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Da Histeria à Psicanálise

Da Histeria à Psicanálise

Por Marcio Ferreira de Carvalho - 

A psicanálise nasceu de um novo entendimento sobre as doenças psiquiátricas que se seguiu a promulgação da Lei dos Alienados de 1838, na França. Até então, pacientes psiquiátricos formavam um conjunto de loucos cujo destino era a varredura social mediante confinamento, muitas vezes arbitrário, em asilos ou hospícios. Esta mudança de paradigma nos levará, anos mais tarde, às novas práticas médicas desempenhadas por Jean-Martin Charcot, Josef Breuer e Sigmund Freud, dentre outros, uma vez que o preconceito outrora vigente dará lugar, mais tarde, a um novo e genuíno interesse científico pelos doentes e pelas doenças mentais.

As teorias vigentes no período pré-psicanalítico diziam que as doenças mentais tinham obrigatoriamente causas biológicas, além de apresentarem representações anatômicas neurológicas sólidas. Para Freud, no entanto, a comprovação da existência de um inconsciente humano era uma hipótese cada vez mais plausível e este ponto de vista, junto com várias outras divergências científicas com o Dr. Meynert, chefe da Clínica Psiquiátrica da Universidade de Viena, seu local de trabalho, conduzem estes dois profissionais a uma ruptura definitiva, culminando no desligamento de Sigmund Freud da instituição. Adicionalmente, Freud era judeu. Para atingir a posição que almejava, a de professor titular, dependia do aval do Ministério da Educação e, em certos casos, do próprio Imperador Francisco José I. Isto era algo de ocorrência extremamente difícil para a época em questão. 

De Viena para Paris. A histeria foi a condição mental modelo para o desenvolvimento da psicanálise. Assistindo às aulas ministradas pelo Prof. Charcot em Paris, Sigmund Freud tem contato com uma nova realidade em psiquiatria. Atuando no Hospital Salpêtrière e utilizando a hipnose como instrumento principal de pesquisa, Charcot constata que diversos sintomas histéricos tais como paralisias, tremores e cegueira podiam ser eliminados, recriados ou mesmo modificados durante o estado de transe. Adicionalmente, era possível fazer com que um paciente virtualmente copiasse os sintomas de um outro enfermo utilizando-se da própria sugestão hipnótica. Lembremos que o histérico é, em última análise, um grande imitador. Tendo como base as claras demonstrações por parte de Jean Martin Charcot que os sintomas histéricos não se apoiavam em fenômenos orgânicos ou estruturais, foi a partir do Salpêtrière que Freud formula as suas primeiras teorias sobre a mente humana e alguns dos seus sofrimentos psicológicos.             

Na sociedade vienense do final do século XIX e início do século XX havia, sobretudo entre mulheres de classe média e alta, uma elevada prevalência de uma condição patológica reconhecida como histeria. Este distúrbio mental marcantemente feminino, que toma seu nome da palavra grega “hystera” (útero), era bastante vinculado às repressões sociais direcionadas às mulheres não só desta época, mas ao longo de toda história. De forma ainda mais específica, era resultado das contenções impostas ao corpo e à sexualidade feminina, eclodindo, conforme observado mais tarde por Sigmund Freud, como uma expressão indireta do sofrimento psíquico destas pacientes. Um abuso, com sua dualidade moral entre agressão e prazer ou um conflito emocional com marcante apelo sexual, ambos conduzidos por um dos mecanismos menos primitivos de defesa do Ego, a repressão, teriam suas representações e emoções recalcadas no inconsciente para permitir que o indivíduo pudesse seguir em frente com a sua vida de forma razoavelmente sã sob ponto de vista mental. Após um período de incubação variável, a energia não ab-reagida e reprimida, todavia, insistiria em se desprender do seu local de armazenamento provisório e regressar para a consciência de forma modificada, neste caso, através da conversão desta força emocional em uma miríade de manifestações clínicas somáticas. 

Esta ocorrência seria caracterizada como o “retorno do recalcado” sendo, conforme descrito, uma tentativa de ab-reação de um fenômeno que não foi adequadamente tratado pela consciência. Nesta situação, podemos aludir que parte do vapor emanado por uma panela de pressão psíquica queimaria, sob ponto de vista figurativo, a pele do paciente em questão.  

Mais de três mil anos de história, mais precisamente a partir do Papiro de Ebers de 1900 A.C. no Egito Antigo, testemunham o longo embate entre a histeria e os provedores de assistência de saúde. No documento egípcio, um útero rebelde, errático e itinerante que flanaria pelo corpo feminino foi acusado de ser o responsável pela gênese da histeria. Magnetismo, propostas de casamento, constituição de uma prole, relações sexuais e até mesmo o emprego de chumaços perfumados intravaginais já foram propostos como tratamento para a enfermidade em tela. De forma ainda mais brutal, bruxarias e feitiços, fogueiras, possessões demoníacas e exorcismos, além de mutilações também foram vinculados ao problema. Todos estes fatos, bem como o reconhecimento mais tardio dos altamente prevalentes transtornos afetivos como doenças psiquiátricas autônomas servem de explicação para que a histeria fosse o foco inicial dos esforços científicos por parte dos outrora neurologistas e agora futuros psicanalistas vienenses.          

Josef Breuer conduz, em Viena, o primeiro tratamento sistemático de uma paciente com histeria. A enferma em questão recebeu, para fins de privacidade, o pseudônimo Anna O. mas sabe-se hoje em dia que se tratava da Sra. Bertha Pappenheim, assistente social, mulher judia e feminista austríaca. Para fins terapêuticos, Breuer emprega a hipnose para lançar mão de uma técnica de sugestionamento durante o estado de transe que conduzirá, mediante a recordação de antigos eventos traumáticos, ao abrandamento ou desaparecimento dos sintomas conversivos demonstrados pela paciente. Esta técnica passa a ser reconhecida como Método Catártico e a própria Bertha Pappenheim cunha, após percepção de sua flagrante melhora clínica, o termo “Cura pela Fala”. A frase foi dita em inglês “talking cure” junto com a expressão “chimney sweeping”, limpeza da chaminé, que também foi proferida pela mesma paciente como alusão a esta mesma terapêutica catártica. Por razões patológicas, nesta altura, Bertha só se comunicava em inglês. Uma outra paciente de Freud, a Sra. Emmy von N. disse a ele durante consulta: “cale-se e me deixe falar”. Este episódio é considerado como marco inaugural da técnica de associação livre, base da prática psicanalítica. O que determinou o colapso da terapia catártica? Dois obstáculos foram imediatamente observados por Breuer e Freud, agora seu colaborador: apenas 80% dos pacientes eram “hipnotizáveis” e o Método Catártico dependia, para sua eficiência, de um sugestionamento concebido pelo terapeuta e não pelo amadurecimento mental do paciente. Ou seja, com a técnica em questão não se conseguiria atender a futura e célebre frase de Sigmund Freud onde, “muito se ganharia se a miséria histérica individual pudesse ser transformada em infelicidade comum”, promovendo o fortalecimento dos processos psíquicos do paciente para enfrentamento dos desafios habituais de sua vida cotidiana. 

A partir da hipnose e do Método Catártico se chegará à observação de que a verbalização de pensamentos, sentimentos, representações ou palavras por parte do analisando, desde que livres de censura, filtros, preconceitos ou julgamentos, seria capaz de conduzir-nos ao estudo do inconsciente deste dado indivíduo. Trilhando este caminho, estruturas traumáticas psíquicas reprimidas únicas ou múltiplas poderiam ser atingidas e desconstruídas mediante a ocorrência da ab-reação que sempre demandaram. Sonhos, chistes, atos falhos e fantasias comporiam, mais tarde, outros recursos para acessar o inconsciente. Imaginemos um banco de quatro apoios onde cada um de seus pés representa um fenômeno reprimido ou recalque. A quebra de alguns destes suportes pode não conduzir de forma imediata ao desabamento de toda a estrutura. Mas em algum momento, quando um número suficiente de alicerces forem fragilizados, esta mesma estrutura terminará por entrar em colapso. 

Freud era gênio. É dos gênios subir nos ombros de seus predecessores para enxergar mais e além. Como todos os homens, no entanto, era falho. Humano, demasiadamente humano, com suas vaidades genéricas, vaidades médicas, rigidezes e prepotências. Mas imbuído de um objetivo terapêutico, desenvolveu um ofício até então inexistente que influenciou decisivamente toda uma coletividade. Uma verdade que perdura. Para Aristóteles, o indivíduo vive conforme a razão e a virtude. Exercer a atividade terapêutica seria, pois, usar o conhecimento e a razão em benefício da comunidade. Para Kant, a ajuda ao próximo é dever moral universal. 

Para Camus, ser para o outro é uma forma de existência autêntica, assumida com liberdade e responsabilidade. Ainda que a nossa tarefa seja apenas “psicanalisar”, e disso nada esperar, contradigamo-nos e almejemos ao menos o bom, lembrando sempre que o inconsciente seguirá sendo eternamente desconhecido, infinito e incognoscível para todos nós que somos muito, mas muito mais demasiadamente humanos do que o próprio Sigmund Freud.