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INCORPORADO Blog Masonry - Results from #96

O Incorporado

Por Rodrigo Lopes Barreto -  Era uma tarde de seis de maio, o céu estava nublado e um grupo de pessoas se dirigia ao Jardim Cristina, bairro afastado do centro onde aconteceria o grande evento do dia. Lá residia o Sr. Astolfo, renomado incorporador, que havia anunciado que naquele dia receberia o famoso médico austríaco que fundou a psicanálise. Cerca de trinta pessoas aguardavam o início do evento, tinha psicanalista, influencer, estudante, comediante... Era uma casa simples e os ouvintes foram recebidos em uma garagem desativada, as paredes alternavam tinta amarela desbotada com áreas de mofo. Havia uma pequena mesa e uma cadeira, nela estava sentado o incorporador, tinha os olhos fechados. Às três horas em ponto ele abriu os olhos, sorriu e agradeceu a presença de todos, de repente suas feições se tornaram sérias, ele cruzou as pernas e sua postura ficou mais ereta. Todos ficaram em silêncio e assustados. Após alguns minutos encarando a audiência ele começou a falar, em português perfeito, mas com forte sotaque dos nativos de língua germânica. Não tenham medo, disse. O silêncio continuou... Eu sei que vocês têm dúvidas, a hora de perguntar é agora, disse com voz assertiva. Um rapaz ao fundo, com cara de desespero disse ao ver que todos continuavam quietos: Boa tarde Sr. Freud! Estou no primeiro ano de formação em psicanálise e tenho muitas perguntas! Pois comece, disse o incorporado. Rapaz desesperado- Difícil escolher uma, são tantas questões técnicas e teóricas que nem sei por onde começar... Mas vamos lá, o que é o inconsciente? Incorporado- Meu jovem, você já começa com uma pergunta dessas? Vou tentar ser sucinto se não só vou responder uma pergunta. O inconsciente é uma instância do aparelho psíquico, as pessoas acham que ele apenas contém traumas, mas ele guarda memórias, registros, e vivências que foram suprimidas do consciente. Ele também guarda todos os desejos pulsionais. O inconsciente é atemporal, lá impulsos instintuais completamente antagônicos convivem tranquilamente e a realidade externa é substituída pela realidade psíquica. Ele contém processos inacessíveis à consciência, mas que a influenciam, e se tornam sonhos, atos falhos, repetições, sintomas... Nosso trabalho é tornar essa influência conhecida pelo paciente, buscar o que foi reprimido. Rapaz desesperado- O senhor está falando de repressão? Incorporado- Sim, e temos dois tipos de repressão. A repressão primária é do inconsciente, fundacional e a base dos recalques. Também temos a repressão secundária, ou propriamente dita, que atinge ideias e impulsos similares ou que se alinham ao que foi recalcado inicialmente. Ela age na fronteira do inconsciente com o pré-consciente, provocando consideráveis distorções. Deste processo derivam representações que podem chegar ao consciente, como formações substitutas e sintomas. Um impulso pode ser reprimido quando sua meta instintual produz desprazer ao invés de prazer, porém o representante deste instinto segue existindo no inconsciente. A repressão atua de forma altamente individualizada e seu trabalho gasta muita energia psíquica, tudo que gera um investimento de muita energia psíquica tende a se aproximar do inconsciente e o que reduz essa energia sofre um distanciamento ou uma deformação. Esses representantes instintuais, de acordo com o montante afetivo podem ser inteiramente suprimidos, aparecer como um afeto ou ser transformado em angústia. A angústia é a falha da repressão. É muito interessante como o limite do prazer e desprazer é tênue, já repararam que em uma piada trazemos de forma prazerosa algo que produz claro desprazer, e... (Comediante interrompe o Incorporado). Comediante- De piada eu entendo seu Sig! Esses dias perguntaram para minha mulher o que ela mais gostava que eu fizesse por ela. A resposta: TRANSFERÊNCIAS. (a plateia riu nervosamente). Incorporado- Faz-me rir o cavalheiro com esse interessante jogo de palavras entre transferências de dinheiro e transferências de afeto. Rapaz desesperado- Já que o colega trouxe o tema, fale-nos um pouco sobre a dinâmica da transferência... Incorporado- Vamos lá, apenas algumas de nossas pulsões passaram pelo desenvolvimento psíquico completo, parte delas são detidas no inconsciente e só se expandem na fantasia. Novas representações e reedições dessas expectativas são repetidas na medida em que nos relacionamos com outros indivíduos em nossa vida. Esse investimento em terceiros também se repetirá no tratamento psicanalítico, e a isso chamamos de transferência. A transferência pode ser positiva, manifestando admiração e confiança, mas também pode ser negativa e precisa ser reconhecida adequadamente, sempre que nos aproximamos de um complexo patogênico, a porção capaz de transferência é empurrada para a consciência e defendida, surgindo apenas como uma expressão da resistência. Como o paciente confessará demandas direcionadas ao psicanalista? Entenderam a armadilha? (um psicanalista bem alto se levanta, é o típico feio bonitão). Psicanalista feio bonitão- E quanto ao amor transferencial? Incorporado- Precisamos entender que este enamoramento não é devido ao nosso charme ou ótima personalidade, mas sim forçado pela situação analítica e carece de realidade. Ele atrapalha o tratamento psicanalítico, e a resistência tem grande participação no seu surgimento. Por vezes aparece num momento em que o paciente precisa recordar ou admitir uma parte muito desconcertante e recalcada de sua vida. Não devemos incentivar, nem adotar uma postura repressora a este sentimento, devemos nos manter de forma neutra e cuidar do ambiente analítico. Eu tenho que tirar esse afeto do campo moral e colocar no campo analítico, temos que pensar como uma estrutura que se repete (uma psicanalista usando um lindo macacão de linho se levanta). Psicanalista do macacão de linho- Falando em repetir, gostaria de lhe agradecer, seu texto. Lembrar, Repetir e Perlaborar marcou profundamente a minha formação psicanalítica. Incorporado- Fico lisonjeado, tenho muito orgulho deste texto. Fiz ele em 1914, conforme minha técnica evoluía a partir da ideia inicial de preencher lacunas na lembrança e vencer resistências, visando a superação dos recalques, acreditava que somente lembrando, ou seja, chegando ao consciente haveria uma mudança. Na prática, observei que o analisando nem sempre se lembra do que foi esquecido e recalcado, mas ele atua com aquilo, e o reproduz como algo que ele repete, sem saber o que é. Ele repete ao invés de lembrar. A repetição também ocorre no processo de transferência, use deste evento para conter esta tendência, nomear as resistências desconhecidas e a partir daí perlabora-las. Perlaborar é um trabalho contínuo, difícil e exige paciência. Rapaz desesperado- Que conselhos técnicos o senhor me daria acerca do tratamento psíquico? Incorporado- Bem amplo esse tema, mas vou tentar elencar algumas orientações básicas. Pra começar acomode o paciente em um divã, sente-se atrás dele, e peça que sempre lhe diga o que vier à cabeça. Nunca ceda ao pedido de indicar sobre o que falar. Evite ficar anotando em demasia, registre pequenos dados ou conteúdos de sonhos, seria desumano lembrar de absolutamente tudo o que o paciente nos conta, confie na atenção flutuante, ouça o que o paciente diz e se entregue à sua memória inconsciente. Coloque de lado seus afetos pessoais, amplie ao máximo sua assistência e use tudo que foi dito para fins de interpretação, dirija para o inconsciente emissor do doente o seu próprio inconsciente enquanto órgão receptor. Sintonize-se com seu cliente. Muito importante, tenha conhecimento de seus complexos próprios. Faça sua análise pessoal, cada recalque mal resolvido do analista se constitui um ponto cego em sua percepção analítica. Tenha consciência da importância da transferência e faça o manejo dela de forma adequada. Seja tolerante diante da fraqueza do doente, não o force demais no rumo da sublimação. Jamais dê tarefas ao doente fora do espaço psicanalítico, isso pode causar intelectualização excessiva do processo. Nunca busque a concordância ou apoio de pais ou familiares do doente. Rapaz desesperado- E alguma orientação especial no início do tratamento? Incorporado- Recomendo que você faça uma espécie de ‘test drive’ com seu cliente, um período probatório para decidir se ele é bom candidato à psicanálise. Não aceite familiares, ou pessoas com relações sociais ou de amizade como pacientes, isso hoje é obvio, mas em 1913 não era. Não se surpreenda com posturas céticas ou absolutamente crédulas ao nosso método, a desconfiança do paciente em si já é um sintoma e é normal a resistência se manifestar das mais diversas formas. Cobre pelo seu ofício! Já repararam que o dinheiro é tratado com a mesma dubiedade que os assuntos sexuais? Abdique desta falsa vergonha e trate deste assunto com a mesma e óbvia honestidade para a qual vamos educa-lo em relação à vida sexual. Não responda ou faça previsões acerca da duração do tratamento, sabemos que o processo será longo. Não se importe em extrair do doente narrativas sistematizadas, cada pedaço da história será repetido e contado novamente, um paciente que prepara com detalhes a narrativa da sessão pode dar a impressão de empenho, mas no fundo é proteção e resistência. Conversar com amigos e familiares sobre o processo deve ser desaconselhado, porque poderiam aflorar nessas conversas ideias que seriam melhor aproveitadas no espaço psicanalítico. Sempre esteja atento à transferência, mas deixe este tema intocado enquanto as informações do paciente se derem sem interrupções. As comunicações ao paciente só devem ser iniciadas quando se tiver instalado uma transferência produtiva, faça-as apenas quando o analisando estiver quase lá, e quando as fizer evite posturas moralizantes e não atue como representante de uma parte interessada externa. Fique atento, a comunicação de um material recalcado suscitará resistências antes de se estabelecer um processo de pensamento eficaz. Rapaz desesperado- O que o senhor acha da psicanálise selvagem? Incorporado- Na época que cunhei esse termo, o selvagem se referia a colegas médicos que praticavam a psicanálise sem o conhecimento adequado das técnicas psicanalíticas, sem se atentar às nuances e enfocando de forma exacerbada no fator somático sexual. Essa técnica precisa ser aprendida com aqueles que já a dominam. O selvagem em questão não se atentava que o desconhecido era na verdade um saber impedido no consciente, o que por vezes era comunicado de forma inadequada e gerando uma grande piora do sofrimento, para haver uma comunicação é preciso que o doente se aproxime do recalcado por uma preparação adequada e que ele tenha se apegado ao médico, estamos falando novamente de transferência, e isso demanda tempo. Eu agora falo diretamente ao tiktoker sentado ali (aponta um rapaz magrinho de cabelo platinado), pare com suas dancinhas psicanalíticas e vá fazer uma formação decente! De repente o incorporador fechou os olhos, seu semblante ficou mais relaxado, ele abriu os olhos e disse que a sessão havia acabado. Freud deixou o incorporador e se prometeu nunca mais voltar ao Jardim Cristina... Para onde ele foi eu não sei, espero que esteja feliz e de preferência bem longe do Jung.
A Escuta como Alicerce da Clínica Psicanalítica: Um Convite à Reflexão

A Escuta como Alicerce da Clínica Psicanalítica: Um Convite à Reflexão

Na complexidade da experiência humana, a psicanálise se ergue como um farol, iluminando os caminhos intrincados do inconsciente. Contudo, o que sustenta essa exploração profunda e transformadora é um elemento fundamental, muitas vezes subestimado em sua profundidade: a escuta. Mais do que um simples ato de ouvir, a escuta psicanalítica é uma arte, uma técnica e, acima de tudo, um fundamento ético que molda cada encontro clínico, permitindo que o indizível encontre um espaço para ser acolhido e elaborado. É um convite à presença plena, à suspensão de julgamentos e à abertura para a singularidade de cada sujeito que busca o divã.
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A expansão do pensamento psicanalítico em Klein

Por Renata Amaral Soares   -  Como a condensação temporal e o reforço espacial em Klein alteram os objetivos do tratamento psicanalítico concebidos por Freud. Em Klein, o tempo psíquico se contrai: a infância, período de latência e puberdade freudiana se tornam um instante arcaico. As fases sádico oral primária (sugar) e secundária (morder) e sádico anal primária (expulsar) e secundária (reter) estão desde o início, já no bebê. Os primeiros seis meses de vida contém a estrutura do conflito edípico, das pulsões de vida e de morte, do superego e do ego, há uma condensação e um funcionamento psíquico muito além do Id freudiano “esperando” pelo princípio de realidade para formação do ego e da criação do superego no complexo de Édipo. É como se Klein tivesse avançado na medicina e tivesse descoberto o “DNA psíquico” do organismo humano, a partir, do “desenvolvimento celular temporal” estudado e proposto por Freud. Em Klein, o trauma do nascimento “aciona o gene psíquico” da pulsão de morte, é a primeira experiência de separação e dor, o bebê sente que pode ser aniquilado a qualquer momento, gerando a ansiedade persecutória. Já está presente neste “DNA psíquico” um superego arcaico voraz, rígido, impiedoso e sem filtro, primitivo, que tem como origem os processos de projeção e introjeção dos objetos parciais; não é como o de Freud, que incorpora a figura dos pais, educadores, leis, moral e por isso é mais brando. Cada privação e frustração sentida corporalmente pelo bebê, o seio que não vem, o frio que não foi mitigado, a fralda não trocada, é percebida como uma ameaça à vida, uma destruição, o reforço da pulsão de morte, algo muito mais intenso do que um desconforto, com isso o nível de ansiedade gerado fica praticamente insuportável. Para dar conta do sentimento de frustração, de um sadismo muito cruel, o bebê cinde o objeto, sendo o primeiro deles, o seio materno, em objetos parciais: um que é bom, que me gratifica, e outro que é mau, que me frustra; o seio bom (amado) e o seio mau (odiado). Essa é a primeira relação dual de objeto que o bebê estabelece. Esses objetos cindidos são projetados para o exterior e introjetados no bebê, numa relação de dentro e fora; estabelecendo mecanismos de defesa, que diminuem a ansiedade e vão tornando a vida mais palatável. Quando o bebê sente algum desconforto corpóreo, como a fome, e na sequência o seio bom lhe é apresentado, ele pode sugar e morder até esgotar sua fonte de energia, exercendo o sadismo. E com isso, posteriormente, sentir que será retaliado e perseguido por esse seio, aumentando sua ansiedade persecutória. “Se eu destruí, serei destruído”. Esse processo constitui a posição esquizoparanóide, que ocorre nos 3 primeiros meses de vida. No segundo trimestre de vida, o bebê começa um processo de integração e passa a perceber que os objetos cindidos em bom e mau, na verdade são um só, isso apresenta uma evolução no seu desenvolvimento, a pulsão de vida vai ganhando força. Juntamente aparece o sentimento de culpa e de reparação, pois percebe que o seio mau que ele mordeu e atacou é também o seio bom que lhe alimenta. Esse processo constituiu a posição depressiva, que nesta fase passa a ter preponderância em relação à posição esquizoparanóide. O cerne do objetivo psicanalítico kleiniano está em trazer à tona, tratar e elaborar as ansiedades, como a criança/adulto lida com o próprio sadismo, uma vez que elas estão na origem de todo desenvolvimento psíquico e ocorrem frente a um superego arcaico fortíssimo e a um ego cindido ainda em desenvolvimento. Nesta fase inicial, muito antes da linguagem e da capacidade de representação mental e psíquica, não há recalque, nem repressão. Sendo assim, não faz mais sentido objetivar tratar psiquicamente as resistências para que o conteúdo recalcado venha à consciência e possa ser elaborado. Em Klein, as posições esquizoparanóide e depressiva se alternam e seguem pela vida de uma pessoa. O analisando tem um papel mais ativo no processo de seu desenvolvimento psíquico e de mecanismos de defesa ao ego cindir, introjetar, projetar, integrar e desintegrar objetos, aprender a simbolizar, lidar com o sadismo. Posteriormente, os processos arcaicos de cisão influenciam a repressão. Já o analisando de Freud dá sua versão dos fatos sobre o que ocorreu com ele, tendo como base, a cena primária, o complexo de Édipo e o princípio de castração, que influenciarão à repressão. Os mecanismos de defesa como a condensação e o deslocamento entre outros são formas de burlar a censura para que o conteúdo recalcado e reprimido chegue à consciência e possa ser elaborado. Freud tem uma visão mais determinista em relação ao analisando dado o foco no complexo de Édipo que ocorre por volta dos 5/6 anos de idade, Klein tem uma visão mais ampla baseada nas relações objetais desde os primeiros instantes de vida. Klein também bebe na fonte da transferência, não poderia ser diferente dado que este é o conceito freudiano fundante da psicanálise, porém o foco dela está na transferência negativa, na relação espacial dos mundos internos e externos do bebê/criança, e no que ocorre no setting psicanalítico, no consultório. Estimular a transferência negativa para que as phantasias inconscientes apareçam, e assim as ansiedades possam ser trabalhadas, é também objetivo do tratamento psicanalítico. Estimulando a agressividade da criança, para que no contato com a realidade e, com o desenvolvimento da capacidade de simbolização, a criança possa fortalecer o ego e ter outra relação objetal com diminuição da força do superego arcaico. A criança passa a perceber que a phantasia inconsciente sob jus desse superego arcaico é muito mais cruel do que a realidade. A criança percebe que pode ter sentimentos ruins e destruidores, o que não significa que ela será retalhada ou que papai ou mamãe irão morrer. O caso Erna é um bom exemplo disso. A phantasia kleiniana, com “ph”, é a revisão de Klein sobre o inconsciente freudiano, ela é nata, é a elaboração imaginativa das funções corporais e das projeções dos impulsos do bebê sobre o objeto, das primeiras relações que o bebê tem com o mundo, é inconsciente, expressão mental das pulsões. O bebê sente, não sabe o que é e, para diminuir a ansiedade gerada, phantasia. Em Freud a fantasia aparece em um estágio posterior, quando já há linguagem e capacidade de representação, sendo consciente, aparece para fazer sentir, para dar a versão dos fatos, de mostrar como a pessoa sente, ela vem no lugar do fato que não interessa mais. Apesar de ambos diferirem no conceito de fantasia, ela para os dois é um instrumento potente a ser trabalhado, está na base do trabalho analítico. Klein catalisa e elabora sobre os principais conceitos de Freud com ênfase numa relação espacial objetal do mundo interno e externo, em alternância das posições esquizoparanóide e depressiva, com foco nas ansiedades e phantasias inconscientes para serem trabalhadas de forma presencial no consultório. Processos relacionados a um superego arcaico bem mais severo do que o superego de Freud, que vai se desenvolvendo a partir do complexo de Édipo, mas que já atua nos primeiros instantes frente a um ego também em desenvolvimento e fraco. O analista estimula a transferência negativa, não tem mais sentido reviver os afetos na figura do analista em uma relação de transferência positiva, não tem mais experiências do passado trazidas ao presente ou sonhos analisados ou revivências de afeto. Dadas essas diferenças, ambos recorrem à transferência no trabalho analítico das pulsões de vida e de morte. Em Klein o foco da análise está nas ações realizadas no setting do consultório e não nos sonhos ou na memória. A observação do brincar em crianças, o equivalente à associação livre no adulto, abriu campo para o desenvolvimento da psicanálise teórica e clínica, fatores que em Klein são praticamente indissociáveis. A análise de uma classe de pessoas considerada inferior para a época, as crianças, trouxe muitos ganhos também para os adultos e possibilitou a expansão do pensamento psicanalítico.
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O método psicanalítico em Freud: Travessias

Por Emanuelle Duarte  -  A psicanálise, em Freud, nasce como quem abre uma fresta na rocha para ouvir o subterrâneo murmurar. Não é ciência de holofotes, mas de lamparinas: um trabalho de mineração noturna, paciente, quase sacerdotal. Seu método, longe de ser um manual de procedimentos, aproxima-se de uma ética da travessia, um modo de estar diante do outro e diante do indizível, sem recuar. Freud parece sempre escrever como quem avança por um labirinto cuja arquitetura ele próprio descobre enquanto caminha. No coração dessa travessia, há um objetivo tão simples quanto abissal: tornar consciente o inconsciente, fazer com que o sujeito, estrangeiro de si mesmo, reencontre as peças de sua história que foram expulsas para os bastidores da alma. Não se trata de devolver ao indivíduo uma suposta normalidade; trata-se de entregar-lhe uma bússola para que ele possa circular por seus próprios desertos internos sem se perder de vez.A técnica freudiana formula um método que começa por aquilo que mais parece um gesto de humildade: escutar. Mas escutar, aqui, não é colher informações; é abandonar o desejo de compreender de imediato. A atenção igualmente flutuante (recomendação que Freud faz ao analista) tem algo de místico e de profundamente clínico. O analista torna-se uma superfície receptiva, uma antena aberta para o inesperado, para o detalhe que escapa à vigilância do eu. Do lado do analisando, reina a regra fundamental: dizer tudo, sem peneiras, sem decoro, sem o filtro moral do cotidiano. É um convite quase indecente à espontaneidade. E é justamente nessa fluidez, nesse fluxo que parece não ter direção, que as formações do inconsciente se insinuam, como pequenas fendas por onde o passado retorna. Freud sabia que o inconsciente não grita, ele sussurra. E o método é, antes de tudo, aprender a ouvi-lo.Se há uma pedra no meio do caminho (como diria Drummond!) da clínica freudiana, ela se chama transferência. Freud escreve sobre ela como quem reconhece um deus ambivalente: criador e destrutivo, indispensável e perigoso. O sujeito revive no analista, e através dele, antigos amores, antigas revoltas, antigos vínculos que nunca foram realmente encerrados. A análise funciona porque a alma é teimosa: repete. E repete sobretudo na relação. Ali onde o analisando ama demais, desconfia demais, se irrita demais, ali está o rastro vivo do inconsciente. Mas o amor transferencial, escreve Freud, é uma tempestade que deve ser acolhida sem se deixar levar por ela. O analista se torna uma espécie de rocha onde as ondas quebram: firme, silencioso, não sedutor, não repelente. O método funciona quando o analista renuncia ao protagonismo e oferece ao sujeito a chance de se ver refletido na superfície da transferência: esse espelho que mente e, justamente por mentir, revela.Nada do que emerge na análise é manso. O inconsciente não se entrega docilmente: ele resiste. Em A Repressão e O Inconsciente, Freud mostra que o eu construiu verdadeiros mecanismos de defesa para impedir que certos conteúdos venham à luz. Essa resistência não é um acidente, mas a assinatura do conflito. No método psicanalítico, a resistência é tratada como um sintoma que fala, um movimento que indica onde o terreno é fértil e onde a dor é mais funda. Freud propõe que o analista não a combata, mas a interprete. Cada desvio, cada esquiva, cada silêncio que se prolonga mais do que deveria é uma pista. Uma espécie de mapa cifrado. A escuta analítica é, assim, uma arqueologia: cava-se não apenas onde há ruínas, mas onde o terreno, por resistir, denuncia que algo está enterrado.Na obra Lembrar, Repetir e Perlaborar, Freud descreve um dos movimentos mais belos (e mais árduos) da clínica. O sujeito não lembra o trauma como história; ele o repete como destino. As cenas não retornam como lembranças organizadas, mas como padrão, sintoma, gesto, transferência. A cura, portanto, não é uma visita guiada ao passado; é uma negociação com o presente onde o passado insiste em renascer. A perlaboração é o nome que Freud dá a esse trabalho paciente, quase artesanal, no qual o sujeito atravessa várias vezes o mesmo afeto, a mesma dor, até que ela perca sua força silenciosa. É repetição, mas não é circularidade: cada retorno opera uma pequena transformação, como as marés sucessivas que esculpem a rocha. Na psicanálise, nada se resolve de uma vez. Tudo se resolve no tempo, e o tempo não é cronológico, é pulsional.Freud nunca prometeu felicidade. Essa honestidade quase brutal é uma de suas grandezas. O objetivo da análise, segundo ele, é que o eu se torne mais robusto, mais apto a lidar com as exigências internas, mais senhor de seus próprios movimentos. Não se trata de eliminar conflitos, uma vez que para ele uma vida sem conflitos é simplesmente impossível, mas de reduzir o domínio do inconsciente, de devolver ao sujeito a capacidade de escolher onde antes só repetia. A psicanálise conduz o analisando a um ponto curioso de maturidade: não o da calmaria, mas o da lucidez. A cura, se é que podemos chamá-la assim, reside em aprender a suportar a própria verdade sem sucumbir a ela. O inconsciente não desaparece, mas deixa de comandar sozinho.Logo, o método psicanalítico de Freud, tecido pela associação livre, sustentado pela atenção flutuante, atravessado pela transferência e pela resistência, e lapidado pelo trabalho infinito de lembrar–repetir–perlaborar, é mais uma ferramenta do que uma forma de destino. Não há nele uma única fórmula, o que há é um gesto. Um gesto de coragem (e é o que a vida quer da gente, não é mesmo, Guimarães Rosa?). Trata-se de fazer o sujeito falar, sim, mas também de acompanhá-lo enquanto ele escuta aquilo que sua própria fala devolve. A análise é, portanto, uma travessia para dentro, um retorno ao que nunca deixou de agir, ainda que silencioso. Freud, ao instituir seu método, inventou uma maneira de caminhar na escuridão com uma vela na mão: uma luz pequena, mas suficiente para não cair e, sobretudo, suficiente para começar a ver.
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Psicanálise de Crianças e Complexo de Édipo

Por Tuca Guarnieri  -  Freud e Klein postulam suas teorias para o desenvolvimento psíquico infantil observando as crianças e os bebês.  Conceitualmente as teorias desenvolvidas por ambos, individualmente, ora se esbarram, ora se distanciam. Freud propôs que o desenvolvimento infantil se dava por fases e as classificou como fase oral, anal, fálica, latência e genital. Cada fase ocorria em zonas erógenas específicas, de acordo com cada momento do desenvolvimento. Considerou a sexualidade uma das principais forças do comportamento humano, movida pelas pulsões, e estas iam determinando   as fases do desenvolvimento.Klein propôs que o desenvolvimento infantil se dava por meio das relações objetais, ou seja, o desenvolvimento se dava a partir de como a criança se relacionava com os primeiros objetos que os bebês tinham contato logo após o nascimento. Enfatiza as ansiedades persecutórias que coloca o bebê na posição esquizoparanóide logo após o nascimento, e em um segundo estágio do desenvolvimento, as ansiedades depressivas que o coloca na posição depressiva. As posições esquizoparanóide e depressiva determinam o desenvolvimento psíquico da criança. Klein trabalha a ansiedade, defesa e relações de objetos.Dessa forma, observa-se que Freud trabalhou com fases e Melanie Klein com posições.Freud enfatizou a repressão como mecanismo de defesa. O sujeito reprimia e recalcava no inconsciente para defender o ego de tudo aquilo que o sujeito não conseguia lidar.Klein coloca a cisão como o primeiro mecanismo de defesa contra as ansiedades persecutórias. O bebê projeta para os objetos toda ansiedade que seu ego não consegue lidar.Klein considera que o bebê já nasce com o ego, ainda que frágil e desintegrado.  Freud acreditava que o ego era formado gradualmente durante a infância, conforme a criança ia tendo contato com a realidade, e por meio das experiências com os primeiros cuidadores.Neste ponto deparamos com outro distanciamento. Enquanto Freud enfatiza a importância da realidade externa na formação da psique da criança, Klein enfatiza a importância das fantasias inconscientes do seu mundo interno, apesar de não desconsiderar a relação precoce entre os cuidadores na formação da personalidade.As fantasias também são outro ponto de divergência em ambas as teorias. Freud as vê como uma versão que o indivíduo dá sobre si, assim como uma forma de satisfazer desejos inaceitáveis para a consciência.Para Klein, a fantasia é uma elaboração imaginativa das funções corporais que se dá pela teoria das posições esquizoparanóide e depressiva. Essas fantasias influenciam como o bebê se relacionava com os objetos e posteriormente com o mundo.  No complexo de Édipo encontramos outro ponto de divergência. Freud considera o Édipo um conceito central em sua teoria. O complexo de Édipo se dá na fase fálica do desenvolvimento psicossexual no qual a libido se concentra nos genitais. A criança por volta dos 3 aos 5 anos começa a ter consciência das diferenças dos órgãos sexuais. Desenvolve um desejo incestuoso pelo genitor do sexo oposto. Como consequência desse desejo, a criança desenvolve o complexo da castração que é o medo inconsciente da perda do pênis nos meninos como punição do pai por esse desejo.Desenvolve o sentimento de culpa e a angústia da castração. As meninas passam a ter sentimento de perda, pois já se identificam como “castradas”, e passam a ter inveja e ressentimento em relação aos meninos, que possuem o pênis.  A resolução do complexo de Édipo se dá no último estágio do desenvolvimento, ou seja, na fase genital. O menino ao identificar-se com o pai e a menina com a mãe, reprimem o desejo incestuoso e passam a identificar-se com o genitor do mesmo sexo, desenvolvendo a partir daí uma identidade sexual saudável se preparando para relações futuras.Na identificação da criança com o genitor, a criança internaliza as normas e valores morais dos genitores como forma de evitar a culpa e a ansiedade, dando início ao desenvolvimento do superego que é a estrutura da instância psíquica que regula o comportamento e incorpora as normas morais e éticas da sociedade.Melanie Klein observa bem no início da vida do bebê um estágio inicial do conflito edipiano. O bebê estabelece por meio da fantasia que o seio que o gratifica quando não está com ele está com alguém. Surge daí o conflito de uma triangularidade edípica-primitiva: bebê, seio e um terceiro elemento. Dentro desse édipo primitivo, Klein pontua a existência de um superego primário que se forma por meio dessa ansiedade persecutória e das projeções feitas por ele mesmo. Esses processos são observados no bebê, do nascimento aos seis meses. Após os 6 meses, o ego passa a ter mais consistência e começa a enxergar um pouco mais da realidade para além das suas fantasias. Percebe o seio como objeto total e experimenta muito precocemente o sentimento de culpa e a necessidade de reparação, diferente de Freud que acredita que o sentimento de culpa vem do complexo de Édipo por volta dos 3 aos 5 anos de vida.A castração segundo Klein tem ênfase na ansiedade persecutória na fantasia de ataque e destruição, e não da ameaça da perda do pênis e é simbolizada no desmame.Para Klein no Édipo precoce, a resolução não acontece com a identificação porque é somente um conflito. O Édipo vai acontecer normalmente entre os 3 e 5 anos, segundo a teoria de Freud.A técnica psicanalítica proposta por Freud é a associação livre, a análise de sonhos e a transferência. Estes eram os recursos por ele utilizados, pois eles lhe forneciam dados, que por meio da interpretação levaria ao conhecimento do que estava recalcado no inconsciente e que era a fonte de onde vinham os sintomas. Todo esse material obtido por meio da análise era apresentado ao paciente com o objetivo de tornar consciente o que foi resgatado do inconsciente.  No que tange a psicanálise em crianças, Freud considerava que a análise era possível, porém não era uma prática comum em sua clínica. Reconhecia que a técnica poderia ser comprometida, pelo fato das crianças ainda em desenvolvimento apresentarem dificuldades para se comunicarem e expressarem sentimentos e emoções de forma coerente. Pensava também que por não terem um ego formado elas não conseguiriam lidar com as emoções que emergissem do processo de análise.Um de seus casos mais famosos, apresentado em seu artigo “Análise de uma Fobia de um menino de 5 anos”, observa-se como a técnica foi aplicada.Hans, um menino de 5 anos tinha fobia de cavalos. Freud trabalhou com o pai de Hans que lhe fornecia informações sobre seu comportamento e sonhos. Interpretou as fantasias assim como os sonhos que eram vistos como expressões do inconsciente de Hans. Identificou no menino uma manifestação do complexo de Édipo e que a fobia estava relacionada à ansiedade da castração. A análise produziu efeito com a diminuição da fobia. Freud atribuiu o sucesso à resolução do complexo de Édipo, tendo por consequência a redução da ansiedade na ansiedade de castração.Melanie Klein acreditava que as crianças tinham uma vida emocional intensa e complexa e que por meio de técnicas específicas para trabalhar com crianças, conseguia acessar o inconsciente delas.Para Klein, a associação livre se apresentava no brincar, nas palavras e no comportamento. Tudo era um modo de expressão e tornava-se material a ser analisado.A criança trazia em suas brincadeiras uma tradução das fantasias do inconsciente, fazendo com que seu mundo interno fosse reconstruído e o inconsciente ganhando significado no conteúdo das brincadeiras.A simbolização para Klein é um conceito fundamental em sua técnica que permitia ao analista entender os processos emocionais e o inconsciente da criança. A criança que não consegue simbolizar pode apresentar dificuldades de desenvolvimento, assim como de relacionamento e comportamento.Em seu famoso caso clínico “A importância da formação de símbolos na gênese do ego”, observa-se como a técnica foi aplicada.Dick, um menino de 4 anos que não conseguia se comunicar.Por meio da técnica do brincar usou símbolos, no caso um trem para ajudá-lo expressar seus pensamentos e sentimentos. Ao longo do processo analítico, Dick começou a simbolizar apresentando melhoras na comunicação e na socialização. Klein acreditava que o sucesso da análise vinha com a diminuição das ansiedades e defesas que surgem por meio das fantasias.Trabalhou com a transferência negativa, pois considerava que por meio dela a criança entrasse em contato com suas emoções, seus sentimentos negativos e desta forma conseguia elaborá-los e não os reprimir.
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A Última Palestra do Recalcado

Por Rodrigo Lopes Barreto -  Boa noite pessoal! Eu tento ficar quieto no meu canto, mas insistem para eu voltar. Devo dizer que de início achei que haviam solicitado uma palestra sexy, ensaiei uma coreografia e tudo... (o palestrante olha para a plateia lascivamente, mas em seguida faz cara de enfadado e prossegue), mas depois vi que era apenas uma palestra que trata do que é meu conteúdo no âmbito dos ensaios da sexualidade e como esse conceito mudou em relação aos escritos sobre a histeria. Esse assunto é polêmico até hoje, dizem por aí que o fato de ter estrito os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade foi um dos motivos do Freud nunca ter ganhado um prêmio Nobel de medicina. Sim, já havia cancelamento no século passado... Pra quem ainda não me conhece, meu nome é Recalcado1 , sou diverso, múltiplo, o Freud era obcecado por mim, e eu sempre retorno!Antes de irmos ao tema principal desta palestra vamos relembrar brevemente os principais tópicos tratados nos ensaios em questão, no primeiro deles o autor discorre sobre as aberrações sexuais, divididas em desvios de objeto e desvios de meta. Um objeto sexual normal seria um indivíduo da mesma espécie, adulto e do sexo oposto, uma das aberrações neste contexto seria a inversão, um invertido era uma pessoa cujo objeto sexual seria alguém do mesmo sexo (o Recalcado revira os olhos). A meta sexual normal seria a união do pênis com a vagina na copulação, levando à resolução da tensão sexual e à diminuição momentânea do instinto sexual, tudo que estiver fora deste contexto é caracterizado como perversão. As perversões podem ser extensões anatômicas para outras áreas do corpo ou objetos, ou fixação em metas sexuais provisórias como tocar, olhar, sadismo e masoquismo. Eu sei que era mil novecentos e pouco, mas que caretice!No segundo ensaio é explorada a sexualidade infantil. Um recém-nascido traria consigo os germens dos impulsos sexuais, que se desenvolvem por algum tempo e depois sucumbem durante um período de latência, para depois regressar apenas na puberdade. A sexualidade infantil é autoerótica, ou seja, ela se satisfaz com o próprio corpo; perversa, porque a meta da sexualidade infantil é gerar prazer por meio da estimulação da zona erógena escolhida; e polimorfa, dada sua variabilidade de extensões para várias partes do corpo. Neste segundo ensaio também se detalham as fases iniciais do desenvolvimento sexual infantil. A fase oral, que consiste no prazer através do ato vital da sucção pela boca, a amamentação serve tanto à nutrição quanto à satisfação dos instintos sexuais, e depois esse prazer aprendido pode se estender à sucção de outras áreas da pele. A fase anal, onde a mucosa intestinal se apresenta como zona erógena e o prazer vem através da distensão causada pela retenção do material fecal. Eu aposto que vocês nunca mais vão pensar no intestino preso da mesma forma! (O Recalcado gargalha, a plateia ri nervosamente). A terceira fase é a fálica, onde a zona erógena se estabelece nos genitais, nesse momento a sexualidade infantil se torna mais próxima da forma definitiva adulta, e a criança toma conhecimento do seu corpo, de seus órgãos genitais e descobre os corpos e genitais dos outros também. Nessa fase se forma o complexo de Édipo, onde a criança desenvolve um desejo inconsciente pelo genitor do sexo oposto, e uma rivalidade com o genitor do mesmo sexo, e o complexo de castração, em que o menino ao descobrir o corpo feminino acha que ela teve o pênis cortado, e isso gera nele o medo inconsciente que o seu seja cortado também, ou que seu pai o corte em virtude de complexo de Édipo, já a menina, ao descobrir o pênis do menino sente inveja do mesmo. Babado forte!Ainda no segundo ensaio, somos apresentados à fase de latência, que começa ao redor dos seis anos de idade. Todos os instintos sexuais são suprimidos! (o Recalcado faz cara de espanto) Todas as atividades sexuais, lembranças e traumas vividos até aqui sucumbem à amnésia infantil, durante esse período são formados os poderes psíquicos que depois se colocarão como entrave no caminho do instinto sexual: o nojo, a vergonha, os ideais estéticos e morais. Em contrapartida, toda a energia libidinal seria desviada para outras atividades, resultando em grande exploração e aprendizado para as crianças. O terceiro ensaio trata da fase genital, a última fase do desenvolvimento psicossexual infantil, que ocorre na puberdade e marca a passagem à maturidade sexual. O instinto sexual que até então era predominantemente autoerótico, encontra agora um objeto sexual e todas as zonas erógenas se submetem ao primado da zona genital.Mas agora vamos ao que interessa. All about Recalcado! O que eu contenho? O que foi reprimido no inconsciente? Na minha primeira palestra nos debruçamos sobre os estudos da histeria, vimos que meu conteúdo era basicamente uma experiência traumática sexual vivida na infância. Na histeria esse trauma era sofrido de forma passiva, usualmente por mulheres, e a lembrança do trauma teria um efeito danoso maior que o trauma em si, ela era reprimida e eu surgia. Quando eu tentava retornar nas histéricas eu era somatizado em sintomas no corpo, esse processo se chamava conversão, e continha um traço mnemônico de mim. Mas a visão do tio Freud ficou bem mais abrangente...Após estudarmos os ensaios sobre a teoria da sexualidade podemos dizer que toda a experiência do desenvolvimento da sexualidade infantil foi reprimida, as vivências, as sensações, as lembranças, os complexos... e em especial como cada pessoa vivenciou esse processo. Todas essas impressões que esquecemos deixaram os mais profundos traços na nossa vida psíquica, e vão afetar profundamente quem somos e como nos relacionamos com os outros e com nós mesmos na vida adulta. Toda essa sexualidade infantil reprimida que me compõe tenta voltar à consciência... E eu retorno, lindamente, através de sonhos, sintomas, atos falhos, chistes, e veja que interessante, toda essa vivência sexual reprimida também pode se manifestar através da transferência durante um atendimento psicanalítico.Pra terminar preciso contar um fato curioso. Uma amiga de Catanduva foi comprar anticoncepcional, ficou desesperada ao saber que o medicamento estava em falta, me procurou sem saber o quê fazer... Vocês acreditam que eu dei um exemplar dos ensaios da sexualidade para ela ler? (o Recalcado ri) E deu certo! Nada como ler esses ensaios do Freud para cortar o clima e... (um homem acena na plateia, o Recalcado para de falar e respira fundo) Gente, esse é o Dr. Astolfo, meu advogado, ele tem medo que o Freud me processe novamente. Calma Astolfo! Não vai acontecer, essa é minha última palestra nesta prezada instituição. Mas eu retorno, eu sempre retorno. Boa noite a todos! Nota do autor1- Neste trabalho retomo o personagem do Recalcado, que fez uma primeira palestra em que se dirigia ao Freud como stalker e cobrava dele parte dos direitos autorais pela obra freudiana e uma segunda palestra, de retratação, como parte do acordo após perder o processo que o Freud moveu. Insta - 🧩📚 Uma leitura viva, provocadora e cheia de humor sobre o Recalcado, os Ensaios sobre a Sexualidade e as transformações do conceito de sexualidade na obra de Freud. Insta - @rodrigolopesbarreto
FREUD%20INCONSCIENTE%20E%20RECALQUE Blog Masonry - Results from #96

Freud, o Inconsciente e o Recalque

Por Marcio Ferreira de Carvalho -  Sigmund Freud (Sigismund Schlomo Freud ⁕ Freiberg, Morávia, 06 de maio de 1856; † Londres, 23 de setembro de 1939) afirmava, mediante o emprego de uma sentença que simbolizava parte de suas formulações sobre a psicanálise, que a descoberta do inconsciente deveria ser creditada aos poetas e filósofos que o antecederam. Coube a ele, no entanto, o desenvolvimento da metodologia científica que permitiria aos psicanalistas a exploração deste lado mais oculto da mente humana.   Em uma fase inicial de suas formulações, Freud interpretava que o inconsciente funcionava como um “quarto de despejos” ou um “depositário” de impulsos ou desejos que teriam sido reprimidos pela mente humana. Fossem elas de natureza sexual e ∕ ou agressiva, estas ideias recalcadas seriam, pois, consideradas incompatíveis com a consciência do indivíduo. Em muitas ocasiões seriam capazes, inclusive, de atentar contra a sua própria moral. Para permitir que este mesmo cidadão ou cidadã permanecesse funcional, tais representações, junto com as suas emoções não ab-reagidas, terminariam sendo amordaçadas pelo Eu e lançadas nas profundezas do inconsciente. Sigmund Freud em sua Segunda Tópica sobre a organização do aparelho psíquico e, posteriormente, o psicanalista suíço Carl S. Jung, aprimorarão tais conceitos. Jung afirmará que o papel do inconsciente é ser grande guia, amigo e conselheiro, principalmente através dos sonhos, da consciência. Foi com base nesta afirmativa que foi elaborada a sua obra “O homem e seus símbolos”. O aparelho psíquico humano, a fim de enfrentar emoções negativas e conflitos internos, e objetivando, sobretudo, impedir a perpetuação da ansiedade e da angústia geradas a tais divergências, lança mão de estratégias psicológicas para proteção do self. Estas ferramentas, denominadas “Mecanismos de Defesa” são, em sua grande maioria, atos automáticos e inconscientes de proteção do Ego. George E. Vaillant, professor de psiquiatria da Universidade de Harvard, classificou estes mecanismos de defesa conforme seu primitivismo ∕ complexidade, dividindo-os da seguinte forma:  1. Primitivos (precoces, com grande propensão à distorção da realidade): Negação; Projeção; Idealização; Clivagem do Eu; Onipotência; Identificação projetiva; Atuação; Evitamento; Conversão. 2. Intermediários (ocorrência na infância tardia e adolescência. Há distanciamento, mas com algum contato com a realidade): Repressão ou Recalque; Formação reativa; Isolamento do afeto; Racionalização; Intelectualização.         3. Maduros (tardios, complexos e adaptativos): Sublimação, Compensação; Humor; Altruísmo; Supressão.   O Inconsciente sempre busca se expressar mesmo que isso ocorra de forma indireta, nebulosa, enigmática ou simbólica. Lembremos ainda que ele tem como características ser amoral, aético, atemporal e alógico, sendo considerado desconhecido, infinito e incognoscível à luz da psicanálise. Ainda que as representações recalcadas nesta partição do nosso aparelho psíquico costumem perder a sua força, as emoções vinculadas a tais repressões tendem a permanecer bastante vivas, buscando suplantar mecanismos de defesa e censura internos, em uma tentativa de retorno à consciência. Após um período de incubação ou latência pós-trauma uma dada situação da vida de uma pessoa termina por promover um link por vezes simbólico com o recalque. A partir deste momento, dispara-se o mecanismo de retorno do recalcado, a tentativa de emersão emocional de antigos sentimentos conflituosos que haviam sido desviados para o inconsciente. São muitas as vias empregadas por esta tentativa de regresso: a energia não ab-reagida pode se direcionar, por exemplo, para o Soma, culminando em sintomas conversivos – mais um dos mecanismos de defesa primitivos do ego. Ela pode ser, por outro lado, deslocada para um objeto menos ameaçador como no caso das fobias. Por fim, pode se transformar em uma neurose obsessivo-compulsiva por distorções do pensamento. Em situações ainda mais severas, poderemos nos deparar com casos de psicose onde há verdadeira ruptura do aparelho psíquico humano com a realidade que o cerca.  Entre 1886 e 1995, Josef Breuer e Freud iniciam a utilização da Hipnose para reavivar memórias reprimidas no inconsciente. Com o emprego do método logo percebem, no entanto, as principais limitações para seu uso: apenas 80% dos pacientes eram “hipnotizáveis”, seus resultados eram passageiros e o acesso ao inconsciente era considerado imperfeito. Avançando em seus estudos, Breuer e Freud associam à hipnose, em 1895, uma nova ferramenta psicanalítica, o Método Catártico, objetivando liberar afetos reprimidos e promover a sua ab-reação. A suposta eficácia curativa do método, todavia, dependia de um sugestionamento concebido pelo próprio terapeuta e não pela promoção de um amadurecimento mental do paciente. No primeiro caso, o psicanalista estaria agindo como um pintor, acrescentando sentidos às ideias do paciente quando o ideal seria agir como um escultor, promovendo a remoção de excessos ou camadas para, aí sim, atingir o núcleo do recalque e permitir a elaboração e simbolização do conteúdo reprimido por parte do enfermo. Neste caso, cabe parafrasear duas citações correlacionadas. A primeira, de Platão, confere um aspecto artístico que pode ser ligado à psicanálise: “as formas perfeitas já existem no mundo das ideias, e o artista apenas as revela ao mundo sensível”; a segunda é atribuída ao escultor italiano Michelângelo Buonarroti: “O trabalho do artista é remover o supérfluo até que o essencial — a forma humana ou divina - seja revelada”.          As imperfeições dos métodos descritos acima conduzirão a outras formas de exploração do inconsciente. Surge, portanto, a técnica de Associação Livre. Em um ambiente de neutralidade, destituído de pré-conceitos, críticas, julgamentos, punições ou sugestões por parte do terapeuta, o paciente livre associa falando tudo que lhe vem à mente. O psicanalista, agindo com neutralidade, mantendo-se opaco como uma superfície espelhada para este mesmo analisando, sustenta o discurso, interpretando-o e conduzindo o paciente à elaboração e simbolização do conteúdo recalcado. Sonhos, conforme amplamente estudados por Freud em sua obra magna “A interpretação do sonhos” de 1900, lapsos, atos falhos e chistes também se apresentam como manifestações indiretas do inconsciente. A posteriore, entre 1912 e 1915, Freud desenvolverá um derradeiro conceito, a Transferência, considerando-a núcleo do processo analítico.   Gustave Le Bon, psicólogo francês, dizia que “qualquer que seja a razão, o inconsciente muitas vezes nos domina e sempre nos cega”. Cabe aos psicanalistas a tarefa de explorá-lo e a partir daí, quem sabe, pelo atrito destas duas pedras, a Psicanálise e deste mesmo Inconsciente, chisparão faíscas. Destas faíscas, obteremos o fogo e deste fogo, a luz que, por fim, eliminará a cegueira, ao emergir da escuridão*.         *Adaptação de uma frase atribuída ao escritor francês Victor Hugo.  
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Um Inimigo Imaginário

Por Juliana Oliveira Macedo Malassise -  Cresci escutando esta voz. Uma voz alta, forte, cruel. Ela me dizia que não estava bom, que Eu não era suficiente, que Eu não era boa o bastante. Na vida adulta, demorei, mas percebi que Eu não era esta voz. Mas ela estava ali desde o momento que eu acordava ao momento que eu dormia. Você tem que ser perfeita, você tem que ser melhor, você tem que emagrecer, você tem que trabalhar mais, você não chegou aonde queria. Mas porque Eu tenho que lidar com este julgamento que não sou Eu, que não me representa e que definitivamente não vai me fazer feliz. Vivo com um inimigo imaginário, ele mora na minha psique, no meu consciente, e é meu pior inimigo. Sinto culpa. Sinto culpa de dormir, de descansar, de comer. Sinto culpa de falar alto, de falar baixo, de me posicionar, de não me posicionar. Meu inimigo me diz todos os dias que estou errada e que não vou conseguir. Me machuca, dói. Eu sofro, mas sinto que mereço sofrer, gosto de sofrer. Meu inimigo busca um ideal, um ideal inalcançável, um ideal do Eu. Eu teria que ser super para conseguir, teria que ser um Super-eu. Freud diz que esta voz representa o herdeiro do complexo de Édipo, minhas primeiras identificações, as vozes da infância introjetadas, minha família. Eles eram meus investimentos libidinais, sabiam tudo, me ensinaram tudo. Eu os idolatrava e fazia qualquer coisa para conseguir sua admiração, sua aprovação, seu amor. No entanto, o mundo aos poucos foi me mostrando novidades, diferentes pontos de vista, reflexões. Escolhi o que me identificava, me dilui e floresci. E com isso meu Eu foi crescendo, se fortalecendo e se adaptando aos princípios da realidade. No entanto, Eu e esta voz vivemos um conflito sem fim. Meu inimigo imaginário insiste em coisas que não fazem mais sentido pra mim, distantes do meu Eu. E por mais que Eu fuja, tente esquecer, parte delas continuam ali, pois são primárias, imediatas e diretas. A voz do meu inimigo representa a sociedade, a moral, as instituições, a religião. Tudo que quer controlar o Eu de forma imperativa, categórica, reativa e coerciva. Me sinto doente, a voz dentro de mim é patológica, me adoece. Sou neurótica, psicótica, perversa. Nesta melancolia, estou sufocada. Afinal meu inimigo imaginário não se cansa, quer minha energia, meu prazer, julga minhas fantasias e me poda. Sinto que minha libido se derrete, estou gelada e sem forças para continuar essa briga, vivo em luto, estou destruída. Me destruí. Meu Super-eu me destruí. O inimigo dentro de mim me julgou e me condenou, Eu sou a culpada. Agora só quero dormir, desligar, aquietar e silenciar essa voz. Não quero ser mais Eu, só quero o descanso, a paz e o inorgânico. Não entendo, mas sinto Isso. Mas graças ao Eros, meu Eu é mais forte, retoma sua construção, sua transformação. Dizem que as pessoas não mudam, mas o Eu muda. O Eu é o líder, o rei, o racional. O Eu escolhe, programa, reprograma, substitui, desloca, configura. Eu já cheguei ao fundo do poço, e sei como é estar lá. Como consequência, tenho que renascer, resistir mais uma vez, buscar o meu prazer, minha vida. O amor e o ser amada. Assim, construo equilíbrio interior e exterior. Eu decido meus investimentos, me acolho, supero meu inimigo imaginário e me adapto ao mundo, sublimando mais uma vez. Todavia meu Eu gostaria de ter controle de tudo, é exaustivo. Minimizar riscos, fugir do medo e da sua angústia. Mas a realidade da psique humana é muito mais complexa e Eu não tenho controle. Existe algo abstrato que me move, Isso que é estranho quando aparece, que é inexplicável, mas ao mesmo tempo familiar. Isso é tão infinito, quanto meu mundo exterior e me impulsiona em direções que Eu não entendo. Esta força visceral e ambivalente exerce forte poder sobre mim, por mais que Eu tente domá-la. Isso aparece em meus sonhos, meus atos falhos, em comportamentos que Eu não entendo, em coisas que simplesmente faço sem saber o porquê. Está no meu princípio de prazer e nos meus desejos mais profundos e incompreensíveis. Isso não fala, Isso simboliza. Isso pulsa vida e morte, amor e ódio. Freud afirma na segunda tópica, que a psique é formada por três instâncias, o Isso, o Eu e o Super-Eu. Eu estou no meio desta sagrada trindade, na qual Isso é tudo, menos santo. O Super-eu compete para ser Pai, sua voz soa onipotente. E Eu? Ora busco satisfazer Isso, ora me defendo, esqueço, recalco, introjeto. Ora sou compulsiva, repito o padrão, escutando meu inimigo. Depois lembro, elaboro e construo, escolhendo meus objetos. Também fantasio, sonho, desligo. Ora sei o que fazer, ora não sei por que estou fazendo Isso. Mas sustento o não saber. Afinal, Eu sou Pai. Tenho que reforçar minha autoestima, e aceitar a frustração, o erro. Simplesmente confio. No meu Eu, no Isso, e por que não? No meu inimigo. Antes de enlouquecer, me aproprio da minha função egóica e invisto libido em mim. Um narcisismo necessário. Assim vivo este conflito. Esta guerra civil. Ao equilibrar prazer e realidade, Eu me liberto.
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A Palestra de Retratação do Recalcado

Por Rodrigo Lopes Barreto -  Boa noite a todos! Meu nome é Recalcado, creio que seja do conhecimento de todos que havia um litígio jurídico em andamento com o Sr. Freud, a quem jocosamente chamava de stalker, e faz parte do acordo a realização desta palestra de retratação no lugar do pagamento de danos morais. Hoje venho falar das primeiras proposições que o Sr. Freud fez de como eu poderia ser lembrado. Desde a antiguidade já se falava da influência do estado anímico sobre o corpo, e o Sr. Freud foi muito engenhoso ao juntar e organizar todo esse conhecimento, estamos falando do final do século XIX, época de avanços no conhecimento médico, mas limitados às alterações físicas do homem, todo sofrimento que estava sob influência de oscilações de ânimo e preocupações era visto com desdém. O Sr. Freud tinha pouco apoio em Viena, e seu interesse no tratamento da histeria o levou a fazer um estágio em Paris, no Hospital Salpêtrière, onde Charcot fazia uso de hipnose. Foiuma época muito divertida da minha vida, eu voltava em cada sintoma espalhafatoso, até crises convulsivas cheguei a simular, me divertia mais que os impressionistas nos cabarés de Paris.Impactado por essa visita, em conjunto com Breuer, o Sr. Freud propôs os primeiros esboços de tratamento anímico, fazendo uso do método de hipnose e sugestão. A hipnose levava o doente a um estado anímico de alta entrega, e então se aplicava o método da sugestão e do convencimento. A expectativa era que o paciente obedecesse a um comando verbal que cessaria o trauma e ao acordar os sintomas fossem resolvidos, mas o método começou a demonstrar falhas. Pra começar, alguns pacientes eram resistentes à hipnose e o método catártico era ineficaz nas neuroses de angústia e neurastenia, além disso, por ser um tratamento sintomático e não causal, novos sintomas apareciam no lugar dos eliminados... e por último (o Recalcado revira os olhos), corria a boca pequena que o Sr. Freud não era um bom hipnotizador. Meu advogado sofre!Há controvérsias, mas para alguns autores o Sr. Freud iniciou o desenvolvimento no tratamento psicanalítico logo após abandonar a hipnose. Ele tem ciência da capacidade dos estados anímicos se transformarem em processos corporais, da importância do vínculo com o paciente, e começa a entender a força da palavra. Esperava-se que o sintoma histérico desaparecesse de imediato quando despertássemos com clareza a lembrança do acontecimento motivador, liberando o afeto que o acompanha. Eu seria escoado ao consciente através da fala, e por fim processado e ab-reagido. O método era trabalhoso, demorado e necessitava de empatia por parte do médico, e de confiança e intelecto por parte do paciente. O Sr. Freud estimulava, insistia e demandava dos pacientes esforço para lembrar dos eventos traumáticos, pedia que se deitassem, fechassem os olhos e se concentrassem. Nesse período ele também lançava mão de uma pressão com o dedo na região frontal, o método era aplicado em situações de estagnação da fala, pedindo que eles dissessem a primeira coisa que lhes viesse à cabeça. Essa técnica funcionaria como uma hipnose momentaneamente forçada, dissociando a atenção do doente de sua reflexão consciente e permitindo que emergissem as lembranças. Com essa técnica ele esperava vencer por um instante a defesa, minha inimiga e uma força psíquica que se opõe ao meu retorno ao consciente. Não posso deixar de tocar em uma questão polêmica. Recalcado que sou, sofri muito quanto o Sr. Freud relacionou meu conteúdo à sexualidade infantil. Para ele, a sexualidade infantil está ligada com o que esquecemos, as causas das doenças histéricas se encontram nas intimidades da vida psicossexual e os sintomas são a expressão de seus mais secretos desejos reprimidos. O sintoma histérico é convertido em sintoma somático. No começo, o sintoma não é bem-vindo na vida psíquica, mas depois, alguma corrente psíquica acha cômodo servir-se do sintoma, que fica ancorado no inconsciente, a tentativa de cura-lo encontra grande resistência, que no fundo mostra que a intenção de se livrar do sofrimento não é legítima. O sintoma serve a algo psíquico que seria recriminado pela consciência, ele seria uma linguagem para aquilo que não pode ser contado, causa dor por um lado, mas por outro faz gozar. No fundo, no fundo, o histérico ama o seu sintoma e olha que legal pessoal, segundo o Sr. Freud um ‘não saber’ de um histérico, seria um ‘mais ou menos consciente não querer saber’ e a tarefa do terapeuta seria vencer essa resistência por meio do trabalho psicanalítico. Como havia dito na outra palestra, sou uma ideia patogênica, quanto maior essa ideia, mais graves e intensos são os sintomas que gero com o meu retorno, e o objetivo do tratamento psicanalítico era eliminar as resistências que obstruem o caminho até mim. A técnica pretendia fazer com que eu passasse pelo estreito da consciência, e isso tinha que ser feito com cuidado, forçar o paciente poderia me enterrar ainda mais. Seria necessário respeitar o tempo de formulação do paciente e ter ciência que num primeiro momento os sintomas do meu retorno poderiam piorar antes da ab-reação. Foi nesse sentido que o Sr. Freud me comparou a um corpo estranho, porque não tenho nenhuma conexão com o tecido que me circunda, mas lhe imponho uma reação, e podemos dizer que o infiltrado inflamatório ao redor que dificulta o acesso é a resistência. Gente, olha o Tio Sig usando modelo desde aquela época. Arrasou! Já no século XX, o método psicanalítico Freudiano segue evoluindo, fica evidente que não se tratava de apenas uma única impressão traumática, mas uma série delas, e a fala do paciente ganha cada vez mais importância. Dizem as más línguas que devemos isso à minha amiga Baronesa Fanny Moser, ao que tudo indica ela, tomada pelo espírito do ‘eu tô pagando’, solicitou que o Sr. Freud a deixasse falar em paz... (nova revirada de olhos)... e foi isso que ele fez, deitou os pacientes num divã, evitou o contato físico e tudo que possa lembrar a hipnose e se sentou em uma cadeira atrás deles. O tratamento poderia ser aplicado a uma quantidade ilimitada de doentes, e a partir deste momento o Sr. Freud buscava as ocorrências involuntárias do paciente que vinham do convite a falar livremente, mesmo que achando sem importância e sem sentido, evidenciando lacunas, que seriam preenchidas vencendo as resistências. Os fatos esquecidos são fruto do processo que me recalcou para evitar sensações desagradáveis ao paciente. Forças psíquicas querem me trazer de volta ao consciente, e a resistência se ergue contra o meu restabelecimento. As ocorrências involuntárias citadas acima são derivadas de formações psíquicas recalcadas deformadas pela resistência, quanto maior a resistência, maior a deformação. Nessa relação das ocorrências involuntárias com o material psíquico recalcado reside o cerne para a técnica terapêutica. Visando chegar até mim e me tornar consciente ele desenvolveu uma série de interpretações de atos involuntários, não planejados e de equívocos na vida do doente ao falar e agir, baseado no que lhe era informado tecia teorias, conceitos e os apresentava ao paciente, a reação do mesmo mostrava se havia chegado a um ponto muito incômodo e encontrado uma resistência mais forte. Fundamental também foi o aprofundamento na questão dos sonhos para compreender os processos psíquicos das neuroses e apoiar o processo psicanalítico, para o Sr. Freud todo sonho era a realização de um desejo. O conteúdo manifesto do sonho era fruto da defesa, que deforma, desloca e distorce para omitir o conteúdo onírico, e mesmo assim, o sonho estaria intimamente relacionado comigo, em última análise ele é um meio para contornar a censura e uma forma indireta de chegar até mim. Outra questão importante é o conceito da transferência. O paciente transfere para o médico as ideias penosas que emergem na consciência, e desperta o mesmo afeto que havia impelido o paciente a banir esse desejo ilícito. Para Freud ficou claro o quanto ela pode ser prejudicial ao tratamento se negligenciada, vide o caso Dora, mas por outro lado, perceber e comunicar a transferência pode fazer dela um poderoso recurso no tratamento psicanalítico. Em resumo, o método psicanalítico visaria suspender amnésias, me tornar reversível, tornar o inconsciente acessível ao consciente e reestabelecer no paciente a capacidade de realizar coisas e gozar a vida. A palavra vai tomando o lugar do pensamento consciente, lacunas aparecem, são preenchidas e assim atualizamos o passado no presente. Tudo vira linguagem e aos poucos desfazemos o processo psíquico que tanto sofrimento causou. Dívida paga Sr. Freud! Obrigado! Nota do autor1- No primeiro texto que publiquei neste blog (PALESTRA DO RECALCADO), criei um personagem chamado RECALCADO, ele dava uma palestra sobre o seu retorno, chamava Freud de stalker e chegava a pedir participação nos direitos autorais por se dizer muso inspirador da psicanálise. Havia uma questão jurídica em andamento entre os dois.  
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Hacia una clínica del entre: diálogo posible entre Bion, Lacan y Jorge Forbes

Por Richer Bustos Olórtegui -  Resumen El presente artículo propone un diálogo entre tres perspectivas psicoanalíticas que, en apariencia, pertenecen a epistemologías incompatibles: la teoría del pensamiento emocional de Wilfred Bion, la teoría del significante de Jacques Lacan y la clínica contemporánea del acontecimiento propuesta por Jorge Forbes. Se sostiene que, más allá de sus diferencias conceptuales, existe una convergencia ética y técnica centrada en la posición del analista como aquel que no sabe a priori, y que esta convergencia puede enriquecer la práctica clínica contemporánea. El artículo explora la posibilidad de una “clínica del entre”, donde distintas epistemes dialogan sin fusionarse, guiadas por una ética común del no-saber. Palabras clave: Bion, Lacan, Jorge Forbes, inconsciente, epistemología, ética, clínica psicoanalítica 1. Introducción: el problema de la pureza epistémica En la formación psicoanalítica es frecuente escuchar que ciertas escuelas no pueden mezclarse sin caer en una “aberración teórica”. En particular, se considera que las propuestas de Bion y Lacan son incompatibles: el primero parte de una epistemología del pensamiento emocional, mientras el segundo desarrolla una epistemología del significante estructural. Sin embargo, la práctica clínica muestra que los pacientes actuales no se presentan dentro de fronteras teóricas. En el espacio analítico, el sufrimiento psíquico convoca simultáneamente dimensiones emocionales, simbólicas y existenciales. Frente a esta complejidad, la pregunta no es si las escuelas pueden mezclarse, sino si es posible sostener una práctica ética capaz de moverse entre epistemes distintas sin perder su rigor. Este artículo parte de una hipótesis sencilla: El analista que mantiene una posición de no-saber a priori, respetando la ética de cada epistemología, puede articular productivamente las enseñanzas de Bion, Lacan y Forbes, enriqueciendo su clínica.   2. Dos epistemologías distantes, una ética convergente 2.1. Bion: pensar lo impensado En la tradición inglesa, Bion desarrolla una metapsicología del pensamiento fundada en la experiencia emocional. Su noción de “función alfa” describe la capacidad de transformar los elementos sensoriales brutos (elementos beta) en pensamientos soñables y pensables. El analista debe ofrecer una función de continente, permitiendo que el paciente transforme la confusión emocional en experiencia pensada. Su célebre recomendación técnica —“sin memoria, sin deseo y sin comprensión”— expresa una ética radical: el analista suspende todo saber previo para recibir lo desconocido. Solo así puede emerger el pensamiento genuino, no como explicación, sino como acto de metabolización emocional. 2.2. Lacan: el no-saber estructural Desde una epistemología estructuralista, Lacan redefine el inconsciente como “estructurado como un lenguaje”. El saber inconsciente no es un contenido reprimido, sino un saber que habla sin saberlo. El analista no posee ese saber, sino que sostiene el lugar donde el sujeto lo supone (sujeto supuesto saber). Por tanto, el analista lacaniano no interpreta desde un saber, sino que opera desde un no-saber estructural. Su función no es explicar, sino hacer posible que el decir del sujeto produzca su propio saber. 2.3. Jorge Forbes: saber-hacer con lo real Jorge Forbes, discípulo de Lacan, desplaza esta posición al contexto del siglo XXI. Frente al sujeto contemporáneo —fragmentado, sin grandes narrativas, confrontado al exceso de elección y goce—, Forbes propone una clínica del acontecimiento. El analista, dice él, no sabe sobre el sujeto, pero sabe hacer con lo que el sujeto dice. Se pasa del no saber al saber-hacer, es decir, una capacidad técnica y ética de operar en la incertidumbre, sin pretensión de verdad, pero con responsabilidad ante lo real.  3. El diálogo posible: una clínica del entre A pesar de las diferencias entre estos autores, encontramos una convergencia ética profunda: Dimensión Bion Lacan Forbes Posición del analista Sin memoria, sin deseo, sin comprensión No saber estructural (sujeto supuesto saber) Saber-hacer con lo real Fuente del saber Pensamiento emocional Estructura significante Acontecimiento del sujeto Finalidad clínica Capacidad de pensar la experiencia Subjetivación del deseo Creación de un estilo singular Ética Tolerar lo desconocido No imponer sentido No cerrar el acontecimiento Lo que converge no es la teoría del aparato psíquico, sino la posición ética frente al saber.En los tres casos, el analista no dirige el proceso; lo soporta. El saber no se aplica; acontece en la experiencia compartida.  4. Implicaciones clínicas En la práctica, esta “clínica del entre” permite una escucha más compleja y respetuosa del sujeto: • Cuando el paciente no puede pensar lo que siente, el analista puede operar bionianamente, conteniendo la experiencia bruta. • Cuando el decir se articula en significantes y repeticiones, la escucha lacaniana permite leer la estructura de su deseo. • Cuando el paciente comienza a inventar un modo singular de vivir, el pensamiento de Forbes ayuda a acompañar el acontecimiento sin clausurarlo. No se trata de sincretismo, sino de elasticidad teórica con rigor ético.Cada paradigma ofrece una lente distinta, pero el centro sigue siendo el mismo: el acontecimiento subjetivo.  5. Ética y pensamiento: más allá de las escuelas Freud fundó un método; Lacan lo radicalizó; Bion lo volvió experiencia; Forbes lo proyectó hacia la contemporaneidad.Cada uno pensó el psicoanálisis desde una condición del no-saber, pero con matices: • Freud: “recordar, repetir y elaborar” (saber por reconstrucción).• Bion: “pensar lo impensado” (saber por transformación).• Lacan: “dejar hablar al inconsciente” (saber por estructura).• Forbes: “hacer con lo que acontece” (saber por invención). Lo que une estas perspectivas es la ética del pensamiento abierto, una ética que privilegia la presencia del analista más que su teoría.  6. Conclusión: una ética del entreEl psicoanálisis del siglo XXI exige pensar más allá de las fronteras institucionales. No se trata de unir teorías, sino de permitir que se tensionen sin destruirse.La tensión entre Bion, Lacan y Forbes puede vivirse como un espacio fértil, donde el analista se deja afectar por múltiples modos de saber, sin aferrarse a ninguno.La clínica del entre no busca coherencia teórica, sino coherencia ética: sostener el vacío, escuchar el decir, tolerar lo impensado, y acompañar el acontecimiento.En esa intersección —entre pensamiento y lenguaje, entre emoción y estructura—es donde el análisis acontece.
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Nyx, Hypnos e Morfeu... Interpretando sonhos

Por Marcio Carvalho -  “Dorme, filho de Atreu, domador de cavalos, mas não dormem os conselhos de Zeus, que muito te ama. Manda-me ele, que do alto do Olimpo cuida de ti com benevolência, para dizer-te que deves armar imediatamente os fortes aqueus, pois agora poderá tomar a cidade dos troianos. Os imortais que habitam o Olimpo já não estão mais divididos em suas vontades. Hera conseguiu persuadi-los a todos. A sorte dos troianos está selada. Toma esta palavra a peito e não a esqueças.”O trecho acima está contido nos versos 1 a 34 do Livro II da Ilíada de Homero. Nesta obra, Agamêmnon tem um sonho premonitório, mas enganoso, enviado por Zeus que desejava, na verdade, destruir os Aqueus, um dos principais povos da Grécia antiga.Os estados oníricos, até bem próximo da obra magna de Freud, “A interpretação dos sonhos” de 1900, eram majoritariamente interpretados como uma mensagem externa, fosse ela sobrenatural, profética ou divina. Na antiguidade, vários foram os autores que conferiram aos sonhos tais qualificações. Heródoto, Historiador grego do século V a. C., atribuiu funções premonitórias e moralizantes aos sonhos dos Reis Xerxes, da Pérsia, e Creso, da Lídia, durante os seus confrontos pelo poder. Eurípedes, Ésquilo e Sófocles, poetas e – ou dramaturgos gregos interpretavam os sonhos como manifestações do além, geralmente agregando ao sonhado algum sentimento de culpa. No século II d.C., Cláudio Galeno, médico e filósofo de origem grega, liga os processos oníricos ao corpo e à saúde conferindo-lhes uma aura clínica. Santo Agostinho de Hipona em sua obra Confissões, do séc. IV, interpreta os sonhos como manifestações da alma, unindo-os à Deus e ao pecado. Já para Dante Alighieri, poeta florentino do século XIV, os sonhos seriam revelações místicas e espirituais, não devendo ser caracterizadoscomo fenômeno psíquico único. Em todas estas situações, conforme demonstrado, os estados oníricos eram interpretados como uma manifestação eminentemente heterônoma do ser humano. É na idade das luzes ou “Iluminismo” que se iniciam as mudanças de pensamento que nos conduzem às interpretações atuais sobre a dinâmica dos sonhos. O momento pré-psicanalítico moderno onde o sonho começa a ser visto como uma representação psíquica, simbólica e pertencente ao mundo interior de cada indivíduo passa por Montaigne, Descartes, Voltaire, Diderot e muitos outros pensadores modernos. Cabem a Carl Gustav Carus, médico, anatomista, filósofo e pintor alemão, no entanto, as primeiras observações que revolucionariam a interpretação dos sonhos. Para Carus, a maior parte da atividade da alma seria inconsciente, sendo esta partição da mente humana a base da nossa vida psíquica. Nossos sonhos seriam uma expressão, pois, deste âmago profundo. Os processos oníricos deveriam ser considerados, desta forma, como símbolos da interioridade psíquica, representando janelas para o oculto. Por fim, o mesmo Carus afirmava que os sonhos utilizariam imagens oníricas, poéticas e simbólicas para a manifestação de conflitos, desejos e experiências do homem.A visão de Freud era distinta daquela fornecida por Carus, pois, para o psicanalista austríaco, nos primórdios de suas observações, o inconsciente era um sistema estruturado de desejos reprimidos. Talvez por desejar firmar a psicanálise como uma ciência empírica da mente e não como uma parte da tradição médico-filosófica romântica ou idealista da Alemanha, Sigmund Freud tenha se afastado propositalmente de Carl Gustav Carus, considerando-o, assim, um filósofo especulativo. A identificação positiva de Freud se alinhava principalmente com Artemidoro de Daldos, escritor grego do século II d.C. que foi o primeiro a formular a hipótese de que os sonhos representavam uma linguagem simbólica natural sendo, desta forma, passíveis de decifração regular e sistemática. Freud escreveu: “Artemidoro é, a meu ver, de todos os autores antigos sobre sonhos, o único digno de interesse.” Aristóteles foi outro dos autores enaltecidos por Freud. Contrapondo-se ao psicanalista austríaco, Carl Jung, em sua obra “Tipos Psicológicos” de 1921, afirma, no entanto, que “A ideia de um inconsciente como fundamento da vida anímica teria sido expressa de forma clara e sistemática por Carl Gustav Carus.” O psicanalista suíço e ex-discípulo de Sigmund Freud – a ruptura ocorreu em 1913 – termina por dar o devido valor e reconhecer a real importância deste autor para o nosso melhor entendimento do aparelho psíquico humano.Para a psicanálise, o sonho não é um produto aleatório do nosso aparelho psíquico. São, na verdade, estruturas notoriamente complexas, enigmáticas, mas passíveis de interpretação, pois representam a realização disfarçada de um desejo inconsciente, repressões, traumas e ou conflitos que foram obrigados a escapar à consciência. É de William Shakespeare, em “A Tempestade”, a citação de que “Somos feitos da mesma matéria que os sonhos”. Sigmund Freud postulou que os sonhos devem ser considerados a via régia para o inconsciente, sobretudo porque nossas defesas e censuras encontram-se atenuadas durante o estado de adormecimento. A formação de um compromisso entre o desejo inconsciente e a censura imposta pelo Superego de um indivíduo será a base para a criação de uma estrutura onírica camuflada pelo forte emprego de imagens e símbolos. Nesta elaboração, podem ser aproveitados fragmentos do estado de vigília e memórias oriundas da nossa infância e juventude. A parte lembrada e narrada pelo sonhador, mais fresca ao acordar, representa seu conteúdo manifesto. Já os significados ocultos e os desejos inconscientes que deram origem ao sonho estarão contidos em uma partição onírica intitulada de conteúdo latente. A partir da primeira, buscaremos compreender a segunda através, principalmente, de uma análise paulatina e fragmentada por blocos e do uso da livre associação. Gáston Bachelard, filósofo francês, disse que “O sonho é o teatro onde o sonhador é ao mesmo tempo o palco, o ator, o diretor, o público e o crítico do espetáculo”. Adicionalmente, lembremo-nos que o sonho também opera como um guardião do sono, impedindo-nos de despertar.Ninguém afirmou que a tarefa de desvendar os sonhos seria fácil. Mas também não se trata, por outro lado, da reedição do Mito de Sísifo e sua correlação com trabalhos repetitivos e impossíveis. Com o objetivo de driblar a censura psíquica que se opõe à manifestação das representações ligadas a um dado desejo, a mente humana lança mão de recursos para distorcer e disfarçar o impulso que determinou a formação do estado onírico. Condensação, Deslocamento, Dramatização, Simbolização e Elaboração Secundária, são as principais escaramuças empregadas pelo nosso inconsciente para driblar as defesas internas contra a sua expressão. Antes de conceituarmos todos estes termos, no entanto, remarquemos que “Todos os sonhos têm o sonhador como centro. Os sonhos são absolutamente egoístas”, conforme afirmou Freud. Segue, a partir de agora, uma síntese dos principais trabalhos oníricos:   Trabalho do Sonho - Definição e Objetivo Principal Condensação         - Vários pensamentos ou desejos inconscientes se fundem em uma imagem ou elemento onírico. Deslocamento        - Transferência da carga afetiva ligada a um conteúdo relevante para um elemento de menor significância. Dramatização         - Pensamentos abstratos são convertidos em imagens sensoriais ou narrativas visuais, como cenas teatrais. Simbolização         - Transformação de desejos, traumas ou conflitos inconscientes em imagens ou ações simbólicas. Elaboração Secundária - Conferência de ordem e aparência lógica ao conteúdo onírico. Prezado leitor, realizemos juntos que o sentimento individual de plenitude pode ser encarado como uma verdadeira fantasia narcísica. O  escritor argentino Jorge Luís Borges afirmou que não há um “Eu”, mas o cruzamento de infinitas histórias que o habitam. Ninguém se tornará iluminado imaginando figuras de luz, da mesma forma que a leitura de cardápios de restaurantes não será capaz de saciar a fome humana.Como disse Lacan, “não há sujeito plenamente transparente a si mesmo”. Nossa consciência é um palco iluminado por um facho de luz rodeado de sombras e é numa destas secções opacas que reside o nosso inconsciente. Como sabemos, é atributo deste mesmo inconsciente querer sempre se manifestar, não obstante as ferramentas empregadas para que consiga alcançar tal objetivo. Sonhos representam, pois, instrumentos de menor resistência às emissões desta partição do nosso aparelho psíquico. Parafraseando Jung, sonhos não mentem; são símbolos puros, vivos e genuínos da alma humana. São resultado de uma função mental que transforma elementos brutos das nossas experiências emocionais em pensamentos propositalmente desorganizados e confusos. É através deles que o inconsciente envia toda espécie de fantasias, seres estranhos, terrores e imagens ilusórias à mente humana. Seu adequado entendimento depende, portanto, de nos tornarmos conscientes da nossa escuridão anímica. A poetisa Cecília Meireles postulou que havia aprendido com as primaveras a se deixar cortar para voltar sempre inteira, uma boa metáfora para simbolizar o ofício psicanalítico. Lembremos: somos uma pergunta. Somos feitos de palavras que não dissemos. Somos feitos e refeitos diária e continuamente.Conhecemo-nos na medida em que nós nos destruímos. Sigamos, pois, alguns grandes aforismas da humanidade: o primeiro, pertencente à entrada do Oráculo de Delfos, Templo de Apolo, “Conhece-te a ti mesmo”; o segundo, de Friedrich Nietzsche em “Assim falava Zaratrusta” – “Torna-te quem tu és”. Deixe-se ser conduzido e mergulhe, pois, nas profundezas da sua mente, no seu próprio inconsciente. “Conhece-te ou te devoro”, diria a você, prezado leitor, a Esfinge de Tebas. O último parágrafo contém citações adicionais de Clarice Lispector, Marguerite Duras, Virginia Woolf e Georges Bataille.
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Pensar o que Acontece sem Perder o que se Sente

Por Carlos Guilherme - Quando penso em “abstrair” dentro da clínica psicanalítica, não vejo isso como ignorar fatos ou se distanciar da realidade. Para mim, abstrair é suspender por um momento o detalhe imediato, para enxergar o padrão emocional que organiza a experiência. É mudar a lente para ver a trama maior. Com Freud, observei que esse movimento é como a passagem das “coisas” para as “palavras”: transformar o bruto em simbólico, tornar pensável aquilo que, de início, só se sente. Não é intelectualizar para fugir do afeto, mas nomear para poder se aproximar dele com segurança. Com Klein, pensei que, ao abstrair, muitas vezes saímos do concreto — daquela pessoa ou situação específica — para perceber o objeto interno que está sendo ativado. Podemos então identificar fantasias recorrentes, como a de que “o objeto bom some e o objeto mau permanece”, e mapear movimentos psíquicos entre fragmentação e integração, sem rotular, mas compreendendo o funcionamento. Com Bion, entendi a importância de estar “sem memória, sem desejo e sem compreensão”, no sentido de me despir das teorias prontas para poder conter o material que o paciente traz. É ali que a abstração se torna função alfa: receber o que chega ainda bruto, metabolizar e devolver numa forma que possa ser pensada. Na prática, isso quer dizer que, se um paciente me conta três situações diferentes e, em todas, ele conclui dizendo “acho que incomodo”, eu deixo de lado, por um momento, os detalhes de cada história e presto atenção no que elas têm em comum. Percebo então um padrão: “quando me aproximo, sinto que corro o risco de ser rejeitado”. Organizar assim não significa negar o que aconteceu em cada caso, mas abrir caminho para entender de onde vem essa sensação, como ela aparece na relação comigo (transferência) e quais estratégias o paciente usa para não entrar em contato com essa dor. Abstrair, para mim, é um trabalho de coautoria: o paciente arrisca nomear sensações, eu contenho e devolvo; ele prova se faz sentido, e juntos construímos um enunciado que organiza a experiência. A abstração só cumpre seu papel quando devolve liberdade — quando o paciente, diante de um fato semelhante, pode responder a partir de si, e não apenas reagir no automatismo do passado. Gosto de sintetizar assim: Abstrair é aprender a pensar o que me acontece, sem perder o que eu sinto. E, na clínica, é justamente nesse ponto que nasce a possibilidade de transformação.