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A realidade do psiquismo

A realidade do psiquismo

Por Karen Rodrigues A. Chaves - 

Em Freud, a psicanálise era sobretudo a arte da interpretação e não uma técnica por sugestão. O método psicanalítico proposto por ele visa ter acesso ao inconsciente, trazendo para o consciente aquilo que foi reprimido, liberando emoções e experiências. Resgatar a libido que se moveu para a regressão e reanimar as imagens infantis, colocando essa libido a serviço da realidade. Mas, como ele propõe isso?

Primeiramente é importante destacar que de todos os conceitos criados para fundamentar sua teoria, o de inconsciente representa o elemento central em toda a psicanálise, e é para onde o olhar do analista deve ser direcionado. Freud chegou a suposição do inconsciente ao perceber que a consciência possui muitas lacunas, como atos psíquicos que não se justificam apenas pela consciência, e para os quais se faz necessário considerarmos a influência do inconsciente.

O inconsciente é o consciente reprimido (recalcado), é um lugar psíquico com uma energia específica e é o campo de trabalho da psicanálise. Durante sua clínica, Freud, identificou algumas formas de obter acesso ao inconsciente, e uma dessas formas seria por meio da associação livre. Essa técnica na qual o analisando pode falar tudo aquilo que lhe vier a mente sem a intervenção ou orientação do analista, se tornou essencial para o psicanalista conseguir ter acesso ao inconsciente do paciente. Pela sua fala o analista pode captar aquilo que surge, por vezes, nas entrelinhas e, assim, identificar os conteúdos inconscientes.

Naquilo que não é dito, omissões, confusões e esquecimentos, é que se expressa o inconsciente. São formas de exprimir opiniões ou verdades que a razão consciente não permite, funcionando como um disfarce. Freud destaca a necessidade da atenção equiflutuante por parte do analista, que seria ouvir sem raciocinar, escutar sem seleção prévia, sem censura, as associações livres do analisando.

Outro caminho identificado por Freud para ter acesso ao inconsciente seria por meio da interpretação dos sonhos. Ele define os sonhos como o caminho mais rico para a investigação do inconsciente.

O sonho se apresenta pelo conteúdo manifesto, que se refere ao que pode ser lembrado e relatado; e pelo conteúdo latente, que é o conteúdo oculto e inconsciente, que provoca o sonho.

Ao narrar o sonho para o analista, o paciente consegue fazer associações a respeito das imagens e dos símbolos do seu inconsciente. Esse trabalho de interpretação dos sonhos se realiza ao nível da linguagem, do discurso do paciente e não das imagens oníricas que o paciente recorda.

No processo de interpretação, o analista precisa olhar para as imagens do sonho e interpretá-lo como uma narrativa não linear, em que estarão manifestos os desejos, medos e traumas enraizados no inconsciente, dando liberdade para o analisando criar as suas próprias associações, e não interpretar o sonho do paciente logo de imediato.

O tratamento analítico segue para tentar resgatar a libido e nesse ponto a resistência luta para o que foi reprimido não seja revelado, evitando assim o desprazer. A resistência usa a repressão como recurso para manter algo afastado da consciência.

Ao invés de lembrar de tudo que está reprimido, o paciente é levado a repetir o que foi recalcado, como vivência atual e não como parte do passado. Essa reprodução, que sempre tem por conteúdo algo da vida sexual infantil, se dá no âmbito da transferência, isto é, da relação com o analista.

A transferência é um retorno do reprimido que volta para a figura do analista, e ocorre quando algo do recalcado for adequado para ser transferido a pessoa do analista.

O analista deve utilizar a transferência para fazer com que o paciente recorde, tome consciência.

Para Freud, o conteúdo reprimido é expresso pelo indivíduo através de um conjunto de ações repetitivas, e o manejo seria a maneira de transformar pouco a pouco a compulsão a repetição, levando o indivíduo a se reapropriar da sua história.

O manejo da transferência configura como uma das maiores dificuldades da clínica. O amor transferencial, que é criado pela própria situação analítica, acaba sendo utilizado pela resistência para impedir a continuidade do tratamento e cabe ao analista saber manejar esse sentimento, mantendo a transferência amorosa, a tratando como algo que deverá ser enfrentado durante o tratamento para reconduzir ao consciente o que foi recalcado, para que o paciente consiga elaborar o que foi tratado em sua sessão.

A superação da resistência não ocorre quando a mesma é comunicada ao paciente. Ele precisa de tempo para se aprofundar na resistência para poder elaborá-la e então superá-la.

A comunicação do recalcado ao analisando é apenas uma das preparações necessárias para o tratamento, e essa revelação do inconsciente costuma ter como consequência a intensificação do conflito dentro dele e o aumento do sofrimento. Por isso antes, como preparação, o analisando precisa estar próximo do recalcado, e apegado ao analista para não querer interromper o tratamento. Só com o preenchimento desses pré-requisitos será possível reconhecer e dominar as resistências que levaram ao recalque e ao desconhecimento.

O tratamento psicanalítico pressupõe um contato mais prolongado, sendo que seria totalmente condenável uma revelação precipitada pelo analista, o que colocaria em risco todo o processo. Atrasar o prazer é um dos pontos do princípio de realidade no psiquismo, como forma de evitar um desprazer maior, considerando que não podemos realizar tudo o que desejamos.

Freud destacou a importância da sensibilidade do psicanalista aos movimento psíquicos do analisando, para que o tratamento seja efetivo e alcance seu objetivo, ajudando o analisando a compreender seus pensamentos e traumas, se libertando dos sintomas, para que ele saiba lidar com seus sofrimentos, se sentindo no comando da sua vida.