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Será o luto o que se instalou

Por Jucimary Silveira -  Começamos o ano de 2020 com os mesmos propósitos e promessas de todos os anos: de iniciar um ano melhor. O que não sabíamos era que seríamos pegos de surpresa por uma pandemia provocada por um simples vírus, nem tão simples assim, o Coronavírus, que já infectou mais de 7 milhões de pessoas no nosso planeta e ceifou a vida de mais de 400 mil. Por conta de tantos óbitos, além da angústia do não saber como e quando tudo isso vai acabar, muitas famílias têm vivido a dor da perda. Dor essa que parece ainda maior quando se dá de forma tão inesperada e nos mergulha na experiência do luto. Mas o que seria o luto? Do latim “luctus,us”: dor, mágoa, lástima. Do dicionário: profundo pesar causado pela morte de alguém. Sentimento gerado por perdas como separação, partidas ou rompimentos. De acordo com Freud em seu artigo Luto e Melancolia (1917[1915]) o luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido. Penso que, como se trata de uma reação, posso tentar fazer um link com Bion e dizer que o luto é uma experiência emocional, ou seja, é como eu vivo a emoção dor ao me deparar com uma perda; o que eu faço com ela e como eu consigo manejá-la emocionalmente. E qual a finalidade do luto? A realidade é dura conosco e nos apresenta o fato de que o ser amado não está mais ali para receber de forma concreta nosso amor, exigindo de nós que toda demonstração de afeto seja “suspensa”. É impossível dar aquele abraço, aquele beijo e até mesmo aquele simples oi através de um breve telefonema. Nenhum de nós abandona esses hábitos de carinho de bom grado; até porque o afeto está ali para ser entregue, ele preenche um espaço no peito que fica apertado e dói. Resistimos, não queremos aceitar, muitas vezes demoramos até mesmo para acreditar, choramos, e tudo isso é natural; afinal o que fazer com essa dor que rasga o peito? É preciso tempo para que estas demonstrações de afeto sejam “arquivadas”, no sentido de aceitarmos que não podemos mais entregá-las. Momentos de tristeza, lembranças acompanhadas de choro, e outras reações são todas comuns; porém, aos poucos, vamos encarando esses momentos, vamos dando conta dos nossos sentimentos e vamos nos resolvendo com eles, dando destino a eles; chega então, o momento em que restam apenas as lembranças, as boas lembranças. É quando a gente consegue olhar para os retratos e dar boas risadas, viajar no tempo e reviver as coisas boas ou engraçadas. E o luto fez o seu trabalho. Reagimos, conseguimos manejar a dor da perda e então podemos seguir com a nossa vida. E quanto tempo dura um luto? Podemos dizer que esta pergunta poderia ter infinitas respostas, porque depende de cada pessoa. Cada um de nós possui o que Bion nomeou de caráter inato da personalidade, é aquilo que não tem explicação em relação a uma pessoa. Talvez esse caráter inato seja o que determine o porquê de pessoas diferentes viverem de formas diferentes as mesmas situações. Por isso é muito importante prestarmos atenção em nossas emoções e percebermos se nosso luto se instalou. Será que esse processo de reagir a essa dor se instalou em mim? Ou será que eu estou negando esse sentimento, tentando fugir dele? De acordo com Bion, a experiência emocional, penosa, desencadeia esforço para fugir ao sofrimento ou modificá-la conforme os recursos da personalidade para tolerar a frustração. Assim, numa situação tão sensível de perda de um ente querido; numa mesma família, terão pessoas que passarão pelo luto e terão aquelas que evitarão essa reação e poderão entrar em estados mais profundos de dor, caindo em estados melancólicos, ou tentando fugir da realidade por outras vias. Viver o luto é preciso para podermos processar a ausência do ente querido e ressignificar seu novo modo de existir em nossas vidas. Que possamos, em breve, distribuir nosso carinho aos que ficaram conosco.

A ansiedade nossa de cada dia

Por Fabiana Tessaro -  Difícil não estar ansioso hoje em dia, eu digo isso porque a ansiedade faz parte do mundo contemporâneo. Somos cobrados a todo momento, temos que ser felizes, temos que ser bonitos, temos que ser magros, temos que ter dinheiro, dar resultados, ter sucesso, saúde, amor e por aí vai. A ansiedade tem a ver com controle, com a busca pela perfeição, com a responsabilidade, com o desejo de que nada pode dar errado, de não sofrermos frustrações, eu não posso errar, onipotência, como se fossemos capazes de controlar tudo isso. Agora se nós já convivíamos com a ansiedade, o que dizer sobre esse momento tão inédito, tão único, parece que estamos em um filme ou em uma dessas séries da Netflix, quando que nós imaginamos por uma pandemia? Que um vírus seria capaz de mobilizar o mundo? Que nos tiraria a liberdade de ir e vir, que nos impediria de conviver com a família, amigos, que nos paralisaria, privação! Demonstração de amor hoje em dia é não ter contato físico, para nós brasileiros, isso seria impensável. Estudos recentes mostram um crescimento considerável de casos de depressão e ansiedade. Estamos passando por uma crise sanitária, política e diante de todos esses acontecimentos como fica nossa saúde mental? Cada um de nós terá uma história diferente para contar, iremos atravessar esse mesmo momento de uma forma singular, ninguém é igual a ninguém, somos seres únicos. Mas o que é a ansiedade? A ansiedade é um afeto, é uma emoção que está presente em todos os seres vivos. Ansiedade se traduz em medo, ansiedade é um excesso de futuro, expectativa. Um animal também sente ansiedade, mas neste se dá uma descarga motora, ao avistar um perigo uma decisão deve ser tomada, fugir ou atacar. A ansiedade é um alerta, um aviso de perigo, alguma medida deve ser tomada. É um medo muito primitivo, o medo de não existir, o medo de ser aniquilado, o medo de morrer e isso é muito sofrido e angustiante. Para nós seres humanos a ansiedade ativa a função do pensar e quais são os pensamentos automáticos diante dessa situação atual: tragédia. Eu estava estabelecida, tinha minhas rotinas, eu tinha planos, com a construção simbólica de proteção estruturada, Deus, família, trabalho, dinheiro. De repente o chão se abre, um buraco, será que eu vou ter trabalho, até quando meu dinheiro vai durar, meu corpo, minhas roupas, minha imagem. Sim, eu vou me contaminar, alguém da minha família vai se contaminar, será que eu vou sobreviver? Se eu não for contaminado, eu vou passar fome, a comida vai acabar, crise social, crise política, o sistema de saúde vai colapsar, guerra, morte, caos. Se algum leitor aqui não se sentir ansioso, muito provavelmente ativou aí um mecanismo de defesa que julgo não ser o melhor, a negação. A ansiedade em algum grau, é positiva, pois se é um alerta, o que eu faço com isso aqui e agora, eu preciso me proteger, eu preciso fazer algo. E quando ela é patológica? Quando ela é muito intensa, quando ela dói no corpo, é um aperto no peito, falta de ar, palpitação, irritabilidade (eu vou matar meu marido ou minha mulher, eu não sei lidar com os meus filhos 24 horas por dia!). O corpo é tomado por cortisol e adrenalina e se prepara para o embate, mais oxigênio e sangue nos músculos, estou pronto para a guerra. Estamos lutando contra um inimigo invisível, uma ameaça constante, em potencial. Nos noticiários só se vê o caos, sim, minha mente e meu corpo se preparam para a guerra 24 horas por dia, e assim temos impulsos dos mais variados, como comer tudo o que aparecer pela frente, aumento do consumo de álcool, fazemos sem pensar, um pequeno prazer para apaziguar o sofrimento. Mas a notícia boa é que existem outras formas para lidarmos com isso. Se eu pudesse sugerir algo, eu diria, não censure suas emoções, não lute contra seus sentimentos com coisas do tipo, eu não posso sentir isso ou aquilo, se há angústia, o medo e a preocupação são reais. O que eu proponho aqui é “pensar o pensamento”, como dizia nosso grande mestre Wilfred Bion. Os pensamentos se apresentam, quando você menos espera, eles já estão lá instalados. Pensar o pensamento, de uma forma muito simplista, é ampliar o que se pensa, é considerar outras possibilidades. Suportar esse vazio, talvez pensar como tudo isso pode se tornar interessante, porque não existe possibilidade de não sairmos transformados, toda experiencia gera uma transformação, não existe receita, cada um terá que encontrar sua forma. É momento de nos responsabilizarmos, mas de uma forma amorosa, ter auto compaixão, respeitar o que se sente, nós não sabemos mesmo o que vai acontecer e algum dia alguém soube? Sustentar esse vazio do não saber e talvez, talvez usar isso como uma brecha para criar. Uma mente poluída não cria, só reage. Uma mente poluída, paralisa, não há espaço para pensar, é catastrófica. Nenhuma realização corresponde na sua totalidade com a expectativa, então usemos isso também para pensar quando antevemos uma tragédia, deixemos uma brecha para o acaso, para as surpresas boas que podem ocorrer no meio do caminho, uma vacina, um projeto que estava na gaveta, um amigo, um milagre. Que tal deixarmos uma pequena dose de realidade, do dia a dia, organizar nossa vida, se chegamos aqui é porque temos recursos dentro de nós para lidarmos com isso. Enquanto isso, leia aquele livro que ficou na estante esquecido, veja os filmes novamente que você tanto gosta, por que não? Converse com seus amigos, fale do que sente, está tudo bem, está tudo bem não ser perfeito (a propósito, isso existe?), está tudo bem fracassar!!!

Nos braços de Morfeu - revisitando Freud e a interpretação dos sonhos

Por Camila Ferreira de Avila -  Reconheces Ceix, desventurada esposa, ou a morte modificou em demasia as minhas feições? Olha-me, vê-me, a sombra de teu marido, e não ele próprio. Tuas preces, Alcíone, de nada me valeram. Estou morto. (Ceix e Alcíone – as Alcíones) Na mitologia grega Morfeu (filho de Hipnos – personificação do sono) é considerado o Deus dos Sonhos, responsável por trazer aos mortais mensagens e profecias dos deuses. Desde tempos remotos os sonhos povoam a imaginação dos homens e despertam muita curiosidade. Por que sonhamos? O sonho é um presságio? Todos sonham? Sonhamos todos os dias? É um mecanismo para acessar a verdade? É uma abertura de comunicação com as almas em outra dimensão? Ou apenas um mecanismo neurológico? Como tudo que diz respeito ao funcionamento psíquico do homem as respostas podem ser afirmativas para tudo, afirmativas em parte, negativas no todo, mas a grande verdade é que depende! Depende de com que olhos analiso os sonhos: olhos científicos, neurofisiológicos, religiosos, psicológicos, psicanalíticos, psicóticos, freudianos. Infinitas possibilidades... A obra de Sigmund Freud “A interpretação dos sonhos” (1900) carrega nas entrelinhas muito mais do que as palavras lá impressas. Freud depositava nela uma esperança muito grande no impacto de seus escritos e o futuro da Psicanálise que ainda germinava como teoria e prática médica. Propositalmente ou não ao longo da obra o autor além de interpretar sonhos, construía a base da Psicanálise. Descreve a existência de um aparelho psíquico, a existência do inconsciente, e ainda, a maneira de acessar este inconsciente. Será que Morfeu apareceu nos sonhos de Freud trazendo profecias? Na história de Ceix e Alcíone, Morfeu voou silenciosamente pela escuridão até a cama de Alcíone e assumiu a forma de Ceix a pedido de Iris para trazer uma mensagem. Mas afinal o que os sonhos nos dizem? Lembre-se de que vamos olhar para este acontecimento psíquico através das lentes freudianas (interpretadas por mim neste momento) e nesta abordagem os sonhos representam a manifestação de desejos reprimidos, os desejos são sempre a motivação para sonhar. Acontecimentos misturam-se com afetos e fantasias, os sonhos não são lineares, são confusos e quanto mais pensamos e descrevemos o que foi sonhado mais distantes do sonho original permanecemos. Quando sonhamos o tal desejo que busca satisfação vem envolto em uma cortina de fumaça que mescla restos diurnos (coisas que vivemos concretamente naquele dia), com lembranças da infância, preocupações futuras, atividades próximas do sono, sensações fisiológicas e claramente fica muito confuso encontrar qual seria este desejo original que motivou aquele sonho. Freud compreendeu que tais desejos por algum motivo não podiam ser acessados tão facilmente pelo consciente e por isso vinham tão disfarçados. Acho que tudo isso é obra de Morfeu, o ser alado com a capacidade de adquirir várias formas confundindo os mortais. Para Freud os sonhos seriam a primeira grande manifestação do inconsciente, assim como os sintomas, atos falhos e a transferência na relação terapêutica. Tentando organizar parte das ideias do autor faz-se necessário compreender que no mecanismo dos sonhos um desejo real é retirado / reprimido da consciência e represado no inconsciente, e, para que não retorne tão facilmente para a consciência alguns mecanismos são acionados. Em “A interpretação dos sonhos” Freud denominou tais mecanismos de trabalho do sonho. Alguns destes trabalhos seriam: a condensação, o deslocamento, o afeto e a elaboração secundária. No sonho todo material psicológico é sintetizado, resumido. O sonho faz o trabalho de condensação. Ao relatar para alguém um sonho recorremos a explicações e interpretações mais pormenorizadas do que apareceu concretamente no sonho. A condensação traz várias representações em torno de um único representante.  São cadeias associativas que se fundem em torno de outras cadeias associativas. Caso fosse possível assistir ao próprio sonho, não seria possível compreender todas as ideias ali contidas, precisam de interpretação. Em outro trabalho do sonho, o deslocamento, ocorre um processo de camuflagem, a representação original surge maquiada, mascarada, modifica as características e muda os padrões. O objeto casa não é a casa, o mar não é o mar. Por vezes o conteúdo mais importante aparece de forma muito sutil, enquanto conteúdos inúteis surgem cheios de detalhes. O conteúdo original do sonho (latente) torna-se cada vez mais disfarçado. O filho de Hipnos dormia em cama de ébano em uma gruta escura, rodeado de flores de dormideira com efeitos sedante e narcótico tal qual o Ópio. Estão os deuses nos inebriando tal qual a flor dormideira? Momentos em que a Psicanálise e os deuses gregos se misturam. Mas existe algo que não se modifica, o afeto. Este permanece inalterado, as emoções não se transformam. A intensidade do afeto sentido nos sonhos é a mesma dos estados de vigília. Podem se ligar a representações diferentes, mas continuam lá. Morfeu não consegue transformar o afeto, a dor de Alcíone com a descoberta durante os sonhos da morte de seu Ceix é intensa e avassaladora, quando desperta de seus sonhos a imensa dor permanece. “... Levanta-te! Dá-me lágrimas, dá-me lamentos, não me deixes descer ao Tártaro sem ser chorado” (Ceix e Alcíone – As Alcíones). Os trabalhos de condensação e deslocamento ocorrem ainda no inconsciente, já na consciência outro trabalho entra em ação: a elaboração secundária. A elaboração secundária está a trabalho da censura, preenche lacunas, organiza, tenta tornar o sonho mais coerente, compreensível e é claro modifica mais uma vez o desejo inicial. Faz-se importante compreender que o sonho manifesto (aquele que lembramos) é bem diferente do sonho latente, aquilo que é lembrado está carregado de simbolismos. A elaboração secundária, portanto, tem o papel de transformar o sonho latente em sonho manifesto. E assim, repentinamente termina este sonho, Morfeu retorna para sua gruta escura cercada de flores de dormideira. Na próxima noite outros cenários, outros personagens, mas cuidado, Quintana adverte: “Não desças os degraus do sonho para não despertar os monstros”. (Os degraus – Mario Quintana) 

Estruturação psíquica freudiana: a que mestre servimos?

Por Fernanda Borges Hisaba -  Nesta série de textos, publicados entre 1924 e 1940, Freud discute a relação do Ego com o Id e o Superego, instâncias que se definem em sua segunda tópica, seu modelo estrutural do ser humano. Como o ser humano se comporta diante do mundo? Somos todos iguais? Que possibilidades o Ego tem quando se defronta com a realidade? Como lida com os desejos do Id? E com as regras impostas pelo Superego? Quais as ansiedades geradas neste processo, como eu me estruturo e que mecanismos de defesa desenvolvo no meu caminhar? À luz da primeira tópica freudiana, um modelo topográfico, a psique seria constituída por uma Consciência, onde estariam localizados o sistema perceptivo, o sistema motor e a Censura, ou seja, meu contato com o mundo externo e interno e o controle que exerço sobre os impulsos inconscientes. Este Inconsciente seria formado, em sua quase totalidade, por desejos reprimidos oriundos do desenvolvimento sexual infantil. O acúmulo energético provocado por essas necessidades pulsionais seria gerador de uma enorme ansiedade; os desejos reprimidos estariam todo o tempo procurando satisfação na Consciência, e tentariam das mais diversas formas driblar a Censura para que, através desta satisfação, pudessem liberar um quantum de energia. Porém a Censura, vigilante e incansável, não o permite. Mas o aumento da pressão faz com que o Inconsciente encontre meios de “perfurar” essa barreira, e assim, através de recursos como o ato falho, o chiste, os sintomas, os sonhos e a transferência, podemos observar emergir na Consciência esses desejos, sempre fantasiados, de tal forma que os soldados censores não os identifiquem, não os percebam, permitam sua satisfação e não os reenviem prontamente de volta ao cárcere. Esse seria o modelo básico do funcionamento psíquico do ser humano, para um Freud no início de seus trabalhos. De acordo com este mesmo autor, nos estruturamos psiquicamente em três possíveis formas: a neurótica, a psicótica e a perversa. Vejamos então como cada um desses indivíduos se constitui dentro desta primeira tópica freudiana. Suponhamos o nascer de um desejo, cuja realização é intolerável à Consciência, posto que contrária às normas estabelecidas pela sociedade e àquela consciência moral por mim estabelecida. Uma vez consciente, este desejo é prontamente identificado como inimigo e, sob ordens da Censura, submetido ao processo de repressão, enviado ao Inconsciente, aquele lugar em mim onde os desejos não são extintos, porém persistem represando energia, como fonte de ansiedade. Esse desejo tentará retornar. Irá se estabelecer, assim, um compromisso entre o Inconsciente e a Censura, e este contrato permitirá que meu desejo emerja disfarçado, substituído em um elo enfraquecido do meu corpo por um sintoma. Assim, ao invés de dormir com meu pai, passo a claudicar. Sou um neurótico conforme a primeira tópica freudiana, sofrendo de uma histeria conversiva. O desejo reprimido continuará existindo, assim como a resistência à sua realização, o que sustentará a existência do sintoma. Posso, ainda, negar a realidade, sucumbir aos desejos inconscientes e viver em um mundo de fantasia, onde não percebo a existência de outros seres, reais, mas interajo com seres fantásticos que povoam meu Inconsciente. Como não percebo a realidade, minha consciência moral é constituída, também, por material vindo do inconsciente, e sou regido por suas leis. Sou um psicótico. Caso eu perceba a realidade, porém me negue a obedecer às leis da sociedade e ignore a existência de uma consciência moral à qual devo me submeter, irei ainda assim satisfazer meus desejos reprimidos, consciente do conflito mas não afetado por ele, serei um perverso. A partir da segunda década do século XX, Freud reformula seu modelo psíquico, e passa a identificar três novas instâncias que interagem entre si e constituem o ser humano, o Id, inconsciente, regido pelo princípio do Prazer, sede das pulsões, povoado por desejos reprimidos sempre buscando realização, o Superego, parcialmente consciente, formado pela introjeção das figuras parentais des-sexualizadas durante a dissolução do Complexo de Édipo e, portanto, representante da pulsão de morte, da Lei e moral, vigilante, punitivo, castrador, e o Ego, instância também parcialmente consciente, regido pelo princípio da Realidade, meio de contato entre os mundos interno e externo, mediador entre os desejos do Id e as exigências do Superego, instância que deseja satisfazer a todos da melhor forma possível. A ansiedade desencadeada pelo conflito entre as instâncias psíquicas e a realidade é experimentada de forma diversa por cada um de nós, e as defesas que desenvolvemos frente a essas angústias nos define. A maioria de nós sente como intolerável a realização das pulsões libidinais; sentimos vergonha ou culpa ao “burlarmos” as leis impostas pela sociedade e por um severo Superego. Temos medo da rejeição, sofrida tanto por parte de nossos objetos de amor e desejo, como sofremos o medo da perda do amor do Superego. Enquanto neuróticos, sofremos a angústia da castração, e nos defendemos dessa perda através do recalque desses desejos proibidos. Nosso Ego tenta reprimir esses desejos, devolvendo-os ao Inconsciente assim que percebidos, rejeitamos os impulsos do Id e nos rendemos às exigências da realidade e do Superego. No entanto, o Id não se contenta com esse processo, e pressiona constantemente por ser satisfeito, o que resulta num fracasso da repressão, que irá transparecer através dos sintomas histéricos, dos pensamentos obsessivos ou das fobias. São manifestações da neurose resultante do conflito entre o Id e o Ego, que se coloca de acordo com as exigências da realidade e do Superego. Alguns de nós, no entanto, não suporta as limitações da realidade, geralmente percebida como gravemente contrária à sobrevida do Ego. Para estes, o conflito se dá entre o Ego, pressionado pelo Id, e a realidade, e é resolvido através da negação desta última. O psicótico rompe com a realidade, externa e psíquica, e em seu lugar projeta um novo contexto. Uma nova “realidade”, construída a partir do Id, não compartilhada, portanto de caráter alucinatório e delirante, e um Superego também constituído por esses elementos. A angústia é persecutória, e a defesa, projetiva. Um exemplo clássico seria o de uma mãe que perdeu seu filho recém-nascido, e embala uma boneca, a amamenta, educa, troca, “vive” em um mundo de fantasia constituído por uma nova “realidade”, com leis às quais obedece e princípios morais particulares. Para um terceiro e mais raro tipo, o conflito se dá entre os desejos do Id e as limitações impostas pelo Superego e pela realidade, e o Ego resolve esse conflito negando essas limitações, rejeitando a autoridade externa e do Superego. É o indivíduo perverso segundo o modelo estrutural freudiano. Em resumo, nascemos Id e nos constituímos em nosso contato com o mundo externo. A angústia do nascimento é o protótipo de nossas angústias futuras, e remete ao desamparo e ao medo da desintegração e da perda de amor. O Ego irá se estruturar nestas relações, sofrerá cisões e reintegrações, e cada um de nós obedecerá a um mestre preferencialmente, o que, segundo Freud, determinará diferentes tipos libidinais e conformações psíquicas.

Entre mundos psi - reflexões sobre os objetivos da psicanálise

Por Camila Ferreira de Avila -  Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. (Não sei quantas almas tenho - Fernando Pessoa) Pensar os objetivos do tratamento psicanalítico não foi nada tranquilo neste momento. A princípio despertou-me uma insegurança tremenda, de que lugar (aqui compreendendo como perspectiva) eu devo falar sobre a Psicanálise? Falo de lugar porque ainda é muito novo o que germina em mim sobre o que é Psicanálise. Destacando uma frase do trecho do poema de Fernando Pessoa citado na epígrafe, ...“Continuamente me estranho.”, descreve meu maior sentir nesta nova etapa da vida. Compreender o fazer Psicanalítico envolve estranhamentos e mudanças. Como falar em tratamento de algo que não tem cura? Tratamos a doença ou a doença nos constitui como seres humanos? O inconsciente é patológico ou a patologia povoa o inconsciente? Tudo é patológico ou nada é patológico? Para onde caminha a Psicanálise? Quantas interrogações e que talvez não tenham ponto final. Pensando em lugares, de qual lugar devo pensar a Psicanálise? É possível a partir de um olhar científico? Como psicóloga de formação profissional inicial, estudei a Psicanálise em uma perspectiva acadêmica, considerando-a como uma das teorias fundantes da Psicologia científica. Nesta perspectiva a Psicanálise é uma ciência, ciência esta que estuda o inconsciente e suas relações com o comportamento humano. Sob esta ótica o tratamento psicanalítico teria como objetivo auxiliar o ser humano na compreensão de si mesmo objetivando sanar o sofrimento psíquico (a Psicanálise aqui sendo vista enquanto técnica). “Cada momento mudei.....” e comecei a formação em Psicanálise! Permito-me não seguir um protocolo e escrever livremente conforme as palavras me chegam. Espero que o leitor me perdoe, talvez fique confuso em alguns momentos. Prazer, estes são fragmentos e pedaços de um inconsciente (o meu). Pensando livremente sobre os novos conceitos e formas de interagir com a Psicanálise que venho vivendo só penso em: movimentos. A cada texto lido, a cada vídeo assistido, a cada encontro vivido, desconstruo meus conceitos, perco-me em mim mesma e tento reconstruir-me. Tarefa árdua tem me custado algumas sessões de análise. Afinal a ideia inicial de Psicanálise como método e técnica de tratamento buscando a cura do sofrimento psíquico, tão internalizada por mim, ao longo de muitos anos profissionais tem se desmanchado diariamente. Freud fez da Psicanálise sua vida e lutou bravamente para que a mesma fosse reconhecida, neste ponto entendo que ele buscou elevar a Psicanálise ao status de ciência para que suas ideias fossem difundidas mundialmente. Talvez agora compreenda que Freud não buscava uma ciência exata no seu sentido literal, mas um rigor científico (metodológico) para que a Psicanálise não se perdesse no tempo. Particularmente gosto muito de conhecer biografias de autores, escritores, cientistas e claro que Freud esteve entre minhas escolhas. Nestes primeiros encontros da EPP me reencontrei com as histórias de vida de Freud (resgatei lembranças da minha graduação em Psicologia e meus primeiros flertes com a Psicanálise) e tive a oportunidade de olhar Klein um pouco mais “olho no olho”, quebrando um pouco minha primeira impressão. Sempre achei muito difícil ler suas obras (ainda acho, mas talvez comecei a humanizá-la, contextualizá-la, e fez um pouco mais de sentido – mas é só o começo). Além de uma grata surpresa, ver e ouvir vídeos de palestras proferidas por Bion, confesso que foi amor a primeira vista. Todos eles estão aqui dentro de mim, aos poucos sendo apresentados e tornando-se um pouco mais íntimos do meu mundo psi. Olho a Psicanálise não mais como uma ciência que busca a cura para determinados sintomas, e sim, como uma possibilidade de se conhecer e expandir as possibilidades de viver (com ou sem sintomas). Uma maneira de dar sentido e significado à vida. Um constante (re)significar-se. A formação tem me proporcionado também uma possibilidade de expansão e ressignificação. Há alguns dias atrás ouvi um termo que preencheu parte da minha inquietude nestes primeiros passos da formação e talvez me angustiou sobremaneira de outro, “Capacidade negativa do analista”. Na oportunidade a palestrante referia-se a André Green e discorria sobre a dificuldade do analista lidar com o não saber. Este momento me remeteu a alguns encontros da EPP em que discutimos sobre o conceito de inconsciente e o papel da análise na cura de sintomas. Muito lentamente tento absorver e impregnar-me da ideia de trabalhar com o que não se sabe, sem uma reta de chegada, um trabalho apenas de início. Um movimento de começar e recomeçar a cada novo encontro com o paciente. Por fim, mas não encerrando o assunto, “Sem desejo sem memória” para a psicóloga até então é muito difícil de ser suportado. Ainda transito entre dois mundos Psi (Psicologia e Psicanálise), “Não sei quantas almas tenho”. Tento olhar como um processo de transição que não sei qual será o fim, “Nunca me vi nem acabei”. “De tanto ser só tenho alma”.

Cadê o inconsciente que estava aqui?

teoPor  Fabiana Tessaro -  Uma nova estrutura do aparelho psíquico nos é apresentada por Freud em 1923. Uma de suas maiores obras metapsicologicas, é em o “Eu e o ID” que a noção de inconsciente se dissolve, não se tratando mais de um lugar e sim de uma qualidade,um status de uma ideia. O modelo topográfico do aparelho psíquico que fora dividido entre inconsciente, pré-consciente e consciente, já não era suficiente para explicar determinados fenômenos da clínica.  Havia algo além disso...  O inconsciente não poderia ser um único local na psique, havia outros tipos “continua certo que todo reprimido é inconsciente, mas nem todo inconsciente é também reprimido” (Freud, 1923). O Eu do sujeito até então inteiramente conectado ao consciente, tinha um que de inconsciente também. O inconsciente do Eu exercia efeitos tal como o reprimido e demandava trabalho específico para torná-lo consciente. Foi a prática e a observação clínica que o conduziu a segunda tópica, a psique agora é dividida entre Eu, ID e Super EU. Essas três instancias se interagem, se conversam, se conflituam entre si. Para qualificar o ID, nossa instancia psíquica mais primitiva, Freud se inspira no conceito de isso de Georg Groddeck, um algo psíquico estranho, inquietante e inconsciente. O Eu é um grande mediador entre as exigências e pulsões do ID, o mundo externo e o Super Eu, esse senhor conservador, severo e cheio de exigências. Freud iniciou seu percurso na psicanálise no final do sec. XIX e a partir dessa obra datada de 1923 toda sua teoria precisou ser revista. Apesar de seus erros e acertos, a trajetória e o legado de Freud são incontestavelmente dignos de admiração e respeito. 

O caso Dora - Ponto cego

Por Fernanda Borges Hisaba -  O ano é 1900.Freud havia migrado definitivamente para o campo da psicologia e estava sedimentando e expandindo seus conhecimentos; tinha grandes expectativas a respeito da publicação de sua “Obra do Século”, a Interpretação dos Sonhos. Trazia angústias também, remanescentes da rejeição pública e contundente que experimentara quando da apresentação de sua Teoria da Sedução para seu ilustrado público. Suas ideias inicialmente causaram repudia, enquanto a base de sua teoria não se sustentava. Ele precisou rever a aplicabilidade de suas teorias e, posteriormente, de sua técnica. Quando Freud atende Dora, sua técnica necessitava de reparos, de aprimoramento; carecia de experiência de vida.  Suas convicções, no entanto, estavam bem estabelecidas. Dora não somente se encaixava nelas, como trazia um material rico cuja interpretação poderia ser facilmente demonstrável, com grande chance de sucesso terapêutico e acadêmico. Freud se pautava em seus conhecimentos teóricos, observações de seus pacientes, trabalhava com hipóteses e tornava-se em objeto de suas próprias indagações. Em busca do inconsciente descobriu e nos trouxe os sonhos, e os relacionou em sua origem com os sintomas de seus doentes, e vislumbrou então uma forma de utilizar o material capturado durante a interpretações dos sonhos do paciente para pensar seu sofrimento, desvendar suas resistências e comunica-las ao paciente. Vislumbrou outro caminho para a tão arduamente aspirada cura; queria aplica-lo. Dora, uma adolescente confiada pelo pai aos cuidados de Freud, dispunha de todo o material que povoava a mente do analista naquele momento. Trazia sonhos ao setting e trazia sintomas histéricos, consistia em oportunidade para que Freud pudesse mais uma vez comprovar suas teorias. Freud se ocupou em desvendar os mistérios de Dora, guiado por suas demandas pessoais. Falhou ao não disponibilizar a escuta analítica como posteriormente postula. A atenção equiflutuante e livre de expectativas, a escuta sem restrições, não seriam seu norte nesse caso. Falhou em não se atentar ao fato de que o momento psíquico do indivíduo em tratamento pode não ser favorável à exposição àquele material provindo do Inconsciente e apontado pelo médico, que irá então falhar em seu intuito pois seus apontamentos não serão adequadamente percebidos e utilizados pelo paciente, e que esta exposição abrupta e deficiente em delicadeza do conteúdo que deveria estar reprimido não é livre de consequências. Freud, entusiasmado e mantendo como principal foco a análise dos sonhos trazidos por Dora, cria hábeis interpretações, possibilidades dotadas de atributos de material reprimido que poderiam realmente estar corretos já que coerentes, mas interpretações às quais o doente se manifesta de forma contrária, podendo corresponder a uma resistência em aceitar a existência de tal conteúdo ideativo; para Freud, esta seria a única possibilidade, pois postula como dogmática a interpretação do analista, sempre correta, independente da reação do paciente diante dela.   Ele percebe a existência de um desejo projetado pela paciente em sua figura, e apressa-se em dizer que não se deve ceder a esse desejo. Discorre sobre a necessidade da análise em transcorrer em abstinência, porém não se abstém dos sentimentos por Dora despertados em sua pessoa. Não se abstém de sua hostilidade e se ressente do fato de sua paciente não acolher como verdades suas interpretações. De fato, percebe a existência da transferência. Não percebe talvez o uso que poderia fazer desta descoberta. *Após 11 semanas do início do tratamento, Dora o interrompe sem maiores explicações. De sua fala – “quem como eu desperta os demônios mais malignos com que se pode lutar, demônios que habitam não totalmente domesticados no íntimo humano, deve estar preparado para sair ferido nessa contenda” – é possível inferir em Freud uma percepção de que sentimentos serão despertados em seus pacientes, e estes serão vividos na figura do analista, que necessariamente será “afetado” nesse processo, e desenvolverá o que ele chamou depois de contratransferência. Confessa a Ernest Jones “há uma grande dificuldade, se não uma impossibilidade, em reconhecer os verdadeiros processos psíquicos da própria pessoa”. Posteriormente, Freud passa a se dedicar a sistematizar e normatizar, de certa forma, a prática analítica. Passa a publicar, nos anos seguintes, suas recomendações aos seus discípulos. O confronto das ideias desenvolvidas nestes pequenos manuais de conduta com o desenvolvimento da análise de Dora nos faz perceber o quão pouco uso Freud fizera até aquele momento de suas próprias regras. É possível que a inexperiência no manejo desta recém-desenvolvida técnica tenha ocasionado algumas dificuldades. É factível que Freud tenha apreendido algo no manejo da clínica através dessa vivência, e que tenha gerado material que posteriormente fora inserido em suas sistematizações. O provável, no entanto, é que as expectativas de cura, as ambições profissionais, a obsessão em parecer impecável diante de seus colegas, tenham se tornado o foco principal deste tratamento, mobilizando Freud em direção contrária a seus próprios apontamentos, funcionando como um grande ponto cego na condução deste processo.  

Freud - o Sherlock Holmes das neuroses

Por Patrícia de Pádua Castro -  Um “crime” ocultado pelo autor, um detetive obcecado em buscar os vestígios a partir dos efeitos para as causas, empregando a sua incrível habilidade de observação e dedução tem a capacidade de desvendar casos aparentemente insolúveis e revelar todo o mistério envolvido. Poderia ser essa a sinopse de um filme ou um livro de Sherlock Holmes, ou ainda, a descrição da prática analítica de Freud relatada em um de seus casos clínicos: O caso Dora.  Essa comparação pode até soar como uma crítica injusta (ou um elogio exacerbado) dirigida ao Dr. Sigmund Freud, mas a justificativa é baseada no fato de sua prática analítica se contrapor com algumas de suas recomendações dirigidas aos jovens psicanalistas, publicadas a partir de 1904 [1905] com o artigo O método psicanalítico Freudiano. A publicação deste artigo ocasionou a primeira apresentação sobre a técnica psicanalítica e suas especificidades e deu início a uma série de outros artigos que trouxeram à luz mais esclarecimentos, indicações, contraindicações e recomendações técnicas para exercício do método psicanalítico. Analisar a técnica freudiana a partir do “Caso Dora” apresenta uma dificuldade já de início, visto que Freud relata não ter exposto detalhes da técnica, sendo essa revelada apenas em uns poucos lugares. Seu interesse era uma análise teórica do caso, objetivando mostrar a determinação dos sintomas a partir da semelhança entre a técnica de interpretação dos sonhos e a técnica psicanalítica e reafirmar a sexualidade infantil com a estrutura íntima da neurose. Vale ressaltar que a publicação do “Caso Dora” se deu no ano de 1905, mas a análise da paciente ocorreu em 1899, neste período Freud publicou A interpretação dos sonhos (1900), e também em 1905 publicou Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, trazendo explicitamente a sexualidade infantil como a etiologia das neuroses. Com isso faz-se a primeira indagação: Será que Freud conseguiu separar a condução do trabalho analítico da sua pesquisa teórica? Num primeiro momento pode-se dizer que sim, uma vez que ele aborda no texto os cuidados que tomou para conservar o sigilo do tratamento e de ter redigido a história clínica a partir das suas lembranças sobre o caso e somente após o fim do tratamento, indo de encontro com duas de suas recomendações técnicas: não fazer anotações de grandes extensões nas sessões, e não abordar um caso cientificamente enquanto o tratamento não estiver concluído [i], ambos os cuidados são necessários para manter uma atenção equiflutuante durante a escuta analítica. Porém objetivos tão claros e ambiciosos acerca da publicação do caso, podem suscitar dúvidas, uma vez que no trabalho analítico pesquisa e tratamento coincidem, mas as técnicas de ambos divergem. Na pesquisa científica há elaboração de hipóteses e sua verificação para a construção do conhecimento o que prejudica o tratamento, pois nesse deve-se ter uma escuta aprimorada, sem expectativas, sem inclinações, não selecionar e não fixar a atenção intencionalmente, “(...) os casos que mais têm sucesso são aqueles em que procedemos quase sem intenção, nos surpreendendo com cada mudança de rumo e com o que nos defrontamos sempre desarmados e sem preconcepções”i. Em vários momentos, Freud dá indícios de saber os pontos de partida (sintomas) e chegada (sexualidade infantil), e apenas era necessário escolher a trilha (material da análise) que iria percorrer para concluir o trajeto. Na descrição do caso clínico, Freud relata que o pai de Dora foi quem o procurou, depois dela ter deixado uma suposta carta de despedida, que a paciente estava impelida pelo pai a fazer o tratamento, e que ela também adquirira o costume de desdenhar dos médicos que lhe prestavam auxílio. Neste ponto faz-se duas considerações importantes, a primeiro que a busca de auxílio não deve ser imposta, tem que partir do próprio paciente, talvez seja essa a condição primordial para que seja possível estabelecer e manter o tratamento psicanalítico, no qual “[...] não pode ser aplicado em pessoas que não se sintam impelidas à terapia por si próprias através de seu sofrimento, mas que se submetem a ela apenas por uma imposição de seus parentes” [ii]. Estabelecida essa primeira condição, a aparente expectativa do paciente (crédula ou desconfiada) perante o tratamento, diferentemente da técnica de sugestão, não são tidas como facilitadoras ou empecilhos para a condução do tratamento, uma vez que as resistências internas na qual fundam as neuroses são o verdadeiro desafio a ser superado. O início do tratamento se deu com o pedido para que a paciente lhe contasse a sua história e falasse de sua doença. No artigo “Sobre o início do tratamento (1913)”, Freud amplia dizendo que o material inicial para o tratamento pode ser a história de vida, da doença, das lembranças da infância, desde que seja relatado tudo o que vem à mente, sem críticas, sem rechaçar nenhuma ocorrência, mesmo que lhe seja desagradável. Nesse ponto não se deve preocupar em obter uma narrativa sistemática, pois as lacunas e o esquecimento são ocasionados pela resistência e “cada pedacinho da história depois terá de ser contado de novo, e só nessas repetições surgirão os acréscimos que revelarão os contextos relevantes, desconhecidos do paciente” [iii]. Essa repetição não se dá só em palavras, mas principalmente por meio de atos, o paciente substitui o lembrar pelo repetir, sob influência da resistência passa a atuar, trazendo à tona a fonte do material recalcado e reproduzindo os sintomas durante o tratamento. Essa atuação muda a percepção da doença como um assunto histórico e traz ela para o presente, como algo real e atual. E Dora repetiu. Repetiu comportamento de pessoas de sua relação, manifestações e simulações de doenças, atos vingativos e sonhos... E essas repetições se deram também na relação transferencial com Freud!   Freud a princípio diz não ter percebido a transferência e que “a parte mais difícil do trabalho técnico não esteve em consideração” [iv], mas ele a percebeu e chegou até mesmo a comunicá-la. Na análise do primeiro sonho, Freud relacionou o cheiro de fumo com o pai de Dora, Sr. K e consigo, todos fumantes. Foi ainda mais longe ao ligar essa impressão de Dora de sentir o cheiro de fumo ao acordar, com uma frase que usava com a paciente na análise “onde há fumaça, há fogo”, e até chegou a mencionar a possibilidade de ela ter ansiado por um beijo do Sr. K, e também pelo seu. Dora rejeitou essa interpretação.  Freud pareceu comunicar suas interpretações sem ter aguardado que a paciente se aproximasse do material recalcado, dando a impressão de estar despejando sobre Dora suas suposições e teorias, o que acabou por não diminuir, ou até mesmo intensificar, a resistência da paciente. A partir dessa rejeição, Freud não se ocupou mais em lhe dar esclarecimentos acerca da relação transferencial, deixou esse manejo em segundo plano.  Ele prosseguiu com a análise dos dois sonhos trazidos por Dora e assumiu no posfácio que não foi capaz de dominar a transferência devido à intenção e interesse que ele tinha em trabalhar com o material patogênico. Sim, Freud já havia deixado explícito esse interesse quando justificou a publicação do caso clínico. Ele esmiuçou cada ponto dos sonhos trazidos por Dora, criando uma trama bem elaborada da história clínica, onde cada pedaço do sonho teve sua ligação e importância na construção da história, e sua tarefa foi interligar estes pontos para que tudo fizesse sentido. Diante deste cenário não foi difícil para Freud manter a sua postura de abstinência, recusando dar a Dora o que ela desejava: amor. Em contrapartida, Dora ao perceber a falta de interesse do médico à sua pessoa também recusava dar-lhe as informações que ele tanto almejava. Cabe aqui mais algumas indagações: Como Freud sentia-se em relação a isso? E em relação à Dora? Ou seja, pensando no âmbito da contra-transferência, Dora foi capaz de despertar quais sentimentos em Freud? Embora Freud não debruce nessa questão ao relatar o caso, há alguns indícios sobre esses sentimentos, ele chegou a mencionar que a paciente adquiriu um “comportamento insuportável“ ao se identificar com a mãe, em outro momento quando Dora põe fim ao tratamento ele faz menção aos seus impulsos de vingança e crueldade “demonstrando em sua própria pessoa a impotência e incapacidade do médico” [iv], e também quando após o término do tratamento ela o procura novamente para uma conversa, ele, intimamente, promete perdoá-la por tê-lo privado “da satisfação de livrá-la mais profundamente dos seus males” [iv.] No domínio da contra-transferência Freud esteve sob desvantagem por nunca ter se submetido à análise pessoal e nem os seus casos à supervisão clínica. Talvez essa série de condições, a motivação (ou não motivação) da paciente ao tratamento, as expectativas do analista em relação à possibilidade de o caso poder contribuir para comprovar suas teorias, a maneira que se deram o manejo das relações transferencial e contra-transferencial podem ter convergido e contribuído para uma análise fragmentada. Visto que, nesta época, Freud já havia publicado alguns artigos objetivando explicar sobre a técnica analítica, e que diferentemente da teoria, a técnica não sofreria modificações ao longo do tempo, não se pode então dizer que ele não sabia o que estava fazendo. Provavelmente valia correr o risco e ignorar algumas de usas recomendações em prol de “algo maior” e, tomando as suas próprias palavras “quem, como eu, desperta os piores demônios que, imperfeitamente domados, habitam o peito humano, a fim de combatê-los, tem de estar preparado para não sair ileso dessa luta”iv, e isso é “elementar meu caro Watson”.  [i] Recomendações ao médico para o tratamento psicanalítico (1912)[ii] Sobre psicoterapia (1905[1904])[iii] Sobre o início do tratamento (1913)[iv] Análise fragmentária de uma histeria – “O caso Dora” (1905[1901])

A escuta psicanalítica e um lugar para a dor

Por Alba Tengnom -  “Suave é a dor que fala. A grande dor é silenciosa.”(Sêneca)  O sofrimento psíquico sempre esteve, para mim, relacionado à compreensão intelectual. Conhecer minhas próprias dores e as de outros dependia inteiramente de racionalização e interpretação a partir de teorias e técnicas consolidadas. As emoções pareciam até mesmo estar ausentes desse processo de conhecimento. Em minhas idealizações, o tratamento psicanalítico tinha como objetivo central a compreensão de perturbações psíquicas apoiada nos campos teórico e técnico da Psicanálise, que parecia oferecer um caminho seguro para atingir essa compreensão. Ao iniciar o Curso de Formação em Psicanálise da EPP, várias de minhas preconcepções foram questionadas. A ideia de “cura” foi aos poucos desconstruída para abrir espaço para o conceito de tratamento psicanalítico em intensos debates nos encontros de teoria e técnica, em que meus colegas apresentaram uma leitura que tendia à pluralidade de destinos do tratamento clínico. Em nossos encontros sempre muito interativos, em que não faltaram boas ideias e uma intensa troca de experiências e impressões, compreendi que um dos objetivos fundamentais do tratamento psicanalítico é fazer falar o sofrimento inconsciente que carregamos na forma do que ficou emudecido, sem expressão, sem representação e, desse modo, aproximar-se do sofrimento através do diálogo interno e promover uma alteração na consciência por intermédio do remanejamento de investimentos libidinais. O tratamento psicanalítico propõe também restaurar a capacidade de amar e trabalhar, manter relações afetivas e sexuais de qualidade, reconhecer as próprias limitações, sem exigir do outro o que ele ou ela não pode oferecer, e não oferecer ao outro o que não se é capaz de dar. O desenvolvimento da capacidade de sublimar, redirecionando as pulsões, além de capacitar para a vida, diante da aceitação e distinção da realidade e do possível são horizontes do tratamento psicanalítico. Um caminho que se abre para o desenvolvimento de capacidades cognitivas necessárias para exercer uma profissão, viver de modo harmonioso, lutar por interesses e ideais, viver com mais intensidade. A Psicanálise busca ainda ampliar a inteligibilidade e a consciência sobre nossos problemas e os dos outros, bem como renomear experiências, permitindo assumir como sujeitos a vivência de sentimentos e ressignificar experiências emocionais. Seria como retomar parte da nossa narrativa de vida tendo agora um novo fio condutor que permite observar e dar sentido a essas experiências. O reconhecimento de forças dinâmicas inconscientes que nos impedem de integrar nossos afetos e conhecer sua profundidade, também chamadas de defesas, que militam contra a evolução emocional do sujeito, e a própria dissolução dessas forças, são as tarefas mais importantes do desenvolvimento psíquico almejado pelo tratamento psicanalítico. Para que isso tenha a chance de acontecer, o cuidado volta-se para a recuperação de conexões perdidas ou bloqueadas entre as diversas redes afetivas que se organizaram durante a vida, criando um ambiente interno para o aprofundamento emocional contínuo. Somos estimulados a nos responsabilizar pelo que somos, comprometendo-nos com nossas relações emocionais. A Psicanálise contemporânea preocupa-se sobretudo com o modo como pensamos, em vez de somente interpretar o conteúdo dos pensamentos em si mesmos. O propósito fundamental aqui é nos fazer evoluir de um estado psíquico em que não conhecemos muito bem nossos sentimentos e comportamentos e somos tomados por eles, para outro estado em que nos tornamos capazes de contextualizá-los, entendendo quais são e como estão relacionados. Ser capaz de contextualizar a raiva, por exemplo, e entender em que situação ela ocorre e que outros sentimentos estão envolvidos exige mais do que coletar fatos passados, torna necessário observar padrões afetivos e atitudes e refletir sobre eles. Por meio da escuta atenta e consciente do psicanalista busca-se criar um ambiente que acolha e permita a investigação, a elaboração e a superação de resistências com foco na reconstrução de ligações afetivas importantes necessárias para o aprofundamento da vida emocional do sujeito. No entanto, como sugere a epígrafe de Sêneca, nem tudo o que é doloroso ou patogênico pode ser lembrado ou expresso em palavras. A dimensão inconsciente do sofrimento torna-se inaudível por esconder-se na repetição de comportamentos defensivos, na superficialização de emoções, na negação de afetos, no silêncio. A escuta como instrumento clínico tornou-se cada vez mais complexa, à medida que teoria e técnica agregaram novos conceitos e desdobramentos. O paciente precisa ser ouvido de diversas maneiras em sua expressão e naquilo que omite. A partir de ideias inovadoras de Melanie Klein, como identificação projetiva e posição que, ao mesmo tempo, consideram e revolucionam as propostas freudianas de escuta, passou-se também a ouvir simultaneamente angústias, defesas e relações de objeto. Outra evolução importante na escuta psicanalítica ocorre com as ideias de Bion sobre ouvir efetivamente o paciente a partir da contratransferência como instrumento clínico, ainda que isso ocorra em uma dimensão inconsciente. “Os fatos são sonoros, mas entre os fatos há um sussurro. É o sussurro o que me impressiona” nos diz Clarice Lispector em A Hora da Estrela. A escuta poética, que desde sempre parece ter estendido uma ponte entre a Psicanálise e o acolhimento da fala do sujeito, está presente na forma como psicanalista e paciente escutam a si mesmos. A linguagem poética, carregada de insólitas e inesperadas correlações entre imagens, sons e ideias restitui ao leitor, psicanalista e paciente, um mundo de afetos e experiências, estranhamento e beleza. O encontro do intelecto e das emoções do poeta com o mundo reverbera o que há de estrangeiro e familiar em todos nós. Por meio da escuta do mundo na linguagem altamente simbólica da poesia e da arte em geral é possível ouvir as ressonâncias de nosso próprio sofrimento e ressignificar a maneira como expressamos vontades e sentimentos. A poesia em seu sentido mais amplo pode transformar a visão de mundo ao ser escutada cuidadosamente em suas estratégias de linguagem, rastros deixados pelo autor que traduzem relações de afeto em palavras. Atualmente, reconhece-se o valor e as limitações de diversas estratégias de escuta psicanalítica. Há na interpretação um pouco da escuta de sonhos, trilhas associativas na associação livre, estados afetivos, atitudes e comportamentos. A Psicanálise destina-se a nomear o que somos, e somos muitas coisas em permanente transformação. Conhecer e acolher nossos sentimentos mais profundos parece ser para mim, neste momento, após um diálogo que promete ser permanente com meus colegas, a proposta fundamental do tratamento psicanalítico e um caminho para pensar e desenvolver nossas relações de intimidade, criando em nós uma espécie de espaço interno maior, um lugar em que nossas dores tenham voz e sejam reconhecidas, de algum modo, como parte do que nos faz humanos.

"Mistérios da carne" e das psicopatologias – neurose e perversão

Por Patrícia de Pádua Castro -  O filme “Mistérios da carne” relata a história de dois jovens, Brian Lackey e Neil McComick, que jogavam em um mesmo time de baseball e aos 8 anos de idade foram abusados sexualmente pelo o seu treinador. A história aborda como essa experiência vivenciada na infância influenciou na personalidade de ambos os jovens de maneiras distintas e a busca de ambos para tentar compreendê-la. Para auxiliar nessa compreensão é necessário fazer um pequeno recorte das condições estruturais da família de ambas as crianças. Brian mora com o pai, mãe e irmã mais velha. O pai aparenta ser rígido com o filho, distante, chegando a referir que o filho é “um banana” e não aparenta ter paciência e compreensão quando Brian, após um episódio traumático, começa a urinar na cama, apresentar desmaios, convulsões e sangramento nasal. Na adolescência, Brian passa a evitar contato com o pai, que já está separado da mãe, e mesmo a responsabilizá-lo pelo o que lhe acontecera na infância, embora esse acontecimento seja um mistério para ambos. Já a mãe é retratada como superprotetora, retirando-o do babasell após o incidente em que Brian é encontrado escondido no porão e com o nariz sangrando. E na adolescência continua a exercer controle em relação aos horários, alimentação e com quem Brian se relaciona, inclusive demonstrando certo desconforto quando Brian começa a se aproximar de uma mulher mais velha que ele, Avalyn. No caso de Niel, ele mora apenas com a mãe e não há referência sobre o pai. A mãe tem uma vida sexual intensa, com diferentes parceiros e aparentemente não se preocupa em esconder isso do filho, trabalha muito, negligenciando cuidados ao filho, embora demonstre afeto por ele, e em muitas situações confia Niel aos cuidados do técnico de baseball. O filme inicia com a narrativa de Brian abordando um desaparecimento de cinco horas da sua memória, onde é encontrado no porão de sua casa, com o nariz sangrando e se recorda apenas do momento em que começou a chover durante o jogo de baseball. A partir deste momento Brian começa a urinar na cama, a sofrer de apagões, convulsões e ter sangramento nasal. Como tentativa de buscar uma resposta para preencher essa lacuna da memória, Brian fantasia ter sido abduzido por OVNIS e acredita ser esse o motivo de parte de sua memória ter sido apagada, passa então, a ter obsessão por esse assunto. A história da abdução é reforçada por meio de sonhos onde ele tem flashes de uma figura grande e destorcida se aproximando dele, tocando-o enquanto ele está deitado em uma superfície dura. Brian desenvolve uma personalidade introvertida, tímida e não aparenta ter interesse por assuntos relacionados a sexo, sendo descrito por Preston como “estranhamente assexuado”. No filme essa repulsa sexual de Brian é mostrada em dois outros momentos, o primeiro em que Avalyn faz uma investida sobre ele tentando retirar-lhe a roupa, o que faz Brian expulsá-la de seu quarto e evitar posterior contato com ela. E quando ele mostra seus desenhos para Preston, no qual ele ilustra um ET parcialmente despido, com a cueca cobrindo as suas genitálias, e usando tênis de baseball, provavelmente fazendo uma referência, mesmo que inconsciente, ao abuso sexual que lhe ocorrerá na infância. Essa “assexualidade” de Brian pode ser explicada pela sua intensa repressão sexual e forte resistências ao instinto sexual como, por exemplo, na forma de pudor, vergonha, nojo. Em seus estudos sobre histeria, Freud já considerava a energia do instinto sexual como única e constante fonte de energia da neurose, uma fonte numerosa de oportunidades para o surgimento de representações incompatíveis, ou seja, uma fonte para formação de sintomas histéricos. Onde há enorme necessidade sexual há também exacerbada rejeição da sexualidade, funcionando como forças opostas e esse conflito não resolvido buscam uma expressão adequada, convertendo os impulsos libidinais em sintomas histéricos. Niel descreve, nas primeiras cenas do filme, a admiração que sentiu pelo treinador de baseball, comparando a sua beleza com a de um deus e relata que só havia visto tal beleza nas fotos dos bombeiros em revistas que a sua mãe possuía. Isso remete a uma questão levantada nos Três ensaios da sexualidade sobre a bissexualidade inata, em que todos estão predispostos a sentir atração por homem e mulher. Na infância essa bissexualidade pode se manifestar por meio da admiração dos atributos do corpo de pessoas do mesmo sexo e na identificação com essas pessoas, porém a escolha do objeto sexual virá a se definir somente mais tarde. A partir deste impacto inicial Niel faz de tudo para atrair a atenção do seu técnico e se empenha para agradá-lo e deixá-lo feliz, tornando-se então o melhor jogador do time. O técnico aproveita dessa idolatria do garoto e também de sua carência afetiva, uma vez que ele fica a maior parte do tempo sozinho, para seduzi-lo e manter relações sexuais com ele. Os atos sexuais consistiam em beijos, masturbação, sexo oral e às vezes o técnico pedia para que a criança inserisse o braço em seu orifício anal. Esse contato sexual precoce com um adulto influenciou mais tarde no seu comportamento sexual quanto à meta e possivelmente também em relação ao objeto, embora em relação a esse último não exista uma conclusão única e satisfatória para a causa da inversão. Nos Três ensaios da sexualidade, Freud quebra paradigmas mostrando que há uma sexualidade infantil e que a criança é sexualmente polimórfica, perversa e egoísta, ou seja, é capaz de buscar prazer de múltiplas formas, de maneira autoerótica e uma vez que as zonas genitais não estão suficientemente desenvolvidas para assumirem o seu papel predominante, utilizam de outras partes do corpo denominadas zonas erógenas (mucosa da boca, ânus, principalmente) para buscar satisfação por meio de estimulação. Nesta fase a criança não encontra barreiras psíquicas bem estabelecidas, como nojo, vergonha e moral, para inibir o comportamento polimorficamente perverso, uma vez que é considerado como meta sexual normal o encontro entre o pênis e a vagina, sendo qualquer desvio em relação a essa meta uma perversão. Mas depois de determinado período de atividade sexual infantil, a criança entra em um período de latência, onde essa pulsão sexual é direcionada para outros fins e inicia-se o desenvolvimento de outras áreas da vida da criança. A interrupção do período de latência, e o reaparecimento da atividade sexual podem ocorrer tanto por motivos internos quanto externos, como no caso do filme, devido à sedução. No caso do Niel, as frequentes excitações das zonas genitais causaram a sensação de satisfação e obrigatoriedade de renová-la por meio da masturbação e possivelmente a fixação na perversão. Essa necessidade de descarga da tensão sexual fica evidente na cena do filme no qual ele vê a mãe praticando sexo oral no namorado e se masturba assistindo ao ato, a ponto de ejacular pela primeira vez e querer compartilhar o feito com o técnico. No período de latência há uma interrupção da atividade sexual e a criança deixa de direcionar a atenção apenas para si e passa a aprender a se relacionar com o outro, a desenvolver empatia e amor e a sua interrupção pode trazer consequências como o não desenvolvimento dessas faculdades. No filme isso pode ser observado na descrição de Niel pelos amigos como sedutor, frio, egocêntrico e sem coração. Segundo o modelo teórico proposto por Freud, experiências emocionais vivenciadas inicialmente como prazer e depois sentidas como desprazer e, portanto insuportáveis para consciência sofrem repressão e tornam-se inconscientes, sendo para esse autor, a sexualidade infantil é a fonte do conteúdo recalcado. Mesmo que essas lembranças da atividade sexual infantil permaneçam esquecidas, isso não significa que foram apagadas, pois segundo Freud “as emoções não expressas nunca morrem" Elas são enterradas vivas e saem de piores formas mais tarde”, ou seja, esse desejo recalcado vai se tornar novamente consciente, mas de uma maneira transformada, expresso, por exemplos, por meio dos sintomas neuróticos, sonhos e na transferência. No caso das duas crianças devido às diferenças nas suas estruturas psíquicas, educação, etc., esse retorno do recalcado é manifestado de maneiras distintas. No caso de Brian as barreiras psíquicas como a vergonha e a moral parecem terem sido mais bem estabelecidas na infância e como consequência esses impulsos sexuais sofreram repressão. Porém essa descarga da energia sexual recalcada aparece no filme de duas maneiras, por meio dos sonhos e pelos sintomas histéricos. Na psicanálise, o sonho é a realização de um desejo que se encontra reprimido e para que esse desejo se manifeste na consciência é necessário que o conteúdo recalcado seja “modificado”. Para tanto o aparelho psíquico utiliza de recursos como condensação e deslocamento para driblar a censura imposta pela resistência. Essa realização do desejo no ato de sonhar faz com que se evite a satisfação real, conservando a integridade moral do sonhador, ou nas palavras de Platão “O homem virtuoso se contenta em sonhar, enquanto o homem perverso realmente o faz”. Na perversão as zonas erógenas possuem uma significação especificamente sexual, como no caso da boca e do ânus. Já nas psiconeuroses as zonas erógenas e histerógenas exibem as mesmas características, embora sejam mais difíceis de reconhecer, sendo a manifestação dos sintomas como uma atividade sexual dos neuróticos. No filme quando Brian estava em alguma situação que o remetia à ocorrência passada de excitação na zona erógena, sofrida no abuso, ele tinha convulsões e sangramento no nariz. Na histeria, a soma de excitação é convertida em sintoma, ou seja, a dor psíquica é convertida em dor física. Essa conversão é custeada por afetos recém-vividos de um lado, por exemplo, quando ele insere a mão dentro do gado mutilado, e por afetos recordados de outro, quando ele inseriu a mão dentro do ânus do treinador, surgindo os sintomas, no caso de Brian as convulsões e sangramento nasal. A escolha” da região do corpo no qual se estabelecerá a conversão é baseada no menor gasto de energia psíquica do aparelho mental e neste caso ocorre preferencialmente por meio de uma ligação associativa. No dia que ocorreu o abuso, Brian foi encontrado com o nariz sangrando, embora ele não recorde, esse sangramento foi devido a um desmaio no qual ele bateu o rosto no chão e machucou o nariz. Logo, por ligação associativa, toda vez que ele se aproxima das lembranças recalcadas surge os sintomas histéricos como sangramento nasal e convulsões. Já no caso de Niel, o filme retrata a necessidade de repetição, ou seja, a transferência de uma situação passada esquecida que é revivida e repetida no momento presente, como por exemplo, a preferência em se relacionar sexualmente com homens mais velhos, remetendo a imago do treinador. No desenvolvimento infantil, o não desenvolvimento das faculdades relacionadas com a compaixão oferece o perigo de que os instintos de crueldade se associem com os erógenos, podendo tornar-se indissolúveis posteriormente. Essa situação é retratada no filme quando, ainda na infância, o personagem sequestra um garoto com certo grau de demência e coloca fogos de artifícios em sua boca, após o ato, Niel masturba e faz sexo oral no garoto numa tentativa de não ser delatado, assim como o treinador havia feito com ele. Na adolescência esses sintomas continuam a se manifestar por meio do seu comportamento rebelde, agressivo, transgressor e autodestruitivo, como no caso da prostituição, onde ele busca reviver a satisfação sexual infantil, principalmente pelo sexo oral, a qualquer custo e se colocando em situações de risco de morte. Embora as duas crianças tenham “sentido” de maneiras diferentes essa situação e desenvolvido processos psíquicos distintos como uma tentativa de processar o que lhes ocorrera, a jornada de ambas convergem para um ponto, que é buscar preencher um vazio, uma falta. Niel relata que essa relação com o treinador ocorreu durante todo o verão e que um dia o treinador simplesmente desapareceu e ele não teve mais notícias. A partir desse momento Niel inicia uma tentativa de preencher o vazio deixado pelo treinador, buscando reviver esse amor, esse sentir-se especial que ele vivenciara na relação com o treinador. Já a busca de Brian está relacionada em preencher as lacunas deixadas em sua memória, a compreender o que lhe havia acontecido de modo que ele desejava dormir e ter outros sonhos além daqueles que o atormentavam. No final do filme os dois jovens se reencontram no mesmo local onde foram seduzidos e Niel relata a Brian os acontecimentos ocorridos naquele dia, enquanto as lacunas da memória de Brian começam a ser preenchidas, o relatar faz com que a imagem “idealizada” do treinador comece a esvanecer, levando-o a uma melhor compreensão do ato ocorrido, despertando um desejo de voltar ao tempo e desfazer o passado, deixando o mundo para trás. O filme Mistérios da carne chama a atenção para o entendimento de cada indivíduo como um universo à parte, onde é impossível generalizar sobre a forma de reagir, experimentar e de sentir do ser humano. Embora existam modelos teóricos que buscam explicar o funcionamento psíquico não há uma generalização, pois cada experiência emocional é única, é individual, mesmo quando vivenciadas em situações semelhantes. Durante o desenvolvimento de suas teorias Freud empregou muito o conceito de forças opositoras, elementos antagônicos como as ideias de passivo e ativo, prazer e desprazer, inversão de afetos: amor e ódio, forças repressoras e retorno do recalcado, etc.. O filme retrata bem um desses pares de opostos levantados por Freud nos Três Ensaios da Sexualidade onde ele diz que “a neurose é o negativo da perversão”.___________Direção: Gregg Araki Plataforma: Prime Video

Diga-me com o que sonhas e eu te direi o que desejas

Por Patrícia de Pádua Castro -  O sonho sob a ótica psicanalítica é a realização de um desejo que se encontra reprimido, recalcado. O material utilizado para a formação do sonho encontra-se no inconsciente, no pensamento inconsciente, onírico, e é composto pelo recalcado - conteúdo insuportável à consciência - e também pelo não recalcado, que são as reminiscências do dia-a-dia, lembranças de lugares, pessoas, leituras, entre outros. Os sonhos assim como os sintomas das neuroses resultam da formação de compromisso entre duas forças psíquicas opositoras, as representações recalcadas, que buscam o seu retorno à consciência (retorno do recalcado), e as recalcadoras, que concedem um afrouxamento da defesa. Para que o sonho manifeste na consciência é necessário que o conteúdo recalcado seja “modificado” e é nisso que consiste o trabalho dos sonhos de condensação, deslocamento, representações e elaboração secundária. Para compreender o trabalho da condensação é necessário reconhecer que os sonhos são curtos e lacônicos quando comparados ao pensamento onírico. Ou seja, o conteúdo inconsciente é muito mais vasto do que aquele que foi manifestado nos sonhos e a lembrança dos sonhos é incompleta, fragmentada. Na condensação tem-se uma única imagem psíquica com várias cadeias associativas o que faz com que ocorra uma diminuição da energia psíquica. Uma analogia que pode ser tomada para compreender o trabalho da condensação na formação de uma única imagem representando várias cadeias associativas é o “Disco de Newton”, onde a cor branca obtida ao girar o disco é a representação única de outras sete cores, sem significar que a primeira seja um resumo das demais. Já a diminuição da energia psíquica pode ser comparada com o que ocorre na condensação química da água, no qual a transformação das moléculas no estado de vapor para o estado líquido proporciona uma redução do volume ocupado pelas moléculas e a diminuição da energia cinética e da entropia do sistema. Essas analogias ilustram que no trabalho de condensação não há um afastamento dos elementos empregados na construção do sonho com aqueles ocupados nos pensamentos oníricos. O mesmo não pode ser dito em relação ao trabalho de deslocamento. Para escapar da censura imposta pela resistência, o sonho se serve do deslocamento das intensidades psíquicas que promove uma mudança de um padrão representativo de fácil reconhecimento, para um padrão que preserve poucas características do representado inicialmente. Dessa maneira há uma distorção desse desejo inconsciente e como consequência, o conteúdo do sonho não se assemelha mais ao núcleo do sonho, ou seja, a seu conteúdo recalcado. A escolha dos elementos representativos – imagem ou palavra - que participarão da formação do sonho é baseada em dois fatores, o valor psíquico que está associado ao  elemento e a capacidade de empregar determinações múltiplas ao elemento, sendo que na impossibilidade de atender aos dois, o último é preferível ao primeiro. Isso porque a produção desses elementos representativos demanda muito esforço, havendo, portanto, uma economia de energia psíquica quando se empregam elementos representativos de múltiplas direções, aqueles nos quais é possível determinar mais de um sentido para o elemento. Quando uma imagem psíquica de um objeto externo ou interno (no caso imaginado) está associada a um afeto tem-se uma representação. No sonho, afeto e material da representação podem parecer incompatíveis e contrastantes. Primeiramente pelo fato do material da representação ter passado pelo trabalho do deslocamento e também, devido à liberdade que o trabalho do sonho possui em desligar os afetos do material da representação que o gerou e associá-lo a outros materiais representativos. Durante o trabalho dos sonhos os afetos podem sofrer supressão, subtração e inversão por influência da censura, porém, ainda assim, são os componentes que menos sofrem essa influência. Por isso, mais que descobrir as modificações sofridas pelos materiais representativos no processo onírico é importante compreender e trabalhar os afetos a eles associados, uma vez que os afetos mantêm, geralmente, a sua qualidade inalterada de acordo com o desejo recalcado e não com o seu disfarce. O trabalho do sonho é exaustivo mediante o número de condições necessárias para satisfazer a censura e produzir o seu resultado final, o sonho. Inicialmente, como já foi exposto, o conteúdo latente passa pela elaboração primária, condensação e deslocamento, antes de seguir o caminho rumo à consciência. Porém “a censura que nunca está inteiramente adormecida” ao perceber que algo indevido lhe escapou ao cuidado, entra em ação mais uma vez a fim de promover a elaboração secundária do conteúdo onírico. Tal reelaboração do material, pelo pensamento de vigília parcialmente desperto, é realizada com o intuito de preencher lacunas e absurdos presentes nos sonhos e apresentá-lo de forma inteligível e coerente. Com isso, o sonho poderá ser lembrado em vigília sem gerar nenhum desconforto aparente, perdendo a importância e deixado para o esquecimento, porque o conteúdo reprimido foi ocultado pela remodelação. Findado todos esses processos de elaboração primária e secundária o conteúdo manifesto não se aproxima mais do conteúdo inconsciente. Desvendar o conteúdo do sonho em si não é o objetivo do trabalho analítico, pois o sonho relatado é oriundo de uma ação consciente do sonhador e a consciência não é o objeto de estudo da psicanálise. No trabalho analítico, a escuta do sonho deve ser entendida como um produto da livre associação, no qual a liberdade ao falar do analisando dá voz ao inconsciente que se manifesta por detrás desta fala.