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O trabalho do sonho

Por Richer Bustos Olórtegui -  O Neurologista, Sigmund Freud, continua seu percurso da descoberta da psicanalise já afastado de seus colegas Jean-Martin Charcot e Josef Breuer, também já tinha deixado a prática do método hipnótico e da pressão da mão nos doentes psíquicas da época pela precária eficácia.  Nesses anos ele descobre um novo método de intervenção para seus pacientes que vai chamar de regra psicanalítica fundamental que é “A Associação Livre” consistindo em deixar falar ao paciente tudo o que vinha a sua mente sem criticar ou selecionar. Nesse interim os pacientes de Freud começaram também a narrar seus sonhos noturnos. Isso inspirou a ele ao estudo dos sonhos em três níveis: a revisar a literatura científica acerca dos sonhos no passado, os sonhos de seus pacientes e seus próprios que o levou vários anos, o qual foi terminado antes do virado do século XX, mas ele quis adiar sua publicação para inaugurar o novo século com o intuito de que sua obra virasse a “A Obra de Século”. Com sua nova obra “A Interpretação dos Sonhos”, bacilar para a psicanalise, Freud começa a se aproximar a um estudo menos psiquiátrico, médico, neurológico possível do funcionamento da mente humana abrindo um novo vértice para entender a natureza da mente e seu funcionamento. Nesta obra Freud introduz um conceito fundamental para a psicanálise o “Inconsciente” (já estudado, falado nos tempos dele por outros pensadores na área da filosofia, medicina, etc.), mas graças a obra da Interpretação dos Sonhos que se instala ou se oficializa. Sendo a sua primeira grande manifestação do inconsciente: o sonho que é elementar para compreender a psicanálise, o funcionamento psíquico e o aparelho psíquico. Freud no capítulo II de sua obra, a partir da análise seu próprio sonho a “injeção de Irma”, vai propor como método de interpretação dos sonhos o método da decifração de cada parcela do sonho, porque eles se apresentam desconexos e confusos. A ideia central de Freud aqui é que o sonho tem um sentido e podem ser interpretas longe de ser só uma atividade fragmentária do cérebro e finalmente dirá terminado o trabalho de interpretação de um sonho descobrimos que o sonho é a realização de um de um desejo recalcado. No estúdio do capitulo VI do texto “Interpretação dos Sonhos” Freud nos adentra a todo um processo complexo de trabalho de engenharia do sonho que entram em ação nosso consciente, pré-consciente e inconsciente com os nossos pensamentos oníricos, desejos, afetos, censuras, repressões, recalques, restos infantis, diurnos etc. fazendo possível os trabalhos de condensação, deslocamento, simbolismo e dramatização para sair à tona a nosso presente como a realização de nossos desejos reprimidos desde nossa primeira infância. Aos quais Freud os divide em dois: conteúdo manifesto que seria o relato descritivo feito por cada sonhador produto do trabalho do sonho, que tem uma marca de deformação e esquecimento causada pela nossa censura deformando assim os nossos processos de lembranças como acontecem também em nossa vida de vigília e o conteúdo latente é o sentido, o significado do sonho produto do trabalho de interpretação do psicanalista com a finalidades de achar o verdadeiro significado do sonho. Freud nos mostra, que quando dormimos, a nossa mente consciente relaxa e “abaixa a guarda” deixando agir ao inconsciente é aí que se dá os trabalhos de condensação e deslocamento. Sendo que no trabalho de condensação nosso cérebro associa os nossos pensamentos de conteúdo similar e os reproduz em um só sonho, ou seja, uma representação única representa por si só várias cadeias associativas que tem uma caraterística de síntese constituindo uma tradução resumida do trabalho onírico. Enquanto no trabalho de deslocamento, um aspecto significativo do sonho ganha menos importância e os aspectos secundários surgem com mais riqueza de detalhes. Neste processo mental a intensidade do acontecimento com maior valor psíquico é deslocada para o elemento de menor valor psíquico mostrados nos tantos exemplos de sonhos interpretados por Freud. Neste estudo é importante frisar a importância dos afetos nos sonhos na tarefa interpretativa como já disse Freud: “A análise nos mostra que o material de representações passou por deslocamentos e substituições, ao passo que os afetos permanecem inalterados”. Assim, os afetos, nesse processo onírico é o único elemento que não é alterado e por isso é de muita valia no processo de observação do tratamento psicanalítico analista – analisando e finalmente o trabalho da elaboração secundaria, que segundo Freud, acontece no pré-consciente para ajustar o conteúdo latente do sonho as necessidades da vida da vigília, dando coerência ao sonho tal como nossa vida consciente exige. Este ato é realizado ao instante de acordar. Vale lembrar que este último, partir de 1923, será retirado por Freud deste processo do trabalho do sonho para o trabalho do eu. A grande importância dos sonhos se fundamenta como afirmara Freud “O sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente” e porque faz possível a realização de nossos desejos recalcados no inconsciente. Encima de isso se dá o trabalho de interpretação dos sonhos com o intuito de explorara o inconsciente do paciente por meio da decifração dos sonhos procurando atingir os objetivos traçados por Freud para a psicanalise: de estabelecer no paciente sua capacidade de realizar e de gozar. Toda esta incrível engenharia do sonho existe graças a descoberta de Freud que são fruto de suas pesquisas com suas pacientes de si próprio e que é um legado para ajudar as pessoas na luta das doenças psíquicas. Finalmente, o primeiro retorno do reprimido, conforme já temos estudado nos blocos anteriores, se dá nos pacientes histéricos através dos sintomas manifestados por eles. Esses sintomas eram na verdade, outra forma de “retorno ao reprimido” cuja técnica proposta por Freud foi a procura da origem do sintoma, no caso foi um trauma infantil. Esse retorno do inconsciente recalcado (reprimido) no processo dos sonhos é concretizado pelos deferentes trabalhos do sonho como são: condensação, deslocamento, simbolização, elaboração secundaria, esquecimento etc. que driblam a censura para materializar no sonho e manifestar-se na vida consciente cujo objetivo da interpretação é o conteúdo latente do sonho (o verdadeiro sentido do sonho). Os dos processos da descoberta freudiana são semelhantes já que têm os mesmos objetivos: de como chegar àquilo que foi decalcado, a primeira pela análise do sintoma e a segunda pela interpretação do sonho. Esse retorno do recalcado, é por excelência, fonte do material com que o psicanalista trabalha.

Pulsão de morte: uma construção metapsicologia em Freud

Por Mauro Costa -  Após ter formulado uma teoria pulsional que estava sob o domínio do Princípio do Prazer e Princípio da Realidade, Freud começa a perceber que essa teoria não era capaz de explicar alguns comportamentos, como aquele observado em soldados que participaram da 1ª Grande Guerra e que tendiam a repetir experiências dolorosas. Assim, Freud constata que tais comportamentos não eram regidos pelo princípio do prazer e que sua teoria pulsional resulta insatisfatória para explicar esses casos de repetição de experiências dolorosas. Diante dessa constatação, Freud apresenta em seu texto, Para Além do Princípio do Prazer (1920), uma reformulação de sua teoria das pulsões, introduzindo o conceito de pulsão de morte como uma oposição à pulsão sexual e à pulsão de autoproteção, que passam a serem unificadas como pulsão de vida.  Para fundamentar a pulsão de morte Freud vai buscar auxílio na biologia onde, de uma forma um tanto quanto forçada, “deduz" que toda a vida tem uma origem inorgânica e que toda forma de vida tende a voltar para essa condição. Desta maneira, a pulsão de morte se contrapõe à pulsão de vida e tende para a redução completa das tensões, reconduzindo o ser vivo ao estado "originário" inorgânico.  A partir desta perspectiva, as pulsões de morte seriam definidas como traumáticas, inicialmente voltadas para o interior, tendendo à autodestruição, e secundariamente dirigidas para o exterior, manifestando-se então sob a forma da pulsão de agressão ou de destruição. Outra característica inerente à pulsão de morte seria a sua tendência à repetição.    Em 1919, Freud havia escrito o ensaio Das Unheimliche, que teve seu título traduzido para o português de diferentes formas, como: o estranho, o infamiliar, o inquietante. A dificuldade em encontrar uma tradução única para o termo não é de causar espanto, visto que o próprio ensaio começa com Freud fazendo uma pesquisa sobre possíveis traduções para o termo Das Unheimliche em diferentes línguas. Tal pesquisa é acrescida de uma investigação semântica e etimológica sobre quais seriam os possíveis significados e origem do termo. Essa  investigação termina por revelar um paradoxo da ambivalência daquilo que é familiar e infamiliar simultaneamente.  Na segunda parte do ensaio, Freud desenvolve uma apreciação investigativa sobre o paradoxo mencionado, buscando identificar onde e como esse sentimento peculiar pode ocorrer. Começa se aproximando de textos da literatura fantástica como o conto O Homem da areia, de Ernst Hoffmann. Segue, expandindo sua exploração para vários exemplos de situações onde o estranho infamiliar se manifesta. Um dos exemplos que cita é o caso de equívocos pessoais, como quando, certa vez, em viagem na Itália, chega acidentalmente a uma praça onde havia um bordel e, ao tentar se desviar, retorna por duas vezes ao mesmo local, ou, ainda, por ocasião de uma viagem de trem, quando está sozinho em um vagão, se levanta à noite e se depara com um outro homem no reflexo, infamiliar,  mas que, por fim, era ele mesmo.  Assim, aglutina diversas experiências como tradução desse mesmo afeto, qual seja, a experiência infamiliar e, ao aprofundar no exame da aparente contradição entre algo que é familiar e ao mesmo tempo infamiliar, se aproxima analogamente a um IN-COMODO, algo que se encontra dentro do cômodo, um lugar da casa e, portanto, familiar, mas que, ao mesmo tempo, incomoda, causa certa estranheza e desconforto, sensações de angústia, confusão, estranhamento e até mesmo de terror.  Como causa para esses afetos Freud elenca uma diversidade de possibilidades a partir de experiências com pessoas, coisas, eventos e situações, dentre as quais podemos citar magia, fábulas, onipotência de pensamentos, superstição e crenças.  Por fim, Freud, na terceira parte do ensaio, vai se dedicar à interpretação metapsicologia desses afetos inquietantes que foram descritos anteriormente,  elencando hipóteses sobre a origem desses acontecimentos com intuito de justificar essa sensação de angustia e estranhamento. Assim, ele formula algumas possibilidades teóricas que servem de embasamento psicanalítico para de que maneira esses eventos se relacionam com o sujeito apresentando como possíveis elos de ligação às angústias infantis, os complexos reprimidos, a angústia de castração, a regressão ao ventre materno, a neurose obsessiva e, dentre todas, a destacada como principal: o Recalque.  Em um outro texto de 1919 intitulado Bate-se numa criança, Freud vai se dedicar ao estudo da origem das perversões sexuais e das fantasias. Freud já havia se aproximado do tema da Perversão em Três Ensaios da Sexualidade, porém nesse artigo vai se aprofundar no assunto estabelecendo uma correlação entre as perversões e as fantasias.  Inicialmente, é necessário esclarecer que Freud considera como perversão as formas atípicas de obtenção de prazer sexual, ou seja, tudo que foge do que chamava de meta sexual normal, que, para ele, era a relação sexual pênis-vagina. Dessa maneira, seriam consideradas como perversões os fetiches, o exibicionismo, a pedofilia, a ninfomania, o voyerismo, o sadismo e masoquismo, dentre outros.  Da mesma forma, Freud considera em seu texto que Fantasia é uma ideia, representação ou situação imaginada ligada a sentimentos elevados de prazer, podendo ser reproduzida inúmeras vezes, de maneira inconsciente ou consciente. Outra questão que merece destaque nesse texto é o fato de nele estarem presentes os temas centrais de toda a teoria psicanalítica de Freud: sexualidade, infância e pulsão. Nesse texto, Freud vai utilizar alguns casos clínicos para levar a termo sua discussão sobre a estrutura das fantasias e a etiologia das perversões. Desta forma, centra sua análise na relação entre o paciente neurótico e a fantasia perversa.  Para Freud, todas as perversões derivam do complexo de Édipo em relação ao amor incestuoso, que é o núcleo das neuroses. Quando o Édipo se resolve, permanece a carga emocional que fica como uma reminiscência, carregada com um sentimento de culpa a ela ligado. Em relação à fantasia infantil da surra contida no texto, Freud deu maior atenção àquelas ocorridas com as meninas, de modo que lista 3 fases evolutivas dessas fantasias, sendo a 1ª e a 3ª de caráter sádico e consciente e a 2ª de caráter inconsciente e masoquista.   Detalhando cada uma dessas fases, Freud evidencia que na 1ª fase a fantasia é de que o pai está batendo em outra criança. Nesse caso, a fantasia é de qualidade consciente na qual quem bate é o pai, quem apanha é a outra criança odiada pela filha, e a satisfação da filha é sádica pelo sentimento de triunfo por ser a preferida do pai. Na 2ª fase, a fantasia é que o pai bate na filha. Aqui a qualidade é consciente e quem apanha é a própria filha que narra. Para Freud, essa era a fase mais importante que tem origem no sentimento de culpa da criança. Essa fase ocorre quando o recalque é realizado e o sentimento de culpa transforma o sadismo em masoquismo. O desejo original que provoca a fantasia era o de ser possuída fisicamente pelo pai, que, ao ser reprimido em sua origem foi deslocado para ser submetida fisicamente ao pai resultando na satisfação de cunho masoquista. Tal situação evidencia a transformação do sadismo em masoquismo por regressão da libido, através da influência do sentimento de culpa. Por fim, a 3ª fase na qual outros batem em outras crianças. Nesse caso, a qualidade é consciente, quem bate é o adulto em posição de autoridade e quem apanha são outras crianças, preferencialmente meninos. O prazer aqui é novamente sádico e também masoquista porque a criança que apanha também representa quem fantasia. Os textos freudianos aqui abordados fazem parte de uma série de publicações que ficaram conhecidos como Artigos Metapsicológicos e vale ressaltar que a reformulação da teoria pulsional constitui um importante marco que representa uma mudança significativa na teoria e prática psicanalítica. Contudo, o conceito de pulsão de morte foi um dos quais Freud não conseguiu impor aos discípulos e à posteridade, sendo, portanto, objeto de controvérsia entre muitos psicanalistas resultando em uma questão polêmica que perdura até hoje. 

Freud, Klein - proposições sobre a face oculta do humano

Por Fernanda Dias Belo -  Que mal, porém tem eu me afastar da lógica? Estou lidando com a matéria-prima. Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Clarice Lispector Se para a espécie dotada de racionalidade, alcançar a inteligibilidade das coisas, fomentou as primeiras indagações filosóficas, foi somente com o advento da ciência, que respostas consistentes puderam ser alcançadas.  Nos dias atuais, muito se sabe sobre o planeta e o humano. Todavia, apesar da descoberta que habitamos em um astro que gira em torno do sol, questões como; de onde viemos? para onde vamos? Continuam ecoando em nossa ignorância. Do mesmo modo, o funcionamento biológico do corpo humano, pode ser aprendido em detalhes por qualquer um que se debruce sobre o tema. Mas e quanto a mente? Sabemos que sinapses e substâncias químicas agem no cérebro, influenciando o estado mental das pessoas. Contudo, nenhum dos avanços conquistados nesse campo, foi suficiente para suprimir o sofrimento psíquico. A psicanálise então, se coloca como uma opção diferenciada, que pela própria natureza e complexidade do seu objeto, propõe uma perspectiva não cientifica, para apreensão dos fenômenos mente. O pai da psicanálise (Freud), concebe em seu modelo estrutural, que conflitos e/ou fixações provenientes das fases psicossexuais do desenvolvimento infantil, culminam no processo de repressão, e deslocamento libidinal. Que consequentemente, compromete o funcionamento normal da mente. Melanie Klein, por sua vez, nos interpela com sua pesquisa, a regressar a um estágio remoto da vida humana, até as primeiras experiências da vida pós-natal. Onde a consciência moral ainda não foi estabelecida, e o que existe, são sensações corporais, que anseiam por satisfação. Fantasias, ansiedades e relações objetais, são o núcleo em torno do qual Klein fundamenta sua prática clínica, e ao mesmo tempo marca as principais diferenças, entre o seu modo de pensar o acontecer psíquico, e aquele de Sigmund Freud. Suas concepções sustentam, que relações de objeto, estão presentes desde o princípio no inconsciente do bebê. Ainda que inicialmente ele se relacione apenas com partes do objeto, e as perceba como uma extensão de si mesmo. Forçosamente, a privação move o bebê a realidade de que o objeto supridor, é externo. E é nesse âmbito da ausência, e do reaparecimento do objeto, que as fantasias basilares, que constituem, e determinam o funcionamento da mente, se formam. Direcionadas ao objeto primordial; o seio da mãe. Ódio, amor, culpa e reparação, são ambivalências operantes desde o princípio da vida. Oriundas das ansiedades da posição esquizoparanóide, onde o sadismo impera, como meio de retaliação. E da posição depressiva, na qual, os descontentamentos são superados pelos aspectos bons do objeto, instituindo condições para reparação. Portanto, na ideia desenvolvida por Klein, a mente normal funciona alternando entre as duas posições, com seus respectivos afetos. Logo, a dominância de uma sobre a outra, desequilibra, ou não estabelece as condições favoráveis, para uma mente saudável. Por conseguinte, se em Freud, a análise visa preencher lacunas mnêmicas, em busca da repressão. Klein se interessa em desvelar as fantasias primordiais, que sustentam o excesso de ansiedade, de modo que esta possa ser reduzida. Ou de facilitar o contato com elas, como meio de integrar o ego cindido por defesas paranoides. A questão da ansiedade também foi abordada por Freud, em dois momentos; no primeiro como sendo efeito, e no segundo como causa da repressão. Klein pensa a ansiedade em dois tipos; objetiva e neurótica. A primeira, ligada as demandas da realidade, desperta a segunda, que pela própria natureza inconsciente, é muito mais potente. De modo que, se em Freud a ansiedade está fortemente ligada ao falo, Klein propõe que o medo maior ligado a castração, é a não continuidade da espécie, pela impossibilidade de reprodução. Isso posto, é na ansiedade neurótica, segundo Klein, que o tratamento analítico deve estar focado. E este só pode ser encerrado, quando ela é alcançada, nas suas ambiguidades. Para tornar isso possível, ela oferece uma de suas maiores contribuições a psicanálise. Pois, se a partir do caso Dora, Freud destaca a importância da transferência para a cena analítica, Klein chama a atenção para a importância da transferência negativa. Segundo ela, somente acessando as emoções profundas, a diminuição das ansiedades, a redução das defesas maníacas, e fortalecimento do ego, pode ser alcançado. Os genitores são figuras centrais na formação inconsciente, no entendimento dos dois autores. Salvo que Freud, preconizou os pais reais em suas pesquisas. Sendo estes, o objeto de identificação na dissolução do complexo de édipo. Klein por sua vez, seguindo o entendimento de um mundo interno fantástico, descreve a identificação, como resultado dos mecanismos de introjeção e projeção, correspondentes aos primeiros objetos parciais; os pais da fantasia. Assim, pela via da introjeção, o ego internaliza partes do objeto no self. Enquanto na projeção, lança para fora o que não é capaz de tolerar no próprio self. Parafraseando Clarice Lispector “o horror sou eu diante do outro”. Mas, é ela também que desperta em nós o sentimento de empatia – diante de uma catástrofe, por exemplo – a identificação segundo Klein, é o correspondente, e a comunicação do conteúdo interno com o externo, e vise versa. A síntese desses processos, é a identificação projetiva. Um dos mais explorados conceitos, da obra Kleiniana. A via aberta por Freud, que ouvia e observava, assim podemos inferir que sua epistemologia discorre do exame dos efeitos do processo civilizatório, sobre a parte incivilizada do humano, foi expandido por Klein, que observava e ouvia. E foi justamente isso que tornou possível analisar crianças. A investigação de fantasias advindas de uma fase pré-civilizada, onde o que existe são apenas impulsos instintuais. Portanto a psicanálise - assim como invoca Clarice Lispector – é o caminho possível, para nos aproximarmos de uma supra realidade mental, que segundo os pressupostos da metapsicologia, constitui e afeta a todos nós. De maneira mais, ou menos nociva.

Sigmund Freud - Vida e obra

Por Ale Esclapes -  Nascido em 6 de maio de 1856 em uma pequena vila morávia de Freiberg que foi anexada pela Tchecoslováquia, migrou para Viena ainda criança, por esse motivo muitas vezes é chamado de austríaco. Filho de Jacob Freud e de sua terceira mulher Amalie Nathanson (1835-1930). Seu nome de batismo segundo a bíblia da família é “Sigismund Schlomo”, nunca tendo utilizado o Schlomo e adotando desde sua entrada para universidade em 1873 o nome de Sigmund. Interessou-se inicialmente pela histeria e, tendo como método a hipnose, estudou pessoas que apresentavam esse quadro. Mais tarde, com interesses pelo inconsciente e pulsões, entre outros, foi influenciado por Charcot e Leibniz, abandonando a hipnose em favor da associação livre. Estes elementos tornaram-se bases da psicanálise. Freud, além de ter sido um grande cientista e escritor (Premio Goethe, 1930), possui o título, assim como Darwin e Copérnico, de ter realizado uma revolução no âmbito humano: a ideia de que somos movidos pelo inconsciente. Desenvolve seus textos  até quase à véspera de sua morte em 23 de setembro de 1939, Londres, onde se refugiou da perseguição nazista por ser judeu e por seus escritos. A princesa Marie Bonaparte, amiga, colaboradora e ex-analisanda foi uma peça fundamental no sentido de salvar escritos, cartas etc... nesse momento e em mais de uma ocasião na vida de Freud, inclusive em relação a intrigante correspondência do início da psicanálise que trocou com Fliess e que ele, Freud, quisera que fossem queimadas. Freud, suas teorias e seu tratamento com seus pacientes foram controversos na Viena do século XIX, e continuam a ser muito debatidos hoje. Suas ideias são frequentemente discutidas e analisadas como obras de literatura e cultura geral em adição ao contínuo debate ao redor delas no uso como tratamento científico e médico. Os primeiros anos de Freud são pouco conhecidos, já que ele destruíra seus escritos pessoais em duas ocasiões: a primeira em 1885 e novamente em 1907. Além disso, seus escritos posteriores foram protegidos cuidadosamente nos Arquivos de Sigmund Freud, aos quais só tinham acesso Ernest Jones (seu biógrafo oficial) e uns poucos membros do círculo da psicanálise. O trabalho de Jeffrey Moussaieff Masson pôs alguma luz sobre a natureza do material oculto. Freud morre de câncer na mandíbula (passou por trinta e três cirurgias). Supõe-se que tenha morrido de uma overdose de morfina. Freud sentia muita dor, e segundo a história contada, ele teria dito ao médico que lhe aplicasse uma dose excessiva de morfina para terminar com o sofrimento. Como textos que trabalhou nesse final de vida temos o “Esboço de Psicanálise”, “Algumas Lições Elementares sobre Psicanálise” e o revolucionário “Moisés e o Monoteísmo”. Foi assistido por seu médico( indicado a ele por sua grande amiga e protetora Marie Bonaparte) Max Schur até o fim dos seus dias, tendo sido ele um fiel acompanhante, que esteve anteriormente com Freud, em momentos de grande tensão na  Áustria tomada pelo regime Nazista. Sabe-se que Schur  fez o acompanhamento de Freud no dia em que Anna Freud foi chamada a prestar informações à Gestapo, dia em que Freud viveu intensa  preocupação e que foi decisivo no sentido de convencê-lo a buscar refúgio na Inglaterra. Schur esteve ao seu lado todo tempo preocupado com sua saúde e como reagiria a tensão do momento. Descreve assim Peter Gay os momentos finais de Freud, uma das narrativas mais emocionantes a respeito: “Schur estava à beira das lágrimas, enquanto presenciava Freud encarando a morte com dignidade e sem auto piedade. Ele nunca vira alguém morrer assim. Em 21 de setembro, Schur repetiu a injeção, quando ele se tornou inquieto, e administrou uma dose final no dia seguinte, 22 de setembro. Freud entrou num coma do qual não despertou. Ele morreu às 3 horas da manhã de 23 de setembro de 1939. Quase quarenta anos antes, Freud escrevera a Oskar Pfister, indagando o que se faria, ‘quando as ideias falham ou as palavras não vêm?’. Não pôde evitar um ‘tremor diante desta possibilidade’. ‘É por isso que, com toda a resignação perante o destino que convém a um homem honesto, eu tenho um pedido totalmente secreto: apenas nenhuma invalidez, nenhuma paralisia das faculdades pessoais devido a uma desgraça física. Que morramos em nosso posto, como diz o rei Macbeth’. Ele providenciara que seu pedido secreto fosse atendido. O velho estoico conservou o controle de sua vida até o fim”. Primeiros anos:Freud inicia os estudos na universidade aos 17 anos, os quais tomam-lhe inesperadamente bastante tempo até a graduação, em 1881. Registros de amigos que o conheciam naquela época, assim como informações nas próprias cartas escritas por Freud, sugerem que ele foi menos diligente nos estudos de medicina do que devia ter sido. Em lugar dos estudos, ele atinha-se à pesquisa científica, inicialmente pelos estudos dos órgãos sexuais de enguias — um estranho, mas interessante presságio das teorias psicanalíticas que estariam por vir vinte anos mais tarde. De acordo com os registros, Freud completa tal estudo satisfatoriamente, mas sem distinção especial. Em 1877, desapontado com os resultados e talvez menos excitado em enfrentar mais dissecações de enguias, Freud vai ao laboratório de Ernst Brücke, que torna-se seu principal modelo de ciência. Com Brücke, Freud entra em contato com a linha fisicalista da Fisiologia. O interesse de Brücke não era apenas descobrir as estruturas de órgãos ou células particulares, mas sim, suas funções. Dentre as atribuições de Freud, nesta época, estavam o estudo da anatomia e da histologia do cérebro humano. Durante os estudos, identifica várias semelhanças entre a estrutura cerebral humana e a de répteis, o que o remete ao então recente estudo de Charles Darwin sobre a evolução das espécies e à discussão da "superioridade" dos seres humanos sobre outras espécies. Voltemos agora nossa atenção para o início da psicanálise Podemos dizer que muito do que levou ao entendimento da psicanálise se encontra esboçado em todo o período que chamamos de sua  fase pré-científica(ou pré-psicanalítica), muito do que está contido nos primeiro modelos de psiquismo proposto por Freud nesse período é de alguma maneira incorporado em tudo aquilo que será chamada da metapsicologia freudiana. Não podemos deixar de prestar atenção no conhecido modelo da Lagoa ou no modelo da Cebola, ambos muito elucidativos dos mecanismos que operam de dentro do aparelhamento psíquico. Breve histórico pré-psicanalítico: FREUD - Diploma em Medicina - 1881 - Primeiras pesquisas com Brucke (que o apresenta a Josef Breuer) - 1876. Primeiras pesquisas com Brucke (que o apresenta a Josef Breuer) - 1876. 1884 – A quase descoberta da função anestésica da cocaína – não escreve sobre o tema e viaja para estar com sua noiva Martha Bernays. Junho - Artigo sobre a cocaína por Carl Koller: Escreve sobre a anestesia local derivada da cocaína. Outubro de 1885 - 1886 - (janeiro, fevereiro) Bolsa da Faculdade e Curso em Paris - Hipnose - Histeria - com Jean Martin Charcot. Polêmica importante para os primórdios das pesquisas de Freud existente nessa época: Charcot - só histéricos seriam hipnotizáveis. Bernheim - todos seriam suscetíveis à hipnose. Polêmica Sexualidade 1886 -  Em recepção na casa de Chacot, este teria afirmado que a origem dos distúrbios nervosos seriam “sempre genitais”.

Inveja; o pecado original

Por Fernanda Dias Belo -  Aquele que está dentre os mais conhecidos dos sete pecados capitais; a inveja. Já se fazia notar em civilizações que precederam a era cristã. Sendo, portanto, recomendado a todo homem que desejasse possuir qualidades superiores, combater esse estado de emoção. Por outro lado, seu antagonista; a gratidão, é compatível com o grupo de qualidades que deveriam ser por eles, adotadas. Neste contexto, ambas são concebidas como escolha consciente e voluntária, fruto da interação do homem com o meio. Portanto, seria competência do próprio sujeito, superar a primeira, em benefício da segunda. Perspicaz, Melanie Klein inova ao apresentar a inveja e a gratidão, pelo viés rudimentar, inerente e comum ao desenvolvimento do aparelho mental humano.  Contrapondo-se ao senso comum, em sua versão precoce, tais afetos, são involuntários e inconscientes. Desencadeados pela relação primordial; bebê/seio. O movimento de Inveja e gratidão, são invariavelmente, dirigidas ao mesmo objeto; o seio bom. Atuando na mente do bebê, desde seus primeiros dias de vida, essas emoções interagem em uma conjuntura ambivalente e conflituosa. Onde, a prevalência do afeto invejoso no psiquismo do bebê, acarreta implicâncias, tanto para o seu desenvolvimento inicial, quanto para as relações de objeto, no decorrer de sua vida. De modo igual, revelam a simultaneidade, das posições esquizoparanóide e depressiva atuando desde cedo, sobre o ego prematuro. Desse modo, a predominância de uma posição sobre a outra, é determinante para a experiência do bebê em relação ao objeto, a saber; inveja ou gratidão. Se diante do mal-estar, provocado pela ausência do seio bom, o bebê é capaz de tolerar o desconforto, fruir em satisfação e contentamento quando reestabelece ligação com o objeto. Sinaliza que ele está no funcionamento depressivo. Consequentemente, as condições para sentir amor e gratidão pelo objeto, estão estabelecidas. Por outro lado, quando a privação do objeto, desperta no ego ansiedades persecutórias, sua capacidade de sentir gratidão, é eclipsada pelo ódio e horror a dependência. Origina-se então, a inveja primária (inconsciente), e suas defesas esquizoparanóides. Portanto, a premissa da inveja é a percepção de que existe um objeto bom, e superior. Pois este, é detentor de potencialidades que o bebê deseja, e não possui. Sendo assim, os primeiros ataques invejosos, são direcionados ao seio bom, e ocorrem justamente, pela capacidade que o seio dispõe de nutrir, e ser uma fonte inesgotável de alimento. Por conseguinte, a frustração de não ser detentor, de tais potencialidades, desencadeia sentimentos de animosidade, e o seio que alimenta, mas não gratifica, se torna alvo de ataques sádicos, que visam danificá-lo e destruí-lo. É imprescindível ao invejoso, manter-se na ilusão de onipotência, e auto suficiência, enraizadas no aspecto narcísico da inveja. Logo, diminuir, desvalorizar as capacidades e conquistas do outro, tem por finalidade, auxiliar o invejoso a se manter isolado do sentimento de dependência e insuficiência, negando a existência daquilo que lhe causa horror; os atributos do outro, que ele não possui. Nisso consiste o caráter perverso da inveja; a negação do outro. Não existe consideração pela pessoa, que sente e sofre as consequências dos ataques a ela destinados. No limite, essa anulação do outro, conduz a uma relação de utilidade; objetificação da pessoa. sem vínculo, nem laços de afeto. Isso posto, podemos inferir, que o bebê imerso em inveja, começa a recusar o alimento, por não tolerar a condição de submissão. Mas, a necessidade de sobrevivência se impõe, e ele volta a se relacionar com o objeto, apenas como fonte de nutrição e suprimento material, mantendo-se em um “estado de interesse”. Mesmo assim, nada do que é fornecido pelo objeto, resulta em satisfação. Visto que, o estado de inveja, não é incompatível com a condição de contentamento, nem de reconhecimento do objeto, como sendo suficientemente bom (desvalorização). Isso resulta, na voracidade, enquanto um dos principais atributos da inveja. Como citado acima, a inveja e a gratidão, estão presentes nas relações humanas, desde os períodos rudimentares da história. Ao decorrer por suas características - no sentido do senso comum -, certamente podemos identificar com facilidade, em nossos círculos de convivência, pessoas que correspondem a essa condição; incluindo, nós mesmos. Contudo, a concepção geral da inveja, tem verossimilhança com o conceito de cobiça. Pois se fundamenta no preceito de ansiar o que o outro possui. Entretanto, nos moldes que Melanie Klein problematiza em sua obra, a inveja e a gratidão, são afetos concebidos na gênese do desenvolvimento humano. Do mesmo modo, ocupam uma posição de centralidade no funcionamento da mente do bebê, e do adulto. Sem jamais negligenciar o aspecto constitucional, nas conjecturas de Melanie Klein, a gratidão é intrínseca a pulsão de vida. Se resume basicamente no reconhecimento do bebê, de que o seio - apesar dos descontentamentos- preservou sua existência. Quanto a inveja, ela vai além do desejo irrefreável de gozar daquilo que pertence ao outro, e triunfar sobre o objeto. Ela almeja aniquilar, tudo aquilo que reverbera suas limitações, e incompetências. Em total confluência, com os princípios da pulsão de morte.

Das revoluções e insubmissões de Melanie Klein sobre o pensar e o fazer psicanalítico

Por Maria Teresa Manfredo -  A psicanálise, que em princípio era uma técnica criada para ser aplicada somente em adultos, passou na primeira metade do século XX por um conjunto de modificações, abarcando também a análise voltada para as crianças. A grande responsável por essa inovação técnica e teórica foi Melanie Klein. Com efeito, essas transformações não ficaram restritas ao público infantil e, rapidamente, tornaram-se pilares para também balizar novos olhares sobre o funcionamento mental de uma maneira ampla. Em “Amor, Culpa e Reparação e Outros Trabalhos”, livro que reúne textos de Klein de 1921 a 1945, podemos verificar o modo como a autora descreve o início e a evolução da sua atividade analítica dedicada à infância. Naquela época, a análise voltada para esse público era considerada algo inferior dentro da psicanálise; acreditava-se que o trilhar analítico que poderia ser realizado com uma criança pequena deveria ter apenas um caráter educativo, aproximando-se da pedagogia. Isso porque, de acordo com a técnica freudiana, a psique das crianças ainda se encontraria em estado incompleto – já que o Complexo de Édipo não estaria formado até os sete anos de idade, aproximadamente, segundo o autor. Ao longo do desenvolvimento de seus estudos analíticos, clínicos – e aqui podemos destacar, por exemplo, o capítulo “Princípios Psicológicos da Análise de Crianças Pequenas”, texto escrito em 1926, presente no livro citado acima – Klein defende que é, sim, possível a análise das crianças com cunho estritamente interpretativo, ou seja, seguindo os padrões da psicanálise. Ainda tendo como referência o livro “Amor, Culpa e Reparação e Outros Trabalhos”, é interessante ressaltar que, até a década de 1930, Klein traça um trajeto intelectual e analítico em que o uso das noções freudianas das fases do desenvolvimento psíquico (oral, anal, fálico, latente, genital), bem como do Complexo de Édipo e de castração, estão muito presentes. Pouco a pouco, com o avançar de seus estudos e observações clínicas, Klein começa a fazer uma série de descobertas que contradizem as teorias básicas de Sigmund Freud, sobretudo no que tange às fases de desenvolvimento. Por exemplo, ela começa a observar que mesmo em crianças muito pequenas, menores de cinco anos de idade, pode ser observado o Complexo de Édipo. Com isso, a autora traz a luz instâncias como a do Superego arcaico – ideia segundo a qual a força do Superego é, antes de tudo, pulsional, biológica e provém totalmente do sadismo inerente a cada bebê quando se relaciona com o mundo a sua volta. Klein identifica, ainda, um certo contraste entre a rigidez que o Superego pode desenvolver e a tolerância dos pais. Mas, para a autora, a formação do Ego não encontraria sua base nas interdições familiares. De uma forma um tanto revolucionária, porque muito inovadora, Klein argumenta que o que exerce grande influência nessa formação não seriam os pais reais, mas o que ela chama de imago dos pais, criada no psiquismo do bebê desde os primeiros meses de vida. Daí teríamos que a noção de Complexo de Ego para Klein ocorre de maneira muito distinta, já que muito mais tenra em termos etários, do que a noção de Complexo de Ego em Freud. Além de outros pontos importantes, vale destacar que, em Klein, diferentemente do que ocorre na obra de Freud, a questão moral, ou a influência social e cultural, ficam em plano secundário. Assim, pouco a pouco, Klein acaba estabelecendo a matriz das relações de objeto como pressuposto principal dentro da psicanálise. Dito de outro modo, o que passa a importar em psicanálise a partir de Klein não é a libido, tal qual postulava seu antecessor teórico de maior peso, Freud; importa, sim, como o sujeito se relaciona com outros objetos (e por objetos podemos entender as pessoas, as coisas, os acontecimentos, as situações... Tudo aquilo que dá forma ao mundo e que passa pelo juízo da criança). Ora, em termos de paradigma psicanalítico, isso significa uma expressiva revolução. Ainda assim, é possível de se perceber na obra de Klein um certo receio de ser expulsa do círculo psicanalítico da época, já que suas descobertas confrontavam as de Freud, grande fundador e portador das teorias psicanalíticas naquele período. Dessa forma, é possível fazer a seguinte leitura em muitos dos escritos de Klein, principalmente até meados da década de 1930: a autora se ocupava de uma tarefa ambígua; de um lado, refazer a teoria psicanalítica frente às suas descobertas e, de outro, não discordar diretamente de Freud. Em suma, devemos destacar que, até Melanie Klein, a psicanálise pensava desenvolvimento psíquico tal como Freud o imaginara, qual seja, em termos de fases de desenvolvimento. Paulatinamente, ao se tornar mais independente intelectualmente em relação a Freud, Klein desenvolve a noção de posição. Por conseguinte, podemos afirmar que a grande consolidação kleiniana em termos teóricos e técnicos se dá entre 1935 e 1946, com estabelecimento completo do seu famoso sistema de posições. Nele, basicamente não teríamos mais fases lineares de desenvolvimento psíquico e sim a ideia de que ora o sujeito está numa posição (esquizoparanóide) e ora noutra, (posição depressiva). Enquanto seres humanos, nossas mentes estariam sempre vibrando numa dessas duas posições, tal qual um pêndulo, a depender tanto da internalização dos objetos que tivemos em nossas experiências enquanto bebês quanto de nossas relações objetais no momento presente. Dito isso, no que tange às diferenças e aproximações entre a forma de condução dos casos clínicos entre Freud e Klein, poderíamos afirmar que, em sua escrita, Klein expõem mais os detalhes e meandros dos casos clínicos, suas dúvidas, demonstrando, por vezes, que o caminho interpretativo da mente humana pode não ser algo tão assertivo quanto os textos de Freud podem sugerir. Também, devemos observar que Klein se afasta da descrição quase investigativa que muitas vezes Freud imprimiu na exposição de seus casos clínicos; com isso, a psicanálise passa cada vez mais a ganhar em termos de complexidade.

O inconsciente, as brincadeiras, e a genialidade de Melanie Klein

Por Fernanda Dias Belo -  “Quando as palavras não são capazes de comunicar o que sentimos, a gente não fala, só sente”. A linguagem verbal, que é a principal forma de comunicação humana, possui em si mesma, lacunas que por vezes, dificulta, ou não é capaz de transmitir com exatidão, o que se pretende comunicar. Quando falamos de amor, por exemplo, costumamos dizer; amo minha mãe, amo minha cidade, amo aquele prato, e assim por diante. Ora, certamente nominamos de amor, tudo o que nos desperta certos afetos, o que não significa necessariamente, que se trate do mesmo sentimento. Pode ser apenas, o reflexo da nossa limitação verbal, que nos leva a dar o mesmo nome, a coisas potencialmente diferentes. Ainda assim, com certa carga de precariedade, a importância das palavras, está estabelecia. E foi através da escuta do que é dito, que Freud iniciou a metapsicologia que explora os significados ocultos, no discurso do paciente. Sendo assim, sua técnica estava condicionada, e limitada a pacientes com fala articulada. O que fatalmente impossibilitou, que realizasse pesquisas clínicas diretamente com crianças. Desafio assumido por sua Filha e discípula, Ana Freud. Que utilizando-se do viés educativo, inicia uma psicanálise infantil, voltada, e com caráter pedagógico. Conduta fortemente criticada por Melanie Klein, que entende a prática de Ana Freud, como inapropriada. Na medida em que esta, desperta ansiedades - que segundo Klein, permeiam a psiquê da criança - sem que seja realizado um tratamento analítico sobre tais ansiedades. Logo, os procedimentos de Ana Freud, estariam próximo da modelação, e adaptação da criança, ao meio em que vive, em detrimento do trabalho analítico. Embates com Ana Freud à parte, Melanie Klein é a referência em psicanálise com crianças. Podemos ir além, e afirmar que ela foi a precursora. Visto que, o método que ela desenvolveu através de observações clínicas, não é somente consistente, mas é também, genuinamente psicanalítico. Considerando que seu trabalho se direciona em investigar as fantasias do inconsciente infantil, da maneira que ele mais comumente se manifesta em crianças; através das brincadeiras.    A técnica do brincar de Melanie Klein, possibilitou novos avanços para a clínica psicanalítica. Não submissa a linguagem verbal, novas possibilidades se apresentaram, como tratamento de psicoses, por exemplo. Pelas quais, Freud desenvolveu certa quantidade de material teórico, mas pouco pôde fazer na prática. Uma nova formulação do entendimento, de um dos principais conceitos da psicanálise é teorizado por Klein; o complexo de édipo. Se Do ponto de vista fenomenológico, ela converge com Freud, a inovação do seu entendimento se dá, na temporalidade, dinâmica do processo, e possíveis desdobramentos, no aparelho mental. Para Freud, o desenvolvimento da criança, é dividido em fases psicossexuais, e a divisão de cada etapa é definida de acordo com a concentração de energia pulsional. Sendo assim, na fase fálica, o que prevalece é o interesse da criança pelo falo (pênis). E a partir daí, emerge o complexo de édipo – por volta dos quatro anos de idade - Onde, de acordo com Freud, no édipo positivo, o menino abandona a mãe como objeto libidinal por medo da castração. E a menina (que vive uma fase pré-edipiana), na busca de resolver sua falta fálica, abandona primeiro a mãe, e depois o pai, na sua jornada para conquistar, o que não possui. Crucial para o desdobramento do édipo, tanto no entendimento Freudiano, quanto no Kleiniano, é o Superego. Klein inclusive, concebe uma versão arcaica, que desde muito cedo, age sobre o ego fragilizado do bebê. Nessa perspectiva, para Klein, o complexo de édipo se inicia, ainda no primeiro ano de vida da criança, e o seu desenvolvimento, decorre em estágios concomitantes, amalgamados, e permeados por ansiedades oriundas da introjeção de objetos edipianos parciais (seio bom, seio mau/ pênis bom, pênis mau). Nesse contexto psíquico, o que determina a maneira que o complexo de édipo é experienciado pela criança, é a capacidade do seu ego rudimentar, suportar ansiedades persecutórias, e um superego agressivo.        Portanto, Klein sustenta a teoria, que relações objetais, são apreendidas desde o início pelo aparelho mental. E que as imagos internalizadas, as fantasias, assim como as ansiedades da criança, podem ser tratadas ainda na infância. Ao contrário do seu mestre, Freud. Que acreditava não ser possível analisar crianças, mesmo concebendo a infância como origem do adoecimento de seus pacientes, era através do adulto, que ele regredia até as vicissitudes da infância. Por outro lado, a perspicácia de Melanie Klein, permitiu que ela tratasse crianças, na medida em que direcionou sua atenção, para outras formas de comunicação. E constatou que a ausência de vocabulário, ou a comunicação precária, não impossibilita o acesso do analista ao inconsciente do paciente. Pois, o que não é dito, pode ser observado e tratado por uma psicanálise, munida de técnica apropriada, que considera sobretudo, variadas formas de linguagem, e as diversas possibilidades de manifestação do inconsciente. Exatamente como fez, a senhora Klein.

Algumas diferenças e aproximações teórico-clínicas em Freud e Klein

Por Helton Alves de Lima -  Melanie Klein foi uma importante psicanalista que deixou como legado uma série de conceitos e teorias originais, além de modificações e invenções quanto ao trabalho clínico. A obra de Klein se deu principalmente quando a psicanálise buscava fazer uma interlocução com a infância, estabelecendo-a como âmbito do trabalho clínico. Até então, o que havia eram adaptações do modelo de trabalho com adultos neuróticos na clínica freudiana para o trabalho com crianças, ou ainda a proposição de um modelo educativo/pedagógico capitaneado por Anna Freud, que buscava em sua abordagem educar a criança para conter seus impulsos e não as analisar do ponto de vista da interpretação das formações inconscientes, dos conflitos psíquicos e da transferência, pois acreditava-se que a criança não tinha recursos psíquicos suficientemente bem estabelecidos para lidar com os impulsos inconscientes que emergiriam no trabalho analítico. Ao observar crianças, Klein percebeu que o inconsciente e a associação livre se apresentavam no brincar, por meio do qual o mundo interno e os conflitos eram encenados, o que dava abertura para a emergência do significado inconsciente presente no conteúdo das brincadeiras, das ações e das falas das crianças, significado esse que se reconstruía, portanto, no e pelo brincar em análise. Na progressão de seu pensamento clínico e teórico, Klein estabeleceu uma especificidade para a clínica da infância: não uma mera transposição da clínica com adultos, muito menos um trabalho educativo e adaptativo - o que provavelmente exigiu de seu pensamento o esforço de revisão e questionamento de postulados até então bem estabelecidos nas escolas psicanalíticas, decorrendo em inovações teóricas e clínicas recebidas, não sem polêmicas e conflitos, pela sociedade psicanalítica. Um primeiro exemplo desse esforço se dá no âmbito da clínica com crianças pequenas. Klein propôs que a criança pudesse explorar suas emoções dentro do setting através do brincar, incluindo a dimensão negativa da transferência, como o ódio, a hostilidade e a desconfiança, ao considerar a necessária capacidade do analista de suportar tais aspectos transferenciais enquanto condição para sua postura e manejo clínico, o que possibilitaria a criança entrar em contato com suas emoções, seus sentimentos negativos, e assim suportá-los, elaborá-los, aprender a lidar com eles, ao invés de suprimi-los ou reprimi-los. No curso de seu pensamento teórico, Klein compreendeu que a criança sofria com ansiedades que, se não fossem bem trabalhadas e elaboradas, promoveriam a inibição de seu desenvolvimento emocional e intelectual. Muitos de seus pacientes chegavam ao consultório com sérias perturbações e inibições em seu desenvolvimento e sociabilidade. Para ela, a intensidade dessas angústias refletia formações muito arcaicas do mundo interno da criança, permeado por sentimento de culpa e pelo medo de retaliação aos seus impulsos sádicos que, em fantasia, são vividos como ataques aos objetos. Aqui há a formulação teórica do que seria o desenvolvimento inicial da criança para Klein que, apesar de ter fornecido certa complementaridade aos postulados freudianos, os modificou. Trata-se de ideias que propõem a instalação do conflito edipiano e do superego em momentos muito primitivos da existência do bebê, por volta dos seis meses de idade, e não na fase fálica, como propôs Freud. Freud compreendeu a criança a partir de suas observações dos adultos e de suas hipóteses em torno da questão pulsional e da sexualidade. Para o autor, a progressão do desenvolvimento psicossexual se dava mediante a organização libidinal em fases: oral, anal e fálica. Na fase fálica, os conflitos e a rivalidade edípicas são precipitadas na relação da criança com seus progenitores, vistos como objeto do desejo infantil e ação de impedimento à realização desse desejo, e a castração é compreendida como a saída da fase fálica, que possibilita a diluição do Complexo de Édipo e a instalação do Superego, a partir da introjeção de qualidades e ideais da figura castradora por identificação e internalização das normas socioculturais. O Superego freudiano forma parte das instâncias psíquicas descritas na Segunda Tópica, tendo seu aparecimento idealmente por volta dos 5 anos de idade e servindo como instância que pune, cobra o Eu e confere suporte à consciência moral. Por sua vez, Klein entende que há um Superego arcaico que se forma já no bebê mediante as relações de objeto e ansiedades típicas de uma fase primitiva do Eu na qual o sadismo está em plena vigência – o que corresponde, biologicamente, à necessidade de alimentação via seio (ato de sugar) e, psicologicamente, à instalação de fantasias de gratificação, agressão e retaliação que permeiam a introjeção dos objetos parciais que vão povoar o mundo interno do bebê. A oralidade e a analidade exercem um papel importante em sua teoria: morder, triturar, conter, expulsar, introjetar, destruir etc., passam a funcionar como representantes psíquicos de fantasias inconscientes e fantasias de destruição do objeto considerado mau, o que levam a uma intensa experiência de ansiedade, como o medo de objetos internos ou externos que perseguem, punem, promovem retaliações. Fantasia é mais importante na clínica kleiniana do que as experiências reais (os pais/cuidadores reais da criança), o que possibilita interpretações do mundo interno da criança e da forma como ela experencia e organiza os objetos internalizados, o que vai dar o tom do modo como se relaciona com esses objetos e seu mundo interno. O Superego em Klein é considerado mais cruel do que o Superego em Freud, por ser um perseguidor arcaico do Eu, resultando em inibições que podem impactar o desenvolvimento emocional e intelectual, já que a intensa pressão que exerce, em fantasia, pode impedir a passagem da identificação para simbolização enquanto índice de amadurecimento psicológico. Esse postulado tem reverberações em sua clínica, na medida em que ao não se furtar de interpretar as formas de transferência negativa e proporcionar setting analítico de maior abertura à expressão emocional e aos conteúdos que se reconstroem no brincar, a postura mais flexível do analista junto a criança permite com que os conteúdos possam ser abordados pela via da elucidação das fantasias persecutórias e pela ação sublimatória que leva à simbolização.

Doralice, eu bem que te disse

Por Wagner Alledo -  “Agora você tem que me dizerComo é que nós vamos fazer?” Compositores: Antônio Almeida e Dorival Caymmi A Doralice de Antônio Almeida e Dorival Caymmi, imortalizada no ritmo da Bossa Nova pela voz de João Gilberto, é provocada: como é que nós vamos fazer? Doralice e Dora (a de Freud) possuem algo em comum. Duas histórias inacabadas, fragmentadas. Doralice se casou ou não se casou? E Dora, que conclusão podemos tirar da sua história?  “Fragmentos da análise de um caso de histeria” é o título do artigo publicado em 1905 em que Freud apresenta o Caso Dora. A Doralice da música surgiu 40 anos depois, em 1945, em gravação do grupo de samba Anjos do Inferno. Embora a história de Dora bem que também poderia ser um samba. Menina inteligentíssima, supostamente assediada pelo amigo do pai, sente-se desamparada pela família, anuncia o seu desejo pelo suicídio em função do sofrimento causado por sentimentos contraditórios, apresenta diversos sintomas físicos e procura o tratamento anímico do doutor Freud em busca de cura.  No texto, Freud descreve o tratamento de Dora e compartilha uma série de achados práticos que corroboram com a teoria que ele vinha desenvolvendo. Ao mesmo tempo, em vários momentos, ocorrem contradições. Algumas interpretações permitem inferir que determinadas posturas de Freud tiveram maior foco na comprovação da sua teoria até então do que na resolução dos problemas da paciente. Ele teria deixado “escapar” alguns detalhes. O Caso Dora é publicado entre duas obras fundamentais da teoria psicanalítica (A Interpretação dos Sonhos e Três Ensaios da Teoria da Sexualidade).  Tratava-se de um momento fundamental do desenvolvimento da Psicanálise, quando Freud havia abandonado a hipnose e o método catártico e vinha desenvolvendo os conceitos de associação livre e aqueles relacionados à interpretação dos sonhos, como deslocamento, condensação etc. Mas talvez o foco na comprovação desses conceitos não tenha permitido que Freud observasse mais profundamente dois outros, fundamentais para a sua teoria, e muito presentes nesse caso: a resistência e a transferência.  Com Dora, Freud experienciou profundamente a transferência negativa e a resistência e depois de algum tempo pode observar quão fundamental é a relação do analista com o seu analisado, assim como os impactos dessa relação nos resultados do tratamento. O caso inacabado de Dora permitiu a Freud evoluir na conclusão de que através da transferência com o analista o analisado acessa parte do seu inconsciente reprimido pela resistência.  Infelizmente para Dora essa conclusão tardia motivou sua desistência do tratamento e, ao fazer isso, ela não poderia conceber o tamanho da sua contribuição para o desenvolvimento da teoria e técnica psicanalíticas.  Após o Caso Dora, Freud se dedicou a buscar o aperfeiçoamento do manejo técnico da psicanálise, além de expandir a teoria desses conceitos. Tais reflexões resultaram em textos fundamentais como por exemplo “Recomendações ao Médico para o Tratamento Psicanalítico” e “Sobre a Dinâmica da Transferência”, ambos de 1912, e “Sobre o Início do Tratamento”, de 1913. Dois anos depois, em 1914, ele publica “Lembrar, Repetir e Perlaborar”, que introduz o conceito de neurose de transferência, quando a resistência é tão intensa que influencia diretamente no processo de recordar.  No fim, o Caso Dora foi um grande insucesso. Mas somente para a própria Dora. Seu papel para a psicanálise foi fundamental. O fracasso do seu caso abriu portas essenciais para o conhecimento teórico e técnico. Dora, assim como Doralice dos versos do samba, não respondeu com palavras diretas ao questionamento que lhe foi imposto. Mas, ambas, do seu próprio e legítimo modo, pavimentaram caminhos bastante concretos em busca de respostas para a pergunta:  E agora, Doralice, como é que nós vamos fazer?