Por Ale Esclapes -
Nossas emoções sempre sofrem um processo de significação – como podem ser vividas e como devem ser vividas são dois dos elementos desse processo. No reino do dever, está inscrito inclusive emoções que deveríamos sentir. É nesse espaço que se desenvolve o filme “A filha perdida”.
Uma progenitora deveria amar seus filhos de forma incondicional – isso é o que nossa cultura ocidental contemporânea nos diz que deve acontecer e que a mãe deva sentir. As emoções em qualquer relação são mais complexas do que esse “mandamento” do incondicional, e a relação da maternidade é permeada de sentimentos de ódio, horror, inveja etc., assim como amor, admiração, contemplação etc. E quando o que se sente fica bem distante do “amor incondicional”, quando se a relação se torna insustentável?
E se o intentável dá luar ao maravilhamento? Aí onde deveria estar o “amor incondicional” aparece o maravilhamento das experiências vividas na ausência? A culpa logicamente deveria ocupar essa lacuna. E se não ocupa? Uma falsa culpa poderia ocupar esse lugar?
É um filme que essencialmente nos trás a tensão entre dois sentimentos que deveriam estar presentes (o amor incondicional e a culpe na sua ausência) e o maravilhamento das experiências de ausência. Nós somos levados cada vez mais fundo nessa tensão, que se expande por todo o filme, da qual a própria Leda (personagem de Olivia Colm). “Não tenho esse sentimento materno” – duramente constata Leda ao final do filme. Nem todos tem. Mas poder sustentar as implicâncias dessa falta, bem como suas vicissitudes, é a grande viagem que o filme nos propõe.
___________Direção: Maggie Gyllenhaal Plataforma: Netflix
Por Marcelo Moya -
Dia 15 de Outubro comemora-se o Dia do Professor. A data nos remete aos tempos do Império quando D. Pedro I, em homenagem à professora Santa Tereza de Ávila, decretou o ensino fundamental no Brasil (na época as Escolas das Primeiras Letras), estimulando o surgimento de escolas nas províncias mais distantes, acompanhado de uma série de normativas e currículos. Aos meninos, a leitura, escrita, cálculos e álgebra. Às meninas, restou-lhes o ensino da economia e das prendas domésticas.
Esta data se tornou feriado ainda na década de 40, mas foi apenas no ano de 1963 que um Decreto o regulamentou: “ - “Para comemorar condignamente o Dia do Professor, os estabelecimentos de ensino farão promover solenidades, em que se enalteça a função do mestre na sociedade moderna, fazendo participar os alunos e as famílias”, enaltece o Ato Federal.
Da Grécia Antiga com a pedagogia Aristotélica até as Escolas Novas dos século XX, a educação foi assumindo histórica e gradativamente seu protagonismo no centro das discussões políticas e sociais no mundo, e hoje em tempos de neomodernidade, segue rompendo paradigmas, vencendo barreiras e passando por significativas transformações.
Mas uma figura essencial não deve jamais ser preterida no âmbito destas discussões: o professor. O ‘pedagogo’ numa tradução literal que significa ‘aquele que guia’, surgiu há mais de três milênios antes de Cristo, e era um escravo de famílias ricas designado para acompanhar as crianças até o mestre, embora era com o escravo que elas mais interagiam, conviviam e se preparavam. Há indícios de que pessoas específicas seriam selecionadas para ensinar certas habilidades desde os tempos do Antigo Egito, tradição que depois também se firma nas tradições religiosas do judaísmo.
A psicanalista britânica Melanie Klein (1882-1960), em seu artigo “O papel da escola no desenvolvimento libidinal da criança”, publicado na coletânea Amor, Culpa e Reparação e Outros Trabalhos, considera que “ ... na vida da criança, a escola significa o encontro com uma nova realidade, que muitas vezes parece muito dura...”, ressalta, mas aponta para a figura do professor como substituição da figura maternal que contribui positivamente durante este processo. E quem não se lembra da primeira professora no início de nossa vida escolar e o quanto ela foi importante em nossos primeiros passos do aprender?
"É quase como se o analisar fosse aquela terceira das profissões “impossíveis” ... as outras duas, conhecidas há muito mais tempo, são o educar e o governar. ” (Sigmund Freud)
O pai da psicanálise Sigmund Freud (1856-1939), em seu artigo “Análise Finita e Infinita" (1937), faz a seguinte consideração: “ - É quase como se o analisar fosse aquela terceira das profissões “impossíveis” ... as outras duas, conhecidas há muito mais tempo, são o educar e o governar. ” De fato, os mestres estão cada vez mais cientes desta difícil realidade, e embora muitas vezes desmotivados e desvalorizados, vem se tornando exímios mestres do impossível, realizando seus milagres.
Mas quero chamar a atenção em especial para um tema que já há alguns anos exponho em uma de minhas palestras ministradas nas escolas, “Professores à beira de um estado dos nervos” que chama a atenção sobre a importância do cuidado emocional por parte destes que se dedicam por vocação à arte o ofício do ensino. Os números indicam que mais de 70% (setenta por cento) dos profissionais de educação que deixam de trabalhar temporariamente ou em caráter definitivo em sala de aula se deram por condições psicológicas ou psiquiátricas, principalmente pela depressão e transtornos de ansiedade, seguidos do estresse, insegurança, violência e outras alterações em níveis mais severos de saúde. Como afirma Mário Cortella “ ...quando o modelo de vida que vivemos nos leva a um esgotamento, é fundamental questionar se vale a pena continuar insistindo no mesmo caminho... “, reitera o filósofo.
Em meio a tantos desafios, o professor embora movido pela abnegada entrega à profissão, deve sempre se lembrar de que são as emoções que movem a sua vida acima de tudo, emoção que vem do latim movere ou movimento. O pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890) afirmara certa vez que “... as emoções são os grandes capitães da nossa vida, obedecemos-lhes sem nos apercebermos. ”, enfatiza. Como um jogador de futebol que coloca sua emoção no 'bico de sua chuteira', assim o professor, que deposita sua emoção diariamente diante de uma lousa no ambiente escolar ou acadêmico.
Todavia, os desgastes são inevitáveis neste sentido, e mesmo corajosos, bravos e persistentes, nossos mestres também podem sucumbir ao sofrimento de suas emoções e sentimentos. A psicanalista portuguesa Emanuela Fleming em seu livro Dor Sem Nome considera que “ ...a dor mental apresenta-se por vezes como uma potência sem nome, dominadora e cruel, impondo uma lógica tirânica...” Como escreve São Paulo Apóstolo em sua epístola aos romanos, “o que ensina, esmere-se no fazê-lo” e completa em outra epístola bíblica, “cuide de ti mesmo, e do teu ensino; persevera nisso".
Aos mestres, o desafio de seguirem perseverando na arte do impossível, não se esquecendo do cuidado de si, da autoestima, da valorização da classe, e claro, exercendo sempre o pleno direito de reivindicar e exigir o devido respeito que merecem de toda a sociedade. Como canta a sambista e política Leci Brandão: “Professores, protetores do meu país, eu queria, como eu gostaria, de um discurso bem mais feliz, porque tudo é educação, e matéria de todo o tempo, ensinem a quem pensa que sabe de tudo, a entregar o conhecimento, batam palmas para ele, batam palmas pra ele, que ele merece!”
Por Marcelo Moya -
Se levarmos em consideração as fases de desenvolvimento de um ser humano, podemos definir uma criança como uma pessoa de pouca idade, que compreende a fase de recém-nascido até a puberdade com suas transformações físicas, biológicas e psicológicas. No Brasil, é considerado criança até os 12 anos, embora algumas convenções internacionais definem o infante como todo menor de 18 anos.
Em 12 de outubro comemora-se o Dia das Crianças, celebrada no Brasil desde meados da década de 20 do século passado, e que mais tarde ganhou relevância graças a uma campanha de marketing realizada por uma famosa fábrica de brinquedos, que para alavancar a venda de seus produtos, promoveu uma semana da criança que veio a ser incorporada no calendário de comemorações nacionais.
A psicanálise é tanto um método de exploração do inconsciente (aspectos latentes de nosso ser), que quando bem-sucedida restaura a nossa personalidade e nos aproxima da pessoa que fomos quando nosso desenvolvimento ficou comprometido, como afirma o psicanalista britânico Wilfred Bion (1897-1979), mas é também um amplo campo de teorias para pensar o mundo, a cultura, as relações humanas e as inquietações da alma. E justamente por estas dimensões teóricas que o tema do infantil ganhou relevância como modelo das mais variadas construções psicanalíticas.
Dentre seus principais teóricos, Sigmund Freud (1856-1939) estudando o adulto, descobriu a criança de todos nós, da mesma maneira, Melanie Klein (1882-1960), que ao se dedicar em sua clínica infantil, foi observando a criança que descobriu o bebê dentro delas. E Donald Winnicott (1896-1971), graças a sua experiência de pediatra, dedicou-se com afinco no universo da criança, deixando valiosas contribuições acerca de atenções essenciais no processo do desenvolvimento emocional infantil.
Mas afinal, o que é uma criança? Embora cada consideração abaixo explicitada merece uma discussão bem mais pormenorizada, técnica e profunda, é sobre este espectro de penumbras associativas percebidas pelos saberes da metapsicologia que gostaríamos de destacar pelo menos três considerações dentre tantas outras possíveis, e que podem nos ajudar a ampliar nossas formas de compreensão sobre este maravilhoso, porém complexo, mundo infantil.
Em primeiro lugar, precisamos ter em mente de que crianças não funcionam no mesmo padrão dos adultos. Os aspectos físicos, biológicos e psicológicos definem singularmente suas necessidades, convívio e formas de tratamento. Mas o que lamentavelmente se observa na sociedade é o drama de muitas crianças adultilizadas ou precocemente estimuladas a isso. Devemos tratar crianças como crianças, não lhe imputando a elas um peso de algo que ainda não são, mas dando-lhes pavimento adequado para se tornarem no futuro, adultos maduros e socialmente responsáveis.
Em segundo lugar, as crianças são vidas que necessitam do suporte adequado dos adultos para sobreviver e se desenvolver. Falhas neste processo poderão incorrer em sérios transtornos emocionais, distúrbios de personalidade, problemas de aprendizagem e até mesmo delinquência. A criança precisa de condições básicas para crescer saudável, bem como do acolhimento afetivo de seus cuidadores, algo crucial para se tornarem mais seguras e aptas para enfrentarem os desafios da vida.
E por fim, crianças são seres que precisam brincar e adoram fazer isso com os adultos. Quando nos lembramos do Dia das Crianças, logo pensamos em presentes, principalmente brinquedos, objetos do desejo infantil. Dar presentes tem sua relevância e significado, e mais do que isso, crianças precisam ser estimuladas a brincar, não apenas sozinhas ou com outras crianças, mas a interação com os adultos também é importante. Criança que não brinca, não se desenvolve. E a interação com os adultos também imprime marcas profundas no processo de organização psíquica delas. A data comemorativa já passou, mas as crianças seguem trazendo alegria e esperança aos nossos lares e o mundo, sem nos esquecermos de uma outra criança muito especial, a criança que já fomos um dia e que se perpetuou dentro de cada um de nós em nossas memórias e reminiscências, formando os fragmentos infantis que diariamente alimentam os sonhos como expressão mais fiel de nossos desejos.
E como escreveu o saudoso poeta Paulo Leminski: “Nesta vida, pode-se aprender três coisas de uma criança: estar sempre alegre, nunca ficar inativo e chorar com força por tudo o que se quer. ”
Por Marcelo Moya -
No ano de 1994 um triste episódio marcou uma cidade do interior dos Estados Unidos chamada Westminster-CO. Ali vivia um jovem chamado Mike Emme que tinha um Ford Mustang de cor amarela resultado de sua dedicação na restauração do veículo e que até lhe rendeu um apelido.
Apaixonado por carros, era visto por todos com um jovem alegre, de bem com a vida, bom humor, ótimas relações, características típicas de pessoas que desfrutam do pleno de sua juventude aos 17 anos de idade.
Mas no dia 08 de setembro daquele ano, entre onze horas e meia-noite, algo chocou profundamente a população local. Este promissor rapaz foi encontrado dentro de seu famoso carro, morto com um tiro. A polícia achou junto um bilhete pedindo desculpas aos pais e dizendo o quanto ele os amava. Mike havia tirado a própria vida. Ninguém conseguia acreditar naquilo e todos perguntavam como isso era possível se ninguém notava nada de diferente nele que poderia justificar brutal ação.
No dia de seu velório houve uma mobilização local que se logo se alastraria por todo o país e se transformaria numa campanha de dimensões internacionais. Foram distribuídas fitas amarelas com cartões (devido a cor do carro e o apelido que o jovem tinha - o Mike do Mustang Amarelo), com o seguinte dizer: “Se você precisar, peça ajuda!”. Nascia ali o Setembro Amarelo.
Realizada no Brasil desde 2014, por iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria em parceria com o Conselho Federal de Medicina, a campanha remete ao 10 de setembro, oficialmente Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Embora se intensifique no mês da primavera, esta mobilização acontece durante todo o ano com objetivo de conscientizar sobre a prevenção ao suicídio, buscando alertar a população e tentar reverter esta quadro por meio de ações que envolve entidades públicas e privadas, órgãos de saúde, escolas, universidades, igrejas, empresas, etc., e despertar um olhar para a vida e a importância do cuidado com o próximo em seu adoecimento mental, independente da classe social e faixa etária.
Dados da Organização Mundial de Saúde apontam que a cada quarenta segundos uma pessoa tira a própria vida, e a cada três segundos houve uma tentativa não consumada. Mais de um milhão de suicídios acontecem por ano em todo o planeta. O suicídio é uma das principais causas de mortalidade, sendo a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, por exemplo. Em território nacional são registrados mais de doze mil suicídios e os números só têm aumentado nos últimos anos.
Cercado de mistérios, tabus e por delicadas questões éticas, culturais, morais e religiosas, o suicídio é considerado um grave problema de saúde pública e são diversos os fatores que podem influenciar uma pessoa atentar contra a própria vida, sendo que as principais causas são a depressão, transtornos e doenças mentais como a esquizofrenia, o uso de substâncias psicoativas, além do sentimento de absoluta impotência diante das inúmeras pressões, perdas e frustrações da vida adulta.
O bullying também vem se tornando um fator premente entre crianças e adolescentes. O seriado Os 13 Porquês inspirado no livro de Jay Asher e disponível na plataforma Netflix é uma boa referência para o debate e reflexão, e as influências das mídias digitais como a Boneca Momo, a Baleia Azul e os jogos violentos como o GTA também servem como sinais de alerta e atenção das famílias.
A OMS ainda adverte que mais de 90% dos casos poderiam ser prevenidos com medidas simples como uma conversa, informação, suporte familiar, além da ajuda de especialistas para enfrentar e superar o problema, haja vista que na maioria dos casos quem se suicida não quer desistir de viver, mas se livrar da dor pela qual não consegue encontrar uma saída sozinho. Sabe-se que pelo menos dois terços dos atos cometidos foram sinalizados pela pessoa semanas antes a parentes e amigos próximos acerca da intenção de fazê-lo, o que desafia a sociedade em ações ainda mais vigilantes e eficazes.
Também é válido esclarecer que existem alguns mitos que precisam ser desfeitos em torno do comportamento suicida, tais como: que a pessoa não avisa, que isso não pode ser prevenido, que a pessoa só quer chamar atenção, que quem tenta uma vez não tenta novamente ou que falar abertamente sobre este assunto irá estimular a realização, o que de fato não procede.
A psicanálise se pauta por uma série de modelos teóricos que ajudam na construção de consistentes reflexões sobre este tema a partir de conceitos cunhados na metapsicologia, entre estes, o luto, estágios melancólicos, narcísicos e maníacos, a desintegração do eu, as estruturas psíquicas, as fantasias inconscientes, as ansiedades, os mecanismos de defesas, as funções de pensamento, etc.
Mas é pela exploração de dimensões inconscientes experienciadas numa análise que existe a possibilidade de pensar as relações com os inevitáveis estágios depressivos e ansiógenos, ressignificar as emoções, abrir-se para novos vértices de compreensão da vida e da morte, por exemplo, da responsabilização das escolhas, decisões e do próprio sofrimento, e de seguir crescendo mentalmente, superando as contradições da vida e encarando-a com mais perspectiva e propósito.
Além de profissionais especializados, existe o CVV (Centro de Valorização da Vida) que pode ser acessado através do telefone 188 ou pelo site cvv.org.br onde dispõe outras opções de acesso. O site podefalar.org.br oferece ajuda para jovens e adolescentes entre 12 a 24 anos, e também as políticas públicas de atenção à saúde mental como os serviços ofertados pelos Caps (Centro de Atenção Psicossocial). No site setembroamarelo.com é possível obter mais informações e encontrar orientações importantes sobre como proceder com pessoas de tendências ou sinais suicidas.
E você, tem planos para o futuro? Sente que sua vida ainda vale a pena ser vivida ou está difícil demais? O importante é que em qualquer sinal de alerta, procure ajuda. Como canta a banda Titãs: “Quando não houver saída, quando não houver mais solução, ainda há de haver saída, nenhuma ideia vale uma vida... é caminhando que se faz o caminho... enquanto houver sol, ainda haverá...".
Por Adriana Silveira -
O complexo de Édipo é central para os trabalhos desenvolvidos por Freud, como sabemos. Freud acreditava que os complexos de Édipo e de castração teriam início na fase fálica, momento em que os genitais são o centro da libido infantil. Haveria aí a descoberta, pelo menino, do pênis, bem como da ausência do pênis na menina, o que levaria à castração e ao Édipo.
Diante da rivalidade em relação ao pai, bem como da impossibilidade de ter a mãe como objeto de desejo e do medo de perder o pênis (em virtude do onanismo), o menino ressignifica sua relação com os pais, identificando-se com a figura paterna. Nesse momento, dissolve-se o complexo de Édipo e tem início a formação do Superego- instância inicialmente formada a partir da introjeção da relação parental.
No caso da menina, haveria um ressentimento quanto à ausência de um pênis, sendo a castração um produto desse processo. Nesse caso, a castração antecederia o complexo de Édipo. A menina passaria a desejar inconscientemente o pênis do pai e ter um filho com ele. A não concretização desse desejo levaria à dissolução do complexo de Édipo e à formação tardia, se comparada ao menino, do Superego.
Melanie Klein, no início da publicação de seus escritos, também defende que a formação do Superego está vinculada aos complexos de Édipo e de castração. Porém, o trabalho direto com crianças - um grande diferencial em relação a Freud, que analisava adultos - permitiu-lhe observar que o Édipo teria início antes do que Freud acreditava. Apesar de, inicialmente, Klein estar presa aos estágios sexuais de desenvolvimento infantil, ela concluiu que esses estágios aconteceriam mais precoce e rapidamente. O Édipo, para ela, ocorreria nas fases iniciais do desenvolvimento infantil, chegando ao período de desmame e às frustrações anais advindas dos rituais de higiene.
Na descrição desse processo, Klein já introduz a noção de posição, ou seja, da relação estabelecida (posição ocupada) entre o bebê e o outro. Fazendo também uma comparação entre o menino e a menina, Klein revela que aquele, na passagem da fase oral e anal pela genital, mudaria de posição e passaria a ter como objetivo a penetração, associado ao pênis e à figura materna como objeto amoroso. A menina, ao chegar na fase genital, manteria o objetivo receptivo, desenvolvendo, a partir das frustrações das fases oral e anal relativas à mãe, a receptividade para o pênis, tendo o pai como objeto amoroso.
A castração ocupa também lugar importante nas publicações de Klein. Quanto ao menino, destaca a “fase da feminilidade”, quando este vê a figura paterna como fortemente castradora e, fugindo aos impulsos genitais, prende-se à fase sádico-anal. Ao ódio pela figura materna e temor pela destruição de seu corpo soma-se, pois, o temor da figura paterna. A junção desses fatores desencadeia a formação de um superego primitivo, extremamente rigoroso e tirânico.
Na menina, Klein destaca que o onanismo não possibilita uma saída adequada para a quantidade de excitação, do modo como ocorre com os meninos. Existe um desejo pelo pênis que lhe falta e, consequentemente, um desejo pelo pênis do pai, possuído pela mãe, a quem dirige seu ódio. Há, desse modo, um desejo forte de destruição da figura materna, bem como a identificação com a figura paterna, que se torna o objeto amoroso.
Ao elaborar suas ideias em torno do Superego arcaico, Klein mais uma vez apoia-se no conceito de posições. Tanto no caso do menino quanto da menina, o bebê, ao desenvolver uma visão mais realista e total do objeto amoroso (inicialmente, a mãe), deixando de vê-lo de modo fantasiosamente ambivalente (seio bom X seio mau) e incorporando o objeto bom dentro de si, sairia de uma posição paranoide para uma posição depressiva, por volta dos quatro meses de idade. Consequentemente, ocorreria a identificação com o objeto amoroso e a necessidade de preservá-lo. Surgem aí a ansiedade, a culpa pelo desejo de destruição do objeto mau (típica da posição anterior, ligada à fase sádico-anal) e o desejo de reparação. Nesse momento, para Klein, seria formado o Superego arcaico.
Melanie Klein atuou no tratamento de crianças e defendeu a análise infantil, diferentemente de Anna Freud, por exemplo. A fim de atuar no tratamento de crianças e de auxiliá-las no manejo de sua ansiedade, desenvolveu a técnica do brincar. Por meio da observação e da interação com a criança durante as brincadeiras, chegou às fantasias inconscientes do bebê. Assim, foi possível compreender melhor seus sentimentos e as relações estabelecidas entre a criança e a realidade.
Em alguns dos casos clínicos inicialmente publicados por Klein, pode-se verificar a efetividade de sua técnica. O ponto de partida é, sobretudo, a observação, no brincar, do relacionamento da criança com os adultos que dela cuidam, sob a perspectiva do desenvolvimento sexual infantil, com foco nos aspectos edipianos. No entanto, a perspectiva da formação do Édipo e do Superego precoces – e dos consequentes sentimentos de ansiedade, culpa e reparação – são um diferencial importante para o desenvolvimento de sua técnica, considerando-se, nela, a análise das posições.
Por Wagner Andreo Alledo Filho -
“Sonhar é acordar-se para dentro...” (Mario Quintana)
Acordar-se para dentro, dar à luz o obscuro, conhecer a si mesmo... Mario Quintana, poeta gaúcho, reconhecido pela profundidade dos seus poemas e perfeição técnica, o “poeta das coisas simples”, propõe uma reflexão a respeito do sonho:
“Sonho. Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, do teu próprio coração”.
Seria para ele o sonho (nem sentirias) a manifestação (um poema) de uma emoção (do teu próprio coração) vivenciada no passado (que já estivesse escrito) mas que insiste em retornar (fosse brotando) e libertar-se (no mesmo instante)?
Quem poderá dizer?
O significado dos sonhos é tema de debate sob diferentes óticas, com forte influência religiosa, científica e cultural, variando a sua interpretação desde como uma simples manifestação da criatividade até como sinal de maus presságios e outras previsões futuras.
Para a psicanálise, o sonho é a manifestação de um desejo reprimido. Esse conceito surgiu em 1900, com a publicação do livro “A Interpretação dos Sonhos”, por Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise (na verdade, publicado em 1989, mas propositalmente datado de 1900. Tamanho era seu caráter inovador que, alterar a real data de lançamento em um ano e, assim, para o novo século que se iniciava, poderia conferir ao livro o título de “Obra do Século”).
Nesse livro, Freud aborda o sonho e sua interpretação buscando um caráter científico. Ao mesmo tempo que faz isso, cria os pilares fundamentais da psicanálise. Na obra Freud apresenta suas ideias sobre de onde vêm os sonhos, por que eles ocorrem e como funcionam. Apresenta o conceito de conteúdo manifesto, que é a descrição textual do que se recorda de um sonho, e quais são os processos que levam à transformação do pensamento em conteúdos manifestos. Conclui que os sonhos representam, de maneira disfarçada, a realização de desejos inconscientes que estão em conflito e buscam uma forma de se expressar. O material utilizado para sua formação encontra-se no inconsciente e a sua manifestação se dá através da união dos conteúdos escondidos (ou recalcados) às memórias e lembranças do dia a dia.
Ao fechar os olhos à noite, além do descanso físico, ocorre com o sono o relaxamento da consciência. Os mecanismos de defesa e censura que nos orientam durante o dia, em estado de vigília, se tornam ineficientes, e já não conseguem barrar totalmente a expressão dos desejos inconscientes. Estes então se unem a experiências e vivências que estão na memória e se manifestam buscando, através dessas associações, os disfarces necessários para driblar a defesa consciente. Não à toa muitas vezes os sonhos são confusos ou parecem não ter sentido. Ocorre que para superar o disfarce do verdadeiro desejo recalcado em um sonho é necessário empregar um processo de interpretação que ultrapasse o conteúdo. Freud categoriza esses disfarces como condensação, deslocamento, representações e elaborações secundárias.
O processo de condensação pode ser compreendido se comparado à leitura de uma poesia. À primeira vista, um verso pode se apresentar simplório e propor uma interpretação fácil, rasa ou direta. Mas uma análise atenciosa promove a abertura de um leque de interpretações e ideias ‘escondidas’ às palavras que pareciam não possuir essência ou profundidade de conteúdo. “Sonhar é acordar-se para dentro”. Quantas inferências podem ser atribuídas a essas cinco palavras de um verso de Mario Quintana? Freud conclui que o conteúdo manifesto do sonho é infinitamente menor que o conteúdo latente, por isso vários elementos do sonho manifesto são combinados em apenas uma imagem psíquica, com várias cadeias associativas. As imagens latentes, ou conteúdos oníricos, aparecem em sonho abreviados, condensados, pois são perturbadores demais para aparecer de forma completa. São como palavras que se apresentam inocentes ao primeiro olhar, mas permitem infinitas inferências se analisadas em um determinado contexto.
Junto à condensação, o deslocamento é outro mecanismo de defesa pelo qual a mente substitui uma reação emocional por outra imagem remotamente relacionada ao conteúdo original, transferindo emoções, ideias ou desejos com o objetivo de aliviar a ansiedade diante de impulsos insuportáveis. O deslocamento promove uma distorção do desejo inconsciente fazendo com que o conteúdo manifesto do sonho não mais se assemelhe ao conteúdo recalcado que o originou.
Mas como se dá o processo de escolha das imagens, palavras e outras representações que vão compor o conteúdo manifesto do sonho? Para Freud, essa escolha se dá pelo valor psíquico associado à imagem ou à sua capacidade de representar vários sentidos. Quando uma emoção se associa a esse material tem-se o processo de representação, através do qual uma imagem pode estar associada a uma emoção desproporcional ou invertida, por isso o conteúdo manifesto do sonho não permite a sua real interpretação. É através das emoções que se pode compreender o conteúdo onírico do sonho. O material de representação passa por deslocamento e condensação, mas as emoções permanecem inalteradas, sendo a busca pela sua compreensão o caminho mais adequado em direção o conteúdo onírico.
Mas há ainda outro complicador. O sonho pode ‘desligar’ os afetos do material de representação, buscando outras associações. Quando isso ocorre, as emoções podem sofrer supressão (desaparecimento do afeto nos sonhos), deslocamento (transferência de afeto para longe do seu representante ideativo numa outra parte do sonho), subtração (empobrecimento do afeto dos pensamentos no sonho), inversão (transformação de um afeto em seu contrário) ou reforço (intensificação do afeto ‘permitido’ no sonho em substituição ao ‘proibido’).
Não obstante a complexidade do processo de interpretação dos sonhos apresentado até aqui, cabe observar que a descrição do sonho ocorre quando já se está acordado ou desperto (estado de vigília) e a consciência plenamente reestabelecida em seu trabalho de defesa e censura. Surge então a possibilidade do consciente aplicar suas últimas energias em busca da censura com o trabalho do esquecimento, muito comum após uma experiência de sonho. Por fim, como que num “golpe de misericórdia”, a consciência pode buscar a promoção da elaboração secundária do conteúdo onírico, que atua no intuito de dar coerência ao sonho, preencher espaços vazios ou amenizar pensamentos absurdos à sua luz, apresentando um conteúdo manifesto mais ameno e aceitável, ocultando o conteúdo onírico à medida que o recria ou remodela.
Para a psicanálise, a escuta do sonho pode ser também um despertar, à medida que através da sua manifestação e relato, mediados pelo processo de livre associação, dá voz ao subconsciente e permite o desenvolvimento de um processo contínuo de descobrimento e autoconhecimento.
Por Diego da Silva Geoffroy -
Na teoria psicanalítica, as temáticas em torno do complexo de Édipo são de extrema importância, tanto para a teoria Freudiana, quanto Kleiniana. Ambos destacam a importância de se observar como o sujeito se posiciona e se relaciona com os objetos, a partir do modo pelo qual se passa pelo complexo de Édipo.
Mas é claro que eles apresentavam algumas diferenças em termos de como ele se estrutura e o tempo em que acontecem. Freud, acreditava que o complexo de Édipo tinha início por volta dos 4 ou 5 anos, e que o superego seria o herdeiro desse complexo e a base do seu trabalho era fundamentada na sexualidade infantil. Para Klein, o complexo de Édipo tinha início muito mais cedo, por volta de 1 ano e 6 meses a 2 anos, e a ênfase do seu trabalho estava ligada ao sentimento da inveja, e a presença de um superego arcaico que já estaria presente e atuante desde o início da vida.
Freud em seu processo de construção teórica partiu do estudo dos adultos para chegar na criança, algo que virou uma questão central em sua obra, e que culminou na importância dada a sexualidade infantil. Klein fez um movimento contrário ao de Freud, ela vai partir da análise da criança para a construção de sua teoria. A partir disso, já se estabelece aqui uma diferença importante que parece ser relevante na maneira como cada um descreve suas percepções e desenvolve seu modelo teórico.
A partir de suas observações clínicas, Klein pode perceber a presença do superego muito antes daquele período que Freud havia assinalado, e esse superego era anterior ao complexo de Édipo em Freud. Para Klein ele era extremamente rígido, cruel, e primitivo, e por isso, a criança acabava desenvolvendo culpa e ansiedade muito cedo. Para Freud, o superego seria herdeiro do complexo de Édipo, e todas as questões ligadas a moralidade, e ao sentimento de culpa iniciava-se a partir deste ponto.
Klein vai dizer que é possível sim analisar crianças, que a forma delas poderem se comunicar através do brincar tinha status e valor equivalente a associação livre no adulto, e que a relação transferencial já estava presente no mesmo momento em que a criança entrava pela porta do consultório. O inconsciente era acessível e ela foi desenvolvendo formas de acesso a esse inconsciente e alcançando seus resultados na clínica.
Pelo brincar a criança expressava suas ansiedades inconscientes, e por meio de interpretações Klein ajudava as crianças a representar uma realidade interna cercada de medos e inibições que eram passíveis de serem ouvidas e ressignificadas. Ela considerava o acesso ao inconsciente da criança mais fácil do que no adulto.
Esse modelo que Klein desenvolve está pautado no conceito de posições. Para ela seria natural que no início da vida a criança passasse pela posição esquizoparanóide, que seria uma fase em que a criança se relaciona com o mundo de forma fragmentada e persecutória, e com a presença de ansiedades importantes no contexto de sua teoria. Seria um modo de funcionamento das psicoses, e, portanto, passível de tratamento analítico, na medida em que ela considerava possível o caminho para acessar o inconsciente e trabalhar essas ansiedades.
A partir disso podemos perceber que ela vai criando um caminho para sua teoria, sem romper definitivamente com Freud, tentando manter uma base psicanalítica, mas ao mesmo tempo propondo mudanças clínicas a partir de sua experiência.
Para Freud o complexo de édipo surge entre os 3 e 5 primeiros anos de vida da criança. A partir da relação que Freud faz com o mito de Édipo, nesta fase se desenvolve um “desejo incestuoso” da criança pela mãe, ao mesmo tempo que cria uma relação de conflito e disputa com o pai. Este processo tem peculiaridades para meninos e meninas, mas em suma é uma forma de estruturação do sujeito a partir da relação na tríade parental.
O complexo de Édipo descrito por Freud possui três elementos essenciais, que independe do sexo da criança. O primeiro elemento diz da necessidade de um casal de pais que pode ser real ou simbólico. No segundo, tem-se o desejo de morte em relação ao genitor do mesmo sexo. No terceiro e último elemento verifica-se a existência de um sonho ou mito de realização do desejo de tomar o lugar de um dos pais e casar-se com o outro.
Para Klein o édipo começa bem antes, logo após o desmame da criança. A partir da relação com as imagos do seio que ela introjeta, podendo ter características boas e más, a criança projeta nos objetos externos que ela se relaciona todas as suas fantasias. Nesse período há uma intensa presença do sadismo oral atuando, que interfere diretamente em como a criança desenvolve sentimentos hostis em relação aos objetos, bem como o caráter persecutório e punitivo que espera receber deles.
Neste momento, a criança começa a perceber que o mesmo objeto que traz satisfação é o mesmo que traz insatisfação e está ligado ao seu objeto de amor: a mãe. Então, é aí que começa um conflito de ambivalência de sentimentos, pois a mãe a quem direcionou seus impulsos destrutivos é a mesma mãe a quem direciona amor. Isso faz com que a criança vivencie ansiedades e sentimentos de culpa em relação à mãe, e anseie consertar o mau que a fez a mesma. A esse funcionamento Klein chamou de posição depressiva.
Em Klein o trabalho analítico encontra lugar já no início da vida, em um tempo em que Freud não adentrou em sua prática clínica. O olhar Kleiniano permite que as ansiedades da criança sejam trabalhadas em períodos bem mais primitivos do desenvolvimento, podendo trazer benefícios significativos ao modo como as crianças estabelecem relações com seus objetos de amor, e com o mundo de maneira geral.
Por Marcelo Moya -
"Não me cabe conceber nenhuma necessidade tão importante durante a infância de uma pessoa que a necessidade de sentir-se protegido por um pai." (Sigmund Freud)
A nossa sociedade vem passando por constantes transformações e modificando as configurações das famílias através de novos modelos, mas a figura do pai nunca deixará de ser essencial, pois o seu papel é fundamental e complementar ao lado da mãe no percurso das dinâmicas familiares.
Um aspecto preocupante na educação dos filhos na atualidade é a ausência ou a inexistência do pai, ou mesmo de uma figura familiar que o substitua a contento, e que participe ativamente da vida dessa criança por meio de um vínculo satisfatório com ela no processo de crescimento. Estatísticas apontam que mais de 70% de jovens e adolescentes em situação às margens da lei, por exemplo, cresceram sem a presença de um pai ou este não cumpriu adequadamente o seu papel. A repetência escolar é duas vezes maior entre crianças que crescem em lares sem uma presença paterna, e tem onze vezes mais chances de manifestarem comportamentos violentos na escola. Crianças com um pai presente ou alguém que exerça este papel com efetividade, tem maior probabilidade de se sentirem mais seguras nos estudos, na escolha de uma profissão, na tomada de decisões importantes na vida, do contrário, ela poderá desenvolver conflitos de natureza emocional como personalidade antissocial, distúrbios de comportamento, insegurança, entre outros.
Pautado em algumas premissas teóricas da psicanálise, pensamos em pelo menos três considerações acerca da essencialidade paterna na formação do indivíduo a partir de suas fases iniciais de desenvolvimento e determinantes na constituição do ser.
Em primeiro lugar, o pai pode dar segurança à mãe durante sua maternidade, proporcionando a ela condições de se sentir mais protegida com seu bebê, haja vista que muito além de um suporte material, o amparo afetivo é uma forma de acolhimento diante das implicâncias que a maternidade acarreta.
Para a psicanalista Melanie Klein (1882-1960), "...o pai desempenha um papel crucial na vida da criança, principalmente se o homem está em harmonia com a sua esposa... muito do que se disse a respeito da relação da mãe com os filhos em diversos estágios de desenvolvimento, também se aplica ao pai... ele desempenha um papel diferente daquele da mãe, mas suas atitudes se complementam...", afirmou. Uma segunda consideração, é que nesta conexão da criança com o seu pai, ela é estimulada a interagir ao seu redor e para além de seu vínculo exclusivo com a mãe. A criança necessita deste outro para começar a compreender a vida social. Na medida que ela vai notando a existência e presença deste pai, entenderá que o mundo não gira apenas em torno dela e que a mãe não é sua propriedade, cuja relação simbiótica normalmente traz consequências muito nocivas. Reconhecer esta unidade parental é importante para a estabilidade psicológica da criança e seu convívio com outras pessoas. E por fim, o pai exerce substancial influência tanto na formação da identidade como da autoestima da criança. Se for ausente ou inexistente, outros modelos podem vir a ocupar esse vazio, com uma grande probabilidade de não serem modelos propriamente exemplares, como acontece no contexto da marginalidade e da delinquência, haja vista que a falta do pai pode desenvolver entre outras coisas, baixa autoestima, despersonalização, intolerância à frustração e sérios conflitos existenciais. Como disse certa vez o filósofo Nietzsche: "...se não se tem um bom pai, é preciso arranjar um". A maior de todas as heranças que um pai pode deixar para os seus filhos é sua prova de amor, sua presença, seu suporte e seu exemplo. E como cantou Milton Nascimento, “...quero a utopia, quero tudo e mais, quero a felicidade nos olhos de um pai...”
Por Indira Bolsoni Pinheiro -
No início dos seus trabalhos com a histeria, Freud se utilizava do método hipnótico de Charcot e do método catártico de Breuer, que trazia as memórias que ficavam reprimidas e que causavam os sintomas físicos nas pessoas histéricas. Para esses estudiosos, na época, as lembranças trazidas pelas pacientes, pois a grande maioria dos experimentos foi feito com mulheres do Hospital Salpetriere, eram a reprodução exata do que havia acontecido em suas vidas.
Quando a memória dos acontecimentos que causavam o sofrimento das pacientes vinha à tona, pelo efeito catártico e sugestivo da hipnose, eles entendiam que o tratamento teria alcançado sua finalidade. No entanto, com o tempo, foi se percebendo que o sintoma causado pela memória reprimida apenas mudava de forma, não havia cura de fato.
Freud utilizava-se de outro método para, segundo ele, trazer à tona a verdade da paciente, que era a pressão do dedo na testa. Dizem que o pai da psicanálise não era muito hábil para hipnotizar pacientes, por isso se valeu de outro método que, no seu entendimento, tinha o mesmo efeito, que era o de reproduzir por meio da fala os acontecimentos difíceis e sofridos da vida da paciente, que foram a causa do surgimento dos sintomas físicos, o que na época se denominava Histeria.
Após vários relatos de pacientes Freud começou a perceber que todos os eventos e acontecimentos estavam relacionados com a sexualidade em um período muito significativo na vida das pessoas, a infância, que ele entendia que ia até os 8 anos, aproximadamente. Ou seja, antes da puberdade. Assim, Freud entendeu que havia em todos os casos os seguintes componentes: sexualidade, infância e sedução por um adulto. Para ele, estes acontecimentos traumáticos da infância passavam por um período de incubação e apenas após a puberdade é que vinham à tona na forma de vários sintomas emocionais ou físicos, como vergonha, culpa, sofrimento, dores abdominais, dentre tantos outros descritos por suas pacientes.
O que Freud ainda não tinha percebido, na época em que desenvolveu a Teoria da Sedução, é que o que as pacientes traziam à tona não era necessariamente a verdade. As experiências sexuais confessadas na clínica eram, muitas vezes, se não na maioria delas, fruto da fantasia das pacientes que ocorria na primeira infância. O fato de Freud ter se baseado no método hipnótico, onde se acreditava trazer as memórias de acontecimentos como haviam realmente ocorrido, pode ter contribuído para o equívoco, pois não se sabia, ainda, que as memórias poderiam ser apenas a fantasia de uma criança e não um abuso sexual contra ela praticado.
Outra questão relevante é que os adultos das relações são sempre pessoas próximas que possuem algum tipo de afeto ou afeição pela criança, o que tornaria tudo ainda mais confuso e até mesmo abjeto, caso todos os relatos fossem apenas a reprodução dos acontecimentos, exatamente como ocorreram.
Mais adiante Freud percebe o equívoco cometido, pois afirma que na época do texto que escreveu sobre a Teoria da Sedução ainda não sabia distinguir entre realidade e fantasia. Ou seja, não sabia, até então, que as pacientes poderiam fazer relatos a respeito de acontecimentos na infância, envolvendo sexualidade, que teriam ocorrido tão somente na imaginação delas. A partir daí se desenvolve a noção, que deve ter sido perturbadora e polêmica para a sociedade da época, de que a criança tem sexualidade e sente prazer. Até então as crianças eram vistas como anjos assexuados, pois não poderiam saber o que é sexualidade se não tinham maturidade psíquica e experiência para entenderem do que se tratava. Com a continuidade dos estudos sobre sexualidade na infância, Freud chega a um dos conceitos mais conhecidos da psicanálise que é o Complexo de Édipo.
Por Jose Claudio de Nazareth Gonçalves -
Na década de 80 a televisão exibia um comercial de desodorante que terminava com o slogan “se algum desconhecido te oferecer flores, isso é Impulse", onde um homem, movido por um impulso causado pelo instinto despertado pelo olfato, roubava flores de um vendedor e ia correndo oferecer à mulher que passou por ele usando o tal desodorante.
Então a pulsão nos move. As pulsões foram as maiores responsáveis pelo desenvolvimento do nosso aparelho psíquico e foram mesmo responsáveis por nos fazer perceber que temos um mundo interior, que é separado do mundo exterior. A vida psíquica que vivemos hoje se originou e se desenvolveu baseada nas pulsões. Somos então, as nossas pulsões? O que é uma pulsão?
O nosso EU primordial, recém-nascido, vive uma existência plena e onipotente, satisfeito no gozo do seu autoerotismo e na realização, alucinatória ou não, de seus desejos. Mas aos poucos percebe que as alucinações não têm a mesma eficiência em saciar necessidades, deduz que existe um certo algo que está fora de si mesmo, algo que existe independente de suas instancias psíquicas, algo Real. Percebe também que há necessidades que podem ser satisfeitas através do uso de seu sistema motor e outras em que o uso deste não altera suas premências, elas continuam lá, insistindo na sua exigência de serem satisfeitas. Essas necessidades são percebidas como oriundas do interior do próprio ser, das quais ele não consegue fugir, e que constantemente o pressionam por sua satisfação. Essas são as nossas pulsões.
Mas nosso sistema nervoso não quer ser perturbado, ele quer reduzir ou eliminar os estímulos que lhe chegam, ou se não conseguir assim fazê-lo, quer ao menos dominá-los. Ele se apegou aquele prazer primordial do Eu ideal. Um estímulo pulsional vindo do seu interior, para ser reduzido e parar de incomodar, precisa ser satisfeito. A não satisfação aumenta o desprazer e isso ele quer evitar a qualquer custo.
Consequentemente a supressão desses estímulos instintuais vira a meta do sistema nervoso e o alcance dessa meta é feito através de um (ou mais) objeto. Esse objeto pode ou não ser parte do corpo e de acordo com as manipulações que a psiquê usa para suprimir esse estímulo poderá até ser mudado - ou deslocado - no decorrer desse processo. Mas se um instinto fica particularmente preso à determinado objeto, ocorre uma fixação.
No início os instintos são unificados, mas com o desenvolvimento do sistema nervoso se separam em instintos destinados à conservação do Eu e instintos sexuais. Esses instintos sexuais primordiais se apoiam nas funções fisiológicas e de autoconservação, ligados ao prazer do órgão de origem, mas aos poucos vão se separando e com o amadurecimento do aparelho reprodutor acabam por se ligarem à vida sexual.
O sistema nervoso, na sua busca pelo estado de não perturbação, possui mecanismos para se defender dos instintos, numa tentativa de satisfazê-los, desviá-los ou suprimi-los.
Ele pode reverter um instinto no seu contrário. Um instinto com meta ativa passa a ter meta passiva. Um instinto sádico por exemplo pode ser substituído pelo seu contraponto, o masoquismo. Ou um instinto voyeur se modificar em exibicionista. A reversão ao contrário busca sempre inverter a meta ativa do instinto ao seu oposto passivo. A não ser que seja na oposição amor/ódio, quando a inversão não se dá na meta, mas no seu conteúdo.
Pode ocorrer de o sistema nervoso fazer o instinto voltar-se contra a própria pessoa: ele mantém a meta e muda apenas o objeto, que no caso passa ser o próprio eu. O exibicionista por exemplo passa a contemplar o seu próprio corpo - onde inclusive esse instinto em particular se origina: afinal quando éramos autoeróticos nos satisfazíamos olhando o nosso próprio corpo e só posteriormente, por via da comparação, deixamos esse objeto e o trocamos pelo análogo no corpo alheio. Esse instinto autoerótico, que tem o próprio corpo como objeto para alcançar a meta instintual é uma formação narcísica.
O narcisismo representa o estágio inicial do desenvolvimento do Eu e isso é uma conclusão lógica se nos lembrarmos que nesse estágio estamos absortos em nós mesmos, os instintos sexuais unidos com os de conservação e em plena satisfação autoerótica. Essa fase marcada pelo narcisismo – e a maneira como ela se desenvolve - será decisiva na determinação dos destinos que os instintos terão no futuro, nas mudanças de meta ou de objeto que sofrerão.
Um outro destino para um impulso instintual pode ser a repressão. Muitas vezes um instinto que teoricamente surgiu para causar prazer pode estar inserido em circunstâncias que causariam um desprazer maior que esse prazer, e nesse caso precisaria ser reprimido. Por reprimido entendemos como tirado da - ou mesmo impedido de chegar `a - consciência. Com essa premissa sabemos que esse método de lidar com o instinto só pode ser realizado quando já ocorreu a separação entre o consciente e o inconsciente.
Quando no inconsciente esse instinto pode continuar em atividade, e derivados associativos desse instinto podem mesmo alcançar o consciente, desde que deformados ou separados por suficiente número de elos associativos de forma que sua representação fique distante do instinto que a originou. `As vezes esses derivados associativos aparecem como formações substitutivas, retornando como fenômenos somáticos (sintomas) ou sob a forma de pensamentos, como nas neuroses obsessivas.
São esses derivados, em suas inúmeras formas além das aqui citadas, que buscamos achar quando pedimos a um paciente em processo psicanalítico que faça a livre associação.
Ainda uma outra opção para o sistema nervoso lidar com um estímulo instintual não desejado seria direcionar a libido objetal criada por esse instinto para uma meta não sexual, a sublimação. Dessa maneira o instinto escapa da repressão e consegue se manifestar, mas com um desvio de meta. A diferença entre a sublimação e a reversão ao contrário seria que nessa última a meta continua sexual enquanto na sublimação o deixa de ser.
E o Impulse? O nome do desodorante bastante popular na década de 80, psicanaliticamente proposital ou não, se mostrou adequado. Afinal o impulso é o elemento motor do instinto, esse caráter impulsivo é na verdade a essência do instinto. Impulsivo o suficiente para roubar flores e oferecê-las a uma desconhecida. E isso não é Impulse, é pulsão.
Por Adriana Silveira -
O Caso Dora, publicado em 1905, é um dos casos clínicos de Freud mais conhecidos e estudados. O período do tratamento da paciente, a quem é dado o pseudônimo de Dora, deu-se alguns anos antes da publicação do texto, coincidindo com os estudos acerca dos trabalhos do sonho publicados na obra A Interpretação dos Sonhos (1900).
Nesse período, Freud, já afastado da técnica da hipnose e do método catártico para tratamento da histeria, inicia a construção de seu método analítico, que terá como princípio a associação livre, por meio da fala espontânea da paciente, na expressão livre dos pensamentos que lhe vêm à mente. É importante notar, no entanto, que o desenvolvimento de sua técnica estava aí apenas em seu início - daí podermos perceber, na descrição desse caso clínico, algumas dificuldades quanto à percepção e manejo de elementos importantes, que viriam a ser sistematizados e normalizados como práticas do tratamento analítico mais adiante.
É o relato do conteúdo de dois sonhos de Dora que serve como material de investigação para o analista, com vistas à exploração do conteúdo latente (reprimido). Seguindo suas próprias convicções a respeito do surgimento dos sintomas histéricos, Freud interpreta os elementos simbólicos desses sonhos a partir dos desejos sexuais infantis e inconscientes da paciente, relativos às figuras dos pais e do sr. e sra. K. Aliás, é o pai que dá a Freud o contexto familiar e de adoecimento da filha, o qual, para ele, seria fruto de uma construção fantasiosa de assédio do sr. K em relação a ela.
Esse fato pode ter influenciado uma postura pré-concebida do analista acerca do quadro da paciente e, inclusive, acerca da importância atribuída à veracidade ou não das memórias por ela expressas. Em sua investigação, Freud mostra estar interessado na busca da verdade e revelação dos fatos, supostamente encobertos na fala da adolescente. Nesse sentido, dá especial importância às lacunas de sua memória e aos deslocamentos, sobretudo às manifestações físicas de seus transtornos psíquicos (sintomas físicos de doença e atos sintomáticos).
A análise desse quadro clínico tem um percurso bastante especulativo e de defesa da comprovação dos pressupostos do analista-cientista. Isso pode ser notado, ao longo do texto, pela presença excessiva de sua própria voz na interpretação dos eventos relatados por Dora. Essa interpretação é comunicada a ela como verdade irrefutável, por mais que a paciente tenha recusado algumas das conclusões do analista (como a de que ela seria apaixonada pelo sr. K., por exemplo).
A atitude adotada por Freud resultou em “pontos cegos” no tratamento, sobretudo quanto à transferência e seus desdobramentos. Há a percepção desse mecanismo por parte do analista, que nota a transferência para ele de traços presentes na figura do pai de Dora, numa clara tentativa de substituição. Mas o fato é que ele está tão voltado a convencê-la sobre a verdade de suas próprias interpretações que desvia a atenção dos mecanismos da transferência e, consequentemente, não chega a manejá-la a contento.
Se, como o próprio Freud acaba por defender mais tarde em seus ensaios, a transferência é fator essencial e inevitável dentro do “setting” psicanalítico - na medida em que também permite verificar as resistências da paciente - podemos dizer que esse “ponto cego”, no caso Dora, levou a limitações quanto aos possíveis avanços da paciente. Subestimada e silenciada em suas interpretações, não lhe é possível identificar traços da dinâmica de repetição de seus afetos. Tampouco lhe são dadas condições para reconhecer e perlaborar os mecanismos de suas resistências psíquicas.
No posfácio à publicação do caso, Freud reconhece suas limitações no manejo da transferência, cujos sinais, segundo ele, estavam muito nítidos nos sonhos relatados por Dora. Ele atribui essas limitações ao curto período de duração do tratamento, interrompido pela própria paciente em menos de três meses de seu início.
Mas essa visão é apenas uma faísca de luz dentro do “ponto cego”. A postura investigativa de Freud na prática psicanalítica, estabelecida a partir de seus pressupostos acerca dos trabalhos psíquicos das pacientes, leva-o, nesse caso, a tomar fundamentalmente para si a tarefa da interpretação: é ele, o analista, o principal responsável pelas elaborações e sínteses, e não Dora. Diante dessa postura, não poderia haver espaço para a escuta aberta das associações e da interpretação da paciente.
O que pode explicar, em boa parte, sua desistência precoce do tratamento.
Por Lia Stella Paiva Fontenele -
Melanie Klein teorizou que a dinâmica de nossa psiquê acontece num movimento pendular que envolve um conjunto de elementos como relações objetais, fantasias inconscientes, ansiedades, ego, defesas, infância arcaica permeados pelas pulsões de vida e morte. Ela nomeou essa dinâmica de Teoria das Posições.
Posição para Klein é um movimento intrapsíquico que ocorre na infância mais rudimentar, acompanha o sujeito ao longo da vida e é responsável por demarcar sua relação com o objeto. Ela dividiu essas posições em duas: Esquizoparanóide e Depressiva.
Klein se denominava freudiana, ela se aprofundou na Psicanálise do mestre, mas criou suas próprias bases. Foi pioneira na Clínica Analítica Infantil com o uso de atividades lúdicas, jogos infantis e brincadeiras de modo a buscar correlação entre o funcionamento psíquico e as relações de objeto. Ela concentrou seus estudos na infância mais primitiva, tendo como ponto de partida a agressividade, ao contrário da teoria freudiana que teve a sexualidade como tema determinante em seu trabalho. Outro ponto de divergência em relação à teoria freudiana se deu sobre os estágios de maturação biológica do sujeito. Ele postula que esses estágios são acompanhados por fases psicossexuais que têm início no nascimento e se desenvolvem até a fase adulta.
Para Freud, o desenvolvimento psicossexual evolui de forma linear, dimensionado em 5 fases distintas, denominadas: oral, anal, fálica, latência e genital. Com exceção do período de latência que não é um estágio sexual e sim de repressão dos desejos inconscientes, as demais fases são a expressão da libido em diferentes partes do corpo.
Diferente da linearidade de Freud, Klein pensa o modelo de Posição como um movimento de dentro e fora, de entra e sai, de um lado e outro. Funcionamos numa dinâmica oscilante, num movimento pendular que surge no nascimento e nunca mais nos abandona. De um lado a posição depressiva, do outro a paranoide, num constante embate. A diferença é que nesse duelo de forças não existe ser somente isso OU aquilo, as posições não são excludentes, elas coabitam. A ideia é sobreviver ao ser isso E ser aquilo ao mesmo tempo, com razoável equilíbrio. Aceitar que somos seres paradoxais, incoerentes por natureza.
O grande desafio é que, por vezes, o pêndulo tem o deslocamento muito acentuado. A psicanálise entra como um desacelerador do processo, nunca como um freio. Joga luz nas ansiedades e respectivos mecanismos de defesa desencadeados por cada uma das posições.
Em seus estudos sobre a psique infantil, Klein inferiu que o bebê já nasce mergulhado na posição Paranoide como consequência da imaturidade do EGO. Ele permanece nessa posição até os 5 meses de vida, aproximadamente. A 1ª manifestação da consciência é de ansiedade, de medo porque é a 1ª relação do bebê como o mundo externo, representado pelo seio materno ou objeto parcial como conceituou Klein. Essa ansiedade é persecutória, aqui vige a ‘Lei de Talião’: o que eu fizer com esse seio voltará para mim. O bebê neste momento está apenas preocupado em se salvar e salvar o objeto bom. Como o EGO está imaturo e fragmentado, o seio também está. Existe o seio bom e o mau e são excludentes. O bom gratifica e o mau frustra.
Para se defender da persecutoriedade inerente à posição Paranoide, alguns mecanismos são acionados como: idealização, projeção, introjeção, cisão, negação e identificação projetiva. A idealização é uma defesa que leva o objeto para os extremos para torná-lo mais fácil de manejar. Com esse afastamento fica claro qual objeto que deve ser atacado e qual deve ser preservado.
Nos 1os momentos de vida, o EGO tenta guardar a ideia de si mesmo apenas como lugar de satisfação e sentimentos bons. Tensão e desprazer são projetados para objetos externos que então são vistos como persecutórios. Essa projeção assim como a introjeção servem como atenuantes para o instinto de morte. A introjeção de boas sensações e vivências torna possível a formação do EGO. Já a introjeção de experiências ruins tende a cindir o EGO.
A cisão é uma defesa maniqueísta. Divide o bom do mau, o joio do trigo. Essa divisão atua para salvar o sujeito do perigo que ele imagina ser constante. Já a negação é a forma que o EGO encontrou para se relacionar com o objeto mau. Esse mecanismo é muito comum em processos de luto, perdas. A psiquê nega os objetos, despreza-os de forma a não entrar em contato com a dor.
Por último, a identificação projetiva apesar de não ser um conceito original de Klein entra como ponto alto na sua Teoria. Nessa defesa, o bebê coloca uma parte de seu EGO num objeto. Essa projeção pode ser tanto da parte boa como da ruim. Tem como característica ser anal porque projeta numa tentativa de controlar o objeto. Esse controle é o que difere a identificação projetiva da projeção. Essa defesa aumenta a persecutoriedade por saber que uma parte de mim está no outro e me sinto ameaçado.
A posição Depressiva começa a ser desenhada por volta dos 6 meses de vida. Ela tem como característica uma maior aproximação com a realidade. Enquanto a preocupação na Esquizoparanóide é com o objeto parcial, a Depressiva se ocupa do objeto total, ou seja, a mãe. Aqui há a integralização do EGO, anteriormente fragmentado. A ansiedade nessa posição é pesarosa, uma angústia de colocar em perigo o objeto que foi incorporado, teme por arruinar esse objeto amado.
Considerando que a natureza das defesas nessa posição é de reparação, os mecanismos de defesa se apresentam abrandados. A clivagem, projeção e idealização diminuem de intensidade. Nenhum objeto é agudamente bom ou mau. Há uma aproximação desses polos opostos, mas ainda assim existe ataques aos objetos maus porque a ansiedade ainda se faz presente.
Já a introjeção nessa posição é expandida. Quando a criança passa a ter uma maior consciência de si, ela já percebe a mãe como um objeto apartado dele e quer introjeta-lo como forma de se fundir com o objeto amado. Mais importante que preservar o EGO é preservar o objeto bom. Nessa posição a criança aprende a amar e a ter sentimentos de gratidão.