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PONTOS_CEGOS_ANALISTA Blog Masonry - Results from #228

Pontos cegos do analista

Por Adriana Silveira -  O Caso Dora, publicado em 1905, é um dos casos clínicos de Freud mais conhecidos e estudados. O período do tratamento da paciente, a quem é dado o pseudônimo de Dora, deu-se alguns anos antes da publicação do texto, coincidindo com os estudos acerca dos trabalhos do sonho publicados na obra A Interpretação dos Sonhos (1900).  Nesse período, Freud, já afastado da técnica da hipnose e do método catártico para tratamento da histeria, inicia a construção de seu método analítico, que terá como princípio a associação livre, por meio da fala espontânea da paciente, na expressão livre dos pensamentos que lhe vêm à mente. É importante notar, no entanto, que o desenvolvimento de sua técnica estava aí apenas em seu início - daí podermos perceber, na descrição desse caso clínico, algumas dificuldades quanto à percepção e manejo de elementos importantes, que viriam a ser sistematizados e normalizados como práticas do tratamento analítico mais adiante.  É o relato do conteúdo de dois sonhos de Dora que serve como material de investigação para o analista, com vistas à exploração do conteúdo latente (reprimido).  Seguindo suas próprias convicções a respeito do surgimento dos sintomas histéricos, Freud interpreta os elementos simbólicos desses sonhos a partir dos desejos sexuais infantis e inconscientes da paciente, relativos às figuras dos pais e do sr. e sra. K. Aliás, é o pai que dá a Freud o contexto familiar e de adoecimento da filha, o qual, para ele, seria fruto de uma construção fantasiosa de assédio do sr. K em relação a ela.   Esse fato pode ter influenciado uma postura pré-concebida do analista acerca do quadro da paciente e, inclusive, acerca da importância atribuída à veracidade ou não das memórias por ela expressas. Em sua investigação, Freud mostra estar interessado na busca da verdade e revelação dos fatos, supostamente encobertos na fala da adolescente. Nesse sentido, dá especial importância às lacunas de sua memória e aos deslocamentos, sobretudo às manifestações físicas de seus transtornos psíquicos (sintomas físicos de doença e atos sintomáticos).  A análise desse quadro clínico tem um percurso bastante especulativo e de defesa da comprovação dos pressupostos do analista-cientista. Isso pode ser notado, ao longo do texto, pela presença excessiva de sua própria voz na interpretação dos eventos relatados por Dora. Essa interpretação é comunicada a ela como verdade irrefutável, por mais que a paciente tenha recusado algumas das conclusões do analista (como a de que ela seria apaixonada pelo sr. K., por exemplo).  A atitude adotada por Freud resultou em “pontos cegos” no tratamento, sobretudo quanto à transferência e seus desdobramentos.  Há a percepção desse mecanismo por parte do analista, que nota a transferência para ele de traços presentes na figura do pai de Dora, numa clara tentativa de substituição. Mas o fato é que ele está tão voltado a convencê-la sobre a verdade de suas próprias interpretações que desvia a atenção dos mecanismos da transferência e, consequentemente, não chega a manejá-la a contento.  Se, como o próprio Freud acaba por defender mais tarde em seus ensaios, a transferência é fator essencial e inevitável dentro do “setting” psicanalítico - na medida em que também permite verificar as resistências da paciente - podemos dizer que esse “ponto cego”, no caso Dora, levou a limitações quanto aos possíveis avanços da paciente. Subestimada e silenciada em suas interpretações, não lhe é possível  identificar traços da dinâmica de repetição de seus afetos. Tampouco lhe são dadas condições para reconhecer e perlaborar os mecanismos de suas resistências psíquicas.  No posfácio à publicação do caso, Freud reconhece suas limitações no manejo da transferência, cujos sinais, segundo ele, estavam muito nítidos nos sonhos relatados por Dora. Ele atribui essas limitações ao curto período de duração do tratamento, interrompido pela própria paciente em menos de três meses de seu início. Mas essa visão é apenas uma faísca de luz dentro do “ponto cego”. A postura investigativa de Freud na prática psicanalítica, estabelecida a partir de seus pressupostos acerca dos trabalhos psíquicos das pacientes, leva-o, nesse caso, a tomar fundamentalmente para si a tarefa da interpretação: é ele, o analista, o principal responsável pelas elaborações e sínteses, e não Dora. Diante dessa postura, não poderia haver espaço para a escuta aberta das associações e da interpretação da paciente. O que pode explicar, em boa parte, sua desistência precoce do tratamento.
LIBERDADE_KLEINIANA_SERMOS_TUDO_MESMO_TEMPO_AGORA Blog Masonry - Results from #228

A liberdade kleiniana de sermos tudo ao mesmo tempo agora

Por Lia Stella Paiva Fontenele -  Melanie Klein teorizou que a dinâmica de nossa psiquê acontece num movimento pendular que envolve um conjunto de elementos como relações objetais, fantasias inconscientes, ansiedades, ego, defesas, infância arcaica permeados pelas pulsões de vida e morte. Ela nomeou essa dinâmica de Teoria das Posições. Posição para Klein é um movimento intrapsíquico que ocorre na infância mais rudimentar, acompanha o sujeito ao longo da vida e é responsável por demarcar sua relação com o objeto. Ela dividiu essas posições em duas: Esquizoparanóide e Depressiva. Klein se denominava freudiana, ela se aprofundou na Psicanálise do mestre, mas criou suas próprias bases. Foi pioneira na Clínica Analítica Infantil com o uso de atividades lúdicas, jogos infantis e brincadeiras de modo a buscar correlação entre o funcionamento psíquico e as relações de objeto. Ela concentrou seus estudos na infância mais primitiva, tendo como ponto de partida a agressividade, ao contrário da teoria freudiana que teve a sexualidade como tema determinante em seu trabalho. Outro ponto de divergência em relação à teoria freudiana se deu sobre os estágios de maturação biológica do sujeito. Ele postula que esses estágios são acompanhados por fases psicossexuais que têm início no nascimento e se desenvolvem até a fase adulta. Para Freud, o desenvolvimento psicossexual evolui de forma linear, dimensionado em 5 fases distintas, denominadas: oral, anal, fálica, latência e genital. Com exceção do período de latência que não é um estágio sexual e sim de repressão dos desejos inconscientes, as demais fases são a expressão da libido em diferentes partes do corpo. Diferente da linearidade de Freud, Klein pensa o modelo de Posição como um movimento de dentro e fora, de entra e sai, de um lado e outro. Funcionamos numa dinâmica oscilante, num movimento pendular que surge no nascimento e nunca mais nos abandona. De um lado a posição depressiva, do outro a paranoide, num constante embate. A diferença é que nesse duelo de forças não existe ser somente isso OU aquilo, as posições não são excludentes, elas coabitam. A ideia é sobreviver ao ser isso E ser aquilo ao mesmo tempo, com razoável equilíbrio. Aceitar que somos seres paradoxais, incoerentes por natureza. O grande desafio é que, por vezes, o pêndulo tem o deslocamento muito acentuado. A psicanálise entra como um desacelerador do processo, nunca como um freio. Joga luz nas ansiedades e respectivos mecanismos de defesa desencadeados por cada uma das posições. Em seus estudos sobre a psique infantil, Klein inferiu que o bebê já nasce mergulhado na posição Paranoide como consequência da imaturidade do EGO. Ele permanece nessa posição até os 5 meses de vida, aproximadamente. A 1ª manifestação da consciência é de ansiedade, de medo porque é a 1ª relação do bebê como o mundo externo, representado pelo seio materno ou objeto parcial como conceituou Klein. Essa ansiedade é persecutória, aqui vige a ‘Lei de Talião’: o que eu fizer com esse seio voltará para mim. O bebê neste momento está apenas preocupado em se salvar e salvar o objeto bom. Como o EGO está imaturo e fragmentado, o seio também está. Existe o seio bom e o mau e são excludentes. O bom gratifica e o mau frustra. Para se defender da persecutoriedade inerente à posição Paranoide, alguns mecanismos são acionados como: idealização, projeção, introjeção, cisão, negação e identificação projetiva. A idealização é uma defesa que leva o objeto para os extremos para torná-lo mais fácil de manejar. Com esse afastamento fica claro qual objeto que deve ser atacado e qual deve ser preservado. Nos 1os momentos de vida, o EGO tenta guardar a ideia de si mesmo apenas como lugar de satisfação e sentimentos bons. Tensão e desprazer são projetados para objetos externos que então são vistos como persecutórios. Essa projeção assim como a introjeção servem como atenuantes para o instinto de morte. A introjeção de boas sensações e vivências torna possível a formação do EGO. Já a introjeção de experiências ruins tende a cindir o EGO. A cisão é uma defesa maniqueísta. Divide o bom do mau, o joio do trigo. Essa divisão atua para salvar o sujeito do perigo que ele imagina ser constante. Já a negação é a forma que o EGO encontrou para se relacionar com o objeto mau. Esse mecanismo é muito comum em processos de luto, perdas. A psiquê nega os objetos, despreza-os de forma a não entrar em contato com a dor. Por último, a identificação projetiva apesar de não ser um conceito original de Klein entra como ponto alto na sua Teoria. Nessa defesa, o bebê coloca uma parte de seu EGO num objeto. Essa projeção pode ser tanto da parte boa como da ruim. Tem como característica ser anal porque projeta numa tentativa de controlar o objeto. Esse controle é o que difere a identificação projetiva da projeção. Essa defesa aumenta a persecutoriedade por saber que uma parte de mim está no outro e me sinto ameaçado. A posição Depressiva começa a ser desenhada por volta dos 6 meses de vida. Ela tem como característica uma maior aproximação com a realidade. Enquanto a preocupação na Esquizoparanóide é com o objeto parcial, a Depressiva se ocupa do objeto total, ou seja, a mãe. Aqui há a integralização do EGO, anteriormente fragmentado. A ansiedade nessa posição é pesarosa, uma angústia de colocar em perigo o objeto que foi incorporado, teme por arruinar esse objeto amado. Considerando que a natureza das defesas nessa posição é de reparação, os mecanismos de defesa se apresentam abrandados. A clivagem, projeção e idealização diminuem de intensidade. Nenhum objeto é agudamente bom ou mau. Há uma aproximação desses polos opostos, mas ainda assim existe ataques aos objetos maus porque a ansiedade ainda se faz presente. Já a introjeção nessa posição é expandida. Quando a criança passa a ter uma maior consciência de si, ela já percebe a mãe como um objeto apartado dele e quer introjeta-lo como forma de se fundir com o objeto amado. Mais importante que preservar o EGO é preservar o objeto bom. Nessa posição a criança aprende a amar e a ter sentimentos de gratidão.
BION_DIFERENTE_FREUD_KLEIN Blog Masonry - Results from #228

Bion: o que o torna diferente de Freud e Klein?

Por Diego Da Silva Geoffroy -  A psicanálise depois de Freud toma caminhos diferentes. Poderíamos dizer que ela vai se desenvolvendo a medida em que diferentes analistas vão relendo Freud, e aplicando a psicanálise em perspectivas até então não desbravadas por ele. Neste trabalho farei um breve percurso sobre esses autores destacando suas peculiaridades e avanços mais importantes.  Podemos dizer que todo psicanalista é freudiano, pois todos eles estão ligados aos conhecimentos metapsicológicos de Freud. Mas também é um fato que esses pilares técnicos e teóricos vem sofrendo mudanças significativas, sempre influenciados pela maneira como cada sucessor de Freud aplica a psicanálise, e também pela questão cultural e temporal em que cada um vive, interferindo assim no olhar do analista sobre o mundo. Naquilo que podemos chamar de escola predominantemente freudiana, destacamos a valorização dos aspectos inconscientes, dos conceitos de pulsão e recalque, formulando a partir disso um modelo de tratamento das neuroses. Para Freud, nossos desejos e nossas angústias estão relacionadas as nossas experiências mais remotas, e que segundo ele, precisam ser investigadas. Aquilo que ele entende como sintoma é um retorno de algo que foi recalcado, e, portanto, está escondido em algum lugar do inconsciente. Freud vai propor um desenvolvimento humano em fases denominadas de oral, anal e fálica, com idades mais ou menos definidas para que cada uma aconteça. Elas podem se mesclar, mas o complexo de édipo, por exemplo, seria vivido lá pelos 3 ou 5 anos de idade. E as consequências de como o sujeito passa por essa experiência determinaria muitas escolhas que ele faz durante a vida. A sexualidade infantil tem papel fundamental dentro de sua teoria, e o caminho que ele encontrou para desenvolver essas questões sexuais, foi inicialmente investigar a mente do adulto e, então, partir em direção a infância e suas etapas de desenvolvimento. Partindo aqui para a escola kleiniana, pode-se dizer que Klein nos apresenta novos horizontes de escuta e entendimento desse desenvolvimento humano. Ela inaugura um novo tempo na psicanálise em que se tornou possível o trabalho com crianças por meio da brincadeira, sem abandonar a seriedade do trabalho analítico desenvolvido com os adultos. Por meio de uma compreensão do funcionamento psíquico dos bebês desde o nascimento, Klein deu início a análise de pacientes psicóticos. Isso foi possível porque com o desenvolvimento do conceito de posição e do caráter oscilatório dessas posições, podia-se interpretar as ansiedades dos pacientes para além da ideia de estrutura proposta por Freud. Ela propõe a angústia de aniquilamento como uma questão primordial no desenvolvimento dos bebês, além de destacar a importância de se observar as fantasias inconscientes presentes nos primeiros meses de vida. Sendo assim, ela conseguia perceber a existência de defesas bem primitivas na vida das crianças, em um período bem anterior ao que Freud havia proposto. Ela também desenvolve o conceito de identificação projetiva, que é importantíssimo na prática clínica. Além disso, ela entende o sujeito dentro da lógica das posições, em que o sujeito, ao longo da vida, opera de forma persecutória ou depressiva, no qual essas duas posições podem coexistir e se manifestar mutuamente. Klein contrapondo a visão fálica de Freud dá ênfase no seio como meio de valorizar a relação primitiva entre a mãe e o bebê. Ela migra de uma visão falocêntrica para uma visão em que, a partir da relação com o seio enquanto primeiro objeto, o bebê pode internalizar objetos bons e maus, totais e parciais, idealizados e persecutórios. Klein também investiu sua atenção nas pulsões agressivas, onde ela destacava a presença de uma inveja inata, de fantasias inconscientes de ataques destrutivos em direção a um objeto mau internalizado. Ela salientava a importância de se poder interpretar esses ataques e essas ansiedades, possibilitando que o paciente entrasse em contato com a culpa por tais atos, e pudesse integrar o ego a partir desse trabalho. A partir daqui podemos começar a trafegar pelas ideias de Bion. Ele tem como marca registrada o fato de não se preocupar em estabelecer uma teoria. Seu objetivo maior foi o de desenhar um arcabouço técnico, que nos permitisse trabalhar com a experiência emocional vivida pelo paciente de forma eficaz e bem orientada.  Um dos intuitos de Bion era criar modelos que possibilitassem combinações, e que funcionassem como ferramentas de investigação psíquica da experiência emocional. Para ele a análise é vincular, ou seja, acontece na relação entre duas pessoas que enfrentam verdades, angústias e emoções. Para que isso aconteça, ele diz que o analista deve ter condições mínimas de atendimento ao outro, como ser verdadeiro com seu paciente, sustentar um estado de constante descobrimento em relação a ele, ser continente e realizar a função alfa diante daquilo que o paciente lhe dirige. Bion valoriza também a intuição do analista, e destaca a importância de a mente do analista estar livre de memória, desejo e necessidade de compreensão imediata das questões do paciente. Ele cria uma estrutura de trabalho psíquico que possibilite que a psicanálise seja aplicada para além dos conflitos inconscientes, de modo que aspectos conscientes também carregam sua importância. Ele propõe uma visão que amplie as perspectivas sobre uma experiência, de modo que se possa olhar por diferentes vértices para um mesmo acontecimento psíquico. Isso proporcionaria ao sujeito a chance de integrar diferentes aspectos da personalidade que coexistem em nosso psiquismo. A análise para ele seria uma travessia nesses mundos existentes e desconexos, e uma exploração desses mundos em busca de novos conhecimentos sobre si. O que Bion traz como diferença em sua proposta, quando comparado a psicanálise clássica, é que nossa interpretação enquanto analistas não se direciona a fatos conhecidos ou pré-determinados, mas a um movimento que provoca transformações e descobertas, onde o analisando se torna um grande questionador de si mesmo, das suas verdades e suas contradições. Para Bion não faz sentido uma cura analítica, mas sim a ideia de expansão do pensamento, de abertura dos horizontes do próprio sujeito. Não se trata de achar o trauma, ou interpretar fantasias, mas de expandir a capacidade de pensar do sujeito num universo sempre em movimento. Para Bion o pensamento antecede o pensador. Com ele não sabemos para onde retornar, não sabemos onde está o problema ou qual direção seguir. Bion possibilita novas descobertas, de modo que elas sejam particulares e infinitas, ou seja, enquanto houver possibilidade de interrogar o conhecido, haverá milhares de possibilidades de se continuar conhecendo.
CONSCIENTE_PRE_CONSCIENTE_INCONSCIENTE_ID_EGO_SUPEREGO Blog Masonry - Results from #228

Consciente, pré-consciente e inconsciente X id, ego e superego: instâncias que podem atuar de modo sincrônico entre si

Por Silvio Ribeiro da Silva -  A Psicanálise de Freud tem como importantes alicerces o que ficou conhecido como primeira e segunda tópicas, sendo a primeira chamada de teoria topográfica (modelo adotado por Freud para pensar o aparelho mental a partir de uma percepção topográfica da mente, envolvendo consciente, pré-consciente e inconsciente) e a segunda de modelo estrutural (revisão feita por Freud não mais vendo o aparelho mental sob o ponto de vista geográfico, mas do ponto de vista estrutural, envolvendo id, ego e superego). A premissa básica da Psicanálise é a diferenciação do psíquico entre consciente e inconsciente. Se essa diferença não for absorvida, fica impossível a compreensão dos processos patológicos ligados à vida psíquica. Por mais que em essência o psíquico não pertença à consciência, a Psicanálise se vê obrigada a ver a consciência como algo que integra o psiquismo. Em se tratando de inconsciente, sabe-se que o recalque é o estado das ideias que não podem ser conscientes. No processo analítico, é possível perceber a força que provocou e manteve o recalque, que é a forma prototípica do inconsciente. Dois tipos de inconsciente se manifestam na psique: um latente, capaz de se tornar consciente, e um reprimido, incapaz de se tornar consciente. No sentido descritivo, existem o inconsciente e o consciente; no sentido dinâmico, só existe o consciente/inconsciente juntos, o que significa dizer que não existe um sem o outro. A instância responsável pela organização dos processos psíquicos na pessoa é o ego, que se liga à consciência, dominando a descarga de excitações no mundo externo. É preciso deixar claro que ego não é sinônimo de consciente, já que sua gênese está no inconsciente. No processo analítico, haverá contraposição do recalque em relação ao ego. Toda vez que ocorre uma aproximação do conteúdo recalcado, a continuidade da associação é dificultada e a resistência entra em ação, por mais que o individuo em análise desconheça a existência desse mecanismo, já que ele é inconsciente. Em relação a esse processo, cabe considerar que todo recalcado é inconsciente, mas nem todo inconsciente é recalcado. O ego é uma parte do id a qual sofreu alterações em decorrência do mundo externo. Ele (ego) se esforça para tornar praticável o princípio da realidade, ao contrário do id, já que neste o que prevalece é o princípio do prazer. O ego traz em si algumas funções essenciais atribuídas ao consciente, além de conter certos elementos inconscientes, como angústias e estratégias de defesa, por exemplo, o que nos mostra sua existência conectada a uma parte consciente e também a uma parte inconsciente. O mundo externo age modificando uma parte do id, originando o ego. Isso significa dizer que o ego é formado inicialmente pela parte do id que se modificou a partir do contato com o mundo externo. Em se tratando do superego, ele é um resíduo das primeiras escolhas objetais do id, sendo originado a partir de uma formação reativa deste. Segundo o que Freud nos diz no texto “O Eu e o Id” (1923), quanto mais forte tiver sido o complexo de Édipo, mais rapidamente ocorreu seu recalque e mais intenso será o domínio do superego sobre o ego, agindo com o intento de uma consciência moral. No início da vida, somos apenas id, totalmente tomados pelas pulsões. Como já visto em relação às pulsões, quanto maior a tensão, maior o desprazer. Assim, o id visa sempre a uma descarga pulsional. Em se tratando do período do autoerotismo, narcisismo e amor de objeto, o surgimento do ego se dá logo após o autoerotismo, dando início ao narcisismo. No período do autoerotismo, o ser é totalmente id. No período narcísico, no auge da fase fálica, ocorre o complexo de Édipo, momento em que o fenômeno da castração atua. A pessoa que exerce a função paterna tem um papel preponderante no fenômeno da castração. Essa pessoa executora da função paterna introjetará na personalidade do ser a figura da castração, fazendo com que surja o superego. O superego, na visão de Freud, é o herdeiro do complexo de Édipo. Este é essencial para o desenvolvimento geral do indivíduo pelo fato de que é ele que garante a separação da criança com os pais já que ela passa a notar que está se tornando independente, além de não ser mais o centro do mundo. A formação do superego ocorrerá a partir das reações contra as escolhas objetais do id ocorridas ao longo do complexo de Édipo. O superego se consolida a partir das indicações do ideal de ego além do indicativo da proibição. Em se tratando de diferenças entre a primeira e a segunda tópicas, podemos afirmar que a partir da segunda o inconsciente deixou de ser tratado como um lugar (do ponto de vista geográfico), sendo caracterizado como uma das estruturas que compõem a psique, como já dito no início deste texto. Assim, uma parte do ego e uma parte do superego podem ser inconscientes, ao passo que o id só pode se tornar consciente se for transformado em uma representação, o que significa que suas formas originais permanecerão inconscientes, independente do lugar onde o inconsciente fique, mesmo porque a partir da revisão feita por Freud essa ideia de que o aparelho psíquico era formado por lugares determinados deixou de ser levada adiante. Assim, pode-se perceber que a segunda tópica não substitui a primeira. Não era este o intento de Freud. O que ele pretendeu foi mostrar que não era mais viável encarar a mente como sendo compartimentada por três instâncias com fronteiras demarcadas, mas esclarecer que essas instâncias não são fixas e podem atuar de modo sincrônico junto ao ego, ao id e/ou ao superego.
DESCONSTRUCAO_TEORIAS_PSICANALITICAS_HISTERIA_SEDUCAO_ Blog Masonry - Results from #228

(Des)construções nas teorias psicanalíticas: da histeria à sedução

Por Patrícia de Pádua Castro -  Na “Comunicação Preliminar” (1893), Freud começa a buscar o entendimento da etiologia da histeria e sua ligação com a sexualidade. Aponta os sintomas histéricos como a manifestação presente de um trauma ocorrido no passado, sendo que a causa precipitadora deste trauma encontra-se, frequentemente, em eventos ocorridos na infância. O modelo teórico para a formação do trauma psíquico se dá na incapacidade de reação adequada do sujeito frente a um “acontecimento afetante”, sendo então, a representação do conteúdo insuportável expulso da consciência (recalcado), permanecendo o afeto sem desgaste por ab-reação ou pelo trabalho associativo do pensamento. Essa cisão da consciência faz com que a recordação do trauma não permaneça na memória normal do paciente e para ter acesso a esta representação recalcada, o médico (analista) deve buscá-la na memória do hipnotizado. A soma de excitação desvinculada da representação pode ser utilizada de formas distintas nas psicopatologias de histeria, obsessões, fobias e psicose alucinatória. A hipnose possibilita a expansão da consciência e propicia ao paciente a possibilidade de reviver o trauma e descarregar a soma de excitação por meio da fala, tendo o paciente uma segunda oportunidade de ab-reação adequada e correção associativa. Neste aspecto, o método catártico, “a cura pela fala”, mostra-se mais vantajoso e eficaz do que a sugestão médica sob hipnose. A ideia de o sintoma ser a manifestação de um trauma ocorrido no passado, geralmente na infância, associado à etiologia da histeria ser unicamente de origem sexual, fez com que Freud acreditasse que os pacientes histéricos teriam sofrido um abuso sexual real, no âmbito físico, o que formaria a base para a “Teoria da sedução”. Neste caso, além da etiologia do trauma, o período de ocorrência seriam condições determinantes para instalação da doença psíquica. O trauma deveria ocorrer antes da puberdade, período em que a criança não tem condição psíquica de correção associativa ou de ab-reação adequada, ficando então a representação incompatível recalcada. E a doença psíquica se manifestaria após a puberdade, período de maturidade sexual onde experiências e excitações poderiam trazer o retorno do recalcado e a falha na defesa causando os sintomas. A histeria teria sua origem em uma experiência sexual passiva, enquanto a obsessão se originaria de uma experiência ativa, provavelmente, posterior a uma experiência passiva. As diferenças entre as neuroses, embora na mesma etiologia estariam no processo de defesa, a representação intolerável se converte em dor física na histeria e na obsessão se desloca para o pensamento No ano de 1897, em uma carta enviada a Fliess, Freud começa a repensar a sua “Teoria da Sedução” por achar difícil a generalização de que a causa das neuroses é um ato sexual real ocorrido na infância e normalmente, segundo os seus casos, cometido pelo pai. Tal desconfiança abre portas para se iniciar a consideração da “fantasia histérica” como causa do trauma, o que foi relatado posteriormente em 1906. O equívoco na elaboração da “Teoria da Sedução” e outros ocorridos no estudo da histeria podem ser explicados pela forma como a técnica fora conduzida até o momento. O método catártico, apresentado por Breuer, se origina do método de hipnose apresentado por Mesmer, em que se acreditava que o paciente sob hipnose diz sempre a verdade. Na hipnose, o hipnotizado “dorme para o mundo e está acordado para o hipnotizador”, apresentando uma postura obediente e crédula, sendo então passível de aceitar a sugestão do médico para alterar o seu estado anímico-corporal. Porém a limitação da hipnose aparece em situações em que a sugestão não é aceita, ou em que seu efeito é temporário, ou até mesmo com pacientes não hipnotizáveis, o que levou a necessidade de buscar outros procedimentos que possibilitassem uma intervenção mais profunda e em um número de casos mais abrangentes. No método catártico o médico deve seguir a trilha do sofrimento, ou seja, uma reconstrução histórica do sofrimento, apresentada pela fala do paciente, conduzindo-o até a sua causa primária (sintoma está ligado a um trauma do passado), dando-o a oportunidade ao paciente de reagir ao trauma de maneira adequada e ocorrendo então, a suspensão dos sintomas e eliminação do padecimento. Algumas modificações foram feitas por Freud no método proposto por Breuer, dentre elas que, durante a escuta e condução do paciente no processo de psicoterapia, o médico deveria ficar atento à fisionomia do paciente e à suas reações, pois se identificasse alguma resistência ao falar, ou tentativa de ocultar algo, deveria insistir com o paciente até extrair a verdade dele. Nesse momento o conceito de resistência aparece como um dos fundamentos da teoria psicanalítica freudiana, embora essa ainda esteja mesclada com o método catártico, se ocupando em buscar a verdade em acontecimentos ocorridos no passado do paciente, e apresentando um Freud mais preocupado em provar suas teorias do que fazer uma investigação do inconsciente. A resistência possibilita a compreensão do comportamento do paciente e juntamente com a transferência oferecem a base para resolver a questão temporal presente no método catártico. Na transferência o paciente tende a reviver suas ideias penosas que surgem durante a análise na relação com o médico (analista), ideias essas que podem ter ocorrido no âmbito real ou imaginário, trazendo então para o presente situações que antes se supunha ter vivenciado apenas no passado. Deste modo, a “verdade e sua busca” saem do passado e se instalam numa relação presente e essa relação transferencialpassa a ser o objeto de trabalho em um consultório.
DIALETICA_SOFRIMENTO_RELACAO_RECIPROCA_PACIENTE_ANALISTA Blog Masonry - Results from #228

Dialética do sofrimento: a relação recíproca entre paciente e analista

atePor Cilene Domitila Martins Poli -  O presente projeto se propõe a estudar a relação, mais especificamente o compartilhamento de dor que ocorre entre alguns analistas e pacientes. Para tanto, introduz-se o tema da psicanálise e o cenário em que são feitos os atendimentos, já que é neste setting que ocorre a transferência do sofrimento, da dor psíquica; é aqui que reconhecemos a dialética deste fenômeno de compartilhamento, uma vez que alguns psicanalistas, profissionais, se veem divididos entre prática e teoria. Para compreender melhor como se dá essa divisão, em um segundo momento nos concentramos em entender quais são estas teorias sobre o sofrimento, como ele se manifesta e quais são alguns dos principais teóricos que se debruçaram sobre o tema. Alega-se que a teoria muitas vezes não condiz com a prática e que muitas vezes, por também ser um ser humano, vivo, o analista pode sucumbir às máximas da neutralidade e abstinência; assim, tendo estudado a teoria, nos voltamos a prática e a realidade das sessões psicanalíticas – aqui focamos em mapear os principais meios para diminuir o abismo entre teoria e prática, também nos perguntando se os sentimentos dos analistas são de fato um empecilho. PALAVRAS-CHAVE: sofrimento; posição do analista; abstinência; contratransferência e neutralidade.  1. Introdução 1.1 Objetivo e MetodologiaO presente artigo surgiu do desejo de melhor compreender as transformações psíquicas vivenciadas por alguns analistas, no que diz respeito ao sofrimento que, muitas vezes, é compartilhado com o paciente. Assim, a proposta deste trabalho é oportunizar uma reflexão sobre este sentimento e o papel do analista de acordo com os princípios da Psicanálise. Para tanto, a metodologia utilizada é uma junção das experiências pessoais obtidas ao longo do curso com a pesquisa bibliografia, feita por meio da leitura e análise dos princípios teóricos e técnicos da psicoterapia psicanalítica. 1.2 TemaA Psicanálise, assim como todas as ciências, busca uma suposta objetividade para pensar seu objeto de estudo. Assim como o físico estuda os fenômenos da natureza, tendo uma nítida separação entre aquele que está estudando (sujeito) com aquilo que está sendo analisado (objeto), alguns analistas, durante o atendimento, também buscam por uma suposta “neutralidade”, tentando muitas vezes colocar o paciente no mesmo patamar de um fenômeno físico. No modelo científico a intenção é conhecer o objeto; no modelo psicanalítico a intenção é conhecê-lo para transforma-lo, entretanto, a intensa interação entre analista e analisando é o que diferencia a situação analítica da experiência física, científica – e essa interação borra a diferença entre observador e observado, entre sujeito e objeto (ARMONY, 2013). É o caso de alguns psicanalistas que, durante o decorrer do atendimento, acabam se fundindo ao pensamento do seu objeto de estudo. Essa junção resulta no “sofrimento”, o que por consequência estabelece uma nova relação entre sujeito e objeto, um possível compartilhamento do sentimento; isso se deve ao fato do objeto de estudo do psicanalista ser o próprio ser humano, fazendo com que várias vezes este analista acabe se identificando com seu objeto de estudo, já que, de acordo com Armony (2013), o profissional deve ter a capacidade de se identificar e ter empatia com o analisando, sendo capaz de perceber os seus próprios dinamismos psíquicos em referência a si. A partir dessa relação entre sujeito e objeto, compreendo que durante o atendimento podemos dizer que há uma relação dialética do sofrimento. Isso porque a dialética supõe que há uma tese que vai ser negada (antítese) produzindo uma síntese;  durante o atendimento podemos dizer que há uma suposta objetividade (tese) que é negada com a identificação do analista com seu objeto (antítese) produzindo uma nova relação entre o paciente e o psicanalista (síntese). Na prática, isso significa que, no começo da análise, alguns psicanalistas procuram estabelecer uma distância perante o sofrimento do paciente, justamente para tentar mimetizar a metodologia das ciências físicas. Entretanto, o pensamento do psicanalista, influenciado pela dor do paciente, pode resultar em uma assimilação do psicanalista com o analisando, resultando em uma nova relação entre os dois. No caso desta nova realidade há, o tempo todo durante o atendimento, uma relação recíproca com o sofrimento. O sofrimento psíquico do paciente pode prejudicar a posição do psicanalista, provocando o sofrimento do mesmo; essa interferência muitas vezes pode prejudicar os atendimentos, uma vez que o analista corre o risco de ficar aprisionado na demanda do paciente. A partir disso, os principais desenvolvimentos deste trabalho se debruçam sobre as seguintes perguntas: como podemos pensar o sofrimento psíquico? O analista tem recursos técnicos para não se contaminar? 2. A dialética do sofrimento 2.1. A teoria do sofrimentoDe acordo com o dicionário etimológico, a origem da palavra “sofrer” deriva do latim sufferre, termo pelo qual os velhos romanos designavam quem estava "sob ferros", acorrentado, submetido à força - fosse escravo ou prisioneiro. Assim, o entendimento do popular "sofrimento" é: palavra pela qual melhor se traduz, em português, a infelicidade contínua e intensa e, no momento em que ocorre, irremediável. É justamente o vocábulo que designava a opressão, a submissão, a situação da criatura submetida ao poder de outrem que, como coisa ou "ferramenta", sofre todos os infortúnios capazes de lhe "ferir" (machucar) corpo e alma. Na psicanálise esse entendimento pode deixar a realidade física e migrar para o ambiente mental, emocional. Antes de Freud, o sofrimento psíquico não tinha uma compreensão subjetiva, a sua interpretação era norteada por duas visões: a visão médica, associada a problemas físicos e a visão moral, definida pela doutrina religiosa, atrelada a uma intervenção disciplinar. No entanto, Freud acreditava que o sofrimento humano era mais abrangente, podendo surgir de três caminhos diferentes: da soma, do mundo externo e/ou do convívio com outras pessoas; a partir disso, a clínica da histeria foi o primeiro caso de sofrimento psíquico a inaugurar o tratamento psicanalítico, validando a existência de uma autonomia do sofrimento psíquico. Complementando a subjetividade defendida por Freud, Duncker (2012) entende que o sofrimento humano é universal, mas não é idêntico ao longo do tempo e nem igual para todas as culturas. O sofrimento é uma emoção particular motivada por qualquer condição que submeta o nosso sistema nervoso ao desgaste de maneira consciente ou inconsciente - haveria um elo com a liberdade que foi perdido e que necessitaria ser reinventado. Para o autor, a natureza da experiência do sofrimento se transforma conforme falamos dele ou não, a exteriorização desse sentimento seria uma espécie de enlaçador social, uma ligação que tende a tocar o Outro e, por isso, o sofrimento aproxima as pessoas, é uma qualidade da empatia dos seres humanos. Outra expoente contemporânea que se dispôs a investigar sobre a dor e o sofrimento foi a psicanalista portuguesa Manuela Fleming (2003). Fleming defende em seu livro “A dor sem nome: pensar o sofrimento” a ideia de que onde existe a dor existe a busca, existe a procura pelo Outro, já que o sofredor procura ser escutado, procura o contato, as palavras, procura, por fim, uma linguagem que contenha a dor e a torne suportável; esta dor necessita sentido e compartilhamento para ser sentida. Essa compreensão de Fleming está em linha com a exteriorização do sofrimento estudado por Duncker, que também a entendia como a busca pelo Outro pra validar o sofrimento. Fleming define a sessão de análise como “uma escuta das dores mentais”, já sendo esperado que o sujeito adentre a clínica psicanalítica procurando respaldo para as suas dores e sofrimentos. Durante essa análise, por inúmeros momentos, alguns pacientes permanecem “surdos”, incapazes de digerir qualquer contribuição do analista, que tem sua função reduzida a “acolher, receber e conter, o que inevitavelmente coloca o analista perante os seus próprios limiares de tolerância à dor mental” (2003, p. 107).  Em termos gerais, o analista acolheria o sofrimento do paciente e, ao reconhece-lo, o validaria como verdadeiro, respeitando toda a sua singularidade ao ser sensível diante de sua demanda. Essa interação entre identificações projetivas e introjetivas entre analista e analisando são muito importantes na clínica contemporânea, pois um depositará no outro seus objetos internos, experiências e fantasias inconscientes. Espera-se que, durante o processo analítico, o analista tenha, no mínimo, condições de regredir com o paciente, para melhor entendê-lo, mas logo voltar ao normal. (SILVA FILHO, 2002). Com base nos autores apresentados acima, compreendemos que a pessoa do analista é o guardião do setting, mas este, por também ser humano, está sujeito as ressonâncias advindas do sofrimento do paciente. É uma posição desafiadora, esta de guardião neutro, uma vez que exige que o analista esteja sempre vigilante e domine as técnicas psicanalíticas, a fim de manter-se vivo diante das demandas – essencial para sustentar o atendimento durante o período necessário para o paciente. 2.2. O sofrimento na prática Apesar do entendimento dos procedimentos e limites de uma análise, entendo que, em alguns momentos, a teoria psicanalítica se distancia da pratica vivenciada nos atendimentos. Não é suficiente entender os teóricos do sofrimento e os limites pré-estabelecidos como um check-list, uma lista de afazeres a ser seguida; sendo assim,  considero importante pontuar algumas regras da teoria psicanalítica que auxiliam o analista a separar os conteúdos internos do paciente e dos seus próprios.Com a intenção de orientar esse processo analítico, Freud deu ênfase a quatro regras mínimas para se conduzir o atendimento psicanalítico: a associação livre (regra fundamental), a atenção flutuante, a abstinência e a neutralidade. Enquanto a associação livre e a atenção flutuante focam em fazer com que o conteúdo inconsciente do paciente emerja durante o processo analítico, acredito que a abstinência e a neutralidade, por lidarem diretamente com o relacionamento interpessoal, se relacionem mais diretamente com o compartilhamento do sofrimento - sendo assim, neste artigo, foca-se no entendimento destas duas últimas regras em especial. A regra de abstinência refere-se à necessidade do analista de se abster de qualquer tipo de atividade que não seja unicamente o da interpretação, preservando ao máximo o seu anonimato e evitando qualquer gratificação externa (ZIMERMAN, 2004). De acordo com Laplanche e Pontalis (2001) o analista deve conduzir o tratamento de uma maneira que o paciente encontre menores possibilidades de satisfação substitutiva para aos seus sintomas. Napoli (2014) comenta que, segundo a visão freudiana, é preciso recusar a demanda de amor do paciente, mantendo o doente em um estado de insatisfação suficientemente bom, com a intenção do recalcado permanecer se manifestando, tornando-se objeto da consciência. A ideia é reforçada no congresso de Budapeste, em 1918, quando Freud justificou teoricamente a regra de abstinência afirmando que “por mais cruel que possa parecer, devemos fazer o possível para que o sofrimento do doente não desapareça prematuramente de modo acentuado” (LAPLANCHE e PONTALIS, 2001, p.3). Nota-se que a visão clássica freudiana tem a intenção de aumentar a tensão psíquica do paciente, frustrando a sua demanda e, por consequência, facilitando o surgimento dos conteúdos recalcados.  Zimerman (2005), por sua vez, sintetiza a regra da abstinência afirmando que a melhor forma de o analista atender as demandas do paciente é a de entender e interpretar o “por quê” e “para que?” delas. Outra regra citada por Freud que neste artigo se faz igualmente importante à abstinência é a neutralidade. Segundo o Vocabulário da Psicanálise Laplanche e Pontalis (2001),  a neutralidade é o que deveria definir a atitude do analista no tratamento, o profissional deve ser neutro em relação a quaisquer valores, sejam estes religiosos, morais ou sociais; o psicanalista deve se manter neutro frente às manifestações transferenciais, ou seja, não deve entrar no jogo do paciente, mantendo-se neutro quanto ao discurso do analisando. Em seu texto “Neutralidade e Psicanálise”, Armony (2013) comenta que o analista tem a obrigação de impedir que a sua subjetividade contamine as manifestações do inconsciente do paciente. Este é um requisito para o analista ter certeza de que as suas percepções, interpretações e intervenções estariam associadas unicamente com o paciente, sendo o analista apenas um reflexo - para compreender melhor essa ideia, podemos nos debruçar sobre a “metáfora do espelho”, citada por Zimerman (2005). A metáfora seria a representação do cenário analítico em que o “o psicanalista deve ser opaco aos seus pacientes e, como um espelho, não lhes mostrar nada, exceto o que lhes for mostrado”; a visão freudiana de um “analista-espelho” e de opacidade não significa, necessariamente, um descaso ou uma frieza emocional por parte do analista, trata-se apenas de uma recomendação para que o analista não seja transparente, não se deixe expor os seus próprios sentimentos. A partir disso, é possível compreender que o analista não deve se posicionar, durante o atendimento, como uma pessoa que esta se relacionando com outra – é necessário que ele esteja “apagado”, a fim de criar condições para que o inconsciente se faça presente. No entanto, esta postura freudiana suscitou em alguns autores como Winnicott e Ferenczi um olhar diferenciado sobre neutralidade, já que ambos entendiam que os sentimentos do analistas, durante o atendimento, têm seu valor para a análise. Nas palavras de Ferenczi, “não será natural, e também oportuno, ser francamente um ser dotado de emoções, ora capaz de empatia, ora abertamente irritado? O que quer dizer: mostrar-se sem disfarces, tal como se exige do paciente” (1932, p.132). Do ponto de vista ferencziano, o analista precisa fazer uso da empatia e se posicionar não mais em uma posição de neutralidade e objetividade, mas deve demonstrar sintonia, respeitando e sentindo o sofrimento que lhe é dirigido (NAPOLI, 2014); este entendimento de neutralidade está em linha com Zimerman, visto que o autor acredita que a máxima do analista neutro seja uma ilusão, impossível de ser atingida já que o analista é um ser. Ainda não citado, existe um terceiro aspecto requisitado dos analistas, tão importante quanto a neutralidade e abstinência: a contratransferência. De acordo com Laplanche e Pontalis (2001), a contratransferência diz respeito as reações conscientes e inconscientes do analista para com o analisando - na prática analítica é considerada como um dos fenômenos mais fundamentais e carregado de muitas controversas. De um lado, existe a defesa freudiana de que a contratransferência é um fenômeno que atrapalha o processo da análise, uma forma marcante de resistência; do outro, existem interpretações que consideram o fenômeno digno de estudo e entendimento, Zimerman (1999) acredita que a mesma abre uma nova possibilidade de escuta: a escuta da própria emoção do analista em frente a verbalização do paciente. Mesmo anterior a Zimerman, Heimann (1950) sempre observou a contratransferência como uma ferramenta de análise positiva e valiosa, “minha tese é que a resposta emocional em correlação a seu cliente dentro da situação analítica representa uma das mais importantes ferramentas de seu trabalho. A contratransferência do psicanalista é um instrumento de pesquisa sobre o inconsciente de seu paciente” (idem, p. 28). Para Ferenczi (1992) quando o analista se afasta de uma posição relativamente segura oferecida pela neutralidade e abstinência, ele adota uma posição de “parceria”, no sentido de ter disponibilidade afetiva, transformando-se, metaforicamente, na figura do “João Teimoso”, visto que receberá vários movimentos afetivos, de agressivos a amorosos, mas conseguirá retornar a posição original e assim ser capaz de sobreviver a esses movimentos. Ferenczi faz a seguinte descrição: O analista no tratamento deve prestar-se, às vezes durante semanas, ao papel de “joão teimoso”, em quem o paciente exercita seus afetos de desprazer. Se não só não nos protegermos, mas, em todas as ocasiões, encorajarmos também o paciente, já bastante tímido, colheremos mais cedo ou mais tarde a recompensa bem merecida de nossa paciência, sob a forma de uma nascente transferência positiva (1992, p.35). Dessa forma, a contratransferência é, sem dúvida, mais um aspecto que deve ser considerado na tentativa de entender a dialética do sofrimento que pode ocorrer entre alguns analistas e pacientes. À primeira vista e na contramão das regras de abstinência e neutralidade, a contratransferência pode se tornar uma realidade quando alguns psicanalistas falham em estabelecer limites psíquicos na sua relação com o analisando. É, no entanto, uma ferramenta que pode se fazer positiva ou negativa dependendo dos recursos internos e técnicos do analista, no sentido de compreender o que é mais efetivo individualmente para seus pacientes. A fim de explicitar este sentimento, compartilho uma vivência pessoal sobre o fenômeno de contratransferência em um dos meus atendimentos. O paciente em questão chama-se Nelson (nome fictício), tem 45 anos, é casado e trabalhou durante quinze anos como agente penitenciário em um presídio de segurança máxima, mas há seis anos é professor concursado do ensino médio da rede municipal e estadual. Nelson enfrentou alguns problemas pessoais na escola municipal que lhe tiraram o prazer de lecionar na mesma, mas sentia-se obrigado e acorrentado à esta realidade, já que estava prestes a se aposentar. A sua expectativa diante da terapia era resolver sua grande insatisfação diante da própria vida, uma vez que não se via com capacidade de ser e fazer o que realmente desejava. Transcrevo abaixo um trecho do nosso primeiro encontro: Nelson: Tenho a sensação de que muito pouco realizei. Começo, mas não persevero; muitas das vezes sequer começo: fico apenas no campo das ideias porque vários fatores me impedem de realizá-los. Hoje consigo identificar o fator maior que é minha doença; consigo vislumbrar algumas formas tênues para driblá-la, mas falta dar alguns passos para efetivamente realizar aquilo que eu sou. Veja bem: aquilo que eu sou, pois não me vejo como alguém que seja, mas sim como alguém que "gostaria de ser mas não é". Não se trata de "ser o que quero ser", muito mais que isso, trata-se de me sentir realizando a minha própria existência: não me vejo; não me reconheço; não realizo; apenas sou aquele que "gostaria ser" mas que não é. É como se minha existência se resumisse a um "não ser". Você entendeu tudo o que eu te disse? Você é uma profissional, então você deve ter uma solução para este tipo de problema?Neste momento, tive a percepção de que o paciente depositava em mim toda a responsabilidade das suas atitudes e escolhas. Frente a isso, acabei respondendo que “talvez a minha resposta não te agrade muito, pois não tenho soluções mágicas e imediatas, nem uma receita pronta para lhe oferecer”. A resposta, realmente, não lhe agradou e Nelson alegou que precisava de uma orientação mais eficaz, que teria que avaliar se valeria a pena fazer terapia; não consegui nem me despedir dele que, diante da minha resposta, se irritou e desligou o Skype. Minha experiência emocional no momento foi de fracasso profissional, já que não havia tido condições de levar o atendimento a um término mais conciliador - vivi uma semana com um superego me condenando por não ter oferecido um acolhimento adequado. Nelson decidiu continuar o tratamento e, naturalmente, situações como essa se mantiveram durante algumas sessões. As angústias contratransferências e um superego feroz dificultaram as minhas interpretações diante da demanda do paciente; em determinadas ocasiões os rompantes agressivos do paciente com a sua família pareciam ser redirecionados a mim.  No nosso terceiro encontro, contou com raiva e mágoa que havia expulsado a família de casa; a expulsão se deu porque já tinha os avisado que precisava de privacidade para falar comigo, sem que ninguém o escutasse – ele precisava de um momento só dele e os familiares foram obrigados a esperar no quintal. Essa situação de abandono e “expulsão” se deu novamente em uma outra ocasião enquanto acompanhava a filha em uma loja, mas como a filha demorava e seu horário de atendimento estava se aproximando, Nelson acabou deixando-a na loja sem lhe dar qualquer satisfação.Nestes dois momentos fiquei surpresa com os sentimentos variados que tomaram conta de mim, me transferi para o lugar da esposa e me senti indignada com a atitude do paciente; imaginei a raiva e a desilusão da filha diante da atitude de abandono do pai. Foram experiências contratransferênciais difíceis que me provocaram muita irritação, o que, por consequência, me fez condenar, internamente, as decisões de Nelson como negativas. Com o auxílio da supervisão e da análise pessoal percebi o quanto o meu raciocínio clínico estava ficando contaminado, afetando o manejo terapêutico; com a supervisão consegui compreender que as atitudes agressivas e hostis com a família eram, na verdade, um comportamento saudável e compreensível, uma tentativa de ocupar um espaço que fosse seu. Era o ser que ele tanto procurava. 3. Conclusão:A partir do entendimento do tema e da divisão do sofrimento em duas principais vertentes - a teórica, no que diz respeito ao que ele significa, e a prática, quando tentamos lutar contra este sentimento -  é possível que nos debrucemos sobre algumas conclusões sobre o assunto. Em primeiro lugar, compreendemos que o sofrimento é uma emoção universal, que se estabelece de maneira singular no ser humano mas, ao mesmo tempo, é importante que nos preparemos para acolher a demanda dessa emoção da melhor forma possível. Inserir o sofrimento no contexto analítico e alia-lo as regras de abstinência, de neutralidade e do fenômeno da contratransferência mobilizam questões emocionais muito delicadas, nos levando sempre a questionamentos sobre a prática psicanalítica. Seja equiparando a psicanálise ao estudo das ciências quantitativas ou não, Fleming (2003) lembra que, para Bion, a possibilidade de psicanalisar depende da condição do analista de suportar a dor mental – o que revela o pressuposto de que a dor e o sofrimento pode ser amortecido, diminuído mas dificilmente blindado; de acordo com Semer (2008), é esse reconhecimento da dor psíquica que possibilitará ao analista o reconhecimento e a elaboração das emoções contratransferênciais, sem o perigo da ação ou da paralisia. É oportuno lembrar que a Psicanálise prima a busca pela verdade, um elemento libertador e essencial para o crescimento psíquico. A busca é personificada na figura da “pessoa verdadeira” (ZIMMERMAN, 2005), que tem amor pelas verdades, por mais difíceis que estas sejam, logo seria importante transferir o modelo da verdade para o paciente, já que esta é justamente o caminho para o sujeito vir a ser. Por esta razão, quando minha consciência tenta combater as emoções de sofrimento vivenciadas no setting terapêutico, recorro ao posicionamento técnico de Ferenczi. Defensor de uma verdadeira elasticidade da técnica psicanalítica, o autor entende que o analista não poderia ser visto como um lugar, uma função ou até mesmo como um vazio, isso porque o analista é dinâmico e é, antes de tudo, uma pessoa que constitui uma relação real com o paciente. Assim, se o analista tentar ocultar do analisando as suas emoções produzidas durante o processo analítico, ele estará impossibilitando o estabelecimento de uma relação autêntica, verdadeira (NAPOLI, 2014). Para Ferenczi existia uma “hipocrisia profissional” em alguns analistas, aqueles que nunca expressavam as suas emoções para não corromperem com a neutralidade; o autor compreendia a necessidade da empatia e da sintonia diante do sofrimento do Outro, abrindo mão de um posicionamento neutro e objetivo e dando lugar a uma atitude terapêutica espontânea e verdadeira. Paciente e analista são duas pessoas reais com as suas inevitáveis limitações e angústias, assim, tornou-se consensual entre alguns psicanalistas contemporâneos que há uma impossibilidade de continuar concebendo o modelo unipessoal no setting. Uma parte dos profissionais acreditam que tampouco é possível que a análise seja linear e sequencial, uma vez que esta consiste num modelo dialético entre analista e analisando, onde as teses, sofrimentos, apresentadas pelo analisando são confrontadas com as antíteses, perguntas, propostas pelo analista, de modo que resultam em sínteses (insights), transformações, que funcionam como novas teses, caminhos (ZIMERMAM, 1999). De toda forma, independente do posicionamento dos autores – contra ou a favor do compartilhamento do sofrimento – é possível concluir que há uma concordância ao afirmar que o sofrimento, dentro do processo analítico, acarreta mudanças mútuas no par analista-analisando. Estas mudanças geram resultados únicos e nunca replicáveis, e cabe ao analista estabelecer seu modus operanti para garantir que sua qualidade humana não atrapalhe o resultado da análise; ferrenho seguidor da abstinência e da neutralidade ou não, que seja eficaz no gerenciamento de emoções, tanto as suas quanto a dos Outros. 4. BIBLIOGRAFIAARMONY, N (2013) Neutralidade em Psicanálise. Disponível em: http://nahmanarmony.blogspot.com.br/2013/09/neutralidadeem-psicanalise-nahman.html. Acesso em: 04/09/2015.DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO.  Disponível em: http://www.dicionarioetimologico.com.br.   Acesso em: 02/09/15. DOLTO, Françoise. Prefácio. In: MANNONI, Maud. A primeira entrevistaem Psicanálise. Rio de janeiro, Campus, 1980.DUNKER, C. As transformações do sofrimento psíquico, 2012. Disponível: http://www.cpflcultura.com.br/2012/10/22/christian-dunker-as-transformacoes-do-sofrimento-psiquico-2/.  Acesso em 15/09/2015FERENCZI, S. A técnica psicanalítica (1919) in: FERENCZI, S. Obras Completas – II. São Paulo: Martins Fontes, 1992.__________, S. (1932) Diário Clínico. São Paulo: Martins Fontes, 1990.FLEMING, M. Dor sem nome. Pensar o sofrimento. Porto: Afrontamento, 2013.HEIMANN, P. Sobre a contratransferência. Revista de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (Jussara Schestatsky Dal Zot, Trad.), 21, 171-177. (Trabalho original publicado em 1950). Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010356652013000100012&script=scixt. Acesso em: 06/09/15.LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.MANNONI, Maud. A primeira entrevista em Psicanálise. Rio de Janeiro, Campus, 1980. NAPOLI, L. (2014). Quando o analista se apaga. Disponível em: http://lucasnapoli.com/. Acesso em: 04/09/15SEMER. N.L. Revista Brasileira de Psicanálise. São Paulo. v.42 n.2, jun. 2008 Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0486-641X2008000200016&script=sci_arttext. Acesso em: 02/09/15.SILVA FILHO, A. C,(2002)Experiência psicanalítica. Disponível em: http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol29/n5/256.html. Acesso em: 06/09/15ZIMERMAN, D. E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica – uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999._____________. Manual da técnica psicanalítica: uma re-visão / Porto Alegre: Artmed, 2004._____________. Psicanálise em perguntas e respostas: verdades, mitos e tabus. Porto Alegre: Artmed, 2005. 
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Imagina, isso jamais irá acontecer comigo!

Por Marcelo Moya -  Tempos realmente difíceis estes que estamos vivendo. Diariamente somos dominados por sentimentos ambivalentes entre a esperança pela chegada de dias melhores principalmente em relação às medidas de combate à pandemia que se arrasta há um ano, e da tensão vivida frente aos índices alarmantes do aumento diário de pessoas contagiadas e vítimas fataisdo Covid-19.  Mesmo com um forte apelo existente para que a população abrace as medidas preventivas essenciais como distanciamento social, uso de máscara, lavagem e álcool das mãos e superfícies, além das orientações restritivas para que se sejam evitadas aglomerações, a impressão que nos causa é que ainda estamos caminhando exata e desordenadamente no sentido contrário de tudo disso.  O que se vê em todas as regiões do país são pessoas, que independente de classe social, violam regras e desacatam autoridades através de organizações de festas, eventos religiosos, aglomerações de lazer, enfim, ajuntam-se justificadas por todos os tipos de contextos e pretextos, sempre na maioria das vezes displicentes e às escondidas, e com raras exceções de intervenção policial ou do poder público.  Isso vem despertando na sociedade muita revolta, repulsa e indignação principalmente pela grande maioria da população, e que embora vem seguindo firmemente com todas as orientações, normalmente se tornam alvo fácil de contaminações disseminadas por estes aventureiros insanos e inconsequentes.  Sigmund Freud escreveu que “duas coisas fazem o ser humano sofrer, neste caso, a doença e a estupidez”. E agora estamos sendo exatamente afligidos por ambas ao mesmo tempo.  Mas afinal, o que leva uma pessoa agir dessa maneira? Porque ela insiste em querer violar regras se achando acima do bem e o do mau, e quando indagada, cerca-se de justificativas mais infundadas e absurdas. As razões são diversas, mas ressalto alguns apontamentos para nossa reflexão. Albert Einstein certa vez disse que “duas coisas são infinitas, a saber, o universo e a estupidez humana, em relação ao universo, não tenho certeza absoluta”. De fato, a ignorância não somente cega, mas contagia outros e se torna uma grande muralha que separa o mundo. Na mesma direção Sigmund Freud também escreveu que “duas coisas fazem o ser humano sofrer, neste caso, a doença e a estupidez”. E agora estamos sendo exatamente afligidos por ambas ao mesmo tempo. Mas isto nos abre um vértice para pensar sobre a natureza psíquica e suas psicopatologias. Freud vai nos dizer que a nossa personalidade se alicerça sobre um modelo ilustrativo de tripé que ele denominou de neurose, psicose e perversão, e que embora a maioria se fixe na neurose, todavia oscila-se entre elas, ou seja, todos nós em algum momento nutrimos sentimentos e agimos por contornos psicóticos ou perversos, com exceção daqueles sujeitos mentalmente adoecidos. Também vai falar que o nosso Eu se organiza de formas defensivas diante de ideias e sentimentos percebidos como conflituosos. E o que podemos dizer a respeito? Que desviar-se da realidade em demasia e agir de forma alheia a tudo o que se passa ao redor de si sem se dar conta do possíveis riscos e consequências simplesmente a serviço do bel prazer e da satisfação a todo custo apontam para um ser absolutamente regredido a um mundo mental delirante e alucinatório.  "... cada um age conforme a natureza que possui..." Indivíduos plenos de altivez como seres divinos e poderosos, na ilusão de se sentirem imunes das mazelas e fragilidades da vida humana, denotam explicitamente características patológicas de perturbações mentais extremamente rudimentares e de absoluta defesa psicótica onipotente. Falecido recentemente, o psicanalista Contardo Calligaris (1948-2021) havia afirmado que "a patologia, nesta pandemia, não está no suposto pânico, mas na negação do que está acontecendo." Certa vez um homem caminhava pelo bosque com um amigo, e ao avistar um escorpião se afogando no lago, o retirou da água. Imediatamente o animal lhe desprendeu um ferrão. Aquele homem indagado pelo amigo pelo fato de ter salvado àquele que depois o machucou respondeu: - agi com minha natureza, o escorpião com a dele. Neste caso, cada um age conforme a natureza que possui. Não bastam apenas empreender medidas cíveis de repressão e punição (embora necessárias), porque a natureza de um ser psiquicamente comprometido o fará agir novamente por tantas outras vezes independente do que lhe for imposto como sanção. Neste caso, o que resta é uma intervenção psiquiátrica e anos a fio de análise. O que passar disso, só nos cabe acreditar em milagre. 
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Mas afinal, o que querem as mulheres? Nem Freud conseguiu explicar, mas chegou perto!

Por Marcelo Moya -  O que quer uma mulher, afinal? A pergunta que até inspirou o título de uma famosa minissérie da TV brasileira, pertence a Sigmund Freud (criador da psicanálise) e foi dita numa conferência em 1932 que discutia exatamente sobre o feminino. Ele relatava um caso clínico com uma de suas analisandas, Marie Bonaparte (sobrinha bisneta de Napoleão). Freud comparou sua paciente a um enigma que não conseguia decifrar: " - a grande pergunta que não foi nunca respondida e que eu não fui capaz ainda de responder, apesar de meus longos anos de pesquisa sobre a alma feminina é, o que quer uma mulher? ", confessou o criador da psicanálise diante de seus ouvintes mais atentos na plateia.  Nota-se que embora tenha dedicado sua carreira pesquisando a vida mental e os instrumentos para exploração do inconsciente, este tema nunca se afastou dos tratados de Freud. Criado numa cultura conservadora onde as mulheres se limitavam praticamente a papéis maternais, domésticos e dependentes do cônjuge, foi a partir de seus estudos da histeria e as novas descobertas sobre sexualidade, que Freud iria construir uma sólida relação entre a psicanálise e o feminino.  As teorias freudianas sobre as fases mais rudimentares da psiquê e dos estágios iniciais de desenvolvimento e organização da personalidade, apontaram que os processos no menino eram mais simplificados se comparados aos da menina, estes um tanto mais complexo, despertando o interesse de Freud que, partindo da experiência com suas pacientes mulheres, pôde aprofundar modelos psicanalíticos como as estruturas da mente, o desejo, as emoções e as dinâmica das relações humanas.  ...não se nasce mulher, torna-se mulher?  Simone de Beauvoir (que se comunicava com Freud) é autora da célebre frase "não se nasce mulher, torna-se mulher" e foi uma das protagonistas da primeira metade do século 20 na profusão do debate sobre o feminino na sociedade e que se ampliava rapidamente no propósito de libertar as mulheres da sujeição dos rígidos padrões sociais e religiosos que lhe eram impostas e que segundo a psicanálise, as aprisionavam num côncavo do adoecimento neurótico, arrastando-as a condições de morbidade.  Embora por vezes mal compreendido, rotulado de machista e fortemente criticado pelo fato de como seria possível a um homem versar conhecimentos sobre feminilidade, verdade é que os tratados de Freud de certa maneira foram relevantes para a compreensão e ressignificação do ser mulher e de seu lugar no mundo. Ele se empreendeu à tarefa de explorar a alma feminina, e mesmo sem muitas respostas, conseguiu ser capaz de observar um dos principais anseios do sexo oposto: a liberdade.  Sim, a mulher necessita ser livre, pois assim clama seu corpo e sua alma. Não apenas por fazer frente a uma cultura pressionada pelos tradicionais modelos patriarcais, mas um anseio que urge do âmago de sua essência. E podemos pensar esta liberdade e partir de três desdobramentos. ...a modernidade se conjuga no feminino?  Possivelmente uma liberdade de desejar, desfrutar do prazer de viver e do viver com prazer. Como afirmou a ativista e psicanalista russa Lou Andreas-Salomé: "Ouse, ouse, ouse tudo, não tenha necessidade de nada, não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém..." Outro vértice de reflexão tem a ver com a liberdade de escolher, tempos bem recentes da história atestam que nem isso era permitido. E por fim, a liberdade de amar. Para Freud, uma das maiores angústias que aflige a mente feminina e a faz sofrer é o medo de nunca se sentir amada.  Como disse a psicanalista Regina Neri, "a modernidade se conjuga no feminino". Não obstante, esta mulher moderna por vezes se vê ameaçada pelos totalitarismos da felicidade, do corpo, do consumo, do estético, do casamento feliz, da maternidade ou da carreira bem-sucedida a qualquer custo, todavia, é a mulher que não deseja, não escolhe e não vive o amor que irá buscar através do divã e suas análises, meios para não adoecer de si mesma. O que passar disso, "deixemos para os poetas", disse Freud.  E como cantou Erasmo Carlos: “Dizem que a mulher é sexo frágil, mas que mentira absurda, eu que faço parte da rotina de uma delas, sei que a força está com elas". Feliz Dia Internacional da Mulher.
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Primeiras sistematizações da técnica

Por José Claudio de N. Gonçalves -  Quando lemos a história da psicanálise podemos acompanhar o passo-a-passo do nascimento e crescimento de uma nova disciplina. Freud percorreu um longo caminho entre experimentalmente aplicar a técnica com hipnose inspirada em Charcot, até a alcançar o desenvolvimento da associação livre, que ele chamou “a regra fundamental da psicanálise”.  Iniciando com a hipnose, Freud presenciou a técnica ser aplicada de maneiras diferentes e adaptou-as de maneira pessoal à sua clínica. Com Charcot viu a hipnose utilizar da sugestão como arma para reprimir o sintoma histérico e eliminá-lo. Com Breuer a hipnose era usada como via de acesso `as experiências do passado, os pacientes sob hipnose descreviam suas vivências anteriores (revivendo as cargas de afeto envolvidas nelas) chegando até a situação traumática que originou o sintoma. Nesse ponto, o afeto atrelado ao trauma seria revivido e com isso sofreria uma descarga, uma catarse, com o consequente desaparecimento do sintoma. Freud adotou o método catártico de Breuer, acrescentando a sugestão como maneira de enfraquecer o sintoma histérico. Mas logo Freud percebeu as limitações do uso da hipnose. Nem todas as pessoas eram hipnotizáveis. Além disso a técnica suprimia as resistências - ocultando assim parte das informações - e as melhoras dos sintomas causadas pela sugestão hipnótica eram temporárias. Some-se a isso o fato de que Freud não era um bom hipnotizador. Adotou então a prática de estimular a memória dos seus pacientes pressionando a testa destes com a mão, como uma maneira fazê-los focar em determinada linha mnêmica que poderia levar `a lembrança reprimida causadora do sintoma tratado. Com o tempo viu que a pressão da testa com os dedos não era realmente necessária se ele mantivesse o estímulo ao paciente oralmente, guiando-o com perguntas. Foi a paciente Emmy Von N que em uma das sessões de seu tratamento se irritou com as perguntas e frequentes interrupções feitas ao seu relato e pediu a Freud que se calasse e que a deixasse continuar até o fim, ao que Freud aquiesceu. E acabou percebendo que suas frequentes interrupções não acrescentavam realmente muita coisa e que o essencial mesmo era ouvir minuciosamente os pacientes; estes deveriam assumir o compromisso de lhe revelar oralmente todos os pensamentos que ocorressem sobre determinado assunto, sem nenhuma crítica, julgamento de valor, supressão ou censura. Nascia a Associação Livre e com ela, a psicanálise como conhecemos hoje. Essa ‘regra fundamental’ da psicanálise consiste no analisando discorrer sobre absolutamente todas as representações psíquicas que lhe aparecerem, sem restrições de nenhuma ordem, sem embaraços ou constrangimentos. Essa associação livre de pensamentos pode ocorrer espontaneamente ou em consequência de um dado assunto/palavra. Junto com a Associação Livre Freud percebeu como benéficos `a técnica psicanalítica outros comportamentos, que ele julgou deveriam ser respeitados durante o tratamento. Deveria ser observada uma Neutralidade por parte do analista a tudo relativo ao analisando: seu discurso, suas crenças, seu processo transferencial, sua moral. Não seria papel do analista exprimir julgamentos pessoais sobre o material fornecido pelo analisando e nenhum ideal particular ou preconceito poderia guiar o tratamento, nenhum conselho poderia ser dado, o paciente deveria ser aceito como ele era. O princípio da neutralidade colocaria a psicanálise em um polo oposto ao da sugestão. Observando que os pacientes desprendiam energia psíquica - que poderia ser usada no tratamento - em ações substitutivas que satisfaziam os sintomas ou aliviava o incômodo que estes traziam, Freud recomendou aos analistas que impusessem aos pacientes uma Abstinência `a atividades que poderiam fornecer essas satisfações. Se o sofrimento e a frustração são gatilhos que fazem um paciente procurar um tratamento analítico, amenizar a força desses gatilhos com substitutos prazerosos provocaria a estagnação do processo. Portanto, atentar para que os sintomas não desaparecessem prematuramente causando o abandono do tratamento antes deste estar inteiramente concluído seria desejável. Atos como satisfazer as vontades dos pacientes ou aceitar a preencher dentro do set analítico papéis impostos pelos pacientes estaria interditado aos analistas. Se o paciente precisava estar em um estado mental de associação livre o estado mental de quem recebe o conteúdo dessa associação também deveria estar livre. Esse contraponto `a regra da associação livre exigida ao paciente Freud chamou de Atenção Permanentemente Flutuante e é a sua recomendação de como a escuta do analista deve ser. Sem privilegiar ou se fixar a nenhum aspecto do discurso do analisando, o analista deveria suprimir ações mentais que usualmente selecionariam - evidenciando ou descartando - partes do que está sendo dito. Tanto analisando como o analista deveriam ter uma postura mais observadora do que reflexiva em relação aos próprios pensamentos, o que evitaria críticas ou julgamentos: no analisando estes seriam instrumentos da resistência e no analista uma quebra da regra da Atenção Flutuante. Poeticamente podemos imaginar essa regra como a abertura de um portal que deixa os dois inconscientes, do analisando e do analista, se comunicarem. Em um dos seus relatos clínicos mais emblemáticos, o caso Dora, podemos ver Freud já utilizando a associação livre como principal instrumento de tratamento da sua então paciente, mas não aderindo completamente `as suas outras recomendações. Ele discutia com a paciente abertamente sobre as interpretações feitas por ele dos relatos e sonhos, acatou sugestões da mesma, e não identificou e tratou a transferência da paciente para com ele, situações que por si só já quebrariam as recomendações da abstinência e neutralidade. A própria maneira em que Freud conduzia as sessões, inquisidora, autoritária, detalhista, dando ênfase `a aspectos que ele considerava importante no discurso da paciente, não respeitava a regra da atenção flutuante. Se levarmos em consideração que a psicanálise se mostrou uma área onde pesquisa, experimento e tratamento acontecem simultaneamente veremos durante o exercício do caso Dora (publicado em 1904) um Freud caminhando no desenvolvimento das regras para a prática da psicanálise, ainda longe do autor que escreveria “Recomendações aos Médicos que Exercem a Psicanalise”, de 1912.
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A teoria da sedução um equívoco?

Por Raul Hamilton de Souza -  A teoria da sedução, formulada por Sigmund Freud, como uma explicação para as crises de histeria de pacientes sob tratamento, está presente em seus escritos desde a chamada “comunicação preliminar”, cuja autoria se deu em parceria com Josef Breuer. Nesse escrito, a Comunicação Preliminar, já havia a concepção segundo a qual “o sintoma era trauma do passado que, quando vindo à tona, se manifestava nos sintomas neuróticos. Continha ainda a comunicação preliminar a proposição, por influência do pensamento de Janet, que a parte psíquica “não consciente” fosse designada como “estados hipnoides”. Para Freud (1895/1897), o abuso sexual sofrido na infância era a origem da neurose, mormente da histeria. Segundo a sua concepção, tudo o que se passava ‘na e com a’ histeria estava ligado a traumas da sexualidade infantil. Seu método era o catártico, que teve a sua origem na escuta da pessoa sob sofrimento, e muito contribuiu para o conhecimento psicanalítico. Aqui está, por assim dizer, a gênese do equívoco da teoria da sedução, pois derivando da hipnose, a técnica catártica de Breuer e Freud trazia consigo a crença de que tudo o que vinha do paciente sob hipnose era a mais cristalina verdade, isto é, a resposta do paciente era tomada como expressão da verdade. Constatando o fato de que nem todos os pacientes se submetiam ao processo hipnótico, ou melhor, que nem todos eram hipnotizáveis, Freud abandonou a prática dessa técnica e criou o método da ‘livre associação’, mas seguiu ainda alimentando a crença de que o conteúdo vindo do paciente representava a declaração da verdade de modo total. A questão que se coloca nesse momento é a de que Freud começou a se valer da livre associação menos como técnica investigatória e mais como meio para provar a sua tese, fato esse que contaminou o campo de investigação das neuroses. Foi nesse contexto ou circunstância da sua trajetória em seu labor terapêutico que ele publicou o artigo “Notas Adicionais - As Neuropsicoses de Defesa” (1896), no qual tocou em dois pontos sensíveis: 1) Que a sexualidade é a única etiologia da histeria; 2) Que os pacientes histéricos foram abusados ainda em tenra idade, ou seja, foram seduzidos sexualmente na infância por uma pessoa mais velha, por um irmão, por algum outro familiar próximo, ou até mesmo pela babá, sendo a sedução concebida ou vista como algo real, acontecido. Por conta dessa sua posição, a sua tese não foi bem recebida, ficando, em consequência disso, sozinho. Em 1897, Freud já constatou que a sua teoria da sedução era insustentável, duvidosa, mas evasivamente afirmou ter sido enganado pelas pacientes histéricas, e seguiu ainda sustentando sua tese, mas o seu erro, na realidade, se deu mais na esfera da observação. Tornou-se consciente de que a teoria da sedução não era algo real, vera. Reconheceu que os abusos traumáticos podiam ter acontecido, bem como, também, podiam não ter ocorrido. Mas somente em 1906, quando publicou seu artigo intitulado “Minhas Teses Sobre o Papel da Sexualidade na Etiologia das Neuroses” é que admitiu publicamente seu erro, convicto de que era impossível a ocorrência de tantas seduções infantis, e por “intuição pessoal”, aliada às suas observações, propôs a teoria das fantasias histéricas, entendidas como ficções que ocorriam na fase infantil e que concorreriam em muito para a elucidação dos sintomas das neuroses. Assim como na história da histeria temos o equívoco de sua concepção como doença do útero, que - segundo  crença – e não como formulação embasada em pesquisa, movia-se dentro do corpo da mulher, e para a qual a prescrição de tratamento  indicava o uso da inalação de vapores provindos de produtos  excêntricos e de atividades físicas que concorriam para a recolocação do útero em seu devido lugar, e até mesmo a indicação da prática de atos sexuais como medida preventiva contra o acometimento da histeria, Sigmund Freud também cometeu seu equívoco mais escudado pela “crença” persistente de que os relatos dos pacientes sob hipnose eram totalmente verdadeiros, do que, como era plausível dele se esperar, na aplicação de técnica investigatória. As teorias, em quaisquer áreas ou dimensões do saber, são sempre passíveis de equívocos, de revisões e de reformulações.
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Pulsão: um elemento, vários caminhos

Por Dulce Maria Klassmann Scalzilli -  No texto de Freud “Os Instintos e Seus Destinos (1915)”, o termo Pulsão é tratado como um sinônimo para instinto. De acordo com a Fisiologia, instinto é um estímulo que vem do mundo externo para um tecido nervoso, e é descarregado para fora do corpo através de ação motora. Freud faz uma relação entre instinto e estímulo, inclui o conceito de instinto no de estímulo. A “pulsão” seria um estímulo para a psique. O estímulo instintual vem do interior do próprio organismo, atua de modo diferente sobre a psique e requer outras ações para ser eliminado. O instinto não age como força momentânea, mas como uma força constante, e por causa dessa constância, uma denominação mais aceitável para esta força seria “necessidade”, e o que supre esta necessidade é a sua “satisfação”. E esta precisa ser alcançada através de uma modificação da fonte interior do estímulo. Como uma ação muscular, motora, não surte efeito sobre esta força, fica evidente a existência de um mundo interior e de necessidades instintuais. Portanto, a eficácia da atividade muscular para satisfazer um estímulo externo “versus” sua ineficácia diante de outros estímulos é o que faz distinguir o que é “de fora” do que é “de dentro”. Ainda falando de pulsão propriamente dita, podemos dizer que a pressão é a força que impele para sua satisfação, finalidade é a satisfação do instinto, objeto é o que torna possível a sua satisfação e a fonte é o próprio corpo, uma vez que precisa passar por ele (sensação corporal) para encontrar uma representação na psique e dar continuidade ao processo psíquico. Freud nos diz que a pulsão tem alguns destinos na sua evolução, e limita-se aos instintos sexuais, que são do seu maior conhecimento. A seguir, algumas dessas vicissitudes. A reversão ao oposto é referente apenas à meta do instinto, tendo como exemplos os opostos sadismo/masoquismo e voyeurismo/exibicionismo. No sadismo a meta é atormentar, causar sofrimento (a meta é ativa); no masoquismo, o objetivo é ser atormentado (a meta é passiva).  No voyeurismo a meta é olhar (ativa); no exibicionismo é ser olhado (passiva). A reversão diz respeito às metas: substituir a meta ativa, atormentar, olhar, pela passiva, ser atormentado, ser olhado. O retorno ao próprio self, é considerado no masoquismo, uma vez que a violência do sadismo voltada para fora retorna para o próprio sujeito e, no exibicionismo considera-se a observação do próprio corpo ao exibi-lo para outrem. A sublimação, quando, para chegar à satisfação da pulsão, há um deslocamento do objeto ou da meta, não sexuais, para outros socialmente aceitos e que não gerem conflito ou desprazer ao indivíduo. Ou seja, transformação da energia da pulsão em ações que, mesmo desviadas do seu objetivo inicial, geram a satisfação. É a saída para cumprir a exigência da pulsão, ao mesmo tempo em que o conteúdo original reprimido continua inalterado. O narcisismo, outro destino da pulsão, é diferente de autoerotismo. Uma vez que o Eu, como uma unidade, não existe desde o início no indivíduo, e o autoerotismo, este sim, é primário e foi postulado por Freud na sexualidade infantil em todas as suas fases. Deve haver algo que se acrescenta ao autoerotismo, uma nova ação psíquica é realizada para que se forme o narcisismo. O Eu vai se constituindo à medida que tem a “necessidade” (instinto do Eu = autopreservação) e o “desejo” (instinto sexual = autoerotismo) atendidos. Ex.: o bebê suga o seio da mãe para saciar a fome(autopreservação), mas continua sugando pelo prazer oral (autoerotismo). No narcisismo, o objeto libidinal é voltado para o próprio indivíduo. Freud usou o mito do Deus Narciso, que se apaixona pela própria imagem, para conceituar o narcisismo. O narcisismo primário, suposto na criança, pode ser confirmado ao observarmos a atitude dos pais para com seus filhos, pois vêm nos filhos todas as perfeições e são cegos para seus defeitos, como se o seu próprio narcisismo primário se reproduzisse naquela cena. Depois de passar pela fase do narcisismo primário, e ter destinado sua energia libidinal para objetos externos, esta libido retorna para si mesmo, identifica sua imagem (a imagem que faz dele mesmo) com objetos e, depois de investir a libido em direção a estes objetos, ela é voltada para si mesmo, “reconhece e ama no outro a sua própria imagem”, formando-se assim o narcisismo secundário. O instinto que remete ao que gostaríamos de ser, de acordo com a expectativa dos nossos pais (ideal de perfeição) é uma figura do narcisismo, o Eu Ideal, diferente do Ideal do Eu, que é uma imagem idealizada a partir do eu ideal, o indivíduo como ele acha que deve ser para ser amado pelo outro. A repressão, por fim, é o recurso usado pela “resistência”, para que o impulso instintual de atingir sua meta, o que geraria desprazer, seja reprimido no inconsciente. Resumindo, um mecanismo de defesa que retira pensamentos incômodos da mente consciente. A repressão não existe desde o início, surge de pois de serem produzidas uma atividade psíquica consciente e outra inconsciente, e a essência da repressão é manter algo afastado da consciência. Freud estabelece uma relação entre “repressão” e “angústia” através da análise de um caso de zoofobia, e conclui que nas fobias a repressão fracassa, pois apenas elimina a ideia e a substitui. Assim, o fóbico está sempre buscando formas de escapar da angústia, evitando a situação que a desencadeia, mas essas tentativas acabam sendo a própria fobia representada na angústia de evitar as situações. Apesar de, neste texto, Freud não ter concluído exatamente o que é reprimido na neurose obsessiva, se uma tendência libidinal ou uma hostil, mesmo assim, tentamos fazer um entendimento daquilo que se supõe como repressão a partir do texto. A neurose obsessiva se dá na repressão de um impulso hostil para com uma pessoa a quem amamos. De início, a repressão cumpre seu papel: a ideia é reprimida, mas o afeto permanece, pois, a libido é apenas retraída. E aquele afeto precisa ser descarregado. Assim, por uma formação reativa, o sentimento hostil é transformado no seu oposto, e há um exagerado sentimento de amor dirigido àquela pessoa. Nesse sentido, a repressão fracassa, pois existe uma relação de ambivalência entre o impulso sádico que foi reprimido e o seu oposto, que é “amor exagerado” e, na forma desse amor exagerado, o impulso que foi reprimido encontra uma forma de escape. Ainda em 1915, Freud escreve um artigo onde conceitua, justifica, fala sobre uma possível topologia e identifica, conforme suas observações até aquele momento, o Inconsciente. Diz, naquele artigo, que o reprimido não ocupa todo o inconsciente, mas apenas uma parte dele. O inconsciente é de um âmbito maior. Existem atos, em pessoas sadias ou mesmo em doentes que parecem desconexos e incompreensíveis e assim permaneceriam se pensarmos que tudo é da consciência. Neste sentido, Freud diz que eles só se tornam compreensíveis e justificáveis se admitirmos outros atos numa instância psíquica que a consciência não dá conta. O inconsciente contém todas as pulsões, urgências e instintos, dos quais não temos consciência, mas motivam a maior parte das nossas ações. Sua existência só pode ser provada indiretamente, pela psicanálise, através da interpretação dos sonhos, estes extremamente ricos em material inconsciente, da transferência instaurada no consultório com o analista, da associação livre de palavras. Na época do artigo sobre o inconsciente, observamos um Freud num malabarismo intelectual, para conseguir, sendo médico e falando para seus colegas médicos, ser convincente a respeito das suas teorias psicanalíticas, sem afastar-se da Medicina, ao mesmo tempo sabendo ser necessário este afastamento para poder seguir na Psicanálise. Ainda assim, apesar da necessidade desse afastamento, muitas doenças mentais, como a esquizofrenia, foram essenciais no desenvolvimento do seu trabalho, pois, a partir daquelas, conseguiu estabelecer comparações de comportamento entre os doentes (de acordo com a Psiquiatria), e os não doentes, para explicar o inconsciente e seus processos psíquicos nestas últimas.
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Freud, um infrator de suas próprias técnicas?

Por Victória Cardoso Cozza -  Após o abandono das técnicas antes utilizadas, tais como hipnose e catártica, Freud começa a aplicar a então chamada técnica psicanalítica, consistindo na utilização da associação livre que compreende a fala livre do paciente sobre tudo que vier à sua mente. No caso Dora, é possível vislumbrar a utilização de algumas técnicas da psicanálise como a interpretação dos sonhos para acessar o conteúdo recalcado de Dora e a associação livre, servindo de auxílio para trazer à tona conteúdos reprimidos ajudando na elucidação dos sintomas. Com o intuito de orientar os demais médicos nesse novo método denominado psicanálise, Freud publica “Recomendações aos médicos” em que traz diversas orientações para aqueles que querem seguir tal método, evitando assim uma psicanálise selvagem. No entanto, no que concerne as recomendações, o próprio Freud não as seguia, ficando nítidas tais incongruências na análise de Dora, como por exemplo a afronta ao princípio da autonomia do paciente em querer fazer o tratamento, visto ter sido Dora obrigada pelo seu pai a se tratar com o médico. Ademais, o próprio Freud não fazia análise pessoal, confrontando assim outra de suas recomendações na qual tem por finalidade ampliar a perspectiva do médico para reconhecer no paciente aquilo que já fora reconhecido em seu próprio inconsciente reprimido.    A incansável busca de Freud em provar suas teorias acabou deixando falhas no caso Dora. Por ser o caso rico em material que o possibilitaria demonstrar suas convicções, como por exemplo, o acesso do conteúdo recalcado através da interpretação dos sonhos por ela relatados  e dos sintomas histéricos ligados ao desejo e a sexualidade, Freud se cega e deixa passar um mecanismo essencial em favor do psicanalista: a transferência. A transferência compreende a reedição de afetos do paciente na figura do analista, viabilizando assim o acesso ao conteúdo reprimido na via inconsciente, sendo, pois, um outro tipo de retorno do reprimido. No entanto, Freud não soube manejar de forma adequada a transferência de Dora que projetou seus desejos reprimidos na figura dele e, ainda, a contransferência, pois não se absteve dos sentimentos que foram despertados nele próprio, não fazendo uso da neutralidade dentro do setting analítico. Assim, é possível observar que Freud tinha um baixo grau de aderência às suas próprias recomendações e que a busca obsessiva em consolidar suas teorias causou a perda de sua paciente Dora, que desistiu do tratamento, mas que serviu de alerta para a essencialidade do manejo da transferência durante o processo psicanalítico.