório, e começou a me descrever que situações seriam estas e sua sensação de incapacidade em lidar com elas, à medida que descrevia cada uma destas situações, fui sentindo um peso, uma sonolência que sinceramente me era difícil permanecer alerta e concentrada no que ele falava. Sentia realmente o peso da inércia e da inadequação. E a luta titânica para me manter alerta era algo descomunal. Compreender que este estado de sensações e sentimentos é na realidade um aspecto emocional do meu paciente que passo a sentir visceralmente em mim, eu pude realmente compreender o que se passava com ele. “Não só o psicanalista, mas também o psiquiatra contemporâneo, não podem ignorar a importância da utilização e da consulta aos próprios sentimentos em relação ao paciente. Alguns aspectos do paciente só poderão ser compreendidos a partir da consulta dos sentimentos mobilizados no psiquiatra... Inconscientemente este medo é captado e sentido como um mal estar no psiquiatra, que o compreenderá não como um sentimento apenas seu, mas como algo construído pela interação de ambos para expressar uma emoção inconsciente do paciente.” (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 49) Mais uma vez volto a reconhecer a importância da interação que existe entre o analista e analisando, e que esta interação funciona como um cálice a ser construído durante o setting, o qual será o receptáculo para as projeções de nosso paciente, e que poderemos aprofundar nosso entendimento sobre como se sente nosso paciente, sentindo sua ação sobre nós. "[...] Ainda dentro desta concepção, sobre pressões que os pacientes exercem sobre o analista para que este assuma determinado papel, Betty Joseph (1986, 1989), entre os kleinianos, também trouxe importantes contribuições ao descrever a "transferência situação total" Jacó Zaslavsky". Porto Alegre (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 36) "Muito da nossa compreensão da transferência surge por intermédio da nossa compreensão de como os pacientes agem sobre nós, para que sintamos coisas pelos mais variados motivos (...) como atuam inconscientemente conosco na transferência, tentando fazer com que atuemos como eles. (...) se trabalhamos apenas a parte com a parte verbalizadas, nós não levamos realmente em conta as relações objetais que estão sendo atuadas na transferência (...) só podemos apreender através dos sentimentos provocados em nós, através da nossa contratransferência, usada no sentido amplo da palavra". [Joseph, 1885. P.164] citado por (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 49) É neste espaço, neste vínculo que surge a partir desta interação, analista e paciente que deverá fluir nossa atenção, de forma plena e flutuante onde nosso sentir e nossa intuição deverão estar presentes.Será a partir desta interação que se originará todo o material terapêutico sentido, bem como, verbalizado e experimentado visceralmente pelo analista e atuado pelo paciente através da transferência e só, após este processo, por meio da interpretação do que está se passando entre os dois, analista e paciente se tornarão conscientes. Assim passando de uma comunicação pré-verbal, inconsciente e primitiva e que na maioria das vezes influencia muito a maneira de estar com os outros, e consequentemente, com o analista, para uma comunicação verbal – onde ao tornar-se consciente – pensar – o analista que a sentiu poderá interpretar para o paciente o que está se passando entre os dois.  Stern (2000), baseando-se em observações e estudos da interação mãe-bebê, afirma que nas psicoterapias dinâmicas são construídos e organizados dois tipos de conhecimento de representações e de memórias: o explicito(consciente e simbólico) e o procedural(Inconsciente, não simbólico e não verbal)denominado de conhecimento relacional implícito [...] este é a base da relação mãe-bebê [...] diz Stern que continua ao longo da vida, inclusive muitas das maneiras de estar com o terapeuta, que chamamos de transferência. (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 48–49) Confesso que naquele momento terapêutico, em que eu, analista sentia sonolência, vontade de bocejar, cansaço, estava muito mais resistindo àquelas sensações, numa luta feroz em me manter alerta, do que propriamente decifrando tais sensações como reflexas de uma comunicação não verbal de cunho afetivo. E que na verdade resistir faz parte do processo, pois mostra na prática ao paciente como proceder, ou seja, que você não se poes de joelhos frente a essas sensações e se mantém de pé. Isso é uma verdadeira comunicação. Desta forma, tornava-me um receptáculo maciço das identificações projetivas de meu paciente ao mesmo tempo em que ao agir com resistência a estas sensações e sentimentos. Passo a reconhecer que podemos no permitir sentir estas sensações e sentimentos, e o que realmente importa é o destino que damos a elas, até porque não podemos escolher nada sobre isto – o paciente o faz e pronto.Esta é uma realidade intrínseca ao encontro analítico. Possuímos duas alternativas: ou podemos resistir a estas comunicações não verbais (evacuando-as por exemplo), ou compreender através delas o que realmente se passa com o nosso paciente em sua realidade emocional e através desta compreensão, passar interpretar sua forma de se relacionar conosco, naquele momento, naquele setting. Compreendi que tampouco devo me preocupar com a forma de como o meu paciente vai receber minhas interpretações, se ele se sentirá confortável, se rejeitará o que tenho a dizer, se será produtivo ao seu bem estar,“Todo aquele que esteja acostumado a lembrar do que os pacientes falam e a ficar querendo e seu bem-estar, terá dificuldade de avaliar o dano infligido à intuição analítica, inseparável de toda e qualquer desejo” (BION, 2006, p. 45) Que devo priorizar é o meu senso de verdade, o meu intuir analítico sobre o que está acontecendo aqui e agora no setting. Até porque independentemente do que for dito, ou da forma como for dito pelo analista, haverá o jeito próprio e determinante de meu paciente receber minhas interpretações, suas fantasias...“São novas edições ou fac-símiles dos impulsos e das fantasias que são despertados e tornados consciente durante o andamento da análise. (...) Em outras palavras, toda uma série de experiências psicológicas é revivida, não como algo que pertence ao passado, mas que se aplica ao médico no presente momento”. (KLEIN, 1991, p. 71) Ou seja, reconhecer que para cada interpretação que é fornecida ao meu paciente, ele poderá reagir de forma automática ou de forma repetitiva e impulsiva (entre outras), em acordo com suas velhas e primitivas formas de atuar. Estamos sempre tecendo e reconhecendo a qualidade e o nível das relações de objeto de nosso paciente, que são o centro de sua vida emocional, que será estabelecido no vínculo terapêutico. Ele (nosso paciente) estará revivendo seus vínculos anteriores, revi vencias estas que sentiremos através das sensações e dos sentimentos despertos em nós, analistas, para que assim possamos compreender a natureza destes sentimentos e de que forma estes determinam o seu agir em sua realidade cotidiana, que com certeza é a mesma no setting.  Conclusão: Através deste estudo refleti sobre a importância e do impacto de nossas motivações, enquanto analistas e sobre o efeito destas na qualidade do vínculo que construímos com o nosso paciente durante o setting.  Reconheço que existe um espaço terapêutico, um vínculo que construo junto com meu paciente a cada sessão analítica, e que este vínculo se renova em cada sessão. Também reflito sobre a importância e o impacto de nossas motivações inconscientes, enquanto analistas e o quanto estas motivações determinam a qualidade e da relação analítica.Percebo que meus desejos e memórias, enquanto analista podem vir a inibir a formação ou a qualidade deste vínculo que é tão essencial para que exista um encontro terapêutico centrado no aqui e agora. Para que o sentir e o intuir analítico possam respirar. Aprendi que aquilo que meu paciente verbaliza vem acompanhado de um discurso emocional o qual se traduz em minha dimensão visceral, através de sentimentos e sensações e que estas estão profundamente alinhadas com o que está acontecendo no setting e que serviram de base, na medida em que eu, analista passar a reconhecê-las como fonte de informação e não apenas resistir a elas. Informações estas que poderão servir como referências para as minhas interpretações. Passei a considerar que ficar almejando o bem-estar de meu paciente, de procurar ficar lembrando o que o meu paciente falou é permanecer presa em minha memória e meus desejos – fato este que poderá causar danos à minha intuição analítica. E principalmente compreendi que quando estudo um assunto específico e por este assunto sinto-me encantada e cativada, o máximo que posso fazer com isto é entender este e depois esquecer, soltar. Para que o meu intuir possa fluir livre de qualquer tipo de informação, mesmo a que mais me encantou. Que apenas o aqui e agora possam ser direcionar o meu movimento analítico. Proponho com este estudo e reflexão que este assunto não se encerre, mas que possa expandir-se, tal como um vértice que se abre onde possamos circular em compreensão de nossas possibilidades como analistas.   Bibliografia: BION, W. R. Atenção e interpretação. Tradução P. C Sandler. Rio de Janeiro: Imago, 2006.GROTSTEIN, J. S. Quem é o sonhador que sonha o sonho: um estudo de presenças psíquicas. Rio de Janeiro: Imago, 2003. KLEIN, M. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991.ZASLAVSKY, J.; SANTOS, M. J. P. DOS. Contratransferência teoria e prática clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006.
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Paraíba masculina, mulher macho...

Por Ale Esclapes -  É comum nos consultórios hoje em dia um perfil de mulheres bem sucedidas, com filhos, separadas, que trazem como sofrimento não poderem acompanhar o crescimento dos seus filhos, sentindo-se profundamente culpadas. Outro perfil é o da mulher com mais de trinta e cinco anos, com o relógio biológico dizendo “ou agora ou nunca” (no que tange a ter ou não um filho) e que não sabem como sair dessa boca de sino. Em comum temos o resultado de um movimento de emancipação da mulher que se iniciou no século passado, passou por diversos movimentos, e hoje desemboca no século vinte e um.  De uma forma muito generalizada (com os riscos de toda a generalização) o que se conseguiu foi um melhor acesso a mulher ao “falo”, que até então era um pertence mais do homem. Observe-se aqui que não estou falando de masculino e feminino, mas de homens, mulheres e “falo”. O que se buscou foi que homens e mulheres deveriam ter o mesmo direito ao “falo”. O que não contaram as mulheres é o preço que homens pagaram para ter o dito cujo do “falo”. Será que se imagina que homens nunca sofreram por não verem seus filhos crescerem enquanto trabalhavam o dia todo? Ou por sempre terem que ser “produtivos”, e “o provedor da casa”? Alguns vão dizer que homens estão acostumados e que os “pais” não são tão apegados aos seus filhos. Mentira – o que se desenvolve é uma pele grossa de onipotência para dar conta de tamanho fardo. São estratégias que precisaram ser cuidadosamente formuladas ao longo dos séculos para se manterem em pé. Alguns anunciam o fim do falo como organizador, quando este nunca esteve tão presente. O que talvez as mulheres não soubessem é que não existe lanche de graça e nem um mundo perfeito. O “falo” pode ser tentador, mas tem o seu preço psíquico, que é alto. Talvez você esteja se perguntando – mas afinal o que é esse tal de “falo”? É acreditar que ser o provedor, ter poder ou mando, ser o centro, ter um carrão, uma carreira, ou essas coisas que sempre foram ligadas ao homem branco, heterossexual e ocidental há uns cem anos atrás vão levar alguém a plenitude e a felicidade. Essa ilusão como qualquer droga cobra um preço alto, e o mais triste nisso tudo é que homens e mulheres estão desesperados a procura dele.
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Pulsão, o Eu e o Objeto

Por Sérgio Rossoni -  "Pulsão – Processo dinâmico que consiste numa pressão ou força (carga energética) que faz o indivíduo tender para um objetivo".Laplanche e Pontalis – Vocabulário de Psicanálise – pg. 394.A partir do conceito de pulsão, Freud definiu como Pulsão de vida esta carga energética que visa conduzir o ser para seu estado de plenitude. A pulsão de vida aponta para o “outro”; Nela podemos incluir o amor, o sexo, etc. O ser humano tende a retornar para essa plenitude “uterina”, vivendo ilusoriamente na busca desse prazer inalcançável. No início, o bebê acha que sua mãe pode fazê-lo alcançar essa plenitude. Posteriormente, percebe que essa meta é impossível. Passa então a crer que sua mãe possui algo que possibilitará seu retorno para esse estado (falo). Porém, o retorno para este estádio é impossível. Lacan o denominou de “falta”, Winnicott de “estado transicional”, e Freud de “miséria do mundo”. Contrapondo-se às pulsões de vida estão às pulsões de morte, que fazem o movimento contrário da pulsão de vida, arrancando o bebê da “falta” e lançando-o novamente para uma dura realidade, que será negada para que novamente possa ser implantada uma condição ilusória de perfeição. Ao nascer, além da perda da sensação de plenitude, o bebê passa a sofrer demandas impostas pela realidade: fome, sede, etc. A fome é saciada quando o bebê recebe da mãe o leite. Nesse momento, o “receber o leite” torna-se uma experiência de satisfação, sendo seu oposto uma experiência de não satisfação, composta pela privação, frustração e pela falta, sendo esta última sem solução devendo ser assimilada pelo analisando. Já a satisfação apresenta dois momentos: A necessidade (considerada mau), e a Completude (considerada bom). Voltar para a plenitude e perfeição é impossível. Perder essa ilusão é um luto narcísico. No entanto, o objeto bom vai apontar em direção a esse objetivo, dando-lhe esperança. Logo, o objeto bom é a memória do meu narcisismo. Do ponto de vista social, esse objeto bom é mal. Ele mantém o ser em sua estrutura narcisista. Quanto ao objeto mau, é ele quem na verdade vai apontar o outro, arrancando o ser da falsa sensação de plenitude e lançando-o para a realidade. Assim, ainda do ponto de vista social, objeto mau equivale ao bem. As frustrações necessárias são imprescindíveis para o avanço do bebê e uma maior adaptação junto à realidade. Um fator importante a ser analisado é: o quanto o bebê suporto suas frustrações!  Se a criança não suportar nada, ela nega e fica no delírio (universo perfeito), catatônico; autista. Já no caso em que a criança suporta o mínimo necessário, então começa a apresentação de frustrações maiores (reino de frustrações e falta). Nesse sentido, se faz importante a mãe suficientemente boa (Winnicott) para ajudar a criança a equilibrar a realidade fazendo-a perceber e se adaptar a essa realidade para o resto da vida. A necessidade está a serviço da pulsão de vida enquanto a completude está a serviço da pulsão de morte. Ao nascer, o bebê sente que tudo a sua volta é uma extensão dele próprio. Não existe uma linha divisória entre ele e o mundo. Não existe dentro e fora. Nesse sentido, o caminho é estabelecer uma membrana entre o “eu” e o mundo, e assim o bebê pode estabelecer e diferenciar entre dentro e fora, o “eu” e o “não-eu”. “Desenvolve-se a possibilidade de um sentimento de responsabilidade pela experiência instintiva e pelos conteúdos do EU, e um sentimento de independência em relação ao que está fora. Surge um sentido para o termo "relacionamento", indicando algo que ocorre entre pessoas, o EU e os objetos. A consequência é o reconhecimento de que há algo equivalente ao EU na mãe, o que impli­ca em senti-la como uma pessoa; o seio, então, é visto como parte de uma pessoa”. WINNICOTT, D. W.  -  parte III - Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990. Existe um ego (aparelho minimamente formado para me levar até o outro). Isso está ligado aos instintos. O ser nasce com uma noção de alguns elementos básicos para se virar no mundo real. Ele já nasce com algo que aponta o outro. Todo ser tem uma ideia inata de que existe o outro. Freud definiu como “redescoberta do objeto”. Ego é uma instância psíquica. Nasce do biológico. É corporal. No início, o ego é desfragmentado. O bebê não sabe que sua mão é dele, assim como seu pé, etc. Ele tem ideia de um outro. São as experiências de satisfação as responsáveis pela integração do ego. “À medida que o self se constrói e o indivíduo se torna capaz de in­corporar e reter lembranças do cuidado ambiental, e portanto de cuidar de si mesmo, a integração se transforma num estado cada vez mais con­fiável’. - WINNICOTT, D. W. – parte IV - Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990. No entanto, o ego corre o risco de não se integrar quando o sofrimento é sentido como um sentimento maior que o da satisfação (ansiedade psicótica). Não integrar significa pulsão de morte. Logo, a função do ego é a de fugir da pulsão de morte. Para Winnicott, a tendência a integração é inata no ser. “Não há dúvida de que existe uma tendência biológica em di­reção à integração”. WINNICOTT, D. W. – parte IV - Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990. Logo, o ser mais integrado passa a ter um novo medo: o da desintegração.  A integração provoca um sentimento de sanidade, enquanto a perda da integração que havia sido adquirida produz uma sensação de enlouquecimento. A desintegração é um processo de defesa ativa, e cor­responde a uma defesa tanto contra a integração quanto contra a não ­integração. A desintegração se dá ao longo das linhas de cisão estabe­lecidas pela organização do mundo interno, através do controle dos objetos e das forças que nele atuam. WINNICOTT, D. W. – parte IV - Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990. O medo da desintegração é um medo esquizoide. Mesmo o esquizoide já passou por um período de integração.  Podemos entender integração como uma sensação de unidade. O esquizoide tem essa unidade, e luta para não perdê-la. Ele vai ganhando experiência de unidade, avançando até chegar na posição depressiva. A base do psiquismo é a Phantasia (elaboração imaginativa da função corporal). Se o ser não possui sensação de unidade, ele não pode ter phantasia – isso porque as funções corporais não foram postas sobre o domínio do ego. Logo, vira um terror sem nome. Não existe um símbolo para apontar isso, mas somente a percepção do medo. Medo do vazio. O medo de desintegrar pode ser entendido como o medo de cair no terror sem nome. Esse terror sem nome é psicótico. Pode-se entender como psicótico tudo aquilo que antecede a triangulação (eu-mãe-outro). Na medida em que vai ocorrendo a integração, o “outro” vai surgindo. Assim, mais uma batalha se inicia entre as pulsões de vida e morte. Enquanto a pulsão de vida aponta para o “outro”, a pulsão de morte vai apontar para o próprio ser (narcísico). A pulsão de vida vai se manifestar através da satisfação, da ilusão da onipotência, e vai se tornar um objeto na phantasia – objeto bom. Começam as relações objetais pelas phantasias. As experiências de satisfação tornam-se objetos bons, enquanto a falta, a frustração e a privação tornam-se objetos maus. O ego não quer se desintegrar – as experiências de satisfação formam o núcleo do ego (objeto bom), mas se esse núcleo for muito grande, torna-se muito narcisista. É necessário um equilíbrio entre as duas pulsões. Na medida que os objetos parciais vão se integrando, o ego vai sendo desintegrado (vice-versa). As experiências de satisfação são sentidas pelo ego, que passa então a promover a integração na phantasia, que passa a integrar o aparelho psíquico. Entre a função corporal e a phantasia existe algo mais. O processo emocional caminha com o deslocamento do real. Representação de coisas filogeneticamente definida – seio. Essa representação de coisas será percebida de acordo com as experiências de satisfação que dela prover. “As experiências recorrentes de gratificação e frustração são poderosos estímulos para os impulsos libidinais e destrutivos, para o amor e o ódio”; KLEIN, M. Algumas conclusões teóricas sobre a vida do bebe 1952. In Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991. O resultado dessas experiências de agressão e frustração, bem como de gratificação e amor é a criação para o bebê de um seio bom que alimenta e dá prazer, e um seio mau que é perseguidor e fonte de frustração.Este modelo de seio bom e mau como objetos separados e diferentes, é resultado da falta de integração do ego, da cisão dentro dele. A cisão é um mecanismo de defesa tipicamente psicótico, e atua na representação de coisas. A criança está diante do outro –só que isto implica em matar o narcisismo. Para evitar a morte do narcisismo, ela lança mão da cisão. A realidade é negada (ela é insuportável; dura), e assim, na cisão tudo é dividido entre bom e mau. O seio bom torna-se o objeto ideal. O bebê o conserva. Esse objeto bom o protege contra o objeto mau, perseguidor, destruidor.  O bebê ataca o seio mau desejando destruí-lo. Seus ataques sádico orais bem como ataques com urinas venenosas e fezes explosivas. São dirigidos para o seio mau. No entanto, o bebê acredita que o seio mau introjetado também têm toda essa voracidade destrutiva, e deseja igualmente destruí-lo. Ter um objeto mau para destruir significa um alívio para a ansiedade do terror sem nome. Neste estádio, o bebê pode ter nomeado seu inimigo. A paranoia é um estágio acima da esquizofrenia. Se a ansiedade não for nomeada, o ser trava. O bebê fica próximo ao terror sem nome (Bion). Esse bebê tende na phantasia destruir o objeto mau e conservar o objeto bom. Significa que o objeto mau vai também destruir o ser (retaliação). “Mas esse medo é contrabalançado pela relação do bebê com seio bom além de outros aspectos da mãe (seu amor, seu sorriso, carinho, etc); São esses elementos que vão diminuir a ansiedade do bebê diante do medo de ser aniquilado pelo seio mau, e o sentimento de perda do nirvana ao nascer. Estes fatores positivos aumentam a confiança no objeto bom”. KLEIN, M.  Algumas conclusões teóricas sobre a vida do bebe 1952. In Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991. Pg 89. Assim, esse objeto mau precisa ser projetado para fora. Acontece então o que Melanie Klein denominou de identificação projetiva. Quando isso ocorre, significa que o bebê atingiu um certo conceito de unidade. Quando o objeto é projetado para o exterior, um pedaço do ego vai junto, começando então a esfacelar-se. O impulso de projetar aquilo que é mau é incrementado pelo medo de perseguidores internos. Quando essa projeção é dominada por esses medos, o objeto que recebe a projeção do self mau, torna-se o perseguidor. A reintrojeção desse objeto externo reforça o medo de perseguidores. Na projeção, as partes boas e más são projetadas e introduzidas no objeto externo; Logo, quando o bebê reintrojeta, ele traz para ele as partes boas e más. Essa reintrojeção das partes boas e do self bom diminui a ansiedade persecutória. O teste de realidade então corresponderia a uma salvação, confirmando ou não se tratar de uma mãe perseguidora ou suficientemente boa. Neste período, para a criança obter satisfação, ele também destrói o seio, mas a mãe não confirma essa destruição. Logo para o bebê, sua satisfação não destrói o outro. Nesse momento a phantasia cede à realidade. Se todo processo correr bem, se as experiências de satisfação forem confirmadas, os objetos bons vão se solidificando nas phantasias. Objeto bom e mau vão se integrando. O objeto que era “eu” vai tornar-se aos poucos “não-eu”, e mais uma vez essa integração vai sofrer um impedimento. Surge uma nova batalha entre as pulsões de vida e morte. O objeto resultante dessa integração é apontado como o outro, logo é preciso destruí-lo. O Objeto bom poupado anteriormente passa a não ser mais poupado. Quando o objeto se presentifica, surge a inveja. “Definição de Melanie Klein para inveja - A inveja, por sua vez, é uma relação de duas partes, na qual o sujeito inveja o objeto por alguma posse ou qualidade. A inveja surge logo que o bebê se dá conta do seio como fonte de vida e de experiência boa; a gratificação real que ele experimenta no seio, reforçada pela idealização - tão poderosa na tenra infância -, faz com que sinta que o seio é a fonte de todos os confortos, físicos e mentais, reservatório inesgotável de alimento e calor, amor, compreensão e sabedoria. A bem­ aventurada experiência de satisfação que esse maravilhoso obje­to pode dar, aumentará seu amor e seu desejo de possuí-la, pre­servá-la e protegê-la; a mesma experiência, porém, também des­perta no bebê o desejo de ele próprio ser a fonte de tal perfeição; ele experimenta penosos sentimentos de inveja, os quais acarre­tam o desejo de danificar as qualidades do objeto que lhe pode dar esses sentimentos penosos”.  – Hanna Segal – Introdução a obra de Melanie Klein – Capitulo IV. O bebê inveja aquilo que sua mãe tem de bom e ele não. “O bebê, em sua inveja deseja danificar o seio, projetando nele suas pró­prias partes más e danificadoras”. – Hanna Segal – Introdução a obra de Melanie Klein – Capitulo IV. No entanto, o mesmo seio que desperta a inveja, é o seio que dá amor, alimento, despertando também a gratidão do bebê. Este seio ideal é introjetado e a menos que a inveja seja avassaladora, a gratidão irá superá-la. A gratidão permite ao bebê sentir-se dependente do objeto (seio), fazendo-o reconfigurar a ideia de destruição. Caso a inveja vença, o bebê cria uma estrutura narcísica. Essa estrutura vai negar as qualidades do outro e a dependência em relação a esse objeto. No narcisismo, “eu” próprio passo a ser o objeto bom. Essa estrutura narcísica esta em maior ou menor grau presente em todas as pessoas, e caminha lado a lado com a inveja. A inveja se posiciona entre o “eu” e o “outro”, impedindo assim o contato do bebê com sua mãe suficientemente boa. Na inveja, o bebê deseja destruir tudo aquilo que a mãe possui e ele não, inclusive o pênis interno. Caso todo o processo seja realizado de forma positiva, e a inveja estiver sob controle, o bebê evolui para uma maior integração dos objetos, dando inicio a posição depressiva. Na posição depressiva surge um novo problema: O bebê sente-se culpado pelos ataques e destruição feitos ao objeto amado.  O objeto bom na verdade é a minha ilusão narcísica. Ilusão essa que o bebê tem de alcançar a plenitude tão desejada, como um ser único e superior. No entanto, quando o outro começa a existir e o bebê percebe que depende desse objeto, percebe a mãe diante de si como um ser separado dele, sua ilusão narcísica necessita ceder, dando lugar a essa nova percepção – a existência desse objeto. Ao final da posição depressiva, o “outro” deixa de ser a representação do meu narcisismo e passa a ser o outro. No derradeiro momento que nasce o outro, morre o meu narcisismo. Nesse período, enquanto o objeto está se unificando em um só, a gratidão, a culpa, a dor narcísica retornam. Surge a relação bi-pessoal (eu e o outro). O bebê introjeta esse objeto e identifica-se com ele. Assim, evita perdê-lo. Na identificação, eu me torno igual ao objeto bom. Na posição depressiva ocorre uma integração maior dos objetos, consciência, capacidades intelectuais, relação com mundo externo se desenvolvem com regularidade. A relação com a mãe torna-se mais estabelecida. O bebê a percebe como objeto completo. Fortalece-se a identificação com ela. Diminui a discrepância entre o mundo interno e externo (figuras internas e externas). Surge na relação o terceiro elemento. O bebê passa a vivenciar uma relação entre o “eu”, minha mãe e o outro (pai).  Ao final da posição depressiva, o bebê deve estar identificado e podendo ter algo. A pulsão de vida é a esperança de alcançar a tão desejada plenitude. Uma doce ilusão.
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Sem memória e sem desejo

Por Alê Esclapes -  Um famoso psicanalista chamado Bion escreveu uma frase célebre que até hoje é discutida entre os psicanalistas – “O analista deve estar na sessão sem desejo e sem memória”. Eu me pergunto se todos nós não deveríamos estar no mundo “sem desejo e sem memória”. Mas antes de responder a minha própria pergunta, gostaria de analisar um pouco mais a fundo o que chamamos de memória. Desde o nascimento, ou até mesmo antes, nosso corpo é bombardeado de sensações corpóreas, como quente, frio, dor, fome, desconforto, prazer, desprazer, e assim sucessivamente. Muitos de nós entendemos a memória como fiel depositária de todas essas sensações. Quando crescemos adquirimos a fala, e através dela um novo universo se revela. A comunicação com o outro que até então era por meio do corpo a corpo, pode ser mediada por algo que não nos toca diretamente. E a partir daí está também criado um mundo psíquico onde as palavras, juntamente com imagens e sensações, vão formando nossa memória. O tempo passa e nossas experiências com nossos pais, mães, irmãos, amigos, professores, além de ir formando um conjunto de experiências vão definindo quem somos nós. Uma bela pergunta nessa hora seria “qual a sua face antes de seus pais nascerem?”. Mas não vamos nos focar hoje nessa pergunta. Tem um elemento importante que compõe a experiência da lembrança que é a “atenção”. A cada segundo, podemos prestar atenção em apenas uma coisa. Podemos fazer várias coisas ao mesmo tempo dizem alguns. Mas num segundo, ou numa fração de segundo, podemos fazer apenas uma coisa, pensar uma coisa. O pensar é a sucessão desses pensamentos ao longo do tempo. Se eles fazem ou não sentido ao pensador, também é outro ponto importante, que fica para outra hora. Quando escolhemos algo em detrimento de todas as outras, ou seja, quando nossa atenção está direcionada, nesse ínfimo segundo para algum lugar, alguma pessoa, alguma situação, ou algum outro pensamento, todas as outras possibilidades se fecham nesse instante. Essa seleção do que pensar pode ser atribuída a uma coisa chamada “desejo”. Nossa seleção é direcionada pelo “desejo”. Isso significa que quando olhamos para trás, no universo infindável de coisas que guardamos desde o nascimento em nossa memória, fazemos uma seleção. Nossa atenção vai e seleciona os fatos e dados e cria aquilo que chamamos de “lembrança”. Lembrança seria, nesse sentido, nossa atenção selecionando pela atenção e pelo desejo aquilo que nos interessa, nos faz sentido, e descarta aquilo que não nos interessa, que não nos serve. A memória, ou lembrança, seria como uma conjugação do verbo “querer” no tempo passado. Toda vez que uma pessoa fala-nos livremente do seu passado, está falando inevitavelmente de seu desejo presente. Ela fala algo muito mais do que simplesmente lembranças. Fala do que gostaria de ter sido, do que gostaria de ser, do uso que essas lembranças podem servir no presente. Mas nunca, jamais, uma lembrança, uma memória, é ingênua. Ela é sempre a presentificação do desejo. Agora podemos pensar numa frase que Nietzsche escreveu em sua “Quarta consideração extemporânea – da utilidade e inutilidade da história para a vida”. Assim como muitas vezes somos dominados pelo desejo, muitas vezes somos dominados pelas lembranças, pelo passado. Mas aqui reside uma armadilha: muitas pessoas acreditam que o passado tem vida própria, que não podem escapar de suas lembranças, quando na verdade não conseguem escapar de seus desejos. Nesse caso o amo (o Eu) se rendeu ao seu escravo (o desejo), que passa a comandá-lo. Não é mais o cachorro que abana o rabo, mas o rabo que abana o cachorro. Ou como disse Nietzsche – “O passado atormenta do homem”.
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A fobia do pequeno Hans

Por Adilton Medeiros Costa -  No histórico do pequeno Hans Freud nos mostra um caso clínico de fobia, nos proporciona uma riqueza de detalhes referentes à teoria da sexualidade infantil. Assim como deixa claro o narcisismo primário e sua evolução para a relação de objeto. Hans era um menino de quatro anos e meio vivia cheio de questionamentos sobre: os órgãos sexuais, sobre as diferenças anatômicas entre o homem e a mulher. Sobre o nascimento de bebês e envolvido por uma série de fantasias ligadas a masturbação, a escopofilia, ao Édipo e ao sentimento de castração. A vivência da sexualidade infantil despertou em Hans o temor de castração e intensa ansiedade que foi deslocada para um objeto fobigeno no mundo externo e desencadeou o desenvolvimento de uma fobia. O que Freud quis enfatizar é que o conhecimento das teorias da sexualidade infantil é imprescindível para se compreender as doenças psíquicas e que sendo elas mal orquestradas formam o complexo nuclear de uma neurose. No presente caso Hans desde os três anos investigava sobre seu órgão sexual que chamava de pipi, o de sua mãe, comparava com o tamanho do órgão sexual de animais grandes, queria ver o pipi de sua mãe, de amigas; também gostava de ser olhado fazendo pipi, e mais tarde começou a se sentir envergonhado com esse ato o que sugere que seu exibicionismo sucumbiu a uma repressão. Aos três anos e meio sua mãe ameaçou de cortar fora o seu pipi quando o viu se masturbando, esse acontecimento, mais tarde, somado aos fatos: de sua mãe não ter pipi e ao Édipo proporcionaram intenso temor de castração. O que mais marcou Hans foi o nascimento de sua irmã o que lhe gerou imensas indagações e desconfiança de seu pai ao ser informado que foi a cegonha que a trouxe, assim como ficou tomado de ciúmes pela mesma. Com o nascimento da irmã ele se viu ocupado com a origem das crianças, além de seus interesses autoeróticos e o amor edipiano. Aos quatro anos já se interessava por meninas abraçando-as e fazendo-lhes declarações de amor, mas também já demonstrava o desejo da bissexualidade infantil, gostava muito de um amigo que também abraçava falava de seu amor por ele.Ocasionalmente Hans dormia na cama com os pais, devido o seu terror noturno, fato este que facilitou a intensificação do amor edipiano pela mãe e aumentar a hostilidade para com o pai. A afeição erótica pela mãe fez com que ele desejasse que seu pai caísse e morresse como um cavalo que ele viu cair, mas ao mesmo tempo sentia culpa pela agressividade para com o pai, às vezes batia na mão dele e depois a beijava apresentando hostilidade e afeição para com o mesmo.O que aconteceu com Hans foi que a afeição erótica reprimida pela mãe se  transformou em ansiedade que foi deslocada para medo de cavalos e a hostilidade para com o pai posteriormente se transformou em medo do cavalo mordê-lo.Freud contou esse caso clínico para comprovar suas hipótese sobre a gênese e a evolução da sexualidade infantil, Aparece nesse caso o que acontece com todas as crianças umas mais cedo outras mais tarde e o que diferencia dos neuróticos é que para superar seus complexos fazem uso de substituições excessivas. Em suas teorias sobre a sexualidade Freud nos diz: a) Sobre o autoerotismo -  De início toda criança é autoerótica se satisfaz consigo mesma, o prazer é nas zonas erógenas do corpo. O de Hans era no pênis e na excreção anal. b) Sobre a bissexualidade – Toda criança está sujeita à ela e todos um dia na vida fizeram em seu inconsciente uma escolha de objeto homoerótico, pois de início a criança tanto faz ser cuidada por uma figura feminina ou masculina o prazer será mesmo, por isso Hans gostava de meninas e meninos. c) Dos instintos componentes – Hans vivenciou os instintos de exibicionismo e escopofilia que é o prazer de ser visto realizando funções excretoras e o de olhar, esses instintos são o caminho mais frequente à excitação sexual em suas formas passiva e ativa. Outro instinto componente que apareceu no caso Hans foi o agressivo, o sadismo que mais tarde foi substituído pelo instinto de compadecimento. Quando ele via um cavalo ser maltratado se penalizava, também quando batia no pai logo o beijava, mostrando a transformação do ódio em amor, a troca dos impulsos hostis pelo de afeição. d) As manifestações sexuais masturbatórias – consistem na natureza dos instintos que surgem das zonas erógenas, o de Hans era o pipi e o anal, o primeiro levou a um temor de castração e o segundo a teoria cloacal que era a fantasia que sua irmã era o simbólico de um bolo fecal (parecido com um lunf) e) As pesquisas sexuais infantis – o que leva ao instinto do saber e Hans investigava toda a sexualidade, fazia comparação, indagava a origem de sua irmã e isso o levou a desacreditar e a desconfiar que seu pai mentia quando lhe disse que sua irmã fora trazida pela cegonha, pois ele percebeu a alteração na sua mãe grávida. f) A descoberta das diferenças anatômicas – primeiro Hans negou a ausência de um pênis na mãe, pois se a mãe não tinha pênis é porque perdeu e ele também poderia perder o seu, o que intensificava a ameaça de castração, só mais tarde ele pode elaborar e aceitar essa diferença. g) O Édipo – Na infância as meninas se apaixonam pelos pais e querem se desfazer das suas rivais, as mães, e os meninos pelas mães e disputam com seus vivais, os pais, e Hans se apaixonou pela mãe e desejava inconscientemente que seu pai morresse, mas esses sentimentos aumentou o seu temor de castração o que levou a reprimir a corrente erótica para com a mãe e ao mesmo tempo a corrente hostil para com o pai. Hans deu uma saída mais saudável para o conflito edipiano quando fantasiou que ele se casaria com a mãe e teria filhos com ela e o pai se casaria com sua avó paterna. Quando ele se fazia de cavalo e mordia o pai nas brincadeiras já expressava alí uma tentativa de identificação com o mesmo. Ele abriu mão do amor edipiano, voltou-se para seu pai e se identificou com ele, fez assim a saída do Édipo e evoluiu para a escolha de objeto.No narcisismo primário Freud nos diz que de início a libido do indivíduo é investida em si mesma, é autoerótica, não necessita de objeto, acontece no momento em que a criança é narcisada, ela é o centro das atenções, tudo gira em torno dela e para ela, mas depois tem que ir para a relação de objeto para não ficar patológico, e foi o que aconteceu com Hans na medida que ele vai se voltando para as meninas parte de sua libido era investida na relação de objeto. A fobia de Hans era produto de uma deformação, um deslocamento do medo de ser castrado.Na fobia a angústia vai fazendo deslocamentos e quando encontra um objeto que tenha uma representação psíquica ele foca o medo para esse objeto, fantasiando assim que controla o medo.O medo de cavalos impunha uma restrição da liberdade, impediu de sair à rua mas obtinha com isso o lucro secundário da doença ficava mais perto da mãe. A angústia do fóbico tem a ver com a angústia de aniquilamento que para o homem equivale à perda do pênis.Todo tratamento de Hans foi realizado por seu pai, Freud o viu apenas uma vez, Hans foi um caso de tratamento psíquico bem sucedido. Crítica pessoal:A obra O Pequeno Hans com suas ideias, ainda atuais, e consistentes lança uma luz, fazendo-nos compreender melhor o psiquismo infantil para análise da patologia de crianças, para a construção de propostas pedagógicas empregadas nas escolas e também para os pais curiosos que desejam educar os seus filhos organizando melhor o aparelho psíquico dos mesmos, coerente com o que lhe é peculiar.
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O caso Dora - uma análise

Por Hélio de Lima Júnior -  Freud em seus estudos, nota-se seu interesse sobre a importância dos sonhos e uma descrição de algumas das peculiaridades do pensamento inconsciente. Há apenas vislumbres do orgânico - as zonas erógenas e a bissexualidade. Neste estudo vem enfocar o  caso de histeria: de Dora, Freud(1901- 05); pois trata-se de uma histeria com tossis nervosa e afonia, cujas origens podem ser encontradas nas características de uma chupadora de dedo; e o papel principal nos processos psíquicos em conflito é desempenhado pela oposição entre uma atração pelos homens e outra pelas mulheres. No caso de Dora, Freud (1901-05), pois é uma moça de dezoito anos, que tinha um único irmão, um ano e meio mais velho, fora o modelo que ela ambicionara seguir. Nos últimos anos, porém, as relações entre ambos se haviam tornado mais distantes. O rapaz procurava afastar-se o máximo possível das discussões da família, mas, quando se via obrigado a tomar partido, apoiava a mãe. Assim, a costumeira atração sexual aproximara pai e filha, de um lado, e mãe e filho, de outro. No caso Dora, Freud(1901-05) neste texto vem focalizar da sua análise com Freud; que inicialmente lhe contou  da amizade que ela e o seu pai tinham feito por um casal ali radicado já há muitos anos. O Sr. K. e a Sra. K.  A Sra. K. cuidara do seu pai durante sua longa enfermidade, tendo assim feito jus à sua eterna gratidão. O Sr. K. sempre fora extremamente amável com Dora, levando-a para passear, dando-lhe pequenos presentes, mas ninguém via nenhum mal nisso. Dora esclareceu o estranho comportamento do Sr. K. contando à mãe, para que esta por sua vez o transmitisse ao pai, que o Sr. K. tivera a audácia de lhe fazer uma proposta amorosa, durante uma caminhada depois de um passeio pelo lago. A experiência de Dora com o Sr. K. - suas propostas amorosas a ela e a consequente afronta a sua honra - parece fornecer, no caso da paciente, o trauma psíquico que Breuer e Freud declararam ser a condição prévia indispensável para a gênese de um estado patológico histérico. O Sr. K. combinara com Dora e com sua mulher para que, à tarde, elas fossem encontrá-lo em sua loja comercial, na praça principal para dali assistirem a um festival religioso. Mas ele induziu sua mulher a ficar em casa, despachou os empregados e estava sozinho quando a moça entrou na loja. Ao se aproximar a hora da procissão, pediu à moça que o aguardasse na porta que dava para a escada que levava ao andar superior. Em seguida voltou e, ao invés de sair pela porta aberta, estreitou subitamente a moça contra si e depois  lhe um beijo nos lábios. Era justamente a situação que, numa mocinha virgem de quatorze anos, despertaria uma nítida sensação de excitação sexual. Mas Dora sentiu naquele momento uma violenta repugnância, livrou-se do homem e passou correndo por ele. O caso da paciente Dora ainda não fica suficientemente caracterizado acentuando-se apenas a inversão do afeto; é preciso dizer, além disso, que houve aqui um deslocamento da sensação. Na paranoia, a projeção da censura em outrem sem qualquer alteração do conteúdo, e sem nenhum apoio na realidade, torna-se manifesta como processo de formação do delírio. A afonia de Dora, portanto, admitia a seguinte interpretação simbólica: quando o amado estava longe, ela renunciava à fala; esta perdia seu valor, já que não podia falar com ele.Nos relatos de Dora, ela expõe sobre o relacionamento do pai com a Sra. K. pois, que ela só amava seu pai porque ele era um homem de posses, como se expressou um homem sem recursos. Isso só poderia ser entendido num sentido sexual - que seu pai, como homem, era sem recursos, era impotente. A maneira de se obter satisfação sexual, precisamente nas partes do corpo que nela se achavam em estado de irritação - a garganta e a cavidade bucal.  Mas era irrecusável a complementação de que, com sua tosse espasmódica - que, como de hábito, tinha por estímulo uma sensação de cócega na garganta -, ela representava uma cena de satisfação sexual. Primeiro sonho de Dora: “Uma casa estava em chamas. Papai estava ao lado da minha cama e me acordou. Vesti-me rapidamente. Mamãe ainda queria salvar sua caixa de joias, mas papai disse: `Não quero que eu e meus dois filhos nos queimemos por causa da sua caixa de joias.’ Descemos a escada às pressas e, logo que me vi do lado de fora, acordei.” Segundo sonho: Narrou Dora: “Eu estava passeando por uma cidade que não conhecia, vendo ruas e praças que me eram estranhas. Cheguei então a uma casa onde eu morava, fui até meu quarto e ali encontrei uma carta de mamãe. Dizia que, como eu saíra de casa sem o conhecimento de meus pais, ela não quisera escrever-me que papai estava doente. "Agora ele morreu e, se quiser, você pode vir". Fui então para a estação e perguntei umas cem vezes: `Onde fica a estação?’ Recebia sempre a resposta: `Cinco minutos.’ Vi depois à minha frente um bosque espesso no qual penetrei, e ali fiz a pergunta a um homem que encontrei. Disse-me: `Mais duas horas e meia.’ Pediu-me que o deixasse acompanhar-me. Recusei e fui sozinha. Vi a estação à minha frente e não conseguia alcança-la. Aí me veio o sentimento habitual de angústia de quando, nos sonhos, não se consegue ir adiante. Depois, eu estava em casa; nesse meio tempo, tinha de ter viajado, mas nada sei sobre isso. Dirigi-me à portaria e perguntei ao porteiro por nossa casa. A criada abriu para mim e respondeu: `A mamãe e os outros já estão no cemitério.” (Freud, 1901 – 05). No primeiro sonho nota-se que a joia não interessa a Dora, mas o estojo. No caso da enurese, está relacionada com identificação com o irmão. A senhora K. é aquela capaz de sustentar o desejo do seu pai e também de acolher o desejo do Sr. K. E o segundo sonho ressalta que o pai simbólico e o pai morto se alcança a partir do lugar do vazio. De um lado a castração de um pai idealizado, e de outro da assunção ou não do sujeito feminino ser privado do prazer. Freud,  na questão edípica enfatiza sobre à censura da menina à sua mãe por não tê-la criado como menino. Tal como o primeiro sonho significara o afastamento do homem amado em direção ao pai, ou seja, a fuga da vida para a doença, esse segundo sonho anunciou que ela se desprenderia do pai e ficaria recuperada para a vida. Na infância há grande ocorrência de traumas, que provoca a neurose. Nota-se neste caso o registro das identificações imaginárias, que emergiu a identificação com o pai ideal. O que é ser homem o que é ser mulher? Para Dora sua identificação ao homem portador de pênis lhe serve de instrumento imaginário para apreender o que ela não chega a simbolizar, o que seria uma mulher. A histérica ama por procuração, ela é alguém cujo objeto é homossexual, ela aborda este objeto homossexual, por identificação a alguém do mesmo sexo. (Laznik, 2008). Entretanto Dora ama seu pai, ela o ama por aquilo que ele não lhe dá. A Sra. K. é objeto de preenchimento naquilo que lhe falta, pois a Sra. K encarna a função feminina. O sintoma histérico é a mascara do desejo inconsciente. A Sra. K. será o desejo de Dora, na medida em que ela é o desejo do pai, desejo este barrado. A impotência do pai permite a Sra. K. ocupar o lugar do desejo insatisfeito. Portanto, a incapacidade para o atendimento de uma demanda amorosa real é um dos traços mais essenciais da neurose; os doentes são dominados pela oposição entre a realidade e a fantasia. Aquilo que por mais intensamente anseiam em suas fantasias é justamente aquilo de que fogem quando lhes é apresentado pela realidade, e com maior gosto se entregam a suas fantasias quando já não precisam temer a realização delas.
MELANIE_KLEIN_VIDA_OBRA Blog Masonry - Results from #264

Melanie Klein - Vida e obra

Por Alê Esclapes -  Melanie Klein foi uma das maiores psicanalistas da história. Seguidora de Freud, com genialidade e amor à verdade erigiu uma escola com pensamentos próprios e distintos. Como disse uma amiga, quando Klein em 1935 insistia que era uma freudiana: "agora já é tarde - você é uma Kleiniana".  Suas teorias vieram de seus trabalhos com crianças, o que possibilitou a investigação psicanalítica dos primeiros meses de vida, abrindo as portas para o tratamento de pacientes psicóticos. Outros desenvolvimentos se seguiram à psicanálise de crianças, como o estudo dos estados maníaco depressivos, a identificação projetiva como defesa do ego, e a inveja primária na constituição da personalidade. Sua teoria das posições depressiva e esquizoparanóides são a primeira grande sistematização da teoria psicanalítica. Vida: Melanie Reizes nasceu em Viena em 30/03/1882 e morreu em Londres em 22/09/1960, aos 78 anos. A vida pessoal de Klein é repleta de perdas e decepções: seu pai se chamava Moriz Reises, nunca foi bem sucedido na vida, estampando essa melancolia em suas atitudes. Sua mãe, Libussa aparentemente era extremamente dominadora e invasiva, trabalhando em uma loja de plantas e animais exóticos para ajudar na renda familiar. Sua gravidez não havia sido desejada, tendo Klein teve um relacionamento distante com seu pai; era bastante apegada à sua mãe e a irmã Sidonie, que morre aos 8 anos de idade. Outras perdas serão sentidas na vida de Melanie Klein. Casou-se cedo aos 17 anos com o engenheiro químico Arthur Stevan Klein com quem ficou casada até 1926, com então 44 anos. Klein sofria com as constantes viagens do marido, bem como com seus problemas com depressão. Teve 03 filhos: Mellita, Hans e Erich. Mellita se mostrará sua adversária ferrenha no campo psicanalítico, e Hans morre em um acidente de alpinismo em 1934 (suspeita-se que tenha sido um suicídio). Klein morre em 1960, ironicamente, não de câncer, cuja cirurgia fora bem sucedida, mas por complicações em função de uma queda enquanto se recuperava dessa cirurgia. (Ela recusara a ajuda da enfermeira durante a noite). Obra: Em 1914 inicia sua análise com Sandór Ferenczi em Budapeste e em 1919 torna-se membro da Sociedade Psicanalítica da Hungria. Inicia sua análise com Karl Abrahan em 1924 que morre 11 meses depois. Em 1925, a pedido de Ernest Jones, muda-se para Londres, e em 1927 torna-se membro da Sociedade Britânica de Psicanálise. Klein desde 1923 apresentava divergências, ainda que veladas, em relação a alguns postulados freudianos, em especial ao desenvolvimento psíquico antes dos três anos de idade. Porém essa divergência, que inicialmente era velada, ficou explicita com a publicação de um livro de Anna Freud (Tratamento psicanalítico de crianças) onde esta acusava Klein de não fazer psicanálise. Uma série de artigos são publicados em resposta a Anna Freud, e em 1932 Klein publica seu livro “Psicanálise de Crianças”, livro que até hoje é a base para trabalhos com crianças. Mais abaixo trataremos das divergências teóricas entre ambas. Em 1935 Klein publica “Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos” que apresentava o conceito de “posição depressiva”. Mesmo D. Winnicott, um dos seus mais magistrais contestadores, admirou essa descoberta, classificando-a como a mais importante depois da descoberta do inconsciente. Ainda que Klein, até mesmo por questões políticas, insistisse em se considerar “freudiana”, a partir deste trabalho, já se pode falar em pensamento Kleiniano, tamanha as introduções de novos conceitos que este artigo trouxe. Em 1940 publica “O luto e suas relações com os estados maníacos-depressivos”, onde amplia os conceitos já introduzidos pela posição depressiva, postulando que o luto não seria mais que uma repetição das sensações dessa posição. O complexo de Édipo à luz das ansiedades arcaicas (1940) Klein introduz as ansiedades persecutórias e depressivas na dinâmica do complexo de Édipo, ampliando sua atuação no psiquismo infantil. Ao localizar o complexo de Édipo com o surgimento da posição depressiva, aos seis meses de idade, Klein dá um salto na compreensão da formação do superego infantil, bem como de eventuais distúrbios ligados ao Édipo. Com “Notas sobre alguns mecanismos esquizoides” aprofunda a compreensão das defesas do ego em relação às ansiedades persecutórias, ampliando os conceitos da posição esquizoparanóide. Ele também introduz o importante conceito de identificação projetiva como base para as relações objetais. Acréscimos importantes sobre esse tema são feitos por W. Bion. Esse trabalho e “Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos” formam os eixos principais de sua teoria. Em “Inveja e Gratidão” de 1957, seu mais controverso trabalho, Klein postula a presença do sentimento de inveja presente desde o nascimento no bebê, e analisa suas consequências para as posições esquizoparanóides e depressivas, bem como para o Complexo de Édipo. Ela também faz nesse trabalho um importante avanço em relação às resistências ao tratamento analítico. Teoria: São três os pilares fundamentais da teoria Kleiniana - Primeiramente existe um mundo interno, formado a partir das percepções do mundo externo, colorido com as ansiedades do mundo interno. Com isso os objetos, pessoas e situações adquirem um colorido todo especial. O seio materno, primeiro objeto de relação da criança com o mundo externo, tanto é percebido como bom quando amamenta, daí o nome de “seio bom” a esse objeto no mundo interno, quanto é percebido como “seio mau”, quando não alimenta na hora em que a criança assim deseja. Como é impossível satisfazer a todos os desejos da criança, invariavelmente ela possui os dois registros desse seio, um bom e um mau. Esse conceito também é muito importante no estudo da formação de símbolos e desenvolvimento intelectual. Em segundo lugar os bebês sentem, logo quando nascem, dois sentimentos básicos: amor e ódio. É como se a vida fosse um filme em branco e preto, ou se ama, ou se odeia. É fácil, portanto, perceber que a criança ama o “seio bom” e odeia o “seio mau”. O problema é que na fantasia da criança, o “seio mau”, esse objeto interno, vai se vingar dela pelo ódio e destrutividade direcionados a ele. Esse medo de vingança é chamado de ansiedade persecutória. Quando nos defrontamos diante de um perigo, como por exemplo, quando caminhando em um parque nos defrontamos diante de uma cobra, temos o instinto de fugir. Essa reação diante do perigo é chamada em psicanálise de defesa. O conjunto de ansiedade persecutória e suas respectivas defesas são chamados por Klein de “posição esquizoparanóide”. Com o desenvolvimento o bebê percebe que o mesmo objeto que odeia (seio mau) é o mesmo que ama (seio bom). Ele percebe que ambos os registros fazem parte de uma mesma pessoa. Agora o bebê teme perder o seio bom, pois teme que seus ataques de ódio e voracidade o tenham danificado ou morto. Esse temor da perda do objeto bom é chamado por Klein de “ansiedade depressiva”. O conjunto de ansiedade depressiva e suas respectivas defesas são chamados por Klein de “posição depressiva”. O conceito de posições é muito importante na escola kleiniana, pois o psiquismo funciona a partir delas, e todos os demais desenvolvimentos são invariavelmente baseados em seu funcionamento. Nesse sentido, o desenvolvimento em fases, proposto por Freud (fase oral, anal e genital), é aqui substituído por um elemento mais dinâmico que estático, pois as três fases estão presentes no bebê desde os três primeiros meses de vida. Klein não nega essa divisão, muito pelo contrário, mas dá a elas uma dinâmica até então ainda não vista em psicanálise. Alias, é essa palavra que distingue o pensamento kleiniano do freudiano. Para Klein, o psiquismo tem um funcionamento dinâmico entre as posições esquizoparanóide e depressiva, que se inicia como o nascimento e termina com a morte. Todos os problemas emocionais, como neuroses, esquizofrenias e depressão são analisados a partir dessas duas posições. Por isso, em uma análise kleiniana, não basta trabalhar os conteúdos reprimidos, é preciso “equacionar” as ansiedades depressivas e persecutórias. É necessário que o paciente perceba que o mundo não funciona em preto e branco, e que é possível amar e odiar o mesmo objeto, sem medo de destruí-lo. Em outras palavras, não adianta trabalhar o sintoma (neurose) se não trabalhar os processos que levaram seus surgimentos (ansiedades persecutória e depressiva). Análise infantil e a controvérsia Melanie Klein e Anna Freud:Klein conseguiu desenvolver estudos sobre as ansiedades arcaicas porque dedicou quase toda a sua vida à análise de crianças. Seu primeiro paciente foi seu próprio filho, Hans, que apresentava sérios distúrbios de aprendizagem. Aos poucos Klein foi percebendo estruturas psíquicas que estavam fora do esquema freudiano, e, a partir da investigação dessas estruturas chamadas “arcaicas”, foi possível o desenvolvimento de suas teorias. Alguns paradigmas precisaram ser quebrados para que isso fosse possível e isso lhe rendeu uma série de inimizades. O primeiro e principal paradigma para a época era a questão da possibilidade da análise infantil. Para Freud era impossível a análise de crianças muito pequenas, pois as mesmas não possuíam uma estrutura de linguagem suficientemente desenvolvida para a elaboração e livre verbalização de ideias. Sua maior opositora nesse campo foi Anna Freud, que na época também trabalhava com crianças. Robert Young descreve essa relação da seguinte forma “Onde Anna Freud disse que crianças muito pequenas não podiam realizar livre associação, Klein viu um rico mundo de fantasias refletidas no brincar. Onde Anna Freud viu a si mesma como uma professora com suas obrigações educadoras, Klein foi mais fundo, interpretando ansiedades sobre seios e outras partes do corpo, sobre ódio, sofrimento, luto e inveja que chocaram os não-kleinianos.” Em 1939, com o advento do nazismo, a família Freud se muda para Londres, e um antagonismo que já existia entre Klein e Anna Freud, em função da convivência entre as duas na mesma sociedade psicanalítica, causa um racha na Sociedade Britânica de Psicanálise. Uma série de reuniões e artigos são publicados entre 1940 e 1944, chamados Controvérsia Freud Klein, para se tentar chegar a um acordo, porém, até a presente data esse racha persiste na sociedade Britânica. Desenvolvimentos Posteriores:Mesmo quando Klein era viva, o movimento Kleiniano foi, dizendo do ponto de vista psicanalítico, ambivalente. Ao mesmo tempo em que Klein evitava um confronto direto com Freud, a partir de 1935 era impossível manter essa posição. Certo radicalismo se instaurou na Sociedade Psicanalítica Britânica, que praticamente foi dividida em três partes: os freudianos, os kleinianos e os neutros. É importante aqui frisar que essa divisão, apesar de meramente técnica, também tinha aspectos políticos, que devem ser levados em consideração quando se estuda psicanálise. Não se pode dizer que outros psicanalistas não tenham contribuições importantes, somente porque não rezam essa ou aquela cartilha. Ciência não se faz dessa maneira, e se assim o fosse, o ego do psicanalista estaria acima das necessidades dos pacientes. A verdade deve ser um dos princípios que norteiam o movimento psicanalítico, acima de tudo. Entre os neutros estava Dr. D. Winnicott, um importante psicanalista, que também trabalhou com crianças. As maiores contribuições de Winnicott para a psicanálise foram sobre o “ambiente e os processos de maturação”, ou seja, a figura da mãe como responsável pelo desenvolvimento da criança. Klein estava tão absorta no mundo de fantasias da criança que não se aprofundou na relação mãe – bebe. Coube a Winnicott esse desenvolvimento. Outros pontos também são importantes, como por exemplo, os objetos transicionais, falso self, etc. Apesar de suas discordâncias, e de alguns autores atribuírem uma rivalidade teórica maior do que realmente existiu, Winnicott é de extrema importância em um trabalho psicanalítico sério, e suas contribuições para a psicanálise são de extremo valor.
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Interpretação e transferência

Por Sérgio Rossoni -  O principal instrumento do psicanalista é a interpretação com base teórica de referência existencial inconsciente. “No tratamento, comunicação feita ao sujeito, visando-lhe dar acesso a esse sentido latente, segundo as regras determinadas pela direção e evolução do tratamento”(Laplanche e Pontalis – Interpretação – página 245 – Dicionário da Psicanálise – 4º ed. - São Paulo – Martins Fontes). Espera-se através da interpretação do analista que o paciente obtenha “insights” que promovam uma nova posição diante de situações passadas, revividas na atualidade através do processo transferencial. Além da interpretação, outras ferramentas utilizadas pelo psicanalista visando promover elaborações/insights no paciente são o apoio, a sugestão, e o manejo. Etchengoyen destaca três dos instrumentos mais importantes utilizados na Psicoterapia: Informação, o esclarecimento e a interpretação. Informação = algo desconhecido pelo paciente. Exemplo: “fumar faz mal a saúde”. Interpretar = dar informação ao paciente sobre sua transferência, e espera-se que através da interpretação o analisando tenha um insight.   Esclarecimento = informação técnica; não é transferência do paciente. Tão importante quanto informar, interpretar e esclarecer é a Pontuação: quando o analista deseja chamar a atenção do paciente para um foco que ele (paciente) não esta vendo. Saber pontuar é ensinar o ego a interpretar. Informar, pontuar e esclarecer é mais uma questão dinâmica do que técnica. Para Melanie Klein a transferência opera ao longo de toda vida. “Na medida em que ela começa a abrir caminho dentro do inconsciente do paciente, seu passado vai sendo gradualmente revivido. Desse modo, sua premência em transferir suas primitivas experiências, relações de objeto e emoções é reforçada, e elas passam a localizar-se no psicanalista. Disso decorre que o paciente lida com os conflitos e ansie­dades que foram reativados, recorrendo aos mesmos mecanismos e mes­mas defesas, como em situações anteriores”. (KLEIN, M. As Origens da Transferência. Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991). Klein nos explica detalhadamente os processos de projeção/introjeção, que iniciam as primeiras relações de objeto (mãe/seio), originando as posições esquizoparanóide e posteriormente a posição depressiva, objetos bons e maus, amor e ódio, nos dando uma visão clara sobre a transferência: “A transferência origina-se dos mesmos processos que, nos estágios iniciais, determinam as relações de objeto. Desta forma, na análise temos que voltar repetidamente às flutuações entre objetos amados e odiados, externos e internos, que dominam desde o começo da infância”. (KLEIN, M. As Origens da Transferência. página 76 - Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991). É através da transferência negativa que se pode mergulhar profundamente nas camadas inconscientes da mente. Ambas as transferências (positivas e negativas) encontram-se interligadas. “Na transferência o papel do analista pode ser de objeto bom, objeto mau, ambos os pais, bondosos ou perseguidores”. (KLEIN, M. As Origens da Transferência. página 77 - Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991). Interpretar sempre é informar ao paciente sobre sua transferência.
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Tempos esquizofrênicos

Por Ale Esclapes -  "A maioria das mulheres não se casariam com homens gordos", diz estudo. "Pesquisa do Hospital do Coração mostra que homens da classe "A" são os que mais rejeitam união com mulher obesa". "Na avaliação de 81% dos entrevistados, o excesso de peso também interfere no sucesso profissional". Essa foi a matéria de capa do caderno cotidiano da Folha de São Paulo. Somos preconceituosos com os obesos. Fiquei meio perdido com isso. Explico: vamos supor que refizéssemos a matéria: maioria não casaria com quem tem câncer terminal. Será que pareceria estranho? Ou ainda: maioria não casaria com quem tem doença degenerativa, soaria tão estranho assim? O que é mesmo preconceito na MÍDIA? Antes de continuar, fiz uma pesquisa sobre esse assunto no próprio jornal – existem cerca de 20 reportagens que classificam a obesidade como doença – alguns como doença grave; isso só nos últimos 30 dias. Daí eu fico me perguntando qual é a mensagem e tento resumi-la mais ou menos desse jeito –“Não seja obeso, que isso é uma doença. Ah, você já é obeso? Seu IMC é maior que 21? tststststs Caso grave! Tudo bem, mas você acha o maior tesão um gordinho, certo? Não!? Seu preconceituoso!” Ah, mas você pode estar pensando – o problema não é o obeso, mas a obesidade. Sei ... é a mesma lógica da igreja para certos assuntos. O problema é o pecado, não o pecador. O problema é que quem vai arder no fogo do inferno é o pecador e não o pecado. Tempos esquizofrênicos... Ps.: I - Isso para nem dizer que querem normatizar por quem a gente deve sentir ou não tesão. PSII. Esse post não é sobre preconceito, mas sobre meios de comunicação e poder.
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A produção do sujeito no sistema capitalista - A virtualidade do sistema

Por Alê Esclapes -  Virtualidade e Ciência Social: A maior relatividade da economia é flutuar sobre os sentidos da massa sem conseguir atravessá-la, sem conseguir racionalizar os processos subjetivos com os quais a massa trabalha. Prefere-se falar em 'processos subjetivos' quando se fala em determinação de preço, em valor utilidade como se fosse uma mera quantificação de produtos em consumo. As relações psicológicas entre o homem e os objetos são tratadas ou de forma obscura, ou de forma meramente matemática. Sob um princípio primeiro de anulação ou aceitação, sob o estigma da escolha dentro do mercado - e aí reside o maior poder do consumidor segundo os economistas - resume-se na maior força das massas. O que se precisa discutir é quais os efeitos dessa dinâmica no corpo social, como o processo econômico age no corpo social, como é influenciado por uma dinâmica social maior a nível arqueológico e como a economia como ciência age sobre esse corpo. O mercado como forma de transação de mercadoria, tem outras funções sociais que não apenas garantir o bem-estar social (a maior das utopias), mas garantir uma dinâmica social sem precedentes na história. No mercado não adquire-se apenas bens, mas a si mesmo, por um processo de identificação do homem com o produto adquirido; na base de uma identificação o homem perpetua o capitalismo. Não se trata de uma alienação marxista, mas de uma necessidade psicológica. Na pulsão de um desejo por si o homem consome sua atemporalidade através dos objetos, e no próximo instante vê-se sozinho. A massa não se importa de onde ou como venham esses objetos - sua única preocupação é consumi-los. O capitalismo como forma sedutora de si mesmo é a forma de organização econômica mais magnífica que já apareceu, não por si, mas pelo produto comercializado - o objeto tecnológico. A liberdade do mercado visa não somente garantir um sistema econômico mas também garantir uma possibilidade de identificação. Sem liberdade de escolha não é possível uma interação do homem com os objetos, pois é através dessa liberdade que o homem consegue interagir com esses objetos - é a necessidade de funcionalidade de interação que determina uma necessidade de liberdade de mercado. Quanto mais diversidade de produtos estiverem a disposição no mercado, maiores são as chances de perpetuação do sistema - mas existem outras questões que serão discutidas mais adiante. Os sistemas socialistas não conseguiram esse fenômeno porque não conseguiram propiciar uma interação entre o homem e seus objetos. Um mercado com produtos iguais está fadado ao fracasso; é um retorno ao modelo medieval. É um exemplo que a utopia do bem estar social não funciona na prática. Somente a saciação das necessidades psicológicas é uma realidade. A teoria prega que os consumidores com sua liberdade de escolha são os maiores determinantes dos fenômenos de mercado, salvo em outras situações como os monopólios e os oligopólios. Marx coloca que os consumidores são alienados porque desconhecem o real valor da mercadoria que estão adquirindo, por um processo iniciado na produção. Mas não seriam os consumidores também terminais digitais? Fala-se em liberdade de escolha mas esquece-se que só se pode escolher entre aquilo que se encontra a disposição. Liberdade de escolha só tem valor quando vem acompanhada de liberdade de transcendência. Mas pode-se argumentar que a oferta tenta se moldar à demanda. De qualquer modo os consumidores não passam de terminais digitais, onde respondem a um estímulo pré determinado, e através dessa resposta o mercado realoca seus recursos a fim de manter o sistema. Independente das alienações e das utopias a massa não passa de um conjunto de terminais digitais de consumidores. O sistema capitalista é uma superestrutura funcional na medida em que fornece uma identificação infinitesimal a massa. É através dele que é possível se desenvolver uma relação estrutural em forma de social com o objeto técnico. A realocação que o mercado sofre não é uma tentativa de tornar-se mais semelhante a massa, mas de servir como espelho dela. O resultado é um simulacro a ser consumido dentro do mercado, que imediatamente depois precisa de outro, indefinidamente. O capitalismo é o consumo da massa por si mesma. A nova face do mercado não é uma forma de alienação, mesmo porque a massa não se importa de ser alienada - a única coisa que lhe importa é ter uma identificação. A utopia não passa de uma forma de identificação a ser consumida. Na imaterialidade do mercado o sistema de identificação social vai se fortalecendo na medida em que as forças de mercado vão evoluindo. Com o desenvolvimento do sistema capitalista outros sistemas também o foram, como por exemplo, a propaganda. A propaganda é uma forma de identificação de massa, onde esta reflete seus desejos e visões para consigo mesma. A propaganda não mostra nada além dos desejos da massa. Este sistema é uma das formas de identificação desenvolvidos no âmbito social. O sistema de série e modelo é outro. Quando vê-se um Gaultier na passarela não se está interessado na peça em si, mas no que esta pode representar; o que na verdade representa. Existe todo um conceito por trás de um Gaultier que faz com que não se consuma sua peça, mas seus conceitos. E como quanto mais carregado é um conceito menos pessoas o absorvem. A esses conceitos carregados pode-se chamar de modelo, sendo os menos carregados de série. O mesmo conceito que hoje se apresenta nas passarelas é o que se apresentará nas ruas amanhã. Produz-se conceitos para serem consumidos como forma de identificação. Mas o consumo desses conceitos por si só é incapaz de resolver os problemas de identificação das massas - o regime capitalista não consegue substituir as relações do homem para consigo e para com os seus semelhantes. O objeto técnico proporciona apenas um vislumbre de identificação, um momento extemporâneo. O burguês (e entenda-se toda a sociedade, inclusive os ‘excluídos') é uma presa fácil de ideologias, principalmente aquelas que visam dar um sentido ás massas, a dizer quem elas são, como o nazismo ou o nacionalismo. Mas a dependência que o homem adquiri com os objetos é que cria um eixo de relação entre essa relação psicológica e o sistema capitalista. Faz-se necessária uma análise do desejo e da necessidade. Na teoria geral econômica existe o conceito de necessidades (ou desejos) ilimitadas (os) - "a economia é, pois, a ciência que estuda as formas de comportamento humano resultantes da relação entre as ilimitadas necessidades a satisfazer e os recursos que, embora escassos, se prestam a usos alternativos" Lionel Robbins citado em [ROSSETI, J.,14,56]. Existe basicamente um consenso entre os economistas sobre esses dois pontos, expressando-os de diversas maneiras, mas sempre de maneira clara e concisa. Obscura é a explicação do por que no que tange as Necessidades Ilimitadas. Geralmente acaba na redundância do ‘é porque é', ou porque a observação assim o diz. Primeiramente essa questão de observação está ultrapassada a pelo menos duzentos anos desde Kant e Schopenhauer - definitivamente os olhos não são a via mais adequada para análises científicas, e nem a racionalidade sem a análise do desejo não se apresenta como funcional na busca de uma verdade humana provisória. São as necessidades realmente ilimitadas? Em função do quê essas necessidades são ilimitadas? Difícil falar em necessidades ilimitadas em um corpo que possui necessidades limitadas - comer, beber, dormir e procriar. Mais difícil ainda é falar em necessidades ilimitadas na Idade Média ou explicar porque certas pessoas só tomam Coca-Cola para matar a sede quando precisa-se apenas de água, ou porque procura-se consumir pratos cada vez mais elaborados sendo que o organismo pode consumir alimentos básicos e ficar satisfeito. Maslow não explica a dependência do homem para com os objetos que ele consome; no máximo hierarquiza a realização de propostas de consumo; mas é difícil explicar por Maslow as antenas parabólicas numa favela paulistana. Alienação das massas ou democratização das antenas parabólicas para todas as camadas sociais? O mundo já não é mais o mesmo desde Maslow e os Clássicos (teóricos em economia). As necessidades que os clássicos se referiam obviamente não podem ser de um nível corporal mas de um caráter cultural. As necessidades econômicas são culturalmente produzidas. Era de pensamento comum na Idade Média uma não valorização do corpo - o que importava era a alma (pensamento Socrático). A sociedade era hermeticamente fechada com cada grupo social responsável por uma função específica (sistema funcional), ou seja, cada um sabia seu papel na sociedade, e era isso que segurava a sociedade, não a ideia do bem-estar social, complemente ausente em tal período. Quando se instaura um sistema capitalista, não existe função social, não existe classe social nos parâmetros da Idade Média, não havia quem orasse por alguém, e começava a se vislumbrar um artefato chamado técnica. O burguês é um ser sem função social definida - cabe-lhe somente produzir e consumir. Esse período de transição do velho capitalismo para o novo aqui é demarcado pela socialização do objeto técnico, ou seja, do consumo pela massa de objetos artesanais (aqui inclui-se qualquer objeto de funcionalidade simples como um abridor de latas, independente de seu modo de fabricação) para o consumo de objetos técnicos (aqui inclui-se qualquer objeto de funcionalidade complexa, o qual remete sua interpretação por parte do homem para a subjetividade já exposto no Capítulo 2, como um barbeador elétrico ou um rádio), não pode ser analisado de maneira adequada em função da presença ainda forte dos objetos artesanais na maioria da sociedade. Mas o caráter de transferência da necessidade de identificação de um aspecto social (posição funcional na sociedade) para os objetos já era possível ser visualizado, pois não só o objeto técnico é revestido de conceito, mas os chamados ‘modelos' também o eram. Essa transferência se democratiza com o objeto técnico. Uma necessidade que antes não era ilimitada, passa a sê-la por uma falta de identificação social das massas. Inaugura-se o modelo de necessidades ilimitadas, sendo o papel do projeto ‘social' assegurar a seus integrantes o acesso a esses bens. A democracia desses conceitos foi o berço da economia, que na soleira dessas transformações sociais foi encarregada de executar tal tarefa, estudando a produção, circulação e consumo das riquezas (leia-se aqui dos objetos). A economia nasceu com as necessidades ilimitadas por objetos (que anteriormente eram canalizadas para a alma). A Economia do Sentidos Não se pode fazer uma única análise do capitalismo, como se fosse um todo histórico único. Mesmo que seus mecanismos básicos não tenham se modificado substancialmente, os outros elementos que envolvem o sistema se modificaram radicalmente, principalmente no que tange ao sistema diferencial da técnica. Com o desenvolvimento da tecnologia, cada vez mais os consumidores foram enviados para um nível subjetivo de relação com os objetos consumidos, culminando esse processo no aparecimento da propaganda moderna - pois essa vende essencialmente aquilo que o objeto não tem, dando-lhe um sentido. Esse movimento não seria possível se o homem não estivesse apto a trabalhar com esse sistema. O que interessa é que a massa cada vez mais foi levada a trabalhar a um nível subjetivo. E é nessa subjetividade que o mundo começa a girar como forma de interpretação. A interpretação do mundo gira cada vez mais em torno de uma irrealidade. Trata-se de uma virtualidade do mercado, ou seja, o mercado vive mais da irrealidade dos materiais que de sua materialidade. Todo o espaço urbano é assim recortado, com uma virtualidade que só se justifica por ela mesma. Os consumidores são assim transformados em terminais digitais virtuais. Consomem a irrealidade da propaganda, ocupam o espaço urbano com o objetivo de identificação de uma suposta posição social - tudo por um sentido de vida. E cada vez mais é preciso consumir, é preciso identificar-se, quer seja pelo fim programado dos objetos, quer seja por um novo ciclo psicológico de necessidade, quer seja para manter vivo o sistema. A liquidez e a virtualidade vão tomando conta do sistema capitalista. Todos os seus instrumentos vão adquirindo esse estado virtual e líquido. Não é mais necessário sair de casa para fazer compras, o dinheiro que já era a imaterialidade da mercadoria é substituído por cartões - cada vez mais é a imaterialidade do imaterial. Agregue-se a esse fato que a cada vez mais esses instrumentos precisam girar, precisam entrar em estados de liquidez acelerando cada vez mais esse estado virtual, que por sua vez exige maior liquidez. Virtualidade e liquidez fazem o eixo que hoje move o capitalismo. Essa virtualidade e essa liquidez fizeram uma coisa que Marx não previa. Afinal não ganharam nem proletário e nem burguesia. Ganhou o capital. O capital que circula hoje no mundo, sem nacionalidade definida, é que efetivamente ganhou. E mais - o volume de capital que gira hoje no mundo é tão grande que não pode mais retornar aos seus países de origem. Se o volume de dinheiro que circula retornasse a seus países de origem, a crise monetário-financeira nesses países seria tão grande que se configuraria uma catástrofe. Esse capital orbita pela terra e seu lugar é justamente esse. O capital não precisa mais do velho burguês para gerá-lo, o faz por si s ó flutuando pelas bolsas de valores do mundo. As necessidades também são outras: ‘excluídos' são aqueles que não tem acesso a essa virtualidade. O projeto do bem estar social é muito bonito, mas pouco prático e muito idiota. A massa não quer bem estar social, quer um sentido que possa ser consumido. Talvez infra-estrutura básica e distribuição de riquezas sejam importantes, mas basta um olhar para uma megalópole como São Paulo para se observar que no frio desprezo social de ambas as partes (ricos e pobres) não pode residir nenhum projeto de social e sim de integração numa ordem superior, como por um pedido agonizante de existência, de sentido. Estar antenado no mundo consumindo um sentido é mais importante para um favelado que infra-estrutura básica. Economia dos sentidos. A Morte A democratização de um nível médio de tecnologia associados a um conceito de consumo de níveis relativamente baixos de conceitos são responsáveis por um dispêndio cada vez maior para tornar-se uma igualdade na base do consumo em uma diferença funcional. O exemplo clássico das latas de massa de tomate em uma prateleira de supermercado ilustra bem o conceito: o que diferencia as diversas latinhas vermelhas nas estantes de supermercado? Óbvio que existe a questão do preço e qualidade, mas tem algo mais como ‘O elefante mais amado do Brasil', ou a ‘Pura polpa de tomates' ou algo parecido. Existe aí um dispêndio de energia que visa tornar esses produtos aparentemente iguais em diferentes. Não existe funcionalidade na igualdade, porém o capitalismo sobrevive da funcionalidade. Como o sentido contido nos objetos tende a atender um número cada vez maior de consumidores, este conceito tende a ser cada vez mais vazio, ou com um conteúdo menos complexo. Este fenômeno tende a acelerar a igualdade desses produtos na base do consumo, necessitando portando de um dispêndio cada vez maior de energia para diferenciá-los. A luta da propaganda é diferenciar iguais. O cérebro humano trabalha não com uma relação de igualdade, mas com uma relação de diferença. É essencial que os elementos sejam diferentes. Todo uma estrutura social é posta em marcha para tornar que essa grande massa seja constituída de elementos diferentes, não em sua realidade absoluta, mas num mundo de aparências, em um mundo virtual. O mercado nesse caso passa a operar de forma virtual, trabalhando de forma a dar um sentido funcional único a seus constituintes. Mais importante que o próprio produto é o no que ele pode diferenciar seus consumidores. A etiqueta da Zoomp vale mais que a peça que a ostenta, e em alguns casos mais que uma vida. Existe uma carência social por sentido, e o produto que conseguir proporcioná-lo com maior eficiência a seus consumidores, terá um valor maior que seus concorrentes. A relação entre custo e valor final do bem tende a ficar cada vez maior em certos produtos, não em relação a uma exploração via mais-valia, mas pela agregação da variável ‘sentido social'. E esse fenômeno tende a tomar conta do mercado, mesmo nos produtos destinados às camadas mais baixas da população - esses ‘produtos conceituais' tendem a dividir o espaço na vida dessas pessoas juntamente com outros produtos (e o esgoto a céu aberto). Assim como o produto cultural é levado a um patamar cada vez mais baixo como já foi anteriormente discutido, essa relação entre conceito agregado ao objeto e a cultura tendem a um patamar mais diminuto de absorção de identidade pela massa. Esse fenômeno acelera a liquidez na base do sistema, sendo cada vez mais necessário a grande massa estar antenada, pois "a esperança não vem do mar, mas das antenas de TV" [ALAGADOS, 44]. São as parabólicas na miragem social da favela que simbolizam hoje esse fenômeno. Na falta de identificação que o social capitalista traz, no vazio de uma cultura desprovida de passado e de futuro cada vez mais curto, os indivíduos (os mesmos de Adam Smith) possuem um mundo em que devem lutar por um indivíduo que torna-se cada vez mais rarefeito pela carência social de sentido. É o paradoxo do indivíduo moderno - ser alguém no mercado ao mesmo tempo que é empurrado pelo mesmo mercado a ser ninguém. O mesmo sistema que fez surgir essas figuras - ‘Homo-Economicus', a Ciência Econômica, o bem estar social - condenou-os ‘a priori' ao fim por uma carência de sentido. O fim é a ausência de sentido. O Capitalismo Perdido O capitalismo possui no indivíduo ou sujeito seus alicerces. É no individualismo, na igualdade de oportunidades desse sujeito, é no bom egoísmo, que se encontram suas bases. Como se verificou, existe toda uma tecnologia para a produção desse sujeito, quer como objeto social, quer como objeto científico, e que no sistema capitalista adquiri uma dinâmica particular na história. No estudo do objeto tecnológico observa-se que o sujeito passa a ser produzido e consumido dentro de um sistema endógeno ao capitalismo, determinante de fenômenos econômicos modernos como a catalisação das necessidadesiIlimitadas para os objetos de consumo. Analisando a relação homem / objeto de consumo, verifica-se que a partir das mudanças ocorridas nesse objeto - mudança de objeto tradicional para objeto tecnológico - uma nova relação psicológica de identificação, ou uma transferência ocorre dos homens para os objetos, determinando uma necessidade de consumo cada vez maior desses objetos, e paradoxalmente, estes não conseguem substituir as relações humanas, gerando um burguês que naturalmente não possui nem a si e nem aos objetos de consumo por inteiro. Outro fenômeno ocorrido diz respeito ao fato do consumidor ser transformado em um terminal digital de sensações, ou seja, o objeto tecnológico somente permite uma relação com ele pré-definida, restando ao consumidor adaptar-se a ela. Através de uma análise do consumo do Produto Cultural, ou Cultura como forma de identificação do indivíduo, verifica-se uma diminuição cada vez maior tanto da qualidade quanto volume de material disponível na cultura para a identificação do sujeito, ou seja, uma desintegração da Cultura. Analisando o fenômeno globalmente, verifica-se que a massa, sem material para identificar-se, comporta-se como um ‘buraco negro' de sentidos. Esse fenômeno não só causa uma Hiper-Realização do Sistema Capitalista pela catalisação das Necessidades Ilimitadas nos objetos de consumo, como paradoxos sociais como o gasto cada vez maior de recursos para diferenciar àquilo que endogenamente dentro do sistema vai se tornando igual, desintegrando-se, bem como a implosão do próprio sentido do Social. O burguês produzido dentro de um sistema, na medida em que esses instrumentos de produção ou, mais especificamente, o produto que visa ser um parâmetro de identificação para o burguês - o ‘outro' - alocam-se em um espaço virtual, o burguês e o Sistema Capitalista tendem a ocupar um espaço virtual. Esse fenômeno determina a demanda pelo consumo de uma virtualidade, ou seja, dentro do mercado o valor subjetivo tende a uma supervalorização, e meios de comunicação cada vez mais virtuais como a Internet tendem a predominar. Em função disso, qualquer problema na área de comunicação de massa, ou uma ocorrência que impeça o sistema de identificação virtual global de funcionar, caracterizam uma catástrofe (tanto econômica quanto social). O que se verifica é que o eixo formado entre Sistema de Produção (objeto técnico) / Sistema de Consumo / Cultura, no que tange a produção do Sujeito ou Indivíduo, catalisa as Necessidades Ilimitadas culturalmente produzidas nos objetos de consumo, bem como tende cada vez mais a aniquilar esse Sujeito pela carência de sentido endogenamente produzida. O capitalismo que nesse sentido possui sua existência firmada no Indivíduo, paradoxalmente, extingue-o em seu processo de produção/consumo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: I.I OBRAS GERAIS (01) ABBAGNANO, Nícola. Dicionário Filosófico. Trad. Alfredo Bosi. 2. Ed. São Paulo: Mestre Jou, 1982.(02) DURANT, Will. A História da Filosofia. Trad. Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de janeiro: Nova Cultural, 1996. 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Campinas: Papirus, 1992.(20) ----------------------------. O Sistema dos Objetivos. Trad. Zulmira Ribeiro Tavares. São Paulo: Perspectiva, 1993.(21) COSTA, Jurandir Freire. A Face e o Verso: Estudos Sobre o Homoerotismo. São Paulo: Escuta, 1995.(22) ECO, Umberto. Tratado Geral de Semiótica. Trad. Antonio de Pádua Danesi e Gilson C. C. de Souza. 2. Ed. São Paulo: Perspectiva, 1991. (23) FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Trad. Luís Felipe Baeta Neves. 4. Ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. (24) -------------------------------. As Palavras e as Coisas. Trad. Salma Tannus Muchail. 6. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992.(25) -------------------------------. História da Sexualidade: A Vontade de Saber - vol. 1. Trad. Maria Thereza da Costa Albuquer- que & J.A. Guilhon Albuquerque. 11. Ed. Rio de Janeiro: Graal, 1993.(26) -------------------------------.-------------------------------: O uso dos Prazeres - vol.2. Trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque. 7. Ed. Rio de Janeiro, 1994.(27) -------------------------------.-------------------------------: O Cuidado de Si - vol. 3. Trad. Maria Thereza da Costa. Ed. Rio de Janeiro, (199-).(28) --------------------------------. Microfísica do Poder. Trad. Ro- berto Machado. 11. Ed. Rio de Janeiro: Graal, 1993. (29) GIANNOTTI, J.A. Apresentação do Mundo: Considerações So- bre o Pensamento de Ludwig Wittgeinstein. São Paulo: Com- panhia das Letras, 1995. (30) GRAMSCI, Antonio. Os Intelectuais e Organização a da Cultura. Trad. Carlos Nelson Coutinho. 9. Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. (31) KANT, Emmanuel. Crítica da Razão Prática. Trad. Afonso Bertagnoli. Rio de Janeiro: Ediouro (199-). (32) ----------------------------. Crítica da Razão Pura. Trad. J. Ro- drigues Mereje. Rio de Janeiro, Ediouro (199-). (33) KAPLAN, &. ANN (Org). O Mal-Estar no Pós-Modernismo. Trad. Vera Ribeiro. 00 Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. (34) NÉRICI, Imídeo Giussepe. Introdução à Lógica. 9. Ed. São Paulo: Nobel, 1985. (35) NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A Geneologia da Moral Trad. A.A. Rocha. Rio de janeiro: Ediouro, (198-) (36) ---------------------------------------------------. Além do Bem e do Mal. Trad. Márcio Pugliesi. Rio de janeiro: Ediouro, (198-) (37) PARKER, Richard G. Corpos, Prazeres e Paixões. Trad. Maria Therezinha M. Cavallari. São Paulo: Best Seller, 1991. (38) SCHOPENHAUER. O Mundo Como Vontade e Representação. Trad. Heraldo Barbury. Rio de Janeiro: Ediouro, (199-) (39) WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Trad. Luiz Henrique Lopes Santos. 2. Ed. São Paulo: Edusp, 1994.II.I REFERÊNCIAS CINEMATOGRÁFICAS (40) ATÉ O FIM DO MUNDO (UNTIL THE END OF THE WORLD). Alemanha/França/Austrália, 1992. Direção Win Wenders. Produção Jonathan Taplin e Anatole Dauman.(41) BLADE RUNNER - O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (BLADE RUNNER). EUA, 1982. Direção Ridley Scott. Produção Michel Deeley.(42) ENIGMA DO OUTRO MUNDO (THE THING). EUA, 1984. Direção John Carpenter. Produção David Foster e Lawrence Turman.(43) 2001 - UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO (2001 - A SPACE ODYSSEY). Inglaterra, 1966. Direção e Produção Stanley Kubrick.III.I REFERÊNCIAS FONOGRÁFICAS(44) ALAGADOS. Os Paralamas do Sucesso. Brasil, 1987. Letra Herbert Viana. Produção EMI-Odeon Fonog. Ind. e Eletr. Ltda.(45) UNTIL THE END OF THE WORLD. U2 . Irlanda, 1991. Letra Bono. Produção Daniel Lanois e Brian Eno. Tema do filme Até o Fim do mundo. http://www.artigonal.com/psicologiaauto-ajuda-artigos/a-producao-do-sujeito-no-sistema-capitalista-a-virturalidade-do-sistema-3867001.html 1Psicanalista, facilitador, escritor e diretor da Escola Paulista de Psicanálise-EPP e do Instituto Melanie Klein-IMK. Autor do Livro: A pobreza do Analista e outros trabalhos 1997-2015 e também Organizador da Coleção Transformações & Invariâncias (atualmente no 5º Vol.). Realiza atendimentos presenciais e on-line.
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Sonhos, sintomas e o inconsciente

Por Janete Vilella - Quando escreveu a Interpretação de Sonhos, Freud havia chegado a muitas conclusões, entre elas a constituição do aparelho psíquico. A Primeira Tópica do aparelho psíquico vai dar respaldo a toda sua teoria sobre os sonhos. A concepção de consciente e inconsciente empresta lógica a todo trabalho da elaboração onírica. A narração feita pelos pacientes mostrava que os sonhos eram destituídos de sentido, tanto para o sonhador como para o analista. A causa para essa deformação onírica somente poderia ser explicada por uma força coerciva. Freud, ao afirmar que todos os sonhos tem um sentido, como todas as outras produções do inconsciente, acreditava que empregando a associação livre nos relatos dos sonhos, poderia chegar à interpretação dos mesmos. Isso porque, na associação livre subentende-se que há certa estabilidade nos laços que unem cada representação. Mas, a associação livre está subordinada a uma lógica que se forma de modo inconsciente. Nós só tomamos consciência desse processo, após a sua realização. Existe uma causalidade associativa que não depende da vontade para se manifestar. Dificuldades para interpretar os sonhos - a Censura No Cap. V, da Interpretação de Sonhos, Freud narra vários sonhos de seu paciente, e ao comentá-los demonstra que a dificuldade para se compreender o sentido dos sonhos era muito grande. Freud se deparava com sonhos simples, de fácil interpretação, e que comprovavam sua tese de que os sonhos são realização de desejos, estando nesta categoria, na sua maioria, os sonhos infantis e aqueles que não precisam de um trabalho de análise para sua interpretação. Mas, existem sonhos de difícil decifração; sonhos desagradáveis, os pesadelos. Como afirmar nesses casos que o sonho seria a realização de desejos? Freud desenvolve então a noção de censura, que seriam tendências que dominam a consciência de uma pessoa, com a finalidade de inibir outras tendências que lhe são opostas, forçando assim essas tendências para o inconsciente, fazendo com que dali não saíssem. Mas, só a existência da censura não resolvia o problema; havia uma força coerciva que impedia que o fato traumático fosse consciente. Só a existência dessa força poderia explicar porque alguém esqueceria um fato que lhe causava sofrimento, problemas de conduta Freud definiu essa força, chamando-a de resistência. Ainda assim, se essa força, a resistência, não permite que o fato traumático chegue ao consciente, o que, ou, que outra força retirou o fato traumático do consciente mandando-o para o inconsciente, para evitar a dor, o sofrimento, que seriam insuportáveis ao paciente? A essa segunda força, Freud deu o nome de repressão O trauma reprimido estará sempre tentando voltar à consciência, mas a resistência impedirá, causando os sintomas neuróticos, ou os sonhos. Freud refere-se à repressão, como a pedra angular  em que repousa toda a estrutura da psicanálise. A censura refere-se ao conflito psíquico provocado pelo recalque. Nos sonhos ocorre uma diminuição do rigor da censura e o aparecimento de sentimentos, representações, imagens desagradáveis, que podem ser justificados por um fracasso no processo de elaboração onírica. Os desejos que provocam sonhos, não são, a maior parte das vezes, desejos aceitáveis pela consciência; pelo contrário, são desejos que ela repreende e rejeita. Sendo assim, o retorno do desejo reprimido pode causar prazer e desprazer. O pesadelo é considerado por Freud como o exemplo típico do conflito entre censura e desejo. A tese freudiana passa a ser então de que o sonho é uma realização disfarçada de um desejo recalcado e esse desejo é sempre originário, ou parte sempre do inconsciente. O sonho se apresenta de dois modos; um, o conteúdo manifesto, é o sonho que pode ser lembrado e relatado. Outro, o conteúdo latente, seria o conteúdo oculto e inconsciente, que provoca o sonho, e que leva a análise. A elaboração onírica é, portanto o trabalho de transformar os pensamentos latentes em conteúdos manifestos, distorcendo esses pensamentos de tal forma que o sonho, ou os pensamentos nele apresentados, vai ser inacessível ao sonhador. O trabalho inverso, isso é, partindo do manifesto para chegar ou latente, Freud chamou de interpretação. Como vimos na primeira tópica desenvolvida por Freud, para tentar burlar a censura e procurar a descarga do desejo via pré-consciente/consciente, o conteúdo latente precisa de um mecanismo e a elaboração onírica pode usar vários deles; deslocamento, condensação, dramatização e elaboração secundária, sendo os dois primeiros os mais comuns. A condensação seria um “resumo” do conteúdo latente. Esta noção de condensação significa que cada elemento do conteúdo manifesto depende de várias causas latentes, dando a entender que o sonho pode ter vários significados, ou seja, que um “significante” no sonho ( um cachorro p.ex.) pode significar várias coisas. O sonho pode criar uma pessoa coletiva, onde podem  se reunir diferentes traços de diferentes pessoas, ( vários significantes que juntos vão representar uma única coisa ) ou, em outros casos, reforçar traços comuns e apagar as diferenças. Esse mecanismo também aparece nos lapsos e nos chistes. Quanto ao segundo mecanismo, o deslocamento, é o processo pelo qual uma carga afetiva, (emoção), ou uma ideia (representação) se destaca do objeto originário, para um segundo objeto acessório, que vai funcionar como uma alusão ao primeiro objeto. Pode também ser feito um deslocamento para um objeto sem importância. Em outras palavras, o representante ideacional e verbal do desejo (quebrar a janela), vai ter o significante tão distorcido que vai conseguir chegar ao consciente em forma de sonho ou de sintomas. Os outros dois mecanismos, dramatização, onde há no sonho o predomínio das imagens e não da fala e a elaboração secundaria, em que é feita uma remodelação do sonho, com a intenção de torna-lo coerente, também são efeito da censura. Todos os mecanismos que deformam o sonho o fazem  em função da censura. O sonho é um sinal e um sinal porque ele é um efeito e todo efeito é um sinal de sua causa. Isso acontece com todas as produções do inconsciente, tanto nos estados normais como nos patológicos. Na Interpretação de Sonhos Freud  cita ainda, quais podem ser as fontes do sonho, a probabilidade do sonho ser origem, também, de um processo interno, as características da memoria no sonho, e descreve muito pormenorizadamente o processo da angustia no sonho, destacando o caráter sexual e a atuação da libido nesse tipo de sonho. Para Freud, a interpretação dos sonhos deveria ser iniciada sempre coma a avaliação dos fatos acontecidos com o sonhador no dia ou dias anteriores ao sonho.  Esses fatos serão sempre um dos componentes do conteúdo do sonho e essa condição é sempre confirmada.Ao contrário do que a maioria pensa, os sonhos são guardiães do sono, conforme comprova Freud em sua teoria.
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Loverboy - crítica de filme

Por Sandra Valeriote -  Emily, filha única, na infância convive em um ambiente onde percebe os pais vivendo em um mundo da fantasia. Ela convive harmoniosamente com os pais, porém não participa do mundo deles e nem faz cobranças para que eles venham participar do seu. Passa a venerar uma mulher adulta, que lhe transmite a existência de um mundo real. Porém essa desaparece causando nela uma intensa sensação de abandono. Emily acaba sendo abandonada também pelos pais, no caso desses através de suicídio - que demonstrou terem os dois partidos como num “conto de fadas”. Além, é perceptível que a existência dela, na decisão do suicídio, não foi levada em consideração. Ela chega a fase adulta com duas necessidades em nível extremamente elevado -  em uma demonstrava possuir a extrema necessidade de não se apegar a mais ninguém na vida, em outra a extrema necessidade de ter alguém que pertencesse somente a ela. Emily obtêm sucesso em relação a primeira necessidade – não se apega a ninguém! Para a segunda necessidade ela identifica estará concretizando ao “produzir” um filho... Nesse caso, falhando a tentativa de engravidar artificialmente, e tendo que partir para a gravidez com contato humano, para não correr riscos em relação a apego ela estuda como a aranha descarta os seus machos, para assim fazer. Ela consegue engravidar, como também manter sua necessidade saciada durante os 6 primeiros anos de vida do filho; mas o filho começa a descobrir a vida real, se interessa por essa, identifica ser um ser pensante, e se opõe fortemente ao mundo fantasioso estabelecido pela mãe. Pois bem! A própria Emily sabe da existência de dois mundos: o real e o imaginário. E, ela própria identifica sua não vivência no mundo real – considerando esse um mundo anormal. Nesse caso, é perceptível a influência dos pais nesse entendimento que ela carregou para a fase adulta. Ou seja, ela não participou do mundo dos pais na infância, mas na fase adulta fez a escolha que eles fizeram - de viver no mundo da fantasia. A impressão é que por mais que ela não tenha participado do mundo fantasioso em que os pais viviam, pelo menos nesse mundo foi onde ela identificou a existência da “felicidade eterna”...  Tendo em vista que a única pessoa que ela teve um grande apego fora desse mundo a abandonou sem nenhuma explicação, causando-lhe uma intensa dor. Então, não havendo nenhuma demonstração da parte dela de desejar vir a ter alguma interação com o mundo real, o filho, já decidido em não mais viver no mundo fantasioso, acaba causando (sem saber, pela questão de ainda se encontrar na infância) que ela decida que o melhor caminho seria prendê-lo no mundo da fantasia, através da morte – que para ela (parecia) nada mais era que um “dormir” felizes para sempre como num conto de fadas. Ou seja, do mesmo modo que ela entendeu ter acontecido com seus pais. Concluo com o pensamento de que Emily corria um sério risco, pela “obsessão” que passou a dominá-la, de assassinar alguém, se preciso fosse, para proteger o mundo que ela criou para viver com aquele que ela gerou para possuir [o filho]. E, essa possibilidade ela demonstrou ao matar uma ave que o filho veio a gostar.___________Direção: Joan Micklin SilverPlataforma: Prime Video