Por Juliana Macedo Malassise -
Vivo em uma armadura oca de submissão, um falso Self. Habito um corpo, um modo de vida, adaptado à realidade. Uso uma máscara que me defende, aceito regras sociais. Meu verdadeiro Self teme à aniquilação. Teme que sua verdade seja insuficiente, seja real demais para ser suportada pelo mundo. Meu prazer é reprimido, não tenho vitalidade ou autenticidade, apenas sou o que esperam de mim. Sou um fracasso existencial. Não sou patológica, sou apenas falsa. Deprimida, ansiosa, perdida. No entanto, tenho uma vida polida, sou amável. A sociedade se agrada com as minhas boas maneiras, com o meu progresso profissional, com a forma como conduzo minha família, com as minhas defesas. Assim sobrevivo. Meu intelecto é a sede desta dissociação. Minha intensa atividade mental causa uma existência psicossomática. Meu falso Self é tão hábil que simula esta integração frente à realidade. Minha casca engana a todos. Aparentemente sou um indivíduo autêntico, com Self seguro de si e de suas vontades. Mas as aparências enganam. O mundo interno, a psique, o inconsciente são infinitos. E sua profundidade muitas vezes esconde a verdade. Um dia escrevi no braço “be your best self”. Esta ideia é o começo de uma busca por integração. A construção de um Self real, que represente a mim mesma. Na análise Winnicottiana de ambiente favorável, este processo me leva a uma regressão e dependência severa. Preciso reviver expectativas e necessidades da infância. Da fase na qual meu Self era dependente, frágil. No analista vejo uma mãe que é, um espelho que me reflete, que constitui base para minha autodescoberta. Vivo uma ilusão criativa, um brincar que me estimula. Um equilíbrio entre prazer verdadeiro e realidade. A análise me leva a ressignificar a ideia do que é o “best” pro meu Self verdadeiro. Afinal este “best self” escrito no braço há anos era idealizado, performático, cheio de externo, mas vazio internamente. “Be your best self”? Ou simplesmente ser… “just be”. O “ser antes de tudo” proposto por Winnicott. O “ser” do elemento feminino puro, do Self real. Que é, antes de fazer. E que faz de forma criativa, autêntica, verdadeira. Que vive o mundo externo de forma real e espontânea, através de sua liberdade, identidade, individualidade. Que sabe o que é, e sobretudo escolhe todos os dias viver seu ser.
Por Rodrigo Lopes Barreto -
Boa noite! Tudo bem? Eu sou Wanderley Coutinho, sejam bem-vindos ao meu programa de entrevistas. Há muito eu ansiava por essa entrevista, se considerarmos Freud uma espécie de Madonna, ela seria a Britney Spears da psicanálise... Hoje eu recebo Melanie Klein! Melanie Klein- Boa noite Sr. Wanderley, se você se refere ao legado e à forma como ‘apavoramos horrores’ em nosso ofício... aceito a comparação com a moça que dança com facas, aliás... de quem eu adoraria ter sido analista, basta lembrar que ela começou ainda criança na indústria do entretenimento.
- Wanderley Coutinho- Falando em ofício, porque você odiava a Anna Freud? (Melanie Klein faz cara de contrariada) - Melanie Klein- Sério isso? Anna Freud e eu discordávamos de forma acadêmica, como duas psicanalistas respeitadas por seus pares. Se vossa intenção é reduzir nossa rivalidade a uma briga de meninas que falam mal da roupa da outra eu não vejo o porquê continuarmos com essa entrevista. Além do mais, não é possível falar da nossa discordância sem analisarmos da obra do pai dela.
- Wanderley Coutinho- Peço desculpas! (Wanderley fica vermelho de vergonha) A intenção era saber da discordância acadêmica. Prossiga por favor... - Melanie Klein- Não pareceu! Pois bem Sr. WC, na falta de uma pergunta adequada começarei falando de algumas diferenças conceituais. Para o Sr. Freud, o Ego se desenvolvia a partir da relação do Id com o meio externo, para mim, o bebê já nasce com um Ego frágil e primitivo, que se vê diante de um ambiente interno caótico e um meio externo hostil, e que precisa lidar com a ansiedade desde o início.
- Wanderley Coutinho- Como se desenvolve essa ansiedade? - Melanie Klein - Habemus pergunta! Finalmente! Eu dividi a ansiedade que se manifesta nos primeiros anos de vida em dois grupos. A primeira delas é ansiedade esquizoparanóide, que se desenvolve principalmente nos três primeiros meses de vida e tem caráter persecutório. Essa ansiedade provém de um medo do aniquilamento e da morte, e pode vir de fontes internas (pulsão de morte) e externas. A fonte inicial da ansiedade persecutória é o nascimento, que é percebido como um grande perigo ao Ego bem no início do seu desenvolvimento, esse perigo também aparece quando o bebê experimenta a frustração de suas necessidades corporais. Posteriormente o bebê desenvolve a ansiedade depressiva, que predomina a partir da metade do primeiro ano de vida, a ansiedade vem de uma percepção de perigo para o objeto, e vem acompanhada de intenso sentimento de culpa.
- Wanderley Coutinho- Diferente da ansiedade freudiana? - Melanie Klein- Exatamente. Para o Sr. Freud a ansiedade (ou angústia) era gerada pelo Ego, como forma de reagir a impulsos instintuais do Id, gerando desprazer e causando a repressão desse impulso instintual. Para mim a ansiedade é precoce, arcaica, e afeta profundamente as relações com o objeto, e o primeiro objeto do bebê é o seio materno. Na ansiedade esquizoparanóide o medo da morte e dependência é tão grande que o bebê precisa realizar a cisão do objeto para se defender. Por exemplo, o seio bom que lhe dá alimento, e o seio mau que lhe deixa com fome, despertando desejos sádicos e canibalescos, para incorporar o que é bom e destruir o que é mau. Na ansiedade depressiva, o bebê percebe que esse objeto é um só, ele integra o objeto, os aspectos bons, maus, amorosos e odiosos se aproximam. O bebê sente a necessidade de reparar o objeto amado que foi danificado por seus desejos destrutivos, gerando a culpa. Lembrando que temos um Ego arcaico lidando com essas ansiedades... Um Ego frágil que se alterna entre tendências à integração e despedaçamento, juntamente com seu objeto amado/odiado. Por fim, reparem que tudo isso se passa em um momento que o bebê ainda não desenvolveu a linguagem, pensem na intensidade das sensações corpóreas vivenciadas...
- Wanderley Coutinho- Estou pensando aqui... se o seio materno foi o primeiro objeto... Qual o impacto do desmame? - Melanie Klein- Alegro-me que minhas ideais estão fazendo o senhor pensar... O desmame representa a perda do primeiro objeto amado, o seio da mãe. Não só do objeto externo, mas também do objeto introjetado, ele crê que essa perda é devida a seu ódio, agressividade e voracidade, ou seja, sente culpa, percebe a ansiedade depressiva operando? O bebê vivencia esse luto e tenta superá-lo. Na vida adulta, esses processos arcaicos são revividos quando o luto ocorre novamente.
- Wanderley Coutinho- Que pesado, e logo no primeiro ano de vida... Imagina aos cinco ou seis anos quando se somar o complexo de castração e o complexo de Édipo!- Melanie Klein- Cinco ou seis? Bem se vê que o Sr. não se preparou para esta entrevista, desconhece o meu trabalho e está pensando no desenvolvimento das fases da sexualidade infantil de forma linear, como Freud fazia...
- Wanderley Coutinho- Achei que fosse discípula dele...- Melanie Klein- Ah claro, uma mulher no século passado no máximo poderia ser discípula de um homem! Eu admiro seu legado e sou profunda conhecedora de sua obra, mas convenhamos, por vezes o Sr. Freud se portava como o dono da bola, expulsando de campo qualquer pessoa que o contrariasse. Até seu falecimento eu tinha que ser um pouco mais política ao expor minhas ideias, após sua morte pude mostrar meus conceitos e contrapontos a sua obra de forma mais assertiva.
- Wanderley Coutinho- Como você percebe a sexualidade infantil?- Melanie Klein- Penso que as fases do desenvolvimento da sexualidade infantil ocorrem de forma concomitante. A fase oral, anal e fálica são entremeadas em diversos momentos, sem que seja necessário regressão como pregava o Sr. Freud. Essas fases se desenvolvem de forma espacial, associadas a um forte componente sádico. Imagine o grau de ansiedade gerada no pobre bebê!
- Wanderley Coutinho- Bem precoce, então o complexo de Édipo e o medo da castração...- Melanie Klein- Já se manifestam no primeiro ano de vida, os impulsos fálicos acontecem concomitantemente com os impulsos sádico orais e sádico anais, e só dominam a cena quando a criança atinge o auge da situação edipiana descrita pelo Sr. Freud. Eles também atuam na gênese das ansiedades, tanto esquizoparanóides quanto depressivas. Por exemplo, para mim o medo da castração é uma fonte de ansiedade persecutória nos meninos, mas se mescla com a ansiedade depressiva. Se o menino for castrado ele não pode fertilizar uma mulher; e em última análise, não poderá fertilizar a mãe amada e reparar os danos causados a ela por seus impulsos sádicos. Já nas meninas, a ansiedade vem por temer que a mãe ataque seu corpo e remova seus órgãos internos, e pior, que arranque os seus bebês, medo fundamentalmente persecutório, somados à uma forte ansiedade depressiva pela destruição dos bebês (seus objetos amados) que estariam dentro dela.
- Wanderley Coutinho- Sem haver Superego?- Melanie Klein- Errado! Para mim o bebê tem um Superego primitivo, de grande rigor sádico e que gera muita culpa. O superego primitivo se forma quando as fases sádico oral e sádico anal ainda são predominantes. Ele vem da agressividade nata do bebê, e não do complexo de Édipo, conforme o conceito freudiano.
- Wanderley Coutinho- Eu queria falar agora das suas internações e da relação com sua filha...- Melanie Klein- Fofoquinhas? Não! Eu quero falar de fantasia. As fantasias inconscientes são fenômenos mentais de grande importância na vida psíquica. Para Freud as fantasias seriam a versão que as pessoas dão para fatos da sua vida, elas aparecem mais tardiamente, retomando e modificando algo do passado com o que não se podia lidar, ou seja, algo que foi recalcado. Incialmente ele liga a traumas, e posteriormente a versões de como se davam as relações primordiais na família (Édipo e castração). Sr. WC, leia ‘Bate-se Numa Criança’! Para mim, as fantasias inconscientes são elaborações imaginativas das funções corporais. Essas fantasias são muito precoces. Lembra da cisão do objeto que falei acima? É um mecanismo de defesa que faz uso da fantasia, visando atenuar as ansiedades. Observe também que na minha noção de fantasia novamente o contexto espacial aparece, na relação entre o que está dentro e fora, e na relação com o objeto. A partir dessa noção que posteriormente desenvolvi os conceitos de introjeção, projeção, posição depressiva e posição esquizoparanóide. Sr. WC, leia a minha obra!
- Wanderley Coutinho- Fala um pouquinho da Anna Freud para mim? Por favor!- Melanie Klein- Ambas atuamos muito no campo da psicanálise infantil, acredito que minha principal discordância ao trabalho dela era o caráter didático infringido ao seu tratamento, buscando uma transferência positiva a todo custo e evitando a transferência negativa. Eu quero tudo! Só através da análise das transferências negativas e positivas que a ansiedade é reduzida na raiz.
- Wanderley Coutinho- E quais os objetivos do seu tratamento psicanalítico? - Melanie Klein- Já em 1923 eu afirmava, cada vez que uma ansiedade era resolvida, a análise dava um grande passo adiante. Para chegar ao fim de uma análise é necessário checar se os conflitos e ansiedades vivenciados durante o primeiro ano de vida foram suficientemente analisados e elaborados. O objetivo principal do meu tratamento é a redução e modificação das ansiedades persecutórias e depressivas, desenvolvendo o ego do indivíduo e promovendo a capacidade de amar e de estabelecer relações de objeto.
- Wanderley Coutinho- Adorei! Vamos marcar outra entrevista para falar de introjeção, projeção, posição esquizoparanóide e posição depressiva?- Melanie Klein- Não! Boa noite!
Por Karin C. Grabner -
Eu comecei lendo Freud procurando conceitos e terminei observando uma estrutura em construção e movimento. E acho que isso já responde muito sobre a forma como me aproximei não apenas de sua obra, mas também da própria ideia de processo psicanalítico. Se eu tivesse escrito este texto há seis meses, provavelmente teria abordado o que penso sobre objetivo psicanalítico de outra forma. Se o escrever daqui a cinco anos, talvez (espero que) responda outra coisa. Pois o que segue não é uma conclusão sobre Freud, mas a captura de um encontro específico entre sua obra e o momento em que me encontro. Talvez porque a psicanálise me ensine justamente isso: não existe leitura sem leitor. Não existe encontro com um texto que não seja também um encontro consigo mesmo. Por isso, mais do que me perguntar qual conceito de Freud mais me identifiquei, acabei me perguntando o que ficou de Freud em mim após um ano de leitura.
Seria mais rápido responder que a maior herança de Freud foi sua formulação do inconsciente. Papai não é papai à toa. Há algo de inevitável em se deixar capturar pela ideia de que não somos senhores em nossa própria casa. Mas, ao reler os ensaios que escrevi ao longo desse percurso, percebi que eu não estava perseguindo um conceito. Sempre estive perseguindo uma pergunta. E foi a metapsicologia (atravessada pelas minhas próprias metáforas arquitetônicas) que me permitiu enxergá-la.
Freud me ensinou a perguntar como o aparelho psíquico consegue manter alguma sustentação e continuidade apesar das tensões constantes entre pulsão, realidade, objeto e narcisismo. Mas talvez o que tenha permanecido em mim seja uma questão ligeiramente diferente: como tornar uma estrutura mais habitável sem a promessa de torná-la definitiva?
Em sua metapsicologia, os fenômenos psíquicos são compreendidos por diferentes perspectivas: dinâmica, econômica e tópica. A potência desse modelo está justamente em permitir que o sofrimento seja pensado para além de suas manifestações mais evidentes. Durante a leitura, porém, me vi acrescentando uma pergunta própria: e se houvesse uma quarta perspectiva? Uma perspectiva estrutural. Menos interessada em localizar conteúdos e mais preocupada em compreender como uma organização psíquica produz continuidade, acomoda tensões e permanece habitável apesar dos conflitos que a atravessam. Talvez minha formação em arquitetura tenha atravessado essa leitura. Não porque Freud ignore essa questão, mas porque sua obra me levou a retornar repetidamente para a ideia do psiquismo menos um sistema fechado e mais um canteiro de obras ainda em atividade.
Foi nos textos metapsicológicos que encontrei esse Freud: menos preocupado em oferecer respostas definitivas do que em compreender como o psiquismo se organiza, se transforma e encontra soluções para seus próprios impasses. Raramente me vejo perguntando o que um sintoma significa ou qual desejo inconsciente está em jogo. Volto repetidamente a outras questões: como isso se transforma? O que a análise constrói? Como uma estrutura continua funcionando apesar das tensões?
Minha compreensão inicial do objetivo da psicanálise passava principalmente pela interpretação: tornar visível aquilo que permanecia inconsciente. Com o passar das leituras, entretanto, essa ideia começou a se transformar. Sem abandonar essa dimensão, passei a enxergá-la menos como uma prática de revelação e mais como uma prática de transformação, cujo objetivo não é produzir uma vida sem conflitos, mas ampliar a capacidade de sustentá-los, elaborá-los e transformá-los. Talvez seja justamente aí que eu enxergue alguns dos desdobramentos mais importantes da obra freudiana para a psicopatologia: os sintomas deixam de aparecer apenas como falhas e passam a ser compreendidos como tentativas de solução encontradas pelo aparelho psíquico diante de conflitos que não puderam ser elaborados de outra forma. As psicopatologias deixam de ser apenas doenças da mente e passam a aparecer como modos particulares de organização e sustentação da vida psíquica, deslocando a pergunta de “o que está errado?” para “como esse sujeito encontrou uma forma possível de se organizar diante de seus conflitos?”.
Também carregava a expectativa de que a resolução das angústias marcaria uma espécie de conclusão do sofrer. Hoje me acompanha outra imagem: a de uma casa que treme sem desabar. Se meu jeito de me aproximar da vida psíquica é através do modelo de um canteiro de obras em atividade, então a técnica não pode prometer uma estrutura definitiva. É nessa imagem que reconheço tanto as possibilidades quanto os limites da técnica psicanalítica. Sua potência está em ampliar a capacidade de elaboração e tornar a estrutura mais habitável sem a promessa de torná-la definitiva.
Seu limite está em não poder eliminar aquilo que constitui a própria experiência humana: conflito, ambivalência, perda, falta e angústia. A análise não impede que a casa volte a tremer. O que ela pode oferecer é a descoberta de que nem todo tremor conduz ao colapso.
Talvez seja por isso que, entre tantos conceitos apresentados por Freud, tenha sido justamente o aparelho psíquico aquele com o qual mais me identifiquei. Há conceitos mais sedutores: a potência do inconsciente, a ruptura produzida pela sexualidade infantil, a engenhosidade do sintoma, a vertigem da pulsão de morte, a relevância da transferência, a dramaticidade constitutiva da condição humana dos conflitos psíquicos ou o mistério da relação que estabelecemos conosco mesmos do Narcisismo. Talvez o aparelho psíquico seja a escolha menos sedutora. Mas entre todos eles, foi através dele que consegui observar a estrutura que tenta conter, organizar e colocar essas forças em movimento. Foi nele que encontrei uma forma de pensar. Não me debrucei pelos habitantes da casa. Me interessei pela própria casa.
Talvez essa tenha sido a herança mais importante que recebi de Freud: não a promessa de eliminar rachaduras, mas a possibilidade de escutá-las. E, ao escutá-las, construir uma casa mais ampla. Não uma casa terminada, mas uma casa habitável. Uma casa capaz de se mover sem que cada tremor anuncie ruína. Mais viva, mais verdadeira e, quem sabe, capaz de acolher também as histórias dos outros...
O Grupo Pavese originário foi constituído em 2005 por Antonino Ferro, Maurizio Collovà, Giuseppe Civitarese, Fulvio Mazzacane, Giovanni Foresti, Elena Molinari e Pierluigi Politi. Atualmente, permanecem no grupo Antonino Ferro, Giuseppe Civitarese, Maurizio Collovà, Fulvio Mazzacane e Elena Molinari, aos quais se juntaram, em 2014, Mauro Manica e Violet Pietrantonio. Michele Bezoari, embora não esteja concretamente presente no grupo, é reconhecido por seus integrantes como uma importante referência teórica para o pensamento de Campo e para a Psicanálise.Para compreender o trabalho desses psicanalistas, é importante recuperar alguns elementos da trajetória teórica do Grupo Pavese. O grupo encontrou nos desenvolvimentos mais tardios do pensamento de Wilfred Ruprecht Bion um caminho para pensar uma Psicanálise na qual o inconsciente não é compreendido apenas como um recipiente de conteúdos reprimidos que precisam ser revelados. O inconsciente passa a ser pensado também como algo que se cria continuamente na relação, permitindo desenvolver a capacidade de sonhar e transformar experiências emocionais que ainda não puderam ser pensadas.A partir do diálogo entre Bion e a tradição do Campo Bipessoal, o Grupo Pavese desenvolveu progressivamente uma Teoria do Campo pós-bioniana. Nessa perspectiva, aquilo que acontece durante uma análise não pertence exclusivamente ao paciente nem pode ser compreendido separadamente da participação do analista. A sessão torna-se um espaço de produção compartilhada: personagens, narrativas, imagens, emoções e pensamentos que emergem no encontro podem ser compreendidos como expressões do próprio Campo e transformados pela dupla analítica.Os desenvolvimentos mais recentes levam essa concepção ainda mais longe, em direção ao vértice do Nós. Em vez de permanecer apenas na relação bipessoal Eu/Tu, passa-se a considerar aquilo que se constitui entre analista e paciente. O interesse desloca-se para o Campo como uma realidade cocriada, para seu clima emocional e para a possibilidade de a dupla transformar experiências que ainda não encontraram condições para serem sonhadas. A história individual não desaparece, mas deixa de ocupar sozinha o primeiro plano.É justamente a partir desse território teórico comum que podemos compreender melhor os integrantes do Grupo Pavese. Eles compartilham determinados fundamentos, mas desenvolveram vértices próprios de investigação. O sonho, a narratividade, a intersubjetividade, a intercorporeidade, o Nós, a literatura, a infância, a família, as patologias graves e a rêverie aparecem com diferentes ênfases em seus trabalhos. Conhecer seus percursos permite, portanto, observar como uma construção coletiva pode produzir diferentes caminhos dentro de um mesmo Campo.Antonino FerroPsiquiatra e psicanalista da Sociedade Psicanalítica Italiana e da Associação Psicanalítica Internacional, com funções de formador, Antonino Ferro foi presidente da Sociedade Psicanalítica Italiana e recebeu o Sigourney Award. Idealizador e fundador do Grupo Pavese, é um dos principais expoentes da Teoria do Campo pós-bioniana e profundo conhecedor do pensamento de Wilfred Ruprecht Bion.Entre seus interesses científicos estão a teoria do personagem, a transformação em sonho, as transformações narrativas, a interpretação fraca ou não saturada, a sessão de análise como sonho cocriado e a intersubjetividade.Giuseppe CivitaresePsiquiatra e psicanalista com funções de formador da Sociedade Psicanalítica Italiana, da Associação Psicanalítica Internacional e da American Psychoanalytic Association, Giuseppe Civitarese recebeu o Sigourney Award em 2022.Seus interesses científicos concentram-se na Teoria pós-bioniana do Campo, na intersubjetividade e intercorporeidade, na coconstrução da sessão e na superação da visão bipessoal. Também investiga o Em-comum e o Nós em Psicanálise, a análise como desenvolvimento da capacidade de sonhar estados emocionais não representados e o diálogo entre Psicanálise e Filosofia.Maurizio CollovàPsiquiatra, membro ordinário da Sociedade Psicanalítica Italiana e da Associação Psicanalítica Internacional. Foi Secretário Científico do Centro Psicanalítico de Pavia durante a presidência de Antonino Ferro.Seus interesses científicos incluem a Teoria pós-bioniana do Campo Analítico, a Psicanálise como sonho cocriado, a teoria do personagem, a origem intersubjetiva e intercorporal do aparato de pensamento e o critério de sustentabilidade da análise.Fulvio MazzacanePsiquiatra, membro ordinário com funções de formador da Sociedade Psicanalítica Italiana e da Associação Psicanalítica Internacional. Já foi Secretário Científico e Presidente do Centro Psicanalítico de Pavia.Há muitos anos dedica-se aos desdobramentos pós-bionianos da Teoria do Campo, colocando-os em diálogo com a literatura. É também estudioso dos mitos clássicos e da narratologia.Elena MolinariPediatra e psicanalista, Elena Molinari é membro ordinário da Sociedade Psicanalítica Italiana e da Associação Psicanalítica Internacional. Já foi Secretária Científica Nacional da Sociedade Psicanalítica Italiana e é docente da Academia de Belas-Artes de Brera de Teoria e prática da terapêutica artística.Seus interesses científicos incluem a Psicanálise de crianças e adolescentes, notadamente a integração binocular com o grupo familiar, o setting, o estudo da eficácia terapêutica, os processos transformadores em Psicanálise, o sonho, a imaginação e a Teoria do Campo pós-bioniana.Mauro ManicaMauro Manica é psiquiatra e membro ordinário com funções de formador da Sociedade Psicanalítica Italiana e da Associação Psicanalítica Internacional. Passou a integrar o Grupo Pavese em 2014.Seus interesses científicos abrangem a Psicanálise das patologias graves, incluindo transtornos da personalidade, psicose e espectro autista, além da integração de uma perspectiva ontológica à perspectiva epistemológica, isto é, de uma Psicanálise ativa a uma Psicanálise contemplativa.Violet PietrantonioPsicóloga especializada em Psicologia Clínica, psicanalista e membro associado da Sociedade Psicanalítica Italiana e da Associação Psicanalítica Internacional. Passou a integrar o Grupo Pavese em 2014.Seus interesses científicos incluem a Teoria do Campo Analítico pós-bioniana e o modelo onírico da mente, a transformação em sonho das intuições do último período de Wilfred Ruprecht Bion, o desenvolvimento do processo onírico durante a sessão e as funções e possível utilização da rêverie no trabalho analítico.Um grupo, diferentes vérticesPercorrer os interesses desses autores permite compreender melhor o que significa falar em Grupo Pavese. Existe um território teórico compartilhado — Wilfred Ruprecht Bion, o Campo, o sonho, a transformação e a cocriação da experiência analítica —, mas cada integrante se aproxima desse território a partir de um vértice particular.Em Antonino Ferro encontramos a transformação em sonho, o personagem e a sessão cocriada; em Giuseppe Civitarese, a intersubjetividade, a intercorporeidade e o Nós; em Maurizio Collovà, a sustentabilidade e a origem relacional do pensamento; em Fulvio Mazzacane, o diálogo com a literatura, os mitos e a narratologia; em Elena Molinari, a infância, a família, a imaginação e os processos transformadores; em Mauro Manica, as patologias graves e a dimensão ontológica; e, em Violet Pietrantonio, o processo onírico e a rêverie. São percursos distintos que permanecem ligados por uma mesma investigação sobre aquilo que acontece entre analista e paciente.A Teoria do Campo aparece, assim, não como um sistema fechado que seus integrantes simplesmente reproduzem, mas como um campo de investigação em permanente desenvolvimento. Aquilo que começou em Pavia como um grupo reunido para discutir sessões de análise continua a produzir novas perguntas sobre o sonho, o pensamento, a relação analítica e as possibilidades contemporâneas da Psicanálise.
Por Juliana Macedo Malassise -
Imperfeição, caos. O puerpério é sinônimo de desafio, exaustão, solidão. Meu Self foi dilacerado frente a um amor infinito, vulnerável, dependente. A vontade de desistir, de aquietar, a pulsão de morte, encontra o paradoxo de ser responsável pela sobrevivência do outro. Do outro que é você. O outro que inspira todos os dias. Que ergue, que dá forças, que transforma. Sou suficientemente boa? Não sei. A maternidade é sinônimo de insuficiência, de erros. E neste cenário, sugerido por Winnicott, onde o pai é genitor, a mãe contemporânea estará sempre distante do que sugere este conceito psicanalítico. Afinal o suficientemente boa, descrito nos textos, é milimetricamente dosado por Winnicott, é utópico.
Treino é treino, jogo é jogo. O aprendizado na maternidade acontece no convívio, no fazer. Cada bebê, cada criança, é um indivíduo completo e repleto de particularidades. Em cada mês do desenvolvimento humano, os desafios mudam. A agressividade primária do bebê onipotente, que testa seu ambiente e suas condições de sobrevivência é cruéis com quem cuida. A mãe se sente fora da zona de conforto, ruim, incapaz. A autoestima baixa, o superego exaltado, vem do julgamento social, das imposições, das múltiplas jornadas, da perfeição sugerida pelas redes sociais e pelos livros. Se antes ser uma mãe suficientemente boa bastava, hoje a mulher deve ser suficientemente profissional, suficientemente bonita, suficientemente jovem. As cobranças não acabam. Elas controlam o poder feminino apagado pela sobrecarga. A mulher é coroada como a principal responsável pelo equilíbrio do ambiente favorável, no qual a família está estabelecida. Sua coroa é sua prisão. E enquanto isso o patriarcado reina. Neste cenário onde só a mãe cuida, me pergunto: quem cuida da mãe?
O que é ser normal? O que é uma família normal? O que é um ambiente favorável? Muitos padrões e estereótipos errôneos podem surgir da “normalidade” sugerida por Winnicott, é necessário discernimento. Quando elaboramos sobre políticas públicas que devem garantir os direitos da criança e do adolescente, e refletimos a diferença que um bom ambiente pode trazer para o desenvolvimento, cognição e vida psíquica infantil, os conceitos de “ambiente favorável” e já ampliando o vértice “a família suficientemente boa” são úteis. No entanto, como mãe, é normal temer uma leitura literal que reduza a parentalidade moderna novamente a responsabilidade da mulher. Convido os leitores de Winnicott, ao lerem a palavra “mãe”, refletirem na busca de conceitos mais amplos que se encaixem à sua realidade e dinâmica familiar. E convido as mães, ao lerem Winnicott, a repensarem sua culpa inevitável vinda da leitura. Seu amor incondicional e a demonstração através da vivência com seus filhos, é sua principal arma para a saúde física e mental destas crianças. A perfeição está longe de ser a resposta, já que segundo o próprio Winnicott, a falha gradual materna faz parte da formação da autonomia, da individualidade e do Self real e autêntico que renuncia a onipotência.
No meu maternar me contento com a insuficiência, com o erro. Com o amparo e a solidariedade a mim mesma, e aos meus defeitos como mãe e como pessoa. Admiro meu Self que se desespera buscando outros pilares além da maternidade, e que grita por uma sociedade que não despeje na mulher e na mãe toda a responsabilidade pelo cuidado familiar. A mãe suficientemente boa, e o ambiente favorável devem ser parte da realidade viva, e a realidade é composta de defeitos. Defeitos que integram e formam a nossa identidade real, o Self verdadeiro.
Por Maria Bernadette Biaggi -
O Istituto Biaggi – Psicoterapia, Psicoanalisi, Cultura e Arte Brasil–Itália, sediado em Belo Horizonte, desenvolve um trabalho que articula a clínica psicanalítica, a formação, a cultura e o intercâmbio entre diferentes campos do conhecimento. O corpo clínico do Instituto Biaggi é composto pelas psicólogas Maria Bernadette Biaggi, Camilla Biaggi e Mirelle Biaggi.Sua trajetória está ligada à psicóloga e psicanalista Maria Bernadette Biaggi, uma de suas fundadoras, cuja formação e atuação mantêm importantes vínculos com a tradição psicanalítica italiana. Ao longo dos anos, o Instituto consolidou um espaço no qual a Psicanálise não permanece restrita ao consultório, mas se abre ao diálogo com a cultura e com diferentes formas de compreender a experiência humana.Uma das características desse percurso é justamente a interlocução entre Brasil e Itália. O Istituto Biaggi esteve envolvido em atividades culturais e acadêmicas relacionadas à comunidade italiana e estabeleceu intercâmbios que aproximam diferentes tradições de pensamento e de prática clínica. Entre seus campos de interesse encontra-se também a etnopsicanálise, particularmente relevante para a compreensão das experiências de migração, desenraizamento, pertencimento e encontro entre culturas. Nessa perspectiva, a experiência psíquica não pode ser separada do universo simbólico, cultural e relacional no qual cada sujeito se constitui.Essa disposição para o diálogo aparece igualmente nas atividades promovidas pelo Instituto. Psicanálise, meditação, filosofia e neurociência, por exemplo, já foram colocadas em interlocução em eventos organizados por Maria Bernadette Biaggi, reunindo profissionais de diferentes áreas para pensar questões comuns a partir de distintos vértices. A própria trajetória de Bernadette expressa essa abertura: além de psicóloga e psicanalista, atua na formação psicanalítica e é monja da tradição Soto Shu do Zen-Budismo. Trata-se, portanto, de uma proposta que preserva a especificidade da Psicanálise ao mesmo tempo que reconhece a fecundidade do encontro com outros campos do conhecimento.É nesse território de formação, investigação e abertura para o pensamento psicanalítico contemporâneo que o Istituto Biaggi e a EPP – Escola Paulista de Psicanálise / Instituto Ékatus encontram importantes pontos de aproximação. Maria Bernadette Biaggi integra também o Instituto Ékatus como membro convidada, criando uma ponte concreta entre as duas instituições. Essa proximidade permite ampliar o intercâmbio de ideias, autores e experiências clínicas, aproximando diferentes tradições psicanalíticas e favorecendo aquilo que permanece essencial à Psicanálise: um pensamento que não se encerra em respostas prontas, mas continua a se transformar a partir da clínica, da experiência e do encontro com o outro.
Por Celso Augusto Alberti -
Este ensaio pede o reexame de todos os textos de Freud estudados até este momento, num total de 27 pela minha contagem, e que eu exprima minha opinião pessoal sobre o que ele poderia ter explorado, e não o fez, junto a 4 de seus pacientes: Elisabeth von R. (Ilona Weiss), Dora (Ida Bauer), o Homem dos Lobos (Sergei Pankejeff) e o Homem dos Ratos (Ernst Lanzer). Pede ainda que sejam citados os fatores que impediram Freud de fazê-lo.
A tarefa não é fácil e pode até ser que, por ser uma análise subjetiva, ela incorra em algum equívoco, mas vamos enfrentar o desafio. Para começar, creio que seria conveniente relembrar o motivo ou mote central do tratamento de cada um desses pacientes. Listo abaixo:
Elisabeth von R.: histeria, sobretudo com dores nas pernas e dificuldade para andar. O conflito principal liga-se ao choque entre dever familiar, luto, culpa e desejo amoroso recalcado.
Dora: histeria em que o caso gira em torno de tosse nervosa, afonia e outros sintomas conversivos, articulados a um conflito afetivo-sexual
Homem dos Ratos: neurose obsessiva cujo mote central é a combinação de obsessões, culpa, dúvida, medo de punição e ambivalência entre amor e ódio.
Homem dos Lobos: neurose infantil, que começou como histeria de angústia, sob a forma de zoofobia, e depois assumiu feições de neurose obsessiva de conteúdo religioso.
Ao reler esses casos clínicos à luz dos textos técnicos e metapsicológicos estudados até aqui, muitos deles escritos posteriormente a esses tratamentos, é possível perceber que Freud descobriu muita coisa, mas talvez não tenha explorado tudo o que poderia ter sido clinicamente relevante. Isto não torna a sua obra menos importante, até porque temos que lembrar que Freud foi pioneiro na estruturação da psicanálise e os relatos de suas experiências possuem um caráter vivo e inaugural. É importante frisar que seus casos não são aplicações de uma técnica já pronta; ao contrário, a própria técnica foi sendo inventada, corrigida e aprofundada à medida que ele ia tratando os pacientes. Por isso, podemos sustentar que há, sim, áreas decisivas que poderiam ter sido trabalhadas com maior desenvolvimento, mas que não o foram em razão de limites históricos, técnicos, clínicos e até pessoais do próprio Freud.
No caso de Elisabeth von R., vejo que Freud identificou o núcleo do conflito sem, contudo, explorar toda a sua complexidade subjetiva, e isso talvez porque ainda não dispusesse naquele momento de instrumentos suficientes para tal exploração. Ele percebeu e relatou a tensão entre dever, renúncia, culpa e desejo, mas pode ser que não tenha esgotado a análise. É pretensioso da minha parte, mas talvez ele pudesse ter trabalhado com mais profundidade o ganho secundário do sintoma, a ambivalência afetiva diante dos vínculos familiares e a transferência. Outro ponto importante a lembrar é que este caso pertence a uma fase inicial da psicanálise, mais focada na busca pelo conteúdo patogênico recalcado e menos orientada ao acompanhamento sistemático das resistências que emergem na relação analítica. Freud já intuía o conflito, mas ainda não possuía a técnica posterior que lhe permitiria sustentar por mais tempo o trabalho de elaboração.
No caso Dora, essa limitação já não é tão notória e vemos uma maior capacidade interpretativa. Freud percebeu a rede de desejos, ciúmes, identificações e deslocamentos que organizavam a posição da paciente. No entanto, a meu ver, a transferência não foi suficientemente trabalhada. Não quero dizer com isso que Freud a ignorasse, porque isso seria injusto. O que me parece é que ele ainda não a manejava com a centralidade que ela ganharia mais tarde em seus textos técnicos. Dora não apenas recordava ou relatava; ela reagia, interrompia, se afastava e recolocava na relação com Freud algo do que vivia com as figuras centrais de sua história. A raiva, a decepção, o sentimento de ter sido usada e não escutada, tudo isso poderia ter sido objeto de um trabalho mais prolongado. Somado a isso, tenho a impressão de que o próprio envolvimento pessoal de Freud com a trama (o que mais tarde chamaríamos de contratransferência) pode ter turvado sua percepção, impedindo-o de notar como seus próprios valores e expectativas influenciavam a condução do caso. Mais ainda, a ligação de Dora com a Sra. K. talvez pudesse ter sido explorada de forma mais processual, dando maior atenção ao tempo necessário para que a paciente reconhecesse seus investimentos afetivos. O fato de a análise ter sido interrompida precocemente foi decisivo, e isso por si só já ajuda a entender por que certas dimensões do caso ficaram menos trabalhadas.
No Homem dos Ratos, vemos com clareza que Freud chegou a identificar a coexistência de amor e ódio, o peso da autoridade do pai e a lógica de punição que atravessa o caso. No entanto, poderia ter ido mais fundo na análise da relação entre obsessão, agressividade, culpa e submissão a uma instância crítica interna que mais tarde seria pensada sob a forma do supereu, (lembrando que esse conceito ainda nem havia sido postulado). Além disso, o aspecto repetitivo da neurose do paciente, que tinha a tendência de atuar seus conflitos em vez de apenas recordá-los, talvez pudesse ter sido explorado de forma mais ampla. Sou da opinião de que, mais uma vez, lhe faltou instrumento, e aqui uso “instrumento” no sentido de entendimento, formulação e postulação. Por outro lado, o caso antecipa aspectos que seriam formulados mais tarde em “Lembrar, repetir e perlaborar”, em que Freud postula que o paciente não entrega o passado de forma transparente, mas o repõe na cena analítica sob a forma de repetição. A partir daí, penso que, se já tivesse elaborado melhor esses temas, ele poderia ter trabalhado com mais profundidade a indecisão obsessiva, a erotização da punição e a função defensiva da dúvida como modos de evitar o desejo e paralisar a ação. O curioso é que, já de saída, no prólogo, o próprio Freud reconhece a enorme complexidade da neurose obsessiva e admite não ter conseguido expor o caso em sua totalidade. Esse reconhecimento mostra que ele já era lúcido quanto aos limites do caso e quanto ao fato de que nem tudo podia ser plenamente desenvolvido naquele momento.
Particularmente, para mim, o caso do Homem dos Lobos foi um texto difícil e, em certos momentos, um pouco desconexo, que me custou entender e juntar os pedaços mesmo com as conversas em classe. Ainda assim, arrisco apontar limitações sofridas por Freud. O que me parece ter sido menos explorado no caso foi a dependência, a passividade e o empobrecimento da vida psíquica para além da interpretação reconstruída na análise. Quem era o paciente? Um jovem aparentemente dócil, com dificuldade em transformar compreensão em mudança efetiva e que desenvolveu grande dependência do analista. Soma-se a isto o fato de Freud ter precisado trabalhar com o passado, de forma retrospectiva, muitos anos depois do adoecimento infantil, o que certamente introduziu distorções de memória e de reconstrução. Além disso, chamo a atenção para um esforço quase obstinado de Freud em confirmar a realidade da "cena primitiva", o que, a meu ver, acabou por “esconder” o sofrimento imediato do paciente. Ele conseguiu reconstituir a neurose infantil e a cena primitiva, mas ficou a impressão de que certos aspectos, quando vistos da posição subjetiva do paciente, escaparam à reconstrução. As características do jovem, descritas acima, devem ter gerado um campo clínico muito fértil que não foi explorado como poderia ter sido, talvez porque isso excedesse o enquadramento teórico disponível naquele momento. Por essas razões, na minha opinião, houve ali um limite estrutural na própria forma pela qual o caso poderia ser abordado.
Em todos os casos, as lacunas ou zonas menos exploradas se explicam por alguns fatores. O primeiro é o fator histórico incontornável: a técnica psicanalítica ainda estava em formação. Como já mencionei, Freud não começou com um método acabado. Ele chegou a seus conceitos centrais a partir dos impasses encontrados na clínica. O segundo é o fator clínico propriamente dito: os pacientes resistem, interrompem, ocultam, deslocam, repetem e dificultam a própria exposição integral do material. O terceiro é o fator ético e social: o próprio Freud declarou várias vezes que não podia dizer tudo, nem explorar publicamente todas as circunstâncias da vida de seus pacientes. Por fim, existe o fator teórico: em vários momentos, Freud privilegia a reconstrução etiológica, sexual e infantil do conflito, o que lhe permite descobertas decisivas, mas também o leva, às vezes, a deixar em segundo plano a experiência atual do vínculo, a temporalidade da elaboração e certas formas mais sutis de dependência e sofrimento psíquico.
Concluindo, entendo que Freud fez muito com os recursos teóricos e clínicos de que dispunha, mas os casos também mostram aquilo que ele ainda não podia desenvolver plenamente. Isso não reduz a importância de sua obra. Mostra, antes, que a psicanálise foi sendo construída a partir de seus próprios impasses.
Por Rodrigo Lopes Barreto -
Pegar uma ideia e vê-la por diversos ângulos, até mesmo do avesso, me causa uma ambiguidade que se mostrou muito frequente durante minha formação psicanalítica. Se por um lado observar algo de vários vértices me tranquiliza e me mostra um mundo de possibilidades, por outro, ser convidado a isso com conceitos psicanalíticos me causa pavor. Seria simples com um banquinho, eu me sento, coloco perto da cama como mesa lateral, sento-me no chão e uso como escrivaninha... posso até virá-lo de cabeça para baixo, pegar umas argolas e transformá-lo num brinquedo Com o banquinho deu certo!
O conceito de Freud que mais me identifico é o retorno do recalcado. Fiquei particularmente fascinado nesse tema quando fui apresentado à repetição, em Lembrar, Repetir e Elaborar de 1914, o repetir é um movimento do retorno do recalcado. No texto Freud evolui a partir de sua ideia inicial que era fundamental preencher lacunas nas lembranças. Só trazendo os recalques à consciência é que seria possível superá-los e mudar, porém Freud percebe que o analisando nem sempre se lembra do que foi esquecido e recalcado, mas atua com aquilo, e o reproduz como algo que ele repete sem saber o que é, inclusive no fenômeno da transferência. O analisando repete ao invés de lembrar, colocando-se por diversas vezes em situações penosas, que parecem ter origem contemporânea, mas que são frutos de processos inconscientes. E o que teria esse poder? O que nunca poderia ser lembrado e se tornar acessível? No texto Análise Finita e Infinita, de 1937, Freud nos fala de uma herança arcaica, verdadeiros precipitados do desenvolvimento da humanidade. Para começar ocorrem embates entre pulsões num período muito inicial do desenvolvimento psíquico, onde o id e o ego são praticamente uma coisa só. Posteriormente temos que lidar com instintos libidinais direcionados aos pais e com a introversão da agressividade, a fim de permitir a vida em sociedade do indivíduo. A amnésia infantil acoberta muitos eventos essenciais no início da vida psíquica, e muitos deles são inacessíveis. Essa área intransponível na análise, que guarda instintos, pulsões e vivências muito primordiais da vida, seria a Rocha de Castração. Para os homens representa a angústia de perder o pênis, uma recusa da feminilidade e o pavor de adotar uma postura passiva diante de outro homem, para a mulher, está ligado à inveja do pênis, ao desejo por um falo que ela não quer renunciar. Apesar de intransponível essa área segue atuante no nosso inconsciente e pode retornar através de sintomas, repetições, chistes e sonhos.
Quando pensamos pelo vértice kleiniano, não há conteúdo recalcado para retornar e se repetir. Para começar, Melanie Klein não pensa no desenvolvimento das fases da sexualidade infantil de forma linear (como Freud fazia), mas concomitante. Embora houvesse o predomínio das fases sádico-oral e sádico-anal, já havia atividade da fase fálica, mas seus impulsos só dominam a cena quando a criança atinge o auge da situação edipiana descrita por Freud. Pensemos no ambiente interno do bebê de poucos meses... temos sensações corpóreas, pulsão de morte, impulsos sádico orais e sádico-anais, complexo de Édipo e complexo de castração atuando, o que gera muita ansiedade no bebê num momento em que é impossível verbalizar o que se sente. O bebê kleiniano lida com dois tipos de ansiedade, a primeira delas é ansiedade esquizoparanóide, que se desenvolve principalmente nos três primeiros meses de vida e trata-se de um medo do aniquilamento e da morte, esse medo aparece já no nascimento e é revivida a cada frustração de suas necessidades corporais. A partir do segundo trimestre do primeiro ano de vida o bebê desenvolve a ansiedade depressiva, quando muda a forma como o bebê se relaciona com o objeto amado, e que vem acompanhada de intenso sentimento de culpa. Para dar conta da ansiedade o bebê faz uso de fantasias inconscientes, que são elaborações imaginativas de funções corpóreas. É no contexto das fantasias inconscientes que o bebê estabelece suas primeiras relações de objeto, e o primeiro objeto
do bebê é o seio materno. Na ansiedade esquizoparanóide o medo da morte e dependência é tão grande que para se defender o bebê realiza a cisão do objeto em seio bom (que lhe dá alimento), e seio mau (que lhe deixa com fome), despertando ataques sádicos e canibalescos para incorporar o que é bom e destruir o que é mau, progressivamente esses ataques se estendem do seio para todo o corpo da mãe. Esse processo é acompanhado da cisão do ego arcaico, e da mesma forma que o bebê pode introjetar (incorporar) fragmentos do objeto, ele pode projetar fragmentos de si no objeto, tanto para controlar, como para destruir. A ansiedade depressiva começa quando o bebê percebe que esse objeto é um só, e sente a necessidade de reparar o objeto amado que foi danificado por seus desejos destrutivos, daí vem a culpa e a necessidade de repará-lo.
As fantasias inconscientes são fundamentais para o bebê organizar essa ansiedade e as relações com o objeto, daí vem o conceito de posição. Para Klein, não importam as relações libidinais e o que foi recalcado, e sim a posição que esse ego arcaico se coloca, se relaciona e reage à ansiedade e ao objeto. Para superar a posição esquizo paranoide é necessário que o ego vá controlando a ansiedade através da cisão, introjeção, projeção e outros mecanismos de defesa do ego arcaico. Quanto mais o bebê controlar a ansiedade persecutória, menor será a intensidade da cisão, permitindo uma progressiva sintetização do objeto, do ego e dos sentimentos dirigidos ao objeto. O caminho da integração tende a acontecer se o amor pelo objeto superar as tendências destrutivas (a tendência à integração seria uma ação da pulsão de vida). A diminuição dos mecanismos esquizoides leva o bebê à posição depressiva. É importante lembrar que a mudança de posição não é definitiva, elas se alternam, e a tendência é que aos poucos a posição depressiva domine o cenário.
Na posição depressiva o ego segue se integrando e a relação com o mundo externo se acentua. As fantasias inconscientes ficam mais elaboradas, o bebê expressa maior variedade de interesses e aprimora a capacidade não verbal de se comunicar e de expressar emoções. Como dito anteriormente, a integração do objeto gera ansiedade depressiva, vindo a culpa e a necessidade de reparar o objeto amado. Essa culpa é vivenciada como um luto pelo dano causado ao objeto. Para superar o luto, a ansiedade depressiva e a necessidade de reparação entram em ação os mecanismos de defesa maníacos. O self faz uso da regressão (o ego recusa o amor ao objeto, o que novamente eleva a ansiedade persecutória), cisão (agora entre objeto vivo não danificado e objeto danificado ou ameaçado), introjeção, projeção e sentimentos de onipotência. Com o aumento da tolerância à ansiedade o bebê progressivamente elabora a posição depressiva, aumentando a compreensão do mundo externo, aproximando a imagem dos objetos à realidade (mãe, pai e outros objetos), introjetando um mundo melhor e plausível (dessa forma ajudando a organizar o superego), e desenvolvendo um ego que assimila melhor o superego.
O bebê passa inicialmente pela posição esquizoparanóide e depois pela posição depressiva, e oscilará entre elas a partir daí, com mais intensidade em uma ou em outra. Nada retorna do recalcado, mas o indivíduo adulto em situações de ansiedade volta a vivenciar essas posições que ocupou no início da vida. Eu gosto de pensar nas posições kleinianas como um jogo de xadrez em 3D, com tabuleiros em diversas alturas, alguns desses tabuleiros são internos, outros externos e as peças oscilando entre as casas, e entre tabuleiros, por vezes se projetando para fora, por vezes se internalizando.
Seriam possíveis outros vértices? Sim, psicanaliticamente ainda não consigo pensar em outros, mas resolvi acrescentar outras possibilidades aqui. Para uma entidade religiosa ou mística não há retorno de recalcado, e sim um demônio ou um espírito, que se apossou da pessoa e a faz repetir o que não deveria. Para uma mãe o filho está apenas repetindo o que aprendeu com fulano, de quem nunca gostou, e que desvirtuou seu filho que até então era um santo. Para um pai dos anos 80 o que importa é que não vão repetir o jogo entre XV de Piracicaba e Bragantino pela Copa dos Bandeirantes... Filho, repete a pergunta para a sua mãe!
Por Karin C. Grabner -
Eu poderia começar dizendo que o luto se relaciona à pulsão de vida na medida em que permite a retirada progressiva da libido do objeto perdido e seu reinvestimento no mundo, enquanto a melancolia indicaria um predomínio da pulsão de morte, visível na repetição, no esvaziamento e no retorno da agressividade ao próprio Eu. Contudo, por uma ironia do destino meio cruel, precisei ler Luto e Melancolia (1915), de Freud, na mesma semana enquanto tentava dar conta do meu próprio luto. Ler doeu. E viver o luto deslocou a teoria do lugar abstrato. A perda me revelou algo mais confuso, mais difuso e menos organizado do que a divisão simples entre pulsão de vida e pulsão de morte parece sugerir nos textos de Freud. No entanto, escrever este texto parece ter se imposto como destino dessa energia, uma tentativa de dar forma ao que insistia em não ter nome, uma pequena canalização, talvez, para não deixar tudo soterrado.
O que me atravessou não foi exatamente a morte do meu pai, mas o que veio junto. Ficou claro que o problema não era só perder alguém, era não ter onde colocar essa perda. Freud escreve sobre o luto como um trabalho, e isso deixou de soar como algo abstrato quando eu precisei sustentar esse processo no corpo. Foi como um processo de desmontagem. Não era mais sobre quem se perdeu, mas sobre o que se perdeu de mim. O objeto não foi embora por completo, ele se instalou com tudo o que não foi resolvido, tudo que era ambivalente, tudo que não encontrou destino.
Como se o sofrimento tivesse prazo, ainda me impuseram um limite: você tem três dias de licença para sofrer. E isso não veio só do trabalho. Alguns amigos e familiares não compreendiam por que depois de alguns dias eu ainda me recusava a sair da caverna. Como os instintos vão encontrar o mundo assim? Como o luto se inscreve numa cultura que exige performance continua? Um mundo onde a pulsão encontra exigências e ritmos? Os rituais, que deveriam oferecer bordas para a perda, rarearam. O sujeito ficou sozinho com o seu abismo. E quando falta esse apoio, o que acontece? Não há espaço para destino, e o que não se encontra fora retorna para dentro.
A regra de ouro da contemporaneidade: a dor é fraqueza. A vida exige defesas maníacas, produtividade como antidoto, performance como contenção. Penso no que Walter Benjamin sugeriu ao associar o melancólico como um rebelde que denuncia a doença do sistema, ou Baudelaire, frente a uma estética que transforma dor em criação, mas isso não me convence totalmente. Há denúncia na melancolia, mas há também paralisação. A melancolia, como eu a vejo, não eleva, ela esvazia o impulso vital, pulveriza o ego.
Foi aí que precisei mudar a pergunta. Em vez de tentar identificar qual pulsão estava em jogo, comecei a pensar em como as forças de ligação e de desligamento estavam se articulando (ou falhando em se articular) diante da perda.
Isso fica mais claro quando olho para o presente. Já reparou a frequência como algumas experiências têm chegado até nós sem tempo de elaboração? A mente, saturada, busca alívio. Às vezes, um alívio curioso: desligar. Para mim, a rolagem infinita da tela aparece como esse gesto. Não é distração, é repetição. Conteúdos entram sem digestão e o psiquismo tenta dar conta como pode. Surge algo da pulsão de morte, não como destruição direta, mas como insistência num movimento que não resolve. Uma tentativa de controlar o que não foi simbolizado. E o que acontece quando o objeto não é apenas relacional, mas social? Talvez isso explique uma série de deslocamentos contemporâneos. Há uma geração que abandona certos excessos e adota outros, troca a balada pelo café da manhã, o álcool pelo autocuidado. Saúde ou ideal introjetado? Liberdade ou novo tipo de vigilância? O olhar do outro não desapareceu, ele se sofisticou.
O objeto, aqui, já não é só uma pessoa. É imagem, estilo de vida, ideal. O que se introjeta não vem apenas das relações, mas de um fluxo contínuo de referências. Gente feliz, produtiva, ajustada. Isso não passa sem efeito. O ideal vira medida, e uma medida impossível. A agressividade retorna ao Eu. A melancolia, então, não surge apenas da perda de alguém, mas da impossibilidade de corresponder ao que se tornou interno. O desejo é reativado o tempo todo e nunca se satisfaz. O sujeito fica preso entre excitação e esvaziamento. Surge um paradoxo. A pessoa quer se sentir viva, ver beleza, rir, acompanhar o mundo, mas faz isso de forma passiva, sem sair do sofá. Tudo chega pronto, sem deslocamento, sem risco, sem vínculo. É uma vida em formato de consumo. Algo que até me lembrou o movimento Fort-Da de início, só que agora como repetição sem elaboração.
A pulsão de vida está ali, no desejo e na busca de prazer, mas capturada num circuito que não transforma. A pulsão de morte aparece como repetição que esvazia, como desligamento que não encontra elaboração. Não como opostas, mas como forças que se enredam. Uma vitalidade anestesiada.
No fim, talvez a relação entre pulsão de vida, pulsão de morte, luto e melancolia não faça sentido como oposição. Minha impressão é que ficamos mais expostos a estados melancólicos, não necessariamente como quadros clínicos clássicos, mas como modos de relação com o mundo em que a perda não encontra elaboração suficiente, seja pela cobrança da produtividade ou dos ideais inalcançáveis. Pensar essas categorias de pulsão separadamente me parece pouco útil. O que importa é como essas forças se combinam em cada situação. O desligamento vai acontecer, perdas são inevitáveis. A questão é o que se faz com isso. Quando há possibilidade de simbolizar, compartilhar e dar forma, o processo anda, mesmo que doa. E hoje talvez a pergunta mais honesta não seja qual pulsão está atuando, mas em que condições ainda é possível sofrer sem se desmontar inteiro.
Por Celso Augusto Alberti -
Após termos caminhado bem pela obra de Freud, é possível atestar que o objetivo da psicanálise nunca foi simplesmente eliminar sintomas ou prometer uma cura rápida do sofrimento. Isso pode até ter feito parte de uma intenção originária, já que, sendo médico, Freud buscava a cura de pacientes que procuravam alívio para os seus sofrimentos. No entanto, o próprio exercício da clínica foi revelando que os sintomas não eram apenas incômodos a serem extirpados, mas formações psíquicas com sentido; expressões disfarçadas de conflitos, desejos, defesas e lembranças que o sujeito não reconhece diretamente como seus. Daí, arrisco dizer que o objetivo psicanalítico proposto por Freud é permitir que o sujeito se aproxime daquilo que nele age internamente, mesmo quando ele não tem plena ciência disso.
Essa ideia aparece desde os primeiros textos freudianos e vai ganhando força nas suas construções posteriores. Com os sonhos, Freud mostra que a vida psíquica não se reduz à consciência. Há pensamentos, desejos e restos de experiências que continuam ativos mesmo quando não aparecem de forma clara. A forma como ele entende a sexualidade infantil amplia essa descoberta ao mostrar que a vida psíquica adulta também traz marcas de experiências muito precoces, nas quais o corpo, o prazer, o desejo e a fantasia já participam da formação do sujeito. A teoria do recalque aprofunda essa ideia ao propor que certos conteúdos não desaparecem simplesmente da vida mental, mas são afastados da consciência e continuam produzindo efeitos. Portanto, o inconsciente não é um depósito morto de lembranças esquecidas. É uma instância ativa e insistente, quase como se tivesse vida própria, que retorna nos sonhos, nos sintomas, nos atos falhos, nas repetições e na própria relação transferencial.
Nesse sentido, a psicanálise deve escutar tanto aquilo que o paciente sabe dizer sobre si mesmo quanto aquilo que aparece de modo indireto, deslocado ou deformado. O paciente pode chegar dizendo que sofre de um determinado sintoma, o qual precisa ser escutado como algo que tem uma história e uma função. Não se trata apenas de diminuir o sofrimento, mas de reconhecer que ele possui uma lógica psíquica. Então, a tarefa da análise não é simplesmente retirar o sintoma, mas investigar de que modo ele se formou, que conflito ele expressa e que satisfação inconsciente pode estar sendo preservada por meio dele. A partir daí, os demais desenvolvimentos teóricos de Freud caminham nessa direção.
Com o avanço da experiência clínica, Freud amplia sua teoria com novos conceitos. A transferência mostra que o passado não aparece apenas como lembrança, mas também como repetição dentro da relação com o analista. Ela se revela tanto como ferramenta da cura quanto como obstáculo persistente. Ao mesmo tempo que oferece o cenário vivo para a reedição dos conflitos infantis, aparece como resistência ao trabalho analítico, evidenciando que a análise encontra limites na própria força daquilo que se repete. O narcisismo mostra que a libido se dirige tanto aos objetos externos como ao próprio Ego. A melancolia mostra que a perda de um objeto pode se voltar contra o sujeito produzindo uma espécie de empobrecimento do Ego. Mais tarde, com a compulsão à repetição e a segunda teoria das pulsões, Freud percebe que a busca de prazer ou descarga de tensão não explica tudo, mas continua sendo um ponto decisivo para entender como o sujeito tenta lidar com o desprazer, com a frustração e com os limites impostos pela realidade.
Esse movimento é importante porque mostra que Freud não ficou preso a uma única formulação. Ele foi, de certo modo, obrigado a rever e ampliar suas hipóteses diante dos impasses da clínica. A cada novo problema, a teoria se desloca um pouco. O inconsciente continua sendo central, mas os conteúdos reprimidos que precisam ser lembrados já não explicam tudo. Passa a ser preciso considerar a resistência, a repetição, a identificação, o narcisismo, a culpa inconsciente, o Superego e a participação do próprio Ego em defesas que ele não controla inteiramente. A psicanálise passa a lidar com um sujeito mais dividido do que parecia no início.
A ampliação teórica muda, então, a forma de pensar a psicopatologia. Freud não entende a neurose como erro, fraqueza moral ou simples falta de adaptação. Ele mostra que os sintomas têm sentido, ainda que esse sentido não apareça de imediato para a consciência. Na histeria, na neurose obsessiva, nas fobias, na melancolia e em outras formações psíquicas, parece sempre haver uma tentativa de solução para um conflito. O sintoma gera sofrimento ao mesmo tempo que organiza alguma coisa: denuncia uma divisão interna e, muitas vezes, substitui uma lembrança, um desejo ou uma angústia que não pôde encontrar outro caminho entre a busca de satisfação e os limites impostos pela realidade.
Considerando tudo, chama a atenção a percepção de que a psicopatologia freudiana parece não separar de forma clara o normal e o patológico. Afinal, o que aparece de modo intenso no sintoma também existe, diminuído ou modificado, na vida psíquica comum. Todos sonham, esquecem, repetem, deslocam afetos, defendem-se de certas verdades e produzem formas de compromisso. A diferença está na intensidade, no sofrimento produzido e na rigidez dessas formações. Freud nos permite pensar que o adoecimento psíquico não é algo estranho ao humano, mas uma possibilidade inerente ao próprio sujeito.
Isso abre possibilidades importantes e a psicanálise oferece um espaço em que o sujeito pode falar sem precisar organizar tudo previamente. Pela associação livre, pela escuta do analista pautada pela atenção flutuante e pela neutralidade, pela interpretação e pelo manejo da transferência, torna-se possível fazer aparecer algo que não se apresentava diretamente. A análise permite que certas repetições sejam reconhecidas, que certos sintomas sejam ligados à história do sujeito e que determinados afetos encontrem uma via de elaboração. Trata-se mais de permitir que o próprio sujeito se implique naquilo que vive, reconhecendo seus desejos, seus limites e suas formas de satisfação, e menos de dar conselhos ou corrigir comportamentos de fora.
Mas essas possibilidades também encontram limites e Freud foi percebendo que a análise não depende apenas da vontade consciente do paciente, nem da interpretação do analista. Não se trata de um procedimento simples e tampouco garante uma cura completa. O paciente resiste porque aquilo que precisa ser elaborado também é aquilo de que ele se defende. Nem tudo pode ser lembrado de modo direto. Muitas vezes, o que retorna vem como repetição e não como recordação. A transferência pode tanto ajudar o tratamento como dificultá-lo. A interpretação pode abrir caminhos, mas não resolve tudo sozinha. Já nos seus textos finais, parece que Freud está cada vez mais consciente de que há limites impostos pela força das pulsões, pelas defesas do Ego, pela culpa inconsciente e pela própria estrutura do aparelho psíquico.
Como consequência, a psicanálise freudiana não consiste em eliminar totalmente o sofrimento. Consiste em oferecer uma forma de escutá-lo e de reconhecer sua ligação com a história, o desejo, a defesa e a memória. Freud termina não propondo uma felicidade garantida, nem uma adaptação plena do sujeito à realidade, mas sim a possibilidade de o sujeito se aproximar daquilo que nele foi afastado, esquecido ou transformado em sintoma. Esse saber nunca é completo, nem resolve tudo de uma vez, mas pode modificar a relação do sujeito com aquilo que o determina.
Levando tudo em consideração e mesmo reconhecendo o papel pioneiro e a genialidade de Freud na formulação da psicanálise como disciplina clínica aplicável, confesso não ter me tornado um dos seus maiores fãs. Talvez por ainda me faltar entender determinadas coisas ou simplesmente não por ter sido convencido através de alguma lógica, acabo sendo crítico em relação a algumas de suas proposições. No entanto, há formulações que me fazem sentido e consigo vislumbrar aplicação prática e utilidade clínica. Entre elas, os dois princípios do funcionamento psíquico - princípios do prazer e da realidade - são os que mais me ajudam a pensar a clínica, porque mostram que a vida psíquica se organiza em torno de uma tensão constante entre a busca de satisfação e os limites impostos pela realidade. A repressão, o recalque e o esquecimento, as pulsões de vida e de morte e, mais tarde, a segunda tópica com a formulação do Id, Ego e Superego podem ser lidos, de algum modo, a partir dessa tensão fundamental.
Vemos, então, que o sujeito freudiano não é movido apenas por uma busca simples de prazer, mas por uma tensão permanente entre desejo, limite e possibilidade. O sujeito deseja, mas nem sempre pode satisfazer o desejo de forma direta. Precisa esperar, renunciar, substituir, deslocar, fantasiar ou encontrar outros caminhos possíveis para lidar com aquilo que quer e com aquilo que a realidade permite. Para mim, essa formulação tem sentido porque me permite projetar uma aplicação clínica concreta: a psicanálise escuta o sofrimento como expressão de um conflito entre aquilo que o sujeito deseja, aquilo que consegue admitir para si mesmo e aquilo que pode viver na realidade. O sintoma, nesse sentido, pode ser entendido como uma tentativa de solução para essa tensão, ainda que produza sofrimento e limite a vida do sujeito.
Por Rodrigo Lopes Barreto -
Olá, seguiróticos! Sou a Segunda Tópica e este é o meu podcast! Acredita que quase fomos censurados? Acharam que seguiróticos era a contração de seguidores eróticos, e não de seguidores neuróticos, gente... É podcast, não only fans! Pois ficarão ainda mais chocados, devido à enorme repercussão do último episódio resolvi continuar falando de mim, mas dessa vez sobre a sexualidade no contexto da Segunda Tópica Freudiana, um podcast proibidão! (A Segunda faz uma cara afrontosa). Novamente estou acompanhada do meu empresário, mentor e desenvolvedor, Sigmund Freud, que dispensa apresentações. Também temos conosco Inah Amaya, que está na metade da sua formação em psicanálise. Seja bem-vinda, amei seu nome, aposto que seus pais te colocaram no Colégio Waldorf! (Inah ri muito e consente com a cabeça). Vamos começar então. Tio Sig, conta pra gente, por que você só pensa naquilo?
Sigpsimund Freud- Aproveitando a censura quase sofrida Segunda, eu diria que todo neurótico tem algo de erótico, então a confusão não é injustificada. (a Segunda gargalha) A sexualidade, e em especial a sexualidade infantil permeia toda a nossa história psíquica e a psicopatologia na minha obra. O desfecho da sexualidade infantil ocorre ao redor dos 5 anos, com a dissolução do complexo de Édipo e o início do período de latência. O complexo de Édipo é o fenômeno central da vida sexual na primeira infância, e nos meus textos eu desenvolvo relações dele com o complexo de castração em meninos e meninas.
Segunda Tópica- Aproveita que o Senhor já tem fama de misógino e fala primeiro dos meninos...
(Freud abre os braços, faz uma cara triste e resignada, após uns instantes começa a falar...)
Sigmund Freud- Por exemplo, no menino o complexo de Édipo pode gerar satisfação ativa (menino toma o lugar do pai e se relaciona com a mãe) e passiva (menino substitui a mãe e se faz amar pelo pai), mas sua dissolução faz o menino experimentar dolorosas decepções. Quando o menino percebe o risco de castração, seu Eu narcísico o afasta do complexo de Édipo, a autoridade do pai é introjetada no Eu, e forma o Supereu. Agora, se não for totalmente solucionado, o complexo de Édipo fica reprimido no Id e tem uma ação patogênica.
Segunda Tópica- Quer dizer que no menino o complexo de Édipo precede o complexo de castração?
Sigmund Freud- Exatamente! Na fase fálica o menino passa a manifestar interesse pelos corpos e genitais dos outros, por vezes sendo repreendido por um adulto, o menino percebe essa desaprovação como uma ameaça de castração. Duas consequências surgem quando o menino enfim percebe a ausência do pênis em meninas. A primeira é ver as mulheres como inferiores, indignas e castradas, estabelecendo-se uma oposição entre falo (ativo) e castrado (passivo). A segunda é a realização que a castração é uma possibilidade, a ameaça se torna plausível e desperta o medo de que o mesmo aconteça com ele. No menino o complexo de Édipo sucumbe ao complexo de castração, ele não é reprimido, mas se desfaz. Já a menina, quando percebe que não tem um pênis, inicialmente acha que o clitóris é um pênis que não cresceu, se sente em desvantagem e nutre a dúvida se ele virá a crescer. Depois assume a castração.
Segunda Tópica- Segue daqui Inah...
Inah Amaya- Isso que o Sr. Freud começou a falar é muito interessante, nas meninas, o complexo de Édipo é posterior ao fenômeno da castração. Como a castração já está consolidada na menina, no momento da dissolução do complexo de édipo, o Supereu vem muito mais da educação e da intimidação externa que do medo da castração. Mais que isso, nas meninas o complexo de Édipo vai além do desejo de substituir a mãe, ela quer gerar um filho do pai. Ela pode ter sido castrada e perdido o pênis, mas este foi trocado por um bebê, posteriormente ela abandona essa ligação ao pai, por isso costuma se dizer que a menina não destrói o complexo de édipo, mas o abandona.
Segunda Tópica- Eu sinto que a sexualidade feminina foi muito renegada nos três ensaios de 1905, mas a partir dos anos 1920 recebe mais atenção. Vamos falar mais dela?
Inah Amaya- Vamos sim! Na sexualidade feminina acontece a troca do sexo do objeto. Inicialmente, assim como nos meninos, a mãe é o primeiro objeto de amor, esse vínculo forte e intenso pode ir até os quatro anos de idade. Essa seria a primeira fase sexual da mulher, tem caráter masculino e é pré-edípica. Uma segunda fase sexual da mulher tem caráter feminino e edípico, coincidindo com a troca do sexo do objeto, ou seja, da mãe pelo pai.
Segunda Tópica- Babado, confusão e reviravolta... Adoro! Como acontece essa substituição?
Inah Amaya- O afastamento da mãe pela menina se dá por vários motivos. Para começar, o Sr. Freud inferiu há muito que a meta sexual seria a união do pênis com a vagina, portanto, todo amor sem meta estaria fadado à decepção. Há o ciúme dos rivais (irmãos), e o efeito do complexo da castração nas meninas, recriminando a mãe que não lhe deu um pênis. Muito interessante também é a questão da masturbação infantil na menina, o prazer começa através dos cuidados no banho, normalmente realizados pela mãe. Essa mesma mãe reprime e hostiliza quando a menina tenta reproduzir o ato masturbatório, a menina se ressente e afasta a mãe.
Sigmund Freud- Outro ponto interessante, para mim todo ser humano é bissexual em sua origem, mas na mulher essa bissexualidade é mais nítida. Veja a anatomia da mulher, a vagina representa as qualidades passivas e femininas e o clitóris as qualidades ativas e masculinas. Reparem, eu disse qua-li-da-des!
Segunda Tópica- Bem mais legal né? Inah, e essa história de inveja do pênis?
Inah Amaya- A inveja do pênis tem sua origem quando a menina vê o membro do menino. Ela sabe que não tem, mas que ter, e se sente incompleta. Eis a ferida narcísica das meninas, dolorosa, mas que propicia o desenvolvimento rumo à feminilidade. A menina passa a ter ciúme do pai e afrouxa sua relação com a mãe. Em última análise, a aceitação da castração leva ao complexo de Édipo.
Segunda Tópica- E se ela não aceitar a castração Tio Sig?
Sigmund Freud- Recusar a castração equivale a recusar a feminilidade e a passividade. Eu chamo isso de complexo da masculinidade da mulher. Se olharmos bem, ela ocorre de forma transitória em todas as meninas, mesmo que por um breve tempo, como consequência da inveja do pênis, o complexo é abandonado quando surge a ligação da menina com o pai. Se ao invés de ligação ocorrer uma identificação com o pai, o complexo da masculinidade da mulher pode persistir ou retornar, a menina se agarra à fantasia de ser homem, assume uma atitude desafiadora, rebelde e ativa, por vezes resultando na homossexualidade feminina.
Segunda Tópica- Momento passada de pano! Gente, dá um desconto para o Sr. Freud, isso foi escrito em 1925, obviamente aos olhos de hoje o conteúdo é misógino, mas se olharmos bem, ele foi um progressista, fora o olhar e cuidado às histéricas, renegadas pela medicina. O programa está quase acabando e o clima está muito pesado, e se a gente falasse de fetiche?
Inah Amaya- Vamos amenizar o clima falando de fetiche? (todos riem) Segundo o Sr. Freud, e novamente falando sobre homens (Freud dá um sorriso amarelo), o fetiche é um substituto para o falo da mãe. O menino se recusa a acreditar que a mãe tenha perdido o pênis. O fetiche sustenta essa recusa, e outro elemento ocupa o lugar e o interesse dirigido a esse membro, pode por exemplo, ser uma parte do corpo ou uma vestimenta específica. O fetiche é uma forma de trunfo e proteção contra a ameaça de castração.
Segunda Tópica- Amei! Queria agradecer nossos convidados, meus amados seguiróticos, e aproveito pra informar que essa é a última edição do podcast. (ahhhhhhhh, ecoa no estúdio).
Inah Amaya- Como assim, Segunda? Seu podcast é um sucesso!
Sigmund Freud- Conta logo a novidade Segunda! Se não eles vão ficar ansiosos e reprimir...
Segunda Tópica- Não fiquem tristes! Vem aí um novo projeto. Em dois meses vou para a tv aberta, onde comandarei meu reality show, A Casa dos Neuróticos! Dora e o Pequeno Hans já estão confirmados! Beijos em todos!
Por Emanuelle Duarte -
Havia uma casa no alto de uma rua silenciosa. Não era uma casa comum: os corredores pareciam mudar de lugar conforme o humor dos moradores, os espelhos devolviam expressões ligeiramente atrasadas, e à noite era possível ouvir passos vindos de quartos vazios, como se os desejos andassem sozinhos depois que todos dormiam. Nessa casa, viviam duas crianças: Orfeu e Eurídice.
Orfeu acreditava que a mãe continha a luz do mundo. Quando ela atravessava a cozinha pela manhã, o sol parecia segui-la pelas paredes. O menino a observava com aquele amor absoluto que só as crianças possuem: amor sem medida, sem distância, sem lei. Queria sentar-se ao lado dela à mesa, dormir ao seu lado nos dias de chuva, monopolizar lhe os olhos. O pai, Augusto, era uma figura estranha para Orfeu. Às vezes admirável, às vezes ameaçadora. Havia noites em que o menino observava o pai entrar no quarto da mãe e sentia algo difícil de nomear: uma mistura de ciúme, raiva e perda. Como se alguém lhe roubasse, silenciosamente, um território invisível.
Então, começaram os sonhos. Sonhava que estava diante de uma porta dourada, mas o pai segurava a maçaneta e dizia:
— Aqui não.
Orfeu acordava inquieto. Não compreendia por que aquele não ecoava tanto dentro dele. Certa tarde, ao quebrar sem querer um relógio do pai, ouviu Augusto ralhar com severidade incomum. Nada de extraordinário fora dito, mas o menino sentiu um medo ancestral percorrê-lo. Pela primeira vez, percebeu que existiam limites; que havia uma força diante da qual seu desejo não bastava. Naquela noite, ficou em silêncio durante o jantar.
Depois disso, começou lentamente a imitar o pai: ajeitava a manga da camisa como ele, repetia certas palavras, tentava andar com a mesma firmeza. O rival transformava-se, pouco a pouco, em modelo. Sem saber, Orfeu fazia nascer dentro de si uma nova instância: um juiz interno, severo e admirado ao mesmo tempo. A voz do pai já não vinha apenas de fora, começava a morar nele.
Enquanto isso, Eurídice caminhava por outra margem do mesmo rio. Na infância, sua mãe era o universo inteiro. Eurídice penteava os cabelos diante do espelho tentando reproduzir seus gestos. Sentia-se parte dela, como se fossem continuação uma da outra. Mas um dia, ao brincar com os meninos da rua, percebeu algo que não soube compreender. Voltou para casa silenciosa, olhando o próprio corpo com estranhamento. Havia descoberto a diferença.
A mãe, antes continente absoluto, pareceu-lhe de repente insuficiente. Incompleta. E Eurídice, sem compreender exatamente o porquê, começou a afastar-se dela com pequenas hostilidades delicadas: recusava colo, fechava a porta do quarto, respondia secamente. Foi então que voltou os olhos para o pai. Augusto, agora, parecia-lhe detentor de algo misterioso, algo ligado ao poder, à autoridade, à inteireza imaginária que a menina julgava não possuir. Eurídice passou a buscá-lo pela casa, sentava-se perto dele enquanto lia jornal, ria excessivamente de suas piadas sem graça.
À noite, sonhava com jardins proibidos. Em um desses sonhos, caminhava por um bosque onde todas as árvores tinham frutos dourados, exceto uma árvore seca no centro do terreno. Ao aproximar-se dela, ouvia uma voz sussurrar:
— Nem toda falta pode ser preenchida.
Eurídice despertava angustiada. Com o tempo, começou também a se identificar com a mãe, mas já não da forma fusional da infância. Agora, havia distância, rivalidade, semelhança e perda misturadas numa mesma matéria afetiva. A mãe deixava de ser extensão do corpo; tornava-se enigma.
As duas crianças cresciam sem perceber que dentro delas existia uma casa ainda maior que aquela em que moravam. No porão desta casa interior, pulsavam desejos indomáveis. Nos corredores, o eu tentava manter certa ordem, equilibrando medos, vontades e exigências do mundo. E no sótão, às vezes sombrio, às vezes majestoso, instalava-se lentamente uma voz feita de proibições, ideais e culpa.
O desejo.O Eu.A proibição.
Mas as crianças não conheciam esses nomes. Conheciam apenas os sintomas. Orfeu começou a roer as unhas até ferir os dedos. Eurídice passou a inventar histórias antes de dormir, histórias em que princesas desapareciam dentro de espelhos. Porque aquilo que não pode ser vivido diretamente retorna disfarçado. O desejo, quando impedido de falar claramente, aprende a usar máscaras.
Anos depois, já adultos, Orfeu e Eurídice não se lembrariam dessas cenas infantis. A memória apagaria detalhes, mudaria rostos, confundiria datas. Ainda assim, algo permaneceria. Orfeu apaixonava-se sempre por mulheres diante das quais precisava disputar lugar: mulheres indisponíveis, excessivamente admiradas, quase inalcançáveis. Sem perceber, repetia o antigo movimento infantil de desejar aquilo que parecia pertencer a outro homem. Em cada amor, havia novamente um rival invisível, uma interdição silenciosa e a esperança impossível de voltar a ocupar, sozinho, o centro do afeto.
Eurídice, por sua vez, buscava homens cuja presença carregava autoridade, proteção e distância. Amava aqueles que pareciam prometer reconhecimento absoluto, mas que permaneciam emocionalmente inacessíveis, como se o amor precisasse conservar certa ausência para continuar existindo. Em cada escolha amorosa reaparecia, disfarçada, a antiga tentativa de recuperar no outro aquilo que um dia julgara perdido. E ambos carregavam, sem plena consciência, os vestígios daquele primeiro drama infantil: a descoberta de que o desejo nasce precisamente daquilo que não pode ser inteiramente possuído.
Talvez seja isso que Sigmund Freud tenha compreendido com espantosa lucidez: o ser humano não nasce pronto para o amor, para a lei ou para si mesmo. Ele se constrói atravessando interdições, fantasias, identificações e faltas.
A infância, afinal, nunca termina completamente. Ela apenas aprende a vestir roupas adultas.