Por Diego da Silva Geoffroy -
Na teoria psicanalítica, as temáticas em torno do complexo de Édipo são de extrema importância, tanto para a teoria Freudiana, quanto Kleiniana. Ambos destacam a importância de se observar como o sujeito se posiciona e se relaciona com os objetos, a partir do modo pelo qual se passa pelo complexo de Édipo.
Mas é claro que eles apresentavam algumas diferenças em termos de como ele se estrutura e o tempo em que acontecem. Freud, acreditava que o complexo de Édipo tinha início por volta dos 4 ou 5 anos, e que o superego seria o herdeiro desse complexo e a base do seu trabalho era fundamentada na sexualidade infantil. Para Klein, o complexo de Édipo tinha início muito mais cedo, por volta de 1 ano e 6 meses a 2 anos, e a ênfase do seu trabalho estava ligada ao sentimento da inveja, e a presença de um superego arcaico que já estaria presente e atuante desde o início da vida.
Freud em seu processo de construção teórica partiu do estudo dos adultos para chegar na criança, algo que virou uma questão central em sua obra, e que culminou na importância dada a sexualidade infantil. Klein fez um movimento contrário ao de Freud, ela vai partir da análise da criança para a construção de sua teoria. A partir disso, já se estabelece aqui uma diferença importante que parece ser relevante na maneira como cada um descreve suas percepções e desenvolve seu modelo teórico.
A partir de suas observações clínicas, Klein pode perceber a presença do superego muito antes daquele período que Freud havia assinalado, e esse superego era anterior ao complexo de Édipo em Freud. Para Klein ele era extremamente rígido, cruel, e primitivo, e por isso, a criança acabava desenvolvendo culpa e ansiedade muito cedo. Para Freud, o superego seria herdeiro do complexo de Édipo, e todas as questões ligadas a moralidade, e ao sentimento de culpa iniciava-se a partir deste ponto.
Klein vai dizer que é possível sim analisar crianças, que a forma delas poderem se comunicar através do brincar tinha status e valor equivalente a associação livre no adulto, e que a relação transferencial já estava presente no mesmo momento em que a criança entrava pela porta do consultório. O inconsciente era acessível e ela foi desenvolvendo formas de acesso a esse inconsciente e alcançando seus resultados na clínica.
Pelo brincar a criança expressava suas ansiedades inconscientes, e por meio de interpretações Klein ajudava as crianças a representar uma realidade interna cercada de medos e inibições que eram passíveis de serem ouvidas e ressignificadas. Ela considerava o acesso ao inconsciente da criança mais fácil do que no adulto.
Esse modelo que Klein desenvolve está pautado no conceito de posições. Para ela seria natural que no início da vida a criança passasse pela posição esquizoparanóide, que seria uma fase em que a criança se relaciona com o mundo de forma fragmentada e persecutória, e com a presença de ansiedades importantes no contexto de sua teoria. Seria um modo de funcionamento das psicoses, e, portanto, passível de tratamento analítico, na medida em que ela considerava possível o caminho para acessar o inconsciente e trabalhar essas ansiedades.
A partir disso podemos perceber que ela vai criando um caminho para sua teoria, sem romper definitivamente com Freud, tentando manter uma base psicanalítica, mas ao mesmo tempo propondo mudanças clínicas a partir de sua experiência.
Para Freud o complexo de édipo surge entre os 3 e 5 primeiros anos de vida da criança. A partir da relação que Freud faz com o mito de Édipo, nesta fase se desenvolve um “desejo incestuoso” da criança pela mãe, ao mesmo tempo que cria uma relação de conflito e disputa com o pai. Este processo tem peculiaridades para meninos e meninas, mas em suma é uma forma de estruturação do sujeito a partir da relação na tríade parental.
O complexo de Édipo descrito por Freud possui três elementos essenciais, que independe do sexo da criança. O primeiro elemento diz da necessidade de um casal de pais que pode ser real ou simbólico. No segundo, tem-se o desejo de morte em relação ao genitor do mesmo sexo. No terceiro e último elemento verifica-se a existência de um sonho ou mito de realização do desejo de tomar o lugar de um dos pais e casar-se com o outro.
Para Klein o édipo começa bem antes, logo após o desmame da criança. A partir da relação com as imagos do seio que ela introjeta, podendo ter características boas e más, a criança projeta nos objetos externos que ela se relaciona todas as suas fantasias. Nesse período há uma intensa presença do sadismo oral atuando, que interfere diretamente em como a criança desenvolve sentimentos hostis em relação aos objetos, bem como o caráter persecutório e punitivo que espera receber deles.
Neste momento, a criança começa a perceber que o mesmo objeto que traz satisfação é o mesmo que traz insatisfação e está ligado ao seu objeto de amor: a mãe. Então, é aí que começa um conflito de ambivalência de sentimentos, pois a mãe a quem direcionou seus impulsos destrutivos é a mesma mãe a quem direciona amor. Isso faz com que a criança vivencie ansiedades e sentimentos de culpa em relação à mãe, e anseie consertar o mau que a fez a mesma. A esse funcionamento Klein chamou de posição depressiva.
Em Klein o trabalho analítico encontra lugar já no início da vida, em um tempo em que Freud não adentrou em sua prática clínica. O olhar Kleiniano permite que as ansiedades da criança sejam trabalhadas em períodos bem mais primitivos do desenvolvimento, podendo trazer benefícios significativos ao modo como as crianças estabelecem relações com seus objetos de amor, e com o mundo de maneira geral.
Por Marcelo Moya -
"Não me cabe conceber nenhuma necessidade tão importante durante a infância de uma pessoa que a necessidade de sentir-se protegido por um pai." (Sigmund Freud)
A nossa sociedade vem passando por constantes transformações e modificando as configurações das famílias através de novos modelos, mas a figura do pai nunca deixará de ser essencial, pois o seu papel é fundamental e complementar ao lado da mãe no percurso das dinâmicas familiares.
Um aspecto preocupante na educação dos filhos na atualidade é a ausência ou a inexistência do pai, ou mesmo de uma figura familiar que o substitua a contento, e que participe ativamente da vida dessa criança por meio de um vínculo satisfatório com ela no processo de crescimento. Estatísticas apontam que mais de 70% de jovens e adolescentes em situação às margens da lei, por exemplo, cresceram sem a presença de um pai ou este não cumpriu adequadamente o seu papel. A repetência escolar é duas vezes maior entre crianças que crescem em lares sem uma presença paterna, e tem onze vezes mais chances de manifestarem comportamentos violentos na escola. Crianças com um pai presente ou alguém que exerça este papel com efetividade, tem maior probabilidade de se sentirem mais seguras nos estudos, na escolha de uma profissão, na tomada de decisões importantes na vida, do contrário, ela poderá desenvolver conflitos de natureza emocional como personalidade antissocial, distúrbios de comportamento, insegurança, entre outros.
Pautado em algumas premissas teóricas da psicanálise, pensamos em pelo menos três considerações acerca da essencialidade paterna na formação do indivíduo a partir de suas fases iniciais de desenvolvimento e determinantes na constituição do ser.
Em primeiro lugar, o pai pode dar segurança à mãe durante sua maternidade, proporcionando a ela condições de se sentir mais protegida com seu bebê, haja vista que muito além de um suporte material, o amparo afetivo é uma forma de acolhimento diante das implicâncias que a maternidade acarreta.
Para a psicanalista Melanie Klein (1882-1960), "...o pai desempenha um papel crucial na vida da criança, principalmente se o homem está em harmonia com a sua esposa... muito do que se disse a respeito da relação da mãe com os filhos em diversos estágios de desenvolvimento, também se aplica ao pai... ele desempenha um papel diferente daquele da mãe, mas suas atitudes se complementam...", afirmou. Uma segunda consideração, é que nesta conexão da criança com o seu pai, ela é estimulada a interagir ao seu redor e para além de seu vínculo exclusivo com a mãe. A criança necessita deste outro para começar a compreender a vida social. Na medida que ela vai notando a existência e presença deste pai, entenderá que o mundo não gira apenas em torno dela e que a mãe não é sua propriedade, cuja relação simbiótica normalmente traz consequências muito nocivas. Reconhecer esta unidade parental é importante para a estabilidade psicológica da criança e seu convívio com outras pessoas. E por fim, o pai exerce substancial influência tanto na formação da identidade como da autoestima da criança. Se for ausente ou inexistente, outros modelos podem vir a ocupar esse vazio, com uma grande probabilidade de não serem modelos propriamente exemplares, como acontece no contexto da marginalidade e da delinquência, haja vista que a falta do pai pode desenvolver entre outras coisas, baixa autoestima, despersonalização, intolerância à frustração e sérios conflitos existenciais. Como disse certa vez o filósofo Nietzsche: "...se não se tem um bom pai, é preciso arranjar um". A maior de todas as heranças que um pai pode deixar para os seus filhos é sua prova de amor, sua presença, seu suporte e seu exemplo. E como cantou Milton Nascimento, “...quero a utopia, quero tudo e mais, quero a felicidade nos olhos de um pai...”
Por Indira Bolsoni Pinheiro -
No início dos seus trabalhos com a histeria, Freud se utilizava do método hipnótico de Charcot e do método catártico de Breuer, que trazia as memórias que ficavam reprimidas e que causavam os sintomas físicos nas pessoas histéricas. Para esses estudiosos, na época, as lembranças trazidas pelas pacientes, pois a grande maioria dos experimentos foi feito com mulheres do Hospital Salpetriere, eram a reprodução exata do que havia acontecido em suas vidas.
Quando a memória dos acontecimentos que causavam o sofrimento das pacientes vinha à tona, pelo efeito catártico e sugestivo da hipnose, eles entendiam que o tratamento teria alcançado sua finalidade. No entanto, com o tempo, foi se percebendo que o sintoma causado pela memória reprimida apenas mudava de forma, não havia cura de fato.
Freud utilizava-se de outro método para, segundo ele, trazer à tona a verdade da paciente, que era a pressão do dedo na testa. Dizem que o pai da psicanálise não era muito hábil para hipnotizar pacientes, por isso se valeu de outro método que, no seu entendimento, tinha o mesmo efeito, que era o de reproduzir por meio da fala os acontecimentos difíceis e sofridos da vida da paciente, que foram a causa do surgimento dos sintomas físicos, o que na época se denominava Histeria.
Após vários relatos de pacientes Freud começou a perceber que todos os eventos e acontecimentos estavam relacionados com a sexualidade em um período muito significativo na vida das pessoas, a infância, que ele entendia que ia até os 8 anos, aproximadamente. Ou seja, antes da puberdade. Assim, Freud entendeu que havia em todos os casos os seguintes componentes: sexualidade, infância e sedução por um adulto. Para ele, estes acontecimentos traumáticos da infância passavam por um período de incubação e apenas após a puberdade é que vinham à tona na forma de vários sintomas emocionais ou físicos, como vergonha, culpa, sofrimento, dores abdominais, dentre tantos outros descritos por suas pacientes.
O que Freud ainda não tinha percebido, na época em que desenvolveu a Teoria da Sedução, é que o que as pacientes traziam à tona não era necessariamente a verdade. As experiências sexuais confessadas na clínica eram, muitas vezes, se não na maioria delas, fruto da fantasia das pacientes que ocorria na primeira infância. O fato de Freud ter se baseado no método hipnótico, onde se acreditava trazer as memórias de acontecimentos como haviam realmente ocorrido, pode ter contribuído para o equívoco, pois não se sabia, ainda, que as memórias poderiam ser apenas a fantasia de uma criança e não um abuso sexual contra ela praticado.
Outra questão relevante é que os adultos das relações são sempre pessoas próximas que possuem algum tipo de afeto ou afeição pela criança, o que tornaria tudo ainda mais confuso e até mesmo abjeto, caso todos os relatos fossem apenas a reprodução dos acontecimentos, exatamente como ocorreram.
Mais adiante Freud percebe o equívoco cometido, pois afirma que na época do texto que escreveu sobre a Teoria da Sedução ainda não sabia distinguir entre realidade e fantasia. Ou seja, não sabia, até então, que as pacientes poderiam fazer relatos a respeito de acontecimentos na infância, envolvendo sexualidade, que teriam ocorrido tão somente na imaginação delas. A partir daí se desenvolve a noção, que deve ter sido perturbadora e polêmica para a sociedade da época, de que a criança tem sexualidade e sente prazer. Até então as crianças eram vistas como anjos assexuados, pois não poderiam saber o que é sexualidade se não tinham maturidade psíquica e experiência para entenderem do que se tratava. Com a continuidade dos estudos sobre sexualidade na infância, Freud chega a um dos conceitos mais conhecidos da psicanálise que é o Complexo de Édipo.
Por Jose Claudio de Nazareth Gonçalves -
Na década de 80 a televisão exibia um comercial de desodorante que terminava com o slogan “se algum desconhecido te oferecer flores, isso é Impulse", onde um homem, movido por um impulso causado pelo instinto despertado pelo olfato, roubava flores de um vendedor e ia correndo oferecer à mulher que passou por ele usando o tal desodorante.
Então a pulsão nos move. As pulsões foram as maiores responsáveis pelo desenvolvimento do nosso aparelho psíquico e foram mesmo responsáveis por nos fazer perceber que temos um mundo interior, que é separado do mundo exterior. A vida psíquica que vivemos hoje se originou e se desenvolveu baseada nas pulsões. Somos então, as nossas pulsões? O que é uma pulsão?
O nosso EU primordial, recém-nascido, vive uma existência plena e onipotente, satisfeito no gozo do seu autoerotismo e na realização, alucinatória ou não, de seus desejos. Mas aos poucos percebe que as alucinações não têm a mesma eficiência em saciar necessidades, deduz que existe um certo algo que está fora de si mesmo, algo que existe independente de suas instancias psíquicas, algo Real. Percebe também que há necessidades que podem ser satisfeitas através do uso de seu sistema motor e outras em que o uso deste não altera suas premências, elas continuam lá, insistindo na sua exigência de serem satisfeitas. Essas necessidades são percebidas como oriundas do interior do próprio ser, das quais ele não consegue fugir, e que constantemente o pressionam por sua satisfação. Essas são as nossas pulsões.
Mas nosso sistema nervoso não quer ser perturbado, ele quer reduzir ou eliminar os estímulos que lhe chegam, ou se não conseguir assim fazê-lo, quer ao menos dominá-los. Ele se apegou aquele prazer primordial do Eu ideal. Um estímulo pulsional vindo do seu interior, para ser reduzido e parar de incomodar, precisa ser satisfeito. A não satisfação aumenta o desprazer e isso ele quer evitar a qualquer custo.
Consequentemente a supressão desses estímulos instintuais vira a meta do sistema nervoso e o alcance dessa meta é feito através de um (ou mais) objeto. Esse objeto pode ou não ser parte do corpo e de acordo com as manipulações que a psiquê usa para suprimir esse estímulo poderá até ser mudado - ou deslocado - no decorrer desse processo. Mas se um instinto fica particularmente preso à determinado objeto, ocorre uma fixação.
No início os instintos são unificados, mas com o desenvolvimento do sistema nervoso se separam em instintos destinados à conservação do Eu e instintos sexuais. Esses instintos sexuais primordiais se apoiam nas funções fisiológicas e de autoconservação, ligados ao prazer do órgão de origem, mas aos poucos vão se separando e com o amadurecimento do aparelho reprodutor acabam por se ligarem à vida sexual.
O sistema nervoso, na sua busca pelo estado de não perturbação, possui mecanismos para se defender dos instintos, numa tentativa de satisfazê-los, desviá-los ou suprimi-los.
Ele pode reverter um instinto no seu contrário. Um instinto com meta ativa passa a ter meta passiva. Um instinto sádico por exemplo pode ser substituído pelo seu contraponto, o masoquismo. Ou um instinto voyeur se modificar em exibicionista. A reversão ao contrário busca sempre inverter a meta ativa do instinto ao seu oposto passivo. A não ser que seja na oposição amor/ódio, quando a inversão não se dá na meta, mas no seu conteúdo.
Pode ocorrer de o sistema nervoso fazer o instinto voltar-se contra a própria pessoa: ele mantém a meta e muda apenas o objeto, que no caso passa ser o próprio eu. O exibicionista por exemplo passa a contemplar o seu próprio corpo - onde inclusive esse instinto em particular se origina: afinal quando éramos autoeróticos nos satisfazíamos olhando o nosso próprio corpo e só posteriormente, por via da comparação, deixamos esse objeto e o trocamos pelo análogo no corpo alheio. Esse instinto autoerótico, que tem o próprio corpo como objeto para alcançar a meta instintual é uma formação narcísica.
O narcisismo representa o estágio inicial do desenvolvimento do Eu e isso é uma conclusão lógica se nos lembrarmos que nesse estágio estamos absortos em nós mesmos, os instintos sexuais unidos com os de conservação e em plena satisfação autoerótica. Essa fase marcada pelo narcisismo – e a maneira como ela se desenvolve - será decisiva na determinação dos destinos que os instintos terão no futuro, nas mudanças de meta ou de objeto que sofrerão.
Um outro destino para um impulso instintual pode ser a repressão. Muitas vezes um instinto que teoricamente surgiu para causar prazer pode estar inserido em circunstâncias que causariam um desprazer maior que esse prazer, e nesse caso precisaria ser reprimido. Por reprimido entendemos como tirado da - ou mesmo impedido de chegar `a - consciência. Com essa premissa sabemos que esse método de lidar com o instinto só pode ser realizado quando já ocorreu a separação entre o consciente e o inconsciente.
Quando no inconsciente esse instinto pode continuar em atividade, e derivados associativos desse instinto podem mesmo alcançar o consciente, desde que deformados ou separados por suficiente número de elos associativos de forma que sua representação fique distante do instinto que a originou. `As vezes esses derivados associativos aparecem como formações substitutivas, retornando como fenômenos somáticos (sintomas) ou sob a forma de pensamentos, como nas neuroses obsessivas.
São esses derivados, em suas inúmeras formas além das aqui citadas, que buscamos achar quando pedimos a um paciente em processo psicanalítico que faça a livre associação.
Ainda uma outra opção para o sistema nervoso lidar com um estímulo instintual não desejado seria direcionar a libido objetal criada por esse instinto para uma meta não sexual, a sublimação. Dessa maneira o instinto escapa da repressão e consegue se manifestar, mas com um desvio de meta. A diferença entre a sublimação e a reversão ao contrário seria que nessa última a meta continua sexual enquanto na sublimação o deixa de ser.
E o Impulse? O nome do desodorante bastante popular na década de 80, psicanaliticamente proposital ou não, se mostrou adequado. Afinal o impulso é o elemento motor do instinto, esse caráter impulsivo é na verdade a essência do instinto. Impulsivo o suficiente para roubar flores e oferecê-las a uma desconhecida. E isso não é Impulse, é pulsão.
Por Adriana Silveira -
O Caso Dora, publicado em 1905, é um dos casos clínicos de Freud mais conhecidos e estudados. O período do tratamento da paciente, a quem é dado o pseudônimo de Dora, deu-se alguns anos antes da publicação do texto, coincidindo com os estudos acerca dos trabalhos do sonho publicados na obra A Interpretação dos Sonhos (1900).
Nesse período, Freud, já afastado da técnica da hipnose e do método catártico para tratamento da histeria, inicia a construção de seu método analítico, que terá como princípio a associação livre, por meio da fala espontânea da paciente, na expressão livre dos pensamentos que lhe vêm à mente. É importante notar, no entanto, que o desenvolvimento de sua técnica estava aí apenas em seu início - daí podermos perceber, na descrição desse caso clínico, algumas dificuldades quanto à percepção e manejo de elementos importantes, que viriam a ser sistematizados e normalizados como práticas do tratamento analítico mais adiante.
É o relato do conteúdo de dois sonhos de Dora que serve como material de investigação para o analista, com vistas à exploração do conteúdo latente (reprimido). Seguindo suas próprias convicções a respeito do surgimento dos sintomas histéricos, Freud interpreta os elementos simbólicos desses sonhos a partir dos desejos sexuais infantis e inconscientes da paciente, relativos às figuras dos pais e do sr. e sra. K. Aliás, é o pai que dá a Freud o contexto familiar e de adoecimento da filha, o qual, para ele, seria fruto de uma construção fantasiosa de assédio do sr. K em relação a ela.
Esse fato pode ter influenciado uma postura pré-concebida do analista acerca do quadro da paciente e, inclusive, acerca da importância atribuída à veracidade ou não das memórias por ela expressas. Em sua investigação, Freud mostra estar interessado na busca da verdade e revelação dos fatos, supostamente encobertos na fala da adolescente. Nesse sentido, dá especial importância às lacunas de sua memória e aos deslocamentos, sobretudo às manifestações físicas de seus transtornos psíquicos (sintomas físicos de doença e atos sintomáticos).
A análise desse quadro clínico tem um percurso bastante especulativo e de defesa da comprovação dos pressupostos do analista-cientista. Isso pode ser notado, ao longo do texto, pela presença excessiva de sua própria voz na interpretação dos eventos relatados por Dora. Essa interpretação é comunicada a ela como verdade irrefutável, por mais que a paciente tenha recusado algumas das conclusões do analista (como a de que ela seria apaixonada pelo sr. K., por exemplo).
A atitude adotada por Freud resultou em “pontos cegos” no tratamento, sobretudo quanto à transferência e seus desdobramentos. Há a percepção desse mecanismo por parte do analista, que nota a transferência para ele de traços presentes na figura do pai de Dora, numa clara tentativa de substituição. Mas o fato é que ele está tão voltado a convencê-la sobre a verdade de suas próprias interpretações que desvia a atenção dos mecanismos da transferência e, consequentemente, não chega a manejá-la a contento.
Se, como o próprio Freud acaba por defender mais tarde em seus ensaios, a transferência é fator essencial e inevitável dentro do “setting” psicanalítico - na medida em que também permite verificar as resistências da paciente - podemos dizer que esse “ponto cego”, no caso Dora, levou a limitações quanto aos possíveis avanços da paciente. Subestimada e silenciada em suas interpretações, não lhe é possível identificar traços da dinâmica de repetição de seus afetos. Tampouco lhe são dadas condições para reconhecer e perlaborar os mecanismos de suas resistências psíquicas.
No posfácio à publicação do caso, Freud reconhece suas limitações no manejo da transferência, cujos sinais, segundo ele, estavam muito nítidos nos sonhos relatados por Dora. Ele atribui essas limitações ao curto período de duração do tratamento, interrompido pela própria paciente em menos de três meses de seu início.
Mas essa visão é apenas uma faísca de luz dentro do “ponto cego”. A postura investigativa de Freud na prática psicanalítica, estabelecida a partir de seus pressupostos acerca dos trabalhos psíquicos das pacientes, leva-o, nesse caso, a tomar fundamentalmente para si a tarefa da interpretação: é ele, o analista, o principal responsável pelas elaborações e sínteses, e não Dora. Diante dessa postura, não poderia haver espaço para a escuta aberta das associações e da interpretação da paciente.
O que pode explicar, em boa parte, sua desistência precoce do tratamento.
Por Lia Stella Paiva Fontenele -
Melanie Klein teorizou que a dinâmica de nossa psiquê acontece num movimento pendular que envolve um conjunto de elementos como relações objetais, fantasias inconscientes, ansiedades, ego, defesas, infância arcaica permeados pelas pulsões de vida e morte. Ela nomeou essa dinâmica de Teoria das Posições.
Posição para Klein é um movimento intrapsíquico que ocorre na infância mais rudimentar, acompanha o sujeito ao longo da vida e é responsável por demarcar sua relação com o objeto. Ela dividiu essas posições em duas: Esquizoparanóide e Depressiva.
Klein se denominava freudiana, ela se aprofundou na Psicanálise do mestre, mas criou suas próprias bases. Foi pioneira na Clínica Analítica Infantil com o uso de atividades lúdicas, jogos infantis e brincadeiras de modo a buscar correlação entre o funcionamento psíquico e as relações de objeto. Ela concentrou seus estudos na infância mais primitiva, tendo como ponto de partida a agressividade, ao contrário da teoria freudiana que teve a sexualidade como tema determinante em seu trabalho. Outro ponto de divergência em relação à teoria freudiana se deu sobre os estágios de maturação biológica do sujeito. Ele postula que esses estágios são acompanhados por fases psicossexuais que têm início no nascimento e se desenvolvem até a fase adulta.
Para Freud, o desenvolvimento psicossexual evolui de forma linear, dimensionado em 5 fases distintas, denominadas: oral, anal, fálica, latência e genital. Com exceção do período de latência que não é um estágio sexual e sim de repressão dos desejos inconscientes, as demais fases são a expressão da libido em diferentes partes do corpo.
Diferente da linearidade de Freud, Klein pensa o modelo de Posição como um movimento de dentro e fora, de entra e sai, de um lado e outro. Funcionamos numa dinâmica oscilante, num movimento pendular que surge no nascimento e nunca mais nos abandona. De um lado a posição depressiva, do outro a paranoide, num constante embate. A diferença é que nesse duelo de forças não existe ser somente isso OU aquilo, as posições não são excludentes, elas coabitam. A ideia é sobreviver ao ser isso E ser aquilo ao mesmo tempo, com razoável equilíbrio. Aceitar que somos seres paradoxais, incoerentes por natureza.
O grande desafio é que, por vezes, o pêndulo tem o deslocamento muito acentuado. A psicanálise entra como um desacelerador do processo, nunca como um freio. Joga luz nas ansiedades e respectivos mecanismos de defesa desencadeados por cada uma das posições.
Em seus estudos sobre a psique infantil, Klein inferiu que o bebê já nasce mergulhado na posição Paranoide como consequência da imaturidade do EGO. Ele permanece nessa posição até os 5 meses de vida, aproximadamente. A 1ª manifestação da consciência é de ansiedade, de medo porque é a 1ª relação do bebê como o mundo externo, representado pelo seio materno ou objeto parcial como conceituou Klein. Essa ansiedade é persecutória, aqui vige a ‘Lei de Talião’: o que eu fizer com esse seio voltará para mim. O bebê neste momento está apenas preocupado em se salvar e salvar o objeto bom. Como o EGO está imaturo e fragmentado, o seio também está. Existe o seio bom e o mau e são excludentes. O bom gratifica e o mau frustra.
Para se defender da persecutoriedade inerente à posição Paranoide, alguns mecanismos são acionados como: idealização, projeção, introjeção, cisão, negação e identificação projetiva. A idealização é uma defesa que leva o objeto para os extremos para torná-lo mais fácil de manejar. Com esse afastamento fica claro qual objeto que deve ser atacado e qual deve ser preservado.
Nos 1os momentos de vida, o EGO tenta guardar a ideia de si mesmo apenas como lugar de satisfação e sentimentos bons. Tensão e desprazer são projetados para objetos externos que então são vistos como persecutórios. Essa projeção assim como a introjeção servem como atenuantes para o instinto de morte. A introjeção de boas sensações e vivências torna possível a formação do EGO. Já a introjeção de experiências ruins tende a cindir o EGO.
A cisão é uma defesa maniqueísta. Divide o bom do mau, o joio do trigo. Essa divisão atua para salvar o sujeito do perigo que ele imagina ser constante. Já a negação é a forma que o EGO encontrou para se relacionar com o objeto mau. Esse mecanismo é muito comum em processos de luto, perdas. A psiquê nega os objetos, despreza-os de forma a não entrar em contato com a dor.
Por último, a identificação projetiva apesar de não ser um conceito original de Klein entra como ponto alto na sua Teoria. Nessa defesa, o bebê coloca uma parte de seu EGO num objeto. Essa projeção pode ser tanto da parte boa como da ruim. Tem como característica ser anal porque projeta numa tentativa de controlar o objeto. Esse controle é o que difere a identificação projetiva da projeção. Essa defesa aumenta a persecutoriedade por saber que uma parte de mim está no outro e me sinto ameaçado.
A posição Depressiva começa a ser desenhada por volta dos 6 meses de vida. Ela tem como característica uma maior aproximação com a realidade. Enquanto a preocupação na Esquizoparanóide é com o objeto parcial, a Depressiva se ocupa do objeto total, ou seja, a mãe. Aqui há a integralização do EGO, anteriormente fragmentado. A ansiedade nessa posição é pesarosa, uma angústia de colocar em perigo o objeto que foi incorporado, teme por arruinar esse objeto amado.
Considerando que a natureza das defesas nessa posição é de reparação, os mecanismos de defesa se apresentam abrandados. A clivagem, projeção e idealização diminuem de intensidade. Nenhum objeto é agudamente bom ou mau. Há uma aproximação desses polos opostos, mas ainda assim existe ataques aos objetos maus porque a ansiedade ainda se faz presente.
Já a introjeção nessa posição é expandida. Quando a criança passa a ter uma maior consciência de si, ela já percebe a mãe como um objeto apartado dele e quer introjeta-lo como forma de se fundir com o objeto amado. Mais importante que preservar o EGO é preservar o objeto bom. Nessa posição a criança aprende a amar e a ter sentimentos de gratidão.
Por Diego Da Silva Geoffroy -
A psicanálise depois de Freud toma caminhos diferentes. Poderíamos dizer que ela vai se desenvolvendo a medida em que diferentes analistas vão relendo Freud, e aplicando a psicanálise em perspectivas até então não desbravadas por ele.
Neste trabalho farei um breve percurso sobre esses autores destacando suas peculiaridades e avanços mais importantes.
Podemos dizer que todo psicanalista é freudiano, pois todos eles estão ligados aos conhecimentos metapsicológicos de Freud. Mas também é um fato que esses pilares técnicos e teóricos vem sofrendo mudanças significativas, sempre influenciados pela maneira como cada sucessor de Freud aplica a psicanálise, e também pela questão cultural e temporal em que cada um vive, interferindo assim no olhar do analista sobre o mundo.
Naquilo que podemos chamar de escola predominantemente freudiana, destacamos a valorização dos aspectos inconscientes, dos conceitos de pulsão e recalque, formulando a partir disso um modelo de tratamento das neuroses.
Para Freud, nossos desejos e nossas angústias estão relacionadas as nossas experiências mais remotas, e que segundo ele, precisam ser investigadas. Aquilo que ele entende como sintoma é um retorno de algo que foi recalcado, e, portanto, está escondido em algum lugar do inconsciente.
Freud vai propor um desenvolvimento humano em fases denominadas de oral, anal e fálica, com idades mais ou menos definidas para que cada uma aconteça. Elas podem se mesclar, mas o complexo de édipo, por exemplo, seria vivido lá pelos 3 ou 5 anos de idade. E as consequências de como o sujeito passa por essa experiência determinaria muitas escolhas que ele faz durante a vida. A sexualidade infantil tem papel fundamental dentro de sua teoria, e o caminho que ele encontrou para desenvolver essas questões sexuais, foi inicialmente investigar a mente do adulto e, então, partir em direção a infância e suas etapas de desenvolvimento.
Partindo aqui para a escola kleiniana, pode-se dizer que Klein nos apresenta novos horizontes de escuta e entendimento desse desenvolvimento humano. Ela inaugura um novo tempo na psicanálise em que se tornou possível o trabalho com crianças por meio da brincadeira, sem abandonar a seriedade do trabalho analítico desenvolvido com os adultos.
Por meio de uma compreensão do funcionamento psíquico dos bebês desde o nascimento, Klein deu início a análise de pacientes psicóticos. Isso foi possível porque com o desenvolvimento do conceito de posição e do caráter oscilatório dessas posições, podia-se interpretar as ansiedades dos pacientes para além da ideia de estrutura proposta por Freud.
Ela propõe a angústia de aniquilamento como uma questão primordial no desenvolvimento dos bebês, além de destacar a importância de se observar as fantasias inconscientes presentes nos primeiros meses de vida. Sendo assim, ela conseguia perceber a existência de defesas bem primitivas na vida das crianças, em um período bem anterior ao que Freud havia proposto.
Ela também desenvolve o conceito de identificação projetiva, que é importantíssimo na prática clínica. Além disso, ela entende o sujeito dentro da lógica das posições, em que o sujeito, ao longo da vida, opera de forma persecutória ou depressiva, no qual essas duas posições podem coexistir e se manifestar mutuamente.
Klein contrapondo a visão fálica de Freud dá ênfase no seio como meio de valorizar a relação primitiva entre a mãe e o bebê. Ela migra de uma visão falocêntrica para uma visão em que, a partir da relação com o seio enquanto primeiro objeto, o bebê pode internalizar objetos bons e maus, totais e parciais, idealizados e persecutórios.
Klein também investiu sua atenção nas pulsões agressivas, onde ela destacava a presença de uma inveja inata, de fantasias inconscientes de ataques destrutivos em direção a um objeto mau internalizado. Ela salientava a importância de se poder interpretar esses ataques e essas ansiedades, possibilitando que o paciente entrasse em contato com a culpa por tais atos, e pudesse integrar o ego a partir desse trabalho.
A partir daqui podemos começar a trafegar pelas ideias de Bion. Ele tem como marca registrada o fato de não se preocupar em estabelecer uma teoria. Seu objetivo maior foi o de desenhar um arcabouço técnico, que nos permitisse trabalhar com a experiência emocional vivida pelo paciente de forma eficaz e bem orientada.
Um dos intuitos de Bion era criar modelos que possibilitassem combinações, e que funcionassem como ferramentas de investigação psíquica da experiência emocional.
Para ele a análise é vincular, ou seja, acontece na relação entre duas pessoas que enfrentam verdades, angústias e emoções. Para que isso aconteça, ele diz que o analista deve ter condições mínimas de atendimento ao outro, como ser verdadeiro com seu paciente, sustentar um estado de constante descobrimento em relação a ele, ser continente e realizar a função alfa diante daquilo que o paciente lhe dirige.
Bion valoriza também a intuição do analista, e destaca a importância de a mente do analista estar livre de memória, desejo e necessidade de compreensão imediata das questões do paciente.
Ele cria uma estrutura de trabalho psíquico que possibilite que a psicanálise seja aplicada para além dos conflitos inconscientes, de modo que aspectos conscientes também carregam sua importância.
Ele propõe uma visão que amplie as perspectivas sobre uma experiência, de modo que se possa olhar por diferentes vértices para um mesmo acontecimento psíquico. Isso proporcionaria ao sujeito a chance de integrar diferentes aspectos da personalidade que coexistem em nosso psiquismo. A análise para ele seria uma travessia nesses mundos existentes e desconexos, e uma exploração desses mundos em busca de novos conhecimentos sobre si.
O que Bion traz como diferença em sua proposta, quando comparado a psicanálise clássica, é que nossa interpretação enquanto analistas não se direciona a fatos conhecidos ou pré-determinados, mas a um movimento que provoca transformações e descobertas, onde o analisando se torna um grande questionador de si mesmo, das suas verdades e suas contradições.
Para Bion não faz sentido uma cura analítica, mas sim a ideia de expansão do pensamento, de abertura dos horizontes do próprio sujeito. Não se trata de achar o trauma, ou interpretar fantasias, mas de expandir a capacidade de pensar do sujeito num universo sempre em movimento.
Para Bion o pensamento antecede o pensador. Com ele não sabemos para onde retornar, não sabemos onde está o problema ou qual direção seguir. Bion possibilita novas descobertas, de modo que elas sejam particulares e infinitas, ou seja, enquanto houver possibilidade de interrogar o conhecido, haverá milhares de possibilidades de se continuar conhecendo.
Por Silvio Ribeiro da Silva -
A Psicanálise de Freud tem como importantes alicerces o que ficou conhecido como primeira e segunda tópicas, sendo a primeira chamada de teoria topográfica (modelo adotado por Freud para pensar o aparelho mental a partir de uma percepção topográfica da mente, envolvendo consciente, pré-consciente e inconsciente) e a segunda de modelo estrutural (revisão feita por Freud não mais vendo o aparelho mental sob o ponto de vista geográfico, mas do ponto de vista estrutural, envolvendo id, ego e superego).
A premissa básica da Psicanálise é a diferenciação do psíquico entre consciente e inconsciente. Se essa diferença não for absorvida, fica impossível a compreensão dos processos patológicos ligados à vida psíquica. Por mais que em essência o psíquico não pertença à consciência, a Psicanálise se vê obrigada a ver a consciência como algo que integra o psiquismo.
Em se tratando de inconsciente, sabe-se que o recalque é o estado das ideias que não podem ser conscientes. No processo analítico, é possível perceber a força que provocou e manteve o recalque, que é a forma prototípica do inconsciente.
Dois tipos de inconsciente se manifestam na psique: um latente, capaz de se tornar consciente, e um reprimido, incapaz de se tornar consciente. No sentido descritivo, existem o inconsciente e o consciente; no sentido dinâmico, só existe o consciente/inconsciente juntos, o que significa dizer que não existe um sem o outro.
A instância responsável pela organização dos processos psíquicos na pessoa é o ego, que se liga à consciência, dominando a descarga de excitações no mundo externo. É preciso deixar claro que ego não é sinônimo de consciente, já que sua gênese está no inconsciente.
No processo analítico, haverá contraposição do recalque em relação ao ego. Toda vez que ocorre uma aproximação do conteúdo recalcado, a continuidade da associação é dificultada e a resistência entra em ação, por mais que o individuo em análise desconheça a existência desse mecanismo, já que ele é inconsciente. Em relação a esse processo, cabe considerar que todo recalcado é inconsciente, mas nem todo inconsciente é recalcado.
O ego é uma parte do id a qual sofreu alterações em decorrência do mundo externo. Ele (ego) se esforça para tornar praticável o princípio da realidade, ao contrário do id, já que neste o que prevalece é o princípio do prazer.
O ego traz em si algumas funções essenciais atribuídas ao consciente, além de conter certos elementos inconscientes, como angústias e estratégias de defesa, por exemplo, o que nos mostra sua existência conectada a uma parte consciente e também a uma parte inconsciente.
O mundo externo age modificando uma parte do id, originando o ego. Isso significa dizer que o ego é formado inicialmente pela parte do id que se modificou a partir do contato com o mundo externo.
Em se tratando do superego, ele é um resíduo das primeiras escolhas objetais do id, sendo originado a partir de uma formação reativa deste. Segundo o que Freud nos diz no texto “O Eu e o Id” (1923), quanto mais forte tiver sido o complexo de Édipo, mais rapidamente ocorreu seu recalque e mais intenso será o domínio do superego sobre o ego, agindo com o intento de uma consciência moral.
No início da vida, somos apenas id, totalmente tomados pelas pulsões. Como já visto em relação às pulsões, quanto maior a tensão, maior o desprazer. Assim, o id visa sempre a uma descarga pulsional.
Em se tratando do período do autoerotismo, narcisismo e amor de objeto, o surgimento do ego se dá logo após o autoerotismo, dando início ao narcisismo. No período do autoerotismo, o ser é totalmente id. No período narcísico, no auge da fase fálica, ocorre o complexo de Édipo, momento em que o fenômeno da castração atua. A pessoa que exerce a função paterna tem um papel preponderante no fenômeno da castração. Essa pessoa executora da função paterna introjetará na personalidade do ser a figura da castração, fazendo com que surja o superego.
O superego, na visão de Freud, é o herdeiro do complexo de Édipo. Este é essencial para o desenvolvimento geral do indivíduo pelo fato de que é ele que garante a separação da criança com os pais já que ela passa a notar que está se tornando independente, além de não ser mais o centro do mundo.
A formação do superego ocorrerá a partir das reações contra as escolhas objetais do id ocorridas ao longo do complexo de Édipo. O superego se consolida a partir das indicações do ideal de ego além do indicativo da proibição.
Em se tratando de diferenças entre a primeira e a segunda tópicas, podemos afirmar que a partir da segunda o inconsciente deixou de ser tratado como um lugar (do ponto de vista geográfico), sendo caracterizado como uma das estruturas que compõem a psique, como já dito no início deste texto. Assim, uma parte do ego e uma parte do superego podem ser inconscientes, ao passo que o id só pode se tornar consciente se for transformado em uma representação, o que significa que suas formas originais permanecerão inconscientes, independente do lugar onde o inconsciente fique, mesmo porque a partir da revisão feita por Freud essa ideia de que o aparelho psíquico era formado por lugares determinados deixou de ser levada adiante.
Assim, pode-se perceber que a segunda tópica não substitui a primeira. Não era este o intento de Freud. O que ele pretendeu foi mostrar que não era mais viável encarar a mente como sendo compartimentada por três instâncias com fronteiras demarcadas, mas esclarecer que essas instâncias não são fixas e podem atuar de modo sincrônico junto ao ego, ao id e/ou ao superego.
Por Patrícia de Pádua Castro -
Na “Comunicação Preliminar” (1893), Freud começa a buscar o entendimento da etiologia da histeria e sua ligação com a sexualidade. Aponta os sintomas histéricos como a manifestação presente de um trauma ocorrido no passado, sendo que a causa precipitadora deste trauma encontra-se, frequentemente, em eventos ocorridos na infância.
O modelo teórico para a formação do trauma psíquico se dá na incapacidade de reação adequada do sujeito frente a um “acontecimento afetante”, sendo então, a representação do conteúdo insuportável expulso da consciência (recalcado), permanecendo o afeto sem desgaste por ab-reação ou pelo trabalho associativo do pensamento. Essa cisão da consciência faz com que a recordação do trauma não permaneça na memória normal do paciente e para ter acesso a esta representação recalcada, o médico (analista) deve buscá-la na memória do hipnotizado. A soma de excitação desvinculada da representação pode ser utilizada de formas distintas nas psicopatologias de histeria, obsessões, fobias e psicose alucinatória. A hipnose possibilita a expansão da consciência e propicia ao paciente a possibilidade de reviver o trauma e descarregar a soma de excitação por meio da fala, tendo o paciente uma segunda oportunidade de ab-reação adequada e correção associativa. Neste aspecto, o método catártico, “a cura pela fala”, mostra-se mais vantajoso e eficaz do que a sugestão médica sob hipnose.
A ideia de o sintoma ser a manifestação de um trauma ocorrido no passado, geralmente na infância, associado à etiologia da histeria ser unicamente de origem sexual, fez com que Freud acreditasse que os pacientes histéricos teriam sofrido um abuso sexual real, no âmbito físico, o que formaria a base para a “Teoria da sedução”. Neste caso, além da etiologia do trauma, o período de ocorrência seriam condições determinantes para instalação da doença psíquica. O trauma deveria ocorrer antes da puberdade, período em que a criança não tem condição psíquica de correção associativa ou de ab-reação adequada, ficando então a representação incompatível recalcada. E a doença psíquica se manifestaria após a puberdade, período de maturidade sexual onde experiências e excitações poderiam trazer o retorno do recalcado e a falha na defesa causando os sintomas. A histeria teria sua origem em uma experiência sexual passiva, enquanto a obsessão se originaria de uma experiência ativa, provavelmente, posterior a uma experiência passiva. As diferenças entre as neuroses, embora na mesma etiologia estariam no processo de defesa, a representação intolerável se converte em dor física na histeria e na obsessão se desloca para o pensamento
No ano de 1897, em uma carta enviada a Fliess, Freud começa a repensar a sua “Teoria da Sedução” por achar difícil a generalização de que a causa das neuroses é um ato sexual real ocorrido na infância e normalmente, segundo os seus casos, cometido pelo pai. Tal desconfiança abre portas para se iniciar a consideração da “fantasia histérica” como causa do trauma, o que foi relatado posteriormente em 1906.
O equívoco na elaboração da “Teoria da Sedução” e outros ocorridos no estudo da histeria podem ser explicados pela forma como a técnica fora conduzida até o momento. O método catártico, apresentado por Breuer, se origina do método de hipnose apresentado por Mesmer, em que se acreditava que o paciente sob hipnose diz sempre a verdade. Na hipnose, o hipnotizado “dorme para o mundo e está acordado para o hipnotizador”, apresentando uma postura obediente e crédula, sendo então passível de aceitar a sugestão do médico para alterar o seu estado anímico-corporal. Porém a limitação da hipnose aparece em situações em que a sugestão não é aceita, ou em que seu efeito é temporário, ou até mesmo com pacientes não hipnotizáveis, o que levou a necessidade de buscar outros procedimentos que possibilitassem uma intervenção mais profunda e em um número de casos mais abrangentes. No método catártico o médico deve seguir a trilha do sofrimento, ou seja, uma reconstrução histórica do sofrimento, apresentada pela fala do paciente, conduzindo-o até a sua causa primária (sintoma está ligado a um trauma do passado), dando-o a oportunidade ao paciente de reagir ao trauma de maneira adequada e ocorrendo então, a suspensão dos sintomas e eliminação do padecimento. Algumas modificações foram feitas por Freud no método proposto por Breuer, dentre elas que, durante a escuta e condução do paciente no processo de psicoterapia, o médico deveria ficar atento à fisionomia do paciente e à suas reações, pois se identificasse alguma resistência ao falar, ou tentativa de ocultar algo, deveria insistir com o paciente até extrair a verdade dele.
Nesse momento o conceito de resistência aparece como um dos fundamentos da teoria psicanalítica freudiana, embora essa ainda esteja mesclada com o método catártico, se ocupando em buscar a verdade em acontecimentos ocorridos no passado do paciente, e apresentando um Freud mais preocupado em provar suas teorias do que fazer uma investigação do inconsciente. A resistência possibilita a compreensão do comportamento do paciente e juntamente com a transferência oferecem a base para resolver a questão temporal presente no método catártico. Na transferência o paciente tende a reviver suas ideias penosas que surgem durante a análise na relação com o médico (analista), ideias essas que podem ter ocorrido no âmbito real ou imaginário, trazendo então para o presente situações que antes se supunha ter vivenciado apenas no passado. Deste modo, a “verdade e sua busca” saem do passado e se instalam numa relação presente e essa relação transferencialpassa a ser o objeto de trabalho em um consultório.
atePor Cilene Domitila Martins Poli -
O presente projeto se propõe a estudar a relação, mais especificamente o compartilhamento de dor que ocorre entre alguns analistas e pacientes. Para tanto, introduz-se o tema da psicanálise e o cenário em que são feitos os atendimentos, já que é neste setting que ocorre a transferência do sofrimento, da dor psíquica; é aqui que reconhecemos a dialética deste fenômeno de compartilhamento, uma vez que alguns psicanalistas, profissionais, se veem divididos entre prática e teoria.
Para compreender melhor como se dá essa divisão, em um segundo momento nos concentramos em entender quais são estas teorias sobre o sofrimento, como ele se manifesta e quais são alguns dos principais teóricos que se debruçaram sobre o tema. Alega-se que a teoria muitas vezes não condiz com a prática e que muitas vezes, por também ser um ser humano, vivo, o analista pode sucumbir às máximas da neutralidade e abstinência; assim, tendo estudado a teoria, nos voltamos a prática e a realidade das sessões psicanalíticas – aqui focamos em mapear os principais meios para diminuir o abismo entre teoria e prática, também nos perguntando se os sentimentos dos analistas são de fato um empecilho.
PALAVRAS-CHAVE: sofrimento; posição do analista; abstinência; contratransferência e neutralidade.
1. Introdução
1.1 Objetivo e MetodologiaO presente artigo surgiu do desejo de melhor compreender as transformações psíquicas vivenciadas por alguns analistas, no que diz respeito ao sofrimento que, muitas vezes, é compartilhado com o paciente. Assim, a proposta deste trabalho é oportunizar uma reflexão sobre este sentimento e o papel do analista de acordo com os princípios da Psicanálise.
Para tanto, a metodologia utilizada é uma junção das experiências pessoais obtidas ao longo do curso com a pesquisa bibliografia, feita por meio da leitura e análise dos princípios teóricos e técnicos da psicoterapia psicanalítica.
1.2 TemaA Psicanálise, assim como todas as ciências, busca uma suposta objetividade para pensar seu objeto de estudo. Assim como o físico estuda os fenômenos da natureza, tendo uma nítida separação entre aquele que está estudando (sujeito) com aquilo que está sendo analisado (objeto), alguns analistas, durante o atendimento, também buscam por uma suposta “neutralidade”, tentando muitas vezes colocar o paciente no mesmo patamar de um fenômeno físico. No modelo científico a intenção é conhecer o objeto; no modelo psicanalítico a intenção é conhecê-lo para transforma-lo, entretanto, a intensa interação entre analista e analisando é o que diferencia a situação analítica da experiência física, científica – e essa interação borra a diferença entre observador e observado, entre sujeito e objeto (ARMONY, 2013).
É o caso de alguns psicanalistas que, durante o decorrer do atendimento, acabam se fundindo ao pensamento do seu objeto de estudo. Essa junção resulta no “sofrimento”, o que por consequência estabelece uma nova relação entre sujeito e objeto, um possível compartilhamento do sentimento; isso se deve ao fato do objeto de estudo do psicanalista ser o próprio ser humano, fazendo com que várias vezes este analista acabe se identificando com seu objeto de estudo, já que, de acordo com Armony (2013), o profissional deve ter a capacidade de se identificar e ter empatia com o analisando, sendo capaz de perceber os seus próprios dinamismos psíquicos em referência a si.
A partir dessa relação entre sujeito e objeto, compreendo que durante o atendimento podemos dizer que há uma relação dialética do sofrimento. Isso porque a dialética supõe que há uma tese que vai ser negada (antítese) produzindo uma síntese; durante o atendimento podemos dizer que há uma suposta objetividade (tese) que é negada com a identificação do analista com seu objeto (antítese) produzindo uma nova relação entre o paciente e o psicanalista (síntese). Na prática, isso significa que, no começo da análise, alguns psicanalistas procuram estabelecer uma distância perante o sofrimento do paciente, justamente para tentar mimetizar a metodologia das ciências físicas. Entretanto, o pensamento do psicanalista, influenciado pela dor do paciente, pode resultar em uma assimilação do psicanalista com o analisando, resultando em uma nova relação entre os dois.
No caso desta nova realidade há, o tempo todo durante o atendimento, uma relação recíproca com o sofrimento. O sofrimento psíquico do paciente pode prejudicar a posição do psicanalista, provocando o sofrimento do mesmo; essa interferência muitas vezes pode prejudicar os atendimentos, uma vez que o analista corre o risco de ficar aprisionado na demanda do paciente. A partir disso, os principais desenvolvimentos deste trabalho se debruçam sobre as seguintes perguntas: como podemos pensar o sofrimento psíquico? O analista tem recursos técnicos para não se contaminar?
2. A dialética do sofrimento
2.1. A teoria do sofrimentoDe acordo com o dicionário etimológico, a origem da palavra “sofrer” deriva do latim sufferre, termo pelo qual os velhos romanos designavam quem estava "sob ferros", acorrentado, submetido à força - fosse escravo ou prisioneiro. Assim, o entendimento do popular "sofrimento" é: palavra pela qual melhor se traduz, em português, a infelicidade contínua e intensa e, no momento em que ocorre, irremediável. É justamente o vocábulo que designava a opressão, a submissão, a situação da criatura submetida ao poder de outrem que, como coisa ou "ferramenta", sofre todos os infortúnios capazes de lhe "ferir" (machucar) corpo e alma.
Na psicanálise esse entendimento pode deixar a realidade física e migrar para o ambiente mental, emocional. Antes de Freud, o sofrimento psíquico não tinha uma compreensão subjetiva, a sua interpretação era norteada por duas visões: a visão médica, associada a problemas físicos e a visão moral, definida pela doutrina religiosa, atrelada a uma intervenção disciplinar. No entanto, Freud acreditava que o sofrimento humano era mais abrangente, podendo surgir de três caminhos diferentes: da soma, do mundo externo e/ou do convívio com outras pessoas; a partir disso, a clínica da histeria foi o primeiro caso de sofrimento psíquico a inaugurar o tratamento psicanalítico, validando a existência de uma autonomia do sofrimento psíquico.
Complementando a subjetividade defendida por Freud, Duncker (2012) entende que o sofrimento humano é universal, mas não é idêntico ao longo do tempo e nem igual para todas as culturas. O sofrimento é uma emoção particular motivada por qualquer condição que submeta o nosso sistema nervoso ao desgaste de maneira consciente ou inconsciente - haveria um elo com a liberdade que foi perdido e que necessitaria ser reinventado. Para o autor, a natureza da experiência do sofrimento se transforma conforme falamos dele ou não, a exteriorização desse sentimento seria uma espécie de enlaçador social, uma ligação que tende a tocar o Outro e, por isso, o sofrimento aproxima as pessoas, é uma qualidade da empatia dos seres humanos.
Outra expoente contemporânea que se dispôs a investigar sobre a dor e o sofrimento foi a psicanalista portuguesa Manuela Fleming (2003). Fleming defende em seu livro “A dor sem nome: pensar o sofrimento” a ideia de que onde existe a dor existe a busca, existe a procura pelo Outro, já que o sofredor procura ser escutado, procura o contato, as palavras, procura, por fim, uma linguagem que contenha a dor e a torne suportável; esta dor necessita sentido e compartilhamento para ser sentida. Essa compreensão de Fleming está em linha com a exteriorização do sofrimento estudado por Duncker, que também a entendia como a busca pelo Outro pra validar o sofrimento.
Fleming define a sessão de análise como “uma escuta das dores mentais”, já sendo esperado que o sujeito adentre a clínica psicanalítica procurando respaldo para as suas dores e sofrimentos. Durante essa análise, por inúmeros momentos, alguns pacientes permanecem “surdos”, incapazes de digerir qualquer contribuição do analista, que tem sua função reduzida a “acolher, receber e conter, o que inevitavelmente coloca o analista perante os seus próprios limiares de tolerância à dor mental” (2003, p. 107). Em termos gerais, o analista acolheria o sofrimento do paciente e, ao reconhece-lo, o validaria como verdadeiro, respeitando toda a sua singularidade ao ser sensível diante de sua demanda. Essa interação entre identificações projetivas e introjetivas entre analista e analisando são muito importantes na clínica contemporânea, pois um depositará no outro seus objetos internos, experiências e fantasias inconscientes. Espera-se que, durante o processo analítico, o analista tenha, no mínimo, condições de regredir com o paciente, para melhor entendê-lo, mas logo voltar ao normal. (SILVA FILHO, 2002).
Com base nos autores apresentados acima, compreendemos que a pessoa do analista é o guardião do setting, mas este, por também ser humano, está sujeito as ressonâncias advindas do sofrimento do paciente. É uma posição desafiadora, esta de guardião neutro, uma vez que exige que o analista esteja sempre vigilante e domine as técnicas psicanalíticas, a fim de manter-se vivo diante das demandas – essencial para sustentar o atendimento durante o período necessário para o paciente.
2.2. O sofrimento na prática
Apesar do entendimento dos procedimentos e limites de uma análise, entendo que, em alguns momentos, a teoria psicanalítica se distancia da pratica vivenciada nos atendimentos. Não é suficiente entender os teóricos do sofrimento e os limites pré-estabelecidos como um check-list, uma lista de afazeres a ser seguida; sendo assim, considero importante pontuar algumas regras da teoria psicanalítica que auxiliam o analista a separar os conteúdos internos do paciente e dos seus próprios.Com a intenção de orientar esse processo analítico, Freud deu ênfase a quatro regras mínimas para se conduzir o atendimento psicanalítico: a associação livre (regra fundamental), a atenção flutuante, a abstinência e a neutralidade. Enquanto a associação livre e a atenção flutuante focam em fazer com que o conteúdo inconsciente do paciente emerja durante o processo analítico, acredito que a abstinência e a neutralidade, por lidarem diretamente com o relacionamento interpessoal, se relacionem mais diretamente com o compartilhamento do sofrimento - sendo assim, neste artigo, foca-se no entendimento destas duas últimas regras em especial.
A regra de abstinência refere-se à necessidade do analista de se abster de qualquer tipo de atividade que não seja unicamente o da interpretação, preservando ao máximo o seu anonimato e evitando qualquer gratificação externa (ZIMERMAN, 2004). De acordo com Laplanche e Pontalis (2001) o analista deve conduzir o tratamento de uma maneira que o paciente encontre menores possibilidades de satisfação substitutiva para aos seus sintomas. Napoli (2014) comenta que, segundo a visão freudiana, é preciso recusar a demanda de amor do paciente, mantendo o doente em um estado de insatisfação suficientemente bom, com a intenção do recalcado permanecer se manifestando, tornando-se objeto da consciência. A ideia é reforçada no congresso de Budapeste, em 1918, quando Freud justificou teoricamente a regra de abstinência afirmando que “por mais cruel que possa parecer, devemos fazer o possível para que o sofrimento do doente não desapareça prematuramente de modo acentuado” (LAPLANCHE e PONTALIS, 2001, p.3).
Nota-se que a visão clássica freudiana tem a intenção de aumentar a tensão psíquica do paciente, frustrando a sua demanda e, por consequência, facilitando o surgimento dos conteúdos recalcados. Zimerman (2005), por sua vez, sintetiza a regra da abstinência afirmando que a melhor forma de o analista atender as demandas do paciente é a de entender e interpretar o “por quê” e “para que?” delas.
Outra regra citada por Freud que neste artigo se faz igualmente importante à abstinência é a neutralidade. Segundo o Vocabulário da Psicanálise Laplanche e Pontalis (2001), a neutralidade é o que deveria definir a atitude do analista no tratamento, o profissional deve ser neutro em relação a quaisquer valores, sejam estes religiosos, morais ou sociais; o psicanalista deve se manter neutro frente às manifestações transferenciais, ou seja, não deve entrar no jogo do paciente, mantendo-se neutro quanto ao discurso do analisando.
Em seu texto “Neutralidade e Psicanálise”, Armony (2013) comenta que o analista tem a obrigação de impedir que a sua subjetividade contamine as manifestações do inconsciente do paciente. Este é um requisito para o analista ter certeza de que as suas percepções, interpretações e intervenções estariam associadas unicamente com o paciente, sendo o analista apenas um reflexo - para compreender melhor essa ideia, podemos nos debruçar sobre a “metáfora do espelho”, citada por Zimerman (2005). A metáfora seria a representação do cenário analítico em que o “o psicanalista deve ser opaco aos seus pacientes e, como um espelho, não lhes mostrar nada, exceto o que lhes for mostrado”; a visão freudiana de um “analista-espelho” e de opacidade não significa, necessariamente, um descaso ou uma frieza emocional por parte do analista, trata-se apenas de uma recomendação para que o analista não seja transparente, não se deixe expor os seus próprios sentimentos. A partir disso, é possível compreender que o analista não deve se posicionar, durante o atendimento, como uma pessoa que esta se relacionando com outra – é necessário que ele esteja “apagado”, a fim de criar condições para que o inconsciente se faça presente.
No entanto, esta postura freudiana suscitou em alguns autores como Winnicott e Ferenczi um olhar diferenciado sobre neutralidade, já que ambos entendiam que os sentimentos do analistas, durante o atendimento, têm seu valor para a análise. Nas palavras de Ferenczi, “não será natural, e também oportuno, ser francamente um ser dotado de emoções, ora capaz de empatia, ora abertamente irritado? O que quer dizer: mostrar-se sem disfarces, tal como se exige do paciente” (1932, p.132). Do ponto de vista ferencziano, o analista precisa fazer uso da empatia e se posicionar não mais em uma posição de neutralidade e objetividade, mas deve demonstrar sintonia, respeitando e sentindo o sofrimento que lhe é dirigido (NAPOLI, 2014); este entendimento de neutralidade está em linha com Zimerman, visto que o autor acredita que a máxima do analista neutro seja uma ilusão, impossível de ser atingida já que o analista é um ser.
Ainda não citado, existe um terceiro aspecto requisitado dos analistas, tão importante quanto a neutralidade e abstinência: a contratransferência. De acordo com Laplanche e Pontalis (2001), a contratransferência diz respeito as reações conscientes e inconscientes do analista para com o analisando - na prática analítica é considerada como um dos fenômenos mais fundamentais e carregado de muitas controversas. De um lado, existe a defesa freudiana de que a contratransferência é um fenômeno que atrapalha o processo da análise, uma forma marcante de resistência; do outro, existem interpretações que consideram o fenômeno digno de estudo e entendimento, Zimerman (1999) acredita que a mesma abre uma nova possibilidade de escuta: a escuta da própria emoção do analista em frente a verbalização do paciente. Mesmo anterior a Zimerman, Heimann (1950) sempre observou a contratransferência como uma ferramenta de análise positiva e valiosa, “minha tese é que a resposta emocional em correlação a seu cliente dentro da situação analítica representa uma das mais importantes ferramentas de seu trabalho. A contratransferência do psicanalista é um instrumento de pesquisa sobre o inconsciente de seu paciente” (idem, p. 28).
Para Ferenczi (1992) quando o analista se afasta de uma posição relativamente segura oferecida pela neutralidade e abstinência, ele adota uma posição de “parceria”, no sentido de ter disponibilidade afetiva, transformando-se, metaforicamente, na figura do “João Teimoso”, visto que receberá vários movimentos afetivos, de agressivos a amorosos, mas conseguirá retornar a posição original e assim ser capaz de sobreviver a esses movimentos. Ferenczi faz a seguinte descrição:
O analista no tratamento deve prestar-se, às vezes durante semanas, ao papel de “joão teimoso”, em quem o paciente exercita seus afetos de desprazer. Se não só não nos protegermos, mas, em todas as ocasiões, encorajarmos também o paciente, já bastante tímido, colheremos mais cedo ou mais tarde a recompensa bem merecida de nossa paciência, sob a forma de uma nascente transferência positiva (1992, p.35).
Dessa forma, a contratransferência é, sem dúvida, mais um aspecto que deve ser considerado na tentativa de entender a dialética do sofrimento que pode ocorrer entre alguns analistas e pacientes. À primeira vista e na contramão das regras de abstinência e neutralidade, a contratransferência pode se tornar uma realidade quando alguns psicanalistas falham em estabelecer limites psíquicos na sua relação com o analisando. É, no entanto, uma ferramenta que pode se fazer positiva ou negativa dependendo dos recursos internos e técnicos do analista, no sentido de compreender o que é mais efetivo individualmente para seus pacientes.
A fim de explicitar este sentimento, compartilho uma vivência pessoal sobre o fenômeno de contratransferência em um dos meus atendimentos. O paciente em questão chama-se Nelson (nome fictício), tem 45 anos, é casado e trabalhou durante quinze anos como agente penitenciário em um presídio de segurança máxima, mas há seis anos é professor concursado do ensino médio da rede municipal e estadual. Nelson enfrentou alguns problemas pessoais na escola municipal que lhe tiraram o prazer de lecionar na mesma, mas sentia-se obrigado e acorrentado à esta realidade, já que estava prestes a se aposentar.
A sua expectativa diante da terapia era resolver sua grande insatisfação diante da própria vida, uma vez que não se via com capacidade de ser e fazer o que realmente desejava. Transcrevo abaixo um trecho do nosso primeiro encontro:
Nelson: Tenho a sensação de que muito pouco realizei. Começo, mas não persevero; muitas das vezes sequer começo: fico apenas no campo das ideias porque vários fatores me impedem de realizá-los. Hoje consigo identificar o fator maior que é minha doença; consigo vislumbrar algumas formas tênues para driblá-la, mas falta dar alguns passos para efetivamente realizar aquilo que eu sou. Veja bem: aquilo que eu sou, pois não me vejo como alguém que seja, mas sim como alguém que "gostaria de ser mas não é". Não se trata de "ser o que quero ser", muito mais que isso, trata-se de me sentir realizando a minha própria existência: não me vejo; não me reconheço; não realizo; apenas sou aquele que "gostaria ser" mas que não é. É como se minha existência se resumisse a um "não ser". Você entendeu tudo o que eu te disse? Você é uma profissional, então você deve ter uma solução para este tipo de problema?Neste momento, tive a percepção de que o paciente depositava em mim toda a responsabilidade das suas atitudes e escolhas. Frente a isso, acabei respondendo que “talvez a minha resposta não te agrade muito, pois não tenho soluções mágicas e imediatas, nem uma receita pronta para lhe oferecer”. A resposta, realmente, não lhe agradou e Nelson alegou que precisava de uma orientação mais eficaz, que teria que avaliar se valeria a pena fazer terapia; não consegui nem me despedir dele que, diante da minha resposta, se irritou e desligou o Skype. Minha experiência emocional no momento foi de fracasso profissional, já que não havia tido condições de levar o atendimento a um término mais conciliador - vivi uma semana com um superego me condenando por não ter oferecido um acolhimento adequado.
Nelson decidiu continuar o tratamento e, naturalmente, situações como essa se mantiveram durante algumas sessões. As angústias contratransferências e um superego feroz dificultaram as minhas interpretações diante da demanda do paciente; em determinadas ocasiões os rompantes agressivos do paciente com a sua família pareciam ser redirecionados a mim. No nosso terceiro encontro, contou com raiva e mágoa que havia expulsado a família de casa; a expulsão se deu porque já tinha os avisado que precisava de privacidade para falar comigo, sem que ninguém o escutasse – ele precisava de um momento só dele e os familiares foram obrigados a esperar no quintal. Essa situação de abandono e “expulsão” se deu novamente em uma outra ocasião enquanto acompanhava a filha em uma loja, mas como a filha demorava e seu horário de atendimento estava se aproximando, Nelson acabou deixando-a na loja sem lhe dar qualquer satisfação.Nestes dois momentos fiquei surpresa com os sentimentos variados que tomaram conta de mim, me transferi para o lugar da esposa e me senti indignada com a atitude do paciente; imaginei a raiva e a desilusão da filha diante da atitude de abandono do pai. Foram experiências contratransferênciais difíceis que me provocaram muita irritação, o que, por consequência, me fez condenar, internamente, as decisões de Nelson como negativas.
Com o auxílio da supervisão e da análise pessoal percebi o quanto o meu raciocínio clínico estava ficando contaminado, afetando o manejo terapêutico; com a supervisão consegui compreender que as atitudes agressivas e hostis com a família eram, na verdade, um comportamento saudável e compreensível, uma tentativa de ocupar um espaço que fosse seu. Era o ser que ele tanto procurava.
3. Conclusão:A partir do entendimento do tema e da divisão do sofrimento em duas principais vertentes - a teórica, no que diz respeito ao que ele significa, e a prática, quando tentamos lutar contra este sentimento - é possível que nos debrucemos sobre algumas conclusões sobre o assunto. Em primeiro lugar, compreendemos que o sofrimento é uma emoção universal, que se estabelece de maneira singular no ser humano mas, ao mesmo tempo, é importante que nos preparemos para acolher a demanda dessa emoção da melhor forma possível.
Inserir o sofrimento no contexto analítico e alia-lo as regras de abstinência, de neutralidade e do fenômeno da contratransferência mobilizam questões emocionais muito delicadas, nos levando sempre a questionamentos sobre a prática psicanalítica. Seja equiparando a psicanálise ao estudo das ciências quantitativas ou não, Fleming (2003) lembra que, para Bion, a possibilidade de psicanalisar depende da condição do analista de suportar a dor mental – o que revela o pressuposto de que a dor e o sofrimento pode ser amortecido, diminuído mas dificilmente blindado; de acordo com Semer (2008), é esse reconhecimento da dor psíquica que possibilitará ao analista o reconhecimento e a elaboração das emoções contratransferênciais, sem o perigo da ação ou da paralisia.
É oportuno lembrar que a Psicanálise prima a busca pela verdade, um elemento libertador e essencial para o crescimento psíquico. A busca é personificada na figura da “pessoa verdadeira” (ZIMMERMAN, 2005), que tem amor pelas verdades, por mais difíceis que estas sejam, logo seria importante transferir o modelo da verdade para o paciente, já que esta é justamente o caminho para o sujeito vir a ser. Por esta razão, quando minha consciência tenta combater as emoções de sofrimento vivenciadas no setting terapêutico, recorro ao posicionamento técnico de Ferenczi. Defensor de uma verdadeira elasticidade da técnica psicanalítica, o autor entende que o analista não poderia ser visto como um lugar, uma função ou até mesmo como um vazio, isso porque o analista é dinâmico e é, antes de tudo, uma pessoa que constitui uma relação real com o paciente. Assim, se o analista tentar ocultar do analisando as suas emoções produzidas durante o processo analítico, ele estará impossibilitando o estabelecimento de uma relação autêntica, verdadeira (NAPOLI, 2014). Para Ferenczi existia uma “hipocrisia profissional” em alguns analistas, aqueles que nunca expressavam as suas emoções para não corromperem com a neutralidade; o autor compreendia a necessidade da empatia e da sintonia diante do sofrimento do Outro, abrindo mão de um posicionamento neutro e objetivo e dando lugar a uma atitude terapêutica espontânea e verdadeira.
Paciente e analista são duas pessoas reais com as suas inevitáveis limitações e angústias, assim, tornou-se consensual entre alguns psicanalistas contemporâneos que há uma impossibilidade de continuar concebendo o modelo unipessoal no setting. Uma parte dos profissionais acreditam que tampouco é possível que a análise seja linear e sequencial, uma vez que esta consiste num modelo dialético entre analista e analisando, onde as teses, sofrimentos, apresentadas pelo analisando são confrontadas com as antíteses, perguntas, propostas pelo analista, de modo que resultam em sínteses (insights), transformações, que funcionam como novas teses, caminhos (ZIMERMAM, 1999). De toda forma, independente do posicionamento dos autores – contra ou a favor do compartilhamento do sofrimento – é possível concluir que há uma concordância ao afirmar que o sofrimento, dentro do processo analítico, acarreta mudanças mútuas no par analista-analisando. Estas mudanças geram resultados únicos e nunca replicáveis, e cabe ao analista estabelecer seu modus operanti para garantir que sua qualidade humana não atrapalhe o resultado da análise; ferrenho seguidor da abstinência e da neutralidade ou não, que seja eficaz no gerenciamento de emoções, tanto as suas quanto a dos Outros.
4. BIBLIOGRAFIAARMONY, N (2013) Neutralidade em Psicanálise. Disponível em: http://nahmanarmony.blogspot.com.br/2013/09/neutralidadeem-psicanalise-nahman.html. Acesso em: 04/09/2015.DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO. Disponível em: http://www.dicionarioetimologico.com.br. Acesso em: 02/09/15. DOLTO, Françoise. Prefácio. In: MANNONI, Maud. A primeira entrevistaem Psicanálise. Rio de janeiro, Campus, 1980.DUNKER, C. As transformações do sofrimento psíquico, 2012. Disponível: http://www.cpflcultura.com.br/2012/10/22/christian-dunker-as-transformacoes-do-sofrimento-psiquico-2/. Acesso em 15/09/2015FERENCZI, S. A técnica psicanalítica (1919) in: FERENCZI, S. Obras Completas – II. São Paulo: Martins Fontes, 1992.__________, S. (1932) Diário Clínico. São Paulo: Martins Fontes, 1990.FLEMING, M. Dor sem nome. Pensar o sofrimento. Porto: Afrontamento, 2013.HEIMANN, P. Sobre a contratransferência. Revista de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (Jussara Schestatsky Dal Zot, Trad.), 21, 171-177. (Trabalho original publicado em 1950). Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010356652013000100012&script=scixt. Acesso em: 06/09/15.LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.MANNONI, Maud. A primeira entrevista em Psicanálise. Rio de Janeiro, Campus, 1980. NAPOLI, L. (2014). Quando o analista se apaga. Disponível em: http://lucasnapoli.com/. Acesso em: 04/09/15SEMER. N.L. Revista Brasileira de Psicanálise. São Paulo. v.42 n.2, jun. 2008 Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0486-641X2008000200016&script=sci_arttext. Acesso em: 02/09/15.SILVA FILHO, A. C,(2002)Experiência psicanalítica. Disponível em: http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol29/n5/256.html. Acesso em: 06/09/15ZIMERMAN, D. E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica – uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999._____________. Manual da técnica psicanalítica: uma re-visão / Porto Alegre: Artmed, 2004._____________. Psicanálise em perguntas e respostas: verdades, mitos e tabus. Porto Alegre: Artmed, 2005.
Por Marcelo Moya -
Tempos realmente difíceis estes que estamos vivendo. Diariamente somos dominados por sentimentos ambivalentes entre a esperança pela chegada de dias melhores principalmente em relação às medidas de combate à pandemia que se arrasta há um ano, e da tensão vivida frente aos índices alarmantes do aumento diário de pessoas contagiadas e vítimas fataisdo Covid-19.
Mesmo com um forte apelo existente para que a população abrace as medidas preventivas essenciais como distanciamento social, uso de máscara, lavagem e álcool das mãos e superfícies, além das orientações restritivas para que se sejam evitadas aglomerações, a impressão que nos causa é que ainda estamos caminhando exata e desordenadamente no sentido contrário de tudo disso.
O que se vê em todas as regiões do país são pessoas, que independente de classe social, violam regras e desacatam autoridades através de organizações de festas, eventos religiosos, aglomerações de lazer, enfim, ajuntam-se justificadas por todos os tipos de contextos e pretextos, sempre na maioria das vezes displicentes e às escondidas, e com raras exceções de intervenção policial ou do poder público.
Isso vem despertando na sociedade muita revolta, repulsa e indignação principalmente pela grande maioria da população, e que embora vem seguindo firmemente com todas as orientações, normalmente se tornam alvo fácil de contaminações disseminadas por estes aventureiros insanos e inconsequentes.
Sigmund Freud escreveu que “duas coisas fazem o ser humano sofrer, neste caso, a doença e a estupidez”. E agora estamos sendo exatamente afligidos por ambas ao mesmo tempo.
Mas afinal, o que leva uma pessoa agir dessa maneira? Porque ela insiste em querer violar regras se achando acima do bem e o do mau, e quando indagada, cerca-se de justificativas mais infundadas e absurdas. As razões são diversas, mas ressalto alguns apontamentos para nossa reflexão.
Albert Einstein certa vez disse que “duas coisas são infinitas, a saber, o universo e a estupidez humana, em relação ao universo, não tenho certeza absoluta”. De fato, a ignorância não somente cega, mas contagia outros e se torna uma grande muralha que separa o mundo. Na mesma direção Sigmund Freud também escreveu que “duas coisas fazem o ser humano sofrer, neste caso, a doença e a estupidez”. E agora estamos sendo exatamente afligidos por ambas ao mesmo tempo.
Mas isto nos abre um vértice para pensar sobre a natureza psíquica e suas psicopatologias. Freud vai nos dizer que a nossa personalidade se alicerça sobre um modelo ilustrativo de tripé que ele denominou de neurose, psicose e perversão, e que embora a maioria se fixe na neurose, todavia oscila-se entre elas, ou seja, todos nós em algum momento nutrimos sentimentos e agimos por contornos psicóticos ou perversos, com exceção daqueles sujeitos mentalmente adoecidos.
Também vai falar que o nosso Eu se organiza de formas defensivas diante de ideias e sentimentos percebidos como conflituosos. E o que podemos dizer a respeito? Que desviar-se da realidade em demasia e agir de forma alheia a tudo o que se passa ao redor de si sem se dar conta do possíveis riscos e consequências simplesmente a serviço do bel prazer e da satisfação a todo custo apontam para um ser absolutamente regredido a um mundo mental delirante e alucinatório.
"... cada um age conforme a natureza que possui..."
Indivíduos plenos de altivez como seres divinos e poderosos, na ilusão de se sentirem imunes das mazelas e fragilidades da vida humana, denotam explicitamente características patológicas de perturbações mentais extremamente rudimentares e de absoluta defesa psicótica onipotente. Falecido recentemente, o psicanalista Contardo Calligaris (1948-2021) havia afirmado que "a patologia, nesta pandemia, não está no suposto pânico, mas na negação do que está acontecendo."
Certa vez um homem caminhava pelo bosque com um amigo, e ao avistar um escorpião se afogando no lago, o retirou da água. Imediatamente o animal lhe desprendeu um ferrão. Aquele homem indagado pelo amigo pelo fato de ter salvado àquele que depois o machucou respondeu: - agi com minha natureza, o escorpião com a dele. Neste caso, cada um age conforme a natureza que possui.
Não bastam apenas empreender medidas cíveis de repressão e punição (embora necessárias), porque a natureza de um ser psiquicamente comprometido o fará agir novamente por tantas outras vezes independente do que lhe for imposto como sanção. Neste caso, o que resta é uma intervenção psiquiátrica e anos a fio de análise. O que passar disso, só nos cabe acreditar em milagre.
Por Marcelo Moya -
O que quer uma mulher, afinal? A pergunta que até inspirou o título de uma famosa minissérie da TV brasileira, pertence a Sigmund Freud (criador da psicanálise) e foi dita numa conferência em 1932 que discutia exatamente sobre o feminino. Ele relatava um caso clínico com uma de suas analisandas, Marie Bonaparte (sobrinha bisneta de Napoleão).
Freud comparou sua paciente a um enigma que não conseguia decifrar: " - a grande pergunta que não foi nunca respondida e que eu não fui capaz ainda de responder, apesar de meus longos anos de pesquisa sobre a alma feminina é, o que quer uma mulher? ", confessou o criador da psicanálise diante de seus ouvintes mais atentos na plateia.
Nota-se que embora tenha dedicado sua carreira pesquisando a vida mental e os instrumentos para exploração do inconsciente, este tema nunca se afastou dos tratados de Freud. Criado numa cultura conservadora onde as mulheres se limitavam praticamente a papéis maternais, domésticos e dependentes do cônjuge, foi a partir de seus estudos da histeria e as novas descobertas sobre sexualidade, que Freud iria construir uma sólida relação entre a psicanálise e o feminino.
As teorias freudianas sobre as fases mais rudimentares da psiquê e dos estágios iniciais de desenvolvimento e organização da personalidade, apontaram que os processos no menino eram mais simplificados se comparados aos da menina, estes um tanto mais complexo, despertando o interesse de Freud que, partindo da experiência com suas pacientes mulheres, pôde aprofundar modelos psicanalíticos como as estruturas da mente, o desejo, as emoções e as dinâmica das relações humanas.
...não se nasce mulher, torna-se mulher?
Simone de Beauvoir (que se comunicava com Freud) é autora da célebre frase "não se nasce mulher, torna-se mulher" e foi uma das protagonistas da primeira metade do século 20 na profusão do debate sobre o feminino na sociedade e que se ampliava rapidamente no propósito de libertar as mulheres da sujeição dos rígidos padrões sociais e religiosos que lhe eram impostas e que segundo a psicanálise, as aprisionavam num côncavo do adoecimento neurótico, arrastando-as a condições de morbidade.
Embora por vezes mal compreendido, rotulado de machista e fortemente criticado pelo fato de como seria possível a um homem versar conhecimentos sobre feminilidade, verdade é que os tratados de Freud de certa maneira foram relevantes para a compreensão e ressignificação do ser mulher e de seu lugar no mundo. Ele se empreendeu à tarefa de explorar a alma feminina, e mesmo sem muitas respostas, conseguiu ser capaz de observar um dos principais anseios do sexo oposto: a liberdade.
Sim, a mulher necessita ser livre, pois assim clama seu corpo e sua alma. Não apenas por fazer frente a uma cultura pressionada pelos tradicionais modelos patriarcais, mas um anseio que urge do âmago de sua essência. E podemos pensar esta liberdade e partir de três desdobramentos.
...a modernidade se conjuga no feminino?
Possivelmente uma liberdade de desejar, desfrutar do prazer de viver e do viver com prazer. Como afirmou a ativista e psicanalista russa Lou Andreas-Salomé: "Ouse, ouse, ouse tudo, não tenha necessidade de nada, não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém..." Outro vértice de reflexão tem a ver com a liberdade de escolher, tempos bem recentes da história atestam que nem isso era permitido. E por fim, a liberdade de amar. Para Freud, uma das maiores angústias que aflige a mente feminina e a faz sofrer é o medo de nunca se sentir amada.
Como disse a psicanalista Regina Neri, "a modernidade se conjuga no feminino". Não obstante, esta mulher moderna por vezes se vê ameaçada pelos totalitarismos da felicidade, do corpo, do consumo, do estético, do casamento feliz, da maternidade ou da carreira bem-sucedida a qualquer custo, todavia, é a mulher que não deseja, não escolhe e não vive o amor que irá buscar através do divã e suas análises, meios para não adoecer de si mesma. O que passar disso, "deixemos para os poetas", disse Freud.
E como cantou Erasmo Carlos: “Dizem que a mulher é sexo frágil, mas que mentira absurda, eu que faço parte da rotina de uma delas, sei que a força está com elas". Feliz Dia Internacional da Mulher.