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Pensar o que Acontece sem Perder o que se Sente

Pensar o que Acontece sem Perder o que se Sente

Por Carlos Guilherme - Quando penso em “abstrair” dentro da clínica psicanalítica, não vejo isso como ignorar fatos ou se distanciar da realidade. Para mim, abstrair é suspender por um momento o detalhe imediato, para enxergar o padrão emocional que organiza a experiência. É mudar a lente para ver a trama maior.

Com Freud, observei que esse movimento é como a passagem das “coisas” para as “palavras”: transformar o bruto em simbólico, tornar pensável aquilo que, de início, só se sente. Não é intelectualizar para fugir do afeto, mas nomear para poder se aproximar dele com segurança.

Com Klein, pensei que, ao abstrair, muitas vezes saímos do concreto — daquela pessoa ou situação específica — para perceber o objeto interno que está sendo ativado. Podemos então identificar fantasias recorrentes, como a de que “o objeto bom some e o objeto mau permanece”, e mapear movimentos psíquicos entre fragmentação e integração, sem rotular, mas compreendendo o funcionamento.

Com Bion, entendi a importância de estar “sem memória, sem desejo e sem compreensão”, no sentido de me despir das teorias prontas para poder conter o material que o paciente traz. É ali que a abstração se torna função alfa: receber o que chega ainda bruto, metabolizar e devolver numa forma que possa ser pensada.

Na prática, isso quer dizer que, se um paciente me conta três situações diferentes e, em todas, ele conclui dizendo “acho que incomodo”, eu deixo de lado, por um momento, os detalhes de cada história e presto atenção no que elas têm em comum. Percebo então um padrão: “quando me aproximo, sinto que corro o risco de ser rejeitado”. Organizar assim não significa negar o que aconteceu em cada caso, mas abrir caminho para entender de onde vem essa sensação, como ela aparece na relação comigo (transferência) e quais estratégias o paciente usa para não entrar em contato com essa dor.

Abstrair, para mim, é um trabalho de coautoria: o paciente arrisca nomear sensações, eu contenho e devolvo; ele prova se faz sentido, e juntos construímos um enunciado que organiza a experiência. A abstração só cumpre seu papel quando devolve liberdade — quando o paciente, diante de um fato semelhante, pode responder a partir de si, e não apenas reagir no automatismo do passado.

Gosto de sintetizar assim:

Abstrair é aprender a pensar o que me acontece, sem perder o que eu sinto.

E, na clínica, é justamente nesse ponto que nasce a possibilidade de transformação.