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INVEJA_PECADO_ORIGINAL Blog Masonry - Results from #204

Inveja; o pecado original

Por Fernanda Dias Belo -  Aquele que está dentre os mais conhecidos dos sete pecados capitais; a inveja. Já se fazia notar em civilizações que precederam a era cristã. Sendo, portanto, recomendado a todo homem que desejasse possuir qualidades superiores, combater esse estado de emoção. Por outro lado, seu antagonista; a gratidão, é compatível com o grupo de qualidades que deveriam ser por eles, adotadas. Neste contexto, ambas são concebidas como escolha consciente e voluntária, fruto da interação do homem com o meio. Portanto, seria competência do próprio sujeito, superar a primeira, em benefício da segunda. Perspicaz, Melanie Klein inova ao apresentar a inveja e a gratidão, pelo viés rudimentar, inerente e comum ao desenvolvimento do aparelho mental humano.  Contrapondo-se ao senso comum, em sua versão precoce, tais afetos, são involuntários e inconscientes. Desencadeados pela relação primordial; bebê/seio. O movimento de Inveja e gratidão, são invariavelmente, dirigidas ao mesmo objeto; o seio bom. Atuando na mente do bebê, desde seus primeiros dias de vida, essas emoções interagem em uma conjuntura ambivalente e conflituosa. Onde, a prevalência do afeto invejoso no psiquismo do bebê, acarreta implicâncias, tanto para o seu desenvolvimento inicial, quanto para as relações de objeto, no decorrer de sua vida. De modo igual, revelam a simultaneidade, das posições esquizoparanóide e depressiva atuando desde cedo, sobre o ego prematuro. Desse modo, a predominância de uma posição sobre a outra, é determinante para a experiência do bebê em relação ao objeto, a saber; inveja ou gratidão. Se diante do mal-estar, provocado pela ausência do seio bom, o bebê é capaz de tolerar o desconforto, fruir em satisfação e contentamento quando reestabelece ligação com o objeto. Sinaliza que ele está no funcionamento depressivo. Consequentemente, as condições para sentir amor e gratidão pelo objeto, estão estabelecidas. Por outro lado, quando a privação do objeto, desperta no ego ansiedades persecutórias, sua capacidade de sentir gratidão, é eclipsada pelo ódio e horror a dependência. Origina-se então, a inveja primária (inconsciente), e suas defesas esquizoparanóides. Portanto, a premissa da inveja é a percepção de que existe um objeto bom, e superior. Pois este, é detentor de potencialidades que o bebê deseja, e não possui. Sendo assim, os primeiros ataques invejosos, são direcionados ao seio bom, e ocorrem justamente, pela capacidade que o seio dispõe de nutrir, e ser uma fonte inesgotável de alimento. Por conseguinte, a frustração de não ser detentor, de tais potencialidades, desencadeia sentimentos de animosidade, e o seio que alimenta, mas não gratifica, se torna alvo de ataques sádicos, que visam danificá-lo e destruí-lo. É imprescindível ao invejoso, manter-se na ilusão de onipotência, e auto suficiência, enraizadas no aspecto narcísico da inveja. Logo, diminuir, desvalorizar as capacidades e conquistas do outro, tem por finalidade, auxiliar o invejoso a se manter isolado do sentimento de dependência e insuficiência, negando a existência daquilo que lhe causa horror; os atributos do outro, que ele não possui. Nisso consiste o caráter perverso da inveja; a negação do outro. Não existe consideração pela pessoa, que sente e sofre as consequências dos ataques a ela destinados. No limite, essa anulação do outro, conduz a uma relação de utilidade; objetificação da pessoa. sem vínculo, nem laços de afeto. Isso posto, podemos inferir, que o bebê imerso em inveja, começa a recusar o alimento, por não tolerar a condição de submissão. Mas, a necessidade de sobrevivência se impõe, e ele volta a se relacionar com o objeto, apenas como fonte de nutrição e suprimento material, mantendo-se em um “estado de interesse”. Mesmo assim, nada do que é fornecido pelo objeto, resulta em satisfação. Visto que, o estado de inveja, não é incompatível com a condição de contentamento, nem de reconhecimento do objeto, como sendo suficientemente bom (desvalorização). Isso resulta, na voracidade, enquanto um dos principais atributos da inveja. Como citado acima, a inveja e a gratidão, estão presentes nas relações humanas, desde os períodos rudimentares da história. Ao decorrer por suas características - no sentido do senso comum -, certamente podemos identificar com facilidade, em nossos círculos de convivência, pessoas que correspondem a essa condição; incluindo, nós mesmos. Contudo, a concepção geral da inveja, tem verossimilhança com o conceito de cobiça. Pois se fundamenta no preceito de ansiar o que o outro possui. Entretanto, nos moldes que Melanie Klein problematiza em sua obra, a inveja e a gratidão, são afetos concebidos na gênese do desenvolvimento humano. Do mesmo modo, ocupam uma posição de centralidade no funcionamento da mente do bebê, e do adulto. Sem jamais negligenciar o aspecto constitucional, nas conjecturas de Melanie Klein, a gratidão é intrínseca a pulsão de vida. Se resume basicamente no reconhecimento do bebê, de que o seio - apesar dos descontentamentos- preservou sua existência. Quanto a inveja, ela vai além do desejo irrefreável de gozar daquilo que pertence ao outro, e triunfar sobre o objeto. Ela almeja aniquilar, tudo aquilo que reverbera suas limitações, e incompetências. Em total confluência, com os princípios da pulsão de morte.
REVOLUCOES_INSUBMISSOES_MELANIE-KLEIN__PENSAR_FAZER_PSICANALITICO Blog Masonry - Results from #204

Das revoluções e insubmissões de Melanie Klein sobre o pensar e o fazer psicanalítico

Por Maria Teresa Manfredo -  A psicanálise, que em princípio era uma técnica criada para ser aplicada somente em adultos, passou na primeira metade do século XX por um conjunto de modificações, abarcando também a análise voltada para as crianças. A grande responsável por essa inovação técnica e teórica foi Melanie Klein. Com efeito, essas transformações não ficaram restritas ao público infantil e, rapidamente, tornaram-se pilares para também balizar novos olhares sobre o funcionamento mental de uma maneira ampla. Em “Amor, Culpa e Reparação e Outros Trabalhos”, livro que reúne textos de Klein de 1921 a 1945, podemos verificar o modo como a autora descreve o início e a evolução da sua atividade analítica dedicada à infância. Naquela época, a análise voltada para esse público era considerada algo inferior dentro da psicanálise; acreditava-se que o trilhar analítico que poderia ser realizado com uma criança pequena deveria ter apenas um caráter educativo, aproximando-se da pedagogia. Isso porque, de acordo com a técnica freudiana, a psique das crianças ainda se encontraria em estado incompleto – já que o Complexo de Édipo não estaria formado até os sete anos de idade, aproximadamente, segundo o autor. Ao longo do desenvolvimento de seus estudos analíticos, clínicos – e aqui podemos destacar, por exemplo, o capítulo “Princípios Psicológicos da Análise de Crianças Pequenas”, texto escrito em 1926, presente no livro citado acima – Klein defende que é, sim, possível a análise das crianças com cunho estritamente interpretativo, ou seja, seguindo os padrões da psicanálise. Ainda tendo como referência o livro “Amor, Culpa e Reparação e Outros Trabalhos”, é interessante ressaltar que, até a década de 1930, Klein traça um trajeto intelectual e analítico em que o uso das noções freudianas das fases do desenvolvimento psíquico (oral, anal, fálico, latente, genital), bem como do Complexo de Édipo e de castração, estão muito presentes. Pouco a pouco, com o avançar de seus estudos e observações clínicas, Klein começa a fazer uma série de descobertas que contradizem as teorias básicas de Sigmund Freud, sobretudo no que tange às fases de desenvolvimento. Por exemplo, ela começa a observar que mesmo em crianças muito pequenas, menores de cinco anos de idade, pode ser observado o Complexo de Édipo. Com isso, a autora traz a luz instâncias como a do Superego arcaico – ideia segundo a qual a força do Superego é, antes de tudo, pulsional, biológica e provém totalmente do sadismo inerente a cada bebê quando se relaciona com o mundo a sua volta. Klein identifica, ainda, um certo contraste entre a rigidez que o Superego pode desenvolver e a tolerância dos pais. Mas, para a autora, a formação do Ego não encontraria sua base nas interdições familiares. De uma forma um tanto revolucionária, porque muito inovadora, Klein argumenta que o que exerce grande influência nessa formação não seriam os pais reais, mas o que ela chama de imago dos pais, criada no psiquismo do bebê desde os primeiros meses de vida. Daí teríamos que a noção de Complexo de Ego para Klein ocorre de maneira muito distinta, já que muito mais tenra em termos etários, do que a noção de Complexo de Ego em Freud. Além de outros pontos importantes, vale destacar que, em Klein, diferentemente do que ocorre na obra de Freud, a questão moral, ou a influência social e cultural, ficam em plano secundário. Assim, pouco a pouco, Klein acaba estabelecendo a matriz das relações de objeto como pressuposto principal dentro da psicanálise. Dito de outro modo, o que passa a importar em psicanálise a partir de Klein não é a libido, tal qual postulava seu antecessor teórico de maior peso, Freud; importa, sim, como o sujeito se relaciona com outros objetos (e por objetos podemos entender as pessoas, as coisas, os acontecimentos, as situações... Tudo aquilo que dá forma ao mundo e que passa pelo juízo da criança). Ora, em termos de paradigma psicanalítico, isso significa uma expressiva revolução. Ainda assim, é possível de se perceber na obra de Klein um certo receio de ser expulsa do círculo psicanalítico da época, já que suas descobertas confrontavam as de Freud, grande fundador e portador das teorias psicanalíticas naquele período. Dessa forma, é possível fazer a seguinte leitura em muitos dos escritos de Klein, principalmente até meados da década de 1930: a autora se ocupava de uma tarefa ambígua; de um lado, refazer a teoria psicanalítica frente às suas descobertas e, de outro, não discordar diretamente de Freud. Em suma, devemos destacar que, até Melanie Klein, a psicanálise pensava desenvolvimento psíquico tal como Freud o imaginara, qual seja, em termos de fases de desenvolvimento. Paulatinamente, ao se tornar mais independente intelectualmente em relação a Freud, Klein desenvolve a noção de posição. Por conseguinte, podemos afirmar que a grande consolidação kleiniana em termos teóricos e técnicos se dá entre 1935 e 1946, com estabelecimento completo do seu famoso sistema de posições. Nele, basicamente não teríamos mais fases lineares de desenvolvimento psíquico e sim a ideia de que ora o sujeito está numa posição (esquizoparanóide) e ora noutra, (posição depressiva). Enquanto seres humanos, nossas mentes estariam sempre vibrando numa dessas duas posições, tal qual um pêndulo, a depender tanto da internalização dos objetos que tivemos em nossas experiências enquanto bebês quanto de nossas relações objetais no momento presente. Dito isso, no que tange às diferenças e aproximações entre a forma de condução dos casos clínicos entre Freud e Klein, poderíamos afirmar que, em sua escrita, Klein expõem mais os detalhes e meandros dos casos clínicos, suas dúvidas, demonstrando, por vezes, que o caminho interpretativo da mente humana pode não ser algo tão assertivo quanto os textos de Freud podem sugerir. Também, devemos observar que Klein se afasta da descrição quase investigativa que muitas vezes Freud imprimiu na exposição de seus casos clínicos; com isso, a psicanálise passa cada vez mais a ganhar em termos de complexidade.
INCONSCIENTE_BRINCADEIRAS_%20GENIALIDADE_MELANIE%20KLEIN Blog Masonry - Results from #204

O inconsciente, as brincadeiras, e a genialidade de Melanie Klein

Por Fernanda Dias Belo -  “Quando as palavras não são capazes de comunicar o que sentimos, a gente não fala, só sente”. A linguagem verbal, que é a principal forma de comunicação humana, possui em si mesma, lacunas que por vezes, dificulta, ou não é capaz de transmitir com exatidão, o que se pretende comunicar. Quando falamos de amor, por exemplo, costumamos dizer; amo minha mãe, amo minha cidade, amo aquele prato, e assim por diante. Ora, certamente nominamos de amor, tudo o que nos desperta certos afetos, o que não significa necessariamente, que se trate do mesmo sentimento. Pode ser apenas, o reflexo da nossa limitação verbal, que nos leva a dar o mesmo nome, a coisas potencialmente diferentes. Ainda assim, com certa carga de precariedade, a importância das palavras, está estabelecia. E foi através da escuta do que é dito, que Freud iniciou a metapsicologia que explora os significados ocultos, no discurso do paciente. Sendo assim, sua técnica estava condicionada, e limitada a pacientes com fala articulada. O que fatalmente impossibilitou, que realizasse pesquisas clínicas diretamente com crianças. Desafio assumido por sua Filha e discípula, Ana Freud. Que utilizando-se do viés educativo, inicia uma psicanálise infantil, voltada, e com caráter pedagógico. Conduta fortemente criticada por Melanie Klein, que entende a prática de Ana Freud, como inapropriada. Na medida em que esta, desperta ansiedades - que segundo Klein, permeiam a psiquê da criança - sem que seja realizado um tratamento analítico sobre tais ansiedades. Logo, os procedimentos de Ana Freud, estariam próximo da modelação, e adaptação da criança, ao meio em que vive, em detrimento do trabalho analítico. Embates com Ana Freud à parte, Melanie Klein é a referência em psicanálise com crianças. Podemos ir além, e afirmar que ela foi a precursora. Visto que, o método que ela desenvolveu através de observações clínicas, não é somente consistente, mas é também, genuinamente psicanalítico. Considerando que seu trabalho se direciona em investigar as fantasias do inconsciente infantil, da maneira que ele mais comumente se manifesta em crianças; através das brincadeiras.    A técnica do brincar de Melanie Klein, possibilitou novos avanços para a clínica psicanalítica. Não submissa a linguagem verbal, novas possibilidades se apresentaram, como tratamento de psicoses, por exemplo. Pelas quais, Freud desenvolveu certa quantidade de material teórico, mas pouco pôde fazer na prática. Uma nova formulação do entendimento, de um dos principais conceitos da psicanálise é teorizado por Klein; o complexo de édipo. Se Do ponto de vista fenomenológico, ela converge com Freud, a inovação do seu entendimento se dá, na temporalidade, dinâmica do processo, e possíveis desdobramentos, no aparelho mental. Para Freud, o desenvolvimento da criança, é dividido em fases psicossexuais, e a divisão de cada etapa é definida de acordo com a concentração de energia pulsional. Sendo assim, na fase fálica, o que prevalece é o interesse da criança pelo falo (pênis). E a partir daí, emerge o complexo de édipo – por volta dos quatro anos de idade - Onde, de acordo com Freud, no édipo positivo, o menino abandona a mãe como objeto libidinal por medo da castração. E a menina (que vive uma fase pré-edipiana), na busca de resolver sua falta fálica, abandona primeiro a mãe, e depois o pai, na sua jornada para conquistar, o que não possui. Crucial para o desdobramento do édipo, tanto no entendimento Freudiano, quanto no Kleiniano, é o Superego. Klein inclusive, concebe uma versão arcaica, que desde muito cedo, age sobre o ego fragilizado do bebê. Nessa perspectiva, para Klein, o complexo de édipo se inicia, ainda no primeiro ano de vida da criança, e o seu desenvolvimento, decorre em estágios concomitantes, amalgamados, e permeados por ansiedades oriundas da introjeção de objetos edipianos parciais (seio bom, seio mau/ pênis bom, pênis mau). Nesse contexto psíquico, o que determina a maneira que o complexo de édipo é experienciado pela criança, é a capacidade do seu ego rudimentar, suportar ansiedades persecutórias, e um superego agressivo.        Portanto, Klein sustenta a teoria, que relações objetais, são apreendidas desde o início pelo aparelho mental. E que as imagos internalizadas, as fantasias, assim como as ansiedades da criança, podem ser tratadas ainda na infância. Ao contrário do seu mestre, Freud. Que acreditava não ser possível analisar crianças, mesmo concebendo a infância como origem do adoecimento de seus pacientes, era através do adulto, que ele regredia até as vicissitudes da infância. Por outro lado, a perspicácia de Melanie Klein, permitiu que ela tratasse crianças, na medida em que direcionou sua atenção, para outras formas de comunicação. E constatou que a ausência de vocabulário, ou a comunicação precária, não impossibilita o acesso do analista ao inconsciente do paciente. Pois, o que não é dito, pode ser observado e tratado por uma psicanálise, munida de técnica apropriada, que considera sobretudo, variadas formas de linguagem, e as diversas possibilidades de manifestação do inconsciente. Exatamente como fez, a senhora Klein.
ALGUMAS_DIFERENCAS_APROXIMACOES_FEORICO_CLINICAS_FREUD_KLEIN Blog Masonry - Results from #204

Algumas diferenças e aproximações teórico-clínicas em Freud e Klein

Por Helton Alves de Lima -  Melanie Klein foi uma importante psicanalista que deixou como legado uma série de conceitos e teorias originais, além de modificações e invenções quanto ao trabalho clínico. A obra de Klein se deu principalmente quando a psicanálise buscava fazer uma interlocução com a infância, estabelecendo-a como âmbito do trabalho clínico. Até então, o que havia eram adaptações do modelo de trabalho com adultos neuróticos na clínica freudiana para o trabalho com crianças, ou ainda a proposição de um modelo educativo/pedagógico capitaneado por Anna Freud, que buscava em sua abordagem educar a criança para conter seus impulsos e não as analisar do ponto de vista da interpretação das formações inconscientes, dos conflitos psíquicos e da transferência, pois acreditava-se que a criança não tinha recursos psíquicos suficientemente bem estabelecidos para lidar com os impulsos inconscientes que emergiriam no trabalho analítico. Ao observar crianças, Klein percebeu que o inconsciente e a associação livre se apresentavam no brincar, por meio do qual o mundo interno e os conflitos eram encenados, o que dava abertura para a emergência do significado inconsciente presente no conteúdo das brincadeiras, das ações e das falas das crianças, significado esse que se reconstruía, portanto, no e pelo brincar em análise. Na progressão de seu pensamento clínico e teórico, Klein estabeleceu uma especificidade para a clínica da infância: não uma mera transposição da clínica com adultos, muito menos um trabalho educativo e adaptativo - o que provavelmente exigiu de seu pensamento o esforço de revisão e questionamento de postulados até então bem estabelecidos nas escolas psicanalíticas, decorrendo em inovações teóricas e clínicas recebidas, não sem polêmicas e conflitos, pela sociedade psicanalítica. Um primeiro exemplo desse esforço se dá no âmbito da clínica com crianças pequenas. Klein propôs que a criança pudesse explorar suas emoções dentro do setting através do brincar, incluindo a dimensão negativa da transferência, como o ódio, a hostilidade e a desconfiança, ao considerar a necessária capacidade do analista de suportar tais aspectos transferenciais enquanto condição para sua postura e manejo clínico, o que possibilitaria a criança entrar em contato com suas emoções, seus sentimentos negativos, e assim suportá-los, elaborá-los, aprender a lidar com eles, ao invés de suprimi-los ou reprimi-los. No curso de seu pensamento teórico, Klein compreendeu que a criança sofria com ansiedades que, se não fossem bem trabalhadas e elaboradas, promoveriam a inibição de seu desenvolvimento emocional e intelectual. Muitos de seus pacientes chegavam ao consultório com sérias perturbações e inibições em seu desenvolvimento e sociabilidade. Para ela, a intensidade dessas angústias refletia formações muito arcaicas do mundo interno da criança, permeado por sentimento de culpa e pelo medo de retaliação aos seus impulsos sádicos que, em fantasia, são vividos como ataques aos objetos. Aqui há a formulação teórica do que seria o desenvolvimento inicial da criança para Klein que, apesar de ter fornecido certa complementaridade aos postulados freudianos, os modificou. Trata-se de ideias que propõem a instalação do conflito edipiano e do superego em momentos muito primitivos da existência do bebê, por volta dos seis meses de idade, e não na fase fálica, como propôs Freud. Freud compreendeu a criança a partir de suas observações dos adultos e de suas hipóteses em torno da questão pulsional e da sexualidade. Para o autor, a progressão do desenvolvimento psicossexual se dava mediante a organização libidinal em fases: oral, anal e fálica. Na fase fálica, os conflitos e a rivalidade edípicas são precipitadas na relação da criança com seus progenitores, vistos como objeto do desejo infantil e ação de impedimento à realização desse desejo, e a castração é compreendida como a saída da fase fálica, que possibilita a diluição do Complexo de Édipo e a instalação do Superego, a partir da introjeção de qualidades e ideais da figura castradora por identificação e internalização das normas socioculturais. O Superego freudiano forma parte das instâncias psíquicas descritas na Segunda Tópica, tendo seu aparecimento idealmente por volta dos 5 anos de idade e servindo como instância que pune, cobra o Eu e confere suporte à consciência moral. Por sua vez, Klein entende que há um Superego arcaico que se forma já no bebê mediante as relações de objeto e ansiedades típicas de uma fase primitiva do Eu na qual o sadismo está em plena vigência – o que corresponde, biologicamente, à necessidade de alimentação via seio (ato de sugar) e, psicologicamente, à instalação de fantasias de gratificação, agressão e retaliação que permeiam a introjeção dos objetos parciais que vão povoar o mundo interno do bebê. A oralidade e a analidade exercem um papel importante em sua teoria: morder, triturar, conter, expulsar, introjetar, destruir etc., passam a funcionar como representantes psíquicos de fantasias inconscientes e fantasias de destruição do objeto considerado mau, o que levam a uma intensa experiência de ansiedade, como o medo de objetos internos ou externos que perseguem, punem, promovem retaliações. Fantasia é mais importante na clínica kleiniana do que as experiências reais (os pais/cuidadores reais da criança), o que possibilita interpretações do mundo interno da criança e da forma como ela experencia e organiza os objetos internalizados, o que vai dar o tom do modo como se relaciona com esses objetos e seu mundo interno. O Superego em Klein é considerado mais cruel do que o Superego em Freud, por ser um perseguidor arcaico do Eu, resultando em inibições que podem impactar o desenvolvimento emocional e intelectual, já que a intensa pressão que exerce, em fantasia, pode impedir a passagem da identificação para simbolização enquanto índice de amadurecimento psicológico. Esse postulado tem reverberações em sua clínica, na medida em que ao não se furtar de interpretar as formas de transferência negativa e proporcionar setting analítico de maior abertura à expressão emocional e aos conteúdos que se reconstroem no brincar, a postura mais flexível do analista junto a criança permite com que os conteúdos possam ser abordados pela via da elucidação das fantasias persecutórias e pela ação sublimatória que leva à simbolização.
DORALICE_EU_BEM_TE_DISSE Blog Masonry - Results from #204

Doralice, eu bem que te disse

Por Wagner Alledo -  “Agora você tem que me dizerComo é que nós vamos fazer?” Compositores: Antônio Almeida e Dorival Caymmi A Doralice de Antônio Almeida e Dorival Caymmi, imortalizada no ritmo da Bossa Nova pela voz de João Gilberto, é provocada: como é que nós vamos fazer? Doralice e Dora (a de Freud) possuem algo em comum. Duas histórias inacabadas, fragmentadas. Doralice se casou ou não se casou? E Dora, que conclusão podemos tirar da sua história?  “Fragmentos da análise de um caso de histeria” é o título do artigo publicado em 1905 em que Freud apresenta o Caso Dora. A Doralice da música surgiu 40 anos depois, em 1945, em gravação do grupo de samba Anjos do Inferno. Embora a história de Dora bem que também poderia ser um samba. Menina inteligentíssima, supostamente assediada pelo amigo do pai, sente-se desamparada pela família, anuncia o seu desejo pelo suicídio em função do sofrimento causado por sentimentos contraditórios, apresenta diversos sintomas físicos e procura o tratamento anímico do doutor Freud em busca de cura.  No texto, Freud descreve o tratamento de Dora e compartilha uma série de achados práticos que corroboram com a teoria que ele vinha desenvolvendo. Ao mesmo tempo, em vários momentos, ocorrem contradições. Algumas interpretações permitem inferir que determinadas posturas de Freud tiveram maior foco na comprovação da sua teoria até então do que na resolução dos problemas da paciente. Ele teria deixado “escapar” alguns detalhes. O Caso Dora é publicado entre duas obras fundamentais da teoria psicanalítica (A Interpretação dos Sonhos e Três Ensaios da Teoria da Sexualidade).  Tratava-se de um momento fundamental do desenvolvimento da Psicanálise, quando Freud havia abandonado a hipnose e o método catártico e vinha desenvolvendo os conceitos de associação livre e aqueles relacionados à interpretação dos sonhos, como deslocamento, condensação etc. Mas talvez o foco na comprovação desses conceitos não tenha permitido que Freud observasse mais profundamente dois outros, fundamentais para a sua teoria, e muito presentes nesse caso: a resistência e a transferência.  Com Dora, Freud experienciou profundamente a transferência negativa e a resistência e depois de algum tempo pode observar quão fundamental é a relação do analista com o seu analisado, assim como os impactos dessa relação nos resultados do tratamento. O caso inacabado de Dora permitiu a Freud evoluir na conclusão de que através da transferência com o analista o analisado acessa parte do seu inconsciente reprimido pela resistência.  Infelizmente para Dora essa conclusão tardia motivou sua desistência do tratamento e, ao fazer isso, ela não poderia conceber o tamanho da sua contribuição para o desenvolvimento da teoria e técnica psicanalíticas.  Após o Caso Dora, Freud se dedicou a buscar o aperfeiçoamento do manejo técnico da psicanálise, além de expandir a teoria desses conceitos. Tais reflexões resultaram em textos fundamentais como por exemplo “Recomendações ao Médico para o Tratamento Psicanalítico” e “Sobre a Dinâmica da Transferência”, ambos de 1912, e “Sobre o Início do Tratamento”, de 1913. Dois anos depois, em 1914, ele publica “Lembrar, Repetir e Perlaborar”, que introduz o conceito de neurose de transferência, quando a resistência é tão intensa que influencia diretamente no processo de recordar.  No fim, o Caso Dora foi um grande insucesso. Mas somente para a própria Dora. Seu papel para a psicanálise foi fundamental. O fracasso do seu caso abriu portas essenciais para o conhecimento teórico e técnico. Dora, assim como Doralice dos versos do samba, não respondeu com palavras diretas ao questionamento que lhe foi imposto. Mas, ambas, do seu próprio e legítimo modo, pavimentaram caminhos bastante concretos em busca de respostas para a pergunta:  E agora, Doralice, como é que nós vamos fazer?
DICA_FILME_TITANE Blog Masonry - Results from #204

Dica de Filme: Titane - (alerta de spoiler)

Por Ale Esclapes -  Em carta de Freud à Andreas Salomé ele nos ensina que ao conduzirmos uma análise, “é preciso emitir um facho de intensa escuridão de modo que algo que até então tenha ficado obscurecido pelo resplendor da iluminação possa cintilar ainda mais na escuridão”. Com isso em mente passo a um breve resumo e uma extensa lista de temas que brilham em “Titane”, mas que escolho não pensar nesse momento. O filme é a história de uma assassina (que a psiquiatria chamaria de psicopata) chamada Alexia, que transa com um carro, engravida dele e que, quando descoberta pelos seus crimes, foge e é “confundida” com o filho (Adrien) desaparecido de um chefe de bombeiros (Vincent) há dez anos. A lista de temas que deixo de fora são: a violência do início do filme; o fato de Alexia ter matado seu pai; de transar com um carro e depois parir um filho; bem ... a lista é extensa.   No que quero me concentrar é no personagem Vincent, que tem seu filho Adrien desaparecido há mais de dez anos, e que reconhece Alexia em uma delegacia como sendo seu filho, e que a despeito de todos os sinais que a realidade lhe dá, segue afirmando que Alexia é Adrien. Ele a leva para fazer parte do grupo de bombeiros no qual é o chefe. Mesmo quando descobre que aquele que ele trouxe para casa como sendo seu filho, tem um corpo feminino e está grávida de uns 8 meses, não o retira do lugar de seu filho que retorna à casa. É dessa violenta experiência emocional que quero me ater.   A mãe de Adrien se dá conta facilmente da situação delirante de Vincent e pergunta diretamente a Alexia/Adrien: “E se você fosse eu? Se não pudesse chorar seu filho, o que faria?”. Imagino (que é tudo que posso nesse contexto) que a expectativa de encontrar o filho perdido seja proporcional a dor do sentimento de perda, e uma vez que Vincent “encontra” Adrien, a perspectiva de viver novamente essa dor seja insuportável, e entra em cena uma forte negação da realidade, e mesmo diante de todas as evidências de realidade, Adrien continua ali.   Vincent pode negar para si a realidade, mas vai ficando muito difícil o grupo de bombeiros negar junto. Quando essa situação grupal vai se tornando insuportável, vai se criando as condições para que Vincent se dê conta emocionalmente do que se passa. Nessa hora nasce o filho de Alexia, e o resto fica em aberto. Vicent sai do seu delírio? O filho de Alexia ocupa o lugar de Adrien?  Voltando à recomendação de Freud, e quando emitimos um facho de intensa escuridão no filme, a violência da experiência emocional da perda de um filho e suas implicâncias podem vir para o primeiro plano. Uma leitura possível é que a violência da experiência de perda é transposta no filme como uma violência aparente que esconde uma outra. Uma pena que alguns expectadores tenham abandonado as salas de cinema nas exibições nos festivais pelo mundo: qual será a violência que os fizeram sair de suas zonas de conforto? A explícita ou a implícita, a manifesta ou a latente?  E você, conseguiu ver o filme até o fim? O que achou? Deixe aí o seu comentário.  ___________Direção: Julia Ducournau Plataforma: MUBI
DORA_PARADIGMA_TRANSFORMACAO_TECNICA_PSICANALITICA Blog Masonry - Results from #204

Dora: paradigma da transformação da técnica psicanalítica

Por Luiz Barbosa -  O caso Dora é um episódio central na história da Psicanálise. Embora Freud afirme, ainda no prefácio do texto de sua comunicação, que não foi possível atingir a “meta fixada”, em função da interrupção precoce do tratamento. (“por vontade da paciente”), o caso foi o primeiro em que se registrou o uso de certos procedimentos técnicos que viriam a ser definitivamente incorporados à clínica, além de reafirmar, categoricamente, a necessidade do domínio dos postulados de A Interpretação dos Sonhos para o pleno exercício da Psicanálise, e a correção das inferências apresentadas nos seus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Isso não significa, entretanto, que aquilo que seria fixado como a técnica psicanalítica tenha sido aplicado em sua exatidão ou completude. É verdade que, no tratamento de Dora, Freud lança mão da associação livre, “descoberta” pelo psicanalista quando de sua percepção das limitações da hipnose e da sugestão a essa associada. Porém, à medida que o relato do caso avança, é possível perceber um Freud vacilante na adoção das próprias inovações técnicas que busca introduzir. A leitura do relato, aliás, permite vislumbrar, em mais de uma passagem, uma espécie de ansiedade em preencher as lacunas dos relatos da paciente com sugestões e apressadas conclusões relacionadas à sexualidade de Dora. De fato, tem-se a impressão de que Freud, embalado pelas descobertas e conclusões de sua pesquisa, adota uma postura proselitista, que é possível perceber mesmo em sua comunicação do caso. É como se o psicanalista, invertendo uma lógica que sempre lhe pareceu cara, deixasse que a tese – neste caso, a afirmação da técnica de interpretação dos sonhos e as conclusões acerca da importância da sexualidade na etiologia das neuroses – antecedesse a análise da narrativa da doença de Dora e lhe ditasse o sentido das conclusões, a despeito dos fatos em si. Assim, Freud, em substituição à hipnose e à sugestão, adota a livre associação como método de trabalho. Mas, ao invés de adotar a neutralidade e a abstinência que viria a enfatizar em seus textos posteriores, aqui o psicanalista, tão logo percebe no relato da paciente algum indício que aponte no sentido de seus postulados teóricos, apressa-se em entabular conclusões, antes mesmo de deixar que outras falas, ações ou reações de Dora permitam descortinar suas verdadeiras razões. Quando a jovem relata, por exemplo, o episódio em que o senhor K. a beija nos lábios em sua loja, imediatamente Freud conclui de que o comportamento de Dora é “completamente histérico”, além de tecer uma série de considerações sobre um possível deslocamento da sensação genital, numa incisiva tentativa de ligar a reação de nojo referida pela moça a uma problemática sexual ainda impossível de se afirmar, de acordo com a própria exposição do caso. Por outro lado, é preciso que se diga, a livre associação e a técnica de interpretação dos sonhos mostram seu valor como ferramentas do trabalho clínico. De fato, uma e outra se combinam para fazer avançar o tratamento quando Dora leva os sonhos para o divã. É a oportunidade para Freud pedir-lhe que busque falar tão livremente quanto possível acerca das memórias oníricas e das impressões que lhe causaram, uma vez que ele já instruíra a paciente na interpretação de seus sonhos. Ao mesmo tempo, seria uma oportunidade para que o próprio Freud colocasse em prática o que ele viria denominar atenção flutuante e as já referidas neutralidade e abstinência, o que não ocorreu de todo. A interpretação do segundo sonho de Dora, infelizmente, não foi concluída, visto que o tratamento foi interrompido pela paciente. Como se vê, a importância do caso Dora está em sua particularidade de ser o primeiro relato de caso de Freud em que está uma relatada uma tentativa de abandonar a técnica sugestiva da hipnose e a de enfrentar um caso clínico armado com a técnica de interpretação dos sonhos e os postulados teóricos acerca do papel da sexualidade na etiologia das neuroses – “as manifestações patológicas são, por assim dizer, a atividade sexual dos doentes”. Além disso, Freud chama a atenção para outro fenômeno observado durante o tratamento de Dora, que ele vai chamar de transferência e que considera “a parte mais difícil do trabalho”. Isso porque essa reedição dos impulsos e fantasias do paciente, além de inevitável, precisa ser apreendida pelo psicanalista “quase sem ajuda, com base em coisas mínimas e evitando inferências arbitrárias”. Mas é também imprescindível ao sucesso do tratamento, posto que somente “depois que ela é resolvida o paciente se sente convencido da validez dos nexos construídos na análise”. Nesse sentido, cabe perguntar: qual foi o manejo da transferência por Freud no caso Dora? Visto que o tratamento foi precocemente interrompido, qual o alcance da solução obtida? Se se toma a desistência de Dora como índice do fenômeno, pode-se concluir, além da ocorrência de uma transferência negativa dela para com o analista, que houve falha na forma como ele lidou com a circunstância? Considerando-se a importância que Freud deu à transferência em seus trabalhos posteriores, pode-se concluir que esse percebeu a necessidade de melhor compreender o fenômeno e de aprimorar a técnica no que tange à sua manipulação, tendo em vista o ocorrido no tratamento de Dora. Não por acaso, entre os trabalhos publicados posteriormente ao caso Dora, Freud demostra clara preocupação em municiar os médicos que se dedicam, e virão a se dedicar à Psicanálise, com um verdadeiro arsenal de recomendações para que evitem cometer o mesmo erro que ele próprio cometeu. Nesse sentido, pode-se afirmar que, no caso Dora, Freud não maneja corretamente a técnica psicanalítica que vinha elaborando e que seguirá aperfeiçoando nos anos seguintes. De fato, no que diz respeito ao modo como lidou com a transferência da paciente em relação a ele, o analista deixou a desejar, fazendo com que a jovem abdicasse do tratamento. Mas, além disso, diferentemente do que viria a afirmar posteriormente, Freud falhou ao lidar com as resistências do inconsciente da paciente. Ora, se a transferência é uma reedição de sintomas, não passa de um mecanismo das forças de resistência em seu trabalho de recalcamento. Como vencê-lo? De acordo com o próprio Freud, a solução está na fórmula “recordar, repetir, elaborar”. Para que o paciente recorde o que repete sob a forma da transferência e, finalmente, elabore, é preciso, antes, que a resistência que está na base do processo se lhe torne familiar. Somente assim ele pode vir a conhecê-la e, através do trabalho de análise, elaborar. A falta de tato de Freud, ao lidar com a transferência de Dora em relação a si, roubou-lhe essa oportunidade. Aparentemente, a despeito de afirmar em seu texto que o caso não foi completamente solucionado em função da desistência de Dora, Freud parece ter tomado esse caso para si como um paradigma. Quase como um modelo de fato, o caso Dora serviu para que, a partir dele, o psicanalista avançasse na reformulação da técnica – que já vinha em reconstrução desde seu rompimento com Breuer e o abandono da hipnose e da sugestão – e elaborasse uma série de postulados teóricos e preceitos para atuação na clínica, muitos dos quais ainda em uso na clínica contemporânea. Dessa forma, pode-se dizer que, na condução do caso Dora, Freud respeitou parcialmente apenas as regras da técnica psicanalítica, mas, paradoxalmente, esse caso foi essencial para a elaboração da técnica tal como a conhecemos hoje.
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Dica de Filme: And then we danced - (alerta de spoiler)

Por Ale Esclapes -  O filme narra a história do dançarino Merab que tem como parceira de dança e namorada Mary no National Georgian Ensemble. Com a chegada de Irakli na companhia de dança é desencadeada uma série de emoções em Merab. O filme é delicado, intenso e apresenta muito mais camadas do que se permite ver à primeira vista, o que o torna, a meu ver, um pequeno clássico.   Na superfície temos o desejo de Merab por Irakli em conflito com a conservadora cultura georgiana, que não é muito diferente da cultura fora dos grandes centros ocidentais. Se assim o fosse, seria mais um filme LGBTGQIA+ estereotipado, mas não é o caso. Merab é filho, irmão, neto, empregado, vizinho, aluno e todas essas camadas estão presentes no filme, o que dá profundidade e complexidade ao personagem principal. Sua mãe aparentemente é deprimida, seu pai um dançarino fracassado, seu irmão tem problemas com drogas, seu professor é rígido, ele trabalha como garçom para ajudar na família que não dispõe de muitas posses. Ufa ... um personagem em tanto.   Todas essas camadas ficam disponíveis para que roteiro, direção e interpretações possam ser usadas para contar a estória do nascimento de uma parte da personalidade de Merab até então não disponível para ele: sua homossexualidade. A maestria do filme é focar nas implicâncias desse afloramento: com Irakli, com Mary, com o grupo de dança, seu irmão etc. Não estão em primeiro plano vergonha e culpa (não estão ausentes, mas não são o primeiro plano) – Merab flui com o seu desejo, e vai tendo que enfrentar suas consequências. Não é o mesmo conflito que vemos em filmes como, por exemplo, “Tom da Fazenda” onde culpa e vergonha em relação à sexualidade são transformados em violência. Aqui o destaque é para uma experiência de coragem e ingenuidade daquele que consegue acolher a si mesmo, mas nunca sem dor.    O filme apresenta cenas lindíssimas com destaque para a dança entre Merab e Irakli e o primeiro beijo, mantendo um delicado equilíbrio entre a tensão sexual, o amor e o medo. O ar de apaixonamento e entrega de Merab domina todo o filme, e o fundo conservador da sociedade georgiana lhe dá um contraponto de tensão o tempo todo, proporcionando ao filme um ar mais próximo do temerário que ao do medo. Destaque para a interpretação de Levan Gelbakhiani em seu primeiro trabalho como ator, que soube dar ao personagem densidade e leveza na medida certa dentro da história.   “And then we danced” é um pequeno clássico pois trata justamente desses elementos universais: como acolher o desejo e suas implicâncias em um espaço que não o aceita, seja ele pessoal, familiar ou cultural e isso é muito mais abstrato que a questão da sexualidade. ___________Direção: Levan AkinPlataforma: MUBI