tr?id=1902345913565961&ev=PageView&noscript=1 A Palestra do Recalcado

Blog

O melhor conteúdo da internet sobre psicanálise

A Palestra do Recalcado

A Palestra do Recalcado

Por Rodrigo Lopes Barreto - 

Boa noite a todos! Acredito que a maioria de vocês me conheça, mas talvez tenham me esquecido, ou rechaçado, e alguns podem até ter me retornado, sou muito diverso, estou em todos e por vezes sou vários na mesma pessoa... Sem mais delongas, meu nome é Recalcado, pouco se falava sobre mim até do final do século XIX, quando apareceu um senhor que fez de me encontrar seu ofício. Em termos atuais, ele era meu stalker, e por questões jurídicas estou proibido de dizer seu nome.

O assunto é sério e vamos partir da minha origem. Eu não queria ter sido recalcado, mas um dia fui uma experiência afetivamente marcante, porém muito desagradável, intolerável, experiência essa que não pôde ser processada ou ab-reagida, e por isso mantive todo o afeto que me coube inicialmente. Eu geraria muito sofrimento se constantemente lembrado, soube que o aparelho mental se esforça muito em manter a soma de excitação constante ou o mais baixo possível, e que eu atrapalharia esse equilíbrio. Fui rotulado como trauma psíquico e considerado incapaz de estar no consciente, fui reprimido e transferido para o inconsciente.

Quando cheguei ao inconsciente até de corpo estranho fui chamado, e não bastasse isso, meu stalker insistia em dizer que sou de conteúdo sexual, pior que isso, ele afirmava que apenas representações de conteúdo sexual poderiam ser recalcadas, dizia que produziriam um processo excitatório nos órgãos genitais semelhantes aos produzidos pela própria experiência sexual, e que esta excitação somática depois seria transferida para a esfera psíquica. Tratarei minha relação com a questão da sexualidade num momento futuro desta palestra. É tabu né gente?

Estar no inconsciente é difícil, não gosto de viver aqui, é escuro, estranho e inacessível a maior parte do tempo. A pressão é enorme, ninguém me procura e eu quero ser lembrado, quem sabe ajudar a pessoa que me abriga a ab-reagir. Quero retornar e é nesse momento que tudo se complica. Começo a tentar fugir e a mandar pequenas mensagens para o consciente, mas encontro algo muito forte, a defesa.

A defesa é linha dura e opera para barrar tudo que põe em perigo a consciência. É a inimiga número um dos desejos e afetos reprimidos do inconsciente, e das formações e representações que de nós derivam. Sempre que tento voltar ela me bloqueia, mas nem mesmo as melhores defesas, dos melhores times de rugby são imbatíveis, e às vezes a defesa do consciente falha... (o Recalcado olha afrontosamente para a plateia e dá um beijinho no ombro) ... e eu retorno. O meu retorno é penoso, a defesa me deixou passar, mas a lembrança que eu queria levar, tal qual um jogador de rugby, foi empurrada, puxada, esmurrada tão intensamente que foi deformada e voltou como um sintoma.

Apesar de ter várias mágoas em relação ao meu stalker, devo admitir que ele fez um excelente trabalho ao estudar as neuropsicoses de defesa e categorizá-las, dando especial atenção à maneira como eu me formo, e ao sintoma que gero com meu retorno. O primeiro grupo estudado por ele foram as neuroses histéricas, nelas eu estou relacionado à lembrança de um trauma sexual da infância, sofrido de forma passiva, usualmente por mulheres, e esta lembrança tem um efeito danoso maior que o trauma em si, ela é reprimida e eu surjo. Quando eu tento retornar nessas pessoas sou somatizado em sintomas no corpo, esse processo chama conversão, e contém um traço mnemônico de mim. Posso retornar como vômitos, paralisias, dificuldades de deglutição, cegueira, dores, espasmos, afasias, tremores... Que mundo cruel, justo eu, que só queria retornar e provocar uma ab-reação1 .

O segundo grupo são as neuroses obsessivas, aqui também há uma experiência sexual, mas praticada de forma prazerosa e participativa, geralmente acomete homens e costuma ocorrer num momento mais tardio da infância. Aqui meu conteúdo é uma autoacusação, que fica ligada à lembrança dessas ações prazerosas, a defesa me contém por um tempo e quando ela falha eu retorno, mas dessa vez acontece uma espécie de trégua, chamada de formação de compromisso, que nada mais é que um jeitinho de ser admitido no consciente, satisfazendo ao mesmo tempo os desejos do inconsciente e as exigências da defesa, alguma coisa contemporânea toma o lugar de algo do passado e alguma coisa sexual é substituída por uma não sexual. Dessa trégua surgem os sintomas, que são os pensamentos e as ações obsessivas. Por último temos as paranoias, mais uma vez oriundas de uma experiência sexual na infância. Na paranoia meu retorno é uma grande bagunça e pode trazer grande variedade de sintomas. As alucinações visuais por exemplo, carregam traços mnêmicos similares às histerias, e assim como nas neuroses obsessivas há autoacusações, e quando a defesa falha, meu conteúdo auto acusatório volta inalterado, destinado a terceiros, e o sintoma gerado é a desconfiança nas outras pessoas, esse processo é chamado de projeção.

Não posso terminar esta exposição sem falar na técnica que meu stalker desenvolveu para me libertar, inicialmente de forma forçada, com uso de hipnose, e depois com o desenvolvimento de um processo que acessa o que está inconsciente e remove camada por camada o que lá está, com muita escuta e paciência. Como muso inspirador eu acho que merecia parte dos direitos autorais e... (nesse momento o Recalcado vê na plateia seu advogado desesperado pedindo que ele pare de falar) ... chegamos ao fim dessa palestra, não deixem de acompanhar meu podcast e quem tiver interesse poderá adquirir cópias autografadas do meu livro ‘Voltei, e agora?’ na saída do anfiteatro.

Agradeço a todos pela atenção, e me desculpem pelo trocadilho, mas qualquer hora eu retorno.

Nota do autor

1. Que dificuldade se colocar no lugar de um afeto recalcado.