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A Sessão que Nunca Aconteceu

A Sessão que Nunca Aconteceu

Por Juliana Oliveira Macedo Malassise - 

Diversas vezes me imagino no fatídico momento da primeira experiência como analista. Nesta fantasia estou concentrada e tentando não transparecer o medo ou qualquer outra emoção que virá com o relato do analisando. Sou uma pessoa expressiva, como vou treinar este comportamento? Tento imaginar quem será essa pessoa, vou querer saber tudo sobre ela! Como controlar as emoções e me voltar a técnica? Será que seremos capazes de construir um vínculo? Já vivo uma contratransferência durante este sonho e me frusto, sempre numa tentativa de controle. Mas a psicanálise não é ciência, não é empírica, está na singularidade da experiência, portanto nunca será possível prever uma sessão de análise.      

Me conforto pensando que estou no caminho da formação que Freud propõe, vou me esforçar na escuta real e cuidadosa e acredito que até lá serei capaz de conduzir a associação livre e a atenção flutuante. Mas interpretar o inconsciente, as resistências e construir uma transferência positiva com o paciente, me intimidam. Nosso trabalho é complexo, lidamos com o recalque, com a fuga, com a ferida. Quem são os corajosos que retornam para sua sessão semanal de análise, lidando com os mecanismos de defesa provocados por este processo e dispostos a falar tudo sem censura? E se meu analisando não voltar? Freud enfatiza que ler não é suficiente, é preciso dominar a técnica e seguir um método clínico rigoroso. Reflito que isso exige horas de voo, supervisão, análise pessoal. E durante esta construção do meu Eu analista, como lido com a frustração de saber que meus primeiros analisandos me terão ainda prematura, recém-nascida e frágil? 

Freud enfatiza que o início do tratamento psicanalítico é primordial e cria as condições para a análise. Sem pressão, mas… temos que acertar de primeira! O paciente deve entender que o autoconhecimento e a fala do analista serão chave no processo. Reflito sobre a importância do contrato entre analista e analisando que o autor propõe, afinal o compromisso do paciente durante este longo processo, é parte significativa da efetividade. Neste processo de reflexão sobre as regras no meu setting psicanalítico, reflito o que inviabilizaria a análise para o meu Eu analista. Quais situações não serei capaz de conduzir? Quais compromissos vou propor para meu analisando? Quem não sou capaz de analisar? Muitas perguntas, poucas respostas. 

Me imagino aguardando por longas sessões a tão esperada transferência e a qualquer sinal dela um sorriso interno: é isso, agora devo estar no caminho certo. Será que ele vê em mim uma mãe, um pai… sou muito nova para ser mãe dele. Mas existe aqui um afeto deslocado, transferido, a sessão está viva! Agora preciso explorar esta experiência emocional e instigar esta conversa. Este seria um cenário quase perfeito, mas se a transferência for negativa ou erótica, será que é possível conduzir? Para isso serão necessárias muitas horas de supervisão e análise pessoal.  Este P&L está negativo, com sorte em 5 anos terei zero a zero em minha contabilidade. 

Freud nos alerta sobre a transferência negativa, mas considerando a ambivalência dos afetos, suponho que ela deva ser comum. Me pergunto constantemente como lidarei com ela e se será possível não contra transferir. Como despersonalizar esta experiência? Nestes momentos serei a analista, ou meu inconsciente irá aparecer e me defender com uma resposta automática e repetida? Freud não nos instrui sobre como conduzir uma transferência negativa, ele menciona que em cenários como este o processo psicanalítico pode se tornar até inviável. Discordo. Em minha reflexão a transferência é negativa e positiva simultaneamente sempre, como nossos afetos que divergem e se misturam. O amor é ódio, constantemente cheio de raiva, remorso e decepção. Vejo a conduta neste cenário similar a que Freud nos recomenda na transferência positiva, deixar a vivência da transferência acontecer sem reprimi-la ou agir sobre ela correspondendo-a. Com paciência, neutralidade, escuta atenta e ética, a transferência deve ser interpretada: o que o inconsciente está repetindo durante a sessão de análise? Reflito que uma transferência em seus momentos negativos possa ser contornada, e continuar sendo vivida pelo paciente durante seu processo psicanalítico.              

Me questiono como será conduzir uma transferência erótica de forma ética e neutra, interpretando-a e talvez precisando ter está difícil conversa com o analisando. Será que seguirei o caminho do Jung e quiçá muitos outros, e viverei um romance?  Será que indico a psicanálise clínica para as minhas amigas solteiras? Ser analista será então lidar com afetos intensos ou até perturbadores durante o horário comercial e tenho que me preparar para tratá-los como material clínico? Hilário, mas me defendo com o humor sádico quando sinto desespero.   

Felizmente o manejo técnico da transferência amorosa proposto pelo autor é claro, o que entendo que ajudou a psicanálise ao longo de sua história a se consolidar como uma prática ética e respeitada. Ser neutro significa não corresponder e não rejeitar, manter a postura profissional e o foco na clínica interpretando o conteúdo transferencial do amor.    Após refletir, me conformo concluindo que esta e muitas outras experiências serão mais temerosas até serem vividas, contudo o debate e as experiências compartilhadas na nossa egrégora tem me fortalecido e me preparado para o futuro.     

Quantas repetições tenho observado em minha vida após estudar o método psicanalítico freudiano, como não tinha percebido antes? Estiveram sempre aqui, gritando! Mas o dia a dia automático nos entope de atividades, máscaras e performance. Não temos tempo ou espaço para lembrar e elaborar o que o inconsciente transborda. Viva a análise pessoal, preciso dela!  E com meu analisando? Quando estabeleceremos uma transferência forte que permitirá uma repetição? E será que seremos capazes de construir as lembranças dos recalques contidos nela? Percebo a fragilidade do analisando em tal situação, no qual a relação analítica permite a manifestação inconsciente. Se o setting analítico não for confiável, confortável, a experiência pode se tornar mais um evento traumático. E definitivamente entendo a insistência do autor com a transferência. O desafio de enfrentar a repressão e superá-la exige um alicerce, construído sessão a sessão.

O termo repetição de padrões atualmente ganhou escala, contudo sabemos o que fazer com tais repetições? Qual o conteúdo latente por trás de tais encenações e quantas camadas serão enfrentadas para acessá-lo? E mesmo quando a elaboração analítica nos traz tais respostas será que estamos prontos para abandoná-las? Quantas vezes em minha análise pessoal me vi desgastada e envergonhada por trazer novamente o mesmo assunto que intelectualmente já acreditava ter superado. Como analistas sabemos que sempre existe mais uma camada a ser explorada, e que parte do inconsciente jamais será acessado. Todavia para o analisando o processo pode ser cansativo e dolorido demais. Me questiono como incentivá-lo, como não o perder e como transmitir confiança através de uma metodologia tão subjetiva.   

Freud corrobora com Kant ao relatar sobre a realidade. A psique transforma a realidade dentro de um molde, portanto o objeto em si é sempre incognoscível. A realidade assim com a psicanálise é singular. Físico e psíquico nunca são o que parecem ser, e no meio destas incertezas se constrói o trabalho de um analista. Consciente de que a realidade do inconsciente é inacessível, o analista vive em meio a seus próprios sintomas, atos falhos, sonhos, fobias, impulso, intuições e associações. Tentando interpretar sintomas, atos falhos, sonhos, fobias, impulsos, intuições e associações de seu analisando. E associar estes atos latentes com processos conscientes, como representações, decisões, aspirações. Haja atenção flutuante para dar conta desta complexidade em 50 minutos de sessão, e enquanto isso analisando e analista angustiados na busca de uma quebra de censura psíquica indestrutível. 

Sou censurada por mim mesma. Censura do eu, censura do super eu, censura do inconsciente.  Censura que vem da infância na qual eu acreditava ser dona de minhas pulsões e que permanece atemporal em minha mente. Não importa que minha lógica e vivência tenham me trazido novas realidades. A primeira infância marca, tatua na psique limites invisíveis, e somos retirados do princípio do prazer e arremessados na realidade na latência. Não é de se admirar que todos tenhamos traumas, como prefiro chamar, e que eles certamente como o autor descreve, pipocam na angústia nossa de cada dia. 

Contudo ainda me questiono o que é este tal de inconsciente que tenho que interpretar? Imagino um calabouço escuro no subsolo que guarda tesouros, nossos prazeres, ligado ao consciente por uma escada. Esta escada, o pré-consciente, permite algumas pulsões transitarem, mas existe uma porta trancada que limita o acesso, a repressão. Estes três ambientes estão em constante movimento… e subir e descer escada o dia todo cansa! Precisamos descansar! A energia mental consome diariamente 20% da energia total do nosso corpo, e o cérebro possui apenas 2% em tamanho. Os pensamentos cansados por esta dinâmica, buscam formas de chegar ao andar de cima e assim sintomas, atos falhos, sonhos, fobias, impulso, intuições e associações conseguem destravar a porta.   Como analistas estamos subindo estes degraus com nosso analisando, conduzindo este processo exaustivo. Quando meu analisando precisa de uma pausa? Será que ele está pronto para o próximo degrau? E se ele quiser descer a escada novamente, afinal descer é sempre mais fácil do que subir? 

Na infância, quem conduziu ou impediu a subida desta escada? Imagino que a escada pode ter sido marcada por obstáculos vindos da realidade, nossos traumas. Um degrau desnivelado ou uma tábua falsa, que dificultam ainda mais esta subida. E os prazeres perdidos a muito tempo no fundo do calabouço nos assustam, causam estranheza, e se forem perigosos? E se forem extraordinários? É inspirador conduzir esta subida, esta transformação. Respiro fundo e sigo para a próxima leitura, o próximo aprendizado, o próximo analisando. Sei que o caminho é escuro, e que muitas vezes não saberei como enfrentar o próximo degrau. Mas me comprometo e me responsabilizo entendendo a complexidade de ser analista, e finalmente concluo que um degrau em falso na minha própria subida ou o medo desta escuridão estão intrínsecos ao processo.