Por Ale Esclapes -
Se a Luxúria representa a perda de controle sobre o princípio do prazer, a Ira se manifesta como o seu oposto sombrio: a perda de controle do ego sobre a Pulsão de Morte. Enquanto a busca incessante pelo prazer pode levar a um desregramento dos sentidos, a Ira canaliza uma energia destrutiva, um desejo inconsciente de aniquilação que se volta contra o mundo e, em última instância, contra o próprio indivíduo. É a rendição do eu a uma força interna que não busca satisfação, mas sim a dissolução e o desmantelamento da realidade percebida como frustrante e insuportável.
A Ira brota no solo fértil da frustração, na falha em lidar com a Inveja, o Orgulho e a Luxúria. Quando o mundo não se molda às nossas expectativas e desejos, quando a realidade teima em não corresponder às nossas ilusões de controle e poder, a Ira emerge como uma tentativa desesperada de forçar essa correspondência. Ela é a reação violenta à impotência, um esforço para readequar a realidade externa à força, para que ela se encaixe nas nossas fantasias e vontades, custe o que custar.
Essa destruição desenfreada encontra um poderoso paralelo na mitologia hindu com a deusa Kali, cuja fúria em batalha se torna incontrolável, ameaçando o próprio universo que salvou. Diferente de Shiva, que representa a destruição como transformação consciente para a renovação, Kali encarna a energia pura e caótica da aniquilação sem freios. A Ira, assim como Kali em seu frenesi, é cega e desmedida, podendo levar a estados psicóticos graves onde a distinção entre o eu e o outro se dissolve em um turbilhão de violência.
Como a tentativa de submeter o mundo pela força está fadada ao fracasso, a Ira inevitavelmente gera mais frustração, alimentando um círculo vicioso de ódio e destruição. Cada explosão de fúria que não atinge seu objetivo ilusório apenas aprofunda o sentimento de impotência, o que por sua vez gera mais Ira. Esse ciclo corrosivo acaba por destruir os vínculos positivos de amor e gratidão, isolando o indivíduo em uma prisão de ressentimento e amargura, incapaz de se conectar com o que há de bom no mundo.
É fundamental notar que a característica que define os sete pecados capitais é a sua interconexão, onde um pecado invariavelmente leva ao outro. A falha inerente ao projeto da Ira — a conquista do mundo pela destruição — não apenas intensifica a própria Ira, mas também abre as portas para os outros pecados. O fracasso em dominar a realidade pode levar à Avareza, como uma tentativa de controlar o mundo através de bens, ou à Preguiça, como uma desistência amarga diante da frustração constante.
Por Carlos Guilherme M. Teixeira* -
"A memória não é uma fita de vídeo que simplesmente reproduz o passado; ela é um processo dinâmico de ocorrência" Daniel L. Schacter
A memória é uma aparência neurobiológica essencial para a aprendizagem, permitindo a coleta, o armazenamento e a recuperação de informações. A neurociência cognitiva classifica a memória em diferentes sistemas, como a memória sensorial, de curto prazo e de longo prazo, cada uma mediada por diferentes circuitos neurais. O hipocampo, por exemplo, tem o papel central na consolidação mnêmica, transferindo informações do espaço temporário de armazenamento para áreas mais permanentes.
A aprendizagem ocorre por meio da plasticidade sináptica, mecanismo adaptativo pelo qual a experiência modula a força das conexões entre neurônios. Ex.: A dopamina, potencializa a consolidação da memória ao fortalecer as áreas relacionadas à recompensa e à motivação. Além disso, fatores como atenção, carga cognitiva e envolvimento emocional influenciam diretamente a eficácia da aprendizagem!!!
(Minha interpretação sobre, lismam et al. 2011)
Pensando sobre isso, a psicanálise acrescenta uma dimensão subjetiva à compreensão desse processo, destacando que um psiquismo bem estruturado é essencial para que a aprendizagem ocorra de maneira eficaz. Freud direciona a psicanálise, informando que conflitos psíquicos não resolvidos podem atuar como barreiras ao desenvolvimento cognitivo, gerando barreiras inconscientes que dificultam a aprendizagem.
PENSE: A teoria do apego de Bowlby (1969) sugere que experiências emocionais precoces influenciam a autorregulação emocional, impactando diretamente a capacidade de concentração, memorização e construção de significados.
Logo, podemos entender que a aprendizagem não pode ser compreendida apenas a partir da neurociência, mas deve considerar também os aspectos emocionais e subjetivos do indivíduo. A interação entre memória, emoções e processos inconscientes evidência que um ambiente seguro e afetivamente acolhedor é crucial para que o sujeito possa internalizar novos conhecimentos de maneira significativa e rigorosa.
*Prof. Psicanalista, Especialista em Neurociência, aprendizagem e dependência química.
Por Ale Esclapes -
A inveja é um sentimento que nos engana, pois nos faz crer que os sentimentos e suas encarnações são limitados. Se o outro tem, é porque eu não tenho. A pessoa não consegue perceber, por exemplo, que o amor é infinito, e a felicidade do outro não anula a sua. Essa percepção equivocada de escassez gera uma angústia constante, uma sensação de que a vida é uma competição onde a vitória de um representa a derrota do outro. A mente invejosa opera sob uma lógica de soma zero, incapaz de conceber a abundância e a partilha como possibilidades reais, o que a aprisiona em um ciclo de ressentimento e amargura.A inveja também faz com que não tenhamos prazer na vida e pela vida, pois com ela nunca estamos satisfeitos. Sempre queremos mais, pois a sensação de que há uma festa da qual não participamos é sempre presente. Essa insatisfação crônica nos impede de valorizar nossas próprias conquistas e alegrias, por menores que sejam. O foco se desloca do nosso próprio bem-estar para a vida do outro, que é sempre percebida como mais interessante e gratificante. Vivemos, assim, em um estado de comparação constante, onde a nossa realidade parece sempre pálida e sem graça diante da suposta felicidade alheia, o que nos rouba a capacidade de desfrutar o presente.Isso cria um vazio em quem sente muita inveja, e faz com que a pessoa queira sempre mais e mais. Esse desejo insaciável tem o nome de voracidade. A voracidade é um apetite que não se sacia, uma tentativa desesperada de preencher um vazio interior que a própria inveja alimenta. A pessoa voraz não deseja apenas o que o outro tem, mas anseia por esgotar a fonte de prazer do outro, como se pudesse, assim, aplacar a sua própria carência. É um ciclo vicioso: a inveja gera o vazio, e o vazio alimenta a voracidade, que por sua vez intensifica a inveja, tornando o indivíduo um prisioneiro de seus próprios desejos destrutivos.A inveja também faz com que tenhamos ódio de quem tem algo que não temos. Esse ódio não é apenas um sentimento de raiva, mas um desejo de aniquilar o objeto invejado, de destruir aquilo que nos lembra da nossa própria falta. O sucesso do outro se torna um espelho insuportável da nossa própria insuficiência, e a única forma de aliviar essa dor é atacando o que a causa. Esse impulso destrutivo, como apontou Melanie Klein, está presente desde o início da vida e se manifesta como um ataque ao objeto bom, uma tentativa de estragar aquilo que não se pode possuir.Por fim, a inveja gera um ciúme generalizado, pois se quem amamos dá atenção para algo além de nós, ou gosta de algo ou alguém para além de nós, sentimos ciúme. O ciúme, nesse contexto, é o medo de perder o amor ou a atenção do outro para um rival. A inveja, por sua vez, é o desejo de possuir o que o outro tem. Quando a inveja se generaliza, qualquer objeto ou pessoa que receba a atenção de quem amamos se torna um rival em potencial, despertando um ciúme patológico. A pessoa invejosa não suporta a ideia de que o outro possa ter interesses e prazeres que não a incluam, pois isso a faz sentir-se excluída e desvalorizada.Essa combinação de inveja, voracidade, ódio e ciúme, segundo Wilfred Bion, impede o crescimento mental. Para Bion, o desenvolvimento psíquico depende da nossa capacidade de criar vínculos, de aprender com a experiência e de tolerar a frustração. A inveja, ao atacar os vínculos e destruir o objeto bom, impede a formação de um mundo interno rico e criativo. A mente invejosa se torna estéril, incapaz de pensar e de se desenvolver. Superar essa combinação de sentimentos destrutivos é um dos maiores desafios da análise, pois eles representam uma barreira quase intransponível para o crescimento e a transformação pessoal.
Por Ale Esclapes -
Na jornada para preencher um vazio interior, a avareza surge quando os métodos anteriores, como a inveja, se mostram ineficazes. A nova estratégia consiste em garantir a posse da maior quantidade possível de bens materiais, que funcionam como meros representantes simbólicos do espaço mental. Essa tentativa de controle absoluto sobre o que é externo reflete uma profunda insegurança interna, buscando na acumulação uma falsa sensação de segurança e preenchimento que nunca se concretiza de fato, apenas adia o confronto com a verdadeira questão.
O avarento opera sob a mesma lógica distorcida que alimenta a inveja, fundamentada na crença de que a posse do outro representa a sua própria perda. Sob o lema "se o outro tem, é sinal de que eu não tenho", ele se lança em uma busca incessante por acumular o máximo que pode, enquanto se recusa a compartilhar qualquer parte do que possui. Essa mentalidade de soma zero transforma a vida em uma competição constante, onde cada bem adquirido pelo próximo é visto como uma ameaça direta à sua própria suficiência.
Quando essa dinâmica é transposta para a economia dos sentimentos, o resultado é igualmente desolador e empobrecedor. Uma pessoa governada pela avareza emocional não se permite doar ao outro, pois enxerga o amor e o afeto como recursos finitos que, uma vez dados, são perdidos para sempre. Amar alguém, nesse contexto, significa arriscar-se a diminuir seu próprio "estoque" de amor, uma perspectiva insuportável para quem vive com medo constante da escassez e do desamparo.
A grande ironia da avareza reside na sua incompreensão sobre a natureza do fluxo da vida, onde é precisamente no ato de dar que se encontra a possibilidade de receber, tanto no plano material quanto no sentimental. A generosidade gera um ciclo de abundância, enquanto a retenção excessiva leva à estagnação e ao isolamento. Como é impossível reter tudo indefinidamente, a estratégia da avareza está fadada ao fracasso, embora a percepção dessa falha possa demorar a emergir na consciência do indivíduo.
O colapso de cada um dos pecados capitais é invariavelmente sentido como uma forma de morte simbólica, um aniquilamento do ego que construiu sua identidade sobre aquela base falha. A falha da avareza não é exceção, e o vazio deixado por ela frequentemente impulsiona o indivíduo a buscar refúgio em outros pecados, numa tentativa desesperada de evitar o sentimento de aniquilação. Esse ciclo vicioso perpetua o sofrimento, impedindo a descoberta de uma forma mais autêntica e satisfatória de existir no mundo.
Coordenador: Ale Esclapes Psicanalista, diretor da EPP-Escola Paulista de Psicanálise, e membro efetivo do Instituto Ékatus.
Data/horário: 03/06/2023 (sábado) 09:00hs
Investimento: Evento online, gratuito e realizado por videoconferência. Necessária a inscrição prévia, número de vagas limitadas.
Organização: Grupo Ateliê de Ideias - Maria Foster, Fernanda Hisaba, Juliana Rocha, Sueli Matsuki e Tatiana Costa.
Haverá emissão de certificados de participação: Ao final do evento será disponibilizado um link para um formulário de pesquisa de satisfação e emissão de certificado válido somente para o dia do evento._______________________________Dúvidas: Tel.: (11) 3628-1262; WhatsApp (11) 9 9876 9939 ou Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Atenciosamente, Equipe EPP.
Por Ale Esclapes -
"Nada de Novo no Front" é um filme de guerra alemão de 1930, dirigido por Lewis Milestone. O enredo é baseado no livro homônimo de Erich Maria Remarque, que conta a história de um jovem chamado Paul Baumer (Lew Ayres) e seus amigos que se alistam para lutar na Primeira Guerra Mundial. O filme é conhecido por ser um dos mais realistas e impactantes filmes de guerra já feitos.
No processo de alistamento, os jovens mostram uma ingenuidade e uma empolgação pelo seu país, que logo é destruída pela brutalidade da guerra e a máquina de guerra do estado alemão. A decepção quanto aos ideais vendidos pelo estado alemão é rápida, e os jovens soldados se veem confrontados com uma realidade muito diferente daquela que lhes foi vendida. No front de batalha, Paul desenvolve amizades e luta pela sobrevivência.
Talvez numa das cenas mais impactantes do filme, Paul ataca um soldado francês a facadas, e a despeito de todo horror vivido até então, entra em um misto de desespero e epifania, como se o horror da guerra se ali manifestasse: o soldado era um ser humano, igual a ele. Como o soldado francês não morre a despeito das facadas, em desespero, enfia terra na boca do soldado, como tentando acabar logo com aquilo, mas cujo simbolismo vai muito além desse. Para Paul viver um outro ser humano precisa morrer, ao mesmo tempo em que o humano em Paul morre nesse instante.
O filme também aborda com maestria a vida dos políticos alemães em contraste com a vida dos soldados no campo de batalha. Já o fanatismo do alto comando alemão é destacado no filme, que envia soldados para morrerem, a despeito do tratado de cessar fogo. Essa atitude mostra a falta de valorização da vida humana por parte dos líderes militares.
A cena final em que Paul é morto um minuto antes do cessar fogo é uma poderosa metáfora do título do filme "Nada de Novo no Front". A morte de Paul mostra que a guerra é um ciclo interminável de morte e destruição, e que a esperança é ausente neste contexto.
Em resumo, "Nada de Novo no Front" é um filme poderoso que retrata a brutalidade da guerra e a perda da inocência dos jovens soldados. A ingenuidade no processo de alistamento, a máquina de guerra do estado alemão, o desenvolvimento de amizades no front de batalha, a epifania de Paul e a falta de valorização da vida humana pelos líderes militares são temas fortes abordados no filme. Aqui nenhuma cena é menor ou em excesso, nenhum diálogo é dispensável. A cena final, que mostra a ausência de esperança em um ciclo interminável de guerra e morte, é uma mensagem impactante e perturbadora. ___________Direção: Edward BergerPlataforma: Netflix
Por Ale Esclapes -
Toda obra de arte aponta para um lugar além do óbvio, além do sensível que se apresenta. Close é um desses casos que com maestria, nos brinda com um drama sobre saída da infância e entrada na juventude circunscrita aqui pelo elemento sexual presente nessa passagem.
Uma outra delicadeza do filme é conseguir colocar outros elementos tão difíceis de abordar como amizade, culpa, suicídio de forma que cada espectador possa abordar o filme por um desses eixos, dado ao equilíbrio entre os temas.
Leo e Remi são melhores amigos apresentados em um estado de “pura inocência”. Brincam juntos, dormem juntos, não se desgrudam. Aqui o roteiro já coloca o espectador em uma posição única: entre admirar a pureza da uma relação de amizade entre dois garotos e saber que ainda que esses não “saibam”, dormir junto em conchinha em pouco tempo terá um significado diferente do que tem ali apresentado, ou, já desperta na imaginação do expectador que esses serão um futuro casal.
Eis que Leo é confrontado com a pergunta: “vocês são namorados”? Uma cesura se cria que vagamente tende à uma cisão. A partir desse ponto, vai ficando algumas lacunas e conclamando cada vez mais o espectador a fazer parte do filme, para que este o signifique. Leo começa a afastar-se de Remi, jogar bola e hóquei com outros garotos, e se enturmar como é típico da adolescência. Mas não é um movimento qualquer, ele vem a partir da pergunta: “vocês são namorados”. Não fosse a pergunta, ambos poderiam seguir o mesmo rumo, mas não ... Leo faz o caminho também para se afastar de Remi. O que teme Leo? Remi pelo seu lado não entende o que se passa, tenta se reaproximar, sempre sem sucesso.
Nesse ponto o roteiro introduz um outro tema (atenção, perigo de spoiler). Remi se suicida. Novamente o filme convoca o espectador para preencher uma lacuna. Foi por causa do afastamento de Leo? De qualquer forma Leo acredita que sim. Se antes tinha que dar conta do elemento sexual que se introduziu na relação com seu melhor amigo, o afastamento, uma eventual culpa por esse afastamento, a perda da inocência ... agora tem que dar conta de se sentir culpado pelo suicídio do melhor amigo. Esse enfim passa a ser o grande enredo do filme.
O diretor e roteirista Lukas Dhont nos propõe um olhar sensível e complexo sobre essa passagem tão dramática na vida de todos nós: a passagem da infância que aqui quer dizer uma forma específica de relação consigo e com o outro, para a adolescência, com a introdução do elemento sexual que muda toda essa estrutura já montada. Essa passagem não é fácil, é dolorosa, pois se perde o lugar no mundo, e é uma tarefa indelegável. Um filme sensível, muito bem construído, que convoca o espectador o tempo todo a significá-lo deixando lacunas (o que temia Leo? o que ele realmente sentia por Remi?) e que toca em temas muito difíceis com maestria.
___________Direção: Lukas DhontPlataforma: MUBI
Por Ale Esclapes -
Muitas pessoas associam o pecado da gula exclusivamente ao excesso de comida, mas sua essência é muito mais ampla e profunda. A gula, em seu cerne, está intrinsecamente ligada ao vício, a uma busca incessante por preencher um vazio interior que nunca se satisfaz. Ela se manifesta em qualquer comportamento descontrolado, seja no consumo de substâncias, na busca por bens materiais ou até mesmo na compulsão por trabalho. É a incapacidade de dizer "basta", transformando o prazer em uma corrente que aprisiona a alma em um ciclo de desejo e frustração.
Um dos filhotes da inveja é a avidez, um sentimento que nos impede de encontrar satisfação na vida. A pessoa ávida, ao observar a felicidade alheia, sente um desejo insaciável de possuir o que o outro tem, acreditando que ali encontrará a sua própria alegria. No entanto, essa busca é uma ilusão, pois a avidez anula o prazer e a satisfação genuínos. Como mais não me satisfaço, logo tenho que comer mais, em uma tentativa vã de preencher o vazio existencial que a própria avidez alimenta, tornando-se um ciclo vicioso de insatisfação.
O drogado é o exemplo mais contundente da dinâmica do vício. Ele experimenta um prazer momentâneo e intenso, que logo é retirado, deixando um rastro de vazio e desespero. A partir desse ponto, sua vida se resume a uma busca incessante por reviver aquela sensação, custe o que custar. Isso se chama vício, uma escravidão moderna onde a liberdade é trocada pela promessa de um alívio fugaz. O indivíduo se torna refém de sua própria busca, perdendo o controle sobre suas escolhas e sua própria vida.
No vício, o indivíduo está fadado ao fracasso, e, de novo, retorna a um outro pecado. "O vício antes de matar, ele humilha", diz um velho ditado, e essa humilhação é uma das consequências mais cruéis da dependência. A pessoa viciada perde sua dignidade, sua autoestima e seus relacionamentos, tornando-se uma sombra de quem um dia foi. A humilhação é um lembrete constante da perda de controle, da incapacidade de resistir ao desejo que a consome, aprofundando ainda mais o ciclo de dor e autodestruição.
A superação da gula e do vício não se encontra em uma simples abstinência, mas em uma jornada de autoconhecimento e ressignificação do prazer. É preciso compreender as raízes da insatisfação que alimenta o comportamento compulsivo, questionando os vazios que tentamos preencher de forma inadequada. A busca por satisfação genuína, que nutre a alma em vez de apenas saciar o corpo, é o caminho para a libertação. Isso envolve cultivar relacionamentos saudáveis, encontrar propósito em atividades significativas e aprender a apreciar a beleza da moderação, redescobrindo o verdadeiro sabor da vida.
Além da avidez, a gula também se alimenta de outros sentimentos sombrios, como a soberba e a solidão. A soberba nos faz acreditar que merecemos mais do que os outros, que temos o direito de consumir sem limites, ignorando as consequências de nossos atos. A solidão, por sua vez, nos empurra para um consumo desenfreado como forma de preencher o vazio deixado pela falta de conexão humana. Em ambos os casos, a gula se torna uma fuga, uma tentativa de silenciar a dor da alma com o barulho do consumo, aprofundando ainda mais o abismo da insatisfação.
A gula se manifesta de forma proeminente na sociedade de consumo, onde o desejo é constantemente estimulado e a satisfação, perpetuamente adiada. A busca incessante pelo último lançamento, pela tendência da moda ou pelo gadget mais moderno é uma expressão contemporânea da avidez. O ato de consumir torna-se um ritual para aplacar uma insatisfação crônica, um prazer fugaz que, uma vez extinto, exige um novo objeto de desejo. Assim, o indivíduo se vê preso em um ciclo de compra e descarte, confundindo o ter com o ser e alimentando um vazio que os bens materiais jamais conseguirão preencher.
No ambiente corporativo, a gula assume uma faceta socialmente aceitável: o vício em trabalho, ou 'workaholism'. Em uma cultura que exalta a produtividade e o sucesso a qualquer custo, a dedicação profissional pode facilmente se converter em uma compulsão destrutiva. O 'workaholic' busca no excesso de trabalho a mesma gratificação insaciável que o glutão busca na comida, sacrificando sua saúde, seus relacionamentos e seu bem-estar em nome de uma ambição sem limites. A exaustão e a ansiedade se tornam suas companheiras constantes, evidenciando a presença de um vício que consome a vida em vez de preenchê-la.
O uso de drogas representa a manifestação mais explícita e devastadora da gula como vício. A substância química oferece uma rota de fuga imediata, um prazer artificialmente intenso que mascara temporariamente a dor e o vazio existencial. No entanto, essa euforia é efêmera e cobra um preço altíssimo, aprisionando o indivíduo em um ciclo de dependência física e psicológica. A busca pela próxima dose se sobrepõe a todas as outras prioridades, corroendo a identidade, a dignidade e os laços afetivos, e ilustrando de forma trágica a humilhação que precede a destruição final imposta pelo vício.