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NOVOS_HORIZONTES_PARA_PSICANALISE Blog Masonry - Results from #156

Novos horizontes para a psicanálise

Por Débora W. Matzenbacher -  Ao longo de sua vida, Bion desenvolveu seus estudos e trabalhos usando as teorias psicanalíticas já propostas, como modelos, principalmente as de Freud e Klein, deixando cada vez mais de lado, com o avançar do tempo os excessos dessas teses e pressuposições que eram aplicados no trabalho clínico da psicanálise. A obra Bioniana apresenta um nova visão da psicanálise, mais espontânea e fluida, se concentrando não em teorias, mas sim nas ferramentas que o analista tem a sua disposição, e que podem ser usadas das mais diversas formas e maneiras. Ademais, a valorização do vínculo entre analista e analisando, que até então não tinha o devido reconhecimento e relevância, passou a ter um papel fundamental na clínica, ou seja, uma psicanálise vincular onde o foco do trabalho é o conhecimento, que vai encaminhando analista e analisando, juntos, em direção ao modo como esse último se relaciona com as suas próprias verdades. Esse vínculo é uma relação que pode ser entre duas pessoas, mas também entre partes dessas personalidades, sendo ainda um dos fatores que conduzem ao processo do conhecer e que vai tornar o trabalho analítico tão rico. Bion tinha o entendimento que em uma análise o relevante não são somente as experiências emocionais que ali são experienciadas, mas também os infinitos vínculos que de alguma forma fazem a ligação entre analista e analisando, o vínculo direto. Chamava atenção também para os chamados vínculos indiretos, que são aqueles vínculos externos do paciente e que podem contribuir quando aparecem em algo que é sentido na sessão. Portanto, a ideia do vínculo é que através dele se consiga dar novos significados àquilo que se apresenta na sessão, isto é, transformar algo em capacidade para pensar. Para tanto, Bion reconhecia três importantes vínculos que são trabalhados juntos, à saber: do Amor (A), do Ódio (O) e do conhecimento (K), favorecendo e privilegiando esse último, o vínculo do conhecimento, que como já acima citado, ele chamava de vínculo K. É através dele (K) que o aprender com as experiências vai se produzir e evoluir, deixando assim, o paciente habilitado e capacitado para vivenciar o processo do conhecer. Bion definia K como algo que está se realizando, se tornando, um processo e não um conteúdo, o que remete a algo dinâmico e vivo em toda nova sessão e que implica numa relação de crescimento mútuo e em alguma coisa ganhar um novo significado, mesmo que a turbulência emocional esteja presente, pois em K essa turbulência é tolerada. Portanto, para Bion conhecer é aumentar e expandir as possibilidades e capacidades para pensar. Quando se está num lugar de observação do paciente, tudo aquilo que se intui e que se capta, seja pela palavra, atitudes, gestos e reações, e que Bion chamava de experiência emocional, está conectado e relacionado ao vínculo do conhecimento que está se revelando no momento da sessão, justamente quando a dupla está em frente ao desconhecido. Dessa forma, conforme o analista alcança e compreende uma parte dessa experiência emocional, uma parte desse desconhecido do paciente, o Ò, acontece uma transformação para K, e em ato subsequente, se dessa transformação, o que o analista comunica para o analisando na sessão, surgir um novo significado para esse paciente, acontece uma transformação no sentido inverso, de K para Ò, e assim, ambos estão caminhando juntos. No vínculo K o analisando tem um sentimento de reconhecimento, ele volta a conhecer aquilo que já existe dentro dele, mesmo que muitas vezes esse processo seja doloroso, mas ele tolera a frustração sentida. Por isso que se diz que o vínculo K está ligado as experiências emocionais, porque ele está sempre ganhando e perdendo significado, sempre se transformando. Quando o analisando não consegue suportar e tolerar o desconhecido que se apresenta, quando ele não tem capacidade de abstração e portanto não consegue gerar e ganhar novos significados, não aprende da experiência, ele está em –K. O  é o não entender, o não conhecer. É quando o analisando não tem tolerância ao desconhecido e uma gigantesca turbulência emocional se apresenta entre as partes, uma vez que o que ele está vivenciando é uma fantasia. Importante frisar, que nesse contínuo processo do conhecer, Bion não trabalhava a mente humana separando consciente e inconsciente, como Freud por exemplo o fazia. Para Bion a psicanálise não se restringia ao inconsciente, mas também ao consciente, tanto do analisando quanto do analista. A ideia era de que a barreira entre um e outro, ou seja, consciente e inconsciente, fosse bem mais permeável do que até então se imaginava, e que a comunicação entre ambos aconteça o tempo todo e ao mesmo tempo. Pensando assim, Bion nominava “visão binocular” esse modo de ver e sentir o indivíduo como um todo, quer dizer, consciente e inconsciente trabalhando e operando juntos o tempo todo. A partir daí novos vértices de compreensão e sentido vão se abrindo no momento em que, tanto analista como analisando, consigam observar um mesmo “fato psíquico” sob outras perspectivas e entendimentos que vai ter como consequência um desenvolvimento e um crescimento mental do paciente.  Para tanto, a comunicação do analista ao analisando, ou seja, aquilo que ele interpreta e posteriormente devolve numa fala, precisa estar em consonância com o momento do pensamento do paciente, quer dizer, o analista sentir se esse pensamento está num momento mais rústico, em que o paciente não tem capacidade para “receber” a sua interpretação/fala, ou num momento mais elaborado, em que o pensamento do paciente esteja “apto” para tal comunicação. A proposta é que a mente do analista opere sempre em Ò, em “estado de fé”, isto é, que ele evite o uso das percepções de caráter sensoriais, bem como trabalhe com seu estado de mente livre de desejo, memória e pretensão de compreensão justamente para que não se fique com os pensamentos saturados de inclinações e expectativas que possam vir a atrapalhar sua condição de trabalho e capacidade de intuição daquilo que está acontecendo no momento em que a sessão está acontecendo. E assim, Bion dando novos rumos para a psicanálise, entendia que, enquanto o par, analista e analisando, estiverem reunidos sempre haverá algo possível de ser observado e explorado, uma vez que, a “psicanálise proporciona capacidade de desenvolver um aparelho para pensar”.
DA_ORIGEM_AO_FUTURO_DA_PSICANALISE Blog Masonry - Results from #156

Da origem ao futuro da psicanálise

Por Leonardo Neri -  No início do século passado, a psicanálise emergiu como um campo de estudo diferenciado que abriu novos horizontes para compreensão da mente humana. No entanto, a psicanálise surgiu repleta de conceitos médicos, pois muitos de seus pesquisadores, como o fundador Sigmund Freud, tinham formação médica. Foi neste contexto que o psicanalista britânico Wilfred Bion desenvolveu uma teoria inovadora que rompeu com as convenções da medicina tradicional, a qual tratava os sintomas pelo viés de causa-efeito. Bion trouxe uma nova perspectiva para a psicanálise, enfatizando aspectos emocionais e subjetivos e desvirtuando a necessidade de se atingir um resultado, como destino a ser alcançado no processo de análise, o que se diferenciava com a prática da psicanálise da época. Nos primeiros anos do desenvolvimento da psicanálise, muitos dos seus principais representantes, como Freud, eram médicos. Isto muitas vezes se reflete nas abordagens clínicas da psicanálise, que se concentravam em trazer significados sobre o funcionamento do aparelho psíquico, visando uma suposta cura do paciente. O foco estava na análise da histeria, neuroses, psicoses e perversões, bem como na compreensão de seus sintomas causados pelos conflitos intrapsíquicos do indivíduo, muitas vezes associados a traumas sexuais e/ou infantis. Por outro lado, Bion apresentou uma nova perspectiva fundamental para a psicanálise moderna. Essa abordagem é menos embasada nos conceitos médicos e mais vinculados aos aspectos psicológico e emocional. Bion desafiou a visão predominante da mente como uma entidade puramente cognitiva, ressaltando a importância dos processos emocionais e inconscientes. Bion sugere que a mente humana lida com pensamentos primitivos chamados “pensamentos beta”, que podem ser a causa de tristeza, sintomas e problemas psicológicos. A contribuição mais importante de Bion foi sua teoria da mudança emocional. Ele acreditava que as pessoas têm a capacidade de transformar o pensamento beta em pensamento alfa consciente e significativo. Este processo de mudança emocional está no cerne da psicanálise Bioniana. Bion entendia que ao processar pensamentos puros e transformá-los em pensamentos conscientes, as pessoas poderiam transformar suas emoções de uma forma mais saudável e aliviar a dor emocional e psíquica. A teoria de Bion teve grande influência na interface entre a medicina e a psicanálise atual. Ele desafiou a visão puramente ontológica da psicanálise, concentrada na necessidade de atrelar os sintomas dos pacientes em diagnósticos pré-moldados, conforme teorias de transferências ou das posições, citando as bases de estudo de Freud e Klein, respectivamente. As mudanças para uma epistemologia não convencional destacadas por Bion, demonstram a importância de explorar os aspectos emocionais e psicológicos dos pacientes, inclusive daqueles com doenças crônicas ou psicoses. Bion desempenhou um papel importante na mudança da psicanálise, afastando-a fundamentalmente de seu viés médico e destacando a evolução emocional do paciente, para compreensão da mente humana. A contribuição de Bion é um exemplo notável de como a psicanálise evoluiu para abraçar uma visão mais abrangente e holística da existência humana. No início da psicanálise, Freud concentrou seus estudos com base na premissa de que os anseios e aflições humanos estão intimamente relacionados a experiências distantes que merecem uma investigação aprofundada. Freud concluiu que os sintomas constituem reflexos de emoções e vivências que foram reprimidas, ocultas nas profundezas do inconsciente. Assim, formulou teorias acerca das fases do desenvolvimento sexual humano, destaca a importância do Complexo de Édipo e desmembra o aparelho psíquico em Id, Ego e Superego. A exploração teórica de Freud estabeleceu os fundamentos da psicanálise, e sua abordagem clínica segue uma lógica semelhante à da medicina, onde se procura a raiz de um sintoma, realizando uma investigação que, quando esclarecida, contribui para a cura do “problema”. O analista empreende a busca por respostas, sabendo exatamente o que está procurando - emoções reprimidas - e onde deve direcionar sua pesquisa, ou seja, aplicar a experiência subjetiva humana à “fórmula” do Complexo de Édipo, para se descobrir as causas. Outra personalidade crucial no desenvolvimento da psicanálise foi Melanie Klein, que avançou com os conceitos de Freud, sobretudo a partir da análise de crianças, adiantando o Complexo de Édipo para as fases mais precoces do desenvolvimento humano. Klein também introduziu as lógicas das posições persecutória e depressiva e trouxe à tona o conceito de identificação projetiva, dentre outros. A sua abordagem clínica também estava focada na busca de respostas no inconsciente, revisitando o período infantil e os estágios iniciais do desenvolvimento psíquico e as relações com objetos, tudo isso com o objetivo de atenuar sintomas e promover a cura. Bion inova ao propor uma abordagem psicanalítica que, em resumo, não visa a diagnósticos ou esclarecimentos do passado. Em vez disso, amplia perspectivas e sugere diferentes maneiras de interpretar eventos psíquicos, conscientes ou inconscientes, promovendo uma exploração que capacita o paciente a descobrir novos conhecimentos sobre si mesmo, infinitamente. A abordagem psicanalítica de Bion não se concentra em conceitos pré-determinados, como o Complexo de Édipo ou a Castração, mas sim em um processo de descoberta e transformação, questionamento e expansão do conhecimento. Não há busca por algo específico no inconsciente; em vez disso, tudo o que se apresenta é explorado em busca de entendimento.
ILHA_DO_DESASSOSSEGO Blog Masonry - Results from #156

Ilha do desassossego - resenha da série “O Maestro e o Mar” (alerta de spoiler)

Por  Katia Peixoto dos Santos Certa vez, um amigo querido, com o coração partido e entristecido pelo recente término de seu relacionamento, me contou que iria gastar todo seu dinheiro guardado em uma viagem, logo pensei: Que boa ideia! Dias depois, num post no Instagram, avisto uma foto deste querido dentro de um barco com a seguinte legenda: Chorar no mar do Mediterrâneo é melhor que chorar na cama. Curti o post. Pela localização veio a confirmação, ele estava na Grécia. Ah, que foto azul… o céu e o mar em Blues iluminavam o segundo plano, incrível !! E o amigo? Lindo, nem reparei se haviam lágrimas em seus olhos, elas deveriam estar lá porém camufladas pela beleza do mar. Quem nunca quis ir à Grécia? Então, que tal irmos para a Grécia? Para o Blue? Mais especificamente para o mar Jônico na ilha de Paxos? Banhada por praias paradisíacas num cenário incrível viveremos as emoções, dores, amores, desamores, encontros e desencontros de personagens essencialmente dramáticas. Vamos? Sim, podemos … um pedacinho da Grécia agora está no streaming Netflix. Novidade, pois pela primeira vez uma série televisiva grega ganha o mundo.  O teatro grego nos deu Sófocles e seu dramático Édipo Rei, Eurípedes nos deu sua cruel Medéia e agora a televisão grega nos dá Christoforos Papakaliatis, roteirista, diretor e galã protagonista de O Maestro e o Mar, uma série exibida originalmente pela Mega TV que ganhou seu lançamento mundial no dia 17 de março de 2023 ao ser inserida no catálogo Netflix. Um drama grego contemporâneo dividido em 9 episódios. A história da série foi elaborada em torno do protagonista, o músico Orestis e sua vontade de montar um festival de música, do zero, na ilha de Paxos. O maestro deixa sua vida em Atenas e vai ao encontro de possíveis músicos da ilha para organizarem o tal festival. O futuro candidato a prefeito Fanis é quem o contrata com o intuito de obter prestígio junto aos moradores da Ilha. Chegando à ilha, Orestis começa a se envolver com as argruras dos moradores. Se apaixona, faz amigos e passa a fazer parte daquela comunidade. Algumas coisas me chamaram a atenção nessa trama, uma delas foi a trilha sonora, bem eclética que vai do erudito ao rock, passando por músicas gregas clássicas e populares. Na abertura da série a música A Summer Place traz um momento romântico ao nos apresentar a charmosa ilha. Durante o decorrer dos episódios, podemos apreciar músicas de Bizet, Debussy e Kostas Christides que acompanham as personagens em momentos cruciais. A música Absence de Kostas, surpreende o espectador que não conhece a música grega, uma experiência sonora emocionante que nos faz mergulhar nesta trama. As bandas Queen com I Want to Break Free e U2 & BB King com When Love Comes to Town, embalam as cenas dos jovens, cada música é introduzida e pensada a partir da dramaticidade das personagens. Quando toca I Want Break Free num luau, as personagens aproveitam para soltarem as amarras e proibições, inclusive a de realizarem festas durante a pandemia da Covid 19, época da gravação da série. Cada episódio é dedicado a um personagem que narra sua própria existência. O recuso flashback é utilizado para nos dar a oportunidade de vivenciarmos a história de cada um deles pelos seus próprios viesses. Ao vivenciarmos tais relações entre as personagens, entramos em contato com alguns preconceitos arraigados naquela comunidade: etário, de gênero e social, percebidos nas ações e até incutidos na vivência hipócrita de alguns. As personagens vivem sob a doutrina ortodoxa, mesmo que inconscientemente tal doutrina funciona muito bem para negar algumas questões, como por exemplo a da diversidade de gêneros, porém, por outro lado, a doutrina não serve para condenar as práticas de corrupção. Isso pode ser percebido na conivência dos moradores com atos criminosos que vão desde lavagem de dinheiro, violência doméstica e até assassinatos. As relações das personagens criam duplas e triângulos amorosos. Orestis, Klelia e Thanos formam o triangulo central, o sentimento predominante dessa relação é o desejo ardente e proibido entre Orestis e Klelia e a indiferença de Klelia à Thanos, seu namorado. Outro triângulo, Fanis, Sofia e seu amante médico que também vivem um amor proibido, que se opõem a relação fria de Sofia com Fanis, seu marido. As duplas se articulam para formarem outras relações como a de Haris e Klelia que vivem um amor projetivo, de avó para neta. Outro exemplo é a relação de Maria com o filho Spyros, que se desmembra em Spyros e Yianna, sua namorada e Spyros e Antonis, seu amante, formando as teias relacionais. Em O Maestro e o Mar o que predomina são os conflitos dramáticos sem momentos de leveza. A alegria e a descontração só aparecem dentro dos devaneios de alguns personagens ao criarem cenas mentais em que estão felizes em suas situações imaginárias, logo sufocadas pela dura e crua realidade da vida. Essas relações podem nos fazer pensar nas dores intensas que é possível vivenciamos em nome do amor. Sem a possibilidade de exercerem suas sexualidades, sem a possibilidade de realizarem seus desejos, suas libidos, as personagens sentem seus amores sendo sucumbidos e legados aos devaneios. A Série O Mastro e o Mar nos faz entrar em contato com normas de conduta sociais que engessam e enfraquecem a capacidade de amar, de experimentar e de transformar. Maria é capaz de sublimar seus desejos não realizados. Haris ama sua neta e se projeta nela. E o corrupto Fanis, interessado apenas em ganhar dinheiro, é quem leva o maestro à Ilha, isto é, o protagonista. O que é possível fazer quando não se consegue mais ver o Blue do mar, o Blue do céu ? Os Blues da vida? Enfim, para meu amigo que foi para o mar do Mediterrâneo aliviar sua dor de amor, êxito. Ele melhorou, se sentiu feliz por estar lá, foi um oásis, respirou, descansou, voltou e continuou. Para Shirley Valentine, a personagem da peça de Willy Russell, a Grécia foi um elixir à sua crise existencial. Voltou outra, revigorada e se sentindo amada. Mas para as personagens de O Maestro e o Mar, a beleza do lugar, A Summer Place não deu conta de camuflar os seus mais pecaminosos conflitos. Parece que não adianta estar no paraíso se você não pode dar, ao menos, uma mordida na maça. Amar dói? Para o poeta Caetano Veloso o amor, Mora na filosofia, pra que rimar amor com dor … porém para Milton Nascimento, Qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor, valerá… Boa Série a todos !!!___________Direção: Christoforos PapakaliatisPlataforma: Netflix
POLITICAS_IDENTITARIAS_E_PSICANALISE Blog Masonry - Results from #156

Políticas identitárias e psicanálise

O psicanalista bem como as instituições às quais ele está ligado, estão inseridos na sociedade, e desta forma, ambos estão permeáveis a discussões de cunho político, sociológico, antropológico, científico, etc. Essa permeabilidade ou cesura é como uma pele: precisa permitir que o corpo entre em contato com o meio que o rodeia, o proteja, indique se está calor ou frio etc., mantendo a integridade do corpo. Na última década vemos um acirramento de discussões políticas no campo social que acabam afetando e demandando das Sociedades e Instituições Psicanalíticas um posicionamento. Muitas vezes somos demandados por questões que nunca havíamos pensado, e que no sentido bioniano do termo, nos exige um aprender da experiência, um pensar sobre algo que muitas vezes esteve sempre presente. A EPP-Escola Paulista de Psicanálise e o Instituto Ékatus possuem um programa de atendimento em psicanálise e às vezes somos demandados por pedidos de analistas pretos (essa é palavra usada nos formulários de inscrição do programa), LGBTQI+, cristãos, héteros, etc. Nesse ponto faz-se necessário uma profunda reflexão sobre o que é ser um psicanalista. O psicanalista é uma pessoa que tem como ofício a psicanálise. Nesse ofício um ser humano oferece um espaço de escuta e oportunidade de crescimento para outro ser humano. Se explora aquela emoção não nomeada, se buscam novos significados para as experiências emocionais, se busca um mundo emocional cada vez mais complexo, com aumento da liberdade e a possibilidade de ir sendo si mesmo. Nesse ofício o psicanalista não tem sexo, idade, orientação sexual, cor, cheiro, preferências políticas. A pessoa do psicanalista sim, o psicanalista não. Assim como o paciente. Uma ideia em circulação é que caso a pessoa do psicanalista seja gay ou cristã ele estaria mais capacitado para escutar o sofrimento da pessoa do paciente gay ou cristão. Se assim o fosse, somente homens poderiam ser psicanalistas de homens, mulheres de mulheres, pessoas de 30 anos de pessoas de 30 anos. Nada disso é garantia de uma melhor escuta psicanalítica: é como se mulheres não pudessem ser machistas, gays homofóbicos etc.  O preconceito é mais democrático do que a sabedoria. Essa forma de uso da ideia de políticas identitárias é falsa a partir do vértice psicanalítico na opinião dessa instituição – quanto mais identificado o analista com seu paciente, pior para o processo psicanalítico. Esse é um dos principais fatores de contratransferência, ou pontos cegos do analista e que levam ao fracasso de uma análise. A pessoa do psicanalista é um profissional treinado para o exercício da sua tarefa. Não está impermeável a preconceitos, posicionamentos religiosos, políticos, sociológicos, econômicos etc. Mas ele tem dois dispositivos para cuidar desses aspectos: análise pessoal e supervisões contínuas. Também é fato que o próprio movimento psicanalítico já usou de forma preconceituosa as teorias psicanalíticas: durante décadas pessoas LGBTQIA+ foram impedidas de serem analistas por diversas sociedades psicanalíticas. Ainda hoje não é difícil encontrar um analista que classifique como psicótico qualquer pessoa que se identifique como “trans”. Mas a própria psicanálise e o movimento psicanalítico têm seus recursos para trabalhar esses pontos contra-transferenciais - o tripé psicanalítico: análise pessoal, estudo constante e supervisão.  Frente ao exposto a EPP-Escola Paulista de Psicanálise e o Instituto Ékatus têm alguns posicionamentos, a saber: - Não monitoramos ou questionamos nossos alunos e membros quanto à sua sexualidade, orientação sexual, crenças pessoais, posicionamentos políticos, cor etc. São assuntos de fórum pessoal a serem tratados em suas respectivas análises; - Não divulgamos fotos dos membros ou alunos, para que justamente sua aparência não seja usada de forma preconceituosa – todos aqui somos psicanalistas! - Buscamos oferecer sempre uma formação de excelência, para que o profissional aqui formado seja capaz de manter uma escuta psicanalítica, e esteja sempre cuidando de sua contratransferência. Em outras palavras, mantemos o tripé psicanalítico vivo, que consideramos até o momento o único instrumento capaz de fazer frente as demandas sociais. Entendemos que possam existir preferências por parte dos pacientes acerca do profissional que irá atendê-lo (sexo, orientação sexual, cor, religião, etc.), mas em nosso programa de atendimento em psicanálise, não serão atendidos tais pedidos. O único critério utilizado nesse programa é a compatibilidade de horários entre analista e paciente. __________________EPP- Escola Paulista de Psicanálise e Instituto Ékatus
O_FAROESTE_DOS_DESEJOS Blog Masonry - Results from #156

O Faroeste dos desejos - resenha do filme “Ataque dos Cães” (alerta de spoiler)

Por  Katia Peixoto dos Santos "The Power of The Dog" é uma adaptação da obra literária homônima, escrita pelo norte-americano Thomas Savage e publicada em 1967. O filme é um drama Western que deixa de lado os revólveres, rifles e portas bang bang para apostar nas imagens, ora de planos de detalhes minuciosamente trabalhados, ora de panorâmicas de paisagens desoladoras instigadas por cortes atemporais. A fotografia, da australiana Ari Weigner, dá precisão cirúrgica ao roteiro e a direção da neozelandesa Jane Campion. O filme ganha sentido pela leitura atenta de nós, espectadores, nos detalhes imagéticos. Em "Ataque dos Cães", a antiga frase de Confúcio; Uma imagem fala mais do que mil palavras, rege o drama. A adaptação do roteiro nos traz uma trama simples com apenas um núcleo cênico central, o do protagonista, portanto o foco fílmico gira em torno, praticamente, de quatro personagens, interpretados por atores incríveis que conseguem dar o tom dramático, ao ponto, aos personagens. São eles: Benedict Cumberbatch, como Phil Burbank; Jesse Plemons como George Burbank; Kodi Smith-Mc Phee como Peter Gordon e Kirsten Dunst como Rose Gordon. Apesar de conter um roteiro simples "Ataque dos Cães" nos propõe alguns questionamentos profundos, isso acontece na medida em que começamos a vivenciar as fragilidades, as vulnerabilidades, as angústias, as dores e os desejos das personagens. Cada personagens traz consigo a vontade latente de ter o que deseja a qualquer custo, assim todas elas se mostram auto-centradas, frias, descontentes e enigmáticas. Peter, mesmo demostrando suas habilidades e virtudes durante o percurso fílmico, está mais preocupado em fazer sua mãe feliz. Lembrando do ditado popular; cão que ladra não morde, talvez possamos por dedução, pensar que Peter representaria o contrário disso. Peter é o personagem que conduz a trama mas não está em algumas cenas principais, será que podemos pensar que ele seria a figura central da história? Seria Peter o narrador off desta trama? Fazendo uma pequena analogia com a vida, seria possível alguém dar um desfecho de algo sem precisar estar em todos os ambientes do qual controla, apenas por ter em mente planos diabólicos e executáveis? E como se comporta Phil? O homem rude que vive sob a influência fúnebre de seu amigo, possível amante, Bronco Henry? É mórbido e sacro o altar de Bronco, o santo Henry ao qual Phil lhe dá fortes poderes, até mesmo de o fazer acreditar que os dois poderiam representar o modelo de Rômulo e Remo, os irmãos que fundaram Roma, criados e amamentados por uma loba. Logo, semi-animais ou semi-humanos? Até que ponto esse modelo delirante sustenta Phil e o afasta da realidade? Em que medida sua relação com Bronco é sacra ou profana ou as duas coisas? E Bronco Henry, quem é esse ser que mesmo morto rege a vida de Phil e o faz viver em eterno luto? A quem dar o poder de nos fazer ser e sentir? Rose, ah Rose, quanto dela está perdido no seu olhar triste, angustiado e patético? Quem foi a Rose que tocava piano no cinema mudo da década de 1920? O que o piano representa para Rose? George, o irmão de Phil, um homem bondoso, bem aprumado porém não tão inteligente quanto Phil, não tão belo como Phil, nem tão atlético como Phil, nem tão …. como Phil. Mas o que Rose pode ver nele? O consolo e a segurança que sempre almejou? Luxo? Amor? Descanso? Muitos são os questionamentos propostos a nós, espectadores. É como num jogo de quebra-cabeças que para encontrar as peças que cabem nos espaços, é preciso procurar com atenção para formar um sentido, uma imagem conhecida nossa e das personagens. São muitas peças e cada uma delas um questionamento, outras imagens incompletas que nos levam a outras peças e a outros questionamentos. Porque os cães atacam? Por defesa? Por medo? Para receberem a recompensa? Pelos três motivos anteriores? Quem pode te salvar de um ataque de cães? Você próprio? Seus pais? Seu filho? Ninguém? A partir dessas questões vão surgindo outras que respondem essas e assim as peças do quebra-cabeças vão se formando, mas também cuidado, podem aparecer peças aparentemente erradas que não se encaixam, que se bifurcam no jogo trazendo outros questionamentos. O que fazer quando os desejos estão sufocados e aniquilados pela dureza do dia-a-dia e pela carência de afeto? O que fazer para proteger uma mãe que já sofreu tanto? O que fazer para resgatar um amor do passado que se foi? Como lidar com o luto? O que fazer para sair de um trabalho que esgota sua vida e adoece sua alma e se tornar rica? O que é preciso fazer para que isso possa se tornar realidade? Será possível matar seu pai alcoólatra para proteger sua mãe? Quem são os assassinos? É possível matar qualquer pessoa que faça sua mãe sofrer? Um homem rude é mesmo um sensível incompreendido? O filme responde cada uma dessas questões nas ações fílmicas, mas, volta a nos questionar, agora num jogo de esconde-esconde e novamente esconde encontra. Com calma, sem pressa, em cada olhar sutil das personagens, nas portas entreabertas, no corpo que exala fedor para isolar-se de outros, pelo casamento às pressas, pela música de Strauss que não sai e pela mesma música que implode dentro do ser, pela frieza dos afetos, pelo gosto amargo do rum que abafa a dor, pela sutileza da maldade na expertise, pela vulnerabilidade do coelho assustado, pela força e beleza do cavalo. Enfim, pela vida que corre e que aos poucos vai sendo capaz de satisfazer os desejos de cada personagem, de cada ser, de cada pessoa. Alguns desejos vão se tornando realidade, seria um momento feliz, porém para que esse possa existir é necessário sacrificar aquele que por um breve momento se descuidou, acreditou, amoleceu, se apaixonou, dormiu em seu posto de guarda - soldado - pois em sua essência, acreditou que aquele cão, logo após alguns rápidos e significativos afagos, não seria capaz de atacá-lo. A dura pedra quebrada pela água certeira que a fura pela astúcia sem compaixão e com extrema persistência. Vale muito a pena assistir "Ataque dos cães” e nos deixar embrear nas questões, nas soluções de cada personagem. Cada um de nós pode montar o seu próprio quebra-cabeças e propor novas construções em análises. Bom filme!!!___________Direção: Jane CampionPlataforma: Netflix
E_POSSIVEL_AMAR_O_QUE_DESCONHECE Blog Masonry - Results from #156

É possível amar o que se desconhece?

Por Ale Esclapes Amar e ser amado tem uma relação direta com o que algumas pessoas chamam de autoestima. Mas não são tarefas emocionais nada fáceis. Vou me concentrar nesse vídeo em apenas alguns aspectos desse desafio. As mais úteis definições que conheço para o vínculo de amor eu aprendi um colega Argentino chamado Leandro Stitzman – amar implica ver a pessoa como ela é e ódio implica vê-la como ela não é. E isso é uma tarefa dificílima, pois entre o amor e o ódio existe nossa fantasia sobre o outro – como ele deveria ou não ser, e isso gera uma tormenta emocional imensa. Tolerar e aceitar o que o outro é e não é implica um luto da minha fantasia. E é justamente essa é a grande tarefa nesse momento, e notem que não tem nada a ver com o outro. É comigo.  Vemos isso em Freud no conceito de transferência, onde o paciente transfere para baseado no mecanismo do recalque suas fantasias para o analista e do ponto de vista de Klein ele se dá pelos mecanismos de projeção e introjeção, mas observem que é possível estabelecer essa análise sem o peso de toda a teoria desses autores.  A pergunta que se faz a partir dessa reflexão é: é possível se amar uma fantasia? Ou dito de outra forma, como amar aquilo que não consigo tolerar que seja o que se é, ou ainda, como amar aquilo que desconheço? Essas e outras reflexões estão no Livro Framework, e principalmente no como pensar psicanaliticamente sem o peso das teorias, editado pela EPP, e caso você queira se aprofundar nesses temas com o próprio autor, nos dias 26, 27 e 28 de maio, teremos um encontro de três dias, presencialmente para essas e outras discussões. O link para mais informações estão na bio, no feed ou na descrição desse vídeo. https://youtu.be/3ZzswyvdGP8  
ALGUNAS_IDEAS_SOBRE_EXPERIENCIA_LECTURA_M_KLEIN Blog Masonry - Results from #156

Algunas ideas sobre la experiencia de lectura de M. Klein

Por Sua Baquero -  Estudiar: lo que pasa entre el leer y el escribir. (…) Jorge Larrosa. La experiencia de la lectura. En el capítulo sobre “La técnica de análisis tempranos” que se encuentra en el libro El psicoanálisis de niños, Melanie Klein va a presentar dos casos: Pedro (3 años y 9 meses) y Ruth (4 años y 3 meses), haciendo una breve referencia a un tercero, Trude (3 años y 3 meses).  En ese texto, la autora reflexiona sobre diversos aspectos de su técnica de juego, señalando sus potencias y a la vez describiendo algunas situaciones excepcionales requeridas en la atención de los casos expuestos, indicando para el lector una descripción de setting analítico como un espacio también de experimentación.   Al inicio de lo que se nos cuenta, Klein describe el tamaño de los juguetes, su variedad, material y ubicación dentro del consultorio y finaliza incluyendo juegos más de tipo imaginativo, uso de agua, fuego, tijeras y papel que, conforme a la edad y el género de los pacientes se irá modificando, dejando entrever como al final de cuentas, incluso en el análisis de adultos, en el consultorio todos jugamos: con narraciones, palabras, imágenes.  Otra parte importante de lo que se lee estará dedicada a la reflexión sobre la interpretación, su profundidad y el momento adecuado para realizarla. Animando a los practicantes de su técnica a manifestar las interpretaciones tan pronto surjan y en lo posible desde el inicio, la autora enfatiza como estas son una estrategia efectiva en la disminución de la ansiedad y un buen inicio en el ahondamiento del proceso analítico. A continuación, se presentan dos tablas que proponen una organización de las principales ideas de Klein en torno a: i) precisiones sobre la técnica del juego y ii) algunas innovaciones creadas durante el desarrollo de las sesiones de los casos presentados y atendiendo a las particularidades de los mismos. Aspecto de la técnica de juego    ValorIdentificación del léxico utilizado por los padres para referirse a los genitales, defecación y etc.    Comunicar con precisión las diferentes interpretaciones que surgen durante la implementación de la técnica. Esto se hace con los pacientes de todas las edades. Interpretaciones iniciales    Dada la inmediatez con que se va a manifestar la transferencia (positiva o negativa) en el caso de los niños, Klein va a recomendar que la interpretación comience en cuanto sea posible, independientemente que más adelante vuelva a salir material similar para ser nuevamente reelaborado.  En el caso de Trude, Klein va a señala como una interpretación realizada en un encuentro inicial de una hora, facilitaría la disminución de su transferencia negativa, lo que mejorará sustancialmente la retoma del proceso posteriormente. Así, oportunidad y profundidad son factores que el analista deberá considerar orientándose técnicamente sin timidez.  Pensamiento de juego    Este concepto, le da a la técnica un valor más profundo que una mera forma, acaso un hacer, un actuar. Existen contenidos, ideas, que se identifican principalmente por repetición independientemente de su multiplicidad de formas y también por la intensidad de los sentimientos ligados a su contenido, por tanto pareciera que cuando el niño juega también piensa. Fuente: Elaboración Propia
MUSICA_MARCANDO_HISTORIA_DA_VIDA Blog Masonry - Results from #156

A música marcando a história da vida - resenha da série “O maestro e o mar” (alerta de spoiler)

Por Ana Cristina Ibañes -  A série de 09 episódios nos mostra o poder da música na vida das pessoas, quem nunca teve uma música que marcou sua vida? A história começa no final da pandemia da Covid 19 onde o maestro Orestes é convidado para fazer um festival de música na cidade. A primeira pessoa que ele vê é uma linda jovem que o ajuda a ir até o local de sua casa. Se você acredita em amor à primeira vista, foi exatamente isso que aconteceu, o desenrolar desse lindo romance só assistindo para saber. A segunda pessoa que ele encontra é Maria uma senhora encantadora que durante cada episódio irá cativar a todos, uma mulher sofrida com um casamento abusivo, mas, mesmo assim ela não perde o encanto de uma mulher com um coração imenso. A história se desenvolve com o preconceito de opção sexual de dois jovens e a diferença de idade em um relacionamento amoroso, caso esse que se repete em duas gerações. O abuso doméstico através da violência física onde a própria justiça não faz nada. A lavagem de dinheiro, onde todos sabem que é errado, mas, continuam porque convém a família. Um personagem em especial que é o marido da Maria, um homem extremamente violento, que repete a violência trazida de seu pai e ele tenta passar para seu filho. Quando ele ouve uma música isso mexe com ele e ele tenta fugir de suas lembranças. Acaba tendo um final trágico, que com certeza trará a continuação dessa série tão cativante e que nos traz muitos pensamentos.___________Direção: Christoforos PapakaliatisPlataforma: Netflix
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Tons em “O maestro e o Mar”: Explorando clichês e profundidades – resenha da série: O Maestro e o Mar (alerta de spoiler)

Por Giuliana Sagulo -  Comecei a assistir a série grega O Maestro e o Mar, de 2022, porém, na metade do segundo episódio perdi totalmente o interesse.  Parecia ser uma série clichê daquelas que retrata um homem bonito apaixonado por uma garota ainda mais bonita, enfrentando obstáculos para viver esse amor à luz do pôr-do-sol na Grécia. E mais: um homem atraente e mais velho, apaixonado por uma garota linda com toda espontaneidade e frescor da juventude. Mais clichê impossível! A série se resume a isso? Sim. Não. Talvez.  Mais alguns amores impedidos, desencontros, belas paisagens, fotografia, luzes e.… música. O próprio nome já sugere a importância desse recurso na trama, e foi isso que me motivou a uma segunda chance, afinal, não é só um roteiro que me inspira, mas aquilo que pode se extrair dele.  E foi uma boa escolha.   Já nos primeiros episódios algumas coisas se tornaram evidentes, como a relevância de personagens para além do casal-deuses-gregos protagonistas, Orestis e Klelia.  Em cada um dos 9 episódios há um narrador-personagem que compartilha sua própria história, suas dores, seus questionamentos, fazendo de nós, expectadores, ouvintes (analistas?). Esperei ansiosa ouvir Haris e Maria.  Haris, avó de Klelia, deixa clara a identificação com a neta, e aos poucos percebemos que isso vai além do amor pela música.  Ela se revela uma mulher que destoa dos demais habitantes locais. Uma mulher madura, elegante, bela, atenta aos detalhes ao seu redor e que no passado fez parte da cena musical da Ilha de Paxos.    Maria é comovente. Uma mulher que parece ter a vida sufocada dentro de si mesma, mas que se ilumina com a possibilidade de ajudar Orestis na organização do festival da cidade. Poderia ter a caracterização típica de uma senhora fofoqueira da pequena comunidade. No entanto, do começo ao fim, a atriz interpreta lindamente uma personagem que expressa em seus olhos tristeza e entusiasmo, dor e contentamento, amor e ódio, além do desejo de encontrar momentos de felicidade fora da realidade caótica de um casamento violento. Até Charalambos, o marido que não aceita o filho homossexual também tem sua história contada. Quase senti pena ao compreender de onde vem tanta dureza. (Quase?  Acho que senti mesmo. Havia sofrimento, muito sofrimento nele.)  Ele é incrivelmente odioso. Envolvido em crimes com o não menos detestável, porém mais requintado, prefeito da cidade, Fanis. Um homem de aparências que “impõe” à sua família um padrão “Doriana” de apresentação. Sua esposa, Sofia, está dopada por remédios que evitam o contato com a realidade de suas vidas tão miseráveis quanto solitárias, ainda que ao final do último episódio nos dê o alívio de parecer despertar do transe.  Aliás, creio que o que a série, entre outras possibilidades, se propõe a discutir seja justamente o mundo instagramável e o quanto fingir para atender a supostas expectativas sociais é cruel, tedioso e doentio. É preciso, de fato, nos desprendermos de nosso narcisismo para podermos crer que ser insignificante pode ser libertador.  O curioso é notar que nos momentos de “devaneios”, onde são colocadas as outras possíveis formas de se viver, onde as pessoas apenas se mostram sorrindo espontaneamente, se dão com coisas muito simples, como poderem assumir seus amores. Pessoas lindas, lugares maravilhosos e rostos sérios, cheios de mágoas, segredos, ressentimentos.  Adoentados da mente e do corpo.  Ainda durante os 8 primeiros episódios, ao final de cada um, anuncia-se um crime. Aos poucos descobre-se a vítima e ansiamos pelo momento de descobrir quem, entre tantas pessoas que a odiavam, a matou e por quê.  As nuances de cada personagem são percebidas e sentidas pelo expectador de forma mais intensa de acordo com a música escolhida para cada momento.  Claro que podemos pensar nas artes de forma geral como uma ferramenta para sublimar as dores que cada um carrega.  No entanto, num filme ou série, a escolha das faixas não é aleatória, sobretudo numa que se propõe a discutir justamente as emoções que as músicas evocam. Sentir e pensar através do som.  Seja com Queen nos luaus dos jovens garotos que não podem flertar, com cantores gregos que desconhecemos, com A-Ha no walkmam do jovem Charalambos ou com clássicos eruditos.  São as músicas que contribuem para atmosfera, humor e emoção entre os atores e seu público. Por que não pensar que ouvidos atentos às “músicas” que nossos pacientes “cantam” nos permitem uma conexão emocional profunda com eles?  Em cena ou na musicalidade da fala de um analisando, é preciso perceber o tom, o ritmo, as mudanças de enredo. Se pensarmos nos atendimentos on-line também uma experiência audiovisual, a música ou a musicalidade das falas podem conter elementos ricos para o processo analítico.  Talvez como numa ópera, a série pode ter se desenvolvido com um início mais lento e reflexivo, com partes declamadas. Num segundo momento, a orquestra acompanha essas vozes ganhando intensidade e velocidade. Depois, alguns personagens cantam juntos, conferindo ainda mais intensidade, ritmo e dramaticidade.  Enfim, o nono e último episódio é este momento. O festival se realiza enquanto cenas de passado e futuro se alternam. Essas cenas dramáticas, do ponto de vista do volume das músicas, das idas e vindas no tempo, na constatação de que, no fim das contas, tudo poderá se repetir. As pessoas talvez sigam amarradas nas imagens de si mesmas, nos interesses escusos ou nas dores do passado....  Retomando a questão dos clichês.... Talvez seja impossível escapar deles na trajetória de qualquer indivíduo. A repetição é o que confere a eles o status de clichê, tanto os que inadvertidamente reproduzimos quanto aqueles que nos são legados de gerações passadas.  Isso que nos parece tão familiar nos convida a contemplar não apenas o aspecto ridículo de algumas repetições, como os preconceitos, mas também a refletir sobre (in)verdades, (des)amores, (im)possibilidades e (des)encontros.  Surpreendentemente, alguns clichês podem conter beleza própria. Ao mergulhar em suas possíveis complexidades podemos descobrir, que apesar da familiaridade, permanecem autenticamente nossos. ___________Direção: Christoforos PapakaliatisPlataforma: Netflix
ENTREVISTA_SOBRE_ANSIEDADE_ALGORITMICA_RECORD_NEWS Blog Masonry - Results from #156

Entrevista sobre Ansiedade Algorítmica para Record News

Por Estúdio News - Record TV -  O fato das redes sociais e aplicativos de mensagens facilitarem nossa comunicação, pode trazer consequências para grande parte das pessoas, muitas delas acabam aumentando seu nível de ansiedade e estresse. Na maioria das vezes, quem passa por um quadro de ansiedade não consegue perceber sozinho, pois ela começa “pequeninha”, segundo Ale Esclapes, psicanalista e diretor da EPP - Escola Paulista de Psicanálise e do Instituto Ékatus. O primeiro passo para entender se você ou alguém próximo está passando por um quadro de ansiedade é prestar atenção no que está em excesso e fazendo mal. Danilo Gabas, psicólogo da Faculdade de Ciências da Unesp Bauru, destaca que o Brasil se configura hoje como o país, no mundo, que mais tem a população ansiosa, “9,3% dos brasileiros sofrem com o transtorno de ansiedade crônico, ou seja, que tem uma alteração importante na funcionalidade, e no top 10 está em 7ª posição mundial em prevalência de transtorno depressivo. Esse aumento de ansiedade importante no nosso país, em nível mundial, é importante ser discutido, as redes sociais com certeza fazem parte desse processo por serem um fator de risco”. A felicidade é um dos principais sentimentos exibidos nas redes, mas Ale Esclapes pontua que a vida não é só de momentos felizes o tempo todo e mostrar aquilo que você não é pode criar uma crise de despersonalização, além disso, o psicanalista diz que a questão pode se agravar em relação aos adolescentes. A nomofobia, medo irracional de ficar sem o seu celular e a síndrome de FOMO ‘o medo de ficar de fora’, comum principalmente entre adolescentes, são ocasionados pelo uso excessivo do aparelho celular e das redes sociais. “Se pararmos para pensar como nossa vida está atrelada às redes sociais, como estamos sujeitos aos algoritmos que essas redes sociais têm dentro da construção delas, a gente consegue entender um pouco das fobias associadas a esse uso”, diz Danilo Gabas. Saindo um pouco das redes sociais, outra questão atrelada aos sintomas de ansiedade está no uso de dispositivos de mensagens, completa Ale, “a pessoa manda uma mensagem e quer a resposta na hora, no mesmo momento, ou seja, temos uma diminuição da capacidade de espera, temos a diminuição da tolerância, o outro vai ter um tempo diferente de mim, vai ter o tempo dele para resolver, ele não está à minha disposição”. Veja a entrevista completa: https://youtu.be/FIY97SDAP7c  
CIENCIA_E_PSICANALISE Blog Masonry - Results from #156

Ciência é psicanálise?

Por Ale Esclapes -  Psicanálise é ciência? Ciência é psicanálise? A polêmica foi reaberta com a entrevista da bióloga Natália Pasternak afirmando o óbvio: ciência não é psicanálise! Fizemos uma seleção de alguns vídeos para que você possa formar a sua opinião sobre esse tema.  https://youtu.be/Qj2Na8OVRLcSérie Christian Dunker - Psicanálise é ciência? https://youtu.be/x_6NMVGGBQE https://youtu.be/CoP4rUheVyU https://youtu.be/DX_3LzEpjHM https://youtu.be/8D09T7i6RZ4  
PHILADELFIA_PENSANDO_QUESTOES_ATUAIS Blog Masonry - Results from #156

Philadélfia pensando em questões atuais

Por Giuliana Sagulo -  Assisti Philadélfia em 1993 , quando foi lançado.  Lembro-me que, apesar de muito jovem à época, o filme me emocionou bastante. Ao assisti-lo novamente, 30 anos depois, tive novas experiências emocionais, talvez devido à minha própria maturidade ou ao tempo que passou. Essas experiências me fizeram refletir sobre como a sociedade talvez tenha amadurecido pouco, já que ainda enfrentamos os mesmos medos, rejeições, conflitos e intolerâncias. O filme é estrelado por Tom Hanks, vencedor do Oscar de melhor ator, no papel de Andrew, Denzel Washington como Joe Miller, o advogado que, após superar seus próprios preconceitos, decide defendê-lo em sua luta nos tribunais contra a discriminação no local de trabalho, e Antonio Banderas, como marido de Andrew. A direção é de Jonathan Demme, conhecido por "O Silêncio dos Inocentes".  Já é possível presumir que se trata de uma obra que aborda temas sensíveis como discriminação e preconceitos, especialmente contra pessoas com o HIV/AIDS. É importante lembrar que, há 30 anos a discussão sobre orientação sexual e homossexualidade era um tabu ainda maior que hoje e a contaminação era frequentemente associada a esse grupo de pessoas.  Andrew era amado por sua família, que o acolhia e aceitava. No entanto, é essencial reconhecer que a marginalização de indivíduos na sociedade frequentemente tem suas raízes nos próprios lares e nas comunidades das quais fazem parte. A família, sendo um protótipo da sociedade, desempenha um papel de extrema relevância na formação de atitudes e crenças que influenciam nossa percepção da diversidade e afetam nosso comportamento diante daqueles que desafiam os padrões estabelecidos. As expectativas impostas pelos pais aos seus filhos muitas vezes são responsáveis por iniciar a discriminação e a rejeição desde o berço, perpetuando-se ao longo da vida e na sociedade em geral.  Ao assistir pela segunda vez, mais atenta,  fui tocada pelas sutilezas dos olhares, pelos silêncios, pela música, pelas cores. Uma cena que merece destaque é aquela em que Joe finalmente compreende que Andrew, antes de tudo, é um ser humano sofrendo, não apenas por causa da doença que o debilitou fisicamente, mas também pelo sentimento de desamparo que todos nós podemos sentir em momentos de extrema dor e solidão. (Não foi isso que vivenciamos recentemente, de forma literal, ao perdermos pessoas queridas em meio a uma pandemia em que não pudemos ritualizar a morte e o luto ? Sozinhos estivemos quem ficou. Sozinhos estavam quem foi. Concretamente. Subjetivamente.)  A compreensão da “humanidade” de Andrew  parece se dar especificamente na cena da opera, na qual, segurando o suporte com soro e medicamentos, move-se  lentamente, em uma espécie de dança suave, enquanto ouve a música e explica à Joe o significado da peça (La Mamma Morta- Maria Callas).  Emocionado diz: “Trago sofrimento aos que me amam”, mas diz também : “Eu sou o amor”.  Joe, então, desafia suas próprias crenças e preconceitos ao se envolver emocionalmente com Andrew. Podemos considerar que, como homem negro, também conhece o preconceito em primeira mão. Finalmente ele abre sua escuta e permite a conexão que somente as emoções proporcionam. Esse momento é marcado pela mistura de medo, desamparo, dor mas também, quem sabe , alguma esperança. Nós, psicanalistas, assim tentamos fazer ao ouvir pessoas?  Andrew também parece compreender as "impossibilidades" de seu interlocutor, mas não se impõe de maneira rude ou "militante". Usa sutileza, doçura e determinação para falar de aceitação.  Penso que o filme permite estabelecer paralelos com as lutas da contemporaneidade.   Enquanto sociedade, ainda não aprendemos completamente o respeito às diversas orientações sexuais, nem superamos a crença de que a homossexualidade é "contagiosa" ou uma doença, e novas questões se impõem. Vivemos em tempos de ondas conservadoras que pregam intolerância e estigmatização.  O enfrentamento do preconceito , a busca por apoio, aceitação  é uma luta compartilhada por pessoas com HIV/AIDS e transexuais, por exemplo.  Assim como Andrew,  as pessoas transexuais podem enfrentar resistência e negação de suas identidades o que resulta em exclusão social, falta de acesso a oportunidades e discriminação generalizada. Não era contra isso, afinal, que Andrew lutou?  Não pretendo aprofundar as questões sócio-políticas desses temas aqui, até porque cada um possui características e desafios específicos. Mas como analista, meu objetivo é refletir sobre o reconhecimento das dores daqueles que nos procuram, questionar minhas crenças e limitações, considerar meu viés pessoal e as influências da sociedade, e como tudo isso afeta minha percepção e abordagem clínica.  Há 30 anos Filadélfia continua sendo um filme atual e relevante. ___________Direção: Jonathan DemmePlataforma: Google Play