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ALGUMAS_DIFERENCAS_APROXIMACOES_FEORICO_CLINICAS_FREUD_KLEIN Blog Masonry - Results from #120

Algumas diferenças e aproximações teórico-clínicas em Freud e Klein

Por Helton Alves de Lima -  Melanie Klein foi uma importante psicanalista que deixou como legado uma série de conceitos e teorias originais, além de modificações e invenções quanto ao trabalho clínico. A obra de Klein se deu principalmente quando a psicanálise buscava fazer uma interlocução com a infância, estabelecendo-a como âmbito do trabalho clínico. Até então, o que havia eram adaptações do modelo de trabalho com adultos neuróticos na clínica freudiana para o trabalho com crianças, ou ainda a proposição de um modelo educativo/pedagógico capitaneado por Anna Freud, que buscava em sua abordagem educar a criança para conter seus impulsos e não as analisar do ponto de vista da interpretação das formações inconscientes, dos conflitos psíquicos e da transferência, pois acreditava-se que a criança não tinha recursos psíquicos suficientemente bem estabelecidos para lidar com os impulsos inconscientes que emergiriam no trabalho analítico. Ao observar crianças, Klein percebeu que o inconsciente e a associação livre se apresentavam no brincar, por meio do qual o mundo interno e os conflitos eram encenados, o que dava abertura para a emergência do significado inconsciente presente no conteúdo das brincadeiras, das ações e das falas das crianças, significado esse que se reconstruía, portanto, no e pelo brincar em análise. Na progressão de seu pensamento clínico e teórico, Klein estabeleceu uma especificidade para a clínica da infância: não uma mera transposição da clínica com adultos, muito menos um trabalho educativo e adaptativo - o que provavelmente exigiu de seu pensamento o esforço de revisão e questionamento de postulados até então bem estabelecidos nas escolas psicanalíticas, decorrendo em inovações teóricas e clínicas recebidas, não sem polêmicas e conflitos, pela sociedade psicanalítica. Um primeiro exemplo desse esforço se dá no âmbito da clínica com crianças pequenas. Klein propôs que a criança pudesse explorar suas emoções dentro do setting através do brincar, incluindo a dimensão negativa da transferência, como o ódio, a hostilidade e a desconfiança, ao considerar a necessária capacidade do analista de suportar tais aspectos transferenciais enquanto condição para sua postura e manejo clínico, o que possibilitaria a criança entrar em contato com suas emoções, seus sentimentos negativos, e assim suportá-los, elaborá-los, aprender a lidar com eles, ao invés de suprimi-los ou reprimi-los. No curso de seu pensamento teórico, Klein compreendeu que a criança sofria com ansiedades que, se não fossem bem trabalhadas e elaboradas, promoveriam a inibição de seu desenvolvimento emocional e intelectual. Muitos de seus pacientes chegavam ao consultório com sérias perturbações e inibições em seu desenvolvimento e sociabilidade. Para ela, a intensidade dessas angústias refletia formações muito arcaicas do mundo interno da criança, permeado por sentimento de culpa e pelo medo de retaliação aos seus impulsos sádicos que, em fantasia, são vividos como ataques aos objetos. Aqui há a formulação teórica do que seria o desenvolvimento inicial da criança para Klein que, apesar de ter fornecido certa complementaridade aos postulados freudianos, os modificou. Trata-se de ideias que propõem a instalação do conflito edipiano e do superego em momentos muito primitivos da existência do bebê, por volta dos seis meses de idade, e não na fase fálica, como propôs Freud. Freud compreendeu a criança a partir de suas observações dos adultos e de suas hipóteses em torno da questão pulsional e da sexualidade. Para o autor, a progressão do desenvolvimento psicossexual se dava mediante a organização libidinal em fases: oral, anal e fálica. Na fase fálica, os conflitos e a rivalidade edípicas são precipitadas na relação da criança com seus progenitores, vistos como objeto do desejo infantil e ação de impedimento à realização desse desejo, e a castração é compreendida como a saída da fase fálica, que possibilita a diluição do Complexo de Édipo e a instalação do Superego, a partir da introjeção de qualidades e ideais da figura castradora por identificação e internalização das normas socioculturais. O Superego freudiano forma parte das instâncias psíquicas descritas na Segunda Tópica, tendo seu aparecimento idealmente por volta dos 5 anos de idade e servindo como instância que pune, cobra o Eu e confere suporte à consciência moral. Por sua vez, Klein entende que há um Superego arcaico que se forma já no bebê mediante as relações de objeto e ansiedades típicas de uma fase primitiva do Eu na qual o sadismo está em plena vigência – o que corresponde, biologicamente, à necessidade de alimentação via seio (ato de sugar) e, psicologicamente, à instalação de fantasias de gratificação, agressão e retaliação que permeiam a introjeção dos objetos parciais que vão povoar o mundo interno do bebê. A oralidade e a analidade exercem um papel importante em sua teoria: morder, triturar, conter, expulsar, introjetar, destruir etc., passam a funcionar como representantes psíquicos de fantasias inconscientes e fantasias de destruição do objeto considerado mau, o que levam a uma intensa experiência de ansiedade, como o medo de objetos internos ou externos que perseguem, punem, promovem retaliações. Fantasia é mais importante na clínica kleiniana do que as experiências reais (os pais/cuidadores reais da criança), o que possibilita interpretações do mundo interno da criança e da forma como ela experencia e organiza os objetos internalizados, o que vai dar o tom do modo como se relaciona com esses objetos e seu mundo interno. O Superego em Klein é considerado mais cruel do que o Superego em Freud, por ser um perseguidor arcaico do Eu, resultando em inibições que podem impactar o desenvolvimento emocional e intelectual, já que a intensa pressão que exerce, em fantasia, pode impedir a passagem da identificação para simbolização enquanto índice de amadurecimento psicológico. Esse postulado tem reverberações em sua clínica, na medida em que ao não se furtar de interpretar as formas de transferência negativa e proporcionar setting analítico de maior abertura à expressão emocional e aos conteúdos que se reconstroem no brincar, a postura mais flexível do analista junto a criança permite com que os conteúdos possam ser abordados pela via da elucidação das fantasias persecutórias e pela ação sublimatória que leva à simbolização.
DORALICE_EU_BEM_TE_DISSE Blog Masonry - Results from #120

Doralice, eu bem que te disse

Por Wagner Alledo -  “Agora você tem que me dizerComo é que nós vamos fazer?” Compositores: Antônio Almeida e Dorival Caymmi A Doralice de Antônio Almeida e Dorival Caymmi, imortalizada no ritmo da Bossa Nova pela voz de João Gilberto, é provocada: como é que nós vamos fazer? Doralice e Dora (a de Freud) possuem algo em comum. Duas histórias inacabadas, fragmentadas. Doralice se casou ou não se casou? E Dora, que conclusão podemos tirar da sua história?  “Fragmentos da análise de um caso de histeria” é o título do artigo publicado em 1905 em que Freud apresenta o Caso Dora. A Doralice da música surgiu 40 anos depois, em 1945, em gravação do grupo de samba Anjos do Inferno. Embora a história de Dora bem que também poderia ser um samba. Menina inteligentíssima, supostamente assediada pelo amigo do pai, sente-se desamparada pela família, anuncia o seu desejo pelo suicídio em função do sofrimento causado por sentimentos contraditórios, apresenta diversos sintomas físicos e procura o tratamento anímico do doutor Freud em busca de cura.  No texto, Freud descreve o tratamento de Dora e compartilha uma série de achados práticos que corroboram com a teoria que ele vinha desenvolvendo. Ao mesmo tempo, em vários momentos, ocorrem contradições. Algumas interpretações permitem inferir que determinadas posturas de Freud tiveram maior foco na comprovação da sua teoria até então do que na resolução dos problemas da paciente. Ele teria deixado “escapar” alguns detalhes. O Caso Dora é publicado entre duas obras fundamentais da teoria psicanalítica (A Interpretação dos Sonhos e Três Ensaios da Teoria da Sexualidade).  Tratava-se de um momento fundamental do desenvolvimento da Psicanálise, quando Freud havia abandonado a hipnose e o método catártico e vinha desenvolvendo os conceitos de associação livre e aqueles relacionados à interpretação dos sonhos, como deslocamento, condensação etc. Mas talvez o foco na comprovação desses conceitos não tenha permitido que Freud observasse mais profundamente dois outros, fundamentais para a sua teoria, e muito presentes nesse caso: a resistência e a transferência.  Com Dora, Freud experienciou profundamente a transferência negativa e a resistência e depois de algum tempo pode observar quão fundamental é a relação do analista com o seu analisado, assim como os impactos dessa relação nos resultados do tratamento. O caso inacabado de Dora permitiu a Freud evoluir na conclusão de que através da transferência com o analista o analisado acessa parte do seu inconsciente reprimido pela resistência.  Infelizmente para Dora essa conclusão tardia motivou sua desistência do tratamento e, ao fazer isso, ela não poderia conceber o tamanho da sua contribuição para o desenvolvimento da teoria e técnica psicanalíticas.  Após o Caso Dora, Freud se dedicou a buscar o aperfeiçoamento do manejo técnico da psicanálise, além de expandir a teoria desses conceitos. Tais reflexões resultaram em textos fundamentais como por exemplo “Recomendações ao Médico para o Tratamento Psicanalítico” e “Sobre a Dinâmica da Transferência”, ambos de 1912, e “Sobre o Início do Tratamento”, de 1913. Dois anos depois, em 1914, ele publica “Lembrar, Repetir e Perlaborar”, que introduz o conceito de neurose de transferência, quando a resistência é tão intensa que influencia diretamente no processo de recordar.  No fim, o Caso Dora foi um grande insucesso. Mas somente para a própria Dora. Seu papel para a psicanálise foi fundamental. O fracasso do seu caso abriu portas essenciais para o conhecimento teórico e técnico. Dora, assim como Doralice dos versos do samba, não respondeu com palavras diretas ao questionamento que lhe foi imposto. Mas, ambas, do seu próprio e legítimo modo, pavimentaram caminhos bastante concretos em busca de respostas para a pergunta:  E agora, Doralice, como é que nós vamos fazer?
DICA_FILME_TITANE Blog Masonry - Results from #120

Dica de Filme: Titane - (alerta de spoiler)

Por Ale Esclapes -  Em carta de Freud à Andreas Salomé ele nos ensina que ao conduzirmos uma análise, “é preciso emitir um facho de intensa escuridão de modo que algo que até então tenha ficado obscurecido pelo resplendor da iluminação possa cintilar ainda mais na escuridão”. Com isso em mente passo a um breve resumo e uma extensa lista de temas que brilham em “Titane”, mas que escolho não pensar nesse momento. O filme é a história de uma assassina (que a psiquiatria chamaria de psicopata) chamada Alexia, que transa com um carro, engravida dele e que, quando descoberta pelos seus crimes, foge e é “confundida” com o filho (Adrien) desaparecido de um chefe de bombeiros (Vincent) há dez anos. A lista de temas que deixo de fora são: a violência do início do filme; o fato de Alexia ter matado seu pai; de transar com um carro e depois parir um filho; bem ... a lista é extensa.   No que quero me concentrar é no personagem Vincent, que tem seu filho Adrien desaparecido há mais de dez anos, e que reconhece Alexia em uma delegacia como sendo seu filho, e que a despeito de todos os sinais que a realidade lhe dá, segue afirmando que Alexia é Adrien. Ele a leva para fazer parte do grupo de bombeiros no qual é o chefe. Mesmo quando descobre que aquele que ele trouxe para casa como sendo seu filho, tem um corpo feminino e está grávida de uns 8 meses, não o retira do lugar de seu filho que retorna à casa. É dessa violenta experiência emocional que quero me ater.   A mãe de Adrien se dá conta facilmente da situação delirante de Vincent e pergunta diretamente a Alexia/Adrien: “E se você fosse eu? Se não pudesse chorar seu filho, o que faria?”. Imagino (que é tudo que posso nesse contexto) que a expectativa de encontrar o filho perdido seja proporcional a dor do sentimento de perda, e uma vez que Vincent “encontra” Adrien, a perspectiva de viver novamente essa dor seja insuportável, e entra em cena uma forte negação da realidade, e mesmo diante de todas as evidências de realidade, Adrien continua ali.   Vincent pode negar para si a realidade, mas vai ficando muito difícil o grupo de bombeiros negar junto. Quando essa situação grupal vai se tornando insuportável, vai se criando as condições para que Vincent se dê conta emocionalmente do que se passa. Nessa hora nasce o filho de Alexia, e o resto fica em aberto. Vicent sai do seu delírio? O filho de Alexia ocupa o lugar de Adrien?  Voltando à recomendação de Freud, e quando emitimos um facho de intensa escuridão no filme, a violência da experiência emocional da perda de um filho e suas implicâncias podem vir para o primeiro plano. Uma leitura possível é que a violência da experiência de perda é transposta no filme como uma violência aparente que esconde uma outra. Uma pena que alguns expectadores tenham abandonado as salas de cinema nas exibições nos festivais pelo mundo: qual será a violência que os fizeram sair de suas zonas de conforto? A explícita ou a implícita, a manifesta ou a latente?  E você, conseguiu ver o filme até o fim? O que achou? Deixe aí o seu comentário.  ___________Direção: Julia Ducournau Plataforma: MUBI
DORA_PARADIGMA_TRANSFORMACAO_TECNICA_PSICANALITICA Blog Masonry - Results from #120

Dora: paradigma da transformação da técnica psicanalítica

Por Luiz Barbosa -  O caso Dora é um episódio central na história da Psicanálise. Embora Freud afirme, ainda no prefácio do texto de sua comunicação, que não foi possível atingir a “meta fixada”, em função da interrupção precoce do tratamento. (“por vontade da paciente”), o caso foi o primeiro em que se registrou o uso de certos procedimentos técnicos que viriam a ser definitivamente incorporados à clínica, além de reafirmar, categoricamente, a necessidade do domínio dos postulados de A Interpretação dos Sonhos para o pleno exercício da Psicanálise, e a correção das inferências apresentadas nos seus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Isso não significa, entretanto, que aquilo que seria fixado como a técnica psicanalítica tenha sido aplicado em sua exatidão ou completude. É verdade que, no tratamento de Dora, Freud lança mão da associação livre, “descoberta” pelo psicanalista quando de sua percepção das limitações da hipnose e da sugestão a essa associada. Porém, à medida que o relato do caso avança, é possível perceber um Freud vacilante na adoção das próprias inovações técnicas que busca introduzir. A leitura do relato, aliás, permite vislumbrar, em mais de uma passagem, uma espécie de ansiedade em preencher as lacunas dos relatos da paciente com sugestões e apressadas conclusões relacionadas à sexualidade de Dora. De fato, tem-se a impressão de que Freud, embalado pelas descobertas e conclusões de sua pesquisa, adota uma postura proselitista, que é possível perceber mesmo em sua comunicação do caso. É como se o psicanalista, invertendo uma lógica que sempre lhe pareceu cara, deixasse que a tese – neste caso, a afirmação da técnica de interpretação dos sonhos e as conclusões acerca da importância da sexualidade na etiologia das neuroses – antecedesse a análise da narrativa da doença de Dora e lhe ditasse o sentido das conclusões, a despeito dos fatos em si. Assim, Freud, em substituição à hipnose e à sugestão, adota a livre associação como método de trabalho. Mas, ao invés de adotar a neutralidade e a abstinência que viria a enfatizar em seus textos posteriores, aqui o psicanalista, tão logo percebe no relato da paciente algum indício que aponte no sentido de seus postulados teóricos, apressa-se em entabular conclusões, antes mesmo de deixar que outras falas, ações ou reações de Dora permitam descortinar suas verdadeiras razões. Quando a jovem relata, por exemplo, o episódio em que o senhor K. a beija nos lábios em sua loja, imediatamente Freud conclui de que o comportamento de Dora é “completamente histérico”, além de tecer uma série de considerações sobre um possível deslocamento da sensação genital, numa incisiva tentativa de ligar a reação de nojo referida pela moça a uma problemática sexual ainda impossível de se afirmar, de acordo com a própria exposição do caso. Por outro lado, é preciso que se diga, a livre associação e a técnica de interpretação dos sonhos mostram seu valor como ferramentas do trabalho clínico. De fato, uma e outra se combinam para fazer avançar o tratamento quando Dora leva os sonhos para o divã. É a oportunidade para Freud pedir-lhe que busque falar tão livremente quanto possível acerca das memórias oníricas e das impressões que lhe causaram, uma vez que ele já instruíra a paciente na interpretação de seus sonhos. Ao mesmo tempo, seria uma oportunidade para que o próprio Freud colocasse em prática o que ele viria denominar atenção flutuante e as já referidas neutralidade e abstinência, o que não ocorreu de todo. A interpretação do segundo sonho de Dora, infelizmente, não foi concluída, visto que o tratamento foi interrompido pela paciente. Como se vê, a importância do caso Dora está em sua particularidade de ser o primeiro relato de caso de Freud em que está uma relatada uma tentativa de abandonar a técnica sugestiva da hipnose e a de enfrentar um caso clínico armado com a técnica de interpretação dos sonhos e os postulados teóricos acerca do papel da sexualidade na etiologia das neuroses – “as manifestações patológicas são, por assim dizer, a atividade sexual dos doentes”. Além disso, Freud chama a atenção para outro fenômeno observado durante o tratamento de Dora, que ele vai chamar de transferência e que considera “a parte mais difícil do trabalho”. Isso porque essa reedição dos impulsos e fantasias do paciente, além de inevitável, precisa ser apreendida pelo psicanalista “quase sem ajuda, com base em coisas mínimas e evitando inferências arbitrárias”. Mas é também imprescindível ao sucesso do tratamento, posto que somente “depois que ela é resolvida o paciente se sente convencido da validez dos nexos construídos na análise”. Nesse sentido, cabe perguntar: qual foi o manejo da transferência por Freud no caso Dora? Visto que o tratamento foi precocemente interrompido, qual o alcance da solução obtida? Se se toma a desistência de Dora como índice do fenômeno, pode-se concluir, além da ocorrência de uma transferência negativa dela para com o analista, que houve falha na forma como ele lidou com a circunstância? Considerando-se a importância que Freud deu à transferência em seus trabalhos posteriores, pode-se concluir que esse percebeu a necessidade de melhor compreender o fenômeno e de aprimorar a técnica no que tange à sua manipulação, tendo em vista o ocorrido no tratamento de Dora. Não por acaso, entre os trabalhos publicados posteriormente ao caso Dora, Freud demostra clara preocupação em municiar os médicos que se dedicam, e virão a se dedicar à Psicanálise, com um verdadeiro arsenal de recomendações para que evitem cometer o mesmo erro que ele próprio cometeu. Nesse sentido, pode-se afirmar que, no caso Dora, Freud não maneja corretamente a técnica psicanalítica que vinha elaborando e que seguirá aperfeiçoando nos anos seguintes. De fato, no que diz respeito ao modo como lidou com a transferência da paciente em relação a ele, o analista deixou a desejar, fazendo com que a jovem abdicasse do tratamento. Mas, além disso, diferentemente do que viria a afirmar posteriormente, Freud falhou ao lidar com as resistências do inconsciente da paciente. Ora, se a transferência é uma reedição de sintomas, não passa de um mecanismo das forças de resistência em seu trabalho de recalcamento. Como vencê-lo? De acordo com o próprio Freud, a solução está na fórmula “recordar, repetir, elaborar”. Para que o paciente recorde o que repete sob a forma da transferência e, finalmente, elabore, é preciso, antes, que a resistência que está na base do processo se lhe torne familiar. Somente assim ele pode vir a conhecê-la e, através do trabalho de análise, elaborar. A falta de tato de Freud, ao lidar com a transferência de Dora em relação a si, roubou-lhe essa oportunidade. Aparentemente, a despeito de afirmar em seu texto que o caso não foi completamente solucionado em função da desistência de Dora, Freud parece ter tomado esse caso para si como um paradigma. Quase como um modelo de fato, o caso Dora serviu para que, a partir dele, o psicanalista avançasse na reformulação da técnica – que já vinha em reconstrução desde seu rompimento com Breuer e o abandono da hipnose e da sugestão – e elaborasse uma série de postulados teóricos e preceitos para atuação na clínica, muitos dos quais ainda em uso na clínica contemporânea. Dessa forma, pode-se dizer que, na condução do caso Dora, Freud respeitou parcialmente apenas as regras da técnica psicanalítica, mas, paradoxalmente, esse caso foi essencial para a elaboração da técnica tal como a conhecemos hoje.
DICA_FILME_AND_THEN_WE_DANCED Blog Masonry - Results from #120

Dica de Filme: And then we danced - (alerta de spoiler)

Por Ale Esclapes -  O filme narra a história do dançarino Merab que tem como parceira de dança e namorada Mary no National Georgian Ensemble. Com a chegada de Irakli na companhia de dança é desencadeada uma série de emoções em Merab. O filme é delicado, intenso e apresenta muito mais camadas do que se permite ver à primeira vista, o que o torna, a meu ver, um pequeno clássico.   Na superfície temos o desejo de Merab por Irakli em conflito com a conservadora cultura georgiana, que não é muito diferente da cultura fora dos grandes centros ocidentais. Se assim o fosse, seria mais um filme LGBTGQIA+ estereotipado, mas não é o caso. Merab é filho, irmão, neto, empregado, vizinho, aluno e todas essas camadas estão presentes no filme, o que dá profundidade e complexidade ao personagem principal. Sua mãe aparentemente é deprimida, seu pai um dançarino fracassado, seu irmão tem problemas com drogas, seu professor é rígido, ele trabalha como garçom para ajudar na família que não dispõe de muitas posses. Ufa ... um personagem em tanto.   Todas essas camadas ficam disponíveis para que roteiro, direção e interpretações possam ser usadas para contar a estória do nascimento de uma parte da personalidade de Merab até então não disponível para ele: sua homossexualidade. A maestria do filme é focar nas implicâncias desse afloramento: com Irakli, com Mary, com o grupo de dança, seu irmão etc. Não estão em primeiro plano vergonha e culpa (não estão ausentes, mas não são o primeiro plano) – Merab flui com o seu desejo, e vai tendo que enfrentar suas consequências. Não é o mesmo conflito que vemos em filmes como, por exemplo, “Tom da Fazenda” onde culpa e vergonha em relação à sexualidade são transformados em violência. Aqui o destaque é para uma experiência de coragem e ingenuidade daquele que consegue acolher a si mesmo, mas nunca sem dor.    O filme apresenta cenas lindíssimas com destaque para a dança entre Merab e Irakli e o primeiro beijo, mantendo um delicado equilíbrio entre a tensão sexual, o amor e o medo. O ar de apaixonamento e entrega de Merab domina todo o filme, e o fundo conservador da sociedade georgiana lhe dá um contraponto de tensão o tempo todo, proporcionando ao filme um ar mais próximo do temerário que ao do medo. Destaque para a interpretação de Levan Gelbakhiani em seu primeiro trabalho como ator, que soube dar ao personagem densidade e leveza na medida certa dentro da história.   “And then we danced” é um pequeno clássico pois trata justamente desses elementos universais: como acolher o desejo e suas implicâncias em um espaço que não o aceita, seja ele pessoal, familiar ou cultural e isso é muito mais abstrato que a questão da sexualidade. ___________Direção: Levan AkinPlataforma: MUBI
PROFESSORA_PIANO2 Blog Masonry - Results from #120

Dica de Filme: A professora de piano - (alerta de spoiler)

Por Ale Esclapes -  Assisti “A professora de piano” no mesmo dia em que assisti “A avó” de David Linch, o que me desencadeou uma série de reflexões acerca do papel da psicanálise e da análise em geral na construção pelo diretor e posterior apreensão por parte do espectador do filme. No filme de Haneke, a personagem principal Érica apresenta comportamentos que poderiam ser chamados comumente de sadismo, masoquismo, automutilação, incesto entre outros.  Erika tem uma relação maquiavélica com seus alunos, incestuosa em termos psicológicos com sua mãe, seu pai morreu louco em um hospício, entre outros detalhes que Haneke nos deixa entrever. Algumas perguntas que surgiram: como esse personagem foi construído? Como se espera que esse personagem seja apreendido pelo expectador, se é que se espera? Entre esses pontos, assumo deliberadamente que possa estar a psicanálise, e a partir dessa liberdade que tomo, posso pensar em algumas questões sobre a diferença entre “explicar” e “descrever” em psicanálise. Só para deixar bem claro: não estou dizendo que a psicanálise esteja aí, só me é útil pensar que esteja, uma vez que sou psicanalista e que não tenho a menor ideia de como Haneke construiu esse personagem.   A noção que “A professora de piano” seja um “drama psicossexual” é repetido em vários sites de resenhas de filmes. O que isso me indica é que a presença da noção de que o maquiavelismo com que Erika trata seus alunos, sua sexualidade entre a automutilação e o par sadismo masoquismo, bem como a relação com a sua mãe estariam interligados através de uma “explicação”. É justamente no lugar dessa “explicação” é que entraria a psicanálise que permitiria diretor e expectador de alguma forma decodificá-lo. Aqui é tentador como expectador buscar tal explicação para esse “drama psicossexual” nas teorias de Freud, Lacan, Laplanche, etc. Não seria difícil encontrar uma explicação plausível que unisse todos esses elementos apresentados pelo filme. E esse é um dos maiores desafios que um psicanalista sério encontra: não explicar.   Existem na clínica muitas situações como essa: conteúdos manifestos que brilham na frente do analista, mas que não passam do brilho de uma lâmpada para uma mariposa. E aqui temos algo de interessante: quando retiramos todo esse brilho caricato do personagem, não nos sobra muita coisa. Não é um personagem complexo, ele é excessivamente complexo, excessivamente teórico, excessivamente psicanalítico, excessivo, e quando jogamos um facho de escuridão, não nos sobra muita coisa do que falar sobre o personagem que se esconde por trás de tanto excesso – talvez isso já seja um “algo” sobre Erika.   Na melhor observação que consigo fazer, sexo e amor se encontram dissociados e entrelaçados com ódio e violência. Quando amor se manifesta, seus pares entrelaçados assumem o controle; e da mesma forma o amor. Sua relação com a mãe é permeada de ódio e violência e onde poderia haver amor, aparece o sexo. Na sua relação com seus alunos, o amor de um professor é substituído pelo sentimento que eles não podem ser melhores que Erika, custe o que custar. O sexo consigo mesmo é manifestado através da automutilação.   Mas o que acabo de fazer não é uma explicação, é uma observação. Esse movimento é muito importante em termos de psicanálise: descrever o que observo, descrever como funciona aquilo que observo, e não lhe dar uma explicação, são posturas muito distintas, pois na maioria das vezes “explicar” em psicanálise implica em sobre entendimento teórico. Uma descrição pode usar qualquer modelo disponível para chamar atenção para o desconhecido no material.  ___________Direção: Michael Haneke Plataforma: MUBI
MORTOS_MENTES_VIVOS Blog Masonry - Results from #120

Os mortos nas mentes dos vivos

Por Marcelo Moya -  A homenagem em memória dos mortos, também conhecido como Dia de Finados, teve seu início no ocidente por iniciativa do cristianismo romano no segundo século, e fontes históricas afirmam que foi somente em meados do século XIII que a data foi oficialmente instituída nas pautas litúrgicas de Roma. Mas este olhar para os mortos não se restringe apenas às confissões religiosas ocidentais. O tema remonta os primórdios das civilizações por meio de diversos povos que de alguma maneira exaltavam a morte através de suas culturas, crenças e ritos. Em países como o México, por exemplo, este tema está profundamente enraizado nos costumes e tradições daquela nação centro-americana. Mas afinal, o que é a morte? Para alguns talvez represente o fim de tudo, um ponto final. Para outros um meio para se obter a eternidade ou a oportunidade de novos recomeços. Vertentes religiosas e espiritualistas normalmente consideram as três principais perguntas existenciais da humanidade: de onde viemos, por que estamos aqui e para onde vamos depois desta vida, e neste ponto, o tema da morte se torna um conceito central nos enigmas da humanidade. E como a morte é pensada na mente dos vivos? Para Ernest Becker "ela é uma ideia que move a vida" aponta o escritor em seu premiado livro A Negação da Morte. A psicanalista Melanie Klein considera que o medo da morte é a causa primária da ansiedade desde o nascimento. Freud fez alguns desdobramentos acerca da melancolia (depressão) associando-a às experiências de luto, bem como organizou modelos de teorias pulsionais nominando-as de vida e morte. "... se da morte não se obtém muitas respostas, dela ao menosse pode evocar uma pergunta: afinal, o que é a vida? " A herança de aspectos culturais, religiosos, filosóficos, sociais, antropológicos e até científicos sustentam a complexidade acerca da reflexão da finitude do ser. De qualquer forma, o Dia de Finados é um momento apropriado para refletir a vida na perspectiva da morte. Aliás, se da morte não se obtém muitas respostas, dela ao menos se pode evocar uma pergunta: afinal, o que é a vida? A médica Ana Cláudia Arantes, especialista em intervenções de luto e cuidados paliativos com pacientes em estado terminal em São Paulo, afirma que "a morte não é bonita, e que embora sua beleza seja o ímpar de uma tristeza, a vida sim que é bonita", como bem cantou Gonzaguinha, “eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita, é bonita...” O médico patologista e professor Paulo Saldiva considera que, “no fundo, o verdadeiro mistério não está na morte, mas está na vida”, e que embora seja capaz de emitir um atestado de morte, jamais dará um atestado de vida dado a sua complexidade. Embora a vida seja às vezes um soco no estômago como escreveu Clarice Lispector, "viver é melhor que sonhar, a vida é uma coisa boa" como compôs Belchior. "... é morrendo que se aplaca o insuportável da vida, ou é vivendointensamente que se obtém um alento para o insuportável da morte? Se tantos vivem pela antecipação da própria morte, outros viverão para sempre apesar de já terem morrido. Retomando Lispector, "cada dia é um dia roubado da morte, mas é esta morte que nos ajuda a suportar às vezes o insuportável”, e neste caso nos indagamos: será que é morrendo que se aplaca o insuportável da vida, ou é vivendo intensamente que se obtém um alento para o insuportável da morte? Embora tão paradoxal possa parecer o viver e morrer que inspiram de poetas a pregadores, é na dor e na saudade pelos que já partiram que se almeja o consolo, a serenidade e o silêncio, mas que nos sirva também como uma fagulha que mantenha acesa não somente a chama pela vida, mas a oportunidade para pensar e ressignificar a nossa breve peregrinação neste mundo com mais humildade e virtude. Faço minhas as palavras do saudoso psicanalista britânico Winnicott que certa vez disse: “quando eu morrer, eu quero estar bem vivo.” Até porque, como bem cantou Raul Seixas, “a morte, surda, caminha ao meu lado, e eu não sei em que esquina um dia ela vai me beijar ...”  "Mas pra aprender a morrer, foi necessário viver, e eu vivi ..."  (Baden Powell)