Por José Claudio de N. Gonçalves -
Quando lemos a história da psicanálise podemos acompanhar o passo-a-passo do nascimento e crescimento de uma nova disciplina. Freud percorreu um longo caminho entre experimentalmente aplicar a técnica com hipnose inspirada em Charcot, até a alcançar o desenvolvimento da associação livre, que ele chamou “a regra fundamental da psicanálise”.
Iniciando com a hipnose, Freud presenciou a técnica ser aplicada de maneiras diferentes e adaptou-as de maneira pessoal à sua clínica. Com Charcot viu a hipnose utilizar da sugestão como arma para reprimir o sintoma histérico e eliminá-lo. Com Breuer a hipnose era usada como via de acesso `as experiências do passado, os pacientes sob hipnose descreviam suas vivências anteriores (revivendo as cargas de afeto envolvidas nelas) chegando até a situação traumática que originou o sintoma. Nesse ponto, o afeto atrelado ao trauma seria revivido e com isso sofreria uma descarga, uma catarse, com o consequente desaparecimento do sintoma. Freud adotou o método catártico de Breuer, acrescentando a sugestão como maneira de enfraquecer o sintoma histérico.
Mas logo Freud percebeu as limitações do uso da hipnose. Nem todas as pessoas eram hipnotizáveis. Além disso a técnica suprimia as resistências - ocultando assim parte das informações - e as melhoras dos sintomas causadas pela sugestão hipnótica eram temporárias. Some-se a isso o fato de que Freud não era um bom hipnotizador.
Adotou então a prática de estimular a memória dos seus pacientes pressionando a testa destes com a mão, como uma maneira fazê-los focar em determinada linha mnêmica que poderia levar `a lembrança reprimida causadora do sintoma tratado. Com o tempo viu que a pressão da testa com os dedos não era realmente necessária se ele mantivesse o estímulo ao paciente oralmente, guiando-o com perguntas. Foi a paciente Emmy Von N que em uma das sessões de seu tratamento se irritou com as perguntas e frequentes interrupções feitas ao seu relato e pediu a Freud que se calasse e que a deixasse continuar até o fim, ao que Freud aquiesceu. E acabou percebendo que suas frequentes interrupções não acrescentavam realmente muita coisa e que o essencial mesmo era ouvir minuciosamente os pacientes; estes deveriam assumir o compromisso de lhe revelar oralmente todos os pensamentos que ocorressem sobre determinado assunto, sem nenhuma crítica, julgamento de valor, supressão ou censura. Nascia a Associação Livre e com ela, a psicanálise como conhecemos hoje.
Essa ‘regra fundamental’ da psicanálise consiste no analisando discorrer sobre absolutamente todas as representações psíquicas que lhe aparecerem, sem restrições de nenhuma ordem, sem embaraços ou constrangimentos. Essa associação livre de pensamentos pode ocorrer espontaneamente ou em consequência de um dado assunto/palavra.
Junto com a Associação Livre Freud percebeu como benéficos `a técnica psicanalítica outros comportamentos, que ele julgou deveriam ser respeitados durante o tratamento.
Deveria ser observada uma Neutralidade por parte do analista a tudo relativo ao analisando: seu discurso, suas crenças, seu processo transferencial, sua moral. Não seria papel do analista exprimir julgamentos pessoais sobre o material fornecido pelo analisando e nenhum ideal particular ou preconceito poderia guiar o tratamento, nenhum conselho poderia ser dado, o paciente deveria ser aceito como ele era. O princípio da neutralidade colocaria a psicanálise em um polo oposto ao da sugestão.
Observando que os pacientes desprendiam energia psíquica - que poderia ser usada no tratamento - em ações substitutivas que satisfaziam os sintomas ou aliviava o incômodo que estes traziam, Freud recomendou aos analistas que impusessem aos pacientes uma Abstinência `a atividades que poderiam fornecer essas satisfações. Se o sofrimento e a frustração são gatilhos que fazem um paciente procurar um tratamento analítico, amenizar a força desses gatilhos com substitutos prazerosos provocaria a estagnação do processo. Portanto, atentar para que os sintomas não desaparecessem prematuramente causando o abandono do tratamento antes deste estar inteiramente concluído seria desejável. Atos como satisfazer as vontades dos pacientes ou aceitar a preencher dentro do set analítico papéis impostos pelos pacientes estaria interditado aos analistas.
Se o paciente precisava estar em um estado mental de associação livre o estado mental de quem recebe o conteúdo dessa associação também deveria estar livre. Esse contraponto `a regra da associação livre exigida ao paciente Freud chamou de Atenção Permanentemente Flutuante e é a sua recomendação de como a escuta do analista deve ser. Sem privilegiar ou se fixar a nenhum aspecto do discurso do analisando, o analista deveria suprimir ações mentais que usualmente selecionariam - evidenciando ou descartando - partes do que está sendo dito. Tanto analisando como o analista deveriam ter uma postura mais observadora do que reflexiva em relação aos próprios pensamentos, o que evitaria críticas ou julgamentos: no analisando estes seriam instrumentos da resistência e no analista uma quebra da regra da Atenção Flutuante. Poeticamente podemos imaginar essa regra como a abertura de um portal que deixa os dois inconscientes, do analisando e do analista, se comunicarem.
Em um dos seus relatos clínicos mais emblemáticos, o caso Dora, podemos ver Freud já utilizando a associação livre como principal instrumento de tratamento da sua então paciente, mas não aderindo completamente `as suas outras recomendações. Ele discutia com a paciente abertamente sobre as interpretações feitas por ele dos relatos e sonhos, acatou sugestões da mesma, e não identificou e tratou a transferência da paciente para com ele, situações que por si só já quebrariam as recomendações da abstinência e neutralidade. A própria maneira em que Freud conduzia as sessões, inquisidora, autoritária, detalhista, dando ênfase `a aspectos que ele considerava importante no discurso da paciente, não respeitava a regra da atenção flutuante. Se levarmos em consideração que a psicanálise se mostrou uma área onde pesquisa, experimento e tratamento acontecem simultaneamente veremos durante o exercício do caso Dora (publicado em 1904) um Freud caminhando no desenvolvimento das regras para a prática da psicanálise, ainda longe do autor que escreveria “Recomendações aos Médicos que Exercem a Psicanalise”, de 1912.
Por Raul Hamilton de Souza -
A teoria da sedução, formulada por Sigmund Freud, como uma explicação para as crises de histeria de pacientes sob tratamento, está presente em seus escritos desde a chamada “comunicação preliminar”, cuja autoria se deu em parceria com Josef Breuer. Nesse escrito, a Comunicação Preliminar, já havia a concepção segundo a qual “o sintoma era trauma do passado que, quando vindo à tona, se manifestava nos sintomas neuróticos.
Continha ainda a comunicação preliminar a proposição, por influência do pensamento de Janet, que a parte psíquica “não consciente” fosse designada como “estados hipnoides”.
Para Freud (1895/1897), o abuso sexual sofrido na infância era a origem da neurose, mormente da histeria. Segundo a sua concepção, tudo o que se passava ‘na e com a’ histeria estava ligado a traumas da sexualidade infantil. Seu método era o catártico, que teve a sua origem na escuta da pessoa sob sofrimento, e muito contribuiu para o conhecimento psicanalítico.
Aqui está, por assim dizer, a gênese do equívoco da teoria da sedução, pois derivando da hipnose, a técnica catártica de Breuer e Freud trazia consigo a crença de que tudo o que vinha do paciente sob hipnose era a mais cristalina verdade, isto é, a resposta do paciente era tomada como expressão da verdade.
Constatando o fato de que nem todos os pacientes se submetiam ao processo hipnótico, ou melhor, que nem todos eram hipnotizáveis, Freud abandonou a prática dessa técnica e criou o método da ‘livre associação’, mas seguiu ainda alimentando a crença de que o conteúdo vindo do paciente representava a declaração da verdade de modo total. A questão que se coloca nesse momento é a de que Freud começou a se valer da livre associação menos como técnica investigatória e mais como meio para provar a sua tese, fato esse que contaminou o campo de investigação das neuroses.
Foi nesse contexto ou circunstância da sua trajetória em seu labor terapêutico que ele publicou o artigo “Notas Adicionais - As Neuropsicoses de Defesa” (1896), no qual tocou em dois pontos sensíveis: 1) Que a sexualidade é a única etiologia da histeria; 2) Que os pacientes histéricos foram abusados ainda em tenra idade, ou seja, foram seduzidos sexualmente na infância por uma pessoa mais velha, por um irmão, por algum outro familiar próximo, ou até mesmo pela babá, sendo a sedução concebida ou vista como algo real, acontecido. Por conta dessa sua posição, a sua tese não foi bem recebida, ficando, em consequência disso, sozinho.
Em 1897, Freud já constatou que a sua teoria da sedução era insustentável, duvidosa, mas evasivamente afirmou ter sido enganado pelas pacientes histéricas, e seguiu ainda sustentando sua tese, mas o seu erro, na realidade, se deu mais na esfera da observação. Tornou-se consciente de que a teoria da sedução não era algo real, vera. Reconheceu que os abusos traumáticos podiam ter acontecido, bem como, também, podiam não ter ocorrido. Mas somente em 1906, quando publicou seu artigo intitulado “Minhas Teses Sobre o Papel da Sexualidade na Etiologia das Neuroses” é que admitiu publicamente seu erro, convicto de que era impossível a ocorrência de tantas seduções infantis, e por “intuição pessoal”, aliada às suas observações, propôs a teoria das fantasias histéricas, entendidas como ficções que ocorriam na fase infantil e que concorreriam em muito para a elucidação dos sintomas das neuroses.
Assim como na história da histeria temos o equívoco de sua concepção como doença do útero, que - segundo crença – e não como formulação embasada em pesquisa, movia-se dentro do corpo da mulher, e para a qual a prescrição de tratamento indicava o uso da inalação de vapores provindos de produtos excêntricos e de atividades físicas que concorriam para a recolocação do útero em seu devido lugar, e até mesmo a indicação da prática de atos sexuais como medida preventiva contra o acometimento da histeria, Sigmund Freud também cometeu seu equívoco mais escudado pela “crença” persistente de que os relatos dos pacientes sob hipnose eram totalmente verdadeiros, do que, como era plausível dele se esperar, na aplicação de técnica investigatória.
As teorias, em quaisquer áreas ou dimensões do saber, são sempre passíveis de equívocos, de revisões e de reformulações.
Por Dulce Maria Klassmann Scalzilli -
No texto de Freud “Os Instintos e Seus Destinos (1915)”, o termo Pulsão é tratado como um sinônimo para instinto. De acordo com a Fisiologia, instinto é um estímulo que vem do mundo externo para um tecido nervoso, e é descarregado para fora do corpo através de ação motora. Freud faz uma relação entre instinto e estímulo, inclui o conceito de instinto no de estímulo.
A “pulsão” seria um estímulo para a psique. O estímulo instintual vem do interior do próprio organismo, atua de modo diferente sobre a psique e requer outras ações para ser eliminado.
O instinto não age como força momentânea, mas como uma força constante, e por causa dessa constância, uma denominação mais aceitável para esta força seria “necessidade”, e o que supre esta necessidade é a sua “satisfação”. E esta precisa ser alcançada através de uma modificação da fonte interior do estímulo.
Como uma ação muscular, motora, não surte efeito sobre esta força, fica evidente a existência de um mundo interior e de necessidades instintuais.
Portanto, a eficácia da atividade muscular para satisfazer um estímulo externo “versus” sua ineficácia diante de outros estímulos é o que faz distinguir o que é “de fora” do que é “de dentro”.
Ainda falando de pulsão propriamente dita, podemos dizer que a pressão é a força que impele para sua satisfação, finalidade é a satisfação do instinto, objeto é o que torna possível a sua satisfação e a fonte é o próprio corpo, uma vez que precisa passar por ele (sensação corporal) para encontrar uma representação na psique e dar continuidade ao processo psíquico.
Freud nos diz que a pulsão tem alguns destinos na sua evolução, e limita-se aos instintos sexuais, que são do seu maior conhecimento. A seguir, algumas dessas vicissitudes.
A reversão ao oposto é referente apenas à meta do instinto, tendo como exemplos os opostos sadismo/masoquismo e voyeurismo/exibicionismo. No sadismo a meta é atormentar, causar sofrimento (a meta é ativa); no masoquismo, o objetivo é ser atormentado (a meta é passiva). No voyeurismo a meta é olhar (ativa); no exibicionismo é ser olhado (passiva). A reversão diz respeito às metas: substituir a meta ativa, atormentar, olhar, pela passiva, ser atormentado, ser olhado.
O retorno ao próprio self, é considerado no masoquismo, uma vez que a violência do sadismo voltada para fora retorna para o próprio sujeito e, no exibicionismo considera-se a observação do próprio corpo ao exibi-lo para outrem.
A sublimação, quando, para chegar à satisfação da pulsão, há um deslocamento do objeto ou da meta, não sexuais, para outros socialmente aceitos e que não gerem conflito ou desprazer ao indivíduo. Ou seja, transformação da energia da pulsão em ações que, mesmo desviadas do seu objetivo inicial, geram a satisfação. É a saída para cumprir a exigência da pulsão, ao mesmo tempo em que o conteúdo original reprimido continua inalterado.
O narcisismo, outro destino da pulsão, é diferente de autoerotismo. Uma vez que o Eu, como uma unidade, não existe desde o início no indivíduo, e o autoerotismo, este sim, é primário e foi postulado por Freud na sexualidade infantil em todas as suas fases. Deve haver algo que se acrescenta ao autoerotismo, uma nova ação psíquica é realizada para que se forme o narcisismo. O Eu vai se constituindo à medida que tem a “necessidade” (instinto do Eu = autopreservação) e o “desejo” (instinto sexual = autoerotismo) atendidos. Ex.: o bebê suga o seio da mãe para saciar a fome(autopreservação), mas continua sugando pelo prazer oral (autoerotismo).
No narcisismo, o objeto libidinal é voltado para o próprio indivíduo. Freud usou o mito do Deus Narciso, que se apaixona pela própria imagem, para conceituar o narcisismo.
O narcisismo primário, suposto na criança, pode ser confirmado ao observarmos a atitude dos pais para com seus filhos, pois vêm nos filhos todas as perfeições e são cegos para seus defeitos, como se o seu próprio narcisismo primário se reproduzisse naquela cena.
Depois de passar pela fase do narcisismo primário, e ter destinado sua energia libidinal para objetos externos, esta libido retorna para si mesmo, identifica sua imagem (a imagem que faz dele mesmo) com objetos e, depois de investir a libido em direção a estes objetos, ela é voltada para si mesmo, “reconhece e ama no outro a sua própria imagem”, formando-se assim o narcisismo secundário.
O instinto que remete ao que gostaríamos de ser, de acordo com a expectativa dos nossos pais (ideal de perfeição) é uma figura do narcisismo, o Eu Ideal, diferente do Ideal do Eu, que é uma imagem idealizada a partir do eu ideal, o indivíduo como ele acha que deve ser para ser amado pelo outro.
A repressão, por fim, é o recurso usado pela “resistência”, para que o impulso instintual de atingir sua meta, o que geraria desprazer, seja reprimido no inconsciente. Resumindo, um mecanismo de defesa que retira pensamentos incômodos da mente consciente.
A repressão não existe desde o início, surge de pois de serem produzidas uma atividade psíquica consciente e outra inconsciente, e a essência da repressão é manter algo afastado da consciência.
Freud estabelece uma relação entre “repressão” e “angústia” através da análise de um caso de zoofobia, e conclui que nas fobias a repressão fracassa, pois apenas elimina a ideia e a substitui. Assim, o fóbico está sempre buscando formas de escapar da angústia, evitando a situação que a desencadeia, mas essas tentativas acabam sendo a própria fobia representada na angústia de evitar as situações.
Apesar de, neste texto, Freud não ter concluído exatamente o que é reprimido na neurose obsessiva, se uma tendência libidinal ou uma hostil, mesmo assim, tentamos fazer um entendimento daquilo que se supõe como repressão a partir do texto.
A neurose obsessiva se dá na repressão de um impulso hostil para com uma pessoa a quem amamos. De início, a repressão cumpre seu papel: a ideia é reprimida, mas o afeto permanece, pois, a libido é apenas retraída. E aquele afeto precisa ser descarregado. Assim, por uma formação reativa, o sentimento hostil é transformado no seu oposto, e há um exagerado sentimento de amor dirigido àquela pessoa. Nesse sentido, a repressão fracassa, pois existe uma relação de ambivalência entre o impulso sádico que foi reprimido e o seu oposto, que é “amor exagerado” e, na forma desse amor exagerado, o impulso que foi reprimido encontra uma forma de escape.
Ainda em 1915, Freud escreve um artigo onde conceitua, justifica, fala sobre uma possível topologia e identifica, conforme suas observações até aquele momento, o Inconsciente.
Diz, naquele artigo, que o reprimido não ocupa todo o inconsciente, mas apenas uma parte dele. O inconsciente é de um âmbito maior.
Existem atos, em pessoas sadias ou mesmo em doentes que parecem desconexos e incompreensíveis e assim permaneceriam se pensarmos que tudo é da consciência. Neste sentido, Freud diz que eles só se tornam compreensíveis e justificáveis se admitirmos outros atos numa instância psíquica que a consciência não dá conta.
O inconsciente contém todas as pulsões, urgências e instintos, dos quais não temos consciência, mas motivam a maior parte das nossas ações. Sua existência só pode ser provada indiretamente, pela psicanálise, através da interpretação dos sonhos, estes extremamente ricos em material inconsciente, da transferência instaurada no consultório com o analista, da associação livre de palavras.
Na época do artigo sobre o inconsciente, observamos um Freud num malabarismo intelectual, para conseguir, sendo médico e falando para seus colegas médicos, ser convincente a respeito das suas teorias psicanalíticas, sem afastar-se da Medicina, ao mesmo tempo sabendo ser necessário este afastamento para poder seguir na Psicanálise. Ainda assim, apesar da necessidade desse afastamento, muitas doenças mentais, como a esquizofrenia, foram essenciais no desenvolvimento do seu trabalho, pois, a partir daquelas, conseguiu estabelecer comparações de comportamento entre os doentes (de acordo com a Psiquiatria), e os não doentes, para explicar o inconsciente e seus processos psíquicos nestas últimas.
Por Victória Cardoso Cozza -
Após o abandono das técnicas antes utilizadas, tais como hipnose e catártica, Freud começa a aplicar a então chamada técnica psicanalítica, consistindo na utilização da associação livre que compreende a fala livre do paciente sobre tudo que vier à sua mente. No caso Dora, é possível vislumbrar a utilização de algumas técnicas da psicanálise como a interpretação dos sonhos para acessar o conteúdo recalcado de Dora e a associação livre, servindo de auxílio para trazer à tona conteúdos reprimidos ajudando na elucidação dos sintomas.
Com o intuito de orientar os demais médicos nesse novo método denominado psicanálise, Freud publica “Recomendações aos médicos” em que traz diversas orientações para aqueles que querem seguir tal método, evitando assim uma psicanálise selvagem.
No entanto, no que concerne as recomendações, o próprio Freud não as seguia, ficando nítidas tais incongruências na análise de Dora, como por exemplo a afronta ao princípio da autonomia do paciente em querer fazer o tratamento, visto ter sido Dora obrigada pelo seu pai a se tratar com o médico.
Ademais, o próprio Freud não fazia análise pessoal, confrontando assim outra de suas recomendações na qual tem por finalidade ampliar a perspectiva do médico para reconhecer no paciente aquilo que já fora reconhecido em seu próprio inconsciente reprimido.
A incansável busca de Freud em provar suas teorias acabou deixando falhas no caso Dora. Por ser o caso rico em material que o possibilitaria demonstrar suas convicções, como por exemplo, o acesso do conteúdo recalcado através da interpretação dos sonhos por ela relatados e dos sintomas histéricos ligados ao desejo e a sexualidade, Freud se cega e deixa passar um mecanismo essencial em favor do psicanalista: a transferência.
A transferência compreende a reedição de afetos do paciente na figura do analista, viabilizando assim o acesso ao conteúdo reprimido na via inconsciente, sendo, pois, um outro tipo de retorno do reprimido.
No entanto, Freud não soube manejar de forma adequada a transferência de Dora que projetou seus desejos reprimidos na figura dele e, ainda, a contransferência, pois não se absteve dos sentimentos que foram despertados nele próprio, não fazendo uso da neutralidade dentro do setting analítico.
Assim, é possível observar que Freud tinha um baixo grau de aderência às suas próprias recomendações e que a busca obsessiva em consolidar suas teorias causou a perda de sua paciente Dora, que desistiu do tratamento, mas que serviu de alerta para a essencialidade do manejo da transferência durante o processo psicanalítico.
Por Marta M. Kanashiro -
“Pedras sonhando pó na minaPedras sonhando com britadeirasCada ser tem sonhos a sua maneira”(Lula Queiroga, Noite Severina)
Publicada em 1900, a “Interpretação dos sonhos” de Sigmund Freud é um dos pilares fundamentais da psicanálise e considerada uma das grandes obras do século XX, ainda que tenha sido escrita e publicada no século anterior.
A originalidade e ineditismo da obra acompanharam a efervescência científica, cultural e artística da virada do século e fizeram deste trabalho de Freud um marco mundialmente reconhecido.
O livro recupera temas já tratados nos estudos de histeria na direção de aprofundar e rever o leque conceitual psicanalítico, assim como de estabelecer avanços inéditos na psicanálise.
Para abordar o sonho, tema central da obra, é necessário indicar antes que Freud afastou outros sentidos do termo, como o devaneio em vigília ou as expectativas de futuro, para centrar-se na experiência que ocorre durante o sono e que o psicanalista define como a realização de um desejo. Tendo o sonho como foco, a interpretação aparece no livro como método, mas não em substituição a um método anterior. Esse movimento de continuidade se contrapõe ao que Freud realizou anteriormente em seu trabalho, a saber, a revisão acerca da validade da hipnose e do método catártico e sua substituição pela livre associação como método mais apropriado. Na obra de Freud aqui tratada, a interpretação dos sonhos e a livre associação não se excluem enquanto métodos mais ou menos válidos, mas coexistem e se complementam para a análise.
Para estabelecer a interpretação do sonho como método, Freud realiza uma espécie de dissecação ou fragmentação do sonho para compreender suas partes de forma minuciosa, observando as associações surgidas com cada uma dessas partes, tal como na (auto)análise que se tornou clássica: o sonho da injeção de Irma. Vale notar aqui que a estratégia de observação é a de fracionar em partes aquilo que se quer conhecer, talvez mais um dentre vários esforços de Freud para o reconhecimento científico da área em criação, mas que traz à tona temas (como as regras do método e o interessante debate que pode ser estabelecido com Descartes) que fogem ao escopo do solicitado para o presente texto. Para este momento, vale apenas dizer que o movimento cartesiano de fracionar em partes para analisar e ordenar se concretiza em Freud como marcador de cientificidade, mas na direção de subverter o cogito cartesiano.
Para alcançar a definição freudiana do sonho como realização de um desejo, é necessário retomar a ideia de recalque. Nos estudos sobre histeria, recalque foi apontado como inibição, esquecimento ou repressão de um evento traumático e de afetos que não puderam ser devidamente expressados (ausência de ab-reação), em função das mais variadas imposições ou contextos vividos. Censurado pela consciência, isso que foi reprimido, recalcado ou tornado inconsciente (surge como, ou) gera sintomas. A análise empreendida por Freud mirava a gênese do trauma, a origem ou causa dos sintomas, ou no limite, aquilo que foi recalcado. Estabelecida essa relação entre trauma e sintoma é importante acrescentar que desejos (movidos constantemente pelo impulso na direção de algo) que não puderam ser vivenciados também são recalcados. A expressão ou realização desses desejos barrados pela consciência pode ocorrer em sonho, daí a definição de Freud: o sonho é a realização de um desejo.
Como veremos mais adiante neste artigo, o desejo não reaparece para se realizar ou expressar no sonho em sua forma pura, mas sim de maneira mesclada ou disfarçada. Por ora, é necessário destacar que essa reaparição, no sonho, do desejo tornado inconsciente é conhecida como retorno do recalcado. Assim, o que foi reprimido e expulso da consciência reaparece para se expressar ou se realizar de forma onírica; retorna, portanto, de uma instância inconsciente para um espaço que permite a lembrança consciente ainda que inexata e com traços, na maior parte das vezes, incoerentes ou não coincidentes com a realidade. Note que esse movimento entre recalcar algo e expressá-lo (ou retorná-lo, trazendo do inconsciente para o consciente) ocorre numa espécie de jogo ou negociação entre forças psíquicas, dentre outras, a censura e o impulso de expressar o desejo. O retorno do recalcado surge então como resultado dessa transação, a qual Freud chamou de formação de compromisso.
A esta altura, é possível concluir que sintoma e sonho se aproximam, pois ambos surgem como expressão ou realização do que foi recalcado, seja pela manifestação física ou onírica, respectivamente. É neste sentido, que também ambos podem ser compreendidos como retornos do recalcado, assim como a transferência, os chistes e atos falhos.
Compostos por fatos e acontecimentos mais recentes do cotidiano (restos diurnos), representações e afetos (por vezes desligados de suas representações), os sonhos são articulados pelo impulso para a realização de um desejo. A interpretação que se volta para os sonhos como método analisa o relato dos sonhos dos pacientes, ou o seu conteúdo manifesto que não coincide com o que de fato foi sonhado. A narrativa do analisando sobre o sonho busca estabelecer uma coerência, ordem ou sequência lógica para o sonho, o qual é marcadamente caracterizado pelas qualidades opostas: incongruência, desordenação, ilogicidade. Este esforço narrativo, denominado por Freud como elaboração secundária, carrega consigo censuras, defesas e resistências que atuam como distorção do sonho de fato sonhado e como proteção do conteúdo latente dos sonhos, os pensamentos oníricos reprimidos ou escondidos. A análise do relato e suas associações têm como intuito desvelar (e decifrar) este conteúdo latente. A interpretação permite, portanto, conhecer os sentidos do sonho ou realizar uma espécie de esforço arqueológico-investigativo para alcançar o recalcado, escavando camadas de distorções, o que ressalta a(s) resistência(s) e o conflito de forças psíquicas como norteadora(s) na análise freudiana. Desta forma, a análise mira não somente o conteúdo manifesto, mas sua relação com o conteúdo latente e os processos que transformam (ou efetuam a passagem) dos pensamentos oníricos latentes para conteúdo manifesto dos sonhos.
É na passagem do latente ao manifesto que se processa aquilo que Freud chamou de “o trabalho do sonho” e que nomeia o capítulo VI da “Interpretação dos sonhos”. De forma geral, trata-se de mecanismos de distorção do sonho de fato sonhado ou de operações que permitem que o sonho seja definido como a realização de um desejo, ao que se acrescenta agora o adjetivo disfarçado. Afinal, na perspectiva freudiana, apenas pelo disfarce é possível que aquilo que foi reprimido ultrapasse a censura na direção de um espaço mais consciente.
Para que os sonhos apresentem-se na forma relatada, Freud aponta como dois fatores principais a condensação e o deslocamento. O trabalho de condensação realiza uma compressão do volume sonhado em um fragmento ou realiza uma reunião de diversos aspectos ou elementos numa figura única, numa única palavra ou ponto. Neste trabalho do sonho, uma representação (que pode ser uma pessoa, objeto, palavra, imagem etc) assume o lugar de várias outras. Essa compressão pode ainda anular a sequência temporal lógica unificando presente, passado e futuro, assim como reunir sentimentos antagônicos, diferentes sensações e percepções e construir figuras quiméricas ou uma composição de elementos diversos. Remetendo ao sonho da injeção de Irma, Freud exemplifica Irma como figura onírica condensando várias outras pessoas pelos aspectos e situações a que se conectava em seu relato do sonho. No caso, Irma onírica condensava aspectos da própria filha de Freud, outra paciente, uma criança examinada em outro momento, dentre várias outras. Já o trabalho de deslocamento (que pode estar contido na condensação) transfere uma representação para outra, sem menção ao contexto original e modificando o foco e a intensidade, ou seja aspectos e detalhes importantes (com alto valor psíquico) são transferidos para elementos insignificantes (com baixo valor psíquico). A ênfase maior em determinado aspecto é operada a partir de várias direções possíveis do deslocamento e da seleção de conteúdos diferentes. Assim, o que é incluído (nem sempre o principal) ou excluído do sonho é uma operação com determinações múltiplas (o trabalho da sobredeterminação). É esse movimento que determina maior ou menor valor aos elementos do sonho.
Ao estabelecer esses trabalhos do sonho, Freud promove uma tipificação e um detalhamento dos movimentos realizados para sua formação. Considerando a supracitada tarefa (e método) de interpretação dos sonhos, situar as operações realizadas pelos trabalhos do sonho é fundamental para a análise, pois aponta os caminhos que o psicanalista deve percorrer (numa espécie de engenharia reversa) para chegar ao recalcado.
Ao constituir o sonho por muitas camadas de operações de defesa e resistência que impedem de alcançá-lo, Freud sinaliza o sonho (de fato sonhado) como inalcançável ou inexistente (em seu sentido empírico). A sensação deve-se ao fato da construção do sonho ser realizada por Freud a partir das resistências, como que afirmando algo pela sua negação (impossibilidade de alcance). A teoria freudiana ao centrar-se na(s) resistência(s) destaca o conflito como elemento estrutural fundamental. Forças e direções contrárias (conflitantes) e a energia para a realização desses movimentos compõem assim o funcionamento dessa estrutura que a psicanálise freudiana pretende decifrar e que a obra Interpretação dos sonhos esmiúça tão finamente.
Por Alexandre Renaut -
Em aparência absurdos e desprovidos de sentido, os sonhos se apresentam como uma cadeia de imagens e eventos sem nexo explícito para o olhar leigo. Para Freud, porém, estes fenômenos psíquicos têm um sentido e uma causa, e eles expressam a realização disfarçada de desejos inconscientes que estão em conflito na vida anímica do paciente. Nesta batalha, a representação conflitante é recalcada – mas o desejo segue habitando o inconsciente, buscando constantemente sua realização – e acaba achando no sonho uma forma oportuna e viável para se expressar.
É curioso e fascinante entender porque o sonho é um terreno tão fértil para esse “retorno do inconsciente recalcado”. Primeiramente, na vida onírica, nosso consciente fica literalmente adormecido, afastado do mundo e dos estímulos externos. Este desligamento afeta também nossos mecanismos de defesa e nossa censura, que já não conseguem barrar com tanta eficácia o desejo inconsciente conflitivo. O relaxamento do sono permite então a vazão destes desejos, que se manifestam de forma velada nos sonhos.
Importante ressaltar que o sonho lembrado pela memória do sonhador é o que chamamos de conteúdo manifesto – ele parece confuso e absurdo porque se manifesta através de símbolos que se misturam com restos diurnos – porém, seu sentido oculto pode ser revelado, através da sua associação com um conteúdo latente original e próprio do paciente. É no conteúdo latente que os pensamentos e desejos recalcados habitam – e é através do sonho que estes conseguem driblar a censura, se transformando e se materializando em conteúdo manifesto.
Na psicanálise, o trabalho de elaboração do sonho é o processo pelo qual este conteúdo latente é transformado em conteúdo manifesto. Este processo é guiado por mecanismos que ocorrem simultaneamente e que obedecem a uma lógica própria ao inconsciente – com o objetivo final de escapar da censura.
Segundo Freud, a própria lembrança e reconstituição do sonho já sofre os efeitos da nossa defesa consciente, que buscará reorganizar o sonho numa narrativa, colocando aquela experiência numa determinada ordem – se afastando do sonho original e do núcleo recalcado e, possivelmente, distorcendo a representação e o desejo inconscientes. Trata-se do mecanismo de elaboração secundária.
Além disso, no sonho manifesto, o próprio desejo pode ser retratado por uma imagem figurada, uma representação metafórica deturpada. O mecanismo de condensação reunirá diversos elementos do conteúdo latente num único elemento do conteúdo manifesto – que, por sua vez, apresenta uma sobredeterminação de causas e sentidos. Em outras palavras, diversos pensamentos são representados e se apresentam sob a mesma imagem no sonho. O conteúdo manifesto é, então, muito mais curto que seu conteúdo latente. O deslocamento é outro mecanismo, onde detalhes aparentemente insignificantes ou irrelevantes do conteúdo manifesto estão, na realidade, conectados à pensamentos latentes importantes (e cruciais para o sentido do sonho). Aqui, a defesa atua transferindo a intensidade afetiva de uma determinada representação para outra.
Por fim, o trabalho do esquecimento é o último processo da censura para, de certa forma, dar o “golpe de misericórdia” depois da incidência simultânea de todos os mecanismos mencionados acima. A resistência é, de fato, implacável, e no contexto do sonho, o único elemento que não é alterado pelos mecanismos de elaboração são os afetos – as sensações conectadas às experiências emocionais do paciente, sempre presentes e reais na vida onírica.
O estudo dos mecanismos de elaboração dos sonhos é essencial na psicanálise. O trabalho do sonho se torna uma espécie de código secreto para contornar a censura, e apenas o próprio paciente possui a chave para decodificar o segredo através da livre associação. Partindo do conteúdo manifesto, vamos voltando ao conteúdo latente, como numa simples equação (conteúdo manifesto + associações livres = conteúdo latente). Na análise, o que vem espontaneamente em mente tem ligação com as ideias recalcadas, e a resistência do paciente em expressar essas ideias é um indício, justamente, de que se está aproximando do núcleo recalcado.
Segundo Freud, a interpretação dos sonhos ajudará o paciente a superar suas dificuldades. Através desta técnica investigativa, o analisando reconstituirá as ideias inconscientes recalcadas responsáveis por seu sofrimento e, levando-as à consciência, poderá então superar seus conflitos internos e recuperar sua capacidade de trabalhar, de viver, de amar.
Por fim, interessante frisar que o retorno do inconsciente recalcado, no contexto dos sonhos, é possibilitado graças aos diferentes mecanismos de elaboração (condensação, deslocamentos, elaboração secundária, esquecimento...) que vão buscar driblar a censura e materializar o sonho. O objeto da análise se torna o conteúdo manifesto do sonho, e como chegar ao conteúdo latente. Trata-se de uma sequência lógica para as teorias de Freud que, anos antes da publicação da Interpretação dos Sonhos, já estipulavam que os sintomas manifestados pelos pacientes histéricos eram, na realidade, outra forma de “retorno do reprimido”, e a técnica preconizada era a busca pela origem do sintoma (um trauma de infância). Os dois processos são muito similares e têm como objetivo chegar ao que foi recalcado por caminhos diferentes – um pela análise do sintoma, o outro pela análise do sonho.
Por Silvio Ribeiro da Silva -
O caso Dora é um caso emblemático na história da Psicanálise e na constituição profissional de Freud. O próprio Freud assinala que este caso foi o primeiro em que ele fez uso de aportes técnicos da Psicanálise, aportes que ainda são conhecidos até hoje. Foi escrito entre dois outros grandes trabalhos do médico: ‘A Interpretação dos Sonhos’ e ‘Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade’. Trata-se de uma paciente histérica, mas não a primeira, porque antes de tratar Dora Freud já apresentara publicações com Breuer sobre outras histéricas.
O tratamento de Dora foi feito com base na associação livre, técnica inaugurada por Freud a partir de sua percepção sobre a ineficácia da técnica da hipnose. Por mais que a técnica da associação livre consista em permitir que a pessoa fale sobre aquilo que vier à mente, no caso Dora percebe-se um Freud ainda muito apegado à sugestão, encaminhando as ideias de sua cliente a questões ligadas à sexualidade (carro-chefe da teoria psicanalítica de Freud e considerada a etiologia da histeria). Cabe comentar que neste momento da constituição da Psicanálise a sexualidade era voltada para o campo genital quase que exclusivamente.
A associação livre no caso Dora foi fundamental. Pode-se perceber isso no relato dos dois sonhos trazidos para o setting, quando a cliente de Freud deveria falar associativamente acerca dessa construção psíquica passível de interpretação. O relato dos sonhos foi material fundamental para o tratamento dirigido pelo analista, embora o segundo sonho não tenha tido a interpretação concluída devido à desistência de Dora do tratamento.
Ainda que seja possível notar que o caso Dora colaborou muito com a técnica da Psicanálise, pode-se observar que foi também importante para a prática da teoria, uma vez que Freud se utilizou do relato dos sonhos, como já dito, para tentar desenrolar o novelo que era (e é em todas as pessoas) o inconsciente de sua cliente.
A transferência foi um dos aspectos bastante observados no caso Dora. Ela foi percebida sob mais de um viés. Em um deles, houve a transferência negativa de Dora em relação a Freud, tanto que ela desistiu do tratamento antes de sua conclusão. Essa desistência foi crucial para que o pai da Psicanálise percebesse mais tarde a necessidade de aperfeiçoamento da técnica em relação ao manejo desse aspecto tão importante para a Psicanálise, uma vez que Freud acabou deixando de lado a relação transferencial que estava ocorrendo entre ele e Dora, permitindo que esta relação interferisse a ponto de motivar sua cliente a, como dito, desistir da análise.
A percepção de Freud a partir de Dora de que sua técnica carecia de revisão e aperfeiçoamento foi tão marcante que tempos depois ele publica o texto com recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. Dentre essas recomendações, está evitar intimidade com o analisando justamente por que isso pode dificultar a resolução da transferência, uma das principais tarefas do tratamento psicanalítico na visão de Freud. Em outra publicação posterior ao caso Dora (Sobre o Início do Tratamento), fala de novo sobre a transferência e sobre a resistência (também já abordada no texto sobre as recomendações aos médicos).
O conceito de transferência foi o mais relevante trazido pelo caso Dora por mostrar como o analista desempenha um papel fundamental na sua relação com o analisando. Quando Freud se recusou a ocupar este papel, acabou por impor uma resistência à análise, instaurando uma transferência negativa. O que o caso Dora trouxe para Freud e para a Psicanálise de esclarecimento sobre a transferência foi o entendimento de que, em sua neurose, o analisando transfere para o analista sua carga de fantasias libidinais residentes no universo inconsciente, fazendo do analista o depositário de parte de sua vida afetiva reprimida e que, justamente por conta da resistência, foi impedida de ser evocada conscientemente.
Ainda sobre a transferência, tão relevante no caso Dora, anos após este caso, Freud traz à tona o texto sobre recordar, repetir e elaborar, introduzindo o conceito de neurose de transferência, subordinando a transferência à ideia de repetição. Aqui, a transferência é tratada como um fragmento da repetição, agindo a serviço da resistência. O próprio Freud diz que se a resistência for muito intensa, maior será a atuação substituta do ato de recordar. No caso Dora, pela sua desistência, não houve tempo de colocar em prática esta tríade tão relevante para o processo psicanalítico.
No texto sobre o recordar, repetir e elaborar, Freud aborda a elaboração, discutindo se tratar de erro considerar a superação das resistências o fato de revela-las até que se tornem familiares. Para ele, o analisando precisa de tempo, com o qual poderá conhecer melhor sua resistência a partir do momento que esta se lhe torna familiar. A partir desta familiarização, poderá ser possível a elaboração para a superação a partir do trabalho analítico. No caso Dora, pela falta de manejo de Freud com a questão da transferência, o que acabou se tornando para ela uma resistência, levando-a a desistir do tratamento, esse tempo para a familiarização e posterior vencimento da resistência não houve.
Por mais que o caso Dora tenha aberto para Freud as portas para o entendimento de dois aspectos importantes para a Psicanálise (a transferência e a resistência), foi apenas anos mais tarde que ele detalhou mais a seu respeito no texto “A dinâmica da transferência” (1912). Uma das questões desenvolvidas por ele texto diz respeito a porque a transferência acaba sendo fator de resistência. Assim, apesar de o caso Dora não ter sido exitoso para Freud, ele foi fundamental para que ele pudesse rever e aperfeiçoar a técnica da Psicanálise, bem como ampliar a visa teórica da referida, o que pode levar à conclusão de que não houve um fracasso, mas a oportunidade para um avanço.
Por Gabriela de Souza Honorato -
No artigo “Comunicação Preliminar”, Freud (1893) destaca a predominância do “trauma” no que se poderia presumir acerca das causas da histeria. Haveria para ele uma experiência afetivamente marcante na maioria dos fenômenos histéricos, senão em todos. Essa experiência poderia ter origem num único evento (levando à “histeria traumática”) ou numa série de impressões afetivas (podendo gerar uma “histeria comum, não traumática”).
O que, de fato, produziria o “trauma” seria o “afeto” associado ao evento e/ou “impressões” do paciente. O “trauma” seria, portanto, o que o autor vai chamar de “trauma psíquico”. Do mesmo modo, Freud argumenta que “muitas vezes uma única causa precipitante não basta para fixar um sintoma”, sendo necessário um conjunto de situações. O sintoma, por sua vez, estaria, em geral, numa relação simbólica com a causa, tal como se quisesse expressar o estado mental por meio de um estado físico. Freud nos apresenta alguns exemplos, tal como o da mulher que sentia dores no calcanhar direito. A dor expressava o medo que sentiu, quando apareceu pela primeira vez em sociedade, de “não acertar o passo” naquele meio. A histeria comum (não associada a um evento específico) seguiria esse mesmo modelo, tendo origem num “trauma psíquico”.
Freud faz uma defesa de Breuer no fato de que, como técnica de tratamento, a tentativa de descobrir a causa determinante da manifestação histérica, fazendo perguntas ao paciente sob hipnose, era, ao mesmo tempo, terapêutica, uma vez que seria possível que o sintoma se desfizesse. A partir desta observação, começa a argumentar que a/s lembrança/s envolvida/s com evento/s e/ou impressões não se desgastavam e nem permaneciam “esquecidas”, continuando a exercer poder sobre o sujeito. Freud apresenta a tese de que quando uma pessoa experimenta uma impressão psíquica, alguma coisa em seu sistema nervoso aumenta – “soma de excitação”. Haveria, em seguida, uma tendência, em todo indivíduo, a diminui-la, preservando-lhe a saúde. A diminuição da “soma de excitação” poderia ocorrer por vias motoras. Muitas vezes chorar, insultar alguém ou esbravejar seria o suficiente. Mas, em alguns casos, quando não há uma reação suficiente ao trauma psíquico, a lembrança dele preservaria o “afeto” que lhe coube originalmente, podendo levar, em algum momento da vida, a sintomas histéricos. Assim, haveria nos histéricos impressões que não perderam seu “afeto”.
Desse modo, sua terapia, no momento da publicação do referido texto, consistia em fazer com que alguém que tivesse experimentado um trauma psíquico sem reação suficiente a ele, o experimentasse novamente, sob hipnose, forçando-o a completar sua reação – livrando-o do que estava “estrangulado”. Assim, seria possível, “deliberadamente, reconduzir a excitação da esfera somática para a psíquica”. O indivíduo conseguiria “libertar-se da contradição com a qual é confrontado” (FREUD, 1894). Esse algo “estrangulado”, aos olhos de Freud (1894), relacionava-se, predominantemente, com a sexualidade. O “trauma psíquico”, na histeria, para o autor, estaria relacionado a fatores sexuais: seria “impossível arrancá-la do contexto das neuroses sexuais” (FREUD, 1893-1895). A sexualidade, portanto, era o que de específico via na etiologia da histeria. No artigo “Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa”, Freud (1896) também argumenta que em todos os casos que observou, o fator responsável pelo desenvolvimento das neuroses seria uma “experiência sexual de caráter traumático”. De forma mais específica, a “sedução de uma criança por um adulto” – a “teoria da sedução”.
A teoria da sedução, foi, posteriormente, abandonada pelo próprio Freud, tratando-se, portanto, de um equívoco. Se ele chegou a registrar (FREUD, 1896) que todos os casos por ele observados de neuroses (histerias, obsessões, fobias) envolvia a sedução, em diálogo com Fliess em 1897, teria observado que seria muito difícil acreditar que existiriam tantos “atos pervertidos contra crianças”, e, particularmente, pelo pai da criança. O equívoco foi cometido porque, naquele momento, ele ainda não havia desenvolvido ideias e teorias mais elaboradas dos mecanismos psíquicos, por exemplo, a respeito do papel das fantasias nos eventos mentais (somente mais tarde elaborou a teoria do complexo de édipo e do desenvolvimento da sexualidade infantil). Inclusive, vai sustentar que as histórias de serem vítima de ataques sexuais, comumente narradas pelos histéricos, poderiam ser ficções obsessivas surgidas do traço mnêmico de um trauma infantil. Na nota de rodapé acrescentada em 1924 no artigo “Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa”, Freud coloca que tem reconhecido e corrigido esse erro, afirmando que não sabia distinguir fantasias de recordações reais.
Na história da histeria, entretanto, outros equívocos – sabe-se hoje – foram igualmente cometidos. Freud foi levado a crer na sedução de uma criança, geralmente do pai, como provável causa do desenvolvimento de manifestações histéricas. Mas há registros de mais de dois mil anos de tentativas de compreensão do quadro de forma associada às mulheres. Chegou-se a relacionar os sintomas exclusivamente ao “útero”, ou melhor, ao fato de o útero ser “um animal que caminhava sobre o corpo da mulher”, causando sufocação entre outras sensações; a recomendar a introdução de chumaços de tecido com perfume na vagina; a tomar as manifestações como uma “retenção da semente feminina”; a se acreditar na predisposição da mulher a desenvolver possessão demoníaca e bruxaria, e, com efeito, histeria. Chegou-se, também, durante muito tempo, recomendar casamento, sexo e gravidez como terapia, além de descanso, viagem e águas termais. O caráter sexual e de gênero das crises histéricas, portanto, já vinham sendo discutido e tomado como verdade por séculos. A visão que se teve/tem da mulher foi/é determinante para que se reduza sofrimento psíquico à sexualidade.
É possível que o equívoco de Freud tenha sido suscitado pelo próprio uso do método catártico de Breuer: sob hipnose, imagens, sensações, lembranças, etc., enunciadas pelos pacientes foram todas adotadas por ele como verdades absolutas e não como fantasias. Na hipnose o terapeuta pede que o paciente comente, por exemplo, cenas que vêm à sua mente. Essas cenas, contudo, nem sempre são fatos reais. Mas no final do século XIX Freud ainda não havia dado conta da possibilidade de serem fantasias. Ele começa a defender a associação livre e a condenar a hipnose, mas, ainda por um tempo, creu que era a mais pura verdade toda narrativa feita pelos pacientes. Somente em 1906 Freud afirma que errou ao considerar a sedução como causa da histeria. No artigo “Minhas teses sobre o papel da sexualidade na etiologia das neuroses”, ele propõe a substituição da teoria da sedução pela tese da fantasia histérica. Trata-se de ficção sobre o que ocorreu na infância e que ajudaria a dar um sentido para os sintomas histéricos. Parece, desse modo, que embora a fantasia não seja algo real, acaba sendo uma via para se chegar a impressões ou representações que foram expulsas da consciência, e que, na falha do mecanismo de defesa, vieram a causar sintomas histéricos.
Referências:FREUD, S. (1894). As neuropsicoses de defesa. In: Neurol. Zbl., 13 (10), 362-4, e (11), 402-9.FREUD, S. (1893-1895). A psicoterapia da histeria. In: Estudos sobre a histeria.FREUD, S. (1896). Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa. In: Neurol. Zbl., 15 (10), 434-48.FREUD, S. (1893). Sobre os mecanismos psíquicos dos fenômenos histéricos: uma conferência. In: Wien. med. Presse, 34 (4), 121-6 e (5), 165-7.
Por Gustavo Henrique Borges da Costa -
No final do século XIX, Sigmund Freud seguia desenvolvendo seus estudos sobre histeria. A partir da apresentação de Sobre os Mecanismos Psíquicos dos Fenômenos Histéricos (Uma Conferência), em janeiro de 1893, realizada quase que concomitantemente à publicação da Comunicação Preliminar, em que assina juntamente com Josef Breuer, sobre o método de tratamento da histeria, e também em publicações subsequentes, Freud defende que um trauma sexual real está na origem da formação dos sintomas da histeria e de outras neuroses: a Teoria da Sedução.
Baseado nos estudos sobre histeria iniciados por Jean-Martin Charcot, com quem trabalhou em Salpetrière, em Paris, Freud descreve que a origem dos sintomas histéricos é psíquica, mesmo sendo manifestados fisicamente no corpo. Observa-se que há regularidade e padrão nestes sintomas, como se obedecessem a uma lei de causa e efeito. Há aqui a constatação de que a manifestação no corpo destes sintomas seguiria a lógica de que um trauma grave, ameaçador, relacionado a uma parte do corpo, gerou afetos perturbadores que se ligaram a representação dessa parte do corpo. A lembrança destes acontecimentos seria capaz de provocar o retorno do afeto e a perturbação psíquica correspondente, gerando no corpo sintomas físicos.
Com isso, reconstituir psiquicamente este trauma poderia causar perturbações físicas reais, mesmo que induzidas pela sugestão verbal, e por isso, a hipnose surge como um recurso técnico utilizado para acessar as lembranças traumáticas. Isto se dá porque, segundo Freud, os pacientes muitas vezes não têm consciência do contexto em que os seus sintomas se apresentam. Observou-se que o sintoma surge com frequência acompanhado de um afeto específico. Freud dá o exemplo do afeto de repulsa que acompanha sintomas como anorexia, náusea, insônia e outras formas de perturbação do sono.
Com o trauma psíquico haveria, portanto, uma relação simbólica entre o acontecimento traumático real, o afeto gerado pela experiência traumática e um sintoma associado. Com o desenvolvimento dos estudos sobre histeria durante a parceria estabelecida entre Freud e Josef Breuer, chega-se a percepção de que o uso da linguagem é um meio importante para a expressão dos afetos perturbadores envolvidos no trauma psíquico e, desta forma, poder fazer “escoar” um fluxo energético represado no corpo e, assim, cessar o sintoma. A hipnose seria a forma de induzir a expressão destes afetos e gerar a catarse necessária para a ab-reação: o método catártico de Breuer.
Desta forma, ao conduzir sua clínica, Freud observou que muitas de suas pacientes histéricas demonstravam ter na questão sexual parte importante na origem de seus traumas. Inclusive, percebeu que havia muita resistência das pacientes em falar a respeito ou mesmo admitir pensamentos de cunho sexual, como se erigissem barreiras a si e ao analista. Freud descreve, nos casos de histeria que publica, as questões que estariam na base dos quadros histéricos de suas pacientes como abstinência sexual (Emmy v. N.); necessidade de amor (Miss Lucy R.); angústia virginal (Katharina); e, desejo proibido (Emily v. R.).
Com isso, Sigmund Freud concebe uma teoria em que a gênese das neuroses eram traumas sexuais sofridos por pacientes em idade pré-sexual, tanto de forma passiva como ativa, praticados por um adulto. Para cada forma de trauma corresponderia uma conversão diferente, desencadeando estruturas histéricas, obsessivas, de angústia (fobias) ou psicóticas. A culpa, a repulsa, a vergonha seriam sentimentos partícipes desta forma de recalque dos afetos perturbadores causados por esse acontecimento traumático.
Isto não seria menos do que a sistematização do entendimento de que a origem dos sintomas é psíquico; que estes sintomas possuem regularidade; que têm origem traumática relevante tendo provocado afetos perturbadores que foram associados a representações simbólicas; são manifestos no corpo; e, a percepção por Freud de que os relatos de suas pacientes apontaram dificuldades na experiência de seus desejos sexuais.
Entretanto, uma questão tende a pesar. Será que todos os quadros histéricos, obsessivos ou psicóticos sofreram necessariamente traumas sexuais reais? Aqui temos uma falha importante da Teoria da Sedução pois não era possível determinar que a totalidade dos traumas psíquicos teriam surgido de eventos sexuais violentos, ativos ou passivos, praticados por adultos em crianças. Além disso, desde as primeiras teorias sobre pacientes histéricas já se falava que a questão sexual estaria na origem do quadro e que, a prática do sexo poderia ser, inclusive, um remédio eficaz, porém pouco desse raciocínio acrescentou ao diagnóstico, tratamento ou cura da histeria ao longo da história.
Considerando que já se entendeu que a origem da estrutura histérica é psíquica e, ainda, que é possível estabelecer quadros imaginários que retomem o afeto perturbador por meio da sugestão verbal (hipnose, por exemplo), já se pode imaginar que, em sendo o afeto que desloca o sintoma para o corpo, esse afeto pode ter origem exclusivamente psíquica. Isto é, o trauma pode ser emocional, sobre determinado – múltiplos eventos causadores- e fruto de uma fantasia que haveria provocado a associação entre o afeto perturbador e a representação simbólica.
Sigmund Freud percebeu, ainda, que, sendo a hipnose um mecanismo de sugestão verbal capaz de criar quadros imaginários com potencial gerador de afetos e sintomas, não se era possível determinar de fato que um acontecimento sexual traumático teria concretamente acontecido. Tanto a hipnose como a Teoria da Sedução se mostraram falhas como teoria e técnica adequadas para o tratamento da histeria.
Haverá, pois, o analista de buscar interpretar o conteúdo dos relatos dos pacientes, considerando as resistências e mesmo os afetos construídos na relação dentro do consultório. Estes relatos são conteúdos manifestos que sofreram transformações, deturpações, no esforço de lembrança. E que apenas por meio do processo contínuo de análise é possível percorrer os caminhos que podem identificar os traumas psíquicos.
Por Alexandre Renaut -
A comunicação preliminar (1893) é um texto que apresenta o método utilizado por Freud e Breuer para tratar pacientes vítimas de fenômenos histéricos. Sua tese central consiste em apontar o trauma como origem da histeria: o elemento traumático (por exemplo, uma representação insuportável para o doente), juntamente com seu afeto, são lançados para fora da consciência, num lugar chamado de “segunda consciência” – mais tarde apelidada de “inconsciente”.
Neste processo de dissociação, aquela representação insuportável se “descola” do afeto – e o trauma, supostamente “adormecido” no paciente (num estado anormal denominado hipnoide), acaba reemergindo sob as mais variadas formas e sintomas (qualificados de “histéricos”).
O tratamento preconizado era a hipnose com o intuito de acessar a lembrança armazenada na segunda consciência do doente. Através desta manobra terapêutica, o paciente poderia então se recordar do “trauma adormecido” original e dar vazão ao afeto através de um processo de “ab-reação” que eliminaria definitivamente o sintoma. Os autores afirmam então que o sintoma teria ocorrido porque no momento do trauma, a vítima não soube (ou não pôde) oferecer uma reação adequada e seu afeto não foi descarregado (liberado por ações ou pela fala). Em outras palavras, a tese central é que a reação reprimida ao trauma (e o afeto ligado à lembrança desse trauma) ocasionam e alimentam os sintomas histéricos: neste sentido, “o sintoma é uma lembrança do trauma”.
Naquela época, Freud já começava a se distanciar de Breuer e de Charcot, abandonando progressivamente seus métodos terapêuticos, a catarse e a hipnose, para se dedicar unicamente à “livre associação de ideias” da psicanálise. Além disso, ao contrário de Charcot, que defendia o caráter hereditário e físico da histeria, Freud busca provar suas teorias ao afirmar que a sexualidade é a causa única dos sintomas histéricos – nasce então a teoria da sedução. Em artigos redigidos em 1894 e 1896, Freud relata que a causa do sintoma tem origem num atentado sexual produzido na infância (antes dos 7, 8 anos de idade), onde o “futuro doente” é “seduzido” e experimenta um encontro prematuro com sua sexualidade. O trauma, no entanto, só aconteceria anos depois, na adolescência, quando o indivíduo adquire maturidade sexual.
De acordo com esta teoria, o autor do atentado é um adulto ou uma criança mais velha do círculo social da vítima. A histeria seria provocada por uma experiência sexual passiva acarretando profundo desprazer na criança – majoritariamente meninas. A obsessão, por outro lado, seria consequência de um incidente sexual vivido de forma ativa pela criança – que inclusive sentiria prazer, gerando um sentimento de culpa mais tarde – neste caso, os meninos seriam mais numerosos.
Anos depois, numa nota de rodapé acrescentada nesses artigos, Freud vai reconhecer que sua teoria da sedução estava equivocada com as seguintes palavras: “naquela época, eu ainda não sabia distinguir entre as fantasias de meus pacientes sobre sua infância e suas recordações reais (...) atribuí ao fator etiológico da sedução uma importância e universalidade que ele não possui”. De certa forma, Freud vai admitir que ele não conseguia diferenciar a ficção da realidade no inconsciente e no discurso de seus pacientes. É surpreendente, inclusive, o contraste entre esta “admissão de erro” e o tom confiante da narrativa de Freud nos seus artigos de 1893, 1894 e 1896 – onde somos conduzidos por um discurso linear, causal, quase matemático para nos convencer da validade de suas teorias. De fato, Freud parecia mais preocupado em provar que estava certo do que em testar experimentalmente e cientificamente a validade de suas hipóteses.
A história da histeria está permeada de equívocos semelhantes ao que Freud cometeu. Durante séculos, diferentes abordagens procuraram explicar as causas da histeria, passando por explicações mais históricas ou ideológicas até chegar em investigações mais científicas no decorrer do século 19. Charcot, por exemplo, perdeu praticamente todo o seu trabalho por ter misturado os histéricos e epilépticos no mesmo ambiente, que ficou contaminado (fenômeno da clonagem). Portanto, é fundamental que um rígido protocolo científico seja respeitado para testar e validar as hipóteses do pesquisador.
Por fim, a retratação de Freud em relação à teoria da sedução não significou que todas as suas ideias foram abandonadas. Pelo contrário, na mesma nota de rodapé (datada de 1924) acrescentada em seu artigo “Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa” (1896), ele afirma que “depois que esse erro foi superado, tornou-se possível alcançar um discernimento das manifestações espontâneas da sexualidade das crianças que descrevi em meus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”. De fato, o abuso sexual seria uma ficção, uma fantasia organizada na realidade psíquica durante a infância da criança – e que tem sua importância na psicanálise (estudaremos as teorias da sedução em breve).
Por Silvio Ribeiro da Silva -
A tese principal associada à comunicação preliminar está ligada a como os teóricos, Freud e Breuer, entendiam ser o sintoma presente algo ligado a um trauma acontecido no passado. Para eles, o trauma encontrava sua origem na infância. É curioso pensar que eles entendiam ser a relação entre o trauma e o sintoma algo não diretivo, ou seja, um não era necessariamente consequência do outro.
A teoria da hipnose era colocada em prática no tratamento proposto pelos dois. O objetivo da hipnose era resgatar na memória do paciente as lembranças esquecidas. Na hipnose, buscava-se fazer com que o paciente se lembrasse do trauma e reagisse a ele com o uso das palavras, colocando, no presente, a emoção, a fim de expurgar, através da catarse, aquela emoção ‘ácida’ mal resolvida no passado. Outra teoria associada é a da ab-reação, a qual consiste no seguinte: uma pessoa é tratada com grosseria e falta de respeito por outra em escala superior; pelo fato de o agressor ser superior, a pessoa não pode revidar (o não revide seria o gerador do trauma, a ser manifestado como sintoma posteriormente); a ab-reação ocorreria se o agredido revidasse de alguma forma a agressão sofrida (jogando café no rosto do agressor, por exemplo). O recalque seria outro aspecto relevante para o sintoma segundo Freud e Breuer. Emoções (afetos) recalcados (engolidos) podem se manifestar futuramente como sintomas de algo marcante do passado e não ab-reagido.
Para Freud, a sexualidade é a etiologia da histeria. Sobre isso, ele indicava o que a hipnose e a catarse, métodos até então em uso, buscavam alcançar. Começava a tomar mais força a tese de que o enunciado do paciente não era tão importante sem a presença da enunciação (o que leva à produção de um enunciado. Pode-se associar isso ao que o próprio Freud chamava de ‘exploração arqueológica’ do caso relatado pelo paciente). O Freud psicanalista surgia a partir do interesse pelo enigma por trás dos relatos do paciente. Ganhava força o desejo de Freud pela investigação das causas por trás das doenças. Nesse sentido, o sintoma presente no paciente pode ser interpretado pelo analista como restos de momentos psíquicos passados não resolvidos (não ab-reagidos) e que se manifestam na consciência, trazendo por trás um arcabouço psíquico vinculado a um quadro patológico qualquer, manifestado, no caso da histeria, como sintoma somático. Cabe ressaltar que, para Freud, tudo isto tinha como pontapé inicial uma experiência sexual infantil oriunda de um contexto de sedução feita por um adulto (ainda não havia indicação sobre o lugar do desejo e da fantasia nisso tudo). Assim, o tratamento analítico consistia em fazer associações entre os dizeres do paciente, em busca do momento inicial gerador do quadro atual, aflitivo para o paciente, associando isso tudo a uma experiência sexual precoce.
Junto com Breuer, Freud desenvolvia seu trabalho acoplado à teoria da sedução. Para Freud, como já dito, a sexualidade é a causa da histeria. Essa histeria viria como resposta sintomática a um afeto gerado por conta de uma sedução, que levou a um caso de abuso sexual na infância, sofrida pelo paciente, seja por um cuidador, seja por outra pessoa mais velha, seja por alguém próximo, também já vítima de abuso sexual. Tempos depois de dizer isso, o próprio Freud admitiu que foi um equívoco de sua parte, ou seja, seus pacientes não sofreram efetivo abuso sexual, mas, sim, viveram uma experiência sexual fantasiosa. Freud, então, reorganiza sua teoria: anteriormente, havia um trauma no passado, o qual se manifestava como um sintoma; a partir de então, o que existe é uma fantasia sobre o que aconteceu nesta infância. Por mais que a fantasia não seja algo concreto, ela não poderia ser absolutamente descartada, já que está, de algum modo, conectada ao quadro histérico, constituindo, assim, parte da enunciação do paciente (o gerador do enunciado produzido por ele na associação livre). A fantasia acabava tendo um papel estruturante para a realidade factual, de certo modo facilitando o acesso ao mundo real.
O equívoco de Freud em relação à teoria da sedução deve ter ocorrido pela, até então, ausência de sua parte de uma maior reflexão a respeito do que acontecia durante o processo de análise com o paciente. Analisando sua trajetória profissional, percebe-se que houve momentos em que, após uma reflexão mais detida, ele acabou por abandonar um processo terapêutico em uso e adotar outro. Assim, ele parte da hipnose (feita com o paciente fora de si) e começa o método da associação livre (com o paciente fora de hipnose). A pessoa hipnotizada relatava fatos de sua vida passada, mas não se lembrava deles quando retornava do momento de transe. Assim, Freud deve ter percebido que não fazia muito sentido ter acesso àqueles dados, já que a pessoa não se lembrava do que havia acontecido depois do transe. Logo, o que fazer com aquilo? De modo semelhante, ao refletir sobre a questão da sedução, apresentada pelos pacientes, ele deve ter ido concluindo que era muito estranho um número tão grande de pessoas ter sido vítima de sedução. Um dos motivos dessa conclusão pode ter sido o fato de, dentre outros aspectos, os pacientes irem dizendo a ele que as considerações feitas acerca de seu caso não se encaixavam na verdade dos fatos. Se não se encaixavam, é porque havia alguma peça errada naquele quebra-cabeça. Possivelmente, a peça errada era a fantasia do paciente, tratada até então como verdade factual. Como já dito, a fantasia era um importante elemento, mas deveria ser tratada como uma estratégia para a execução (montagem) do quebra-cabeça, não como uma peça desse quebra-cabeça.
Ao longo de seu processo de construção como analista, houve alguns equívocos de Freud, os quais podem ser associados a outros cometidos na história da histeria. No caso da histeria, os estudos a seu respeito remetem a Hipócrates (460-377 a.C.), considerado o Pai da Medicina, na Grécia Antiga. Séculos depois, quando Freud desperta seu interesse pelo tema, muito já havia ocorrido e, certamente, houve muitas modificações no que diz respeito à teoria. A tentativa incessante de descobrir a causa real de um mal acaba por conduzir a caminhos equivocados pelo fato de que ocorrem mudanças nos fatos nem sempre acompanhadas pelo interessado por aquilo.
A ‘substituição’ da ideia de sedução pela tese da fantasia resolveria os problemas daquela, por mais que posteriormente tenham surgido alguns pontos de vista bem contundentes de que abandonar a teoria da sedução tenha sido uma atitude covarde da parte dele, ou até mesmo um meio de autopromoção e aceitação, considerando a reação negativa da comunidade científica da época para a teoria da sedução. A fantasia de algum modo está contida na sedução.