Por Ale Esclapes -
Na jornada para preencher um vazio interior, a avareza surge quando os métodos anteriores, como a inveja, se mostram ineficazes. A nova estratégia consiste em garantir a posse da maior quantidade possível de bens materiais, que funcionam como meros representantes simbólicos do espaço mental. Essa tentativa de controle absoluto sobre o que é externo reflete uma profunda insegurança interna, buscando na acumulação uma falsa sensação de segurança e preenchimento que nunca se concretiza de fato, apenas adia o confronto com a verdadeira questão.
O avarento opera sob a mesma lógica distorcida que alimenta a inveja, fundamentada na crença de que a posse do outro representa a sua própria perda. Sob o lema "se o outro tem, é sinal de que eu não tenho", ele se lança em uma busca incessante por acumular o máximo que pode, enquanto se recusa a compartilhar qualquer parte do que possui. Essa mentalidade de soma zero transforma a vida em uma competição constante, onde cada bem adquirido pelo próximo é visto como uma ameaça direta à sua própria suficiência.
Quando essa dinâmica é transposta para a economia dos sentimentos, o resultado é igualmente desolador e empobrecedor. Uma pessoa governada pela avareza emocional não se permite doar ao outro, pois enxerga o amor e o afeto como recursos finitos que, uma vez dados, são perdidos para sempre. Amar alguém, nesse contexto, significa arriscar-se a diminuir seu próprio "estoque" de amor, uma perspectiva insuportável para quem vive com medo constante da escassez e do desamparo.
A grande ironia da avareza reside na sua incompreensão sobre a natureza do fluxo da vida, onde é precisamente no ato de dar que se encontra a possibilidade de receber, tanto no plano material quanto no sentimental. A generosidade gera um ciclo de abundância, enquanto a retenção excessiva leva à estagnação e ao isolamento. Como é impossível reter tudo indefinidamente, a estratégia da avareza está fadada ao fracasso, embora a percepção dessa falha possa demorar a emergir na consciência do indivíduo.
O colapso de cada um dos pecados capitais é invariavelmente sentido como uma forma de morte simbólica, um aniquilamento do ego que construiu sua identidade sobre aquela base falha. A falha da avareza não é exceção, e o vazio deixado por ela frequentemente impulsiona o indivíduo a buscar refúgio em outros pecados, numa tentativa desesperada de evitar o sentimento de aniquilação. Esse ciclo vicioso perpetua o sofrimento, impedindo a descoberta de uma forma mais autêntica e satisfatória de existir no mundo.
Coordenador: Ale Esclapes Psicanalista, diretor da EPP-Escola Paulista de Psicanálise, e membro efetivo do Instituto Ékatus.
Data/horário: 03/06/2023 (sábado) 09:00hs
Investimento: Evento online, gratuito e realizado por videoconferência. Necessária a inscrição prévia, número de vagas limitadas.
Organização: Grupo Ateliê de Ideias - Maria Foster, Fernanda Hisaba, Juliana Rocha, Sueli Matsuki e Tatiana Costa.
Haverá emissão de certificados de participação: Ao final do evento será disponibilizado um link para um formulário de pesquisa de satisfação e emissão de certificado válido somente para o dia do evento._______________________________Dúvidas: Tel.: (11) 3628-1262; WhatsApp (11) 9 9876 9939 ou Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Atenciosamente, Equipe EPP.
Por Ale Esclapes -
"Nada de Novo no Front" é um filme de guerra alemão de 1930, dirigido por Lewis Milestone. O enredo é baseado no livro homônimo de Erich Maria Remarque, que conta a história de um jovem chamado Paul Baumer (Lew Ayres) e seus amigos que se alistam para lutar na Primeira Guerra Mundial. O filme é conhecido por ser um dos mais realistas e impactantes filmes de guerra já feitos.
No processo de alistamento, os jovens mostram uma ingenuidade e uma empolgação pelo seu país, que logo é destruída pela brutalidade da guerra e a máquina de guerra do estado alemão. A decepção quanto aos ideais vendidos pelo estado alemão é rápida, e os jovens soldados se veem confrontados com uma realidade muito diferente daquela que lhes foi vendida. No front de batalha, Paul desenvolve amizades e luta pela sobrevivência.
Talvez numa das cenas mais impactantes do filme, Paul ataca um soldado francês a facadas, e a despeito de todo horror vivido até então, entra em um misto de desespero e epifania, como se o horror da guerra se ali manifestasse: o soldado era um ser humano, igual a ele. Como o soldado francês não morre a despeito das facadas, em desespero, enfia terra na boca do soldado, como tentando acabar logo com aquilo, mas cujo simbolismo vai muito além desse. Para Paul viver um outro ser humano precisa morrer, ao mesmo tempo em que o humano em Paul morre nesse instante.
O filme também aborda com maestria a vida dos políticos alemães em contraste com a vida dos soldados no campo de batalha. Já o fanatismo do alto comando alemão é destacado no filme, que envia soldados para morrerem, a despeito do tratado de cessar fogo. Essa atitude mostra a falta de valorização da vida humana por parte dos líderes militares.
A cena final em que Paul é morto um minuto antes do cessar fogo é uma poderosa metáfora do título do filme "Nada de Novo no Front". A morte de Paul mostra que a guerra é um ciclo interminável de morte e destruição, e que a esperança é ausente neste contexto.
Em resumo, "Nada de Novo no Front" é um filme poderoso que retrata a brutalidade da guerra e a perda da inocência dos jovens soldados. A ingenuidade no processo de alistamento, a máquina de guerra do estado alemão, o desenvolvimento de amizades no front de batalha, a epifania de Paul e a falta de valorização da vida humana pelos líderes militares são temas fortes abordados no filme. Aqui nenhuma cena é menor ou em excesso, nenhum diálogo é dispensável. A cena final, que mostra a ausência de esperança em um ciclo interminável de guerra e morte, é uma mensagem impactante e perturbadora. ___________Direção: Edward BergerPlataforma: Netflix
Por Ale Esclapes -
Toda obra de arte aponta para um lugar além do óbvio, além do sensível que se apresenta. Close é um desses casos que com maestria, nos brinda com um drama sobre saída da infância e entrada na juventude circunscrita aqui pelo elemento sexual presente nessa passagem.
Uma outra delicadeza do filme é conseguir colocar outros elementos tão difíceis de abordar como amizade, culpa, suicídio de forma que cada espectador possa abordar o filme por um desses eixos, dado ao equilíbrio entre os temas.
Leo e Remi são melhores amigos apresentados em um estado de “pura inocência”. Brincam juntos, dormem juntos, não se desgrudam. Aqui o roteiro já coloca o espectador em uma posição única: entre admirar a pureza da uma relação de amizade entre dois garotos e saber que ainda que esses não “saibam”, dormir junto em conchinha em pouco tempo terá um significado diferente do que tem ali apresentado, ou, já desperta na imaginação do expectador que esses serão um futuro casal.
Eis que Leo é confrontado com a pergunta: “vocês são namorados”? Uma cesura se cria que vagamente tende à uma cisão. A partir desse ponto, vai ficando algumas lacunas e conclamando cada vez mais o espectador a fazer parte do filme, para que este o signifique. Leo começa a afastar-se de Remi, jogar bola e hóquei com outros garotos, e se enturmar como é típico da adolescência. Mas não é um movimento qualquer, ele vem a partir da pergunta: “vocês são namorados”. Não fosse a pergunta, ambos poderiam seguir o mesmo rumo, mas não ... Leo faz o caminho também para se afastar de Remi. O que teme Leo? Remi pelo seu lado não entende o que se passa, tenta se reaproximar, sempre sem sucesso.
Nesse ponto o roteiro introduz um outro tema (atenção, perigo de spoiler). Remi se suicida. Novamente o filme convoca o espectador para preencher uma lacuna. Foi por causa do afastamento de Leo? De qualquer forma Leo acredita que sim. Se antes tinha que dar conta do elemento sexual que se introduziu na relação com seu melhor amigo, o afastamento, uma eventual culpa por esse afastamento, a perda da inocência ... agora tem que dar conta de se sentir culpado pelo suicídio do melhor amigo. Esse enfim passa a ser o grande enredo do filme.
O diretor e roteirista Lukas Dhont nos propõe um olhar sensível e complexo sobre essa passagem tão dramática na vida de todos nós: a passagem da infância que aqui quer dizer uma forma específica de relação consigo e com o outro, para a adolescência, com a introdução do elemento sexual que muda toda essa estrutura já montada. Essa passagem não é fácil, é dolorosa, pois se perde o lugar no mundo, e é uma tarefa indelegável. Um filme sensível, muito bem construído, que convoca o espectador o tempo todo a significá-lo deixando lacunas (o que temia Leo? o que ele realmente sentia por Remi?) e que toca em temas muito difíceis com maestria.
___________Direção: Lukas DhontPlataforma: MUBI
Por Ale Esclapes -
Muitas pessoas associam o pecado da gula exclusivamente ao excesso de comida, mas sua essência é muito mais ampla e profunda. A gula, em seu cerne, está intrinsecamente ligada ao vício, a uma busca incessante por preencher um vazio interior que nunca se satisfaz. Ela se manifesta em qualquer comportamento descontrolado, seja no consumo de substâncias, na busca por bens materiais ou até mesmo na compulsão por trabalho. É a incapacidade de dizer "basta", transformando o prazer em uma corrente que aprisiona a alma em um ciclo de desejo e frustração.
Um dos filhotes da inveja é a avidez, um sentimento que nos impede de encontrar satisfação na vida. A pessoa ávida, ao observar a felicidade alheia, sente um desejo insaciável de possuir o que o outro tem, acreditando que ali encontrará a sua própria alegria. No entanto, essa busca é uma ilusão, pois a avidez anula o prazer e a satisfação genuínos. Como mais não me satisfaço, logo tenho que comer mais, em uma tentativa vã de preencher o vazio existencial que a própria avidez alimenta, tornando-se um ciclo vicioso de insatisfação.
O drogado é o exemplo mais contundente da dinâmica do vício. Ele experimenta um prazer momentâneo e intenso, que logo é retirado, deixando um rastro de vazio e desespero. A partir desse ponto, sua vida se resume a uma busca incessante por reviver aquela sensação, custe o que custar. Isso se chama vício, uma escravidão moderna onde a liberdade é trocada pela promessa de um alívio fugaz. O indivíduo se torna refém de sua própria busca, perdendo o controle sobre suas escolhas e sua própria vida.
No vício, o indivíduo está fadado ao fracasso, e, de novo, retorna a um outro pecado. "O vício antes de matar, ele humilha", diz um velho ditado, e essa humilhação é uma das consequências mais cruéis da dependência. A pessoa viciada perde sua dignidade, sua autoestima e seus relacionamentos, tornando-se uma sombra de quem um dia foi. A humilhação é um lembrete constante da perda de controle, da incapacidade de resistir ao desejo que a consome, aprofundando ainda mais o ciclo de dor e autodestruição.
A superação da gula e do vício não se encontra em uma simples abstinência, mas em uma jornada de autoconhecimento e ressignificação do prazer. É preciso compreender as raízes da insatisfação que alimenta o comportamento compulsivo, questionando os vazios que tentamos preencher de forma inadequada. A busca por satisfação genuína, que nutre a alma em vez de apenas saciar o corpo, é o caminho para a libertação. Isso envolve cultivar relacionamentos saudáveis, encontrar propósito em atividades significativas e aprender a apreciar a beleza da moderação, redescobrindo o verdadeiro sabor da vida.
Além da avidez, a gula também se alimenta de outros sentimentos sombrios, como a soberba e a solidão. A soberba nos faz acreditar que merecemos mais do que os outros, que temos o direito de consumir sem limites, ignorando as consequências de nossos atos. A solidão, por sua vez, nos empurra para um consumo desenfreado como forma de preencher o vazio deixado pela falta de conexão humana. Em ambos os casos, a gula se torna uma fuga, uma tentativa de silenciar a dor da alma com o barulho do consumo, aprofundando ainda mais o abismo da insatisfação.
A gula se manifesta de forma proeminente na sociedade de consumo, onde o desejo é constantemente estimulado e a satisfação, perpetuamente adiada. A busca incessante pelo último lançamento, pela tendência da moda ou pelo gadget mais moderno é uma expressão contemporânea da avidez. O ato de consumir torna-se um ritual para aplacar uma insatisfação crônica, um prazer fugaz que, uma vez extinto, exige um novo objeto de desejo. Assim, o indivíduo se vê preso em um ciclo de compra e descarte, confundindo o ter com o ser e alimentando um vazio que os bens materiais jamais conseguirão preencher.
No ambiente corporativo, a gula assume uma faceta socialmente aceitável: o vício em trabalho, ou 'workaholism'. Em uma cultura que exalta a produtividade e o sucesso a qualquer custo, a dedicação profissional pode facilmente se converter em uma compulsão destrutiva. O 'workaholic' busca no excesso de trabalho a mesma gratificação insaciável que o glutão busca na comida, sacrificando sua saúde, seus relacionamentos e seu bem-estar em nome de uma ambição sem limites. A exaustão e a ansiedade se tornam suas companheiras constantes, evidenciando a presença de um vício que consome a vida em vez de preenchê-la.
O uso de drogas representa a manifestação mais explícita e devastadora da gula como vício. A substância química oferece uma rota de fuga imediata, um prazer artificialmente intenso que mascara temporariamente a dor e o vazio existencial. No entanto, essa euforia é efêmera e cobra um preço altíssimo, aprisionando o indivíduo em um ciclo de dependência física e psicológica. A busca pela próxima dose se sobrepõe a todas as outras prioridades, corroendo a identidade, a dignidade e os laços afetivos, e ilustrando de forma trágica a humilhação que precede a destruição final imposta pelo vício.
Por Karen Rodrigues A. Chaves -
Em Freud, a psicanálise era sobretudo a arte da interpretação e não uma técnica por sugestão. O método psicanalítico proposto por ele visa ter acesso ao inconsciente, trazendo para o consciente aquilo que foi reprimido, liberando emoções e experiências. Resgatar a libido que se moveu para a regressão e reanimar as imagens infantis, colocando essa libido a serviço da realidade. Mas, como ele propõe isso?
Primeiramente é importante destacar que de todos os conceitos criados para fundamentar sua teoria, o de inconsciente representa o elemento central em toda a psicanálise, e é para onde o olhar do analista deve ser direcionado. Freud chegou a suposição do inconsciente ao perceber que a consciência possui muitas lacunas, como atos psíquicos que não se justificam apenas pela consciência, e para os quais se faz necessário considerarmos a influência do inconsciente.
O inconsciente é o consciente reprimido (recalcado), é um lugar psíquico com uma energia específica e é o campo de trabalho da psicanálise. Durante sua clínica, Freud, identificou algumas formas de obter acesso ao inconsciente, e uma dessas formas seria por meio da associação livre. Essa técnica na qual o analisando pode falar tudo aquilo que lhe vier a mente sem a intervenção ou orientação do analista, se tornou essencial para o psicanalista conseguir ter acesso ao inconsciente do paciente. Pela sua fala o analista pode captar aquilo que surge, por vezes, nas entrelinhas e, assim, identificar os conteúdos inconscientes.
Naquilo que não é dito, omissões, confusões e esquecimentos, é que se expressa o inconsciente. São formas de exprimir opiniões ou verdades que a razão consciente não permite, funcionando como um disfarce. Freud destaca a necessidade da atenção equiflutuante por parte do analista, que seria ouvir sem raciocinar, escutar sem seleção prévia, sem censura, as associações livres do analisando.
Outro caminho identificado por Freud para ter acesso ao inconsciente seria por meio da interpretação dos sonhos. Ele define os sonhos como o caminho mais rico para a investigação do inconsciente.
O sonho se apresenta pelo conteúdo manifesto, que se refere ao que pode ser lembrado e relatado; e pelo conteúdo latente, que é o conteúdo oculto e inconsciente, que provoca o sonho.
Ao narrar o sonho para o analista, o paciente consegue fazer associações a respeito das imagens e dos símbolos do seu inconsciente. Esse trabalho de interpretação dos sonhos se realiza ao nível da linguagem, do discurso do paciente e não das imagens oníricas que o paciente recorda.
No processo de interpretação, o analista precisa olhar para as imagens do sonho e interpretá-lo como uma narrativa não linear, em que estarão manifestos os desejos, medos e traumas enraizados no inconsciente, dando liberdade para o analisando criar as suas próprias associações, e não interpretar o sonho do paciente logo de imediato.
O tratamento analítico segue para tentar resgatar a libido e nesse ponto a resistência luta para o que foi reprimido não seja revelado, evitando assim o desprazer. A resistência usa a repressão como recurso para manter algo afastado da consciência.
Ao invés de lembrar de tudo que está reprimido, o paciente é levado a repetir o que foi recalcado, como vivência atual e não como parte do passado. Essa reprodução, que sempre tem por conteúdo algo da vida sexual infantil, se dá no âmbito da transferência, isto é, da relação com o analista.
A transferência é um retorno do reprimido que volta para a figura do analista, e ocorre quando algo do recalcado for adequado para ser transferido a pessoa do analista.
O analista deve utilizar a transferência para fazer com que o paciente recorde, tome consciência.
Para Freud, o conteúdo reprimido é expresso pelo indivíduo através de um conjunto de ações repetitivas, e o manejo seria a maneira de transformar pouco a pouco a compulsão a repetição, levando o indivíduo a se reapropriar da sua história.
O manejo da transferência configura como uma das maiores dificuldades da clínica. O amor transferencial, que é criado pela própria situação analítica, acaba sendo utilizado pela resistência para impedir a continuidade do tratamento e cabe ao analista saber manejar esse sentimento, mantendo a transferência amorosa, a tratando como algo que deverá ser enfrentado durante o tratamento para reconduzir ao consciente o que foi recalcado, para que o paciente consiga elaborar o que foi tratado em sua sessão.
A superação da resistência não ocorre quando a mesma é comunicada ao paciente. Ele precisa de tempo para se aprofundar na resistência para poder elaborá-la e então superá-la.
A comunicação do recalcado ao analisando é apenas uma das preparações necessárias para o tratamento, e essa revelação do inconsciente costuma ter como consequência a intensificação do conflito dentro dele e o aumento do sofrimento. Por isso antes, como preparação, o analisando precisa estar próximo do recalcado, e apegado ao analista para não querer interromper o tratamento. Só com o preenchimento desses pré-requisitos será possível reconhecer e dominar as resistências que levaram ao recalque e ao desconhecimento.
O tratamento psicanalítico pressupõe um contato mais prolongado, sendo que seria totalmente condenável uma revelação precipitada pelo analista, o que colocaria em risco todo o processo. Atrasar o prazer é um dos pontos do princípio de realidade no psiquismo, como forma de evitar um desprazer maior, considerando que não podemos realizar tudo o que desejamos.
Freud destacou a importância da sensibilidade do psicanalista aos movimento psíquicos do analisando, para que o tratamento seja efetivo e alcance seu objetivo, ajudando o analisando a compreender seus pensamentos e traumas, se libertando dos sintomas, para que ele saiba lidar com seus sofrimentos, se sentindo no comando da sua vida.
Por Ale Esclapes -
A preguiça é, talvez, um dos pecados capitais mais profundamente incompreendidos. Longe de ser a simples falta de vontade momentânea para realizar uma tarefa, ela representa um estado de torpor existencial muito mais complexo. A preguiça, em sua essência teológica, não é o descanso merecido ou a procrastinação ocasional, mas uma recusa em engajar-se com a própria vida, uma apatia que corrói a alma e nos afasta da nossa própria humanidade, um desinvestimento radical na própria existência que nos foi dada como um presente.
Nos mosteiros medievais, esse estado era conhecido como acídia e temido como o "demônio do meio-dia". Evagrius Ponticus, um monge do deserto do século IV, descreveu vividamente como esse demônio assaltava os monges nas horas mais quentes do dia, mergulhando-os em um estado de prostração e inquietação. O monge acometido pela acídia sentia aversão à sua cela, ao seu trabalho e à sua própria vocação, olhando incessantemente pela janela, desejando estar em qualquer outro lugar, incapaz de encontrar paz ou propósito no momento presente.
Hoje, à luz da psicologia moderna, daríamos a esse mal o nome de depressão. A semelhança entre os sintomas da acídia e os da depressão é notável. Comportamentos como a perda de interesse e prazer em atividades cotidianas (anedonia), a fadiga persistente e falta de energia, o isolamento social e aversão ao contato humano, a dificuldade de concentração e tomada de decisões, e uma profunda sensação de desesperança e vazio são manifestações claras que transitam entre a descrição monástica da acídia e o diagnóstico clínico da depressão.
A acídia era considerada um dos pecados mais graves precisamente por sua capacidade de desinvestir o monge de sua pulsão de vida. Ao sucumbir a essa tristeza paralisante, o indivíduo renunciava à sua capacidade de amar, de sentir gratidão e, no contexto da fé, de se conectar com Deus. Era uma morte espiritual em vida, uma recusa em aceitar a bondade da criação e a própria existência como um dom. Essa apatia profunda representava uma quebra fundamental na relação com o sagrado e com o próprio sentido da vida.
Se um indivíduo for deixado nesse estado de acídia ou depressão profunda, ele certamente irá perecer, tanto do ponto de vista emocional quanto físico. A negligência com o autocuidado, a má alimentação, a insônia e o isolamento social progressivo levam a uma deterioração da saúde física, aumentando o risco de doenças crônicas e morte. Emocionalmente, a pessoa se afunda em um abismo de desesperança que pode culminar no suicídio. A acídia, portanto, era vista como o pecado derradeiro, pois seu caminho inevitavelmente conduzia à morte, sendo o mais difícil de ser combatido por sua natureza silenciosa e paralisante.
Por Ale Esclapes -
Diante do fracasso do orgulho e da persistência da inveja, emerge a luxúria como uma falsa promessa de alívio. Ela se apresenta como a crença de que os prazeres corporais podem preencher o vazio deixado por essas feridas narcísicas. A busca incessante por sensações físicas torna-se uma tentativa desesperada de silenciar o mal-estar existencial. Nesse contexto, o corpo é convocado a ser uma máquina de prazer, uma ferramenta para negar a própria vulnerabilidade e a dor psíquica que o orgulho e a inveja insistem em revelar.
Na luxúria, o corpo é transformado em um instrumento de negação, uma máquina de prazer cuja função é provar a inexistência do vazio e do mal-estar. A busca frenética por satisfação carnal visa criar uma realidade paralela, onde a angústia não tem espaço para se manifestar. Cada novo prazer é uma tentativa de sobrepor a sensação de inadequação e de fracasso que o orgulho ferido e a inveja corrosiva geram. O corpo, então, é explorado em sua capacidade de sentir, na esperança de que a intensidade das sensações possa apagar a consciência da dor.
A luxúria também evidencia uma falha no controle do ego sobre o id, sobre os desejos mais primitivos e imediatos. A economia psíquica, assim como a economia material, lida com a gestão de desejos ilimitados diante de recursos limitados. Quando o ego se mostra incapaz de exercer essa gestão, de impor limites aos impulsos do id, a luxúria encontra terreno fértil para se instalar. Esse descontrole gera um impasse, uma vez que a busca incessante por prazer não apenas falha em resolver o problema original, como também cria um ciclo vicioso de insatisfação.
É crucial compreender que a luxúria, neste contexto, transcende a esfera sexual, abrangendo todo desejo carnal desenfreado. Ela se manifesta em tudo aquilo que nos proporciona um prazer momentâneo, uma fuga para esquecer o estrago que a inveja provoca em nosso psiquismo. Seja na comida, na bebida, ou em qualquer outra forma de gratificação sensorial, a luxúria atua como um anestésico para a alma, uma tentativa de preencher com sensações o vazio deixado pela falta de sentido e pela dor da comparação.
Por Ale Esclapes -
O orgulho pode ser compreendido como uma armadura reluzente que encobre a corrosiva inveja e o profundo vazio existencial que ela engendra. Trata-se de uma sofisticada ilusão de grandeza, uma autoimagem inflada que busca espelhar os atributos divinos que o ser humano, em sua fragilidade, anseia possuir. Essa miragem se manifesta primordialmente em três facetas da experiência humana: a onipotência, a onisciência e a onipresença, cada qual tecendo uma teia de controle e autoengano que distancia o indivíduo da realidade e de si mesmo, criando uma casca rígida e solitária.
A onipotência se revela na avassaladora sensação de que tudo é possível, de que se tem o poder de comandar o universo e de que todos ao redor devem se curvar à sua vontade. É a fantasia do controle absoluto sobre pessoas e circunstâncias, uma negação da própria finitude e das limitações inerentes à condição humana. Em suas manifestações mais extremas, essa necessidade de poder absoluto pode fraturar a percepção da realidade, dando origem a delírios de grandeza nos quais o indivíduo habita um mundo paralelo, construído unicamente para validar sua ilusória e inabalável soberania.
A onisciência, por sua vez, costuma se apresentar sob a máscara da arrogância, a crença inabalável de possuir todo o conhecimento e de ter certezas sobre qualquer assunto. Funciona como um controle onipotente aplicado ao domínio dos pensamentos e das ideias, onde não há espaço para a dúvida, o questionamento ou a perspectiva alheia. Este fenômeno é particularmente visível no cenário político contemporâneo, onde discursos inflamados e repletos de certezas dogmáticas polarizam o debate e impedem o diálogo construtivo, transformando a troca de ideias em um campo de batalha de egos.
A manifestação da onipresença ocorre através de um controle obsessivo e minucioso sobre o ambiente e as relações. Tudo precisa ser perfeitamente previsível, cada detalhe meticulosamente orquestrado para eliminar qualquer possibilidade de surpresa ou imprevisto. O acaso, a espontaneidade e a incerteza do mundo tornam-se fontes de profunda angústia, pois desafiam a ilusão de que se pode estar em todos os lugares e controlar todos os eventos. Essa busca incessante por previsibilidade sufoca a vida e transforma a existência em um roteiro rígido e sem vitalidade.
Contudo, essa elaborada construção está, invariavelmente, fadada ao fracasso. A realidade, com sua força imprevisível e caótica, costuma passar como um trator sobre a frágil estrutura do orgulho, expondo suas rachaduras. Mesmo diante do colapso, a reação mais comum não é a rendição, mas sim dobrar a aposta na ilusão. Desistir desse lugar de suposta grandeza significaria ter que encarar o doloroso vazio e a inveja que o orgulho tão arduamente tentou ocultar, um confronto que a maioria prefere adiar indefinidamente, perpetuando o ciclo de sofrimento.