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ENTRE_VIDA_EXISTENCIA_RESENHA_SONO_HARUKI_MURAKAMI Blog Masonry - Results from #96

Entre a vida e a existência – uma resenha do conto “Sono” de Haruki Murakami

Por Fernanda Hisaba -  "É o décimo sétimo dia em que não consigo dormir". Esse é o início do conto “Sono”, de Haruki Murakami, a “pedra de tropeço” que nos faz colocar temporariamente de lado convenções para que possamos ampliar o olhar, nesse caso, para o íntimo, o interior, aquilo que não dorme em cada um de nós. Murakami nos convoca a essa digressão, nos implica a todos, quando não dá nome aos personagens da trama que se desenrola em nossos estômagos.  O autor nos transporta, através do olhar de uma mulher comum, que leva uma vida comum, casada com um homem comum e um filho comum, a um absolutamente incomum mundo insone, que mescla fantasia e realidade e nos desperta para a investigação dos recursos de que dispomos para nos desvencilharmos disso que nos é “comum”. Além disso, a prosa de Murakami é excepcionalmente elegante e poética. Ele utiliza uma linguagem simples e direta para descrever ações cotidianas, mas também usa metáforas e símbolos para transmitir ideias mais profundas e complexas. A protagonista encontra refúgio em uma “incapacidade para dormir”, ou talvez em uma “capacidade para não dormir”, surrupiando ao sono a sedação e colhendo energia de pequenos prazeres esquecidos em sua vida cotidiana: um cálice de conhaque, um pedaço de chocolate, e uma vida “extraconjugal” extraída do romance Anna Karenina, de Tolstoi, como pano de fundo para o não cotidiano que a insônia apresenta. Em resumo, "Sono" é um conto que explora a condição humana de uma maneira única e fascinante. Murakami nos leva em uma jornada emocionante que é ao mesmo tempo surpreendente e profundamente comovente. Se você está procurando uma leitura que o faça refletir sobre a vida e a existência, "Sono" é uma excelente escolha.___________Autor: Haruki MurakamiEditora: Alfaguara
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Existo antes mesmo de pensar

Por Rosângela Silva Caiçara -  Penso, logo existo!  Nesta frase, ou podemos chamar de função, há um embate entre Descartes e Nietzsche sobre a ordem dos fatores. A partir de Bion com sua proposição sobre a teoria do pensar prefiro a função “Existo antes mesmo de pensar” e a ordem destes fatores vai depender do vértice que deixo a escolha de cada leitor. Para que exista o pensamento, Bion pressupõe que deva existir um aparelho capaz de pensar o pensamento e os pensamentos precedem o pensador. Isso mesmo há algo entre o existir e o pensar!  Para Bion o inconsciente é incognoscível e, portanto o movimento do processo analítico se concentra em partir do consciente para o inconsciente.  Assim a consciência humana ganha uma dimensão muito maior propondo uma psicanálise do pensamento que vai na contramão do movimento proposto por Freud.  Para Freud um dos pontos centrais de sua teoria é o complexo de Édipo e ele cria todo um aparato de palavras e proposições que possam abarcar e fundamentar essa teoria. Esse seria um período onde a criança precisa aprender a conciliar a sua busca por satisfação e as exigências morais da sociedade. Esse processo resultaria na consolidação do aparelho psíquico, composto por três instâncias o Id, ego e superego.  O esforço do analista consiste, para Freud, em trazer do inconsciente para o consciente esses pensamentos e afetos que foram reprimidos durante Édipo, aliviando a pressão inconsciente que as insatisfações impõem. Para Bion, a consciência para é binocular, ou seja, consegue perceber o consciente e o inconsciente ao mesmo tempo, um lado da consciência só percebe o consciente e o outro o inconsciente.  Assim a visão binocular dá aos indivíduos a capacidade de estabelecer confrontos e correlações entre distintos vértices de percepção, capacitando-o a passar de um ponto de vista a outro, ampliando as possibilidades do pensamento. A experiência emocional é para Bion o que os cinco sentidos são para Freud. No processo de análise, a partir da exploração das falas do analisando, o analista deve lhe oferecer novas oportunidades de pensar, sonhar, sentir e viver novas experiências emocionais.  A experiência emocional é assim, fator condicionante para que o paciente possa aprender no setting terapêutico. A aprendizagem com a experiência emocional sejam elas boas ou ruins, possibilita um crescimento mental do analisando. Ajudá-lo a enfrentar e viver novas experiências, ainda que dolorosas, desenvolve sua capacidade de mudar sua realidade e aprender com ela. Essa proposição automaticamente implica que o analisando deva ter um bom discernimento entre realidade interna e externa e consequentemente um bom funcionamento do processo de pensar. Assim o aparelho de pensar e o pensamento ganham destaque em Bion, em detrimento da teoria do Id, Ego e Superego de Freud. Para ajuda-lo a fundamentar suas ideias Bion se vale de concepções de Freud e Klein e de sua vasta experiência com psicóticos. Em sua relação com a mãe (seio bom/seio mau) o bebê deve ser capaz de suportar as frustrações. A resiliência vai propiciar um desenvolvimento mental coerente tornando-o capaz de se relacionar com o mundo externo de forma satisfatória, ao mesmo tempo em que vai possibilitar um aparelho de pensar eficiente e consolidado. Por outro lado quando o bebê reage com ódio e inveja desmedida as frustrações, sua capacidade de resiliência fica comprometida, dificultando seu relacionamento com o ambiente externo e a realidade que o cerca. Como o bebê sem resiliência faz um uso mais massivo das identificações projetivas, as funções do aparelho e do processo de pensar não se consolidam e ocorre uma cisão entre o mundo real e o psíquico, podendo levar o indivíduo a um estado psicótico.   Sem um equilíbrio sadio entre as posições esquizoparanóide e depressiva, os pensamentos serão mais difíceis de estruturar, podendo mesmo se desintegrar e serem projetados para fora. Ao superar as fases de depressão os pensamentos vão sofrendo sucessivas transformações e se aprimorando, podendo atingir um nível maior de abstração. Assim o indivíduo consegue atingir a formação de símbolos que substituem as perdas inevitáveis. Assim ele apresenta a gênese, a evolução e propõe normalidades e patologias na função do pensar.  Antes do pensamento existiriam os proto pensamentos, impressões sensoriais e experiências emocionais primitivas, pensamentos vazios, pois estão em uma fase de pré-concepção e não foram preenchidos por uma realização. Os proto pensamentos necessitam de condições mentais suficientes do aparelho para que a pessoa possa efetivamente pensar símbolos, imagens e palavras. Os pensamentos podem resultar em elementos Alfa e Beta. Os Beta que são aqueles que não produzem sentido e por isso devem ser descartados.  Os elementos Alfa são utilizados para dar origem aos pensamentos conscientes, sendo também responsável por enviar ao inconsciente, coisas que não são necessárias e que poderiam sobrecarregar o aparelho. Também existem pensamentos que se formam a nossa revelia e que são relegados ao inconsciente. Ao se expressar o analisando apresenta ao seu analista um material de análise que permite extrair uma grande quantidade abstrações e formas de pensar. Para Bion o material de análise é denominado de função e tudo que derivar dele, ou seja suas variáveis, são denominados fatores. Convém ressaltar que os fatores se relacionam entre si e podem inclusive resultar em novas funções. As funções e seus fatores, são estruturados em conjunto pelo analista e analisando durante a análise. Exemplificando, diante da apresentação do analisando de seus pensamentos, gestos, palavras o analista deriva novos fatores que permanecem ligados a função principal, porém apresentam novos valores, sentidos e possibilita ao analisando novas formas de pensar e sentir. O papel do analista seria então de fomentar o pensar, ajudar o analisando a abstrair. É necessário assim evitar apresentar ao analisando interpretações muito concretas ou prematuras que o impeça de se aprofundar na experiência analítica. Neste sentido o analista é mais um provocador que um interpretador.  O analista deve ser capaz de através das funções alfa apresentadas pelo analisando, abstrair novos elementos e pensamentos, liberando-o das pré-concepções ao qual estava apegado. Para esse trabalho é imprescindível que o analista seja capaz de atuar como continente, ou seja, de acolher e suportar as angústias do analisando. Diferente de Freud e demais teorias psicanalíticas, para Bion, os fatos apresentados pelo analisando (funções e fatores) não tem um significado fixo e constante. É necessário que seus elementos sejam repensados e fundamentados pela experiência individual de cada analisando no setting terapêutico. Os conteúdos apresentados pelos analisando deve permitir novas realizações, ou seja, que a partir de um fato (função) possam ser geradas novas preconcepções e pensamentos (fatores) que possibilitem ao analisando atingir uma simbolização. A realização acontece quando uma experiência emocional traz a pessoa uma nova realidade. O objetivo de todo esse processo de análise seria provocar o que Bion chamou de transformações. É um fenômeno que permite ao analista e analisando adquirir novas formas de pensar mesmo que estas guardem algum grau de invariância, vestígios originais e imutáveis. Mas esse é um assunto para o próximo texto!
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Bion e a sua ideia do pensar

Por Débora Waihrich Matzenbacher -  Diferente de Freud, que entendia a mente humana como um aparelho psíquico, e Klein que acreditava num conceito em que a mente do indivíduo era dividida em posições, Bion, com o avanço e aprofundamento de seus estudos pensava não na existência de um aparato psíquico, mas sim na existência de um pensamento, isto é, de que maneira a mente humana pensa o que pensa.  Freud apresentava uma linha teórica baseada em conceitos de fases fixas fazendo uso das figuras do Ego, Id e Superego, que eram então “responsáveis” pela formação da psique do indivíduo. Freud trabalhava o inconsciente e todo conteúdo reprimido nele existente. Esse inconsciente era compreendido a partir do princípio do prazer que tinha seus impulsos racionalizados pelo princípio da realidade, como apontado por Freud no texto “Os dois princípios do funcionamento mental”. O id, sede das pulsões mais primitivas, é a força que impulsiona o princípio do prazer, que busca uma satisfação instantânea dos impulsos, ou seja, o Id é a sede dos desejos, afetos e pulsões e quer uma recompensa imediata de todas essas necessidades e anseios.  Posteriormente, Klein transformou a mente humana em posições, nominando-as de posição depressiva e posição esquizoparanóide, que se alternavam entre elas, ora numa ora noutra, e que se faziam presentes ao longo da vida do indivíduo. Para ela as relações eram objetais justamente porque em seu entendimento a criança quando nasce não enxerga a mãe como um indivíduo, e sim como um objeto, o seio materno, e é com esse objeto que a criança se relaciona. Klein baseava suas teorias na infância e nas fantasias inconscientes das crianças, que para ela eram atuantes desde o nascimento dessas e de seus contatos com o mundo e objetos externos. De tal modo, observamos que em Freud uma interpretação fazia algo inconsciente se tornar consciente. Da mesma forma ocorria em Klein, mas o objetivo era o de diminuir as ansiedades persecutórias e as fantasias do paciente no consultório, juntamente com a analista. Bion, por sua vez, acredita na ampliação da capacidade do sujeito pensar, o que vem a gerar assim algo desconhecido, fazendo o sujeito conhecer da experiência emocional dentro da própria sessão. Bion se afasta das teorias desenvolvidas por Freud e Klein, que partiam do conceito, de que se deveria interpretar o passado e as fantasias do indivíduo e passa, então, a desenvolver a ideia do pensar, ou seja, como é que o indivíduo pensa, para assim criar possibilidades de uma expansão mental para as ocorrências que virão. Inicialmente, Bion pensa em um aparato para se pensar e em algo que alimente esse aparato, para mais tarde abandonar essa forma de raciocínio e substituí-la pelo termo “pensador”, uma vez que para ele o pensamento já existe, mas não há um pensador para esse pensamento. Na teoria do pensar de Bion, há um resgate das ideias de Freud em os “Dois princípios do funcionamento mental”, no entendimento, e no sentido, de que o indivíduo tem pensamentos iniciais e vazios que pretende sejam satisfeitos, ou seja, uma expectativa de que existe algo que irá aplacar desejos, anseios, dores e angustias. Esse fenômeno Bion chamava de pré-concepção. Quando uma pré-concepção encontra uma realização, a concepção que daí resulta está associada a uma experiência emocional de satisfação. A não satisfação ou a não realização imediata dessas necessidades, angustias e desejos, ou seja, a experimentação da frustração, precisa ser suportada e tolerada, e para que isso ocorra é que o indivíduo começa a desenvolver um aparelho para pensar. É o pensamento que ajuda a segurar a necessidade do prazer e a capacidade de começar de fato a se progredir mentalmente. A análise Bioniana tem como objetivo justamente fazer o sujeito pensar aquilo que ele pensa, ou seja, fazer uma expansão do seu universo mental. Esclarecendo um pouco mais, podemos dizer que se o sujeito encontra algo que o satisfaz, ele não pensa. Agora, quando a frustração “entra em cena”, o não-seio, e toda frustração que é gerada em decorrência desse “não-seio”, vai-se possibilitar a entrada do pensamento no aparelho de pensar. Se o indivíduo não tolera esse “não-seio”, que é sentido como algo muito ruim, a consequência é a perda da habilidade de simbolizar, o que resulta numa falta da capacidade de elaborar os pensamentos. O indivíduo, então, não “dando conta” desse objeto interno ruim, necessita expeli-lo para fora, evacuá-lo, e com isso vai-se destruindo sua realidade e sua capacidade de pensar. Nesse processo, em que as coisas estão acontecendo de uma maneira tão impactante e onde a realização negativa é tamanha, pode surgir o estado da onipotência no indivíduo, onde ele acha que tudo pode e que seus poderes são ilimitados, dessa forma conseguindo ter o controle do que se passa. Como um possível substituto à onipotência, a onisciência aparece limitando a capacidade de pensar do indivíduo, distanciando-o da realidade, que vai ficando comprometida, quando esse mesmo sujeito cria uma verdade e uma realidade que tem como objetivo facilitar seu mundo interno. Esse ato de “evacuar”, acima citado, Bion nomina de elemento Beta, que nada mais são do que fatos não sonhados ou não digeridos e que só tem serventia para a evacuação, justamente porque não podem ser pensados naquele momento. Esses elementos beta são “produtos da mente”, e se relacionam com a parte psicótica da personalidade. Eles surgem quando a função alfa não atua, se perturba, e acaba não operando. No bebê, por exemplo, no relacionamento primário que ele tem com o seio materno, são projetados na mãe todas as suas angústias e medos, sendo que essa comunicação de emoções é feita por meio da Identificação Projetiva, ou seja, o bebê “evacua” porque ele não dá conta daquelas sensações. A mãe, por sua vez, fica na posição continente de estar aberta à receber, interpretar e devolver toda a carga emocional que recebeu, agora modificada e de uma forma mais tolerável para o bebê, a REVERIE MATERNA. A função alfa, atua sobre as impressões e percepções da experiência, e os elementos alfa vão-se originar dessas impressões, se armazenando e ficando retidos na memória para serem utilizados no pensamento, quer dizer, disponíveis para pensar. Quando o indivíduo frustra e tem capacidade para tolerar essa frustração, é a função alfa que vai transmutar essas primeiras emoções e impressões em elementos alfa, que por sua vez, podem ser guardados na memória como vivências, e de um modo geral, são transformados e utilizados nos pensamentos oníricos, nas lembranças e nos sonhos. Constantemente informações e materiais chegam à nossa mente, e quando reunimos e separamos esses elementos, seja falando, expressando, gesticulando e reagindo, estamos fazendo uma transformação. Aos elementos que são “responsáveis pelo aspecto inalterado das transformações”, Bion nomina de invariantes, ou seja, tudo aquilo que guarda alguma correspondência com o aquilo que está se passando naquele momento. A interpretação do analista durante a sessão de análise é uma transformação, que vai elucidar os fenômenos que acontecem entre “os enunciados do próprio analista e do paciente”, para que assim se entenda o progresso da experiência emocional sentida e vivenciada pelos dois. Então, são os fatos da vivência analítica, a realização, que se modificam em interpretação, a representação. Percebemos, diante de todo o exposto, que Bion não cria uma nova teoria sobre a mente humana, mas sim ferramentas de trabalho que possibilitam e ampliam o pensar do indivíduo, que sempre tem algo que é desconhecido e é capaz de ser transformado, mesmo após o término da sessão.
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Como escolher um curso ou formação em psicanálise?

Por Ale Esclapes e Marcelo Moya -  Esse artigo é para você que não tem nenhuma informação sobre essa área, ou que já fez uma pesquisa e não entende as razões de uma Formação em Psicanálise ser oferecida por instituições com investimento total que pode superar R$ 100 mil, e outras com valores que chegam a ser oferecidos em até 12x de R$99,00.  Mas antes disso é preciso compreender um aspecto fundamental: o que é psicanálise e como se forma um psicanalista. Vejamos...I) O que é psicanálise e como se forma um psicanalista? A psicanálise é um método de exploração do Inconsciente criado por Sigmund Freud no início do século passado. Desde então ficou estabelecido que a formação de novos analistas seria feita por instituições destinadas a esse fim, e que seguissem o chamado tripé psicanalítico, a saber, análise pessoal, teoria e supervisão; essa formação deve ser contínua, ou seja, o analista sempre se sustentará neste tripé psicanalítico através de uma instituição. Até agora o leitor deve guardar estes dois conceitos: Instituições e Tripé Psicanalítico.  As Instituições são organizações fundadas especificamente para a transmissão ou ensino da psicanálise para os futuros analistas e para os já formados permanecerem no tripé psicanalítico. Outro ponto importante a ressaltar, é que ao longo dos anos foram surgindo “formas” distintas de se exercer a psicanálise, com o mesmo objetivo (a exploração do inconsciente), mas com diferenças metodológicas e epistemológicas. Embora as escolas psicanalíticas sejam em essência, freudianas, existe uma diversidade de métodos. Um exemplo disso é Escola Inglesa ou Britânica, com três diferentes formas de se conduzir uma análise: a kleiniana, a winnicottiana e a bioniana. Todas são válidas, e requer um treinamento específico para cada uma delas. Existe também a Escola Francesa, Uruguaia, Americana, entre outras. Cada uma dessas Escolas tem formas diferentes de conduzir uma análise e o processo de formação, logo, um tripé próprio. Quanto a parte teórica, cada Escola também vai ter um recorte de certos autores que se complementam para dar coerência e consistência na formação. Não se aprofunda em Bion, por exemplo, quem estuda a Escola Francesa (onde dificilmente se estudará Bion), e na Escola Inglesa praticamente não se estuda Lacan (Escola Francesa). Isso ocorre por um motivo muito simples:  durante o período de uma formação não há tempo suficiente para se estudar adequadamente diversos autores ao mesmo tempo. Uma leitura adequada de um autor específico exigirá muitas horas de esforço e pode demorar anos. É por essa, entre outras razões, que a psicanálise não é uma profissão regulamentada*, pois cada Instituição mantém seus próprios critérios, o que não torna possível estabelecer uma padronização a exemplo do que ocorre nos cursos superiores das universidades. Outro ponto importante é que o tempo do Inconsciente não é cronológico (do relógio). Não se pode precisar exatamente quando um aluno/candidato terá condições analíticas para o atendimento, nem quando seu treinamento estará completo. Isso não depende da Instituição, mas do Inconsciente deste candidato/aluno. Uns demoram mais, outros menos, alguns chegam prontos nesse quesito e outros nunca estarão preparados. É um fator imponderável, onde o próprio aluno, desde que não sofra de arrogância e/ou onipotência graves, conseguirá perceber por si mesmo se está ou não preparado. Mais um motivo pelo qual a Formação não pode ser padronizada ou regulamentada como uma graduação acadêmica. Outro aspecto de suma importância é que a psicanálise dispensa a necessidade de “conselhos profissionais de classe” ou emissão de “carteirinhas de psicanalista” como é no caso de médicos, dentistas, psicólogos, etc. Os psicanalistas são reconhecidos pelas Instituições onde estão ligados desde a formação. É por isso que sempre logo após o nome de um psicanalista sério, constará a Instituição que ele pertence, atua, contribui e se mantém no tripé.II) Algumas questões éticas importantes sobre a formação em psicanálise a) A Instituição fornece além da Formação/Curso, um processo de ensino continuado para que o futuro analista se mantenha no tripé? Como os métodos de formação entre as escolas são distintos, é bastante improvável que um psicanalista formado por uma determinada instituição seja aceito para cursar uma formação continuada em outra instituição. Além do mais, é uma instituição “viva” onde seus participantes se ajudam mutuamente e promovem o crescimento do grupo? São oferecidos cursos, grupos de estudos, jornadas, colóquios, publicações, processos de supervisão? São alguns dos critérios importantes na hora de escolher onde se pretende fazer uma formação em psicanálise b) E quanto a parte da análise pessoal e supervisão do tripé? Um ponto que merece devida atenção é que certas instituições até dizem que seguem o tripé, mas na verdade o que elas acabam fornecendo são apostilas e aulas gravadas, deixando a cargo do aluno a busca do analista e do supervisor. Aqui surgem algumas complicações, pois você pode simplesmente escolher um profissional com formação duvidosa como analista ou supervisor. Um analista formado durante 3 a 5 anos em uma Instituição idônea certamente possui um preparo de qualidade bastante superior se comparado com quem simplesmente se aventurou em algum curso de psicanálise de seis meses ou um ano. Aqui entra um outro tema: o preço de um bom profissional formado em uma boa Instituição não é o mesmo do que se aventurou em um curso superficial. E mais ainda, sendo um supervisor sério do ponto de vista ético, não irá aceitar treinar um aluno que se aventurou em um curso de tão curta duração. Também é comum que um supervisor só aceite alunos da mesma Instituição, e portanto, a tendência nos cursos de curta duração é que o aluno tenha muita dificuldade de conseguir fazer análise ou supervisão de qualidade, influenciando diretamente no nível de competência do futuro profissional. Considerando que se consiga fazer uma análise e supervisão de qualidade, mas existe a questão da coerência entre o que se estuda teoricamente e os métodos de análise a supervisão. Pode ser que o projeto pedagógico foi baseado em Lacan, a análise pessoal tenha sido kleiniana e a supervisão bioniana. Que ótimo, podemos imaginar, ter contato com todas as vertentes, mas isso é falso, e não faz mais que criar confusão na construção do método do aprendiz. Nada impede que com o passar do tempo na carreira seja possível ampliar o leque de autores estudados, mas durante a formação especificamente isso é muito prejudicial, dando a impressão de se consumir produtos de prateleira, onde se escolhe o que quer conforme a conveniência, o que deteriora o método psicanalítico de dentro para fora. Por isso a importância de se escolher um profissional da Instituição onde se pretende iniciar a formação. E qual será o investimento necessário para uma análise e supervisão de qualidade? Isso deve ser levado em consideração, pois você pode estar adquirindo apenas um amontoado de apostilas e muita dor de cabeça. É aqui que entra o papel idôneo da Instituição psicanalítica, que implica em poder garantir aos seus candidatos a coerência mínima entre a teoria, análise e supervisão. c) E quanto a teoria? Estuda-se de forma profunda uma determinada vertente da psicanálise ou se passeia por várias escolas? O tempo da formação é escasso, o aluno terá a vida toda para conhecer diversos autores – o problema central não é quantos autores você conhece, mas com qual profundidade conhece. É preciso ter em mente o quão é essencial se aprofundar nos autores estudados. E um outro ponto: se tais autores são estudados por apostilas, vídeos e textos que versam sobre eles, ou se estuda o autor na fonte através de suas próprias obras. d) E em relação a carga horária? Existem cursos que informam cargas horárias extensas, mas que no fundo não representam nada, não são aulas de fato. A carga horária anunciada inclui as aulas ao vivo por videoconferência com interação entre os colegas em um grupo? Evidentemente que existe o tempo de preparo por parte do aluno para uma aula ao vivo, para realizar trabalhos, atividades avaliativa. O importante é avaliar o quanto da carga horária se refere a atividades extraclasse e quanto se refere a aulas ao vivo.  Aqui é preciso ter muito cuidado, considerando que ‘o papel aceita tudo’. Repetindo a pergunta mais importante: quanto tempo da carga horária do curso se referem às aulas ao vivo por videoconferência com interação entre os colegas em um grupo? Nessa hora você percebe que muitos lugares sequer deveriam ser chamados de Instituições Psicanalíticas, pois vendem apenas apostilas e videoaulas, e a palavra tripé aparece somente como forma de dar alguma legitimidade, ou simplesmente como argumento de marketing para se vender o curso. e) E do ponto de vista financeiro, o que é importante analisar? Quais as atividades estão inclusas no valor da mensalidade e quais são pagas à parte? Grupos de Estudos? Processo de Supervisão? Atividades Suplementares? Quantas pessoas por grupo? (em relação as atividades ao vivo por videoconferência). Algumas instituições cobram valores de mensalidade mais baratas, mas as atividades extras acabam custando bem mais caro do que a mensalidade proposta. É importante levar em consideração o custo-benefício do que será efetivamente cobrado pela Instituição formadora. Um lugar que oferece somente curso apostilado com videoaula gravada de baixo e nenhum custo e que apenas disponibiliza automaticamente o acesso a este conteúdo, não irá cobrar uma mensalidade semelhante à de uma outra instituição que necessita investir em diversos profissionais para condução didática dos grupos de estudos semanais ao vivo com turmas reduzidas e de outros grupos complementares à formação. Obviamente que não vai ser o mesmo valor. Por essa razão as aulas ao vivo impactam no valor do curso/formação.   III) Finalizando: a responsabilidade ética Eis alguns dos critérios básicos na hora de escolher uma Instituição para estudar psicanálise. E como toda escolha, envolve também responsabilidade ética. Ao final, cada um deve ser responsável eticamente pelo caminho que se pretende trilhar para se tornar um bom profissional, e consequentemente pela qualidade do serviço que pretende prestar ao seu futuro paciente. É ingênuo acreditar que um curso de alguns poucos meses dará um preparo semelhante à de uma formação mais extensa e estruturada. E se você quer ser responsável por cuidar do psiquismo de um ser humano, essa responsabilidade é sua, ela é indelegável – é o que chamamos da ética do desejo e da liberdade. Esperamos ter ajudado a se cercar de alguns parâmetros antes de escolher uma formação em psicanálise. E fica o convite de visitar a página de nosso Programa de Formação em Psicanálise da EPP e das atividades do Instituto Ékatus. Veja em detalhes tudo que é oferecido, compare, e tome sua decisão.  *O ofício da psicanálise no Brasil é reconhecido pelo Ministério do Trabalho através da CBO 2515/50, Portaria 397 de 09/10/02.
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Entre anjos e demônios

Por Adriane Martins Watanabe -  “Nem todo anjo é bom e nem todo demônio é mau... ás vezes os demônios são mais sinceros em suas maldades" (autor desconhecido). Freud nos traz em “Inibição, Sintoma e Ansiedade” (1926), um texto de grande importância, pois representa uma virada em sua obra, no que diz respeito a teoria da ansiedade e funcionamento do Ego. Em seus escritos anteriores, a ansiedade seria causada pelo recalcamento, onde a representação e o afeto estariam ligadas. O recalcamento separaria o afeto da representação, e este afeto desligado se transformaria em ansiedade. Concluindo o afeto desligado seria a angústia, portanto o recalcamento seria a causa da angústia. Neste texto porém Freud nos propõe, que poderiam existir experiências de ansiedade, como o trauma do nascimento ou um perigo externo as quais seriam estas produtoras de ansiedade/angústia., assim neste texto Freud nos traz que a partir dessas experiências o Ego pode pegar essa angústia ou afluxo de ansiedade e usar isso como sinal para disparar o recalcamento, portanto aqui temos uma inversão na teoria da angústia descrita anteriormente. Resumindo o Ego por ser parte do ID modificado, apresenta a angústia para os processos inconsciente, para produzir o recalcamento, o Ego toma parte da angústia proveniente dessas experiências físicas, reais e externas como o nascimento, e também traumas pelos quais ele passou e apresenta como sinal para o inconsciente disparar o recalcamento. Freud nos traz assim que a pulsão de morte não seria algo tão perigoso, e que o Ego poderia controlar as coisas, e teria certo efeito sobre a ansiedade sendo capaz de organizar suas funções. À partir deste texto a Psicanálise encontra uma bifurcação, a angústia não seria algo de uma patologia, mas sim um sinal forte de perigo que algo está para ocorrer. Melanie Klein, atendendo crianças muito pequenas, pode inferir aspectos do funcionamento mental muito primitivos ainda nos primeiros meses e anos de vida, podendo assim contribuir com a teoria pulsional de conflitos e desejos inconscientes reprimidos de Freud, não negando-a, mas acrescentando uma nova visão que introduz a teoria das relações de objetos, percebendo assim que dependendo do desenvolvimento mental primitivo, o indivíduo apresenta um tipo de relação de objeto, um determinado tipo de defesa para lidar com angústia e também um tipo de angústias arcaicas diferentes, dependendo do local ou posição em que esse indivíduo se encontre no seu desenvolvimento. Ela acreditava que a pulsão de morte seria inata e acompanharia o indivíduo desde o nascimento, acreditava que essas pulsões de morte e de vida marcariam sua existência pelo constante conflito entre elas, nos traz a ideia da realidade psíquica constituída por um universo de objetos internos relacionados entre si através de fantasias inconscientes. Uma das maiores contribuições de Melanie Klein, foi sua conceituação do desenvolvimento psíquico diferente de Freud, sugerindo a noção de Posição, as quais revolucionaram as teorias psicanalíticas. As posições são períodos normais do desenvolvimento da vida psíquica de todas as crianças, continuando a exercer influencia em toda a vida do indivíduo, portanto estas posições estão presentes pelo resto da vida, alternando-se em função do contexto vivido, assim o psiquismo teria um funcionamento dinâmico entre as posições, diferentemente das fases psicossexuais do desenvolvimento de Freud (fase oral, anal, fálica, genital ) (1905), as quais teriam um elemento mais estático. Denominando esse tipo de funcionamento primitivo composto por relações de objetos parciais, angustia persecutória, e mecanismos de defesa primitivos como identificação projetiva, negação, cisão (fragmentação do ego), idealização, como Posição Esquizoparanóide (PS). Klein localiza a Posição Esquizoparanóide entre o nascimento e o terceiro ou quarto mês de vida do bebê, período em que os processos de cisão do seio, em seio bom (gratificador) e seio mau (frustrador ) estão em seu ponto máximo, assim como os impulsos destrutivos, o bebê possui impulsos sádicos não só contra o seio da mãe, mas também contra o interior de seu corpo, com desejos de esvaziá-los e destruí-los de forma sádica. Segundo Klein o mundo do bebê é repleto por fantasia inconscientes e ansiedades arcaicas, figuras boas e más, sendo que desde o nascimento, o bebê está exposto a pulsão de vida e morte que são desempenhadas por impulsos libidinais e agressivos. Klein analisa e interpreta a ansiedade como incentivadora e também podendo ser inibidora, devido aos mecanismos de defesa, impedindo a criança de desenvolver suas capacidades emocionais e cognitivas. A primeira ansiedade experimentada teria origem em fontes internas e externas, segundo Klein esta viriam da experiência do nascimento, pois o bebê experimentaria dor e desconforto advindos dessa experiência, vivenciando como um ataque realizado por objetos perseguidores, assim o bebê precisaria projetar os impulsos destrutivos sobre o objeto externo, gerando um ciclo contínuo de projeção e medo de aniquilamento (ansiedade persecutória). À partir da elaboração e superação destes sentimentos emerge a passagem da Posição Esquizoparanóide para o que Klein denominou Posição Depressiva (D). Na qual o sujeito percebe uma relação de objeto total, sente a angústia depressiva e apresenta mecanismos de defesa mais desenvolvidos como a reparação, uma maior integração do ego e do objeto externo (mãe/seio), sentimentos afetivos e defesas relativas a uma possível perda do objeto amado em decorrência dos ataques da posição anterior (reparação), este seria o ponto central do desenvolvimento de cada indivíduo. Em 1961 Klein surpreende a comunidade psicanalítica com seu conceito sobre a inveja e seus desdobramentos na personalidade do indivíduo. Assim nos traz que a inveja é a mais radical das manifestações dos impulsos destrutivos, pois leva ao ataque e destruição dos objetos bons cuja introjeção seria a base para uma vida psíquica saudável. A inveja é descrita como um sentimento raivoso para com objeto que possui e desfruta de algo desejável, através das quais incentiva ações do bebê em destruir esse objeto. Klein aponta que a inveja é uma emoção muito arcaica que remonta ao nascimento, sendo esta a inveja direcionada aquela fonte criadora de bem-estar, daquele seio farto através do qual o bebê depende,assim quando este não é gratificado de imediato, surge o sentimento de inveja. Para teoria Kleiniana os aspectos destrutivos estão sempre presentes, os impulsos destrutivos operam desde o início da vida, onde o bebê coloca partes más de si mesmo, na mãe e no peito para estragar e destruir o que há de bom. A inveja constitui uma expressão da pulsão de morte projetada no seio e na mãe. Visando danificar a bondade do objeto, para remover a fonte de sentimentos invejosos, interferindo no objeto bom, tornando-o um perseguidor, o bebê sente que foi privado e a gratificação foi guardada para uso próprio do seio que causou a frustração. Podemos citar a voracidade como uma maneira agressiva de representar a inveja, esta causa ansiedade, criando defesas no inconsciente, gerando medo no indivíduo de ser destruído também, portanto temos aqui a ansiedade persecutória, assim a inveja é um fator determinante na constituição da Posição Esquizoparanóide. Como caminho a criança precisará introjetar o objeto bom, o qual será fundamento para apreciação do objeto bom nos outros e em si mesmo, podendo assim suportar a inveja, o ódio e ressentimento. O objeto bom é capaz de ser recuperado e isso fornece a base da estabilidade de um Ego forte. Quando o Ego começa a tolerar seus próprios desejos de destruição, o bebê consegue ter uma visão mais realista da mãe e a notar que ela é um ser independente dele, podendo ser tanto boa quanto má, com isso vai surgindo assim o medo de perder a mãe, e isso faz com que o bebê deseje proteger essa mãe, inclusive dos próprios desejos de destruição, percebendo este ser incapaz, desenvolve sentimentos de culpa pelos desejos destrutivos que o bebê sentiu pela mãe e que eram encarnados pelo seio mau, segundo Klein a criança passa a sentir desejos de reparação e assim desenvolve o sentimento de empatia por ela, a mãe. Um dos principais derivados da capacidade de amar é o sentimento de gratidão, fator constituinte na Posição Depressiva descrito por Klein. Essas experiências tornam possível o sentimento de unidade com outra pessoa e também de ser compreendido, o que é essencial para as relações amorosas e de amizade durante toda vida do indivíduo.
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Um pensamento em busca de um pensador

Por Débora Waihrich Matzenbacher -  A partir de Bion a psicanálise toma um rumo diferente do modelo proposto por Freud e Klein. Bion aponta um vértice diverso na forma de pensar e trabalhar o psíquico daqueles apresentados por seus antecessores, sendo que um ponto fundamental e de suma importância, e que vem a corroborar com tal afirmação, é que Bion não criou teorias, e sim formas de pensar. Com Freud e Klein a ideia era a de uma psicanálise médica, enquanto que a datar de Bion ocorre uma mudança da medicina à psicanálise, passando esse último a adotar então uma epistemologia não-causal, não dando importância para o que aconteceu no passado do paciente, e sim dando relevância e destaque para o que está acontecendo no “aqui e agora”, se aproximando assim, mais da realidade do indivíduo naquele momento. Freud, em seus estudos e em sua clínica, trabalhava o inconsciente do paciente acreditando que os desejos e as angustias provinham de suas experiências mais primitivas e que os sintomas surgiam em razão do retorno de alguma coisa que está no inconsciente do indivíduo e que foi recalcado. A meta era lembrar, ou seja, trazer o reprimido para a consciência. As teorias de Freud tinham como base fundamental a questão das pulsões e da sexualidade. Afirmava que o Complexo de Édipo era vivenciado por volta dos 3 ou 5 anos de idade, que é quando a criança se encontra na fase fálica, quer dizer, é nesse período da vida da criança que a organização genital infantil vai acontecer, assegurando ainda, que a “passagem” bem sucedida desse indivíduo pelo Complexo de Édipo é que vai estabelecer a sua constituição e a estrutura psíquica, sendo o Superego o “herdeiro” desse Complexo. Na sequência Klein, aprimorando e sofisticando os conceitos de Freud, apontou para a ideia de trabalhar com as fantasias inconscientes já na infância do indivíduo através do brincar e da observação da capacidade simbólica da criança. Acreditava que desde o nascimento essas fantasias já se faziam presentes e atuantes na vida da criança. Assinalava ser de extrema importância as relações objetais, em razão da criança, ao nascer, enxergar e sentir a mãe, na verdade o seio materno, como um objeto, bom ou mau, e ser com esse seio, esse objeto, que ela mantêm uma relação. Apontava ser indispensável a análise da ansiedade e da culpa por acreditar que se essas fossem bem trabalhadas teriam como reflexo uma maior facilidade no desenvolvimento psíquico e na maneira como a criança se relacionava. Assinalava a existência de um sentimento de inveja presente desde o começo da vida da criança, assim como também um Superego forte, influente, atuante e bem mais primitivo daquele apresentado por Freud. Klein, desenvolveu o conceito de posições, a esquizoparanóide e a depressiva, que se alternam entre elas, e que podem existir em simultâneo. Dentro do entendimento de Klein o indivíduo atua sob as duas posições ao longo da vida. Apontou, ainda, um enfoque diferente em relação ao Complexo de Édipo, pois em sua teoria esse processo já tinha início nos primeiros anos de vida da criança. Destaque, ainda, para a introdução do termo e conceito de “identificação projetiva”, que passou a assumir um papel de extrema relevância no trabalho da clínica. Quando começamos então, a transitar pelas ideias de Bion, percebemos, como já citado acima, que seu entendimento e método de trabalho não é fundamentado em teorias e sim, em ferramentas que possibilitem alcançar e trabalhar, de forma eficiente, a experiência emocional experimentada e vivida pelo paciente. Portanto, Bion sai da teoria da transferência e “cai” na teoria das transformações. Desse modo, passa-se da ideia do concreto, onde todos os sintomas tem uma causa, para uma psicanálise “do pensar e do conhecer, de tentar se aproximar da realidade”. Bion, muitas vezes, faz uso das ideias de Freud e Klein, mas de uma forma diferente, dando destaque para um pensamento mais abstrato, uma expansão mental, ou seja, um aumento da capacidade de pensar do paciente. Bion entendia que as teorias psicanalíticas eram excessivamente concretas, não tendo uma flexibilidade que permitisse a formulação de abstrações, para ele “o primeiro requisito é formular uma abstração para representar a realização que teorias já existentes visam descrever.” Bion percebia que a partir do pensar, era possível modificar a realidade ou fugir dela, e que é a capacidade de suportar as frustrações que nos leva a pensar, e que inclusive é esse pensar que nos dá habilidade para modificar ou mudar a realidade psíquica, ou seja, o pensar vai surgir como um recurso para “lidar com a frustração”. Quando então, o sujeito não dá conta da frustração, ele não consegue pensar. Em relação ao trabalho do analista, Bion dava ênfase e era categórico ao afirmar que esse deveria  abster-se de qualquer tipo de desejo e memória, enaltecendo a importância da observação e da intuição, requisitos estes que entendia como indispensáveis para uma análise com resultado efetivo e satisfatório. Bion propõe que o analista observe, abstraia, e a partir dessa abstração ele devolva ao paciente uma interpretação daquilo que foi observado. Entendia, ainda, que analista e analisando deveriam estar ligados emocionalmente, em uma relação íntima, onde os dois trabalham e encaram juntos as emoções, sentimentos e verdades do paciente. Assim, Bion traz a teoria do pensar para dentro do setting analítico, entendendo que todo indivíduo tem, a princípio, recursos e capacidades para desenvolver e ampliar o pensar, afirmando que “há sempre um pensamento em busca de um pensador”.
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Aproximações entre Bion e Sócrates - só sei que nada sei!

Por Wagner Alledo -  Em “A Apologia de Sócrates”, Platão descreve o julgamento do “pai da filosofia” no tribunal de Atenas, acusado de impiedade e de corromper a juventude, crimes pelos quais acabou sendo condenado à pena de morte. Em determinado momento, o juiz questiona o filósofo sobre a opção de vida que o incriminou. Sócrates explica: Certa vez, meu amigo Querefonte foi até o Oráculo de Delfos (local de peregrinação no Templo de Apolo, próximo a Atenas, mais importante centro religioso da época) e recebeu do Oráculo a seguinte informação: Sócrates é o mais sábio de todos os homens! Não entendi, afinal tinha absoluta certeza de que não era o mais sábio. Intrigado, busquei as pessoas mais sábias que conhecia em cada área do conhecimento e passei a fazer perguntas: ao juiz sobre as leis, aos poetas sobre a poesia, aos médicos sobre a medicina… Àmedida que eu os interrogava, eles me davam definições. Quando os interrogava sobre essas definições, eles não sabiam mais o que responder. Sentiam-se detentores de um saber que na verdade não sabiam e isso os encheu de ódio contra mim. Concluo que talvez o que haja de mais sábio em mim seja o fato de que eles acham que sabem, mas não sabem. Já eu, reconheço que de fato nada sei. A sabedoria não está no saber. Mas no saber que não se sabe. Esse episódio, descrito acima com liberdade retórica (não se trata de uma transcrição fidedigna do que teria sido o discurso de Sócrates, mas uma adaptação livre baseada nas descrições de Platão), que remonta aos primórdios da filosofia, fundamenta o conceito da sabedoria socrática, simplificada através de 5 tópicos fundamentais: (1) Investigação, (2) Amor pelo Saber, (3) Contínua Interrogação e (5) Conhecimento de Si. Juntos, eles representam a conhecida expressão: só sei que nada sei. O caminho da psicanálise após as contribuições de Wilfred Bion possui raízes socráticas. Mas para fundamentar essa conclusão, se faz necessário remontar aos primórdios em uma resumida caminhada pela evolução dos conceitos psicanalíticos passando por Freud e Melanie Klein. Primeiro, importante reforçar, que o surgimento da psicanálise, com Freud, se dá em função das limitações da medicina. Quando os sintomas dos pacientes não podiam mais ser explicados pelos exames corporais ou laboratoriais, causas emocionais passaram a ser levadas em consideração e a medicina busca meios científicos que permitissem diagnosticar doenças a partir da análise das emoções. Freud, que era médico, inicia seus estudos e cria a psicanálise fundamentado no conceito de que os desejos e angústias humanas relacionam-se com experiências remotas que precisam ser investigadas. Conclui que sintomas são reflexos de emoções e experiências recalcadas, escondidas em algum lugar do inconsciente, e teoriza as fases do desenvolvimento sexual humano, a importância do Complexo de Édipo e a divisão do aparelho psíquico em Id, Ego e Superego. A exploração teórica de Freud serviu de base para o desenvolvimento da psicanálise e a sua clínica carrega uma lógica similar à lógica médica: busca-se a origem de um sintoma, que deve ser investigado e cujo esclarecimento atua na cura do sintoma. O analista busca respostas e sabe o que procurar (emoções recalcadas) e onde procurar (Complexo de Édipo). Outra figura fundamental no desenvolvimento da psicanálise foi Melanie Klein, que evoluiu os conceitos de Freud a partir da análise de crianças e antecipou o Complexo de Édipo para as fases mais iniciais do desenvolvimento humano. Ela propõe também a lógica das posições persecutória e depressiva e introduz o conceito de identificação projetiva, entre outros. A sua clínica também busca respostas no inconsciente, uma retomada ao período infantil e aos primórdios do desenvolvimento psíquico e a relação com objetos. Ainda com objetivo de aliviar sintomas e curar. A lógica médica impera até então. O médico tradicional, ao receber um paciente com manifestações somáticas, utiliza seu (1) olhar clínico, (2) observa o corpo, (3) aprofunda essa observação através de exames e após a (4) análise dos resultados obtidos apresenta o (5) diagnóstico e o (6) tratamento que vai levar à cura. As respostas para a cura estão no corpo. O psicanalista freudiano ou kleiniano recebe o paciente com manifestações somáticas, (1) utiliza seu olhar clínico, (2) observa, (3) escuta, (4) aprofunda essa observação através da busca no inconsciente e após a (5) análise dos resultados obtidos (6) atua nas causas em busca da cura. As respostas para a cura estão no inconsciente. Há uma aproximação, tomadas as devidas proporções, nas duas atividades (médica e psicanalítica): (1) sintoma, (2) exploração/busca, (3) compreensão do problema, (4) diagnóstico, (5) tratamento e (6) cura. Wilfred Bion expande as possibilidades quando, em resumo, propõe uma psicanálise que não busca diagnósticos ou esclarecimentos do passado, mas amplia perspectivas e sugere diferentes olhares para o mesmo acontecimento psíquico, conscientes ou inconscientes, numa exploração que permita ao paciente encontrar novos conhecimentos de si. A psicanálise Bioniana não direciona a atenção do analista para fatos pré-determinados (Complexo de Édipo, Castração etc.), mas a um processo de descobertas e transformações, de questionamentos e expansão do conhecimento. Não se busca no inconsciente algo em especial, mas tudo aquilo que se apresenta é explorado para que se torne conhecido. Em analogia ao pensamento Socrático, a psicanálise proposta por Bion (1) Investiga, e através dessa investigação amplia conhecimentos, o que poderia ser descrito também como (2) Amor pelo Saber. A exploração é infinita, portanto há uma (3) Contínua Interrogação por tudo, e à medida que esse processo se desenvolve, aumenta o (5) Conhecimento de Si, e com isso, aumenta também a plenitude e a capacidade de gozar a vida. Sem certezas ou fórmulas. À luz da humildade que permite a constatação de que “só sei… que nada sei”.
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Da teoria para o infinito

Por Fernanda Dias Belo -  O pensamento filosófico foi o motor que desafiou a humanidade a sair da caverna platônica, superar o medo infligido pela cultura e pela religião, e buscar construir um saber racional e sistemático. E foi a mesma filosofia, que mais tarde, influenciou fortemente na formulação da teoria Freudiana, que surge propondo um novo olhar, e uma nova metodologia para tratar os então “doentes dos nervos”, que desafiavam o saber médico, com sua cadeia de sintomas, e o escasso retorno das terapêuticas aplicadas. De origem médica, foi dentro do pensamento e da lógica da medicina, que a psicanálise modelou suas primeiras balizas. Logo, no seu vocabulário teórico Freud faz uso de dois termos correntes; sintoma e cura. Que fundamentam, e se justificam na ideia inicial da psicanálise; solucionar os males físicos manifesto pelas histéricas. Emmy Von N, Dora, Elisabeth Von R. Estão entre os casos clínicos que demonstram o direcionamento da técnica empregada por Freud, que foi sendo desenvolvida em concomitância com suas formulações teóricas, almejando encontrar a causa dos sintomas e solucionar a doença. Indubitavelmente, a epistemologia de Freud, admite uma dinâmica psíquica de caráter objetivo, ou seja, daquilo que de fato existe, e afeta a todos os indivíduos. O complexo de édipo por exemplo, é um dos componentes das fases psicossexuais do desenvolvimento infantil, pela qual, atravessam todas crianças. Assim como a castração. Desse modo, são os recursos empregados pelo ego, e sua capacidade para tolerar as frustrações inerentes a tais processos e etapas, que determinam a constituição e a qualidade mental e relacional da vida adulta. Portanto, a construção a ser feita e a trajetória a ser seguida pela psicanálise de abordagem Freudiana, estão dadas e são conhecidas a priori. Assume-se então a premissa, que existe de fato um enlace de causa e efeito. Nesse sentido, a teoria de Melanie Klein apresentou consonância com as ideias de Freud. Para Klein, os conflitos que posteriormente desencadeiam instabilidade mental, se iniciam em uma fase prematura da vida, e é intrínseco a condição humana. De acordo com suas pesquisas, é na cesura do nascimento que o ego rudimentar experimenta pela primeira vez, sensações corpóreas até então desconhecidas - no ciclo da vida intrauterino - e que lhe causam pavor. Como consequência, umasérie de defesas psíquicas entram em atividade, na tentativa de suportar as ansiedades que inundam o bebê. A primeira ansiedade segundo Klein, é de caráter destrutivo. Na posição esquizoparanóide, o bebê dirige ao objeto primordial - seio materno - ataques sádicos fantasiando absorver deste, as qualidades das quais depende para manter sua vida e evitar frustrações. Alguns meses mais tarde, com a entrada na posição depressiva - e o ingresso da culpa - as ansiedades se deslocam para o medo de perder o objeto amado que danificou, e para a necessidade de repará-lo. Sendo assim, a técnica de Klein tem por finalidade elucidar fantasias arcaicas e onipotentes que existem, e causam ansiedades de qualidade patológica. Wilfred Bion toma para seu pensar analítico, uma variedade de ideias que descolam a psicanálise da causalidade médica. Em uma leitura superficial, as ideias desse autor, podem soar incompatível com as premissas da psicanálise, de fato, faz-se necessário algum nível de aprofundamento na sua obra, para compreender a fertilidade do que ele propõe. Inspirado na filosofia de Emmanuel Kant, Bion emprega nas suas conjecturas a ideia de O. Pois, o processo analítico deixa de ter um alvo, ou objetivo pré-definido, e passa a ser uma técnica exploratória do desconhecido. Isenta de direcionamento, ou fórmula de natureza universal - como pressupõem as teorias. Portanto, nesse modelo, pode-se considerar entre outras coisas, que a teoria ocupa o lugar de suplemento à intuição analítica, e o seu não-lugar é o de molde e/ou categorização de doença mental. Privilegiando a abstração, e sobretudo, a experiência emocional que vigora durante a sessão de análise, Bion atribui ao que ele nomeou de função alfa a capacidade de desenvolvimento e expansão da mente, através do pensar. E uma possível falha em tal função, acarretaria em sua concepção, em “distúrbios de pensamento”. Sendo assim, a ideia de “pensar pensamentos” proposta por Bion, à primeira vista, pode parecer redundante. Mas foi exatamente isso, que fizeram os primeiros filósofos, que ousaram sair de suas cavernas.
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O pensar e suas infinitas transformações

Por Débora Waihrich Matzenbacher -  Existe um linha de estudos, teorias e conceitos, que nos orienta sobre o modelo médico que Freud adotava, a teoria da transferência, em relação àquele que Bion apresentou, baseado e fundamentado na observação, abstração, e na comunicação, a teoria das transformações. Para Freud, basicamente, a característica principal da transferência é que ela traz algo do passado, para uma relação presente, ou seja, algo do passado está se transferindo para o presente na figura de outra pessoa e sob circunstâncias diferentes. Pode-se acrescentar, tranquilamente, que a transferência, “são novas edições e reproduções dos impulsos e fantasias, que são despertados e tornados conscientes, à medida que a análise avança, com a substituição de uma pessoa do passado, pela pessoa do médico.” No entendimento Freudiano, quando o indivíduo se propõe a fazer uma análise, ele irá relembrar inúmeras situações da sua infância, assim como desejos e acontecimentos que haviam sido esquecidos e recalcados. Essas lembranças, na verdade, se dão através da atuação do paciente, quando ele repete algo inconsciente, na figura do analista, sem saber exatamente o que se repete, sendo a própria resistência do paciente uma parcela dessa repetição. Assim, portanto, não é algo que ele lembre, mas sim que ele reproduz, e o que Freud entendia como sendo o processo de transferência do paciente, e essa última, consequentemente, o principal remédio para diminuir o vício do paciente à repetição. Subsequente à isso, ocorre a elaboração, isto é, a busca do paciente em perceber a origem dessas repetições e a partir disso “elaborar” de uma maneira diferente aquele conteúdo que estava reprimido. Pode-se acrescentar que elaborar tem o sentido de ressignificar certas perspectivas e panoramas da vida do indivíduo, possibilitando uma reinvenção de um futuro mais atraente para ele. Quando se fala em transferência Freudiana, não se pode deixar de apontar a importância da chamada “construção em análise”, porque é justamente nesse texto que Freud corrobora a ideia de que uma construção não acontece sem uma interpretação do analista. Deve-se levar em conta, todavia, que a interpretação ocorre a contar de um dado ou fato isolado, ou seja, o paciente relata, o analista interpreta. Já na construção, entra em cena a história primitiva, pessoal do paciente, isto é, o analista “confronta” o paciente com fatos e acontecimentos que teriam efeito sob ele. Junta-se portanto, pedaços de um passado possível do paciente, com narrativas atuais, e se constrói um novo fragmento que é comunicado ao paciente.  Para Klein, a transferência está relacionada com as ansiedades arcaicas do indivíduo, que são originárias das fantasias e dos impulsos sádicos, a pulsão de morte. Klein chamava atenção, ainda, à maneira com que o indivíduo se relacionava com os objetos, bom e ruim, pois estes estão no núcleo da sua vida emocional e serão externados no vínculo estabelecido entre o paciente e o analista, a identificação projetiva. Assim, dentro desse contexto ambivalente de amor e ódio, originam-se os conceitos de transferência positiva e transferência negativa. Para ela “as interpretações deveriam abarcar tanto as relações de objetos iniciais que são revividas e evoluem ainda mais natransferência, como os elementos inconscientes nas experiências da vidacorrente do paciente.” O que Freud nominava de transferência, Bion chamava de transformação. O propulsor da transformação é a experiência emocional vivida e sentida na sessão, isto é, aquela emoção que o analista consegue intuir do paciente, uma emoção dentro de uma experiência. Essa experiência emocional se transforma a cada instante, uma vez que sempre tem-se um novo Ò acontecendo. Esse Ò é tudo aquilo que é infinito, incognoscível e desconhecido, ou seja, daquilo que o paciente nos comunica não se pode supor que saibamos aquilo que ele está trazendo. O analista, portanto, precisa ter capacidade de intuir ao menos um dado desse Ò. Essa é a ideia inicial para a teoria da transformação de Bion. As transformações, a contar da experiência emocional, modificam-se a todo instante. Esse “processo” ocorre da seguinte forma: o paciente fala, e essa declaração chamamos de Ò, porque não se pode supor que o analista saiba o que esse paciente está falando e trazendo, uma vez que a fala do paciente é um infinito de desconhecido. A partir desse relato então, o analista intui algo e essas intuições mentais do analista, enquanto ele pensa, se chamam transformações alfa do analista. Quando, então, o analista pensa e aí verbaliza, à essa ação dele, dá-se o nome de transformação beta do analista. Quando o analista comunica, o paciente pode considerar aquela fala como um novo Ò, e é nesse ponto que a transformação ocorre, quer dizer, a transformação que o paciente faz daquilo que o analista falou. Quando o paciente pensa sobre a fala do analista, dá-se o nome de transformação alfa do analisando, subsequentemente, quando este faz uma devolutiva ao analista dá-se o nome de transformação beta do analisando. E durante a sessão, vivenciam-se diversas e inúmeras experiências emocionais, o que deixa a sessão sempre “viva”, permitindo assim a explorarão desse desconhecido do paciente, o Ò. O Objetivo é que sempre haja um crescimento do analista e do paciente no vértice do não saber. Bion propõe que, na sessão, o analista observe, abstraia e, a partir disso, retorne ao paciente com uma interpretação, sobre aquilo que foi observado. A abstração, portanto, é algo que o analista transforma e então comunica. Em ato contínuo, cabe ao analista observar qual a transformação que vai ser feita a partir da comunicação, quer dizer, de que maneira o paciente irá reagir, se ele consegue transformar aquilo que recebeu numa capacidade de expandir o seu pensar ou, ao contrário disso, num ressentimento, num tipo de sarcasmo ou mágoa. Esse processo último Bion nomina de resistência, querdizer, quando o paciente tem medo de sofrer os efeitos dessa realidade ou até mesmo de entrar em contato com ela. A transformação está relacionada com os elementos de psicanálise continente/conteúdo, que são espaciais, e a função PS-D, que é temporal. Esses elementos de psicanálise servem para o treinamento do pensamento, para a capacidade de observar as cosias e, ainda, para criar capacidade inconsciente. O modo como o indivíduo organiza e trabalha os pensamentos, Bion chamava de continente, ou seja, a capacidade que se tem de pensar e a forma que se pensa. Já o conteúdo, são pensamentos à espera de umcontinente. Então, aqui, “implica uma mutualidade que é um continente para o conteúdo do outro e vice-versa.” Isso se dá de forma simultânea e dinâmica, quer dizer, analista e analisando ao mesmo tempo são continente e conteúdo na mesma relação. Bion partia da premissa de que os pensamentos sempreexistiram mas a capacidade de pensar é escassa. Assim, os pensamentos forçam um continente, que é um espaço mental, que acaba surgindo da força desses pensamentos. A função PS-D está relacionada ao aumento do continente do paciente, e ela é temporal uma vez que “existe um determinado tempo para uma mente desorganizada em algum fato, se organizar”. Então a mente do paciente está em PS quando ela está desorganizada em algum ponto, ou seja, algum conteúdo que está desorganizado no continente. Assim que surge um novo fato selecionado, que vai dar outro significado àquilo que já existia, quer dizer, um elemento que organiza aquele fato que estava desorganizado, a mente se organiza e vai para D. Em Bion, a função PS-D é a abstração das posiçõesesquizo e depressiva de Klein. Sendo assim, quando se pensa na transferência de Freud, fica-se restrito ao que está acontecendo com o paciente no momento da sessão, mas esperando que este reviva um passado com o analista. Já na transformação de Bion, fica-se disponível para tudo aquilo que a mente do paciente produz, ou seja, atenta-se para a questão de como é que o paciente pensa, com o analista, no aqui e agora, dentro do setting analítico.
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Da medicina à psicanálise

Por Leonardo Neri Candido de Azevedo - No início do século passado, a psicanálise emergiu como um campo de estudo diferenciado que abriu novos horizontes para compreensão da mente humana. No entanto, a psicanálise surgiu repleta de conceitos médicos, pois muitos de seus pesquisadores, como o fundador Sigmund Freud, tinham formação médica. Foi neste contexto que o psicanalista britânico Wilfred Bion desenvolveu uma teoria inovadora que rompeu com as convenções da medicina tradicional, a qual tratava os sintomas pelo viés de causa-efeito. Bion trouxe uma nova perspectiva para a psicanálise, enfatizando aspectos emocionais e subjetivos e desvirtuando a necessidade de se atingir um resultado, como destino a ser alcançado no processo de análise, o que se diferenciava com a prática da psicanálise da época. Nos primeiros anos do desenvolvimento da psicanálise, muitos dos seus principais representantes, como Freud, eram médicos. Isto muitas vezes se reflete nas abordagens clínicas da psicanálise, que se concentravam em trazer significados sobre o funcionamento do aparelho psíquico, visando uma suposta cura do paciente. O foco estava na análise da histeria, neuroses, psicoses e perversões, bem como na compreensão de seus sintomas causados pelos conflitos intrapsíquicos do indivíduo, muitas vezes associados a traumas sexuais e/ou infantis. Por outro lado, Bion apresentou uma nova perspectiva fundamental para a psicanálise moderna. Essa abordagem é menos embasada nos conceitos médicos e mais vinculados aos aspectos psicológico e emocional. Bion desafiou a visão predominante da mente como uma entidade puramente cognitiva, ressaltando a importância dos processos emocionais e inconscientes. Bion sugere que a mente humana lida com pensamentos primitivos chamados “pensamentos beta”, que podem ser a causa de tristeza, sintomas e problemas psicológicos. A contribuição mais importante de Bion foi sua teoria da mudança emocional. Ele acreditava que as pessoas têm a capacidade de transformar o pensamento beta em pensamento alfa consciente e significativo. Este processo de mudança emocional está no cerne da psicanálise Bioniana. Bion entendia que ao processar pensamentos puros e transformá-los em pensamentos conscientes, as pessoas poderiam transformar suas emoções de uma forma mais saudável e aliviar a dor emocional e psíquica. A teoria de Bion teve grande influência na interface entre a medicina e a psicanálise atual. Ele desafiou a visão puramente ontológica da psicanálise, concentrada na necessidade de atrelar os sintomas dos pacientes em diagnósticos pré-moldados, conforme teorias de transferências ou das posições, citando as bases de estudo de Freud e Klein, respectivamente. As mudanças para uma epistemologia não convencional destacadas por Bion, demonstram a importância de explorar os aspectos emocionais e psicológicos dos pacientes, inclusive daqueles com doenças crônicas ou psicoses. Bion desempenhou um papel importante na mudança da psicanálise, afastando-a fundamentalmente de seu viés médico e destacando a evolução emocional do paciente, para compreensão da mente humana. A contribuição de Bion é um exemplo notável de como a psicanálise evoluiu para abraçar uma visão mais abrangente e holística da existência humana. No início da psicanálise, Freud concentrou seus estudos com base na premissa de que os anseios e aflições humanos estão intimamente relacionados a experiências distantes que merecem uma investigação aprofundada. Freud concluiu que os sintomas constituem reflexos de emoções e vivências que foram reprimidas, ocultas nas profundezas do inconsciente. Assim, formulou teorias acerca das fases do desenvolvimento sexual humano, destaca a importância do Complexo de Édipo e desmembra o aparelho psíquico em Id, Ego e Superego. A exploração teórica de Freud estabeleceu os fundamentos da psicanálise, e sua abordagem clínica segue uma lógica semelhante à da medicina, onde se procura a raiz de um sintoma, realizando uma investigação que, quando esclarecida, contribui para a cura do “problema”. O analista empreende a busca por respostas, sabendo exatamente o que está procurando - emoções reprimidas - e onde deve direcionar sua pesquisa, ou seja, aplicar a experiência subjetiva humana à “fórmula” do Complexo de Édipo, para se descobrir as causas. Outra personalidade crucial no desenvolvimento da psicanálise foi Melanie Klein, que avançou com os conceitos de Freud, sobretudo a partir da análise de crianças, adiantando o Complexo de Édipo para as fases mais precoces do desenvolvimento humano. Klein também introduziu as lógicas das posições persecutória e depressiva e trouxe à tona o conceito de identificação projetiva, dentre outros. A sua abordagem clínica também estava focada na busca de respostas no inconsciente, revisitando o período infantil e os estágios iniciais do desenvolvimento psíquico e as relações com objetos, tudo isso com o objetivo de atenuar sintomas e promover a cura. Bion inova ao propor uma abordagem psicanalítica que, em resumo, não visa a diagnósticos ou esclarecimentos do passado. Em vez disso, amplia perspectivas e sugere diferentes maneiras de interpretar eventos psíquicos, conscientes ou inconscientes, promovendo uma exploração que capacita o paciente a descobrir novos conhecimentos sobre si mesmo, infinitamente. A abordagem psicanalítica de Bion não se concentra em conceitos pré-determinados, como o Complexo de Édipo ou a Castração, mas sim em um processo de descoberta e transformação, questionamento e expansão do conhecimento. Não há busca por algo específico no inconsciente; em vez disso, tudo o que se apresenta é explorado em busca de entendimento. 
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Psicanálise, de figurante a protagonista indispensável

Por Sergio Keuchgerian -  Até aproximadamente a segunda metade do século XIX, o estudo da mente e as tentativas de compreensão do comportamento humano eram matérias de estudo que se alojavam sob o teto abrangente da medicina. Antes disso ainda na Grécia antiga, os distúrbios mentais eram muitas vezes relacionados ao sobrenatural ou vistos do ponto de vista do misticismo. Os primeiros registros de abordagens que levavam em conta fatores físicos e biológicos no estudo das doenças mentais ocorreram com Hipócrates. Ao longo dos séculos, o tratamento dos distúrbios mentais definitivamente passou a ocupar um espaço significativo nas pesquisas e estudos dentro das escolas de medicina. Já na segunda metade do século XVIII a medicina tinha o monopólio da compreensão da mente e do comportamento humano. Asilos e hospitais psiquiátricos surgiram como forma de confinar e tratar pessoas com distúrbios mentais. Com a chegada do século XIX, pensadores como William James e Wilhem Wundt trouxeram uma grande contribuição para o desenvolvimento da psicologia defendendo a mesma como uma ciência distinta jogando luz nos experimentos e observações comportamentais. Já na segunda metade do século XIX, a partir dos estudos da histeria com Charcot e outros distúrbios mentais, iniciou-se um interesse cada vez mais crescente objetivando a compreensão dos processos mentais inconscientes e de como eles interferiam no comportamento humano. Dentro deste contexto a psicanálise começa a se desenvolver tendo suas raízes na medicina e evoluirá ao longo do tempo até nossos dias a partir de Breuer e Freud, que aliás era médico neurologista. Freud cria conceitos revolucionários para a época, como o inconsciente, a interpretação dos sonhos e a teoria das pulsões, conceitos esses que desafiaram as abordagens médicas tradicionais. Além disso, Freud desenvolveu técnicas para a prática terapêutica, como a associação livre e a escuta flutuante para explorar os processos mentais inconscientes. A psicanálise de Freud recebeu críticas ferozes e teve fortes adversários dentro do universo médico de Viena. Com o tempo foi gradualmente sendo aceita, e a matéria se expandiu e germinou nos mais variados países em todo o mundo. Freud teve discípulos que contribuíram com suas próprias teorias e abordagens dentro da psicanálise. Melanie Klein, também vienense, depois de entrar em contato com a obra de Freud, trouxe novas perspectivas para a psicanálise, principalmente enfocando o universo infantil, revelando a relação mãe-bebê e o desenvolvimento da psique infantil e como ela vai influenciar todas as fases da vida humana. Além disso Klein introduziu os conceitos de posição esquizoparanóide e depressiva dentro dos conceitos da psicanálise, posições essas que definem estados mentais que a partir da tenra infância a pessoa irá experimentar e repetir ao longo da vida. Freud e Klein deixaram um legado indispensável que continua a influenciar a psicanálise até a atualidade. Partindo dos fundamentos teóricos de Klein e Freud, Wilfred Bion, psicanalista britânico nascido na Índia, analisando e discípulo de Klein, reinterpreta a leitura feita por Klein sobre a obra freudiana. Bion ao contrário de Freud e Klein, se distancia verticalmente da epistemologia da medicina afastando de vez da clínica psicanalítica a herança da metodologia ontológica e da casualidade. Portanto, a evolução da psicanálise a partir da perspectiva de Bion envolveu uma mudança na visão da psicanálise como uma simples extensão da medicina para uma disciplina distinta e independente, com suas próprias teorias e práticas. Suas contribuições, como a teoria dos elementos beta e a função alfa, influenciaram significativamente a maneira como os psicanalistas entendem e praticam a psicanálise nos dias de hoje. Bion desenvolve conceitos próprios como o pensamento sem pensador, a função Alfa e o conceito de continente e conteúdo. Ele enfatiza e passa a valorizar a experiência emocional do analisando no momento da sessão. Para ele, o analista deve estar atento às emoções imediatas do paciente e ao processo de pensamento que ocorre dentro do setting, isto é, como os sentimentos se manifestam durante a sessão. Para Bion, o analista deve estar atento às emoções do paciente e ao processo de pensamento que ocorre durante a análise, buscando compreender as resistências e defesas que surgem no presente. A teoria dos "elementos beta" e a "ideia alfa" desenvolvidos por Bion, são conceitos psicanalíticos totalmente dissociados da lógica epistemológica da medicina. Bion faz uso da nomenclatura matemática e enfatiza a importância desses elementos para a melhor compreensão da mente e do processo psicanalítico. Os elementos beta seriam os dados não processados da experiência mental. Eles incluem pensamentos, sentimentos, percepções, imagens e impulsos que não foram transformados em elementos alfa. Os elementos beta muitas vezes não podem ser compreendidos ou comunicados diretamente, são uma representação do conteúdo inconsciente da mente. Na prática, os elementos beta são como fragmentos de informação mental que ainda não foram organizados em um pensamento consciente ou compreensível. Já a função Alfa é a capacidade da mente de processar, transformar e compreender os elementos beta. Para Bion a função Alfa dá sentido aos sentimentos confusos ou primitivos, ela é essencial para a função mental saudável e a capacidade de aprender com a experiência. É por meio dela que os elementos beta podem ser organizados em símbolos e pensamentos coerentes. Em Bion o processo psicanalítico se dá na cooperação entre analista e analisando, nele o analista faz uso da função alfa para tentar compreender os elementos beta trazidos em análise pelo analisando. Para tanto o analista deve manter a mente livre de interpretações pré concebidas e preconceitos. A psicanálise, portanto, tem suas origens na medicina, mas evoluiu para uma matéria independente, baseada em teorias e conceitos próprios sobre o funcionamento da mente humana que evoluíram de forma consistente desde Freud. Ao longo do tempo desenvolveu outras escolas de pensamentos por meio de teóricos que expandiram as teorias e conceitos iniciais e se tornou uma disciplina autônoma e independente com métodos, teorias e metodologia clínica própria. De mera figurante no século XIX, evoluiu com consistência ao longo do século XX assumindo o protagonismo até os dias atuais.
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Freud, as modificações na técnica psicanalítica e as pedras pelo caminho

Por Kevin Nicolas S. dos Santos -   Freud, ao longo dos anos, foi alterando sua técnica conforme identificava certas necessidades e aprimorava seu cabedal teórico. Por óbvio, a técnica deveria ser a mais adequada ao tratamento, e, também, coadunar-se com o conhecimento teórico do qual os analistas dispunham à época. Foram diversas modificações pelas quais a psicanálise passou desde o seu início, e faremos uma breve passagem por tais fases aqui, aprofundando-nos, naturalmente, na última. Tudo começou com o método catártico de Breuer, em que era utilizada a hipnose para se atingir o material recalcado, contornando toda resistência possível. Quando se atingia o cerne desse material, a paciente apresentava uma espécie de alívio em razão da liberação de alguns afetos (ou libido). A essa descarga de energia Freud nomeou de catarse, e daí o nome método catártico. Na sequência, após o abandono da hipnose, principalmente pelo fato de muitos analisandos não conseguirem entrar em estado hipnótico profundo com facilidade, Freud ainda continuou tentando contornar a resistência, mas por meio da inferência de lembranças a partir daquilo que lhe era dito pelo paciente. A análise focava precipuamente nos momentos de formação de sintomas e anteriores ao estado da doença, buscando-se, assim, que o analisando superasse suas próprias resistências e lembrasse dos fatos. Freud, por fim, novamente corrigiria sua técnica. Não mais tentaria contornar a resistência, entendendo-a como um empecilho. Ao contrário. A partir de seus estudos, havia notado que elas não somente eram parte importantíssima da doença, como também peça-chave para se atingir uma possível cura. Àquele tempo, o movimento psicanalítico entendia ser possível curar pacientes com distúrbios psíquicos, e Freud compartilhava dessa convicção. Eis, então, sua terceira grande mudança na técnica: o analista permitiria que o analisando falasse aquilo que lhe aprouvesse. O médico, de posse dessas informações, iria analisar a superfície psíquica do paciente e, com a adequada interpretação, deveria ele desvendar as resistências existentes nos pensamentos e comportamentos do analisando e traduzi-las a ele. Após muitos casos clínicos, Freud observou que as resistências, quando descobertas, permitiam que as lembranças, antes esquecidas (material recalcado), agora fluíssem para o consciente do paciente, auxiliando na explicação dos sintomas psíquicos ou físicos sofridos. Este trabalho poderia acabar aqui, se não fossem as dificuldades apresentadas no caminho da analista durante o percurso terapêutico. Um dos maiores obstáculos, sem dúvidas, envolve o manejo da transferência. Ao longo das vidas, as pessoas adquirem certas tendências, costumes e formas de lidar com questões do amor que, aliadas às predisposições inatas de cada um, geram certas metas, pulsões a satisfazer e condições que elas próprias estipulam para si e para o outro, objeto de seu amor. Essa forma de pensar (e agir) em parte é consciente e, em grande medida, é inconsciente, ou seja, possui suas origens (e diversas de suas derivações) absolutamente escondidas nas profundezas da inconsciência, sendo repetida inúmeras vezes ao longo da vida, nos mais diversos tipos de relações que temos (ainda que não rigorosamente “amorosas”). Então, por óbvio, a postura irá se repetir perante a figura do médico, e a esse direcionamento nós chamamos de transferência. Freud fez a distinção entre a transferência positiva e a negativa. Como o próprio nome indica, a transferência positiva é a situação em que o analisando direciona ao analista ideias e afetos semelhantes àqueles que direciona a pessoas com quem detém uma relação teoricamente saudável. Envolve, portanto, sentimentos positivos, confiança e certa facilidade na comunicação com o analista. Já no que se refere à transferência negativa, ela ocorre quando o direcionamento das moções é o mesmo que o analisando tem com pessoas com quem não detém uma relação harmônica, e os sentimentos despertados durante a análise, segundo Freud, podem prejudicar ou até fazer com que a análise seja definitivamente interrompida. Desta feita, para Freud, o tratamento deveria ocorrer sob a égide apenas da transferência positiva. Era essa a condição. Mesmo essa abordagem, porém, estava sujeita a alguns inconvenientes. Talvez o principal deles fosse o enamoramento do analisando pelo analista, um empecilho infelizmente comum. Para contornar e retirar proveito terapêutico da situação, Freud indicava que o correto, pensando-se na cura do paciente, seria pedir para que ele falasse mais daquele sentimento de enamoramento: como surgiu, as condições, os porquês, os antigos enamorados daquele analisando (e seus términos), enfim, que houvesse uma exploração daquele material, pois tratava-se, obviamente, de um conteúdo advindo diretamente do inconsciente que deveria ser analisado. Além do mais, poderia o enamoramento ser expressão da resistência, presente unicamente com a finalidade de atrapalhar o progresso da terapia. Em vista disso, explorar o fenômeno, para Freud, era sem dúvida o mais recomendado. Quanto às outras possíveis soluções na situação, como pedir para o paciente “esquecer” suas emoções, ou, ainda pior, iniciar um relacionamento com o paciente (legítimo ou não), eram, obviamente, totalmente fora de cogitação por Freud, e, até mesmo, poderiam beirar o antiético. Afinal, para ele, aquela paixão não era pelo “analista” em si, mas, sim, um enamoramento do passado que, em razão da terapia, havia se voltado para a figura do médico, mas sem lhe pertencer originalmente. Era a volta do recalcado. Por fim, após a adequada interpretação e tradução das resistências para o analisando, depois de esclarecido o material recalcado, e, ainda, considerando que a transferência havia sido devidamente manejada, deverá o analista aguardar. As resistências, ainda que desvendadas, deverão ser superadas a partir do conhecimento das pulsões mais profundas recalcadas que as alimentam. Somente assim materiais psíquicos da vida presente e futura do analisando não serão, novamente, objetos da resistência, gerando mais sofrimentos. A esse trabalho de superação das resistências, descobrindo-se as pulsões que as alimentam, Freud denomina de perlaboração. É, também, parte do processo terapêutico, mas não mais, segundo Freud, incumbência do analista. O perlaborar será, inteiramente, realizado pelo paciente, cabendo ao psicanalista unicamente aguardar o tempo de seu analisando.