Por Marta M. Kanashiro -
“Pedras sonhando pó na minaPedras sonhando com britadeirasCada ser tem sonhos a sua maneira”(Lula Queiroga, Noite Severina)
Publicada em 1900, a “Interpretação dos sonhos” de Sigmund Freud é um dos pilares fundamentais da psicanálise e considerada uma das grandes obras do século XX, ainda que tenha sido escrita e publicada no século anterior.
A originalidade e ineditismo da obra acompanharam a efervescência científica, cultural e artística da virada do século e fizeram deste trabalho de Freud um marco mundialmente reconhecido.
O livro recupera temas já tratados nos estudos de histeria na direção de aprofundar e rever o leque conceitual psicanalítico, assim como de estabelecer avanços inéditos na psicanálise.
Para abordar o sonho, tema central da obra, é necessário indicar antes que Freud afastou outros sentidos do termo, como o devaneio em vigília ou as expectativas de futuro, para centrar-se na experiência que ocorre durante o sono e que o psicanalista define como a realização de um desejo. Tendo o sonho como foco, a interpretação aparece no livro como método, mas não em substituição a um método anterior. Esse movimento de continuidade se contrapõe ao que Freud realizou anteriormente em seu trabalho, a saber, a revisão acerca da validade da hipnose e do método catártico e sua substituição pela livre associação como método mais apropriado. Na obra de Freud aqui tratada, a interpretação dos sonhos e a livre associação não se excluem enquanto métodos mais ou menos válidos, mas coexistem e se complementam para a análise.
Para estabelecer a interpretação do sonho como método, Freud realiza uma espécie de dissecação ou fragmentação do sonho para compreender suas partes de forma minuciosa, observando as associações surgidas com cada uma dessas partes, tal como na (auto)análise que se tornou clássica: o sonho da injeção de Irma. Vale notar aqui que a estratégia de observação é a de fracionar em partes aquilo que se quer conhecer, talvez mais um dentre vários esforços de Freud para o reconhecimento científico da área em criação, mas que traz à tona temas (como as regras do método e o interessante debate que pode ser estabelecido com Descartes) que fogem ao escopo do solicitado para o presente texto. Para este momento, vale apenas dizer que o movimento cartesiano de fracionar em partes para analisar e ordenar se concretiza em Freud como marcador de cientificidade, mas na direção de subverter o cogito cartesiano.
Para alcançar a definição freudiana do sonho como realização de um desejo, é necessário retomar a ideia de recalque. Nos estudos sobre histeria, recalque foi apontado como inibição, esquecimento ou repressão de um evento traumático e de afetos que não puderam ser devidamente expressados (ausência de ab-reação), em função das mais variadas imposições ou contextos vividos. Censurado pela consciência, isso que foi reprimido, recalcado ou tornado inconsciente (surge como, ou) gera sintomas. A análise empreendida por Freud mirava a gênese do trauma, a origem ou causa dos sintomas, ou no limite, aquilo que foi recalcado. Estabelecida essa relação entre trauma e sintoma é importante acrescentar que desejos (movidos constantemente pelo impulso na direção de algo) que não puderam ser vivenciados também são recalcados. A expressão ou realização desses desejos barrados pela consciência pode ocorrer em sonho, daí a definição de Freud: o sonho é a realização de um desejo.
Como veremos mais adiante neste artigo, o desejo não reaparece para se realizar ou expressar no sonho em sua forma pura, mas sim de maneira mesclada ou disfarçada. Por ora, é necessário destacar que essa reaparição, no sonho, do desejo tornado inconsciente é conhecida como retorno do recalcado. Assim, o que foi reprimido e expulso da consciência reaparece para se expressar ou se realizar de forma onírica; retorna, portanto, de uma instância inconsciente para um espaço que permite a lembrança consciente ainda que inexata e com traços, na maior parte das vezes, incoerentes ou não coincidentes com a realidade. Note que esse movimento entre recalcar algo e expressá-lo (ou retorná-lo, trazendo do inconsciente para o consciente) ocorre numa espécie de jogo ou negociação entre forças psíquicas, dentre outras, a censura e o impulso de expressar o desejo. O retorno do recalcado surge então como resultado dessa transação, a qual Freud chamou de formação de compromisso.
A esta altura, é possível concluir que sintoma e sonho se aproximam, pois ambos surgem como expressão ou realização do que foi recalcado, seja pela manifestação física ou onírica, respectivamente. É neste sentido, que também ambos podem ser compreendidos como retornos do recalcado, assim como a transferência, os chistes e atos falhos.
Compostos por fatos e acontecimentos mais recentes do cotidiano (restos diurnos), representações e afetos (por vezes desligados de suas representações), os sonhos são articulados pelo impulso para a realização de um desejo. A interpretação que se volta para os sonhos como método analisa o relato dos sonhos dos pacientes, ou o seu conteúdo manifesto que não coincide com o que de fato foi sonhado. A narrativa do analisando sobre o sonho busca estabelecer uma coerência, ordem ou sequência lógica para o sonho, o qual é marcadamente caracterizado pelas qualidades opostas: incongruência, desordenação, ilogicidade. Este esforço narrativo, denominado por Freud como elaboração secundária, carrega consigo censuras, defesas e resistências que atuam como distorção do sonho de fato sonhado e como proteção do conteúdo latente dos sonhos, os pensamentos oníricos reprimidos ou escondidos. A análise do relato e suas associações têm como intuito desvelar (e decifrar) este conteúdo latente. A interpretação permite, portanto, conhecer os sentidos do sonho ou realizar uma espécie de esforço arqueológico-investigativo para alcançar o recalcado, escavando camadas de distorções, o que ressalta a(s) resistência(s) e o conflito de forças psíquicas como norteadora(s) na análise freudiana. Desta forma, a análise mira não somente o conteúdo manifesto, mas sua relação com o conteúdo latente e os processos que transformam (ou efetuam a passagem) dos pensamentos oníricos latentes para conteúdo manifesto dos sonhos.
É na passagem do latente ao manifesto que se processa aquilo que Freud chamou de “o trabalho do sonho” e que nomeia o capítulo VI da “Interpretação dos sonhos”. De forma geral, trata-se de mecanismos de distorção do sonho de fato sonhado ou de operações que permitem que o sonho seja definido como a realização de um desejo, ao que se acrescenta agora o adjetivo disfarçado. Afinal, na perspectiva freudiana, apenas pelo disfarce é possível que aquilo que foi reprimido ultrapasse a censura na direção de um espaço mais consciente.
Para que os sonhos apresentem-se na forma relatada, Freud aponta como dois fatores principais a condensação e o deslocamento. O trabalho de condensação realiza uma compressão do volume sonhado em um fragmento ou realiza uma reunião de diversos aspectos ou elementos numa figura única, numa única palavra ou ponto. Neste trabalho do sonho, uma representação (que pode ser uma pessoa, objeto, palavra, imagem etc) assume o lugar de várias outras. Essa compressão pode ainda anular a sequência temporal lógica unificando presente, passado e futuro, assim como reunir sentimentos antagônicos, diferentes sensações e percepções e construir figuras quiméricas ou uma composição de elementos diversos. Remetendo ao sonho da injeção de Irma, Freud exemplifica Irma como figura onírica condensando várias outras pessoas pelos aspectos e situações a que se conectava em seu relato do sonho. No caso, Irma onírica condensava aspectos da própria filha de Freud, outra paciente, uma criança examinada em outro momento, dentre várias outras. Já o trabalho de deslocamento (que pode estar contido na condensação) transfere uma representação para outra, sem menção ao contexto original e modificando o foco e a intensidade, ou seja aspectos e detalhes importantes (com alto valor psíquico) são transferidos para elementos insignificantes (com baixo valor psíquico). A ênfase maior em determinado aspecto é operada a partir de várias direções possíveis do deslocamento e da seleção de conteúdos diferentes. Assim, o que é incluído (nem sempre o principal) ou excluído do sonho é uma operação com determinações múltiplas (o trabalho da sobredeterminação). É esse movimento que determina maior ou menor valor aos elementos do sonho.
Ao estabelecer esses trabalhos do sonho, Freud promove uma tipificação e um detalhamento dos movimentos realizados para sua formação. Considerando a supracitada tarefa (e método) de interpretação dos sonhos, situar as operações realizadas pelos trabalhos do sonho é fundamental para a análise, pois aponta os caminhos que o psicanalista deve percorrer (numa espécie de engenharia reversa) para chegar ao recalcado.
Ao constituir o sonho por muitas camadas de operações de defesa e resistência que impedem de alcançá-lo, Freud sinaliza o sonho (de fato sonhado) como inalcançável ou inexistente (em seu sentido empírico). A sensação deve-se ao fato da construção do sonho ser realizada por Freud a partir das resistências, como que afirmando algo pela sua negação (impossibilidade de alcance). A teoria freudiana ao centrar-se na(s) resistência(s) destaca o conflito como elemento estrutural fundamental. Forças e direções contrárias (conflitantes) e a energia para a realização desses movimentos compõem assim o funcionamento dessa estrutura que a psicanálise freudiana pretende decifrar e que a obra Interpretação dos sonhos esmiúça tão finamente.
Por Alexandre Renaut -
Em aparência absurdos e desprovidos de sentido, os sonhos se apresentam como uma cadeia de imagens e eventos sem nexo explícito para o olhar leigo. Para Freud, porém, estes fenômenos psíquicos têm um sentido e uma causa, e eles expressam a realização disfarçada de desejos inconscientes que estão em conflito na vida anímica do paciente. Nesta batalha, a representação conflitante é recalcada – mas o desejo segue habitando o inconsciente, buscando constantemente sua realização – e acaba achando no sonho uma forma oportuna e viável para se expressar.
É curioso e fascinante entender porque o sonho é um terreno tão fértil para esse “retorno do inconsciente recalcado”. Primeiramente, na vida onírica, nosso consciente fica literalmente adormecido, afastado do mundo e dos estímulos externos. Este desligamento afeta também nossos mecanismos de defesa e nossa censura, que já não conseguem barrar com tanta eficácia o desejo inconsciente conflitivo. O relaxamento do sono permite então a vazão destes desejos, que se manifestam de forma velada nos sonhos.
Importante ressaltar que o sonho lembrado pela memória do sonhador é o que chamamos de conteúdo manifesto – ele parece confuso e absurdo porque se manifesta através de símbolos que se misturam com restos diurnos – porém, seu sentido oculto pode ser revelado, através da sua associação com um conteúdo latente original e próprio do paciente. É no conteúdo latente que os pensamentos e desejos recalcados habitam – e é através do sonho que estes conseguem driblar a censura, se transformando e se materializando em conteúdo manifesto.
Na psicanálise, o trabalho de elaboração do sonho é o processo pelo qual este conteúdo latente é transformado em conteúdo manifesto. Este processo é guiado por mecanismos que ocorrem simultaneamente e que obedecem a uma lógica própria ao inconsciente – com o objetivo final de escapar da censura.
Segundo Freud, a própria lembrança e reconstituição do sonho já sofre os efeitos da nossa defesa consciente, que buscará reorganizar o sonho numa narrativa, colocando aquela experiência numa determinada ordem – se afastando do sonho original e do núcleo recalcado e, possivelmente, distorcendo a representação e o desejo inconscientes. Trata-se do mecanismo de elaboração secundária.
Além disso, no sonho manifesto, o próprio desejo pode ser retratado por uma imagem figurada, uma representação metafórica deturpada. O mecanismo de condensação reunirá diversos elementos do conteúdo latente num único elemento do conteúdo manifesto – que, por sua vez, apresenta uma sobredeterminação de causas e sentidos. Em outras palavras, diversos pensamentos são representados e se apresentam sob a mesma imagem no sonho. O conteúdo manifesto é, então, muito mais curto que seu conteúdo latente. O deslocamento é outro mecanismo, onde detalhes aparentemente insignificantes ou irrelevantes do conteúdo manifesto estão, na realidade, conectados à pensamentos latentes importantes (e cruciais para o sentido do sonho). Aqui, a defesa atua transferindo a intensidade afetiva de uma determinada representação para outra.
Por fim, o trabalho do esquecimento é o último processo da censura para, de certa forma, dar o “golpe de misericórdia” depois da incidência simultânea de todos os mecanismos mencionados acima. A resistência é, de fato, implacável, e no contexto do sonho, o único elemento que não é alterado pelos mecanismos de elaboração são os afetos – as sensações conectadas às experiências emocionais do paciente, sempre presentes e reais na vida onírica.
O estudo dos mecanismos de elaboração dos sonhos é essencial na psicanálise. O trabalho do sonho se torna uma espécie de código secreto para contornar a censura, e apenas o próprio paciente possui a chave para decodificar o segredo através da livre associação. Partindo do conteúdo manifesto, vamos voltando ao conteúdo latente, como numa simples equação (conteúdo manifesto + associações livres = conteúdo latente). Na análise, o que vem espontaneamente em mente tem ligação com as ideias recalcadas, e a resistência do paciente em expressar essas ideias é um indício, justamente, de que se está aproximando do núcleo recalcado.
Segundo Freud, a interpretação dos sonhos ajudará o paciente a superar suas dificuldades. Através desta técnica investigativa, o analisando reconstituirá as ideias inconscientes recalcadas responsáveis por seu sofrimento e, levando-as à consciência, poderá então superar seus conflitos internos e recuperar sua capacidade de trabalhar, de viver, de amar.
Por fim, interessante frisar que o retorno do inconsciente recalcado, no contexto dos sonhos, é possibilitado graças aos diferentes mecanismos de elaboração (condensação, deslocamentos, elaboração secundária, esquecimento...) que vão buscar driblar a censura e materializar o sonho. O objeto da análise se torna o conteúdo manifesto do sonho, e como chegar ao conteúdo latente. Trata-se de uma sequência lógica para as teorias de Freud que, anos antes da publicação da Interpretação dos Sonhos, já estipulavam que os sintomas manifestados pelos pacientes histéricos eram, na realidade, outra forma de “retorno do reprimido”, e a técnica preconizada era a busca pela origem do sintoma (um trauma de infância). Os dois processos são muito similares e têm como objetivo chegar ao que foi recalcado por caminhos diferentes – um pela análise do sintoma, o outro pela análise do sonho.
Por Silvio Ribeiro da Silva -
O caso Dora é um caso emblemático na história da Psicanálise e na constituição profissional de Freud. O próprio Freud assinala que este caso foi o primeiro em que ele fez uso de aportes técnicos da Psicanálise, aportes que ainda são conhecidos até hoje. Foi escrito entre dois outros grandes trabalhos do médico: ‘A Interpretação dos Sonhos’ e ‘Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade’. Trata-se de uma paciente histérica, mas não a primeira, porque antes de tratar Dora Freud já apresentara publicações com Breuer sobre outras histéricas.
O tratamento de Dora foi feito com base na associação livre, técnica inaugurada por Freud a partir de sua percepção sobre a ineficácia da técnica da hipnose. Por mais que a técnica da associação livre consista em permitir que a pessoa fale sobre aquilo que vier à mente, no caso Dora percebe-se um Freud ainda muito apegado à sugestão, encaminhando as ideias de sua cliente a questões ligadas à sexualidade (carro-chefe da teoria psicanalítica de Freud e considerada a etiologia da histeria). Cabe comentar que neste momento da constituição da Psicanálise a sexualidade era voltada para o campo genital quase que exclusivamente.
A associação livre no caso Dora foi fundamental. Pode-se perceber isso no relato dos dois sonhos trazidos para o setting, quando a cliente de Freud deveria falar associativamente acerca dessa construção psíquica passível de interpretação. O relato dos sonhos foi material fundamental para o tratamento dirigido pelo analista, embora o segundo sonho não tenha tido a interpretação concluída devido à desistência de Dora do tratamento.
Ainda que seja possível notar que o caso Dora colaborou muito com a técnica da Psicanálise, pode-se observar que foi também importante para a prática da teoria, uma vez que Freud se utilizou do relato dos sonhos, como já dito, para tentar desenrolar o novelo que era (e é em todas as pessoas) o inconsciente de sua cliente.
A transferência foi um dos aspectos bastante observados no caso Dora. Ela foi percebida sob mais de um viés. Em um deles, houve a transferência negativa de Dora em relação a Freud, tanto que ela desistiu do tratamento antes de sua conclusão. Essa desistência foi crucial para que o pai da Psicanálise percebesse mais tarde a necessidade de aperfeiçoamento da técnica em relação ao manejo desse aspecto tão importante para a Psicanálise, uma vez que Freud acabou deixando de lado a relação transferencial que estava ocorrendo entre ele e Dora, permitindo que esta relação interferisse a ponto de motivar sua cliente a, como dito, desistir da análise.
A percepção de Freud a partir de Dora de que sua técnica carecia de revisão e aperfeiçoamento foi tão marcante que tempos depois ele publica o texto com recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. Dentre essas recomendações, está evitar intimidade com o analisando justamente por que isso pode dificultar a resolução da transferência, uma das principais tarefas do tratamento psicanalítico na visão de Freud. Em outra publicação posterior ao caso Dora (Sobre o Início do Tratamento), fala de novo sobre a transferência e sobre a resistência (também já abordada no texto sobre as recomendações aos médicos).
O conceito de transferência foi o mais relevante trazido pelo caso Dora por mostrar como o analista desempenha um papel fundamental na sua relação com o analisando. Quando Freud se recusou a ocupar este papel, acabou por impor uma resistência à análise, instaurando uma transferência negativa. O que o caso Dora trouxe para Freud e para a Psicanálise de esclarecimento sobre a transferência foi o entendimento de que, em sua neurose, o analisando transfere para o analista sua carga de fantasias libidinais residentes no universo inconsciente, fazendo do analista o depositário de parte de sua vida afetiva reprimida e que, justamente por conta da resistência, foi impedida de ser evocada conscientemente.
Ainda sobre a transferência, tão relevante no caso Dora, anos após este caso, Freud traz à tona o texto sobre recordar, repetir e elaborar, introduzindo o conceito de neurose de transferência, subordinando a transferência à ideia de repetição. Aqui, a transferência é tratada como um fragmento da repetição, agindo a serviço da resistência. O próprio Freud diz que se a resistência for muito intensa, maior será a atuação substituta do ato de recordar. No caso Dora, pela sua desistência, não houve tempo de colocar em prática esta tríade tão relevante para o processo psicanalítico.
No texto sobre o recordar, repetir e elaborar, Freud aborda a elaboração, discutindo se tratar de erro considerar a superação das resistências o fato de revela-las até que se tornem familiares. Para ele, o analisando precisa de tempo, com o qual poderá conhecer melhor sua resistência a partir do momento que esta se lhe torna familiar. A partir desta familiarização, poderá ser possível a elaboração para a superação a partir do trabalho analítico. No caso Dora, pela falta de manejo de Freud com a questão da transferência, o que acabou se tornando para ela uma resistência, levando-a a desistir do tratamento, esse tempo para a familiarização e posterior vencimento da resistência não houve.
Por mais que o caso Dora tenha aberto para Freud as portas para o entendimento de dois aspectos importantes para a Psicanálise (a transferência e a resistência), foi apenas anos mais tarde que ele detalhou mais a seu respeito no texto “A dinâmica da transferência” (1912). Uma das questões desenvolvidas por ele texto diz respeito a porque a transferência acaba sendo fator de resistência. Assim, apesar de o caso Dora não ter sido exitoso para Freud, ele foi fundamental para que ele pudesse rever e aperfeiçoar a técnica da Psicanálise, bem como ampliar a visa teórica da referida, o que pode levar à conclusão de que não houve um fracasso, mas a oportunidade para um avanço.
Por Gabriela de Souza Honorato -
No artigo “Comunicação Preliminar”, Freud (1893) destaca a predominância do “trauma” no que se poderia presumir acerca das causas da histeria. Haveria para ele uma experiência afetivamente marcante na maioria dos fenômenos histéricos, senão em todos. Essa experiência poderia ter origem num único evento (levando à “histeria traumática”) ou numa série de impressões afetivas (podendo gerar uma “histeria comum, não traumática”).
O que, de fato, produziria o “trauma” seria o “afeto” associado ao evento e/ou “impressões” do paciente. O “trauma” seria, portanto, o que o autor vai chamar de “trauma psíquico”. Do mesmo modo, Freud argumenta que “muitas vezes uma única causa precipitante não basta para fixar um sintoma”, sendo necessário um conjunto de situações. O sintoma, por sua vez, estaria, em geral, numa relação simbólica com a causa, tal como se quisesse expressar o estado mental por meio de um estado físico. Freud nos apresenta alguns exemplos, tal como o da mulher que sentia dores no calcanhar direito. A dor expressava o medo que sentiu, quando apareceu pela primeira vez em sociedade, de “não acertar o passo” naquele meio. A histeria comum (não associada a um evento específico) seguiria esse mesmo modelo, tendo origem num “trauma psíquico”.
Freud faz uma defesa de Breuer no fato de que, como técnica de tratamento, a tentativa de descobrir a causa determinante da manifestação histérica, fazendo perguntas ao paciente sob hipnose, era, ao mesmo tempo, terapêutica, uma vez que seria possível que o sintoma se desfizesse. A partir desta observação, começa a argumentar que a/s lembrança/s envolvida/s com evento/s e/ou impressões não se desgastavam e nem permaneciam “esquecidas”, continuando a exercer poder sobre o sujeito. Freud apresenta a tese de que quando uma pessoa experimenta uma impressão psíquica, alguma coisa em seu sistema nervoso aumenta – “soma de excitação”. Haveria, em seguida, uma tendência, em todo indivíduo, a diminui-la, preservando-lhe a saúde. A diminuição da “soma de excitação” poderia ocorrer por vias motoras. Muitas vezes chorar, insultar alguém ou esbravejar seria o suficiente. Mas, em alguns casos, quando não há uma reação suficiente ao trauma psíquico, a lembrança dele preservaria o “afeto” que lhe coube originalmente, podendo levar, em algum momento da vida, a sintomas histéricos. Assim, haveria nos histéricos impressões que não perderam seu “afeto”.
Desse modo, sua terapia, no momento da publicação do referido texto, consistia em fazer com que alguém que tivesse experimentado um trauma psíquico sem reação suficiente a ele, o experimentasse novamente, sob hipnose, forçando-o a completar sua reação – livrando-o do que estava “estrangulado”. Assim, seria possível, “deliberadamente, reconduzir a excitação da esfera somática para a psíquica”. O indivíduo conseguiria “libertar-se da contradição com a qual é confrontado” (FREUD, 1894). Esse algo “estrangulado”, aos olhos de Freud (1894), relacionava-se, predominantemente, com a sexualidade. O “trauma psíquico”, na histeria, para o autor, estaria relacionado a fatores sexuais: seria “impossível arrancá-la do contexto das neuroses sexuais” (FREUD, 1893-1895). A sexualidade, portanto, era o que de específico via na etiologia da histeria. No artigo “Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa”, Freud (1896) também argumenta que em todos os casos que observou, o fator responsável pelo desenvolvimento das neuroses seria uma “experiência sexual de caráter traumático”. De forma mais específica, a “sedução de uma criança por um adulto” – a “teoria da sedução”.
A teoria da sedução, foi, posteriormente, abandonada pelo próprio Freud, tratando-se, portanto, de um equívoco. Se ele chegou a registrar (FREUD, 1896) que todos os casos por ele observados de neuroses (histerias, obsessões, fobias) envolvia a sedução, em diálogo com Fliess em 1897, teria observado que seria muito difícil acreditar que existiriam tantos “atos pervertidos contra crianças”, e, particularmente, pelo pai da criança. O equívoco foi cometido porque, naquele momento, ele ainda não havia desenvolvido ideias e teorias mais elaboradas dos mecanismos psíquicos, por exemplo, a respeito do papel das fantasias nos eventos mentais (somente mais tarde elaborou a teoria do complexo de édipo e do desenvolvimento da sexualidade infantil). Inclusive, vai sustentar que as histórias de serem vítima de ataques sexuais, comumente narradas pelos histéricos, poderiam ser ficções obsessivas surgidas do traço mnêmico de um trauma infantil. Na nota de rodapé acrescentada em 1924 no artigo “Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa”, Freud coloca que tem reconhecido e corrigido esse erro, afirmando que não sabia distinguir fantasias de recordações reais.
Na história da histeria, entretanto, outros equívocos – sabe-se hoje – foram igualmente cometidos. Freud foi levado a crer na sedução de uma criança, geralmente do pai, como provável causa do desenvolvimento de manifestações histéricas. Mas há registros de mais de dois mil anos de tentativas de compreensão do quadro de forma associada às mulheres. Chegou-se a relacionar os sintomas exclusivamente ao “útero”, ou melhor, ao fato de o útero ser “um animal que caminhava sobre o corpo da mulher”, causando sufocação entre outras sensações; a recomendar a introdução de chumaços de tecido com perfume na vagina; a tomar as manifestações como uma “retenção da semente feminina”; a se acreditar na predisposição da mulher a desenvolver possessão demoníaca e bruxaria, e, com efeito, histeria. Chegou-se, também, durante muito tempo, recomendar casamento, sexo e gravidez como terapia, além de descanso, viagem e águas termais. O caráter sexual e de gênero das crises histéricas, portanto, já vinham sendo discutido e tomado como verdade por séculos. A visão que se teve/tem da mulher foi/é determinante para que se reduza sofrimento psíquico à sexualidade.
É possível que o equívoco de Freud tenha sido suscitado pelo próprio uso do método catártico de Breuer: sob hipnose, imagens, sensações, lembranças, etc., enunciadas pelos pacientes foram todas adotadas por ele como verdades absolutas e não como fantasias. Na hipnose o terapeuta pede que o paciente comente, por exemplo, cenas que vêm à sua mente. Essas cenas, contudo, nem sempre são fatos reais. Mas no final do século XIX Freud ainda não havia dado conta da possibilidade de serem fantasias. Ele começa a defender a associação livre e a condenar a hipnose, mas, ainda por um tempo, creu que era a mais pura verdade toda narrativa feita pelos pacientes. Somente em 1906 Freud afirma que errou ao considerar a sedução como causa da histeria. No artigo “Minhas teses sobre o papel da sexualidade na etiologia das neuroses”, ele propõe a substituição da teoria da sedução pela tese da fantasia histérica. Trata-se de ficção sobre o que ocorreu na infância e que ajudaria a dar um sentido para os sintomas histéricos. Parece, desse modo, que embora a fantasia não seja algo real, acaba sendo uma via para se chegar a impressões ou representações que foram expulsas da consciência, e que, na falha do mecanismo de defesa, vieram a causar sintomas histéricos.
Referências:FREUD, S. (1894). As neuropsicoses de defesa. In: Neurol. Zbl., 13 (10), 362-4, e (11), 402-9.FREUD, S. (1893-1895). A psicoterapia da histeria. In: Estudos sobre a histeria.FREUD, S. (1896). Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa. In: Neurol. Zbl., 15 (10), 434-48.FREUD, S. (1893). Sobre os mecanismos psíquicos dos fenômenos histéricos: uma conferência. In: Wien. med. Presse, 34 (4), 121-6 e (5), 165-7.
Por Gustavo Henrique Borges da Costa -
No final do século XIX, Sigmund Freud seguia desenvolvendo seus estudos sobre histeria. A partir da apresentação de Sobre os Mecanismos Psíquicos dos Fenômenos Histéricos (Uma Conferência), em janeiro de 1893, realizada quase que concomitantemente à publicação da Comunicação Preliminar, em que assina juntamente com Josef Breuer, sobre o método de tratamento da histeria, e também em publicações subsequentes, Freud defende que um trauma sexual real está na origem da formação dos sintomas da histeria e de outras neuroses: a Teoria da Sedução.
Baseado nos estudos sobre histeria iniciados por Jean-Martin Charcot, com quem trabalhou em Salpetrière, em Paris, Freud descreve que a origem dos sintomas histéricos é psíquica, mesmo sendo manifestados fisicamente no corpo. Observa-se que há regularidade e padrão nestes sintomas, como se obedecessem a uma lei de causa e efeito. Há aqui a constatação de que a manifestação no corpo destes sintomas seguiria a lógica de que um trauma grave, ameaçador, relacionado a uma parte do corpo, gerou afetos perturbadores que se ligaram a representação dessa parte do corpo. A lembrança destes acontecimentos seria capaz de provocar o retorno do afeto e a perturbação psíquica correspondente, gerando no corpo sintomas físicos.
Com isso, reconstituir psiquicamente este trauma poderia causar perturbações físicas reais, mesmo que induzidas pela sugestão verbal, e por isso, a hipnose surge como um recurso técnico utilizado para acessar as lembranças traumáticas. Isto se dá porque, segundo Freud, os pacientes muitas vezes não têm consciência do contexto em que os seus sintomas se apresentam. Observou-se que o sintoma surge com frequência acompanhado de um afeto específico. Freud dá o exemplo do afeto de repulsa que acompanha sintomas como anorexia, náusea, insônia e outras formas de perturbação do sono.
Com o trauma psíquico haveria, portanto, uma relação simbólica entre o acontecimento traumático real, o afeto gerado pela experiência traumática e um sintoma associado. Com o desenvolvimento dos estudos sobre histeria durante a parceria estabelecida entre Freud e Josef Breuer, chega-se a percepção de que o uso da linguagem é um meio importante para a expressão dos afetos perturbadores envolvidos no trauma psíquico e, desta forma, poder fazer “escoar” um fluxo energético represado no corpo e, assim, cessar o sintoma. A hipnose seria a forma de induzir a expressão destes afetos e gerar a catarse necessária para a ab-reação: o método catártico de Breuer.
Desta forma, ao conduzir sua clínica, Freud observou que muitas de suas pacientes histéricas demonstravam ter na questão sexual parte importante na origem de seus traumas. Inclusive, percebeu que havia muita resistência das pacientes em falar a respeito ou mesmo admitir pensamentos de cunho sexual, como se erigissem barreiras a si e ao analista. Freud descreve, nos casos de histeria que publica, as questões que estariam na base dos quadros histéricos de suas pacientes como abstinência sexual (Emmy v. N.); necessidade de amor (Miss Lucy R.); angústia virginal (Katharina); e, desejo proibido (Emily v. R.).
Com isso, Sigmund Freud concebe uma teoria em que a gênese das neuroses eram traumas sexuais sofridos por pacientes em idade pré-sexual, tanto de forma passiva como ativa, praticados por um adulto. Para cada forma de trauma corresponderia uma conversão diferente, desencadeando estruturas histéricas, obsessivas, de angústia (fobias) ou psicóticas. A culpa, a repulsa, a vergonha seriam sentimentos partícipes desta forma de recalque dos afetos perturbadores causados por esse acontecimento traumático.
Isto não seria menos do que a sistematização do entendimento de que a origem dos sintomas é psíquico; que estes sintomas possuem regularidade; que têm origem traumática relevante tendo provocado afetos perturbadores que foram associados a representações simbólicas; são manifestos no corpo; e, a percepção por Freud de que os relatos de suas pacientes apontaram dificuldades na experiência de seus desejos sexuais.
Entretanto, uma questão tende a pesar. Será que todos os quadros histéricos, obsessivos ou psicóticos sofreram necessariamente traumas sexuais reais? Aqui temos uma falha importante da Teoria da Sedução pois não era possível determinar que a totalidade dos traumas psíquicos teriam surgido de eventos sexuais violentos, ativos ou passivos, praticados por adultos em crianças. Além disso, desde as primeiras teorias sobre pacientes histéricas já se falava que a questão sexual estaria na origem do quadro e que, a prática do sexo poderia ser, inclusive, um remédio eficaz, porém pouco desse raciocínio acrescentou ao diagnóstico, tratamento ou cura da histeria ao longo da história.
Considerando que já se entendeu que a origem da estrutura histérica é psíquica e, ainda, que é possível estabelecer quadros imaginários que retomem o afeto perturbador por meio da sugestão verbal (hipnose, por exemplo), já se pode imaginar que, em sendo o afeto que desloca o sintoma para o corpo, esse afeto pode ter origem exclusivamente psíquica. Isto é, o trauma pode ser emocional, sobre determinado – múltiplos eventos causadores- e fruto de uma fantasia que haveria provocado a associação entre o afeto perturbador e a representação simbólica.
Sigmund Freud percebeu, ainda, que, sendo a hipnose um mecanismo de sugestão verbal capaz de criar quadros imaginários com potencial gerador de afetos e sintomas, não se era possível determinar de fato que um acontecimento sexual traumático teria concretamente acontecido. Tanto a hipnose como a Teoria da Sedução se mostraram falhas como teoria e técnica adequadas para o tratamento da histeria.
Haverá, pois, o analista de buscar interpretar o conteúdo dos relatos dos pacientes, considerando as resistências e mesmo os afetos construídos na relação dentro do consultório. Estes relatos são conteúdos manifestos que sofreram transformações, deturpações, no esforço de lembrança. E que apenas por meio do processo contínuo de análise é possível percorrer os caminhos que podem identificar os traumas psíquicos.
Por Alexandre Renaut -
A comunicação preliminar (1893) é um texto que apresenta o método utilizado por Freud e Breuer para tratar pacientes vítimas de fenômenos histéricos. Sua tese central consiste em apontar o trauma como origem da histeria: o elemento traumático (por exemplo, uma representação insuportável para o doente), juntamente com seu afeto, são lançados para fora da consciência, num lugar chamado de “segunda consciência” – mais tarde apelidada de “inconsciente”.
Neste processo de dissociação, aquela representação insuportável se “descola” do afeto – e o trauma, supostamente “adormecido” no paciente (num estado anormal denominado hipnoide), acaba reemergindo sob as mais variadas formas e sintomas (qualificados de “histéricos”).
O tratamento preconizado era a hipnose com o intuito de acessar a lembrança armazenada na segunda consciência do doente. Através desta manobra terapêutica, o paciente poderia então se recordar do “trauma adormecido” original e dar vazão ao afeto através de um processo de “ab-reação” que eliminaria definitivamente o sintoma. Os autores afirmam então que o sintoma teria ocorrido porque no momento do trauma, a vítima não soube (ou não pôde) oferecer uma reação adequada e seu afeto não foi descarregado (liberado por ações ou pela fala). Em outras palavras, a tese central é que a reação reprimida ao trauma (e o afeto ligado à lembrança desse trauma) ocasionam e alimentam os sintomas histéricos: neste sentido, “o sintoma é uma lembrança do trauma”.
Naquela época, Freud já começava a se distanciar de Breuer e de Charcot, abandonando progressivamente seus métodos terapêuticos, a catarse e a hipnose, para se dedicar unicamente à “livre associação de ideias” da psicanálise. Além disso, ao contrário de Charcot, que defendia o caráter hereditário e físico da histeria, Freud busca provar suas teorias ao afirmar que a sexualidade é a causa única dos sintomas histéricos – nasce então a teoria da sedução. Em artigos redigidos em 1894 e 1896, Freud relata que a causa do sintoma tem origem num atentado sexual produzido na infância (antes dos 7, 8 anos de idade), onde o “futuro doente” é “seduzido” e experimenta um encontro prematuro com sua sexualidade. O trauma, no entanto, só aconteceria anos depois, na adolescência, quando o indivíduo adquire maturidade sexual.
De acordo com esta teoria, o autor do atentado é um adulto ou uma criança mais velha do círculo social da vítima. A histeria seria provocada por uma experiência sexual passiva acarretando profundo desprazer na criança – majoritariamente meninas. A obsessão, por outro lado, seria consequência de um incidente sexual vivido de forma ativa pela criança – que inclusive sentiria prazer, gerando um sentimento de culpa mais tarde – neste caso, os meninos seriam mais numerosos.
Anos depois, numa nota de rodapé acrescentada nesses artigos, Freud vai reconhecer que sua teoria da sedução estava equivocada com as seguintes palavras: “naquela época, eu ainda não sabia distinguir entre as fantasias de meus pacientes sobre sua infância e suas recordações reais (...) atribuí ao fator etiológico da sedução uma importância e universalidade que ele não possui”. De certa forma, Freud vai admitir que ele não conseguia diferenciar a ficção da realidade no inconsciente e no discurso de seus pacientes. É surpreendente, inclusive, o contraste entre esta “admissão de erro” e o tom confiante da narrativa de Freud nos seus artigos de 1893, 1894 e 1896 – onde somos conduzidos por um discurso linear, causal, quase matemático para nos convencer da validade de suas teorias. De fato, Freud parecia mais preocupado em provar que estava certo do que em testar experimentalmente e cientificamente a validade de suas hipóteses.
A história da histeria está permeada de equívocos semelhantes ao que Freud cometeu. Durante séculos, diferentes abordagens procuraram explicar as causas da histeria, passando por explicações mais históricas ou ideológicas até chegar em investigações mais científicas no decorrer do século 19. Charcot, por exemplo, perdeu praticamente todo o seu trabalho por ter misturado os histéricos e epilépticos no mesmo ambiente, que ficou contaminado (fenômeno da clonagem). Portanto, é fundamental que um rígido protocolo científico seja respeitado para testar e validar as hipóteses do pesquisador.
Por fim, a retratação de Freud em relação à teoria da sedução não significou que todas as suas ideias foram abandonadas. Pelo contrário, na mesma nota de rodapé (datada de 1924) acrescentada em seu artigo “Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa” (1896), ele afirma que “depois que esse erro foi superado, tornou-se possível alcançar um discernimento das manifestações espontâneas da sexualidade das crianças que descrevi em meus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”. De fato, o abuso sexual seria uma ficção, uma fantasia organizada na realidade psíquica durante a infância da criança – e que tem sua importância na psicanálise (estudaremos as teorias da sedução em breve).
Por Silvio Ribeiro da Silva -
A tese principal associada à comunicação preliminar está ligada a como os teóricos, Freud e Breuer, entendiam ser o sintoma presente algo ligado a um trauma acontecido no passado. Para eles, o trauma encontrava sua origem na infância. É curioso pensar que eles entendiam ser a relação entre o trauma e o sintoma algo não diretivo, ou seja, um não era necessariamente consequência do outro.
A teoria da hipnose era colocada em prática no tratamento proposto pelos dois. O objetivo da hipnose era resgatar na memória do paciente as lembranças esquecidas. Na hipnose, buscava-se fazer com que o paciente se lembrasse do trauma e reagisse a ele com o uso das palavras, colocando, no presente, a emoção, a fim de expurgar, através da catarse, aquela emoção ‘ácida’ mal resolvida no passado. Outra teoria associada é a da ab-reação, a qual consiste no seguinte: uma pessoa é tratada com grosseria e falta de respeito por outra em escala superior; pelo fato de o agressor ser superior, a pessoa não pode revidar (o não revide seria o gerador do trauma, a ser manifestado como sintoma posteriormente); a ab-reação ocorreria se o agredido revidasse de alguma forma a agressão sofrida (jogando café no rosto do agressor, por exemplo). O recalque seria outro aspecto relevante para o sintoma segundo Freud e Breuer. Emoções (afetos) recalcados (engolidos) podem se manifestar futuramente como sintomas de algo marcante do passado e não ab-reagido.
Para Freud, a sexualidade é a etiologia da histeria. Sobre isso, ele indicava o que a hipnose e a catarse, métodos até então em uso, buscavam alcançar. Começava a tomar mais força a tese de que o enunciado do paciente não era tão importante sem a presença da enunciação (o que leva à produção de um enunciado. Pode-se associar isso ao que o próprio Freud chamava de ‘exploração arqueológica’ do caso relatado pelo paciente). O Freud psicanalista surgia a partir do interesse pelo enigma por trás dos relatos do paciente. Ganhava força o desejo de Freud pela investigação das causas por trás das doenças. Nesse sentido, o sintoma presente no paciente pode ser interpretado pelo analista como restos de momentos psíquicos passados não resolvidos (não ab-reagidos) e que se manifestam na consciência, trazendo por trás um arcabouço psíquico vinculado a um quadro patológico qualquer, manifestado, no caso da histeria, como sintoma somático. Cabe ressaltar que, para Freud, tudo isto tinha como pontapé inicial uma experiência sexual infantil oriunda de um contexto de sedução feita por um adulto (ainda não havia indicação sobre o lugar do desejo e da fantasia nisso tudo). Assim, o tratamento analítico consistia em fazer associações entre os dizeres do paciente, em busca do momento inicial gerador do quadro atual, aflitivo para o paciente, associando isso tudo a uma experiência sexual precoce.
Junto com Breuer, Freud desenvolvia seu trabalho acoplado à teoria da sedução. Para Freud, como já dito, a sexualidade é a causa da histeria. Essa histeria viria como resposta sintomática a um afeto gerado por conta de uma sedução, que levou a um caso de abuso sexual na infância, sofrida pelo paciente, seja por um cuidador, seja por outra pessoa mais velha, seja por alguém próximo, também já vítima de abuso sexual. Tempos depois de dizer isso, o próprio Freud admitiu que foi um equívoco de sua parte, ou seja, seus pacientes não sofreram efetivo abuso sexual, mas, sim, viveram uma experiência sexual fantasiosa. Freud, então, reorganiza sua teoria: anteriormente, havia um trauma no passado, o qual se manifestava como um sintoma; a partir de então, o que existe é uma fantasia sobre o que aconteceu nesta infância. Por mais que a fantasia não seja algo concreto, ela não poderia ser absolutamente descartada, já que está, de algum modo, conectada ao quadro histérico, constituindo, assim, parte da enunciação do paciente (o gerador do enunciado produzido por ele na associação livre). A fantasia acabava tendo um papel estruturante para a realidade factual, de certo modo facilitando o acesso ao mundo real.
O equívoco de Freud em relação à teoria da sedução deve ter ocorrido pela, até então, ausência de sua parte de uma maior reflexão a respeito do que acontecia durante o processo de análise com o paciente. Analisando sua trajetória profissional, percebe-se que houve momentos em que, após uma reflexão mais detida, ele acabou por abandonar um processo terapêutico em uso e adotar outro. Assim, ele parte da hipnose (feita com o paciente fora de si) e começa o método da associação livre (com o paciente fora de hipnose). A pessoa hipnotizada relatava fatos de sua vida passada, mas não se lembrava deles quando retornava do momento de transe. Assim, Freud deve ter percebido que não fazia muito sentido ter acesso àqueles dados, já que a pessoa não se lembrava do que havia acontecido depois do transe. Logo, o que fazer com aquilo? De modo semelhante, ao refletir sobre a questão da sedução, apresentada pelos pacientes, ele deve ter ido concluindo que era muito estranho um número tão grande de pessoas ter sido vítima de sedução. Um dos motivos dessa conclusão pode ter sido o fato de, dentre outros aspectos, os pacientes irem dizendo a ele que as considerações feitas acerca de seu caso não se encaixavam na verdade dos fatos. Se não se encaixavam, é porque havia alguma peça errada naquele quebra-cabeça. Possivelmente, a peça errada era a fantasia do paciente, tratada até então como verdade factual. Como já dito, a fantasia era um importante elemento, mas deveria ser tratada como uma estratégia para a execução (montagem) do quebra-cabeça, não como uma peça desse quebra-cabeça.
Ao longo de seu processo de construção como analista, houve alguns equívocos de Freud, os quais podem ser associados a outros cometidos na história da histeria. No caso da histeria, os estudos a seu respeito remetem a Hipócrates (460-377 a.C.), considerado o Pai da Medicina, na Grécia Antiga. Séculos depois, quando Freud desperta seu interesse pelo tema, muito já havia ocorrido e, certamente, houve muitas modificações no que diz respeito à teoria. A tentativa incessante de descobrir a causa real de um mal acaba por conduzir a caminhos equivocados pelo fato de que ocorrem mudanças nos fatos nem sempre acompanhadas pelo interessado por aquilo.
A ‘substituição’ da ideia de sedução pela tese da fantasia resolveria os problemas daquela, por mais que posteriormente tenham surgido alguns pontos de vista bem contundentes de que abandonar a teoria da sedução tenha sido uma atitude covarde da parte dele, ou até mesmo um meio de autopromoção e aceitação, considerando a reação negativa da comunidade científica da época para a teoria da sedução. A fantasia de algum modo está contida na sedução.
Por Jose Claudio de N. Gonçalves -
O fim do século XIX na Europa foi marcado por escândalos políticos, inquietação social e conflitos, mas também foi uma época de grande progresso social e científico. Nesse campo, em 1983 Breuer e Freud publicam em periódicos médicos quase que simultaneamente em Berlim e Viena o texto conhecido como “Comunicações Preliminares”, onde expõem as conclusões que haviam chegado até então resultantes das experiências terapêuticas que conduziam a partir do que conheciam do trabalho de Charcot em relação ao tratamento dos sintomas histéricos.
Buscando ratificar a teoria de que um trauma estaria na raiz desses sintomas e convencidos de que as circunstâncias desse trauma seriam determinantes nas características desses sintomas buscavam desvendar em suas pacientes os traumas causadores de suas aflições. Entretanto esbarravam no empecilho da memória que poderia acessar esse trauma; nem sempre disponível, nem sempre acurada, frequentemente falha. Inspirados no trabalho de Charcot recorrem a hipnose como um instrumento de ampliação da mente, acreditavam então que com ela chegariam - através de um relato fidedigno e sem a interferência crítica da mente consciente - ao trauma do passado culpado pelo quadro histérico atual. Isolavam cada sintoma e procuravam através desse retrocesso hipnótico na história do paciente saber quando ele apareceu pela primeira vez e concluíram que havia um acontecimento (físico ou psicológico) emocionalmente traumático relacionado `a maioria dos sintomas histéricos. Era o chamado método catártico.
Freud levantou a hipótese de que existiria algo que chamou de “soma de excitação” que participaria de um processo análogo ao de uma “contabilidade” da energia psíquica; postulava que a energia psíquica teria sua quantidade alterada por acontecimentos ou ações das pacientes e acreditava que a mente procuraria manter sua homeostasia controlando a quantidade presente dessa unidade: se essa soma de excitação fosse aumentada por um trauma deveria ser forçosamente diminuída por uma ação/reação a esse trauma. O aumento se daria sempre por vias sensoriais e a diminuição necessariamente por vias motoras. Quando nenhuma re-ação a um trauma fosse possível a lembrança desse trauma permaneceria ligada ao afeto que este originou. Os pacientes histéricos sofreriam consequentemente de traumas psíquicos que não sofreram ab-reação (essa descarga emocional onde o indivíduo se liberta do afeto que acompanha a recordação de um trauma) ou a sofreram de forma incompleta.
Precisavam, no entanto, de um local psíquico onde esse trauma que não poderia ser lembrado (dado ao afeto a ele ligado) pudesse ficar. Acreditaram estarem lidando com um fenômeno que chamaram de “consciência dupla” e que a própria histeria estaria ligada `a um tendência pessoal `a essa divisão da vida psíquica entre a consciência propriamente dita e um local interditado ao acesso onde a memória do trauma residiria, um estado anormal da consciência que chamaram de “hipnoide”. Futuramente seria chamado de inconsciente. A premissa do tratamento proposto era quase linear: forçar com a hipnose a lembrança do acontecimento traumático reagindo ao mesmo através da fala, livrando-se do afeto associado `a representação do trauma e com o término dessa associação haveria a extinção do sintoma causado por ela.
Freud acreditava que a etiologia dos sintomas histéricos estaria obrigatoriamente em acontecimentos traumáticos dentro da esfera sexual do paciente; no caso específico da histeria o trauma seria causado por experiências de passividade sexual ocorridas no período pré-sexual. Propôs então o que foi chamado de teoria da sedução.
Na teoria da sedução Freud divide a culpa da histeria presente entre dois acontecimentos do passado do paciente. O primeiro acontecimento seria o já mencionado trauma de origem sexual onde o paciente teria sido abusado sexualmente com uma postura passiva ainda na sua primeira infância (pré-sexual), quando não teria compreensão real do que de fato teria ocorrido. O segundo acontecimento se daria já após a puberdade, seria de ordem sexual ou não, mas necessariamente remeteria `a memória do primeiro acontecimento originando um afeto que não seria suportado pela consciência. A memória causadora desse afeto consequentemente precisaria ser deslocada para aquela outra metade “hipnoide” da consciência, ou recalcada.
Alguns anos depois Freud percebeu que cometera um equívoco no desenvolvimento de sua teoria, mencionando em uma carta a Fliess (#59) os motivos de sua decepção: dificuldade de chegar ao evento traumático inicial, a necessidade improvável de pensar em qualquer adulto como um perverso e finalmente o pontapé inicial do que foi sua grande descoberta nesse processo, a teoria da fantasia histérica: “[…] no inconsciente não existe um signo de realidade de modo que não se pode distinguir a verdade da ficção investida com afeto”. Freud não soube diferenciar as fantasias de seus pacientes em relação `as suas infâncias das recordações de experiências reais e acabou atribuindo `a sedução uma importância e universalidade etiológica que na verdade ela não possuía. Esse desapontamento abre caminho para Freud questionar a validade do método catártico com o qual tinha tratado, com pequenas variações, todas as formas de histeria até então.
Ao avançar no desenvolvimento da sua teoria da fantasia Freud chega à conclusão de que nem sempre houve um acontecimento traumático real no passado originando a histeria. A “sedução” que originou o trauma poderia ter sido o produto de fantasias originadas em um período posterior e que foram projetadas para o passado, despertando em Freud o conceito de que existiria uma realidade psíquica própria de cada paciente que não era um espelho fiel da realidade externa ao mesmo.
Por Maria Teresa Manfredo -
A chamada teoria da sedução presente na obra de Sigmund Freud é resultado de uma série de modelos teóricos que começam a ser apontados, por exemplo, em seu texto de 1893, de título “Sobre o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos: uma Conferência - Comunicação Preliminar”. Nele, grosso modo, Freud trata da patogênese dos sintomas histéricos, sempre sugerindo que as causas do desenvolvimento de tais manifestações devem ser buscadas no âmbito da vida psíquica.
Dentre os modelos teóricos desenvolvidos a partir da “Comunicação Preliminar”, podemos destacar a argumentação de que há uma experiência afetivamente marcante por trás dos fenômenos da histeria. Essa experiência seria de tal ordem que tornaria o sintoma histérico (dores, paralisias, contraturas, distúrbios da fala e da visão etc.) imediatamente inteligível com que se relaciona. Tal inteligibilidade, segundo Freud demostraria que o sintoma é inequivocamente determinado.
Entretanto, já nessa fase Freud alerta que a determinação do sintoma pelo trauma psíquico não seria tão explícita em todos os casos, havendo também espaço para determinação de causas. O que se encontraria mais comumente seria o que chamou de uma relação simbólica entre a causa determinante e o sintoma histérico. Freud explica que nos quadros histéricos é como se houvesse a intenção de expressar o estado mental através de um estado físico; e o uso da palavra, a verbalização da experiência marcante, importante ferramenta em suas terapias (ainda que nessa época Freud se utilizasse de técnicas de hipnose e sugestão em seus tratamentos), forneceria o caminho pela qual isso poderia ser efetuado, ou seja, uma ponte para se chegar ao(s) fator(es) desencadeante(s) do fenômeno que persistiria posteriormente como sintoma crônico.
Outra importante argumentação teórica presente nesse momento da obra de Freud é a de que quando, por qualquer motivo, não se poderia haver reação a um trauma psíquico, o afeto original dessa experiência seria retido. Nesse período Freud concebia a mente humana como passível de ser dividida entre consciência e “estado hipnoide”. De maneira breve, o estado hipnoide seria uma espécie de segunda consciência, onde afetos oriundos de traumas seriam armazenados.
Por conseguinte, segundo Freud, quando a pessoa não consegue se livrar da avalanche de estímulos causada pelo acometimento sofrido, através de algum tipo de descarga emocional que chama de “ab-reação”, a experiência afetivamente marcante em questão permaneceria como um trauma psíquico. A propósito, Freud destaca neste ponto a ideia de que um mecanismo psíquico sadio teria outros métodos de lidar com o afeto de um trauma psíquico, para além da reação motora e da reação por palavras — a saber, elaborando-o associativamente e produzindo ideias contrastantes, colocando em perspectiva o evento marcante ocorrido. Seria exatamente nesse aspecto que o tipo de terapia por ele defendida atuaria no que chamava de cura do sintoma histérico.
Resta ainda dizer que em 1893 Freud também defende que haveria alguns tipos de condições sob as quais as lembranças de um evento se tornariam patogênicas. Vale destacar aqui o grupo de condições - que, inclusive, traz consigo, de maneira subjacente, a noção freudiana de “defesa” – no qual as lembranças a que se podem vincular os fenômenos histéricos teriam como conteúdo afetos que envolveram um trauma tão grande que ou a) o sistema nervoso não teve forças para lidar com isso de alguma forma, ou b) por motivos sociais, a reação foi impedida; ou, por fim, c) a pessoa simplesmente recusou-se a reagir ao trauma psíquico.
Sendo assim, podemos afirmar que o que Freud via em relação à etiologia da histeria é especificamente a predominância do fator traumático entre as suas causas presumíveis. Em outras palavras, para Freud, portanto, toda histeria poderia ser encarada como histeria traumática, no sentido de que implicaria trauma psíquico e no sentido de que todo fenômeno histérico seria determinado pela natureza do trauma decorrido. Paulatinamente, Freud foi relacionando esses traumas psíquicos à vida sexual de seus pacientes, o que resultou em sua teoria da sedução.
No que diz respeito mais especificamente à teoria da sedução em Freud, podemos afirmar que essa é a concepção que foi construindo em seus textos desde então (quando a ênfase foi colocada no conceito de “defesa” ou “recalcamento”) e apresentada de maneira mais veemente em 1896 em “Observações Adicionais sobre Neuropsicoses de Defesa”, onde acaba concluindo que, em todos os casos por ele analisados, o fator responsável para a defesa ser posta em ação é uma experiência sexual de caráter traumático — mais especificamente, no caso da histeria, uma experiência passiva. Dito de outro modo, a teoria da sedução fundamenta-se na premissa de que a causa última da histeria e de seus mecanismos de defesa (inconscientes) seria sempre a sedução de uma criança por um adulto; contando também com o fato de que o evento traumático sempre ocorreria antes da puberdade, embora a manifestação da neurose ocorresse após esse período.
Contudo, numa leitura contemporânea e retrospectiva da psicanálise, podemos observar que esse período da obra de Freud, ao mesmo tempo em que tem o mérito de trazer ideias inaugurais em vários sentidos acima apontados, traz consigo alguns equívocos. Isso porque, como posteriormente assumido pelo próprio Freud, naquela época ele ainda não fazia a distinção entre as representações de seus pacientes sobre sua infância e os fatos concretamente ocorridos. Como resultado, foi atribuído ao fator etiológico da sedução uma universalidade e uma importância que, de fato, ele não possui.
Adicionalmente, podemos destacar que há uma relação entre equívocos técnicos cometido por Freud na elaboração da teoria da sedução e os já cometidos na história da histeria, sobretudo o de buscar entender os mecanismos psíquicos de uma maneira muito mecânica e direta, ligada sempre a esquemas de causa, efeito e cura. Além disso, naquele momento, tanto Freud quanto seus pares acreditavam que o médico era o grande responsável por desvendar, por resolver o problema do paciente, colocando esse último sempre numa posição de passividade dentro do tratamento. Dentre outras consequências, essa postura profissional traz consigo uma espécie de cegueira para o fato de que pode haver uma distinção e até um confronto entre o fato vivido e a versão do fato trazida linguisticamente pelo paciente.
Nesse sentido, não podemos deixar de concluir reforçando uma descoberta ulterior, concebida pelo próprio Freud, uma vez que tal concepção teórica viria a resolver de diversas maneiras alguns dos principais problemas da teoria da sedução. Trata-se do papel desempenhado pela fantasia nos eventos mentais; a distinção entre fantasia e a realidade factual foi crucial para explorações teóricas posteriores a respeito da sexualidade infantil e de um de seus mais famosos conceitos, a saber, o complexo de Édipo.
Por Marcelo Moya -
O sistema democrático (demos – povo, kratos – poder), poder que emana do povo, surgiu na Grécia Antiga do século V a.C. como um modelo de gestão político e social de cidades-estados gregas, em especial Atenas que conferia aos seus cidadãos, na época apenas homens atenienses livres e acima de 21 anos, o privilégio de escolher seus governantes.
Este padrão de sufrágio universal se transformou no sistema que garante à sociedade o direito pleno de escolher seus representantes, independente de raça, etnia, sexo ou classe social. A nova democracia no Brasil, por exemplo, é considerada uma das mais avançadas no mundo, mas que embora consolidada não se exclui de falhas, equívocos e de constante aprimoramento e transformações.
O primeiro ministro britânico Winston Churchill, que ganhou notoriedade histórica por sua liderança durante a Segunda Guerra Mundial, é autor da célebre frase: “ - A democracia é o pior dos regimes políticos, mas não há nenhum sistema melhor que ela.” O exercício democrático é bastante abrangente, mas tem o voto o ápice de suas aspirações. O poeta Carlos Drummond de Andrade certa vez escreveu: “uma eleição é feita para corrigir o erro da eleição anterior, mesmo que o agrave.”
Especificamente aqui no Brasil, os períodos eleitorais possuem algumas particularidades. De consideráveis demonstrações de absoluto humor com os excêntricos candidatos com suas ‘esquisitices’ até embates que infelizmente culminam em tragédias, fato é que as eleições são capazes de mexer com as emoções e fazer despertar as aspirações mais arcaicas da natureza humana.
... é um efeito projetivo daquilo que existe de mais singular da personalidade de cada um... somos quem votamos?
De ideologias, passando pelas identificações com candidatos ou partidos, aos interesses pessoais ou coletivos, o ato de votar com todos os seus desdobramentos, abarca em si os mais diversos anseios, paixões e motivações que de alguma maneira retrata, ou como se diz psicanaliticamente, é um efeito projetivo daquilo que existe de mais singular da personalidade de cada um. Somos quem votamos?
Para o engrandecimento da democracia, depositar em algumas pessoas a confiança de conduzir os rumos de uma comunidade local, cidade, estado ou nação, implica entre outras coisas, conter distorções muito comuns numa eleição, tais como, votar irracional ou impulsivamente ou ainda mercadejar o voto, alias, prática muito comum nesta época e que lamentavelmente sepulta a dignidade e o bom caráter.
Se por um lado tem aqueles que votam movidos pelo ardor dos desejos mais irrefreados, e prova disso são as ousadas estratégias de marketing dos candidatos que tentam arrancar dos eleitores risos, lágrimas, amor e ódio, tem por outro os mais racionais munidos de infindos e incansáveis argumentos. Mas há um elemento capaz de equacionar esta lógica emoção-razão para se evitar exageros: o pensar.
Sim, para votar é preciso pensar....
Sim, para votar é preciso pensar. Aliás, este é um tema elementar na psicanálise, haja vista que possibilita ao indivíduo, entre outras coisas, o pensar a si e a forma de como expressa isso para o outro. O processo do pensamento permite refrear paixões e adaptar-se à realidade, disse Freud. Autor da Teoria do Pensar, Wilfred Bion, aponta que para além das funções cognitivas a experiência analítica objetiva desenvolver um aparelho mental capaz de pensar emoções.
O fundador da famosa marca automobilística Henry Ford, disse certa vez que “pensar é o trabalho mais difícil que existe, e talvez por isso que poucos se dediquem a ele.” Leonardo da Vinci teria dito certa vez que ‘quem pensa pouco, erra muito” e a filosofia budista expressa: “ - somos o que pensamos; tudo o que somos surge com nossos pensamentos; e com nossos pensamentos fazemos o nosso mundo”.
Mas afinal, o que é pensar? Pensar é uma palavra originária de um verbo latino pendere, que significa ficar em suspenso, examinar, pesar, ponderar. São Paulo Apóstolo considerou em sua epístola que compete ao homem o examinar-se a si mesmo. Se uma ideia pode ser considerada como uma luz que acende nos porões sombrios da mente, o pensar é seu condutor elétrico. Sem o pensar, não haveria ideias, criatividade, reflexão, discernimento e tampouco civilização.
... pensar implica em aprender, aliás, árduo exercício...
Pessoas adoecidas psiquicamente tendem inclusive a ter sua capacidade de pensar bastante comprometida, neste caso, sofrem com seus perturbadores pensamentos sem pensador. Pensar implica em aprender, aliás, árduo exercício. Pode até doer às vezes como desdobramento de como lidamos e suportamos as frustrações, mas sem isso a civilização humana já teria sido absorvida pelas barbáries.
Vamos às urnas. Mas o que e como estamos pensando a respeito disso? Quais os critérios que adotamos para escolher os nossos candidatos? O que se passa pelas nossas mentes diante deste processo? Que percurso foi percorrido em nosso mundo interno para decidirmos por determinado candidato ou candidata? Votaremos mais propensos à emoção ou pela razão? Entre ambas, cabe o pensar. Neste caso, que possamos no pleno exercício de nossa cidadania e pela defesa da nossa democracia, fazer bom e adequado uso do pensamento, votando com reflexão, lucidez e consciência.
Como diz a canção “Quem é essa gente” da banda paulista Bala na Agulha, “somos brasileiros, verdadeiros de coração, dependemos de nós para a próxima eleição, temos que nos ajudar usando a inteligência na hora de votar."