Por Ale Esclapes -
Em carta de Freud à Andreas Salomé ele nos ensina que ao conduzirmos uma análise, “é preciso emitir um facho de intensa escuridão de modo que algo que até então tenha ficado obscurecido pelo resplendor da iluminação possa cintilar ainda mais na escuridão”. Com isso em mente passo a um breve resumo e uma extensa lista de temas que brilham em “Titane”, mas que escolho não pensar nesse momento.
O filme é a história de uma assassina (que a psiquiatria chamaria de psicopata) chamada Alexia, que transa com um carro, engravida dele e que, quando descoberta pelos seus crimes, foge e é “confundida” com o filho (Adrien) desaparecido de um chefe de bombeiros (Vincent) há dez anos. A lista de temas que deixo de fora são: a violência do início do filme; o fato de Alexia ter matado seu pai; de transar com um carro e depois parir um filho; bem ... a lista é extensa.
No que quero me concentrar é no personagem Vincent, que tem seu filho Adrien desaparecido há mais de dez anos, e que reconhece Alexia em uma delegacia como sendo seu filho, e que a despeito de todos os sinais que a realidade lhe dá, segue afirmando que Alexia é Adrien. Ele a leva para fazer parte do grupo de bombeiros no qual é o chefe. Mesmo quando descobre que aquele que ele trouxe para casa como sendo seu filho, tem um corpo feminino e está grávida de uns 8 meses, não o retira do lugar de seu filho que retorna à casa. É dessa violenta experiência emocional que quero me ater.
A mãe de Adrien se dá conta facilmente da situação delirante de Vincent e pergunta diretamente a Alexia/Adrien: “E se você fosse eu? Se não pudesse chorar seu filho, o que faria?”. Imagino (que é tudo que posso nesse contexto) que a expectativa de encontrar o filho perdido seja proporcional a dor do sentimento de perda, e uma vez que Vincent “encontra” Adrien, a perspectiva de viver novamente essa dor seja insuportável, e entra em cena uma forte negação da realidade, e mesmo diante de todas as evidências de realidade, Adrien continua ali.
Vincent pode negar para si a realidade, mas vai ficando muito difícil o grupo de bombeiros negar junto. Quando essa situação grupal vai se tornando insuportável, vai se criando as condições para que Vincent se dê conta emocionalmente do que se passa. Nessa hora nasce o filho de Alexia, e o resto fica em aberto. Vicent sai do seu delírio? O filho de Alexia ocupa o lugar de Adrien?
Voltando à recomendação de Freud, e quando emitimos um facho de intensa escuridão no filme, a violência da experiência emocional da perda de um filho e suas implicâncias podem vir para o primeiro plano. Uma leitura possível é que a violência da experiência de perda é transposta no filme como uma violência aparente que esconde uma outra. Uma pena que alguns expectadores tenham abandonado as salas de cinema nas exibições nos festivais pelo mundo: qual será a violência que os fizeram sair de suas zonas de conforto? A explícita ou a implícita, a manifesta ou a latente?
E você, conseguiu ver o filme até o fim? O que achou? Deixe aí o seu comentário. ___________Direção: Julia Ducournau Plataforma: MUBI
Por Luiz Barbosa -
O caso Dora é um episódio central na história da Psicanálise. Embora Freud afirme, ainda no prefácio do texto de sua comunicação, que não foi possível atingir a “meta fixada”, em função da interrupção precoce do tratamento.
(“por vontade da paciente”), o caso foi o primeiro em que se registrou o uso de certos procedimentos técnicos que viriam a ser definitivamente incorporados à clínica, além de reafirmar, categoricamente, a necessidade do domínio dos postulados de A Interpretação dos Sonhos para o pleno exercício da Psicanálise, e a correção das inferências apresentadas nos seus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.
Isso não significa, entretanto, que aquilo que seria fixado como a técnica psicanalítica tenha sido aplicado em sua exatidão ou completude. É verdade que, no tratamento de Dora, Freud lança mão da associação livre, “descoberta” pelo psicanalista quando de sua percepção das limitações da hipnose e da sugestão a essa associada. Porém, à medida que o relato do caso avança, é possível perceber um Freud vacilante na adoção das próprias inovações técnicas que busca introduzir. A leitura do relato, aliás, permite vislumbrar, em mais de uma passagem, uma espécie de ansiedade em preencher as lacunas dos relatos da paciente com sugestões e apressadas conclusões relacionadas à sexualidade de Dora.
De fato, tem-se a impressão de que Freud, embalado pelas descobertas e conclusões de sua pesquisa, adota uma postura proselitista, que é possível perceber mesmo em sua comunicação do caso. É como se o psicanalista, invertendo uma lógica que sempre lhe pareceu cara, deixasse que a tese – neste caso, a afirmação da técnica de interpretação dos sonhos e as conclusões acerca da importância da sexualidade na etiologia das neuroses – antecedesse a análise da narrativa da doença de Dora e lhe ditasse o sentido das conclusões, a despeito dos fatos em si.
Assim, Freud, em substituição à hipnose e à sugestão, adota a livre associação como método de trabalho. Mas, ao invés de adotar a neutralidade e a abstinência que viria a enfatizar em seus textos posteriores, aqui o psicanalista, tão logo percebe no relato da paciente algum indício que aponte no sentido de seus postulados teóricos, apressa-se em entabular conclusões, antes mesmo de deixar que outras falas, ações ou reações de Dora permitam descortinar suas verdadeiras razões. Quando a jovem relata, por exemplo, o episódio em que o senhor K. a beija nos lábios em sua loja, imediatamente Freud conclui de que o comportamento de Dora é “completamente histérico”, além de tecer uma série de considerações sobre um possível deslocamento da sensação genital, numa incisiva tentativa de ligar a reação de nojo referida pela moça a uma problemática sexual ainda impossível de se afirmar, de acordo com a própria exposição do caso.
Por outro lado, é preciso que se diga, a livre associação e a técnica de interpretação dos sonhos mostram seu valor como ferramentas do trabalho clínico. De fato, uma e outra se combinam para fazer avançar o tratamento quando Dora leva os sonhos para o divã. É a oportunidade para Freud pedir-lhe que busque falar tão livremente quanto possível acerca das memórias oníricas e das impressões que lhe causaram, uma vez que ele já instruíra a paciente na interpretação de seus sonhos. Ao mesmo tempo, seria uma oportunidade para que o próprio Freud colocasse em prática o que ele viria denominar atenção flutuante e as já referidas neutralidade e abstinência, o que não ocorreu de todo. A interpretação do segundo sonho de Dora, infelizmente, não foi concluída, visto que o tratamento foi interrompido pela paciente.
Como se vê, a importância do caso Dora está em sua particularidade de ser o primeiro relato de caso de Freud em que está uma relatada uma tentativa de abandonar a técnica sugestiva da hipnose e a de enfrentar um caso clínico armado com a técnica de interpretação dos sonhos e os postulados teóricos acerca do papel da sexualidade na etiologia das neuroses – “as manifestações patológicas são, por assim dizer, a atividade sexual dos doentes”.
Além disso, Freud chama a atenção para outro fenômeno observado durante o tratamento de Dora, que ele vai chamar de transferência e que considera “a parte mais difícil do trabalho”. Isso porque essa reedição dos impulsos e fantasias do paciente, além de inevitável, precisa ser apreendida pelo psicanalista “quase sem ajuda, com base em coisas mínimas e evitando inferências arbitrárias”. Mas é também imprescindível ao sucesso do tratamento, posto que somente “depois que ela é resolvida o paciente se sente convencido da validez dos nexos construídos na análise”.
Nesse sentido, cabe perguntar: qual foi o manejo da transferência por Freud no caso Dora? Visto que o tratamento foi precocemente interrompido, qual o alcance da solução obtida? Se se toma a desistência de Dora como índice do fenômeno, pode-se concluir, além da ocorrência de uma transferência negativa dela para com o analista, que houve falha na forma como ele lidou com a circunstância? Considerando-se a importância que Freud deu à transferência em seus trabalhos posteriores, pode-se concluir que esse percebeu a necessidade de melhor compreender o fenômeno e de aprimorar a técnica no que tange à sua manipulação, tendo em vista o ocorrido no tratamento de Dora. Não por acaso, entre os trabalhos publicados posteriormente ao caso Dora, Freud demostra clara preocupação em municiar os médicos que se dedicam, e virão a se dedicar à Psicanálise, com um verdadeiro arsenal de recomendações para que evitem cometer o mesmo erro que ele próprio cometeu. Nesse sentido, pode-se afirmar que, no caso Dora, Freud não maneja corretamente a técnica psicanalítica que vinha elaborando e que seguirá aperfeiçoando nos anos seguintes.
De fato, no que diz respeito ao modo como lidou com a transferência da paciente em relação a ele, o analista deixou a desejar, fazendo com que a jovem abdicasse do tratamento. Mas, além disso, diferentemente do que viria a afirmar posteriormente, Freud falhou ao lidar com as resistências do inconsciente da paciente. Ora, se a transferência é uma reedição de sintomas, não passa de um mecanismo das forças de resistência em seu trabalho de recalcamento. Como vencê-lo? De acordo com o próprio Freud, a solução está na fórmula “recordar, repetir, elaborar”. Para que o paciente recorde o que repete sob a forma da transferência e, finalmente, elabore, é preciso, antes, que a resistência que está na base do processo se lhe torne familiar. Somente assim ele pode vir a conhecê-la e, através do trabalho de análise, elaborar. A falta de tato de Freud, ao lidar com a transferência de Dora em relação a si, roubou-lhe essa oportunidade.
Aparentemente, a despeito de afirmar em seu texto que o caso não foi completamente solucionado em função da desistência de Dora, Freud parece ter tomado esse caso para si como um paradigma. Quase como um modelo de fato, o caso Dora serviu para que, a partir dele, o psicanalista avançasse na reformulação da técnica – que já vinha em reconstrução desde seu rompimento com Breuer e o abandono da hipnose e da sugestão – e elaborasse uma série de postulados teóricos e preceitos para atuação na clínica, muitos dos quais ainda em uso na clínica contemporânea. Dessa forma, pode-se dizer que, na condução do caso Dora, Freud respeitou parcialmente apenas as regras da técnica psicanalítica, mas, paradoxalmente, esse caso foi essencial para a elaboração da técnica tal como a conhecemos hoje.
Por Ale Esclapes -
O filme narra a história do dançarino Merab que tem como parceira de dança e namorada Mary no National Georgian Ensemble. Com a chegada de Irakli na companhia de dança é desencadeada uma série de emoções em Merab. O filme é delicado, intenso e apresenta muito mais camadas do que se permite ver à primeira vista, o que o torna, a meu ver, um pequeno clássico.
Na superfície temos o desejo de Merab por Irakli em conflito com a conservadora cultura georgiana, que não é muito diferente da cultura fora dos grandes centros ocidentais. Se assim o fosse, seria mais um filme LGBTGQIA+ estereotipado, mas não é o caso. Merab é filho, irmão, neto, empregado, vizinho, aluno e todas essas camadas estão presentes no filme, o que dá profundidade e complexidade ao personagem principal. Sua mãe aparentemente é deprimida, seu pai um dançarino fracassado, seu irmão tem problemas com drogas, seu professor é rígido, ele trabalha como garçom para ajudar na família que não dispõe de muitas posses. Ufa ... um personagem em tanto.
Todas essas camadas ficam disponíveis para que roteiro, direção e interpretações possam ser usadas para contar a estória do nascimento de uma parte da personalidade de Merab até então não disponível para ele: sua homossexualidade. A maestria do filme é focar nas implicâncias desse afloramento: com Irakli, com Mary, com o grupo de dança, seu irmão etc. Não estão em primeiro plano vergonha e culpa (não estão ausentes, mas não são o primeiro plano) – Merab flui com o seu desejo, e vai tendo que enfrentar suas consequências. Não é o mesmo conflito que vemos em filmes como, por exemplo, “Tom da Fazenda” onde culpa e vergonha em relação à sexualidade são transformados em violência. Aqui o destaque é para uma experiência de coragem e ingenuidade daquele que consegue acolher a si mesmo, mas nunca sem dor.
O filme apresenta cenas lindíssimas com destaque para a dança entre Merab e Irakli e o primeiro beijo, mantendo um delicado equilíbrio entre a tensão sexual, o amor e o medo. O ar de apaixonamento e entrega de Merab domina todo o filme, e o fundo conservador da sociedade georgiana lhe dá um contraponto de tensão o tempo todo, proporcionando ao filme um ar mais próximo do temerário que ao do medo. Destaque para a interpretação de Levan Gelbakhiani em seu primeiro trabalho como ator, que soube dar ao personagem densidade e leveza na medida certa dentro da história.
“And then we danced” é um pequeno clássico pois trata justamente desses elementos universais: como acolher o desejo e suas implicâncias em um espaço que não o aceita, seja ele pessoal, familiar ou cultural e isso é muito mais abstrato que a questão da sexualidade. ___________Direção: Levan AkinPlataforma: MUBI
Por Ale Esclapes -
Assisti “A professora de piano” no mesmo dia em que assisti “A avó” de David Linch, o que me desencadeou uma série de reflexões acerca do papel da psicanálise e da análise em geral na construção pelo diretor e posterior apreensão por parte do espectador do filme. No filme de Haneke, a personagem principal Érica apresenta comportamentos que poderiam ser chamados comumente de sadismo, masoquismo, automutilação, incesto entre outros.
Erika tem uma relação maquiavélica com seus alunos, incestuosa em termos psicológicos com sua mãe, seu pai morreu louco em um hospício, entre outros detalhes que Haneke nos deixa entrever. Algumas perguntas que surgiram: como esse personagem foi construído? Como se espera que esse personagem seja apreendido pelo expectador, se é que se espera? Entre esses pontos, assumo deliberadamente que possa estar a psicanálise, e a partir dessa liberdade que tomo, posso pensar em algumas questões sobre a diferença entre “explicar” e “descrever” em psicanálise. Só para deixar bem claro: não estou dizendo que a psicanálise esteja aí, só me é útil pensar que esteja, uma vez que sou psicanalista e que não tenho a menor ideia de como Haneke construiu esse personagem.
A noção que “A professora de piano” seja um “drama psicossexual” é repetido em vários sites de resenhas de filmes. O que isso me indica é que a presença da noção de que o maquiavelismo com que Erika trata seus alunos, sua sexualidade entre a automutilação e o par sadismo masoquismo, bem como a relação com a sua mãe estariam interligados através de uma “explicação”. É justamente no lugar dessa “explicação” é que entraria a psicanálise que permitiria diretor e expectador de alguma forma decodificá-lo. Aqui é tentador como expectador buscar tal explicação para esse “drama psicossexual” nas teorias de Freud, Lacan, Laplanche, etc. Não seria difícil encontrar uma explicação plausível que unisse todos esses elementos apresentados pelo filme. E esse é um dos maiores desafios que um psicanalista sério encontra: não explicar.
Existem na clínica muitas situações como essa: conteúdos manifestos que brilham na frente do analista, mas que não passam do brilho de uma lâmpada para uma mariposa. E aqui temos algo de interessante: quando retiramos todo esse brilho caricato do personagem, não nos sobra muita coisa. Não é um personagem complexo, ele é excessivamente complexo, excessivamente teórico, excessivamente psicanalítico, excessivo, e quando jogamos um facho de escuridão, não nos sobra muita coisa do que falar sobre o personagem que se esconde por trás de tanto excesso – talvez isso já seja um “algo” sobre Erika.
Na melhor observação que consigo fazer, sexo e amor se encontram dissociados e entrelaçados com ódio e violência. Quando amor se manifesta, seus pares entrelaçados assumem o controle; e da mesma forma o amor. Sua relação com a mãe é permeada de ódio e violência e onde poderia haver amor, aparece o sexo. Na sua relação com seus alunos, o amor de um professor é substituído pelo sentimento que eles não podem ser melhores que Erika, custe o que custar. O sexo consigo mesmo é manifestado através da automutilação.
Mas o que acabo de fazer não é uma explicação, é uma observação. Esse movimento é muito importante em termos de psicanálise: descrever o que observo, descrever como funciona aquilo que observo, e não lhe dar uma explicação, são posturas muito distintas, pois na maioria das vezes “explicar” em psicanálise implica em sobre entendimento teórico. Uma descrição pode usar qualquer modelo disponível para chamar atenção para o desconhecido no material. ___________Direção: Michael Haneke Plataforma: MUBI
Por Marcelo Moya -
A homenagem em memória dos mortos, também conhecido como Dia de Finados, teve seu início no ocidente por iniciativa do cristianismo romano no segundo século, e fontes históricas afirmam que foi somente em meados do século XIII que a data foi oficialmente instituída nas pautas litúrgicas de Roma.
Mas este olhar para os mortos não se restringe apenas às confissões religiosas ocidentais. O tema remonta os primórdios das civilizações por meio de diversos povos que de alguma maneira exaltavam a morte através de suas culturas, crenças e ritos. Em países como o México, por exemplo, este tema está profundamente enraizado nos costumes e tradições daquela nação centro-americana.
Mas afinal, o que é a morte? Para alguns talvez represente o fim de tudo, um ponto final. Para outros um meio para se obter a eternidade ou a oportunidade de novos recomeços. Vertentes religiosas e espiritualistas normalmente consideram as três principais perguntas existenciais da humanidade: de onde viemos, por que estamos aqui e para onde vamos depois desta vida, e neste ponto, o tema da morte se torna um conceito central nos enigmas da humanidade.
E como a morte é pensada na mente dos vivos? Para Ernest Becker "ela é uma ideia que move a vida" aponta o escritor em seu premiado livro A Negação da Morte. A psicanalista Melanie Klein considera que o medo da morte é a causa primária da ansiedade desde o nascimento. Freud fez alguns desdobramentos acerca da melancolia (depressão) associando-a às experiências de luto, bem como organizou modelos de teorias pulsionais nominando-as de vida e morte.
"... se da morte não se obtém muitas respostas, dela ao menosse pode evocar uma pergunta: afinal, o que é a vida? "
A herança de aspectos culturais, religiosos, filosóficos, sociais, antropológicos e até científicos sustentam a complexidade acerca da reflexão da finitude do ser. De qualquer forma, o Dia de Finados é um momento apropriado para refletir a vida na perspectiva da morte. Aliás, se da morte não se obtém muitas respostas, dela ao menos se pode evocar uma pergunta: afinal, o que é a vida?
A médica Ana Cláudia Arantes, especialista em intervenções de luto e cuidados paliativos com pacientes em estado terminal em São Paulo, afirma que "a morte não é bonita, e que embora sua beleza seja o ímpar de uma tristeza, a vida sim que é bonita", como bem cantou Gonzaguinha, “eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita, é bonita...” O médico patologista e professor Paulo Saldiva considera que, “no fundo, o verdadeiro mistério não está na morte, mas está na vida”, e que embora seja capaz de emitir um atestado de morte, jamais dará um atestado de vida dado a sua complexidade. Embora a vida seja às vezes um soco no estômago como escreveu Clarice Lispector, "viver é melhor que sonhar, a vida é uma coisa boa" como compôs Belchior.
"... é morrendo que se aplaca o insuportável da vida, ou é vivendointensamente que se obtém um alento para o insuportável da morte?
Se tantos vivem pela antecipação da própria morte, outros viverão para sempre apesar de já terem morrido. Retomando Lispector, "cada dia é um dia roubado da morte, mas é esta morte que nos ajuda a suportar às vezes o insuportável”, e neste caso nos indagamos: será que é morrendo que se aplaca o insuportável da vida, ou é vivendo intensamente que se obtém um alento para o insuportável da morte?
Embora tão paradoxal possa parecer o viver e morrer que inspiram de poetas a pregadores, é na dor e na saudade pelos que já partiram que se almeja o consolo, a serenidade e o silêncio, mas que nos sirva também como uma fagulha que mantenha acesa não somente a chama pela vida, mas a oportunidade para pensar e ressignificar a nossa breve peregrinação neste mundo com mais humildade e virtude.
Faço minhas as palavras do saudoso psicanalista britânico Winnicott que certa vez disse: “quando eu morrer, eu quero estar bem vivo.” Até porque, como bem cantou Raul Seixas, “a morte, surda, caminha ao meu lado, e eu não sei em que esquina um dia ela vai me beijar ...”
"Mas pra aprender a morrer, foi necessário viver, e eu vivi ..." (Baden Powell)
Por Ale Esclapes -
Nossas emoções sempre sofrem um processo de significação – como podem ser vividas e como devem ser vividas são dois dos elementos desse processo. No reino do dever, está inscrito inclusive emoções que deveríamos sentir. É nesse espaço que se desenvolve o filme “A filha perdida”.
Uma progenitora deveria amar seus filhos de forma incondicional – isso é o que nossa cultura ocidental contemporânea nos diz que deve acontecer e que a mãe deva sentir. As emoções em qualquer relação são mais complexas do que esse “mandamento” do incondicional, e a relação da maternidade é permeada de sentimentos de ódio, horror, inveja etc., assim como amor, admiração, contemplação etc. E quando o que se sente fica bem distante do “amor incondicional”, quando se a relação se torna insustentável?
E se o intentável dá luar ao maravilhamento? Aí onde deveria estar o “amor incondicional” aparece o maravilhamento das experiências vividas na ausência? A culpa logicamente deveria ocupar essa lacuna. E se não ocupa? Uma falsa culpa poderia ocupar esse lugar?
É um filme que essencialmente nos trás a tensão entre dois sentimentos que deveriam estar presentes (o amor incondicional e a culpe na sua ausência) e o maravilhamento das experiências de ausência. Nós somos levados cada vez mais fundo nessa tensão, que se expande por todo o filme, da qual a própria Leda (personagem de Olivia Colm). “Não tenho esse sentimento materno” – duramente constata Leda ao final do filme. Nem todos tem. Mas poder sustentar as implicâncias dessa falta, bem como suas vicissitudes, é a grande viagem que o filme nos propõe.
___________Direção: Maggie Gyllenhaal Plataforma: Netflix
Por Marcelo Moya -
Dia 15 de Outubro comemora-se o Dia do Professor. A data nos remete aos tempos do Império quando D. Pedro I, em homenagem à professora Santa Tereza de Ávila, decretou o ensino fundamental no Brasil (na época as Escolas das Primeiras Letras), estimulando o surgimento de escolas nas províncias mais distantes, acompanhado de uma série de normativas e currículos. Aos meninos, a leitura, escrita, cálculos e álgebra. Às meninas, restou-lhes o ensino da economia e das prendas domésticas.
Esta data se tornou feriado ainda na década de 40, mas foi apenas no ano de 1963 que um Decreto o regulamentou: “ - “Para comemorar condignamente o Dia do Professor, os estabelecimentos de ensino farão promover solenidades, em que se enalteça a função do mestre na sociedade moderna, fazendo participar os alunos e as famílias”, enaltece o Ato Federal.
Da Grécia Antiga com a pedagogia Aristotélica até as Escolas Novas dos século XX, a educação foi assumindo histórica e gradativamente seu protagonismo no centro das discussões políticas e sociais no mundo, e hoje em tempos de neomodernidade, segue rompendo paradigmas, vencendo barreiras e passando por significativas transformações.
Mas uma figura essencial não deve jamais ser preterida no âmbito destas discussões: o professor. O ‘pedagogo’ numa tradução literal que significa ‘aquele que guia’, surgiu há mais de três milênios antes de Cristo, e era um escravo de famílias ricas designado para acompanhar as crianças até o mestre, embora era com o escravo que elas mais interagiam, conviviam e se preparavam. Há indícios de que pessoas específicas seriam selecionadas para ensinar certas habilidades desde os tempos do Antigo Egito, tradição que depois também se firma nas tradições religiosas do judaísmo.
A psicanalista britânica Melanie Klein (1882-1960), em seu artigo “O papel da escola no desenvolvimento libidinal da criança”, publicado na coletânea Amor, Culpa e Reparação e Outros Trabalhos, considera que “ ... na vida da criança, a escola significa o encontro com uma nova realidade, que muitas vezes parece muito dura...”, ressalta, mas aponta para a figura do professor como substituição da figura maternal que contribui positivamente durante este processo. E quem não se lembra da primeira professora no início de nossa vida escolar e o quanto ela foi importante em nossos primeiros passos do aprender?
"É quase como se o analisar fosse aquela terceira das profissões “impossíveis” ... as outras duas, conhecidas há muito mais tempo, são o educar e o governar. ” (Sigmund Freud)
O pai da psicanálise Sigmund Freud (1856-1939), em seu artigo “Análise Finita e Infinita" (1937), faz a seguinte consideração: “ - É quase como se o analisar fosse aquela terceira das profissões “impossíveis” ... as outras duas, conhecidas há muito mais tempo, são o educar e o governar. ” De fato, os mestres estão cada vez mais cientes desta difícil realidade, e embora muitas vezes desmotivados e desvalorizados, vem se tornando exímios mestres do impossível, realizando seus milagres.
Mas quero chamar a atenção em especial para um tema que já há alguns anos exponho em uma de minhas palestras ministradas nas escolas, “Professores à beira de um estado dos nervos” que chama a atenção sobre a importância do cuidado emocional por parte destes que se dedicam por vocação à arte o ofício do ensino. Os números indicam que mais de 70% (setenta por cento) dos profissionais de educação que deixam de trabalhar temporariamente ou em caráter definitivo em sala de aula se deram por condições psicológicas ou psiquiátricas, principalmente pela depressão e transtornos de ansiedade, seguidos do estresse, insegurança, violência e outras alterações em níveis mais severos de saúde. Como afirma Mário Cortella “ ...quando o modelo de vida que vivemos nos leva a um esgotamento, é fundamental questionar se vale a pena continuar insistindo no mesmo caminho... “, reitera o filósofo.
Em meio a tantos desafios, o professor embora movido pela abnegada entrega à profissão, deve sempre se lembrar de que são as emoções que movem a sua vida acima de tudo, emoção que vem do latim movere ou movimento. O pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890) afirmara certa vez que “... as emoções são os grandes capitães da nossa vida, obedecemos-lhes sem nos apercebermos. ”, enfatiza. Como um jogador de futebol que coloca sua emoção no 'bico de sua chuteira', assim o professor, que deposita sua emoção diariamente diante de uma lousa no ambiente escolar ou acadêmico.
Todavia, os desgastes são inevitáveis neste sentido, e mesmo corajosos, bravos e persistentes, nossos mestres também podem sucumbir ao sofrimento de suas emoções e sentimentos. A psicanalista portuguesa Emanuela Fleming em seu livro Dor Sem Nome considera que “ ...a dor mental apresenta-se por vezes como uma potência sem nome, dominadora e cruel, impondo uma lógica tirânica...” Como escreve São Paulo Apóstolo em sua epístola aos romanos, “o que ensina, esmere-se no fazê-lo” e completa em outra epístola bíblica, “cuide de ti mesmo, e do teu ensino; persevera nisso".
Aos mestres, o desafio de seguirem perseverando na arte do impossível, não se esquecendo do cuidado de si, da autoestima, da valorização da classe, e claro, exercendo sempre o pleno direito de reivindicar e exigir o devido respeito que merecem de toda a sociedade. Como canta a sambista e política Leci Brandão: “Professores, protetores do meu país, eu queria, como eu gostaria, de um discurso bem mais feliz, porque tudo é educação, e matéria de todo o tempo, ensinem a quem pensa que sabe de tudo, a entregar o conhecimento, batam palmas para ele, batam palmas pra ele, que ele merece!”
Por Marcelo Moya -
Se levarmos em consideração as fases de desenvolvimento de um ser humano, podemos definir uma criança como uma pessoa de pouca idade, que compreende a fase de recém-nascido até a puberdade com suas transformações físicas, biológicas e psicológicas. No Brasil, é considerado criança até os 12 anos, embora algumas convenções internacionais definem o infante como todo menor de 18 anos.
Em 12 de outubro comemora-se o Dia das Crianças, celebrada no Brasil desde meados da década de 20 do século passado, e que mais tarde ganhou relevância graças a uma campanha de marketing realizada por uma famosa fábrica de brinquedos, que para alavancar a venda de seus produtos, promoveu uma semana da criança que veio a ser incorporada no calendário de comemorações nacionais.
A psicanálise é tanto um método de exploração do inconsciente (aspectos latentes de nosso ser), que quando bem-sucedida restaura a nossa personalidade e nos aproxima da pessoa que fomos quando nosso desenvolvimento ficou comprometido, como afirma o psicanalista britânico Wilfred Bion (1897-1979), mas é também um amplo campo de teorias para pensar o mundo, a cultura, as relações humanas e as inquietações da alma. E justamente por estas dimensões teóricas que o tema do infantil ganhou relevância como modelo das mais variadas construções psicanalíticas.
Dentre seus principais teóricos, Sigmund Freud (1856-1939) estudando o adulto, descobriu a criança de todos nós, da mesma maneira, Melanie Klein (1882-1960), que ao se dedicar em sua clínica infantil, foi observando a criança que descobriu o bebê dentro delas. E Donald Winnicott (1896-1971), graças a sua experiência de pediatra, dedicou-se com afinco no universo da criança, deixando valiosas contribuições acerca de atenções essenciais no processo do desenvolvimento emocional infantil.
Mas afinal, o que é uma criança? Embora cada consideração abaixo explicitada merece uma discussão bem mais pormenorizada, técnica e profunda, é sobre este espectro de penumbras associativas percebidas pelos saberes da metapsicologia que gostaríamos de destacar pelo menos três considerações dentre tantas outras possíveis, e que podem nos ajudar a ampliar nossas formas de compreensão sobre este maravilhoso, porém complexo, mundo infantil.
Em primeiro lugar, precisamos ter em mente de que crianças não funcionam no mesmo padrão dos adultos. Os aspectos físicos, biológicos e psicológicos definem singularmente suas necessidades, convívio e formas de tratamento. Mas o que lamentavelmente se observa na sociedade é o drama de muitas crianças adultilizadas ou precocemente estimuladas a isso. Devemos tratar crianças como crianças, não lhe imputando a elas um peso de algo que ainda não são, mas dando-lhes pavimento adequado para se tornarem no futuro, adultos maduros e socialmente responsáveis.
Em segundo lugar, as crianças são vidas que necessitam do suporte adequado dos adultos para sobreviver e se desenvolver. Falhas neste processo poderão incorrer em sérios transtornos emocionais, distúrbios de personalidade, problemas de aprendizagem e até mesmo delinquência. A criança precisa de condições básicas para crescer saudável, bem como do acolhimento afetivo de seus cuidadores, algo crucial para se tornarem mais seguras e aptas para enfrentarem os desafios da vida.
E por fim, crianças são seres que precisam brincar e adoram fazer isso com os adultos. Quando nos lembramos do Dia das Crianças, logo pensamos em presentes, principalmente brinquedos, objetos do desejo infantil. Dar presentes tem sua relevância e significado, e mais do que isso, crianças precisam ser estimuladas a brincar, não apenas sozinhas ou com outras crianças, mas a interação com os adultos também é importante. Criança que não brinca, não se desenvolve. E a interação com os adultos também imprime marcas profundas no processo de organização psíquica delas. A data comemorativa já passou, mas as crianças seguem trazendo alegria e esperança aos nossos lares e o mundo, sem nos esquecermos de uma outra criança muito especial, a criança que já fomos um dia e que se perpetuou dentro de cada um de nós em nossas memórias e reminiscências, formando os fragmentos infantis que diariamente alimentam os sonhos como expressão mais fiel de nossos desejos.
E como escreveu o saudoso poeta Paulo Leminski: “Nesta vida, pode-se aprender três coisas de uma criança: estar sempre alegre, nunca ficar inativo e chorar com força por tudo o que se quer. ”
Por Marcelo Moya -
No ano de 1994 um triste episódio marcou uma cidade do interior dos Estados Unidos chamada Westminster-CO. Ali vivia um jovem chamado Mike Emme que tinha um Ford Mustang de cor amarela resultado de sua dedicação na restauração do veículo e que até lhe rendeu um apelido.
Apaixonado por carros, era visto por todos com um jovem alegre, de bem com a vida, bom humor, ótimas relações, características típicas de pessoas que desfrutam do pleno de sua juventude aos 17 anos de idade.
Mas no dia 08 de setembro daquele ano, entre onze horas e meia-noite, algo chocou profundamente a população local. Este promissor rapaz foi encontrado dentro de seu famoso carro, morto com um tiro. A polícia achou junto um bilhete pedindo desculpas aos pais e dizendo o quanto ele os amava. Mike havia tirado a própria vida. Ninguém conseguia acreditar naquilo e todos perguntavam como isso era possível se ninguém notava nada de diferente nele que poderia justificar brutal ação.
No dia de seu velório houve uma mobilização local que se logo se alastraria por todo o país e se transformaria numa campanha de dimensões internacionais. Foram distribuídas fitas amarelas com cartões (devido a cor do carro e o apelido que o jovem tinha - o Mike do Mustang Amarelo), com o seguinte dizer: “Se você precisar, peça ajuda!”. Nascia ali o Setembro Amarelo.
Realizada no Brasil desde 2014, por iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria em parceria com o Conselho Federal de Medicina, a campanha remete ao 10 de setembro, oficialmente Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Embora se intensifique no mês da primavera, esta mobilização acontece durante todo o ano com objetivo de conscientizar sobre a prevenção ao suicídio, buscando alertar a população e tentar reverter esta quadro por meio de ações que envolve entidades públicas e privadas, órgãos de saúde, escolas, universidades, igrejas, empresas, etc., e despertar um olhar para a vida e a importância do cuidado com o próximo em seu adoecimento mental, independente da classe social e faixa etária.
Dados da Organização Mundial de Saúde apontam que a cada quarenta segundos uma pessoa tira a própria vida, e a cada três segundos houve uma tentativa não consumada. Mais de um milhão de suicídios acontecem por ano em todo o planeta. O suicídio é uma das principais causas de mortalidade, sendo a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, por exemplo. Em território nacional são registrados mais de doze mil suicídios e os números só têm aumentado nos últimos anos.
Cercado de mistérios, tabus e por delicadas questões éticas, culturais, morais e religiosas, o suicídio é considerado um grave problema de saúde pública e são diversos os fatores que podem influenciar uma pessoa atentar contra a própria vida, sendo que as principais causas são a depressão, transtornos e doenças mentais como a esquizofrenia, o uso de substâncias psicoativas, além do sentimento de absoluta impotência diante das inúmeras pressões, perdas e frustrações da vida adulta.
O bullying também vem se tornando um fator premente entre crianças e adolescentes. O seriado Os 13 Porquês inspirado no livro de Jay Asher e disponível na plataforma Netflix é uma boa referência para o debate e reflexão, e as influências das mídias digitais como a Boneca Momo, a Baleia Azul e os jogos violentos como o GTA também servem como sinais de alerta e atenção das famílias.
A OMS ainda adverte que mais de 90% dos casos poderiam ser prevenidos com medidas simples como uma conversa, informação, suporte familiar, além da ajuda de especialistas para enfrentar e superar o problema, haja vista que na maioria dos casos quem se suicida não quer desistir de viver, mas se livrar da dor pela qual não consegue encontrar uma saída sozinho. Sabe-se que pelo menos dois terços dos atos cometidos foram sinalizados pela pessoa semanas antes a parentes e amigos próximos acerca da intenção de fazê-lo, o que desafia a sociedade em ações ainda mais vigilantes e eficazes.
Também é válido esclarecer que existem alguns mitos que precisam ser desfeitos em torno do comportamento suicida, tais como: que a pessoa não avisa, que isso não pode ser prevenido, que a pessoa só quer chamar atenção, que quem tenta uma vez não tenta novamente ou que falar abertamente sobre este assunto irá estimular a realização, o que de fato não procede.
A psicanálise se pauta por uma série de modelos teóricos que ajudam na construção de consistentes reflexões sobre este tema a partir de conceitos cunhados na metapsicologia, entre estes, o luto, estágios melancólicos, narcísicos e maníacos, a desintegração do eu, as estruturas psíquicas, as fantasias inconscientes, as ansiedades, os mecanismos de defesas, as funções de pensamento, etc.
Mas é pela exploração de dimensões inconscientes experienciadas numa análise que existe a possibilidade de pensar as relações com os inevitáveis estágios depressivos e ansiógenos, ressignificar as emoções, abrir-se para novos vértices de compreensão da vida e da morte, por exemplo, da responsabilização das escolhas, decisões e do próprio sofrimento, e de seguir crescendo mentalmente, superando as contradições da vida e encarando-a com mais perspectiva e propósito.
Além de profissionais especializados, existe o CVV (Centro de Valorização da Vida) que pode ser acessado através do telefone 188 ou pelo site cvv.org.br onde dispõe outras opções de acesso. O site podefalar.org.br oferece ajuda para jovens e adolescentes entre 12 a 24 anos, e também as políticas públicas de atenção à saúde mental como os serviços ofertados pelos Caps (Centro de Atenção Psicossocial). No site setembroamarelo.com é possível obter mais informações e encontrar orientações importantes sobre como proceder com pessoas de tendências ou sinais suicidas.
E você, tem planos para o futuro? Sente que sua vida ainda vale a pena ser vivida ou está difícil demais? O importante é que em qualquer sinal de alerta, procure ajuda. Como canta a banda Titãs: “Quando não houver saída, quando não houver mais solução, ainda há de haver saída, nenhuma ideia vale uma vida... é caminhando que se faz o caminho... enquanto houver sol, ainda haverá...".
Por Adriana Silveira -
O complexo de Édipo é central para os trabalhos desenvolvidos por Freud, como sabemos. Freud acreditava que os complexos de Édipo e de castração teriam início na fase fálica, momento em que os genitais são o centro da libido infantil. Haveria aí a descoberta, pelo menino, do pênis, bem como da ausência do pênis na menina, o que levaria à castração e ao Édipo.
Diante da rivalidade em relação ao pai, bem como da impossibilidade de ter a mãe como objeto de desejo e do medo de perder o pênis (em virtude do onanismo), o menino ressignifica sua relação com os pais, identificando-se com a figura paterna. Nesse momento, dissolve-se o complexo de Édipo e tem início a formação do Superego- instância inicialmente formada a partir da introjeção da relação parental.
No caso da menina, haveria um ressentimento quanto à ausência de um pênis, sendo a castração um produto desse processo. Nesse caso, a castração antecederia o complexo de Édipo. A menina passaria a desejar inconscientemente o pênis do pai e ter um filho com ele. A não concretização desse desejo levaria à dissolução do complexo de Édipo e à formação tardia, se comparada ao menino, do Superego.
Melanie Klein, no início da publicação de seus escritos, também defende que a formação do Superego está vinculada aos complexos de Édipo e de castração. Porém, o trabalho direto com crianças - um grande diferencial em relação a Freud, que analisava adultos - permitiu-lhe observar que o Édipo teria início antes do que Freud acreditava. Apesar de, inicialmente, Klein estar presa aos estágios sexuais de desenvolvimento infantil, ela concluiu que esses estágios aconteceriam mais precoce e rapidamente. O Édipo, para ela, ocorreria nas fases iniciais do desenvolvimento infantil, chegando ao período de desmame e às frustrações anais advindas dos rituais de higiene.
Na descrição desse processo, Klein já introduz a noção de posição, ou seja, da relação estabelecida (posição ocupada) entre o bebê e o outro. Fazendo também uma comparação entre o menino e a menina, Klein revela que aquele, na passagem da fase oral e anal pela genital, mudaria de posição e passaria a ter como objetivo a penetração, associado ao pênis e à figura materna como objeto amoroso. A menina, ao chegar na fase genital, manteria o objetivo receptivo, desenvolvendo, a partir das frustrações das fases oral e anal relativas à mãe, a receptividade para o pênis, tendo o pai como objeto amoroso.
A castração ocupa também lugar importante nas publicações de Klein. Quanto ao menino, destaca a “fase da feminilidade”, quando este vê a figura paterna como fortemente castradora e, fugindo aos impulsos genitais, prende-se à fase sádico-anal. Ao ódio pela figura materna e temor pela destruição de seu corpo soma-se, pois, o temor da figura paterna. A junção desses fatores desencadeia a formação de um superego primitivo, extremamente rigoroso e tirânico.
Na menina, Klein destaca que o onanismo não possibilita uma saída adequada para a quantidade de excitação, do modo como ocorre com os meninos. Existe um desejo pelo pênis que lhe falta e, consequentemente, um desejo pelo pênis do pai, possuído pela mãe, a quem dirige seu ódio. Há, desse modo, um desejo forte de destruição da figura materna, bem como a identificação com a figura paterna, que se torna o objeto amoroso.
Ao elaborar suas ideias em torno do Superego arcaico, Klein mais uma vez apoia-se no conceito de posições. Tanto no caso do menino quanto da menina, o bebê, ao desenvolver uma visão mais realista e total do objeto amoroso (inicialmente, a mãe), deixando de vê-lo de modo fantasiosamente ambivalente (seio bom X seio mau) e incorporando o objeto bom dentro de si, sairia de uma posição paranoide para uma posição depressiva, por volta dos quatro meses de idade. Consequentemente, ocorreria a identificação com o objeto amoroso e a necessidade de preservá-lo. Surgem aí a ansiedade, a culpa pelo desejo de destruição do objeto mau (típica da posição anterior, ligada à fase sádico-anal) e o desejo de reparação. Nesse momento, para Klein, seria formado o Superego arcaico.
Melanie Klein atuou no tratamento de crianças e defendeu a análise infantil, diferentemente de Anna Freud, por exemplo. A fim de atuar no tratamento de crianças e de auxiliá-las no manejo de sua ansiedade, desenvolveu a técnica do brincar. Por meio da observação e da interação com a criança durante as brincadeiras, chegou às fantasias inconscientes do bebê. Assim, foi possível compreender melhor seus sentimentos e as relações estabelecidas entre a criança e a realidade.
Em alguns dos casos clínicos inicialmente publicados por Klein, pode-se verificar a efetividade de sua técnica. O ponto de partida é, sobretudo, a observação, no brincar, do relacionamento da criança com os adultos que dela cuidam, sob a perspectiva do desenvolvimento sexual infantil, com foco nos aspectos edipianos. No entanto, a perspectiva da formação do Édipo e do Superego precoces – e dos consequentes sentimentos de ansiedade, culpa e reparação – são um diferencial importante para o desenvolvimento de sua técnica, considerando-se, nela, a análise das posições.
Por Wagner Andreo Alledo Filho -
“Sonhar é acordar-se para dentro...” (Mario Quintana)
Acordar-se para dentro, dar à luz o obscuro, conhecer a si mesmo... Mario Quintana, poeta gaúcho, reconhecido pela profundidade dos seus poemas e perfeição técnica, o “poeta das coisas simples”, propõe uma reflexão a respeito do sonho:
“Sonho. Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, do teu próprio coração”.
Seria para ele o sonho (nem sentirias) a manifestação (um poema) de uma emoção (do teu próprio coração) vivenciada no passado (que já estivesse escrito) mas que insiste em retornar (fosse brotando) e libertar-se (no mesmo instante)?
Quem poderá dizer?
O significado dos sonhos é tema de debate sob diferentes óticas, com forte influência religiosa, científica e cultural, variando a sua interpretação desde como uma simples manifestação da criatividade até como sinal de maus presságios e outras previsões futuras.
Para a psicanálise, o sonho é a manifestação de um desejo reprimido. Esse conceito surgiu em 1900, com a publicação do livro “A Interpretação dos Sonhos”, por Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise (na verdade, publicado em 1989, mas propositalmente datado de 1900. Tamanho era seu caráter inovador que, alterar a real data de lançamento em um ano e, assim, para o novo século que se iniciava, poderia conferir ao livro o título de “Obra do Século”).
Nesse livro, Freud aborda o sonho e sua interpretação buscando um caráter científico. Ao mesmo tempo que faz isso, cria os pilares fundamentais da psicanálise. Na obra Freud apresenta suas ideias sobre de onde vêm os sonhos, por que eles ocorrem e como funcionam. Apresenta o conceito de conteúdo manifesto, que é a descrição textual do que se recorda de um sonho, e quais são os processos que levam à transformação do pensamento em conteúdos manifestos. Conclui que os sonhos representam, de maneira disfarçada, a realização de desejos inconscientes que estão em conflito e buscam uma forma de se expressar. O material utilizado para sua formação encontra-se no inconsciente e a sua manifestação se dá através da união dos conteúdos escondidos (ou recalcados) às memórias e lembranças do dia a dia.
Ao fechar os olhos à noite, além do descanso físico, ocorre com o sono o relaxamento da consciência. Os mecanismos de defesa e censura que nos orientam durante o dia, em estado de vigília, se tornam ineficientes, e já não conseguem barrar totalmente a expressão dos desejos inconscientes. Estes então se unem a experiências e vivências que estão na memória e se manifestam buscando, através dessas associações, os disfarces necessários para driblar a defesa consciente. Não à toa muitas vezes os sonhos são confusos ou parecem não ter sentido. Ocorre que para superar o disfarce do verdadeiro desejo recalcado em um sonho é necessário empregar um processo de interpretação que ultrapasse o conteúdo. Freud categoriza esses disfarces como condensação, deslocamento, representações e elaborações secundárias.
O processo de condensação pode ser compreendido se comparado à leitura de uma poesia. À primeira vista, um verso pode se apresentar simplório e propor uma interpretação fácil, rasa ou direta. Mas uma análise atenciosa promove a abertura de um leque de interpretações e ideias ‘escondidas’ às palavras que pareciam não possuir essência ou profundidade de conteúdo. “Sonhar é acordar-se para dentro”. Quantas inferências podem ser atribuídas a essas cinco palavras de um verso de Mario Quintana? Freud conclui que o conteúdo manifesto do sonho é infinitamente menor que o conteúdo latente, por isso vários elementos do sonho manifesto são combinados em apenas uma imagem psíquica, com várias cadeias associativas. As imagens latentes, ou conteúdos oníricos, aparecem em sonho abreviados, condensados, pois são perturbadores demais para aparecer de forma completa. São como palavras que se apresentam inocentes ao primeiro olhar, mas permitem infinitas inferências se analisadas em um determinado contexto.
Junto à condensação, o deslocamento é outro mecanismo de defesa pelo qual a mente substitui uma reação emocional por outra imagem remotamente relacionada ao conteúdo original, transferindo emoções, ideias ou desejos com o objetivo de aliviar a ansiedade diante de impulsos insuportáveis. O deslocamento promove uma distorção do desejo inconsciente fazendo com que o conteúdo manifesto do sonho não mais se assemelhe ao conteúdo recalcado que o originou.
Mas como se dá o processo de escolha das imagens, palavras e outras representações que vão compor o conteúdo manifesto do sonho? Para Freud, essa escolha se dá pelo valor psíquico associado à imagem ou à sua capacidade de representar vários sentidos. Quando uma emoção se associa a esse material tem-se o processo de representação, através do qual uma imagem pode estar associada a uma emoção desproporcional ou invertida, por isso o conteúdo manifesto do sonho não permite a sua real interpretação. É através das emoções que se pode compreender o conteúdo onírico do sonho. O material de representação passa por deslocamento e condensação, mas as emoções permanecem inalteradas, sendo a busca pela sua compreensão o caminho mais adequado em direção o conteúdo onírico.
Mas há ainda outro complicador. O sonho pode ‘desligar’ os afetos do material de representação, buscando outras associações. Quando isso ocorre, as emoções podem sofrer supressão (desaparecimento do afeto nos sonhos), deslocamento (transferência de afeto para longe do seu representante ideativo numa outra parte do sonho), subtração (empobrecimento do afeto dos pensamentos no sonho), inversão (transformação de um afeto em seu contrário) ou reforço (intensificação do afeto ‘permitido’ no sonho em substituição ao ‘proibido’).
Não obstante a complexidade do processo de interpretação dos sonhos apresentado até aqui, cabe observar que a descrição do sonho ocorre quando já se está acordado ou desperto (estado de vigília) e a consciência plenamente reestabelecida em seu trabalho de defesa e censura. Surge então a possibilidade do consciente aplicar suas últimas energias em busca da censura com o trabalho do esquecimento, muito comum após uma experiência de sonho. Por fim, como que num “golpe de misericórdia”, a consciência pode buscar a promoção da elaboração secundária do conteúdo onírico, que atua no intuito de dar coerência ao sonho, preencher espaços vazios ou amenizar pensamentos absurdos à sua luz, apresentando um conteúdo manifesto mais ameno e aceitável, ocultando o conteúdo onírico à medida que o recria ou remodela.
Para a psicanálise, a escuta do sonho pode ser também um despertar, à medida que através da sua manifestação e relato, mediados pelo processo de livre associação, dá voz ao subconsciente e permite o desenvolvimento de um processo contínuo de descobrimento e autoconhecimento.