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Um pensamento em busca de um pensador

Por Débora Waihrich Matzenbacher -  A partir de Bion a psicanálise toma um rumo diferente do modelo proposto por Freud e Klein. Bion aponta um vértice diverso na forma de pensar e trabalhar o psíquico daqueles apresentados por seus antecessores, sendo que um ponto fundamental e de suma importância, e que vem a corroborar com tal afirmação, é que Bion não criou teorias, e sim formas de pensar. Com Freud e Klein a ideia era a de uma psicanálise médica, enquanto que a datar de Bion ocorre uma mudança da medicina à psicanálise, passando esse último a adotar então uma epistemologia não-causal, não dando importância para o que aconteceu no passado do paciente, e sim dando relevância e destaque para o que está acontecendo no “aqui e agora”, se aproximando assim, mais da realidade do indivíduo naquele momento. Freud, em seus estudos e em sua clínica, trabalhava o inconsciente do paciente acreditando que os desejos e as angustias provinham de suas experiências mais primitivas e que os sintomas surgiam em razão do retorno de alguma coisa que está no inconsciente do indivíduo e que foi recalcado. A meta era lembrar, ou seja, trazer o reprimido para a consciência. As teorias de Freud tinham como base fundamental a questão das pulsões e da sexualidade. Afirmava que o Complexo de Édipo era vivenciado por volta dos 3 ou 5 anos de idade, que é quando a criança se encontra na fase fálica, quer dizer, é nesse período da vida da criança que a organização genital infantil vai acontecer, assegurando ainda, que a “passagem” bem sucedida desse indivíduo pelo Complexo de Édipo é que vai estabelecer a sua constituição e a estrutura psíquica, sendo o Superego o “herdeiro” desse Complexo. Na sequência Klein, aprimorando e sofisticando os conceitos de Freud, apontou para a ideia de trabalhar com as fantasias inconscientes já na infância do indivíduo através do brincar e da observação da capacidade simbólica da criança. Acreditava que desde o nascimento essas fantasias já se faziam presentes e atuantes na vida da criança. Assinalava ser de extrema importância as relações objetais, em razão da criança, ao nascer, enxergar e sentir a mãe, na verdade o seio materno, como um objeto, bom ou mau, e ser com esse seio, esse objeto, que ela mantêm uma relação. Apontava ser indispensável a análise da ansiedade e da culpa por acreditar que se essas fossem bem trabalhadas teriam como reflexo uma maior facilidade no desenvolvimento psíquico e na maneira como a criança se relacionava. Assinalava a existência de um sentimento de inveja presente desde o começo da vida da criança, assim como também um Superego forte, influente, atuante e bem mais primitivo daquele apresentado por Freud. Klein, desenvolveu o conceito de posições, a esquizoparanóide e a depressiva, que se alternam entre elas, e que podem existir em simultâneo. Dentro do entendimento de Klein o indivíduo atua sob as duas posições ao longo da vida. Apontou, ainda, um enfoque diferente em relação ao Complexo de Édipo, pois em sua teoria esse processo já tinha início nos primeiros anos de vida da criança. Destaque, ainda, para a introdução do termo e conceito de “identificação projetiva”, que passou a assumir um papel de extrema relevância no trabalho da clínica. Quando começamos então, a transitar pelas ideias de Bion, percebemos, como já citado acima, que seu entendimento e método de trabalho não é fundamentado em teorias e sim, em ferramentas que possibilitem alcançar e trabalhar, de forma eficiente, a experiência emocional experimentada e vivida pelo paciente. Portanto, Bion sai da teoria da transferência e “cai” na teoria das transformações. Desse modo, passa-se da ideia do concreto, onde todos os sintomas tem uma causa, para uma psicanálise “do pensar e do conhecer, de tentar se aproximar da realidade”. Bion, muitas vezes, faz uso das ideias de Freud e Klein, mas de uma forma diferente, dando destaque para um pensamento mais abstrato, uma expansão mental, ou seja, um aumento da capacidade de pensar do paciente. Bion entendia que as teorias psicanalíticas eram excessivamente concretas, não tendo uma flexibilidade que permitisse a formulação de abstrações, para ele “o primeiro requisito é formular uma abstração para representar a realização que teorias já existentes visam descrever.” Bion percebia que a partir do pensar, era possível modificar a realidade ou fugir dela, e que é a capacidade de suportar as frustrações que nos leva a pensar, e que inclusive é esse pensar que nos dá habilidade para modificar ou mudar a realidade psíquica, ou seja, o pensar vai surgir como um recurso para “lidar com a frustração”. Quando então, o sujeito não dá conta da frustração, ele não consegue pensar. Em relação ao trabalho do analista, Bion dava ênfase e era categórico ao afirmar que esse deveria  abster-se de qualquer tipo de desejo e memória, enaltecendo a importância da observação e da intuição, requisitos estes que entendia como indispensáveis para uma análise com resultado efetivo e satisfatório. Bion propõe que o analista observe, abstraia, e a partir dessa abstração ele devolva ao paciente uma interpretação daquilo que foi observado. Entendia, ainda, que analista e analisando deveriam estar ligados emocionalmente, em uma relação íntima, onde os dois trabalham e encaram juntos as emoções, sentimentos e verdades do paciente. Assim, Bion traz a teoria do pensar para dentro do setting analítico, entendendo que todo indivíduo tem, a princípio, recursos e capacidades para desenvolver e ampliar o pensar, afirmando que “há sempre um pensamento em busca de um pensador”.

Aproximações entre Bion e Sócrates - só sei que nada sei!

Por Wagner Alledo -  Em “A Apologia de Sócrates”, Platão descreve o julgamento do “pai da filosofia” no tribunal de Atenas, acusado de impiedade e de corromper a juventude, crimes pelos quais acabou sendo condenado à pena de morte. Em determinado momento, o juiz questiona o filósofo sobre a opção de vida que o incriminou. Sócrates explica: Certa vez, meu amigo Querefonte foi até o Oráculo de Delfos (local de peregrinação no Templo de Apolo, próximo a Atenas, mais importante centro religioso da época) e recebeu do Oráculo a seguinte informação: Sócrates é o mais sábio de todos os homens! Não entendi, afinal tinha absoluta certeza de que não era o mais sábio. Intrigado, busquei as pessoas mais sábias que conhecia em cada área do conhecimento e passei a fazer perguntas: ao juiz sobre as leis, aos poetas sobre a poesia, aos médicos sobre a medicina… Àmedida que eu os interrogava, eles me davam definições. Quando os interrogava sobre essas definições, eles não sabiam mais o que responder. Sentiam-se detentores de um saber que na verdade não sabiam e isso os encheu de ódio contra mim. Concluo que talvez o que haja de mais sábio em mim seja o fato de que eles acham que sabem, mas não sabem. Já eu, reconheço que de fato nada sei. A sabedoria não está no saber. Mas no saber que não se sabe. Esse episódio, descrito acima com liberdade retórica (não se trata de uma transcrição fidedigna do que teria sido o discurso de Sócrates, mas uma adaptação livre baseada nas descrições de Platão), que remonta aos primórdios da filosofia, fundamenta o conceito da sabedoria socrática, simplificada através de 5 tópicos fundamentais: (1) Investigação, (2) Amor pelo Saber, (3) Contínua Interrogação e (5) Conhecimento de Si. Juntos, eles representam a conhecida expressão: só sei que nada sei. O caminho da psicanálise após as contribuições de Wilfred Bion possui raízes socráticas. Mas para fundamentar essa conclusão, se faz necessário remontar aos primórdios em uma resumida caminhada pela evolução dos conceitos psicanalíticos passando por Freud e Melanie Klein. Primeiro, importante reforçar, que o surgimento da psicanálise, com Freud, se dá em função das limitações da medicina. Quando os sintomas dos pacientes não podiam mais ser explicados pelos exames corporais ou laboratoriais, causas emocionais passaram a ser levadas em consideração e a medicina busca meios científicos que permitissem diagnosticar doenças a partir da análise das emoções. Freud, que era médico, inicia seus estudos e cria a psicanálise fundamentado no conceito de que os desejos e angústias humanas relacionam-se com experiências remotas que precisam ser investigadas. Conclui que sintomas são reflexos de emoções e experiências recalcadas, escondidas em algum lugar do inconsciente, e teoriza as fases do desenvolvimento sexual humano, a importância do Complexo de Édipo e a divisão do aparelho psíquico em Id, Ego e Superego. A exploração teórica de Freud serviu de base para o desenvolvimento da psicanálise e a sua clínica carrega uma lógica similar à lógica médica: busca-se a origem de um sintoma, que deve ser investigado e cujo esclarecimento atua na cura do sintoma. O analista busca respostas e sabe o que procurar (emoções recalcadas) e onde procurar (Complexo de Édipo). Outra figura fundamental no desenvolvimento da psicanálise foi Melanie Klein, que evoluiu os conceitos de Freud a partir da análise de crianças e antecipou o Complexo de Édipo para as fases mais iniciais do desenvolvimento humano. Ela propõe também a lógica das posições persecutória e depressiva e introduz o conceito de identificação projetiva, entre outros. A sua clínica também busca respostas no inconsciente, uma retomada ao período infantil e aos primórdios do desenvolvimento psíquico e a relação com objetos. Ainda com objetivo de aliviar sintomas e curar. A lógica médica impera até então. O médico tradicional, ao receber um paciente com manifestações somáticas, utiliza seu (1) olhar clínico, (2) observa o corpo, (3) aprofunda essa observação através de exames e após a (4) análise dos resultados obtidos apresenta o (5) diagnóstico e o (6) tratamento que vai levar à cura. As respostas para a cura estão no corpo. O psicanalista freudiano ou kleiniano recebe o paciente com manifestações somáticas, (1) utiliza seu olhar clínico, (2) observa, (3) escuta, (4) aprofunda essa observação através da busca no inconsciente e após a (5) análise dos resultados obtidos (6) atua nas causas em busca da cura. As respostas para a cura estão no inconsciente. Há uma aproximação, tomadas as devidas proporções, nas duas atividades (médica e psicanalítica): (1) sintoma, (2) exploração/busca, (3) compreensão do problema, (4) diagnóstico, (5) tratamento e (6) cura. Wilfred Bion expande as possibilidades quando, em resumo, propõe uma psicanálise que não busca diagnósticos ou esclarecimentos do passado, mas amplia perspectivas e sugere diferentes olhares para o mesmo acontecimento psíquico, conscientes ou inconscientes, numa exploração que permita ao paciente encontrar novos conhecimentos de si. A psicanálise Bioniana não direciona a atenção do analista para fatos pré-determinados (Complexo de Édipo, Castração etc.), mas a um processo de descobertas e transformações, de questionamentos e expansão do conhecimento. Não se busca no inconsciente algo em especial, mas tudo aquilo que se apresenta é explorado para que se torne conhecido. Em analogia ao pensamento Socrático, a psicanálise proposta por Bion (1) Investiga, e através dessa investigação amplia conhecimentos, o que poderia ser descrito também como (2) Amor pelo Saber. A exploração é infinita, portanto há uma (3) Contínua Interrogação por tudo, e à medida que esse processo se desenvolve, aumenta o (5) Conhecimento de Si, e com isso, aumenta também a plenitude e a capacidade de gozar a vida. Sem certezas ou fórmulas. À luz da humildade que permite a constatação de que “só sei… que nada sei”.

Da teoria para o infinito

Por Fernanda Dias Belo -  O pensamento filosófico foi o motor que desafiou a humanidade a sair da caverna platônica, superar o medo infligido pela cultura e pela religião, e buscar construir um saber racional e sistemático. E foi a mesma filosofia, que mais tarde, influenciou fortemente na formulação da teoria Freudiana, que surge propondo um novo olhar, e uma nova metodologia para tratar os então “doentes dos nervos”, que desafiavam o saber médico, com sua cadeia de sintomas, e o escasso retorno das terapêuticas aplicadas. De origem médica, foi dentro do pensamento e da lógica da medicina, que a psicanálise modelou suas primeiras balizas. Logo, no seu vocabulário teórico Freud faz uso de dois termos correntes; sintoma e cura. Que fundamentam, e se justificam na ideia inicial da psicanálise; solucionar os males físicos manifesto pelas histéricas. Emmy Von N, Dora, Elisabeth Von R. Estão entre os casos clínicos que demonstram o direcionamento da técnica empregada por Freud, que foi sendo desenvolvida em concomitância com suas formulações teóricas, almejando encontrar a causa dos sintomas e solucionar a doença. Indubitavelmente, a epistemologia de Freud, admite uma dinâmica psíquica de caráter objetivo, ou seja, daquilo que de fato existe, e afeta a todos os indivíduos. O complexo de édipo por exemplo, é um dos componentes das fases psicossexuais do desenvolvimento infantil, pela qual, atravessam todas crianças. Assim como a castração. Desse modo, são os recursos empregados pelo ego, e sua capacidade para tolerar as frustrações inerentes a tais processos e etapas, que determinam a constituição e a qualidade mental e relacional da vida adulta. Portanto, a construção a ser feita e a trajetória a ser seguida pela psicanálise de abordagem Freudiana, estão dadas e são conhecidas a priori. Assume-se então a premissa, que existe de fato um enlace de causa e efeito. Nesse sentido, a teoria de Melanie Klein apresentou consonância com as ideias de Freud. Para Klein, os conflitos que posteriormente desencadeiam instabilidade mental, se iniciam em uma fase prematura da vida, e é intrínseco a condição humana. De acordo com suas pesquisas, é na cesura do nascimento que o ego rudimentar experimenta pela primeira vez, sensações corpóreas até então desconhecidas - no ciclo da vida intrauterino - e que lhe causam pavor. Como consequência, umasérie de defesas psíquicas entram em atividade, na tentativa de suportar as ansiedades que inundam o bebê. A primeira ansiedade segundo Klein, é de caráter destrutivo. Na posição esquizoparanóide, o bebê dirige ao objeto primordial - seio materno - ataques sádicos fantasiando absorver deste, as qualidades das quais depende para manter sua vida e evitar frustrações. Alguns meses mais tarde, com a entrada na posição depressiva - e o ingresso da culpa - as ansiedades se deslocam para o medo de perder o objeto amado que danificou, e para a necessidade de repará-lo. Sendo assim, a técnica de Klein tem por finalidade elucidar fantasias arcaicas e onipotentes que existem, e causam ansiedades de qualidade patológica. Wilfred Bion toma para seu pensar analítico, uma variedade de ideias que descolam a psicanálise da causalidade médica. Em uma leitura superficial, as ideias desse autor, podem soar incompatível com as premissas da psicanálise, de fato, faz-se necessário algum nível de aprofundamento na sua obra, para compreender a fertilidade do que ele propõe. Inspirado na filosofia de Emmanuel Kant, Bion emprega nas suas conjecturas a ideia de O. Pois, o processo analítico deixa de ter um alvo, ou objetivo pré-definido, e passa a ser uma técnica exploratória do desconhecido. Isenta de direcionamento, ou fórmula de natureza universal - como pressupõem as teorias. Portanto, nesse modelo, pode-se considerar entre outras coisas, que a teoria ocupa o lugar de suplemento à intuição analítica, e o seu não-lugar é o de molde e/ou categorização de doença mental. Privilegiando a abstração, e sobretudo, a experiência emocional que vigora durante a sessão de análise, Bion atribui ao que ele nomeou de função alfa a capacidade de desenvolvimento e expansão da mente, através do pensar. E uma possível falha em tal função, acarretaria em sua concepção, em “distúrbios de pensamento”. Sendo assim, a ideia de “pensar pensamentos” proposta por Bion, à primeira vista, pode parecer redundante. Mas foi exatamente isso, que fizeram os primeiros filósofos, que ousaram sair de suas cavernas.

O pensar e suas infinitas transformações

Por Débora Waihrich Matzenbacher -  Existe um linha de estudos, teorias e conceitos, que nos orienta sobre o modelo médico que Freud adotava, a teoria da transferência, em relação àquele que Bion apresentou, baseado e fundamentado na observação, abstração, e na comunicação, a teoria das transformações. Para Freud, basicamente, a característica principal da transferência é que ela traz algo do passado, para uma relação presente, ou seja, algo do passado está se transferindo para o presente na figura de outra pessoa e sob circunstâncias diferentes. Pode-se acrescentar, tranquilamente, que a transferência, “são novas edições e reproduções dos impulsos e fantasias, que são despertados e tornados conscientes, à medida que a análise avança, com a substituição de uma pessoa do passado, pela pessoa do médico.” No entendimento Freudiano, quando o indivíduo se propõe a fazer uma análise, ele irá relembrar inúmeras situações da sua infância, assim como desejos e acontecimentos que haviam sido esquecidos e recalcados. Essas lembranças, na verdade, se dão através da atuação do paciente, quando ele repete algo inconsciente, na figura do analista, sem saber exatamente o que se repete, sendo a própria resistência do paciente uma parcela dessa repetição. Assim, portanto, não é algo que ele lembre, mas sim que ele reproduz, e o que Freud entendia como sendo o processo de transferência do paciente, e essa última, consequentemente, o principal remédio para diminuir o vício do paciente à repetição. Subsequente à isso, ocorre a elaboração, isto é, a busca do paciente em perceber a origem dessas repetições e a partir disso “elaborar” de uma maneira diferente aquele conteúdo que estava reprimido. Pode-se acrescentar que elaborar tem o sentido de ressignificar certas perspectivas e panoramas da vida do indivíduo, possibilitando uma reinvenção de um futuro mais atraente para ele. Quando se fala em transferência Freudiana, não se pode deixar de apontar a importância da chamada “construção em análise”, porque é justamente nesse texto que Freud corrobora a ideia de que uma construção não acontece sem uma interpretação do analista. Deve-se levar em conta, todavia, que a interpretação ocorre a contar de um dado ou fato isolado, ou seja, o paciente relata, o analista interpreta. Já na construção, entra em cena a história primitiva, pessoal do paciente, isto é, o analista “confronta” o paciente com fatos e acontecimentos que teriam efeito sob ele. Junta-se portanto, pedaços de um passado possível do paciente, com narrativas atuais, e se constrói um novo fragmento que é comunicado ao paciente.  Para Klein, a transferência está relacionada com as ansiedades arcaicas do indivíduo, que são originárias das fantasias e dos impulsos sádicos, a pulsão de morte. Klein chamava atenção, ainda, à maneira com que o indivíduo se relacionava com os objetos, bom e ruim, pois estes estão no núcleo da sua vida emocional e serão externados no vínculo estabelecido entre o paciente e o analista, a identificação projetiva. Assim, dentro desse contexto ambivalente de amor e ódio, originam-se os conceitos de transferência positiva e transferência negativa. Para ela “as interpretações deveriam abarcar tanto as relações de objetos iniciais que são revividas e evoluem ainda mais natransferência, como os elementos inconscientes nas experiências da vidacorrente do paciente.” O que Freud nominava de transferência, Bion chamava de transformação. O propulsor da transformação é a experiência emocional vivida e sentida na sessão, isto é, aquela emoção que o analista consegue intuir do paciente, uma emoção dentro de uma experiência. Essa experiência emocional se transforma a cada instante, uma vez que sempre tem-se um novo Ò acontecendo. Esse Ò é tudo aquilo que é infinito, incognoscível e desconhecido, ou seja, daquilo que o paciente nos comunica não se pode supor que saibamos aquilo que ele está trazendo. O analista, portanto, precisa ter capacidade de intuir ao menos um dado desse Ò. Essa é a ideia inicial para a teoria da transformação de Bion. As transformações, a contar da experiência emocional, modificam-se a todo instante. Esse “processo” ocorre da seguinte forma: o paciente fala, e essa declaração chamamos de Ò, porque não se pode supor que o analista saiba o que esse paciente está falando e trazendo, uma vez que a fala do paciente é um infinito de desconhecido. A partir desse relato então, o analista intui algo e essas intuições mentais do analista, enquanto ele pensa, se chamam transformações alfa do analista. Quando, então, o analista pensa e aí verbaliza, à essa ação dele, dá-se o nome de transformação beta do analista. Quando o analista comunica, o paciente pode considerar aquela fala como um novo Ò, e é nesse ponto que a transformação ocorre, quer dizer, a transformação que o paciente faz daquilo que o analista falou. Quando o paciente pensa sobre a fala do analista, dá-se o nome de transformação alfa do analisando, subsequentemente, quando este faz uma devolutiva ao analista dá-se o nome de transformação beta do analisando. E durante a sessão, vivenciam-se diversas e inúmeras experiências emocionais, o que deixa a sessão sempre “viva”, permitindo assim a explorarão desse desconhecido do paciente, o Ò. O Objetivo é que sempre haja um crescimento do analista e do paciente no vértice do não saber. Bion propõe que, na sessão, o analista observe, abstraia e, a partir disso, retorne ao paciente com uma interpretação, sobre aquilo que foi observado. A abstração, portanto, é algo que o analista transforma e então comunica. Em ato contínuo, cabe ao analista observar qual a transformação que vai ser feita a partir da comunicação, quer dizer, de que maneira o paciente irá reagir, se ele consegue transformar aquilo que recebeu numa capacidade de expandir o seu pensar ou, ao contrário disso, num ressentimento, num tipo de sarcasmo ou mágoa. Esse processo último Bion nomina de resistência, querdizer, quando o paciente tem medo de sofrer os efeitos dessa realidade ou até mesmo de entrar em contato com ela. A transformação está relacionada com os elementos de psicanálise continente/conteúdo, que são espaciais, e a função PS-D, que é temporal. Esses elementos de psicanálise servem para o treinamento do pensamento, para a capacidade de observar as cosias e, ainda, para criar capacidade inconsciente. O modo como o indivíduo organiza e trabalha os pensamentos, Bion chamava de continente, ou seja, a capacidade que se tem de pensar e a forma que se pensa. Já o conteúdo, são pensamentos à espera de umcontinente. Então, aqui, “implica uma mutualidade que é um continente para o conteúdo do outro e vice-versa.” Isso se dá de forma simultânea e dinâmica, quer dizer, analista e analisando ao mesmo tempo são continente e conteúdo na mesma relação. Bion partia da premissa de que os pensamentos sempreexistiram mas a capacidade de pensar é escassa. Assim, os pensamentos forçam um continente, que é um espaço mental, que acaba surgindo da força desses pensamentos. A função PS-D está relacionada ao aumento do continente do paciente, e ela é temporal uma vez que “existe um determinado tempo para uma mente desorganizada em algum fato, se organizar”. Então a mente do paciente está em PS quando ela está desorganizada em algum ponto, ou seja, algum conteúdo que está desorganizado no continente. Assim que surge um novo fato selecionado, que vai dar outro significado àquilo que já existia, quer dizer, um elemento que organiza aquele fato que estava desorganizado, a mente se organiza e vai para D. Em Bion, a função PS-D é a abstração das posiçõesesquizo e depressiva de Klein. Sendo assim, quando se pensa na transferência de Freud, fica-se restrito ao que está acontecendo com o paciente no momento da sessão, mas esperando que este reviva um passado com o analista. Já na transformação de Bion, fica-se disponível para tudo aquilo que a mente do paciente produz, ou seja, atenta-se para a questão de como é que o paciente pensa, com o analista, no aqui e agora, dentro do setting analítico.

Da medicina à psicanálise

Por Leonardo Neri Candido de Azevedo - No início do século passado, a psicanálise emergiu como um campo de estudo diferenciado que abriu novos horizontes para compreensão da mente humana. No entanto, a psicanálise surgiu repleta de conceitos médicos, pois muitos de seus pesquisadores, como o fundador Sigmund Freud, tinham formação médica. Foi neste contexto que o psicanalista britânico Wilfred Bion desenvolveu uma teoria inovadora que rompeu com as convenções da medicina tradicional, a qual tratava os sintomas pelo viés de causa-efeito. Bion trouxe uma nova perspectiva para a psicanálise, enfatizando aspectos emocionais e subjetivos e desvirtuando a necessidade de se atingir um resultado, como destino a ser alcançado no processo de análise, o que se diferenciava com a prática da psicanálise da época. Nos primeiros anos do desenvolvimento da psicanálise, muitos dos seus principais representantes, como Freud, eram médicos. Isto muitas vezes se reflete nas abordagens clínicas da psicanálise, que se concentravam em trazer significados sobre o funcionamento do aparelho psíquico, visando uma suposta cura do paciente. O foco estava na análise da histeria, neuroses, psicoses e perversões, bem como na compreensão de seus sintomas causados pelos conflitos intrapsíquicos do indivíduo, muitas vezes associados a traumas sexuais e/ou infantis. Por outro lado, Bion apresentou uma nova perspectiva fundamental para a psicanálise moderna. Essa abordagem é menos embasada nos conceitos médicos e mais vinculados aos aspectos psicológico e emocional. Bion desafiou a visão predominante da mente como uma entidade puramente cognitiva, ressaltando a importância dos processos emocionais e inconscientes. Bion sugere que a mente humana lida com pensamentos primitivos chamados “pensamentos beta”, que podem ser a causa de tristeza, sintomas e problemas psicológicos. A contribuição mais importante de Bion foi sua teoria da mudança emocional. Ele acreditava que as pessoas têm a capacidade de transformar o pensamento beta em pensamento alfa consciente e significativo. Este processo de mudança emocional está no cerne da psicanálise Bioniana. Bion entendia que ao processar pensamentos puros e transformá-los em pensamentos conscientes, as pessoas poderiam transformar suas emoções de uma forma mais saudável e aliviar a dor emocional e psíquica. A teoria de Bion teve grande influência na interface entre a medicina e a psicanálise atual. Ele desafiou a visão puramente ontológica da psicanálise, concentrada na necessidade de atrelar os sintomas dos pacientes em diagnósticos pré-moldados, conforme teorias de transferências ou das posições, citando as bases de estudo de Freud e Klein, respectivamente. As mudanças para uma epistemologia não convencional destacadas por Bion, demonstram a importância de explorar os aspectos emocionais e psicológicos dos pacientes, inclusive daqueles com doenças crônicas ou psicoses. Bion desempenhou um papel importante na mudança da psicanálise, afastando-a fundamentalmente de seu viés médico e destacando a evolução emocional do paciente, para compreensão da mente humana. A contribuição de Bion é um exemplo notável de como a psicanálise evoluiu para abraçar uma visão mais abrangente e holística da existência humana. No início da psicanálise, Freud concentrou seus estudos com base na premissa de que os anseios e aflições humanos estão intimamente relacionados a experiências distantes que merecem uma investigação aprofundada. Freud concluiu que os sintomas constituem reflexos de emoções e vivências que foram reprimidas, ocultas nas profundezas do inconsciente. Assim, formulou teorias acerca das fases do desenvolvimento sexual humano, destaca a importância do Complexo de Édipo e desmembra o aparelho psíquico em Id, Ego e Superego. A exploração teórica de Freud estabeleceu os fundamentos da psicanálise, e sua abordagem clínica segue uma lógica semelhante à da medicina, onde se procura a raiz de um sintoma, realizando uma investigação que, quando esclarecida, contribui para a cura do “problema”. O analista empreende a busca por respostas, sabendo exatamente o que está procurando - emoções reprimidas - e onde deve direcionar sua pesquisa, ou seja, aplicar a experiência subjetiva humana à “fórmula” do Complexo de Édipo, para se descobrir as causas. Outra personalidade crucial no desenvolvimento da psicanálise foi Melanie Klein, que avançou com os conceitos de Freud, sobretudo a partir da análise de crianças, adiantando o Complexo de Édipo para as fases mais precoces do desenvolvimento humano. Klein também introduziu as lógicas das posições persecutória e depressiva e trouxe à tona o conceito de identificação projetiva, dentre outros. A sua abordagem clínica também estava focada na busca de respostas no inconsciente, revisitando o período infantil e os estágios iniciais do desenvolvimento psíquico e as relações com objetos, tudo isso com o objetivo de atenuar sintomas e promover a cura. Bion inova ao propor uma abordagem psicanalítica que, em resumo, não visa a diagnósticos ou esclarecimentos do passado. Em vez disso, amplia perspectivas e sugere diferentes maneiras de interpretar eventos psíquicos, conscientes ou inconscientes, promovendo uma exploração que capacita o paciente a descobrir novos conhecimentos sobre si mesmo, infinitamente. A abordagem psicanalítica de Bion não se concentra em conceitos pré-determinados, como o Complexo de Édipo ou a Castração, mas sim em um processo de descoberta e transformação, questionamento e expansão do conhecimento. Não há busca por algo específico no inconsciente; em vez disso, tudo o que se apresenta é explorado em busca de entendimento. 

Psicanálise, de figurante a protagonista indispensável

Por Sergio Keuchgerian -  Até aproximadamente a segunda metade do século XIX, o estudo da mente e as tentativas de compreensão do comportamento humano eram matérias de estudo que se alojavam sob o teto abrangente da medicina. Antes disso ainda na Grécia antiga, os distúrbios mentais eram muitas vezes relacionados ao sobrenatural ou vistos do ponto de vista do misticismo. Os primeiros registros de abordagens que levavam em conta fatores físicos e biológicos no estudo das doenças mentais ocorreram com Hipócrates. Ao longo dos séculos, o tratamento dos distúrbios mentais definitivamente passou a ocupar um espaço significativo nas pesquisas e estudos dentro das escolas de medicina. Já na segunda metade do século XVIII a medicina tinha o monopólio da compreensão da mente e do comportamento humano. Asilos e hospitais psiquiátricos surgiram como forma de confinar e tratar pessoas com distúrbios mentais. Com a chegada do século XIX, pensadores como William James e Wilhem Wundt trouxeram uma grande contribuição para o desenvolvimento da psicologia defendendo a mesma como uma ciência distinta jogando luz nos experimentos e observações comportamentais. Já na segunda metade do século XIX, a partir dos estudos da histeria com Charcot e outros distúrbios mentais, iniciou-se um interesse cada vez mais crescente objetivando a compreensão dos processos mentais inconscientes e de como eles interferiam no comportamento humano. Dentro deste contexto a psicanálise começa a se desenvolver tendo suas raízes na medicina e evoluirá ao longo do tempo até nossos dias a partir de Breuer e Freud, que aliás era médico neurologista. Freud cria conceitos revolucionários para a época, como o inconsciente, a interpretação dos sonhos e a teoria das pulsões, conceitos esses que desafiaram as abordagens médicas tradicionais. Além disso, Freud desenvolveu técnicas para a prática terapêutica, como a associação livre e a escuta flutuante para explorar os processos mentais inconscientes. A psicanálise de Freud recebeu críticas ferozes e teve fortes adversários dentro do universo médico de Viena. Com o tempo foi gradualmente sendo aceita, e a matéria se expandiu e germinou nos mais variados países em todo o mundo. Freud teve discípulos que contribuíram com suas próprias teorias e abordagens dentro da psicanálise. Melanie Klein, também vienense, depois de entrar em contato com a obra de Freud, trouxe novas perspectivas para a psicanálise, principalmente enfocando o universo infantil, revelando a relação mãe-bebê e o desenvolvimento da psique infantil e como ela vai influenciar todas as fases da vida humana. Além disso Klein introduziu os conceitos de posição esquizoparanóide e depressiva dentro dos conceitos da psicanálise, posições essas que definem estados mentais que a partir da tenra infância a pessoa irá experimentar e repetir ao longo da vida. Freud e Klein deixaram um legado indispensável que continua a influenciar a psicanálise até a atualidade. Partindo dos fundamentos teóricos de Klein e Freud, Wilfred Bion, psicanalista britânico nascido na Índia, analisando e discípulo de Klein, reinterpreta a leitura feita por Klein sobre a obra freudiana. Bion ao contrário de Freud e Klein, se distancia verticalmente da epistemologia da medicina afastando de vez da clínica psicanalítica a herança da metodologia ontológica e da casualidade. Portanto, a evolução da psicanálise a partir da perspectiva de Bion envolveu uma mudança na visão da psicanálise como uma simples extensão da medicina para uma disciplina distinta e independente, com suas próprias teorias e práticas. Suas contribuições, como a teoria dos elementos beta e a função alfa, influenciaram significativamente a maneira como os psicanalistas entendem e praticam a psicanálise nos dias de hoje. Bion desenvolve conceitos próprios como o pensamento sem pensador, a função Alfa e o conceito de continente e conteúdo. Ele enfatiza e passa a valorizar a experiência emocional do analisando no momento da sessão. Para ele, o analista deve estar atento às emoções imediatas do paciente e ao processo de pensamento que ocorre dentro do setting, isto é, como os sentimentos se manifestam durante a sessão. Para Bion, o analista deve estar atento às emoções do paciente e ao processo de pensamento que ocorre durante a análise, buscando compreender as resistências e defesas que surgem no presente. A teoria dos "elementos beta" e a "ideia alfa" desenvolvidos por Bion, são conceitos psicanalíticos totalmente dissociados da lógica epistemológica da medicina. Bion faz uso da nomenclatura matemática e enfatiza a importância desses elementos para a melhor compreensão da mente e do processo psicanalítico. Os elementos beta seriam os dados não processados da experiência mental. Eles incluem pensamentos, sentimentos, percepções, imagens e impulsos que não foram transformados em elementos alfa. Os elementos beta muitas vezes não podem ser compreendidos ou comunicados diretamente, são uma representação do conteúdo inconsciente da mente. Na prática, os elementos beta são como fragmentos de informação mental que ainda não foram organizados em um pensamento consciente ou compreensível. Já a função Alfa é a capacidade da mente de processar, transformar e compreender os elementos beta. Para Bion a função Alfa dá sentido aos sentimentos confusos ou primitivos, ela é essencial para a função mental saudável e a capacidade de aprender com a experiência. É por meio dela que os elementos beta podem ser organizados em símbolos e pensamentos coerentes. Em Bion o processo psicanalítico se dá na cooperação entre analista e analisando, nele o analista faz uso da função alfa para tentar compreender os elementos beta trazidos em análise pelo analisando. Para tanto o analista deve manter a mente livre de interpretações pré concebidas e preconceitos. A psicanálise, portanto, tem suas origens na medicina, mas evoluiu para uma matéria independente, baseada em teorias e conceitos próprios sobre o funcionamento da mente humana que evoluíram de forma consistente desde Freud. Ao longo do tempo desenvolveu outras escolas de pensamentos por meio de teóricos que expandiram as teorias e conceitos iniciais e se tornou uma disciplina autônoma e independente com métodos, teorias e metodologia clínica própria. De mera figurante no século XIX, evoluiu com consistência ao longo do século XX assumindo o protagonismo até os dias atuais.

Freud, as modificações na técnica psicanalítica e as pedras pelo caminho

Por Kevin Nicolas S. dos Santos -   Freud, ao longo dos anos, foi alterando sua técnica conforme identificava certas necessidades e aprimorava seu cabedal teórico. Por óbvio, a técnica deveria ser a mais adequada ao tratamento, e, também, coadunar-se com o conhecimento teórico do qual os analistas dispunham à época. Foram diversas modificações pelas quais a psicanálise passou desde o seu início, e faremos uma breve passagem por tais fases aqui, aprofundando-nos, naturalmente, na última. Tudo começou com o método catártico de Breuer, em que era utilizada a hipnose para se atingir o material recalcado, contornando toda resistência possível. Quando se atingia o cerne desse material, a paciente apresentava uma espécie de alívio em razão da liberação de alguns afetos (ou libido). A essa descarga de energia Freud nomeou de catarse, e daí o nome método catártico. Na sequência, após o abandono da hipnose, principalmente pelo fato de muitos analisandos não conseguirem entrar em estado hipnótico profundo com facilidade, Freud ainda continuou tentando contornar a resistência, mas por meio da inferência de lembranças a partir daquilo que lhe era dito pelo paciente. A análise focava precipuamente nos momentos de formação de sintomas e anteriores ao estado da doença, buscando-se, assim, que o analisando superasse suas próprias resistências e lembrasse dos fatos. Freud, por fim, novamente corrigiria sua técnica. Não mais tentaria contornar a resistência, entendendo-a como um empecilho. Ao contrário. A partir de seus estudos, havia notado que elas não somente eram parte importantíssima da doença, como também peça-chave para se atingir uma possível cura. Àquele tempo, o movimento psicanalítico entendia ser possível curar pacientes com distúrbios psíquicos, e Freud compartilhava dessa convicção. Eis, então, sua terceira grande mudança na técnica: o analista permitiria que o analisando falasse aquilo que lhe aprouvesse. O médico, de posse dessas informações, iria analisar a superfície psíquica do paciente e, com a adequada interpretação, deveria ele desvendar as resistências existentes nos pensamentos e comportamentos do analisando e traduzi-las a ele. Após muitos casos clínicos, Freud observou que as resistências, quando descobertas, permitiam que as lembranças, antes esquecidas (material recalcado), agora fluíssem para o consciente do paciente, auxiliando na explicação dos sintomas psíquicos ou físicos sofridos. Este trabalho poderia acabar aqui, se não fossem as dificuldades apresentadas no caminho da analista durante o percurso terapêutico. Um dos maiores obstáculos, sem dúvidas, envolve o manejo da transferência. Ao longo das vidas, as pessoas adquirem certas tendências, costumes e formas de lidar com questões do amor que, aliadas às predisposições inatas de cada um, geram certas metas, pulsões a satisfazer e condições que elas próprias estipulam para si e para o outro, objeto de seu amor. Essa forma de pensar (e agir) em parte é consciente e, em grande medida, é inconsciente, ou seja, possui suas origens (e diversas de suas derivações) absolutamente escondidas nas profundezas da inconsciência, sendo repetida inúmeras vezes ao longo da vida, nos mais diversos tipos de relações que temos (ainda que não rigorosamente “amorosas”). Então, por óbvio, a postura irá se repetir perante a figura do médico, e a esse direcionamento nós chamamos de transferência. Freud fez a distinção entre a transferência positiva e a negativa. Como o próprio nome indica, a transferência positiva é a situação em que o analisando direciona ao analista ideias e afetos semelhantes àqueles que direciona a pessoas com quem detém uma relação teoricamente saudável. Envolve, portanto, sentimentos positivos, confiança e certa facilidade na comunicação com o analista. Já no que se refere à transferência negativa, ela ocorre quando o direcionamento das moções é o mesmo que o analisando tem com pessoas com quem não detém uma relação harmônica, e os sentimentos despertados durante a análise, segundo Freud, podem prejudicar ou até fazer com que a análise seja definitivamente interrompida. Desta feita, para Freud, o tratamento deveria ocorrer sob a égide apenas da transferência positiva. Era essa a condição. Mesmo essa abordagem, porém, estava sujeita a alguns inconvenientes. Talvez o principal deles fosse o enamoramento do analisando pelo analista, um empecilho infelizmente comum. Para contornar e retirar proveito terapêutico da situação, Freud indicava que o correto, pensando-se na cura do paciente, seria pedir para que ele falasse mais daquele sentimento de enamoramento: como surgiu, as condições, os porquês, os antigos enamorados daquele analisando (e seus términos), enfim, que houvesse uma exploração daquele material, pois tratava-se, obviamente, de um conteúdo advindo diretamente do inconsciente que deveria ser analisado. Além do mais, poderia o enamoramento ser expressão da resistência, presente unicamente com a finalidade de atrapalhar o progresso da terapia. Em vista disso, explorar o fenômeno, para Freud, era sem dúvida o mais recomendado. Quanto às outras possíveis soluções na situação, como pedir para o paciente “esquecer” suas emoções, ou, ainda pior, iniciar um relacionamento com o paciente (legítimo ou não), eram, obviamente, totalmente fora de cogitação por Freud, e, até mesmo, poderiam beirar o antiético. Afinal, para ele, aquela paixão não era pelo “analista” em si, mas, sim, um enamoramento do passado que, em razão da terapia, havia se voltado para a figura do médico, mas sem lhe pertencer originalmente. Era a volta do recalcado. Por fim, após a adequada interpretação e tradução das resistências para o analisando, depois de esclarecido o material recalcado, e, ainda, considerando que a transferência havia sido devidamente manejada, deverá o analista aguardar. As resistências, ainda que desvendadas, deverão ser superadas a partir do conhecimento das pulsões mais profundas recalcadas que as alimentam. Somente assim materiais psíquicos da vida presente e futura do analisando não serão, novamente, objetos da resistência, gerando mais sofrimentos. A esse trabalho de superação das resistências, descobrindo-se as pulsões que as alimentam, Freud denomina de perlaboração. É, também, parte do processo terapêutico, mas não mais, segundo Freud, incumbência do analista. O perlaborar será, inteiramente, realizado pelo paciente, cabendo ao psicanalista unicamente aguardar o tempo de seu analisando.

Psicanálise é arte?

Por Fernanda Marques Lima Vendramini -  Com grande curiosidade iniciei a leitura do livro “Eu me lembro”, de Selton Mello, primeiro porque é um ator e diretor da minha geração. Criança, assistindo às novelas em casa todos os dias, naturalmente passava a admirar aquela outra criança, que estava “dentro” da televisão, atuando com tanta propriedade. E a vida passa, e continuei a observar, em meio a tantos novos atores e diretores, bem como ao dia a dia atribulado e tantas responsabilidades que surgem no crescimento de um ser humano,que Selton Mello aparecia... sumia... e uma discrição rara da própria vida, sem holofotes. Não sei o que esperava ao ler o livro... penso que fui sem expectativas... e me surpreendo a cada relato, lembrança, desabafo, revelações... Quantas coisas Selton diz sobre ele que me parecia escrever sobre mim... de meus sentimentos, impressões, autoconhecimento... muita identificação da minha parte em seus relatos, apesar de termostrajetórias de vida completamente diferentes. Comprovação de que, apesar de sermos tão diferentes uns dos outros, muitas coisas podemos ter em comum. E qual não foi minha surpresa a cada momento em que Selton dizia sobre a magia, técnica, formas de atuar e dirigir, e meus insights sobre a atividade de psicanalista!? Ainda não me vejo como psicanalista, apesar de ouvir de vários facilitadores da EPP que já somos, que já atuamos desta forma, mas é certo que, diante destas impressões que fui tendo ao ler os relatosde Selton, fui dando razão às falas dos orientadores... Não tenho ainda experiência na Psicanálise, mas cheguei à conclusão que existe muito em comum entre esta e a arte, a arte de atuar e de dirigir (seja uma peça, novela, série, filme... Selton já temmuito cabedal como diretor). São tantos trechos que poderiam aqui ser transcritos e os psicanalistas lerem e pensarem: estão falando de Psicanálise? De uma sessão de terapia? Mas entendo que seria demasiado transcrever trechos sem comentar o que, de fato, parece ser mais importante para tentar demonstrar a similaridade entre a arte de atuar/dirigir e a psicanálise. Selton é da experiência e opinião de que “atuar é, na essência, algo simples”, e mais do que isto, leve, e que se tiver dor envolvida, vive-se a dor daquele momento e fim, vida que segue. Fala do “aqui e agora”, e que muitas vezes o ator se prepara tanto que não tem espaço para o acaso, não sabe lidar com o imprevisto. Penso que isto é real para a função do analista, de vivenciar cada sessão única comoela é, com atenção flutuante, de forma leve, mesmo que se tenha dor envolvida, e acabada aquela sessão, outra virá, talvez sem dor. Para Wilfred Bion e outros psicanalistas, o silêncio é importante, ele também é uma fala, tem um significado. Para Selton as pausas são interessantes... é onde, muitas vezes, se consegue ver o que opersonagem pensa, é tocar o que está por trás das palavras e também da ausência delas. Algo que me chamou muito a atenção na psicanálise é a importância e necessidade de se ter um cabedal cultural cada vez maior, para que o analista possa ser a cada dia mais assertivo na troca com o analisando, lhe dando exemplos e modelos de aproximação daquilo que diz e sente. É como se o analista passasse a prestar atenção 24 horas em todas as formas de cultura, no dia a dia, em perceber detalhes interessantes em tudo, até mesmo num “meme” de rede social. E não é que Selton também diz isto sobre aarte de atuar?! O ator, em sua visão, é uma antena, que deve estar atento ao que passa na TV, rede social, rádio, na feira, mercado, na rua, na farmácia, pois “tudo é alimento, tudo pode e deve ser usado depois”. Quem já fez ou faz análise vivencia a cada sessão o final de não ter resposta pronta, a angústia de ir embora para pensar, em procurar dentro de si um desenvolvimento e, quem sabe, uma conclusão temporária... sim, temporária, porque estamos sempre em transformação. E Selton, novamente neste ponto, diz que “atuar é quase tentar ser invisível”, que o ator “não deve entregar tudo pronto. O espectador conclui o raciocínio.” Tão psicanalítico tudo isto. Na Psicanálise existe muita discussão sobre a técnica a ser seguida, se é necessária mesmo, se é importante, se é possível misturar uma com a outra, e também se o foco for a técnica, onde fica a emoção, o sentimento. Pois bem, em determinado trecho do livro, Pedro Paulo Rangel pergunta a Selton o que prefere, o que importa, a técnica ou a emoção? E, mais uma vez, a resposta dele em atuar se coaduna com a psicanálise: “acho que as duas coisas”. A emoção está ali, presente, latente, manifesta, e a técnica vai se desenvolvendo, e cada um vai criando a sua, trabalhando, observando a si mesmo, observando os colegas, estudando sozinho ou em bando (como dizem os psicanalistas). Atuar e Psicanálise tão similares, o que me faz concluir que ambas são artes, de ouvir, de ter fé, observar o outro e a si mesmo, transformar, e se encantar com a beleza das artes em todas as suasformas.

Uma visão do caso Dora

Por Adrina Machado Gomes -  Dora iniciou sua análise quando ela estava com 18 anos, foi levada para tratamento por seu pai a quem Freud atendeu com sucesso em uma época em que ele apresentava um problema oriundo da sífilis. A paciente morava com seus pais e um irmão um ano e meio mais velho que ela. Dora era carinhosamente apegada ao pai que apresentou durante a vida diversas enfermidades e tinha na filha uma cuidadora, companheira e confidente. A relação de Dora com a mãe era inamistosa há vários anos e menina não se deixava influenciar por ela. O irmão mais velho da paciente, fora seu modelo. No entanto nos últimos anos a relação entre eles havia se tornado distante. O relacionamento entre os pais de Dora não era satisfatório, o irmão procurava afastar-se o máximo possível das discussões da família, mas, quando se via obrigado a tomar partido, apoiava a mãe. Conjecturando “O Caso Dora” com os estudos dos “Três ensaios da sexualidade” é possível perceber a triangulação edípica e supor: Dora menina “apaixona-se” pelo pai, ressente-se com a mãe por não ter lhe dado um pênis, e espera que o pai lhe dê um pênis. O pai deveria então ajudar a menina a entender que ele não esta disponível para ela, que seu amor erótico é dirigido para a mamãe, mas pelo relato da história parece que o pai, talvez por não manter um relacionamento satisfatório com a esposa, tenha falhado neste corte. De modo que a menina não abandona o Édipo como o esperado. Alimenta-se uma relação triangular entre o pai, a mãe e Dora, a menina rivaliza com a figura materna, mantém-se identificada com o pai. Pode-se assim se pensar que atração sexual acaba por aproximar pai e filha, de um lado, e mãe e filho, de outro. Repete-se a triangulação entre a mãe, Dora e o irmão, quando Dora percebe que o irmão tende a proteger a mãe, sua rival, Dora ressente-se e afasta-se dele.Freud na descrição do caso destaca problemas de saúde no quadro familiar: Tio solteirão hipocondríaco, uma tia psiconeurótica grave, mãe apresenta psiconeurose da dona-de casa e o pai sifilítico de modo que Dora familiarmente tendia a neurose. Dora aos seis anos, por conta da tuberculose do pai muda-se com a família para a cidade de B, lá conhecem o Sr. e a Sra. K. O pai de Dora mantém laços estreitos com a Sra. K., que lhe prestava cuidados quando sua saúde piorava. Dora também manteve por muito tempo amizade com ela, mas a partir dos dezesseis anos após sentir-se traída pela Sra. K que contou segredos de Dora ao pai, a moça passou a desprezá-la e a alegar que ela e seu pai tinham um caso amoroso. Ë possível perceber a repetição da triangulação Edípica sendo os componentes desta vez, o pai, Dora e a Sra. K, quando o pai tende para a Sra. K deixa Dora extremamente ressentida. Pode-se também supor que devido a não resolução satisfatória do Édipo, Dora se manteve identificada com seu pai. E como sustentava um amor pela Sra. K e supunha ser correspondida (inconscientemente), com ela compartilhava segredos e falava sobre interesses e leituras sexuais, segredos que a Sra. K não hesitou em revelar para seu pai, quando viu seu relacionamento com ele ameaçado pelas denúncias da filha, o que levou Dora a entender que a Sra. K mantinha um relacionamento estreito com ela, apenas para manter seu pai por perto, a partir desse momento Sra. K perde o status de objeto de amor e passa a ser apenas uma rival que precisa ser derrotada. O pai de Dora antes da filha iniciar o tratamento conta para Freud que ele e a moça viajaram ao encontro do Sr. e Sra. K., que passavam o verão num dos lagos nos Alpes. Dora deveria passar várias semanas na casa dos K., seu pai regressaria dentro de poucos dias. Mas quando o pai se preparava para partir, a moça resolveu partir com ele. Depois de alguns dias esclareceu sua decisão, contando à mãe, para que esta transmitisse ao pai, que o Sr. K. lhe fizera uma proposta amorosa, durante uma caminhada depois de um passeio pelo lago. O pai não deu crédito a denuncia da filha e solicitou ajuda a Freud para dissuadi-la da ideia de afastá-lo da família dos K e em especial da Sra. K.Dora durante o tratamento com Freud relata que a cena do lago foi a segunda tentativa de sedução do Sr. K., a primeira tentativa ocorrera quando ela estava com quatorze anos, o combinado era que Dora, o Sr. e a Sra. K fossem a um festival religioso, mas o que de fato aconteceu foi que o Sr. K aproveitou uma oportunidade agarrou e beijou Dora nos lábios. Podemos supor que Dora alimentou durante muito tempo a atração do Sr. K por ela, percebe-se uma nova repetição de triangulação sendo os elementos: Dora, o Sr. K e a Sra. K. O sentimento que a moça nutria pelo Sr. K., acabou se traduzindo em um amor, que Dora tentou fortemente apagar. Voltaram à tona, sentimentos que havia recalcado na infância: o desejo pelo pai. Quando o Sr. K. tentou contato físico com ela, Dora passou a evitar o relacionamento entre os dois. E deixou também de aceitar o relacionamento do pai com a Sra. K. A paixão de Dora pelo pai ainda se mantinha inconsciente, ela ainda não compreendia seus sentimentos. Freud confronta Dora com á hipótese de ela ter se apaixonado pelo Sr. K, e de ainda estar apaixonado por ele, e também de seus sentimentos em relação ao pai. A paciente nega, diz não ter lembranças que sustentem essas ideias. Dora não estava mentindo, de fato as lembranças relacionadas a essas paixões foram recalcadas, esquecidas. A paciente apresentava desde criança sintomas histéricos. Com sete anos apresentou, enurese noturna, com o decorrer do tempo apresentou dispneia, tosse nervosa, afonia, enxaquecas, depressão desânimo e uma alteração do caráter se tinham tornado na época do tratamento os principais traços de sua doença, além “ideias suicidas”. Freud constatou que esses sintomas estavam relacionados ao recalcamento realizado por Dora tempos antes.Ocorre que o apaixonamento pelo pai embora aceitável pela criança bem pequena que não domina questões morais, com o passar do tempo, a partir do domínio das regras morais, essa paixão pode passar trazer culpa, quando a criança percebe que o relacionamento fantasiado não é possível, nem aceitável. Dora provavelmente deve então ter recalcado suas fantasias de incesto, tornando-as inconscientes, como forma de defesa. As fantasias, sentimentos e lembranças ficaram reprimidos, mas diante de algumas situações aparecem de forma disfarçada, como nos sintomas e sonhos relatados. O relato e esclarecimento dos sonhos e dos sintomas realizados por Freud permitem ao leitor visualizar como se formam esses sonhos e esses sintomas, e como o desejo que não pode se realizar por não poder ser aceito conscientemente se realiza de forma disfarçada. Diversos são os exemplos desse disfarce na descrição do caso: Enurese noturna “....não tem outra causa mais provável do que a masturbação...”, quanto as dores estomacais “é sabido que, com frequência, as dores gástricas surgem justamente nos masturbadores". No que se refere a dispneia “...a dispneia e as palpitações da histeria e da neurose de angústia são apenas fragmentos isolados do ato do coito, e em muitos casos, como no de Dora, pude reconduzir o sintoma da dispneia, da asma nervosa, à mesma origem casual: ao som entreouvido da relação sexual entre adultos.” Sensação de pressão na parte superior do corpo “...A pressão do membro ereto provavelmente levou a uma alteração análoga no órgão feminino correspondente, o clitóris, e a excitação dessa segunda zona erógena foi fixada no tórax por deslocamento para a sensação simultânea de pressão. Este recortes são apenas parte dos muitos exemplos esclarecedores no caso que tem muitos outros aspectos que podem ser analisados.

Algumas ideias psicanalíticas pós-kleinianas que vieram aprimorar o (re)conhecimento da psicanálise nos dias atuais

Por Marcia Velo Barros -  Melanie Klein, considerada a primeira grande psicanalista pós freudiana, vem trazer um novo modelo para pensar a Psicanálise tendo como base os conceitos apresentados ao longo de toda obra de Sigmund Freud, além de Karl Abraham e SándorFerenczi. A Psicanalista passa a atender crianças em seu consultório, o que para Freud não era viável e com isso, faz descobertas revolucionárias para o mundo psicanalítico. Klein consegue provar com exemplos práticos de sua própria clinica com crianças a possibilidade de analisá-las, assim como aos psicóticos, o que era visto como impossível, já que, segundo Freud, esses não possuíam a condição da linguagem simbólica para apreender uma interpretação. Klein mergulha no mundo infantil de uma forma belíssima e traça um novo caminho de desenvolvimento mental no qual o Complexo de Édipo, por exemplo, se encontra muito mais precoce do que o apresentado por Freud. Para Klein ele é visto logo nos primeiros meses de vida do bebê e não mais tardiamente como apontava Freud. A psicanalista fala também em termos de Posição Esquizoparanóide e Posição Depressiva, o que difere de Freud em relação aos seus conceitos das fases do desenvolvimento libidinal (oral, anal, fálica, latência e genital). Mesmo tendo essas diferenciações quanto aos conceitos freudianos, Klein mantém as bases do “grande mestre” Freud e acrescenta suas novas descobertas. De forma sucinta, podemos dizer que Melanie Klein parte de uma divisão do primeiro ano de vida – ano esse fundamental na vida psíquica da criança, pois nesse, ela “encara” suas maiores angustias e utiliza de defesas as quais serão repetidas ao longo de sua vida adulta, sendo possível o corte do círculo vicioso com uma boa análise – o qual inicia com o trauma do nascimento e a “perda” da vida de plenitude intrauterina; é seguido da entrada na fase feminina com a teoria dos pais combinados, momento esse o qual Klein posiciona como Esquizoparanóide, o qual o bebê vive ansiedades persecutórias, inveja, amor e/ou ódio; após, o momento do desmame, vivenciado como privação e castração e a entrada na Posição Depressiva, na qual o bebê já consegue ter a ideia de uma mãe como pessoa inteira e com ela vivenciar uma ambivalência emocional. Esse foi um breve resumo que de longe passa da profundidade apresentada por Melanie Klein em sua teoria. Mas opto por ele para apresentar os pós kleinianos, novos psicanalistas, que seguiram a partir de Freud e do caminho percorrido por Klein. Melanie Klein e seus seguidores, referencias da Escola Inglesa de Psicanálise, não abandonaram as ideias freudianas, como, por exemplo, outras escolas abandonaram os conceitos de Complexo de Édipo e Complexo de Castração e a Teoria das Pulsões. Esses psicanalistas reformulam e recolocam a teoria edípica no desenvolvimento infantil, num período mais arcaico do que pensado por Freud, e continuam a pensar nas pulsões de vida e morte como impulsos que ditam a vida mental das pessoas. Dentre os psicanalistas pós-kleinianos temos, por exemplo: Hanna Segal, BethJoseph, Roger Money-Kyrle, IrmaB.Pick, Edna O’Shaughnessy e Herbert Rosenfeld. Esses psicanalistas vieram desenvolver o pensamento kleiniano moderno na Sociedade Britânica de Psicanalise no que diz respeito à uma menor ênfase na destrutividade, à interpretação mais dirigida à parte adulta da personalidade do paciente, à expansão da ideia de Identificação Projetiva no setting, a partir das ideias bionianas também e à ênfase na análise da atuação do paciente e a contratransferência do analista. Hanna Segal, em 1956 apresenta o artigo “Depressão no Esquizofrênico” no qual aponta a existência de um núcleo depressivo presente na psicose, isto é, a presença, no esquizofrênico em análise, de um núcleo neurótico, com suas ansiedades e defesas, que, quando é possível que o mesmo deixe aparente ao analista, esse pode aproveitá-lo para interpretar e atingir uma base mais sadia da personalidade. Nesses momentos, o paciente psicótico tem um maior contato com a realidade externa e a realidade psíquica. Esse núcleo é projetado no analista por Identificação Projetiva e surge a possibilidade de haver sentimento de culpa e, portanto, um maior desejo de reparação. Devido à Identificação Projetiva, o analista, na contratransferência pode perceber e interpretar usando da linguagem com os objetos totais, diferentemente de quando o paciente apresenta o núcleo psicótico, no qual a interpretação precisa ser baseada nos apontamentos dos objetos parciais. Segal enfatiza a importância de o analista ficar atento para o uso do silencio por parte do paciente como uma forma de instigar o mesmo a preencher com suas falas. Essa é a forma defensiva do psicótico de usar a linguagem como coisa em si, concretamente. É importante que o analista perceba, respeite e suporte esse vazio sem atuar junto ao paciente, pois só assim ele pode entrar em contato com suas próprias angustias. E, com isso, no retorno do silencio, interpretá-lo, i.e., interpretar a transferência, se colocando como suporte das destrutividades sem ser superegóico. Hanna Segal trabalhou também a questão do simbolismo e, no artigo de 1954, “Notas sobre a Formação de Símbolos” apresentando a diferença da comunicação do psicótico e do neurótico. Ressalta Segal que a comunicação do esquizofrênico não é simbólica, e sim confunde o objeto com o símbolo, pois as relações de objeto são parciais e fragmentadas, não havendo diferenciação entre EU e OUTRO, então o símbolo não pode ser representado e é o próprio objeto, já que não existe repressão, tudo é parte de seu EU, de um sujeito narcísico.  Segundo a Autora “Esta não diferenciação entre a coisa simbolizada e o símbolo é parte de uma perturbação na relação entre o ego e o objeto” (SEGAL: 1954, 172) Difere a personalidade psicótica da neurótica, na qual o simbolismo está presente. Havendo repressão de conteúdos não aceitos socialmente, vem à tona após deslocamento e condensação, símbolos que representam os objetos reprimidos. Isso porque há uma diferenciação entre EU e OUTRO e um cuidado em apresentar apenas aquilo que o superego não rejeita. Essas representações ocorrem de várias formas, chamadas Formações do Inconsciente, que são elas: símbolos, sonhos, sintomas, transferência, atos falhos, chistes, etc. Segal chama de Equação Simbólica, portanto, a diferença entre a concretude da comunicação do psicótico e sua incapacidade de simbolização e a simbolização do neurótico que utiliza do “como se fosse” para representar o reprimido sublimado. E enfatiza a importância de o analista tentar alcançar com o paciente a posição depressiva para poder atingir a simbolização, pois apenas havendo uma separação entre o eu e o mundo é que o sujeito pode se abrir para formações simbólicas. Beth Joseph, outra psicanalista importante na Sociedade Britânica, considerada a “analista dos analistas” trabalhou vários conceitos que envolvem a ação do analista no setting, assim como alguns entendimentos sobre pacientes mais inacessíveis e esquizoides. Para isso, traz em seu artigo “Identificação Projetiva – alguns aspectos clínicos” de 1987, casos para demonstrar a importância da atenção do analista aos seus próprios sentimentos em relação ao paciente através da empatia e da continência para informar adequadamente ao mesmo o que percebeu de sua comunicação. Joseph destaca o mecanismo de defesa da Identificação Projetiva como forma de o paciente expressar o que fantasia sobre a relação com seu analista e, portanto, como se relaciona com o mundo.  Segundo ela, “Por definição, identificação projetiva significa colocar partes do self para dentro de um objeto” (JOSEPH:1987,148), no caso, o analista. É uma forma de resistência à mudança, pois dói e, nesse momento de defesa arcaica, apresenta uma estrutura que inclui não apenas a projeção, mas também a onipotência, cisão e a idealização. Com isso torna impossível, ou no mínimo difícil o pensar, já que seus sentimentos de onipotência veem acrescidos de inveja e medo de dependência em relação ao analista. O paciente atua evacuando ou busca destruir o vínculo desvalorizando o analista para manter-se em seu eu narcísico. No artigo “ O paciente de difícil acesso” de 1975, Beth Joseph apresenta a cisão como um mecanismo de defesa também capaz de perturbar o progresso da análise, pois tenta impedir que a parte necessitada do paciente venha à tona. Enfatiza que esse tipo de paciente cinde sua personalidade como se houvesse vários selfs, e a parte do self não colaborativa ou sabotadora, vem esconder a parte necessitada de analise das vistas e percepção do analista. Assim enfatiza também que, quando as partes necessitadas podem ficar disponíveis, causam na contratransferência, no analista, uma confusão, apatia, surpresa ou espanto, já que são partes que estavam anteriormente excindidas e defensivamente não apareciam nas sessões. Joseph apresenta algumas formas de perceber que quem está presente no setting é a parte sabotadora. Por exemplo, quando o analista sente que está tudo muito fácil. Isso ocorre quando o paciente tenta manter sua análise numa zona de conforto, distante dos conflitos, chegando a buscar um conluio com o analista. A intelectualização é considerada também outra forma de defesa em análise, já que o paciente mantém sua comunicação no nível intelectual para não entrar em contato com suas emoções. Por isso também a importância de a fala do analista ser uma fala que se mantenha no setting e não saia, e que ele possa falar para o paciente sobre suas questões e não sobre o paciente e sobre o que ele traz (delírio do analista), mas sim o que percebe, sente e vê do que ele traz. A busca do paciente difícil é tentar manipular a sessão para que o analista atue naquilo que o paciente deseja dele e isso deve ser evitado. Assim como, o paciente pode também tentar distorcer a fala do analista, mudando de perspectiva para não se aproximar de sua angústia e, para isso, tenta perverter seu trabalho. Em 1985, Beth Joseph traz o artigo “Transferência: Uma Situação Total”, para explicar o que o analista precisa se atentar em seu trabalho. Chama de situação total “tudo o que o paciente traz para a relação” (JOSEPH:1985,77), i.e., todas as relações objetais do paciente, suas fantasias, defesas, ansiedades, vivencias, o que diz, faz, atua, etc., que são “transferidas do passado para o presente” (JOSEPH:1985,76) da relação com o analista via identificação projetiva. Isso tudo pode ser percebido pelo analista através da contratransferência, na forma como o mesmo sente o que lhe é transferido. Joseph considera isso como uma pressão feita pelo paciente sobre o analista, e é ela que torna possível que o mesmo encontre as partes necessitadas de seu paciente, pois mostra suas ansiedades inconscientes. As percepções das partes do passado do paciente que se repetem no presente, na sessão, podem ser a base das interpretações do analista, conforme o mesmo vai ligando tais fatores. Portanto, considera a transferência, dinâmica, pois algo sempre está acontecendo, mudando, e o analista deve ficar atendo a isso. É onde podem ser vistas as defesas e o nível de organização psíquica no qual o paciente funciona. Se apresenta ansiedades persecutórias e defesas mais arcaicas, está mais próximo da posição esquizoparanóide, mas se apresenta ansiedades depressivas, de perda, separação, e defesas mais elaboradas, está mais próximo da posição depressiva. As interpretações são diferentes nas diferentes posições, sendo a primeira mais fantasiosa, pois há distorção, cisão e identificação projetiva e a segunda mais realista. Beth Joseph, em 1985, no artigo “A Inveja na vida cotidiana”, apresenta seu olhar para a inveja tão presente no dia-a-dia da clínica psicanalítica. Ela diferencia o olhar reduzido de Freud sobre a inveja do pênis, específica da mulher, do olhar kleiniano de inveja como um sentimento comum a homens e mulheres ligado ao sentimento do bebê (o paciente) pela mãe (o analista) fantasiada como poderosa e capaz de tudo, pois contém o seio, o pênis do pai, o pai e gera bebês. A inveja é tida como um sentimento destrutivo, pois o desejo do bebê é de espoliar, roubar, da mãe aquilo que imagina que ela possui, já que teme depender dela. É a essência do conceito de voracidade. O conceito de inveja, portanto, é o de destruir o que o outro tem de bom, despojando o outro de suas qualidades, já que o invejoso não tem. Esse conceito difere de cobiça (desejo de ter o que o outro tem) e de ciúme (sentimento ligado ao objeto de amor percebido como interessado por um terceiro que não ele). O sujeito invejoso sofre com a percepção das capacidades do outro, mas não aceita receber ajuda do mesmo, pois isso lhe significaria dependência, o que é temido. Então o sujeito, consequentemente, não pode expressar gratidão e não se deixa aprender com outro. Em análise, a inveja é uma forma de resistência, pois impede o avanço do tratamento e as consequências são: o paciente não compreender o analista; reação terapêutica negativa, no qual o paciente piora como forma de informar ao analista sua incapacidade; paciente tenta ser seu próprio analista, interpretando e excluindo o analista; o paciente sente ressentimento, rivalidade, competitividade, faz críticas, provoca e desvaloriza o analista, assim como não tolera que o analista lhe ofereça o bom alimento interpretativo, não conseguindo, portanto, usufruir de sua análise nem ser grato por ela. Frente a isso, uma defesa comum aos invejosos é a idealização, na qual o sujeito coloca o outro como tão melhor que ele que não faz sentido invejar, pois o outro está muito distante, ou, o sujeito coloca o outro como tão inferior e desprovido de capacidades a ponto de não ter o que invejar. São fantasias que tentam impedir que o sujeito entre em contato com suas próprias incapacidade e com as capacidades do outro. Pois se o outro tem capacidades que o mesmo não tem, dele depende e isso causa insegurança em relação às próprias capacidades. Esse sentimento pode ser tão forte que o sujeito vai se distanciando e se fechando para o mundo para não entrar em suas comparações, o que impede também que o mesmo possa construir bons vínculos. Em 1986, Joseph também estudou em seu artigo “Mudança Psíquica e Processo Psicanalítico” a importância do olhar atento do analista para as mudanças psíquicas do paciente que aparecem durante a sessão e ao longo do tratamento. Como Klein, apresentou a possibilidade de haver flutuações entre as posições, e o mesmo pode aparecer em análise. Joseph fala de um ponto de equilíbrio entre ansiedades e defesas (PS↔D) que pode mudar e o analista precisa acompanhar tais mudanças. Diz que inicialmente são mudanças aleatórias, pois o paciente não tem controle do seu ego, e, com as interpretações e insights, isso vai se modificando conforme o ego pode ir se fortalecendo e se responsabilizando por seus atos e seu mundo, i.e., quando pode ir atingindo a posição depressiva e começa a entender que o outro é diferente e separado dele. Conclui então que a mudança psíquica é o oposto de compulsão a repetição, pois é “uma movimentação interna de forças, uma perturbação do equilíbrio mental e emocional estabelecido, do equilíbrio de sentimentos, de impulsos, de defesas e de figuras internas inconscientemente estabelecidas e que se reflete em seu comportamento no mundo externo” (JOSEPH: 1986,196).  Perturbação essa que, se suportada, pode significar mudança nos relacionamentos com os objetos internos e externos, mudanças egóicas que proporcionam relações mais reais e verdadeiras assim como uma possibilidade de assumir e se responsabilizar por sua realidade psíquica. Um último artigo que trago da psicanalista, apresentado em 1988, “Relações de objeto na prática clínica” fala da importância do analista se incluir na relação com seu paciente e, portanto, na interpretação que informa a transferência através do olhar e percepção de sua contratransferência. O analista precisa se atentar para as projeções e introjeções do seu paciente que borram seu olhar para o mesmo como um outro diferente e separado dele. O analista se coloca como receptor e continente dessas identificações projetivas, se identificando com as mesmas e depois saindo dessa posição comum a eles e de volta se colocando como observador para poder interpretar, i.e., informar ao paciente o lugar onde o mesmo deseja que o analista estivesse e as implicações disso. Dessa forma vai podendo mostrar ao paciente essa separação paciente-analista, pois vai devolvendo a ele o que é desejo dele, mas não pertence ao mundo do analista.  Assim o analista pode reconstruir a história vivida com o paciente e trazer os fragmentos perdidos e esquecidos da história do mesmo, ligando as histórias e informando como ele lidou com as ansiedades, quais defesas utilizou e os conflitos envolvidos. Outro psicanalista importante para a Escola Inglesa é Roger Money-Kyle, que em 1955 escreve o artigo “Contratransferência normal e alguns de seus desvios”. Nesse artigo, ele apresenta a diferenciação entre uma contratransferência normal e importante para a percepção do analista quanto ao que é transferido pelo paciente e a contratransferência patológica. Ele cita a relevância da contratransferência para além do que foi dito por Freud como um “ponto cego” do analista que deveria ser analisado para não atrapalhar o andamento da análise. Ele não descarta essa questão, mas ressalta também seu lado positivo, como um processo de comunicação citando Paula Heimann que coloca como um “instrumento de pesquisa” psicanalítica. Na contratransferência normal o paciente transfere para o analista via identificação projetiva, as partes excindidas de seu self. O analista reconhece essas partes em si mesmo (processo contratransferencial) por já ter vivenciado, sentido e trabalhado em sua própria análise, e, saindo dessa identificação e voltando para seu ponto observador, interpreta e informa ao paciente o que viu. Já na contratransferência patológica, o analista não consegue voltar para essa posição de observador, ficando identificado com seu paciente, pois não tem esse aspecto transferido pelo mesmo, trabalhado em análise. O analista, então, atua e fica complicado com o paciente. Essa atuação ocorre, na posição esquizoparanóide, por sentir-se perseguido pelo paciente e, por isso pode ter uma resposta sádica, ou se, na posição depressiva, pode tentar reparar onipotentemente seu paciente, se colocando na posição de pai/mãe ou se responsabilizando pelo fracasso na melhora dele, sentindo-se culpado por isso ou empobrecido por ter dificuldades de lidar com o não saber. O não saber pode perturbar o analista não analisado e é preciso pensar também qual a responsabilidade do paciente como causador dessa perturbação e o efeito sobre o mesmo. O analista também deve evitar colocar-se na posição de um superego severo que tenta culpabilizar o paciente. Portanto, na contratransferência patológica o analista não consegue alcançar a parte necessitada do paciente, oferecendo, então, amor (contratransferência positiva) ou hostilidade (contratransferência negativa). Money-Kyrle ressalta o cuidado do analista em manter o olhar para a criança inconsciente no paciente e re-conhecer-se como separado dele, apenas fazendo uma identificação parcial por empatia até que se coloque de volta como observador e informante do que viu. Irma B. Pick é outra psicanalista seguidora de Melanie Klein, que vem, em seu artigo “Elaboração na Contratransferência”, de 1985, falar também das questões éticas na Psicanálise e a relevância do analista elaborar sua própria contratransferência para não impedir o avanço de seu trabalho.  Pick cita Strachey, na questão do quanto a interpretação é algo temido para o paciente e também para o analista, pois coloca-os em contato com suas angustias emocionais. Ela diz:“uma experiência de transferência completa ou profunda perturba o analista; é essa a experiência que o analista mais teme e mais deseja evitar” (PICK:1985, 47). Portanto, fala da impossibilidade de haver uma relação neutra entre analista e paciente, já que sentimentos são movimentados. Esses sentimentos estão presentes no processo contratransferencial, visto que para que o analista possa dar uma interpretação, precisa inicialmente regredir aos estágios mais primitivos de seu inconsciente para re-conhecer-se na transferência. Pick considera a interpretação como “ato criativo e integrador por parte do analista” (PICK:1985,49) e frisa a diferença entre uma resposta contratransferencial na qual o analista corresponde ao desejo do paciente e uma verdadeira interpretação, na qual o analista apenas informa sobre esse desejo. A ética do analista está no cuidado para com o paciente em não ser cruel e agressivo em suas interpretações, pois cada paciente tem suas condições e o quanto suporta recebe-las e o analista precisa ir dosando-as para que não cause mais ansiedade e defesas em seu paciente. Da mesma forma o paciente pode ser cruel com o analista em provocar reações e sentimentos nele, através de suas projeções, para ver como o mesmo reage. O analista precisa estar analisado para não fica preso em ansiedades persecutórias e/ou super-egoícas. Já Edna O’Shaghnessy, outra psicanalista de renome na Sociedade Britânica, traz seu olhar para o que chamou de “édipo invisível” nos pacientes de difícil acesso em seu artigo de 1987 “O complexo de Édipo Invisível”. Traz o valor dos conceitos de Complexo de Édipo e Complexo de Castração desde os tempos de Freud e que pela Psicanálise Contemporânea foi, por muitos psicanalistas, deixados de lado como inexistentes na clínica.  Edna, portanto, fala da presença da questão edípica, mesmo que parecendo inexistente, pois por alguns pacientes é colocada como invisível. Devido à cisão da personalidade, as partes do self que regem a essas questões edípicas são defendidas e mantidas escondidas contra tudo e todos, pois elas representam a esperança de vínculos, fonte de pulsão de vida e “veneno” contra o narcisismo. Edna aponta que mesmo estando invisível aos olhos do analista, aparecem na forma de angustia de exclusão, angustia de separação, angustia por estar só na presença do outro e/ou do par edípico (pais) do qual o paciente “filho” não faz parte e nos casos de defesas como a cisão sexual parcial ou total (inibição sexual, impotência, homossexualidade, frigidez, etc.) O Complexo de Édipo é pensado por ela como um “complexo nuclear do desenvolvimento” (O’SHAUGHNESSY:1987,211) do qual ninguém escapa, mesmo que esteja invisível, pois há sempre um par edípico que o indivíduo não faz parte, portanto, todos temos que lidar com essa exclusão e castração e com o fato de não sermos o centro do mundo do outro, nesse caso devido ao tabu do incesto e da transgeracionalidade. A Identificação Projetiva é uma defesa contra essas angustias, pois busca separar internamente esse par edípico combinado por parecerem um par criativo e heterossexual. O pai fica como homem sádico e fálico e a mãe como masoquista, fraca e desprotegida. Assim o excluído sente-se fantasticamente onipotente e capaz dessa separação. Essa tentativa de destruição do par demonstra a dificuldade egóica do filho em lidar com a solidão da não participação na cena primária. O indivíduo excluído precisa, na realidade, dar conta e suportar não ser esse centro para poder ir à busca de onde lhe cabe e com quem lhe está disponível, os vínculos possíveis. Esses pacientes de difícil acesso, não vivem o Édipo, pois não apresentam sentimentos de ciúme e ligados à rivalidade, além do desejo sexual. Suas questões são anteriores a isso, pois é justamente para isso evitar devido à inveja e tentativa de cisão dos objetos internos e uma carência de um objeto bom internalizado e por se sentirem incapazes de ficarem só e desamparados. Um também importante psicanalista é Herbert Rosenfeld, que em 1971 publica o artigo “Uma Abordagem Clinica para a Teoria Psicanalítica das pulsões de vida e de morte: Uma investigação dos aspectos agressivos do narcisismo” no qual apresenta seu conceito de “gangue narcisista”. Ele parte esse artigo citando a Teoria freudiana das Pulsões de vida e de morte como forma de compreender os fenômenos da vida mental (masoquismo moral, resistência, desfusão, Reação Terapêutica Negativa, conflito de impulsos), assim como da teoria da cisão de Melanie Klein, para mostrar o quanto uma pulsão de morte pode dar início a um processo de cisão do self chegando a criar essa gangue narcisista. Entende a pulsão de morte como um impulso que leva de forma silenciosa o sujeito para a morte egóica, através de projeções desses impulsos destrutivos para o mundo externo. Essa é uma defesa narcísica diante do ódio que sente pela realidade externa, já que seu próprio ódio foi anteriormente projetado. Então, o sujeito vai retirando sua libido colocada no objeto, deixando-a apenas em seu self. A tendência, no desenvolvimento psíquico é que as pulsões fiquem fundidas, mas em alguns casos elas são separadas, devido à cisão do self. Esses casos, Rosenfeld chamou de Gangue Narcisista, sendo essas, condições narcísicas graves. São pessoas com sentimentos de superioridades e frieza, que agem com hostilidade, desconfiança, depreciação e desvalorização devido ao alto nível de inveja.  Assim mantém-se numa luta infantil entre destruir e preservar os objetos e a si mesmo.  Há casos que as pulsões nem chegam a sofrer fusão, se mantendo sempre separadas. Estando a pulsão de morte livre e separada da pulsão de vida (o que pode acontecer na formação do superego), acaba criando outro self (ou selfs), chamado pelo autor de organização narcísica ou self narcísico dentro do self libidinal o que pode ter várias consequências, como por exemplo: a organização narcísica pode sabotar e ameaçar o self libidinal; o self libidinal pode ser totalmente subjugado pelo self narcísico; o self narcísico pode ser enviado para o meio, via identificação projetiva, pelo self libidinal, etc. Na clínica, a Reação Terapêutica Negativa é um exemplo de defesa causada por essa organização narcísica, como forma de o self se defender da ameaça do tratamento devido a seu anseio por plenitude. Isso ocorre, pois, a análise busca que o sujeito saia dessa organização narcísica e possa perceber o outro como outro separado dele, dando ênfase ao self libidinal capaz de buscar ligações. Mas, diferentemente disso, a organização narcísica é extremamente invejosa e teme a dependência. A cisão entre self e os objetos, inicialmente, faz parte do desenvolvimento normal do bebê como forma de proteção do self e do objeto do aniquilamento por seus impulsos destrutivos decorrentes da pulsão de morte. Essa fusão é considerada patológica quando tais impulsos sobressaem em relação aos impulsos libidinais, e a pulsão de vida não tem “espaço” para mitigá-los ou neutralizá-los, como na fusão normal. Na fusão normal há uma consciência de dependência e de separação entre eu e outro que causa frustração (ódio pelas coisas ruins do objeto) e inveja (das coisas boas do objeto). Quando não é possível tolerar essa separação e a dependência do outro, o self busca essa saída narcísica com o objetivo de tentar manter relações objetais onipotentes. Rosenfeld conclui então que há narcisismo com aspectos libidinais, onde há uma supervalorização do self, “idealização do self sustentada por identificações projetivas e introjetivas onipotentes com objetos bons e suas qualidades” (ROSENFELD:1971, 250) entendidos como partes do self. A destrutividade aparece quando esse self onipotente é ameaçado por um objeto externo separado e bom, o que desponta através de sentimentos de humilhação, ressentimento e vingança. E existe também o narcisismo com aspectos destrutivos nos quais há uma “idealização das partes destrutivas onipotentes do self” (ROSENFELD:1971, 250) dirigidas aos objetos bons. Mas seu desejo de dependência fica disfarçado e excindido, impedindo tais relações e mantendo uma desvalorização e indiferença em relação ao outro. São situações nas quais a inveja é mais violenta e o desejo é de destruir a fonte de vida. Os impulsos são autodestrutivos. Há fantasia de autocuidado e de ter dedicado a vida a si mesmo, não precisando do outro. São pessoas que tentam quebrar seus vínculos caso se percebam dependentes, tem desejos suicidas e de desaparecer. Tais autores vieram desenvolver ainda mais o pensamento psicanalítico e nos presentear com seus olhares minuciosos e brilhantes a respeito da clinica psicanalítica. A fonte possível de (re) conhecimento das ideias apresentadas por eles podemos ver e viver na prática clinica e com ela manter a chama psicanalítica acessa e mantermo-nos numa busca constante de desenvolvimento, este que nunca se finda. 

Klein: uma nova dinâmica a respeito do psiquismo

Por Débora Waihrich Matzenbacher -  No texto, Inibição, Sintomas e Ansiedade, Freud afirma que é a angústia a responsável pela formação do sintoma e que toda essa angústia vem da infância do indivíduo, e ainda, que é ela que produz o recalque. Para Freud, existe um acontecimento ou episódio que precisam ser revelados, ou seja, coisas que aconteceram, e por não serem lembradas, elas acabam causando os sintomas e as doenças.  Essa angústia é da ordem do afeto, com um caráter de forte desprazer e acompanhada de sensações físicas de atos de descarga, por isso é que para Freud é a angústia que produz o recalque e não o contrário. Diferente de Freud, o entendimento de Klein é de que não existe um fato, e sim uma fantasia que faz com que a criança sinta um mundo, interno e externo, de uma forma muito perigosa e assim, a ansiedade persecutória fica ligada à necessidade de se defender de situações que são aniquiladoras da vida, a pulsão de morte. A pulsão de morte e pulsão de vida, são pulsões que coexistem, mas, ao contrário da primeira, a pulsão de vida é a força que vai contra a ideia do aniquilamento e está presente desde o início da vida do bebê. Melanie Klein desenvolveu, em suas teorias, um conceito de posições, que se alternam entre elas, e que são nominadas posição esquizoparanóide e posição depressiva. É imerso na posição esquizoparanóide que a criança nasce. Desde esse nascimento o Ego muito imaturo do bebê fica submetido à ansiedade persecutória que é fomentada pelos instintos de vida e de morte. É nessa posição que vai acontecer o primeiro contado do bebê com o seio da mãe, ou melhor, é na posição esquizoparanóide, com a fragmentação do Ego, que o bebê estabelece seu primeiro contato com o objeto externo –seio/mãe. Esse objeto seio, é dividido em seio bom, que é aquele que gratifica e dá prazer, e seio mau, que é aquele que causa sofrimento e gera frustração, são, portanto, objetos parciais. Para Klein, na posição esquizoparanóide, “o amor e o ódio, bem como os aspectos bons e maus do seio, são mantidos amplamente separados um do outro”. Assim, na fantasia do bebê, a destrutividade e o ódio que ele direciona ao seio mau, vão se voltar contra ele, querendo então, de alguma forma alcançar a vingança, e é esse “medo da vingança”, que Klein entendia como sendo a ansiedade persecutória da criança e que tem sua origem na pulsão de morte. A partir disso a criança faz uso de mecanismos de defesa, que funcionam combinados, e que tem por objetivo fazer com que a criança se defenda dessa ansiedade persecutória. Segundo Melanie Klein, a cisão é a forma mais primitiva de defesa do Ego contra as ansiedades. O Ego do bebê é dividido, é fragmentado, uma vez que ele não dá conta da pulsão de morte e quer manter para si a “parte boa”, e para que isso aconteça ele precisa “cindir” esse objeto e mantê-los separados dentro dele, o objeto bom e o objeto mau. A idealização é outro mecanismo de defesa apontado por Klein, e está conectado à cisão do Ego. No caso da idealização os aspectos bons do seio são potencializados como uma forma de defender esse bom objeto de pulsões que poderiam o destruir. Na posição depressiva o mecanismo de defesa da idealização tem como objetivo proteger o Ego de angústias, e assim, esse último vai conseguir descarregar todo o seu sadismo, toda sua pulsão de morte, no objeto mau.  A introjeção, na posição esquizoparanóide, tem como meta incorporar todos os objetos do ambiente, a começar pelo seio materno. Na posição depressiva, a introjeção está ligada ao objeto bom, quer dizer, eu vou introjetar tudo aquilo que vai me atender. Klein entendia que o desenvolvimento do Superego “pode ser reportado à introjeção nos estágios mais iniciais da infância”. Na projeção, por sua vez, em ambas as posições, esquizoparanóide e depressiva, a criança arremessa no ambiente estímulos, pulsão de morte, que o Ego não quer se responsabilizar e não quer assumir em si mesmo e o ajudam a se livrar daquilo que pode ser perigoso e mau para ele. É através, então, desses mecanismos que a criança cria e organiza o seu mundo interior, e para Klein, o protótipo do que o indivíduo vai se tornar são estabelecidos pelas relações iniciais de introjeção e projeção. Klein, apresenta também outros mecanismos de defesa, tão importantes e significativos como os citados acima, como por exemplo a onipotência, que é uma característica inerente ao self e, na posição esquizoparanóide, ela é a fantasia de se ter o controle dos objetos internos e externos, ou seja, há uma tentativa de mudar a realidade para a fantasia que o Ego acredita ter e a negação, onde a própria realidade interna, objeto mau, é negado. Na posição depressiva, a onipotência é presente tanto na culpa como na reparação, porque a criança se sente responsável por todos os ataques sádicos que lançou contra o objeto, acreditando assim que o destruiu ou pode destruir o objeto, e também, porque acredita ser capaz de reparar todo esse mal. A identificação projetiva é um funcionamento defensivo do Ego apontado por Klein, onde partes do self, portanto partes boas e partes ruins, são lançadas para dentro do outro objeto, ou seja, a mente do outro é utilizada como um “depósito de tais sentimentos”, com o objetivo de controlá-lo por dentro. Então se projeta no outro para posteriormente o Ego se identificar com o que foi projetado. A identificação projetiva aparece intimamente ligada à projeção. Numa projeção simples, o objeto que recebe a projeção não tem conhecimento do que se passa, enquanto na identificação projetiva o objeto é alterado pela projeção e passa a ver a si mesmo como se realmente tivesse aqueles sentimentos, pensamentos e emoções que foram projetados nele, bons e ruins. Por volta dos quatro meses de vida do bebê, na posição depressiva, é que acontece a integração dos objetos, bom e mau, e a cisão desses objetos vai sendo suavizada. A partir daí o Ego vai se fortalecendo e organizando, quando então ele percebe que os objetos são agora um só, portanto, o objeto agora é total. É na posição depressiva, quando o Ego atinge um maior nível de organização, que as imagos incorporadas se aproximam mais da realidade e ele acaba se identificando mais com os objetos bons. Concomitantemente com essa alteração na relação com o objeto, ocorre uma modificação em relação a sentimentos como culpa, angústia e outras emoções desagradáveis que passam a fazer parte desse novo contexto. Para Klein, a culpa aparece vinculada à ansiedade depressiva que por sua vez aparece ligada aos “danos causados aos objetos amados”. O fundamento da ansiedade depressiva é a combinação dos impulsos sádicos e dos sentimentos bons e de amor que são lançados a um único objeto. A essência da culpa é do sentimento dos impulsos sádicos que são “jogados”, e dos danos que são causados, ao objeto de amor, surgindo daí a tendência reparatória, que é a tentativa de consertar ou preservar o objeto que agora é sentido, ao mesmo tempo, como um objeto de amor e ódio. Cabe ressaltar, que o bebê sente culpa desde a fase esquizoparanóide, mas é na fase depressiva que ela vai se estabelecer. Desde o início da vida do bebê a inveja se faz presente, sendo que o primeiro objeto alvo desse sentimento é o seio que alimenta. Sente-se inveja do seio bom pela capacidade e abundância dele “ter” e “dispor” do leite que alimenta e nutri, e inveja do seio mau quando esta conserva para si o leite materno. Klein entendia a inveja como uma emoção primária, ou seja, é constitucional, nasce com o sujeito, assim então já presente na fase esquizoparanóide, e seus efeitos operam sobre o desenvolvimento da aptidão de sentir felicidade e gratidão. Salienta-se que a característica fundamental da inveja é a maldade que se deposita no outro. Ela pressupõe a relação com uma outra só pessoa e se define como um sentimento de raiva de que esse outro detêm e goza de algo que eu cobiço, sendo então, o impulso invejoso e destrutivo exatamente o de “tirar” esse algo do outro, ou danificá-lo. Essa importante característica da inveja, a maldade, é o que a distingue da voracidade que é uma inquietação insaciável de devorar, sugar e acabar com tudo o que o objeto bom tem capacidade de oferecer, mas sem essa crueldade presente na inveja. A inveja excessiva reflete diretamente no aparecimento antecipado da culpa pelo sentimento de que o seio que nutri foi danificado, ou também pelo ciúme do pai que aparece pelo fato dele “ficar” com o seio da mãe para ele, como característico do estágio do Complexo de édipo. É pelo modo como a excessividade da inveja, ou a falta ou o controle dela, que na posição depressiva, o bebê vai conseguir integrar seus sentimentos de amor e ódio e assimilar de uma melhor maneira o mundo externo. O contraponto da inveja é a gratidão que é indispensável à formação e estruturação da relação com o objeto bom, e isso só é alcançado se o bebê sentir-se satisfeito e se sua aptidão para amar for suficientemente evoluída. De todo o aqui exposto, fica claro que para Melanie Klein, a maneira como as ansiedades persecutórias e depressivas- bem como todos os seus reflexos, são vivenciados e experimentados no primeiro ano de vida da criança, são fundamentais na construção da estrutura psíquica dos indivíduos, pois são essas ansiedades que a pessoa vai vivenciar durante toda a sua vida.

Inconsciente, um depositório infinito de afetos

Por Sergio Keuchgerian -  É quase impossível encontrar alguém no planeta terra que não saiba o que é um computador e que ele tem um cérebro chamado disco rígido (popularmente chamado de HD). Assim como dificilmente você encontrará alguém que não saiba que no interior da mente humana habitam pensamentos conscientes e outros, ocultos e menos óbvios, que são comumente chamados de inconscientes.  Ninguém vai achar estranho se você disser que o disco rígido do seu computador está superlotado e que terá que providenciar um outro para armazenar mais dados. E muito menos alguém vai te chamar de louco quando você ao final do relato de um sonho disser algo como “não sei como isso surgiu na minha cabeça, provavelmente saiu do meu inconsciente”. Palavras como ego, disco rígido, memória ran, inconsciente, libido, são tão corriqueiras nas conversas diárias quanto a expressão “isso nem Freud explica”. Porém, a naturalidade com a qual as expressamos esconde o difícil caminho percorrido por seus geniais criadores. Nenhum deles teve vida fácil ao tentar implantar suas ideias. No caso dos criadores dos HDs foi menos difícil, já que ele é um objeto feito de matéria e visível a olhos nus. Mas para Freud, que falava de coisas abstratas, não visíveis, de difícil capacidade comprovatória, o caminho foi árduo. Até a psicanálise ganhar status de método terapêutico e credibilidade, Freud foi quase que sistematicamente descredibilizado por seus próprios pares. Reflexo do zeitgeist de 1900, ou como, talvez, o próprio Freud diria: trabalho de resistência do inconsciente coletivo. Isto posto, passemos as questões propostas neste trabalho, que são demonstrar de maneira breve o conceito de Freud sobre o inconsciente, seu funcionamento e como se tem acesso a ele. Segundo Freud, o inconsciente não é localizável física ou anatomicamente, é um lugar psíquico com conteúdos e energia própria e integra o que ele chama de aparelho psíquico. Para Freud, o aparelho psíquico não se resume apenas ao inconsciente, mas também da consciência e do pré-consciente. Os conteúdos do inconsciente são os chamados latentes, já o conteúdo manifesto é o que reside na consciência. Esse conceito faz parte da primeira tópica do livro “A interpretação dos sonhos”, obra basilar da psicanálise. No inconsciente ficam armazenados os afetos recalcados, é onde se acumulam as frustrações, desejos reprimidos, fantasias imorais, histórias reais ou imaginadas que foram expulsas ou rejeitadas do nosso consciente com o objetivo de nos manter relativamente equilibrados no cotidiano. Algo parecido com a função do HD interno do computador, reservatório de arquivos e imagens, onde você “salva” afetos com os quais não seria possível conviver de maneira saudável ou confortável. Freud argumenta ainda, que há um conflito permanente entre o consciente e o inconsciente. Esse conflito é capitaneado pela censura, que não permite que esses conteúdos possam transitar do inconsciente para o consciente sem disfarces ou transformações que alterem suas verdadeiras aparências ou representações. Além disso, há o pré consciente que é parte integrante desse mecanismo e que também divide com a consciência esse papel de censor. Ele é tão resistente quanto a consciência e só libera o conteúdo do inconsciente, ou melhor, só deixa que ele se manifeste na consciência por meio de representações alteradas ou imagens distorcidas. Assim, para que o conteúdo latente transite para fora do inconsciente e se torne manifesto na consciência é condição si ne qua non que ele assuma disfarces. Segundo Freud, esses disfarces são mecanismos de defesa gerados pela censura que trabalha com o intuito de não permitir que esses conteúdos migrem para o território da consciência. Os mecanismos de defesa continuam ativos mesmo enquanto dormimos. Freud os denomina de trabalhos do sonho. Eles têm a função de zelar por nossa integridade psíquica, minimizando o impacto que nos causariam se chegassem ao consciente em sua forma original, isto é, sem que antes tivessem suas representações alteradas. Funcionam como filtros que não permitem que os conteúdos cheguem ao consciente sem antes passarem por transformações que alterem suas aparências. Para que isso ocorra a mente desenvolveu trabalhos entre os quais estão a Condensação e o Deslocamento. O trabalho de condensação ocorre quando várias representações psíquicas, isto é, conteúdos presentes no inconsciente (conteúdo latente) se concentram em uma só imagem ou representação do conteúdo manifesto. Já o trabalho de deslocamento ocorre quando o conteúdo latente vem carregado de muito afeto e este afeto seria de difícil aceitação caso não sofresse algum disfarce. Assim, ocorre a desconexão entre a representação do afeto real e a representação do que está manifesto, Os trabalhos do sonho ajudam a dar vazão ao conteúdo recalcado do inconsciente, revelando-o para o consciente de forma menos traumática. Sem esses mecanismos, provavelmente as revelações do conteúdo inconsciente seriam insuportáveis. Também o sono, necessário porque regenerador, seria interrompido frequentemente impossibilitando o descanso. Para Freud o conteúdo recalcado, isto é, a matéria residual menos palatável daquilo que experimentamos desde o início da vida, e que foi por nós reprimido e hospedado no inconsciente, tenta nesses embates escapar e de alguma forma retornar ao consciente. O sonho, assim como os sintomas, o chiste, os lapsos de memória e a transferência, é um dos retornos dos conteúdos reprimidos. Nele os recalques se fazem presentes de formas disfarçadas, representados por imagens, símbolos, situações e diálogos as vezes sem sentido, como resultado de um compromisso feito entre a consciência e o inconsciente. O acesso ao inconsciente não é algo que se alcance deliberadamente. A única possibilidade de se acessar o inconsciente é por meio de sua revelação ou manifestação na consciência. E essa manifestação chegará à consciência de forma alterada, distorcida. Partindo dessa premissa, a psicanálise, com o conjunto de instrumentos que integram sua metodologia pode facilitar o acesso ao inconsciente. Porém, o acesso terá que percorrer necessariamente o método investigativo. Seja por meio da associação livre ou da interpretação dos sonhos, bem como pela escuta dos significados da narrativa e das palavras, lapsos, chistes e observando comportamentos e hábitos recorrentes. Certo é que o inconsciente é parte indissociável de nossa estrutura mental. E por não ser um órgão físico, como o HD mencionado no início deste trabalho, ele tem capacidade de armazenamento ilimitado. Podemos sem medo afirmar que o inconsciente é um depositório infinito de afetos que inevitavelmente já interferiram, interferem ou vão interferir no nosso modo de ser e de ver o mundo. Trocando em miúdos e citando o próprio Freud: “a voz do inconsciente é sutil, mas não descansa até ser ouvida”.