Desenvolvimentos Teóricos - O Grupo Pavese nasce fisicamente em 2005, por iniciativa de Antonino Ferro, que reúne ao seu redor um grupo de seus alunos provenientes de várias partes da Itália e residentes em Pavia, já membros da Sociedade Psicanalítica Italiana, da Associação Psicanalítica Internacional e, naquele momento, ainda associados ao Centro Milanês de Psicanálise. O grupo começou a se reunir à noite no consultório de Ferro, inicialmente discutindo exclusivamente sessões de análise.Cada um, em sua própria individualidade, mas também por meio de frequentes intercâmbios com aqueles que viriam a se tornar integrantes do Grupo Pavese, já havia, há vários anos, adotado e estudado a teoria de Wilfred Ruprecht Bion, que chegou à Itália graças a Francesco Corrao, que, em diversas ocasiões, durante os anos 1970, havia convidado Bion a Roma para seminários, promovendo seu pensamento.O trabalho de Ferro e Bezoari (1989), “Escuta, interpretação e funções transformadoras no diálogo analítico”, representa a síntese de múltiplas influências que, de diferentes vertentes, estavam desenvolvendo teorias sob uma perspectiva de Campo Bipessoal, sobretudo os cônjuges Willy Baranger e Madeleine Baranger, que, com essa proposta, abandonam a visão unipessoal de Freud, ou ainda Robert Langs (1978), que enfatiza o movimento em espiral do diálogo analítico.Em particular, o trabalho de Ferro e Bezoari tem o mérito de estabelecer um vínculo claro entre as contribuições dos Baranger e de Bion e, sobretudo, marca o nascimento da Teoria do Campo Analítico de vertente pavese, que se torna objeto de estudo e desenvolvimento do grupo.O grupo percebe que, nos três livros de Bion — Transformações (1965), Second Thoughts, ao qual acrescentou os Comentários (1967), e Atenção e Interpretação (1970) —, além da trilogia Memória do Futuro (1975), Bion promove mudanças que permitem definir um primeiro período de Bion, mais kleiniano em suas obras anteriores, e um segundo Bion, no qual emergem conceitos e uma linguagem completamente novos, que se afastam da metapsicologia freudiana e kleiniana, construindo sua própria arquitetura metapsicológica.Isso começa por uma concepção diferente do inconsciente: ele deixa de ser um recipiente do reprimido que deve ser desvelado e passa a ser um inconsciente que se cria continuamente na relação, com o objetivo de desenvolver a capacidade de sonhar os próprios impasses emocionais.O grupo decide seguir esses segundos desenvolvimentos, que sente serem mais coerentes com uma maneira de trabalhar na qual está se reconhecendo.Se a teoria do Campo Bipessoal dos Baranger está mais fundamentada no conceito de Fantasma, de identificação projetiva e no conceito de Bastião, os trabalhos do segundo Bion procuram um Campo mais relacionado à teoria das Transformações, na qual a identificação projetiva não possui mais apenas um valor patológico, mas assume um caráter mais relacional e comunicativo.Dessa perspectiva nascerão os conceitos de Continente e Continente/Conteúdo, com seus grafos, ♀ e ♀↔♂, mas sobretudo o conceito de O, como a coisa em si, que não pode ser conhecida diretamente.A essa visão, o Grupo Pavese acrescenta, ao longo do tempo, uma teoria do personagem como vetor de emoções à espera de transformações, com importantes consequências para a técnica e inaugurando uma Teoria do Campo pós-bioniana.Os desenvolvimentos mais recentes caminham para a afirmação de um vértice do NÓS, isto é, para considerar virtualmente todo acontecimento da análise como uma cocriação, definindo uma “ontologia do NÓS” e uma psicanálise ontológica, em vez de epistemológica, bem como uma absoluta corresponsabilidade, no plano inconsciente, pelos acontecimentos da análise entre analista e paciente.Com isso, afasta-se do modelo bipessoal Eu/Tu e adota-se uma matriz intersubjetiva (Kurt Lewin, Husserl, Merleau-Ponty), na qual o objeto de investigação é o ENTRE, o Campo — pensando, por exemplo, no vaso de Rubin.Nesse contexto, ganha interesse o estudo de sua meteorologia, de seu clima e da consideração da dupla como um grupo, com seus pressupostos básicos, que constituem o O do Campo.A história do sujeito não desaparece, mas permanece em segundo plano, com a finalidade de criar um espaço no qual o onírico possa se desenvolver mais amplamente.O analista, com seu Eu, permanece sempre como o garantidor do processo analítico.Basta pensar na famosa citação de Donald Woods Winnicott, “não existe um bebê, não existe uma mãe”, com a qual ele apreende a dimensão do crescimento mental somente e exclusivamente dentro de uma relação, como no modelo mãe/bebê.De maneira autorizada, Otto Friedmann Kernberg (2011), Anthony Elliott e Jeffrey Prager (2016) e Stephen Seligman (2017) incluíram a Teoria do Campo Analítico entre as principais correntes da psicanálise contemporânea.Otto Friedmann Kernberg (2011, p. 8), em “Divergências na psicanálise contemporânea”, afirma que: “Os desenvolvimentos mais significativos dentro do amplo espectro da teoria psicanalítica dizem respeito […] à abordagem neobioniana, de um lado, e à abordagem relacional, de outro. A primeira ampliou sua esfera de influência no contexto europeu, sobretudo na Itália e, em certa medida, também na América Latina, por impulso dos trabalhos de Antonino Ferro.”Logo, no grupo, surge a necessidade de dar voz às ideias que estavam emergindo, com a publicação, em 2007, do primeiro volume, “Sonhar a análise: desenvolvimentos clínicos do pensamento de Wilfred Ruprecht Bion”.Seguiram-se outros três livros coletivos, todos traduzidos para diferentes idiomas, além da produção científica individual dos integrantes.Também foram publicados outros volumes nos quais aparecem trabalhos dos membros do grupo juntamente com outros analistas de diferentes orientações teóricas, como “Contenho Multidões”, Atos do décimo aniversário do Centro Psicanalítico de Pavia (2023), com prefácio de Howard Levine e posfácio de Jay Greenberg.Ao longo dos mais de trinta anos seguintes, quem principalmente desenvolve a Teoria do Campo Analítico é Ferro, juntamente com o grupo de alunos de Pavia.A intenção inicial era aprofundar a reflexão sobre o novo paradigma teórico do Campo, por meio do qual se chegou à Teoria do Campo Analítico pós-bioniana.É importante destacar que foi do Grupo Pavese que surgiu a ideia e o estímulo para que todos os analistas de Pavia fundassem, em 2011, um Centro Psicanalítico de Pavia, que hoje conta com mais de 60 membros, não apenas de Pavia.É preciso esclarecer que o Grupo Pavese se constitui como um componente externo ao Centro, com sua própria especificidade teórica e de estudo, enriquecendo a multiplicidade teórica do Centro Psicanalítico de Pavia.A atualidade do grupo é hoje representada por aqueles que, autenticamente, continuam, juntamente com suas próprias linhas pessoais de desenvolvimento, uma reflexão sobre o paradigma do Campo e fazem dele seu atual modelo de trabalho.Os membros atuais são: Antonino Ferro, Giuseppe Civitarese, Maurizio Collovà, Fulvio Mazzacane, Elena Molinari, aos quais se juntaram, em 2014, Mauro Manica e Violet Pietrantonio.Desde sempre, embora não esteja concretamente presente no grupo, Michele Bezoari possui, para todos nós, um importante valor como referência teórica no que diz respeito à teoria do Campo e não apenas a ela, sendo certamente um refinado teórico da psicanálise.No modelo bioniano, enfatiza-se a maneira de conceber o inconsciente como função psicanalítica da mente, a importância do pensamento onírico da vigília, e o percurso analítico concebido como expansão da capacidade de sentir, pensar e sonhar.O modelo de Campo conduz a uma escolha forte: considerar o percurso psicanalítico como bipessoal e a construção das interpretações como fruto de uma escrita a quatro mãos.Fundamental para a construção do modelo onírico pós-bioniano de Campo foi a hibridização com alguns conceitos provenientes da narratologia, sobretudo a teoria do personagem e a leitura do sonho, mas também de toda comunicação do paciente como uma “obra aberta” (Umberto Eco, 1960).Um breve resumo do percurso do Grupo Pavese:Um breve resumo de parte do percurso realizado pelo Grupo Pavese pode ser feito retomando os temas dos quatro livros publicados.No primeiro livro produzido pelo grupo, em 2007, “Sonhar a análise” (Dreaming analysis), também traduzido para o espanhol (Soñar el análisis), o foco esteve nos desenvolvimentos clínicos do pensamento de Bion.A importância do pensamento onírico da vigília e da reverie, as vicissitudes da relação continente-conteúdo, desde a avaliação da possibilidade de sustentação das emoções favorecida pelo enquadre analítico até a construção extrema de conteúdos-assassinos, e os sintomas que sinalizam a presença de núcleos hiperbeta são alguns dos temas abordados.O segundo livro, de 2011, “Psicanálise em amarelo” (Psychoanalysis as a detective story), foi uma maneira de desenvolver de forma diferente o paradigma indiciário, que esteve na base do trabalho freudiano.Do analista dotado de um saber enciclopédico que, com racionalidade científica, seguindo indícios, buscava interpretações resolutivas e a descoberta do culpado, chegou-se à descrição de um analista imerso no Campo, que procura digerir, juntamente com o paciente, as emoções e os pensamentos novos que o encontro analítico ativa.Por meio dos momentos de emergência do Campo, o analista procura identificar o aspecto patológico que a situação psicanalítica coloca em cena naquele momento.O analista está consciente de seus limites e de sua inevitável participação no adoecimento do Campo analítico e tem como objetivo a cura das inevitáveis doenças do Campo analítico, de modo que possa deixar para a dupla analítica e para o paciente uma memória imunológica.Inevitavelmente, em uma situação como a descrita, emergirão aspectos mais humanos, e não apenas profissionais, que poderão constituir um recurso nos momentos em que o aspecto lúdico, o “talking as dreaming” (Thomas Ogden), permitir uma troca livre e criativa.O analista se resigna a ter de reinventar um método analítico com cada paciente e a poder se tornar, dentro das turbulências do Campo, não apenas investigador, mas também culpado e vítima.No terceiro livro, de 2013, “Psicanálise hoje”, traduzido para o inglês em 2018 com o título Contemporary Bionian Theory and Technique in Psychoanalysis, são abordados, a partir da perspectiva da Teoria Bion-Campo, os capítulos mais importantes da semiologia psicanalítica:* Enquadre;* Transferência e contratransferência;* Interpretação;* O sonho e o onírico;* As vicissitudes do percurso terapêutico;* As variações na psicanálise da criança e do adolescente.Os percursos dos diversos capítulos desenham uma evolução histórica, mas, com o auxílio de material clínico, delineiam uma psicanálise cujo objetivo não é o desvelamento, mas a expansão do inconsciente.O olhar sobre os fundamentos da psicanálise tende a evidenciar sobretudo as descontinuidades em relação aos modelos mais clássicos. Isso tanto para ampliar a possibilidade de utilização do instrumento analítico em situações diferentes daquelas clássicas — tratamento de crianças e adolescentes, de pacientes psicóticos e borderline, psicanálise de grupos e em instituições — quanto para não perder a função de pesquisa que toda experiência analítica deve ter, transformando ambos os participantes.Complementar a esse livro é o seguinte, “A clínica psicanalítica hoje” (Psychoanalytic Practice Today), que seria publicado em inglês em 2019 e é composto por duas partes.Na primeira, são abordadas algumas categorias clínicas sob uma perspectiva de Campo, desvinculadas da nosografia tradicional:* Anorexia;* fobia;* Obsessividade;* Depressão;* Transtorno borderline;* Paranoia;* Psicose.Na segunda parte, são tratadas algumas emoções e sentimentos:* Abandono;* Exclusão;* Raiva;* Vergonha;* Ciúme;* Traição;* Desprezo;* Surpresa;* Tristeza.A psicopatologia é concebida como a impossibilidade de sonhar a própria experiência emocional, e o Campo como o espaço no qual os sintomas podem encontrar desenvolvimentos por meio de narrativas em um clima onírico.Os capítulos sobre as emoções procuram delinear uma espécie de semiologia afetiva do encontro analítico, partindo sempre da ideia de que as emoções envolvem a dupla analítica e de que a difícil gestão de sua intensidade é o motor que impulsiona a mudança em análise.O objetivo é desbloquear as emoções e os pensamentos ligados a elas, libertá-los da repetição e gerar novas histórias.
Por Rodrigo Lopes Barreto -
Pegar uma ideia e vê-la por diversos ângulos, até mesmo do avesso, me causa uma ambiguidade que se mostrou muito frequente durante minha formação psicanalítica. Se por um lado observar algo de vários vértices me tranquiliza e me mostra um mundo de possibilidades, por outro, ser convidado a isso com conceitos psicanalíticos me causa pavor. Seria simples com um banquinho, eu me sento, coloco perto da cama como mesa lateral, sento-me no chão e uso como escrivaninha... posso até virá-lo de cabeça para baixo, pegar umas argolas e transformá-lo num brinquedo Com o banquinho deu certo!
O conceito de Freud que mais me identifico é o retorno do recalcado. Fiquei particularmente fascinado nesse tema quando fui apresentado à repetição, em Lembrar, Repetir e Elaborar de 1914, o repetir é um movimento do retorno do recalcado. No texto Freud evolui a partir de sua ideia inicial que era fundamental preencher lacunas nas lembranças. Só trazendo os recalques à consciência é que seria possível superá-los e mudar, porém Freud percebe que o analisando nem sempre se lembra do que foi esquecido e recalcado, mas atua com aquilo, e o reproduz como algo que ele repete sem saber o que é, inclusive no fenômeno da transferência. O analisando repete ao invés de lembrar, colocando-se por diversas vezes em situações penosas, que parecem ter origem contemporânea, mas que são frutos de processos inconscientes. E o que teria esse poder? O que nunca poderia ser lembrado e se tornar acessível? No texto Análise Finita e Infinita, de 1937, Freud nos fala de uma herança arcaica, verdadeiros precipitados do desenvolvimento da humanidade. Para começar ocorrem embates entre pulsões num período muito inicial do desenvolvimento psíquico, onde o id e o ego são praticamente uma coisa só. Posteriormente temos que lidar com instintos libidinais direcionados aos pais e com a introversão da agressividade, a fim de permitir a vida em sociedade do indivíduo. A amnésia infantil acoberta muitos eventos essenciais no início da vida psíquica, e muitos deles são inacessíveis. Essa área intransponível na análise, que guarda instintos, pulsões e vivências muito primordiais da vida, seria a Rocha de Castração. Para os homens representa a angústia de perder o pênis, uma recusa da feminilidade e o pavor de adotar uma postura passiva diante de outro homem, para a mulher, está ligado à inveja do pênis, ao desejo por um falo que ela não quer renunciar. Apesar de intransponível essa área segue atuante no nosso inconsciente e pode retornar através de sintomas, repetições, chistes e sonhos.
Quando pensamos pelo vértice kleiniano, não há conteúdo recalcado para retornar e se repetir. Para começar, Melanie Klein não pensa no desenvolvimento das fases da sexualidade infantil de forma linear (como Freud fazia), mas concomitante. Embora houvesse o predomínio das fases sádico-oral e sádico-anal, já havia atividade da fase fálica, mas seus impulsos só dominam a cena quando a criança atinge o auge da situação edipiana descrita por Freud. Pensemos no ambiente interno do bebê de poucos meses... temos sensações corpóreas, pulsão de morte, impulsos sádico orais e sádico-anais, complexo de Édipo e complexo de castração atuando, o que gera muita ansiedade no bebê num momento em que é impossível verbalizar o que se sente. O bebê kleiniano lida com dois tipos de ansiedade, a primeira delas é ansiedade esquizoparanóide, que se desenvolve principalmente nos três primeiros meses de vida e trata-se de um medo do aniquilamento e da morte, esse medo aparece já no nascimento e é revivida a cada frustração de suas necessidades corporais. A partir do segundo trimestre do primeiro ano de vida o bebê desenvolve a ansiedade depressiva, quando muda a forma como o bebê se relaciona com o objeto amado, e que vem acompanhada de intenso sentimento de culpa. Para dar conta da ansiedade o bebê faz uso de fantasias inconscientes, que são elaborações imaginativas de funções corpóreas. É no contexto das fantasias inconscientes que o bebê estabelece suas primeiras relações de objeto, e o primeiro objeto
do bebê é o seio materno. Na ansiedade esquizoparanóide o medo da morte e dependência é tão grande que para se defender o bebê realiza a cisão do objeto em seio bom (que lhe dá alimento), e seio mau (que lhe deixa com fome), despertando ataques sádicos e canibalescos para incorporar o que é bom e destruir o que é mau, progressivamente esses ataques se estendem do seio para todo o corpo da mãe. Esse processo é acompanhado da cisão do ego arcaico, e da mesma forma que o bebê pode introjetar (incorporar) fragmentos do objeto, ele pode projetar fragmentos de si no objeto, tanto para controlar, como para destruir. A ansiedade depressiva começa quando o bebê percebe que esse objeto é um só, e sente a necessidade de reparar o objeto amado que foi danificado por seus desejos destrutivos, daí vem a culpa e a necessidade de repará-lo.
As fantasias inconscientes são fundamentais para o bebê organizar essa ansiedade e as relações com o objeto, daí vem o conceito de posição. Para Klein, não importam as relações libidinais e o que foi recalcado, e sim a posição que esse ego arcaico se coloca, se relaciona e reage à ansiedade e ao objeto. Para superar a posição esquizo paranoide é necessário que o ego vá controlando a ansiedade através da cisão, introjeção, projeção e outros mecanismos de defesa do ego arcaico. Quanto mais o bebê controlar a ansiedade persecutória, menor será a intensidade da cisão, permitindo uma progressiva sintetização do objeto, do ego e dos sentimentos dirigidos ao objeto. O caminho da integração tende a acontecer se o amor pelo objeto superar as tendências destrutivas (a tendência à integração seria uma ação da pulsão de vida). A diminuição dos mecanismos esquizoides leva o bebê à posição depressiva. É importante lembrar que a mudança de posição não é definitiva, elas se alternam, e a tendência é que aos poucos a posição depressiva domine o cenário.
Na posição depressiva o ego segue se integrando e a relação com o mundo externo se acentua. As fantasias inconscientes ficam mais elaboradas, o bebê expressa maior variedade de interesses e aprimora a capacidade não verbal de se comunicar e de expressar emoções. Como dito anteriormente, a integração do objeto gera ansiedade depressiva, vindo a culpa e a necessidade de reparar o objeto amado. Essa culpa é vivenciada como um luto pelo dano causado ao objeto. Para superar o luto, a ansiedade depressiva e a necessidade de reparação entram em ação os mecanismos de defesa maníacos. O self faz uso da regressão (o ego recusa o amor ao objeto, o que novamente eleva a ansiedade persecutória), cisão (agora entre objeto vivo não danificado e objeto danificado ou ameaçado), introjeção, projeção e sentimentos de onipotência. Com o aumento da tolerância à ansiedade o bebê progressivamente elabora a posição depressiva, aumentando a compreensão do mundo externo, aproximando a imagem dos objetos à realidade (mãe, pai e outros objetos), introjetando um mundo melhor e plausível (dessa forma ajudando a organizar o superego), e desenvolvendo um ego que assimila melhor o superego.
O bebê passa inicialmente pela posição esquizoparanóide e depois pela posição depressiva, e oscilará entre elas a partir daí, com mais intensidade em uma ou em outra. Nada retorna do recalcado, mas o indivíduo adulto em situações de ansiedade volta a vivenciar essas posições que ocupou no início da vida. Eu gosto de pensar nas posições kleinianas como um jogo de xadrez em 3D, com tabuleiros em diversas alturas, alguns desses tabuleiros são internos, outros externos e as peças oscilando entre as casas, e entre tabuleiros, por vezes se projetando para fora, por vezes se internalizando.
Seriam possíveis outros vértices? Sim, psicanaliticamente ainda não consigo pensar em outros, mas resolvi acrescentar outras possibilidades aqui. Para uma entidade religiosa ou mística não há retorno de recalcado, e sim um demônio ou um espírito, que se apossou da pessoa e a faz repetir o que não deveria. Para uma mãe o filho está apenas repetindo o que aprendeu com fulano, de quem nunca gostou, e que desvirtuou seu filho que até então era um santo. Para um pai dos anos 80 o que importa é que não vão repetir o jogo entre XV de Piracicaba e Bragantino pela Copa dos Bandeirantes... Filho, repete a pergunta para a sua mãe!
Por Karin C. Grabner -
Eu poderia começar dizendo que o luto se relaciona à pulsão de vida na medida em que permite a retirada progressiva da libido do objeto perdido e seu reinvestimento no mundo, enquanto a melancolia indicaria um predomínio da pulsão de morte, visível na repetição, no esvaziamento e no retorno da agressividade ao próprio Eu. Contudo, por uma ironia do destino meio cruel, precisei ler Luto e Melancolia (1915), de Freud, na mesma semana enquanto tentava dar conta do meu próprio luto. Ler doeu. E viver o luto deslocou a teoria do lugar abstrato. A perda me revelou algo mais confuso, mais difuso e menos organizado do que a divisão simples entre pulsão de vida e pulsão de morte parece sugerir nos textos de Freud. No entanto, escrever este texto parece ter se imposto como destino dessa energia, uma tentativa de dar forma ao que insistia em não ter nome, uma pequena canalização, talvez, para não deixar tudo soterrado.
O que me atravessou não foi exatamente a morte do meu pai, mas o que veio junto. Ficou claro que o problema não era só perder alguém, era não ter onde colocar essa perda. Freud escreve sobre o luto como um trabalho, e isso deixou de soar como algo abstrato quando eu precisei sustentar esse processo no corpo. Foi como um processo de desmontagem. Não era mais sobre quem se perdeu, mas sobre o que se perdeu de mim. O objeto não foi embora por completo, ele se instalou com tudo o que não foi resolvido, tudo que era ambivalente, tudo que não encontrou destino.
Como se o sofrimento tivesse prazo, ainda me impuseram um limite: você tem três dias de licença para sofrer. E isso não veio só do trabalho. Alguns amigos e familiares não compreendiam por que depois de alguns dias eu ainda me recusava a sair da caverna. Como os instintos vão encontrar o mundo assim? Como o luto se inscreve numa cultura que exige performance continua? Um mundo onde a pulsão encontra exigências e ritmos? Os rituais, que deveriam oferecer bordas para a perda, rarearam. O sujeito ficou sozinho com o seu abismo. E quando falta esse apoio, o que acontece? Não há espaço para destino, e o que não se encontra fora retorna para dentro.
A regra de ouro da contemporaneidade: a dor é fraqueza. A vida exige defesas maníacas, produtividade como antidoto, performance como contenção. Penso no que Walter Benjamin sugeriu ao associar o melancólico como um rebelde que denuncia a doença do sistema, ou Baudelaire, frente a uma estética que transforma dor em criação, mas isso não me convence totalmente. Há denúncia na melancolia, mas há também paralisação. A melancolia, como eu a vejo, não eleva, ela esvazia o impulso vital, pulveriza o ego.
Foi aí que precisei mudar a pergunta. Em vez de tentar identificar qual pulsão estava em jogo, comecei a pensar em como as forças de ligação e de desligamento estavam se articulando (ou falhando em se articular) diante da perda.
Isso fica mais claro quando olho para o presente. Já reparou a frequência como algumas experiências têm chegado até nós sem tempo de elaboração? A mente, saturada, busca alívio. Às vezes, um alívio curioso: desligar. Para mim, a rolagem infinita da tela aparece como esse gesto. Não é distração, é repetição. Conteúdos entram sem digestão e o psiquismo tenta dar conta como pode. Surge algo da pulsão de morte, não como destruição direta, mas como insistência num movimento que não resolve. Uma tentativa de controlar o que não foi simbolizado. E o que acontece quando o objeto não é apenas relacional, mas social? Talvez isso explique uma série de deslocamentos contemporâneos. Há uma geração que abandona certos excessos e adota outros, troca a balada pelo café da manhã, o álcool pelo autocuidado. Saúde ou ideal introjetado? Liberdade ou novo tipo de vigilância? O olhar do outro não desapareceu, ele se sofisticou.
O objeto, aqui, já não é só uma pessoa. É imagem, estilo de vida, ideal. O que se introjeta não vem apenas das relações, mas de um fluxo contínuo de referências. Gente feliz, produtiva, ajustada. Isso não passa sem efeito. O ideal vira medida, e uma medida impossível. A agressividade retorna ao Eu. A melancolia, então, não surge apenas da perda de alguém, mas da impossibilidade de corresponder ao que se tornou interno. O desejo é reativado o tempo todo e nunca se satisfaz. O sujeito fica preso entre excitação e esvaziamento. Surge um paradoxo. A pessoa quer se sentir viva, ver beleza, rir, acompanhar o mundo, mas faz isso de forma passiva, sem sair do sofá. Tudo chega pronto, sem deslocamento, sem risco, sem vínculo. É uma vida em formato de consumo. Algo que até me lembrou o movimento Fort-Da de início, só que agora como repetição sem elaboração.
A pulsão de vida está ali, no desejo e na busca de prazer, mas capturada num circuito que não transforma. A pulsão de morte aparece como repetição que esvazia, como desligamento que não encontra elaboração. Não como opostas, mas como forças que se enredam. Uma vitalidade anestesiada.
No fim, talvez a relação entre pulsão de vida, pulsão de morte, luto e melancolia não faça sentido como oposição. Minha impressão é que ficamos mais expostos a estados melancólicos, não necessariamente como quadros clínicos clássicos, mas como modos de relação com o mundo em que a perda não encontra elaboração suficiente, seja pela cobrança da produtividade ou dos ideais inalcançáveis. Pensar essas categorias de pulsão separadamente me parece pouco útil. O que importa é como essas forças se combinam em cada situação. O desligamento vai acontecer, perdas são inevitáveis. A questão é o que se faz com isso. Quando há possibilidade de simbolizar, compartilhar e dar forma, o processo anda, mesmo que doa. E hoje talvez a pergunta mais honesta não seja qual pulsão está atuando, mas em que condições ainda é possível sofrer sem se desmontar inteiro.
Por Celso Augusto Alberti -
Após termos caminhado bem pela obra de Freud, é possível atestar que o objetivo da psicanálise nunca foi simplesmente eliminar sintomas ou prometer uma cura rápida do sofrimento. Isso pode até ter feito parte de uma intenção originária, já que, sendo médico, Freud buscava a cura de pacientes que procuravam alívio para os seus sofrimentos. No entanto, o próprio exercício da clínica foi revelando que os sintomas não eram apenas incômodos a serem extirpados, mas formações psíquicas com sentido; expressões disfarçadas de conflitos, desejos, defesas e lembranças que o sujeito não reconhece diretamente como seus. Daí, arrisco dizer que o objetivo psicanalítico proposto por Freud é permitir que o sujeito se aproxime daquilo que nele age internamente, mesmo quando ele não tem plena ciência disso.
Essa ideia aparece desde os primeiros textos freudianos e vai ganhando força nas suas construções posteriores. Com os sonhos, Freud mostra que a vida psíquica não se reduz à consciência. Há pensamentos, desejos e restos de experiências que continuam ativos mesmo quando não aparecem de forma clara. A forma como ele entende a sexualidade infantil amplia essa descoberta ao mostrar que a vida psíquica adulta também traz marcas de experiências muito precoces, nas quais o corpo, o prazer, o desejo e a fantasia já participam da formação do sujeito. A teoria do recalque aprofunda essa ideia ao propor que certos conteúdos não desaparecem simplesmente da vida mental, mas são afastados da consciência e continuam produzindo efeitos. Portanto, o inconsciente não é um depósito morto de lembranças esquecidas. É uma instância ativa e insistente, quase como se tivesse vida própria, que retorna nos sonhos, nos sintomas, nos atos falhos, nas repetições e na própria relação transferencial.
Nesse sentido, a psicanálise deve escutar tanto aquilo que o paciente sabe dizer sobre si mesmo quanto aquilo que aparece de modo indireto, deslocado ou deformado. O paciente pode chegar dizendo que sofre de um determinado sintoma, o qual precisa ser escutado como algo que tem uma história e uma função. Não se trata apenas de diminuir o sofrimento, mas de reconhecer que ele possui uma lógica psíquica. Então, a tarefa da análise não é simplesmente retirar o sintoma, mas investigar de que modo ele se formou, que conflito ele expressa e que satisfação inconsciente pode estar sendo preservada por meio dele. A partir daí, os demais desenvolvimentos teóricos de Freud caminham nessa direção.
Com o avanço da experiência clínica, Freud amplia sua teoria com novos conceitos. A transferência mostra que o passado não aparece apenas como lembrança, mas também como repetição dentro da relação com o analista. Ela se revela tanto como ferramenta da cura quanto como obstáculo persistente. Ao mesmo tempo que oferece o cenário vivo para a reedição dos conflitos infantis, aparece como resistência ao trabalho analítico, evidenciando que a análise encontra limites na própria força daquilo que se repete. O narcisismo mostra que a libido se dirige tanto aos objetos externos como ao próprio Ego. A melancolia mostra que a perda de um objeto pode se voltar contra o sujeito produzindo uma espécie de empobrecimento do Ego. Mais tarde, com a compulsão à repetição e a segunda teoria das pulsões, Freud percebe que a busca de prazer ou descarga de tensão não explica tudo, mas continua sendo um ponto decisivo para entender como o sujeito tenta lidar com o desprazer, com a frustração e com os limites impostos pela realidade.
Esse movimento é importante porque mostra que Freud não ficou preso a uma única formulação. Ele foi, de certo modo, obrigado a rever e ampliar suas hipóteses diante dos impasses da clínica. A cada novo problema, a teoria se desloca um pouco. O inconsciente continua sendo central, mas os conteúdos reprimidos que precisam ser lembrados já não explicam tudo. Passa a ser preciso considerar a resistência, a repetição, a identificação, o narcisismo, a culpa inconsciente, o Superego e a participação do próprio Ego em defesas que ele não controla inteiramente. A psicanálise passa a lidar com um sujeito mais dividido do que parecia no início.
A ampliação teórica muda, então, a forma de pensar a psicopatologia. Freud não entende a neurose como erro, fraqueza moral ou simples falta de adaptação. Ele mostra que os sintomas têm sentido, ainda que esse sentido não apareça de imediato para a consciência. Na histeria, na neurose obsessiva, nas fobias, na melancolia e em outras formações psíquicas, parece sempre haver uma tentativa de solução para um conflito. O sintoma gera sofrimento ao mesmo tempo que organiza alguma coisa: denuncia uma divisão interna e, muitas vezes, substitui uma lembrança, um desejo ou uma angústia que não pôde encontrar outro caminho entre a busca de satisfação e os limites impostos pela realidade.
Considerando tudo, chama a atenção a percepção de que a psicopatologia freudiana parece não separar de forma clara o normal e o patológico. Afinal, o que aparece de modo intenso no sintoma também existe, diminuído ou modificado, na vida psíquica comum. Todos sonham, esquecem, repetem, deslocam afetos, defendem-se de certas verdades e produzem formas de compromisso. A diferença está na intensidade, no sofrimento produzido e na rigidez dessas formações. Freud nos permite pensar que o adoecimento psíquico não é algo estranho ao humano, mas uma possibilidade inerente ao próprio sujeito.
Isso abre possibilidades importantes e a psicanálise oferece um espaço em que o sujeito pode falar sem precisar organizar tudo previamente. Pela associação livre, pela escuta do analista pautada pela atenção flutuante e pela neutralidade, pela interpretação e pelo manejo da transferência, torna-se possível fazer aparecer algo que não se apresentava diretamente. A análise permite que certas repetições sejam reconhecidas, que certos sintomas sejam ligados à história do sujeito e que determinados afetos encontrem uma via de elaboração. Trata-se mais de permitir que o próprio sujeito se implique naquilo que vive, reconhecendo seus desejos, seus limites e suas formas de satisfação, e menos de dar conselhos ou corrigir comportamentos de fora.
Mas essas possibilidades também encontram limites e Freud foi percebendo que a análise não depende apenas da vontade consciente do paciente, nem da interpretação do analista. Não se trata de um procedimento simples e tampouco garante uma cura completa. O paciente resiste porque aquilo que precisa ser elaborado também é aquilo de que ele se defende. Nem tudo pode ser lembrado de modo direto. Muitas vezes, o que retorna vem como repetição e não como recordação. A transferência pode tanto ajudar o tratamento como dificultá-lo. A interpretação pode abrir caminhos, mas não resolve tudo sozinha. Já nos seus textos finais, parece que Freud está cada vez mais consciente de que há limites impostos pela força das pulsões, pelas defesas do Ego, pela culpa inconsciente e pela própria estrutura do aparelho psíquico.
Como consequência, a psicanálise freudiana não consiste em eliminar totalmente o sofrimento. Consiste em oferecer uma forma de escutá-lo e de reconhecer sua ligação com a história, o desejo, a defesa e a memória. Freud termina não propondo uma felicidade garantida, nem uma adaptação plena do sujeito à realidade, mas sim a possibilidade de o sujeito se aproximar daquilo que nele foi afastado, esquecido ou transformado em sintoma. Esse saber nunca é completo, nem resolve tudo de uma vez, mas pode modificar a relação do sujeito com aquilo que o determina.
Levando tudo em consideração e mesmo reconhecendo o papel pioneiro e a genialidade de Freud na formulação da psicanálise como disciplina clínica aplicável, confesso não ter me tornado um dos seus maiores fãs. Talvez por ainda me faltar entender determinadas coisas ou simplesmente não por ter sido convencido através de alguma lógica, acabo sendo crítico em relação a algumas de suas proposições. No entanto, há formulações que me fazem sentido e consigo vislumbrar aplicação prática e utilidade clínica. Entre elas, os dois princípios do funcionamento psíquico - princípios do prazer e da realidade - são os que mais me ajudam a pensar a clínica, porque mostram que a vida psíquica se organiza em torno de uma tensão constante entre a busca de satisfação e os limites impostos pela realidade. A repressão, o recalque e o esquecimento, as pulsões de vida e de morte e, mais tarde, a segunda tópica com a formulação do Id, Ego e Superego podem ser lidos, de algum modo, a partir dessa tensão fundamental.
Vemos, então, que o sujeito freudiano não é movido apenas por uma busca simples de prazer, mas por uma tensão permanente entre desejo, limite e possibilidade. O sujeito deseja, mas nem sempre pode satisfazer o desejo de forma direta. Precisa esperar, renunciar, substituir, deslocar, fantasiar ou encontrar outros caminhos possíveis para lidar com aquilo que quer e com aquilo que a realidade permite. Para mim, essa formulação tem sentido porque me permite projetar uma aplicação clínica concreta: a psicanálise escuta o sofrimento como expressão de um conflito entre aquilo que o sujeito deseja, aquilo que consegue admitir para si mesmo e aquilo que pode viver na realidade. O sintoma, nesse sentido, pode ser entendido como uma tentativa de solução para essa tensão, ainda que produza sofrimento e limite a vida do sujeito.
Por Rodrigo Lopes Barreto -
Olá, seguiróticos! Sou a Segunda Tópica e este é o meu podcast! Acredita que quase fomos censurados? Acharam que seguiróticos era a contração de seguidores eróticos, e não de seguidores neuróticos, gente... É podcast, não only fans! Pois ficarão ainda mais chocados, devido à enorme repercussão do último episódio resolvi continuar falando de mim, mas dessa vez sobre a sexualidade no contexto da Segunda Tópica Freudiana, um podcast proibidão! (A Segunda faz uma cara afrontosa). Novamente estou acompanhada do meu empresário, mentor e desenvolvedor, Sigmund Freud, que dispensa apresentações. Também temos conosco Inah Amaya, que está na metade da sua formação em psicanálise. Seja bem-vinda, amei seu nome, aposto que seus pais te colocaram no Colégio Waldorf! (Inah ri muito e consente com a cabeça). Vamos começar então. Tio Sig, conta pra gente, por que você só pensa naquilo?
Sigpsimund Freud- Aproveitando a censura quase sofrida Segunda, eu diria que todo neurótico tem algo de erótico, então a confusão não é injustificada. (a Segunda gargalha) A sexualidade, e em especial a sexualidade infantil permeia toda a nossa história psíquica e a psicopatologia na minha obra. O desfecho da sexualidade infantil ocorre ao redor dos 5 anos, com a dissolução do complexo de Édipo e o início do período de latência. O complexo de Édipo é o fenômeno central da vida sexual na primeira infância, e nos meus textos eu desenvolvo relações dele com o complexo de castração em meninos e meninas.
Segunda Tópica- Aproveita que o Senhor já tem fama de misógino e fala primeiro dos meninos...
(Freud abre os braços, faz uma cara triste e resignada, após uns instantes começa a falar...)
Sigmund Freud- Por exemplo, no menino o complexo de Édipo pode gerar satisfação ativa (menino toma o lugar do pai e se relaciona com a mãe) e passiva (menino substitui a mãe e se faz amar pelo pai), mas sua dissolução faz o menino experimentar dolorosas decepções. Quando o menino percebe o risco de castração, seu Eu narcísico o afasta do complexo de Édipo, a autoridade do pai é introjetada no Eu, e forma o Supereu. Agora, se não for totalmente solucionado, o complexo de Édipo fica reprimido no Id e tem uma ação patogênica.
Segunda Tópica- Quer dizer que no menino o complexo de Édipo precede o complexo de castração?
Sigmund Freud- Exatamente! Na fase fálica o menino passa a manifestar interesse pelos corpos e genitais dos outros, por vezes sendo repreendido por um adulto, o menino percebe essa desaprovação como uma ameaça de castração. Duas consequências surgem quando o menino enfim percebe a ausência do pênis em meninas. A primeira é ver as mulheres como inferiores, indignas e castradas, estabelecendo-se uma oposição entre falo (ativo) e castrado (passivo). A segunda é a realização que a castração é uma possibilidade, a ameaça se torna plausível e desperta o medo de que o mesmo aconteça com ele. No menino o complexo de Édipo sucumbe ao complexo de castração, ele não é reprimido, mas se desfaz. Já a menina, quando percebe que não tem um pênis, inicialmente acha que o clitóris é um pênis que não cresceu, se sente em desvantagem e nutre a dúvida se ele virá a crescer. Depois assume a castração.
Segunda Tópica- Segue daqui Inah...
Inah Amaya- Isso que o Sr. Freud começou a falar é muito interessante, nas meninas, o complexo de Édipo é posterior ao fenômeno da castração. Como a castração já está consolidada na menina, no momento da dissolução do complexo de édipo, o Supereu vem muito mais da educação e da intimidação externa que do medo da castração. Mais que isso, nas meninas o complexo de Édipo vai além do desejo de substituir a mãe, ela quer gerar um filho do pai. Ela pode ter sido castrada e perdido o pênis, mas este foi trocado por um bebê, posteriormente ela abandona essa ligação ao pai, por isso costuma se dizer que a menina não destrói o complexo de édipo, mas o abandona.
Segunda Tópica- Eu sinto que a sexualidade feminina foi muito renegada nos três ensaios de 1905, mas a partir dos anos 1920 recebe mais atenção. Vamos falar mais dela?
Inah Amaya- Vamos sim! Na sexualidade feminina acontece a troca do sexo do objeto. Inicialmente, assim como nos meninos, a mãe é o primeiro objeto de amor, esse vínculo forte e intenso pode ir até os quatro anos de idade. Essa seria a primeira fase sexual da mulher, tem caráter masculino e é pré-edípica. Uma segunda fase sexual da mulher tem caráter feminino e edípico, coincidindo com a troca do sexo do objeto, ou seja, da mãe pelo pai.
Segunda Tópica- Babado, confusão e reviravolta... Adoro! Como acontece essa substituição?
Inah Amaya- O afastamento da mãe pela menina se dá por vários motivos. Para começar, o Sr. Freud inferiu há muito que a meta sexual seria a união do pênis com a vagina, portanto, todo amor sem meta estaria fadado à decepção. Há o ciúme dos rivais (irmãos), e o efeito do complexo da castração nas meninas, recriminando a mãe que não lhe deu um pênis. Muito interessante também é a questão da masturbação infantil na menina, o prazer começa através dos cuidados no banho, normalmente realizados pela mãe. Essa mesma mãe reprime e hostiliza quando a menina tenta reproduzir o ato masturbatório, a menina se ressente e afasta a mãe.
Sigmund Freud- Outro ponto interessante, para mim todo ser humano é bissexual em sua origem, mas na mulher essa bissexualidade é mais nítida. Veja a anatomia da mulher, a vagina representa as qualidades passivas e femininas e o clitóris as qualidades ativas e masculinas. Reparem, eu disse qua-li-da-des!
Segunda Tópica- Bem mais legal né? Inah, e essa história de inveja do pênis?
Inah Amaya- A inveja do pênis tem sua origem quando a menina vê o membro do menino. Ela sabe que não tem, mas que ter, e se sente incompleta. Eis a ferida narcísica das meninas, dolorosa, mas que propicia o desenvolvimento rumo à feminilidade. A menina passa a ter ciúme do pai e afrouxa sua relação com a mãe. Em última análise, a aceitação da castração leva ao complexo de Édipo.
Segunda Tópica- E se ela não aceitar a castração Tio Sig?
Sigmund Freud- Recusar a castração equivale a recusar a feminilidade e a passividade. Eu chamo isso de complexo da masculinidade da mulher. Se olharmos bem, ela ocorre de forma transitória em todas as meninas, mesmo que por um breve tempo, como consequência da inveja do pênis, o complexo é abandonado quando surge a ligação da menina com o pai. Se ao invés de ligação ocorrer uma identificação com o pai, o complexo da masculinidade da mulher pode persistir ou retornar, a menina se agarra à fantasia de ser homem, assume uma atitude desafiadora, rebelde e ativa, por vezes resultando na homossexualidade feminina.
Segunda Tópica- Momento passada de pano! Gente, dá um desconto para o Sr. Freud, isso foi escrito em 1925, obviamente aos olhos de hoje o conteúdo é misógino, mas se olharmos bem, ele foi um progressista, fora o olhar e cuidado às histéricas, renegadas pela medicina. O programa está quase acabando e o clima está muito pesado, e se a gente falasse de fetiche?
Inah Amaya- Vamos amenizar o clima falando de fetiche? (todos riem) Segundo o Sr. Freud, e novamente falando sobre homens (Freud dá um sorriso amarelo), o fetiche é um substituto para o falo da mãe. O menino se recusa a acreditar que a mãe tenha perdido o pênis. O fetiche sustenta essa recusa, e outro elemento ocupa o lugar e o interesse dirigido a esse membro, pode por exemplo, ser uma parte do corpo ou uma vestimenta específica. O fetiche é uma forma de trunfo e proteção contra a ameaça de castração.
Segunda Tópica- Amei! Queria agradecer nossos convidados, meus amados seguiróticos, e aproveito pra informar que essa é a última edição do podcast. (ahhhhhhhh, ecoa no estúdio).
Inah Amaya- Como assim, Segunda? Seu podcast é um sucesso!
Sigmund Freud- Conta logo a novidade Segunda! Se não eles vão ficar ansiosos e reprimir...
Segunda Tópica- Não fiquem tristes! Vem aí um novo projeto. Em dois meses vou para a tv aberta, onde comandarei meu reality show, A Casa dos Neuróticos! Dora e o Pequeno Hans já estão confirmados! Beijos em todos!
Por Maria Bernadette Biaggi -
O Istituto Biaggi – Psicoterapia, Psicoanalisi, Cultura e Arte Brasil–Itália, sediado em Belo Horizonte, desenvolve um trabalho que articula a clínica psicanalítica, a formação, a cultura e o intercâmbio entre diferentes campos do conhecimento. O corpo clínico do Instituto Biaggi é composto pelas psicólogas Maria Bernadette Biaggi, Camilla Biaggi e Mirelle Biaggi.Sua trajetória está ligada à psicóloga e psicanalista Maria Bernadette Biaggi, uma de suas fundadoras, cuja formação e atuação mantêm importantes vínculos com a tradição psicanalítica italiana. Ao longo dos anos, o Instituto consolidou um espaço no qual a Psicanálise não permanece restrita ao consultório, mas se abre ao diálogo com a cultura e com diferentes formas de compreender a experiência humana.Uma das características desse percurso é justamente a interlocução entre Brasil e Itália. O Istituto Biaggi esteve envolvido em atividades culturais e acadêmicas relacionadas à comunidade italiana e estabeleceu intercâmbios que aproximam diferentes tradições de pensamento e de prática clínica. Entre seus campos de interesse encontra-se também a etnopsicanálise, particularmente relevante para a compreensão das experiências de migração, desenraizamento, pertencimento e encontro entre culturas. Nessa perspectiva, a experiência psíquica não pode ser separada do universo simbólico, cultural e relacional no qual cada sujeito se constitui.Essa disposição para o diálogo aparece igualmente nas atividades promovidas pelo Instituto. Psicanálise, meditação, filosofia e neurociência, por exemplo, já foram colocadas em interlocução em eventos organizados por Maria Bernadette Biaggi, reunindo profissionais de diferentes áreas para pensar questões comuns a partir de distintos vértices. A própria trajetória de Bernadette expressa essa abertura: além de psicóloga e psicanalista, atua na formação psicanalítica e é monja da tradição Soto Shu do Zen-Budismo. Trata-se, portanto, de uma proposta que preserva a especificidade da Psicanálise ao mesmo tempo que reconhece a fecundidade do encontro com outros campos do conhecimento.É nesse território de formação, investigação e abertura para o pensamento psicanalítico contemporâneo que o Istituto Biaggi e a EPP – Escola Paulista de Psicanálise / Instituto Ékatus encontram importantes pontos de aproximação. Maria Bernadette Biaggi integra também o Instituto Ékatus como membro convidada, criando uma ponte concreta entre as duas instituições. Essa proximidade permite ampliar o intercâmbio de ideias, autores e experiências clínicas, aproximando diferentes tradições psicanalíticas e favorecendo aquilo que permanece essencial à Psicanálise: um pensamento que não se encerra em respostas prontas, mas continua a se transformar a partir da clínica, da experiência e do encontro com o outro.
Por Emanuelle Duarte -
Havia uma casa no alto de uma rua silenciosa. Não era uma casa comum: os corredores pareciam mudar de lugar conforme o humor dos moradores, os espelhos devolviam expressões ligeiramente atrasadas, e à noite era possível ouvir passos vindos de quartos vazios, como se os desejos andassem sozinhos depois que todos dormiam. Nessa casa, viviam duas crianças: Orfeu e Eurídice.
Orfeu acreditava que a mãe continha a luz do mundo. Quando ela atravessava a cozinha pela manhã, o sol parecia segui-la pelas paredes. O menino a observava com aquele amor absoluto que só as crianças possuem: amor sem medida, sem distância, sem lei. Queria sentar-se ao lado dela à mesa, dormir ao seu lado nos dias de chuva, monopolizar lhe os olhos. O pai, Augusto, era uma figura estranha para Orfeu. Às vezes admirável, às vezes ameaçadora. Havia noites em que o menino observava o pai entrar no quarto da mãe e sentia algo difícil de nomear: uma mistura de ciúme, raiva e perda. Como se alguém lhe roubasse, silenciosamente, um território invisível.
Então, começaram os sonhos. Sonhava que estava diante de uma porta dourada, mas o pai segurava a maçaneta e dizia:
— Aqui não.
Orfeu acordava inquieto. Não compreendia por que aquele não ecoava tanto dentro dele. Certa tarde, ao quebrar sem querer um relógio do pai, ouviu Augusto ralhar com severidade incomum. Nada de extraordinário fora dito, mas o menino sentiu um medo ancestral percorrê-lo. Pela primeira vez, percebeu que existiam limites; que havia uma força diante da qual seu desejo não bastava. Naquela noite, ficou em silêncio durante o jantar.
Depois disso, começou lentamente a imitar o pai: ajeitava a manga da camisa como ele, repetia certas palavras, tentava andar com a mesma firmeza. O rival transformava-se, pouco a pouco, em modelo. Sem saber, Orfeu fazia nascer dentro de si uma nova instância: um juiz interno, severo e admirado ao mesmo tempo. A voz do pai já não vinha apenas de fora, começava a morar nele.
Enquanto isso, Eurídice caminhava por outra margem do mesmo rio. Na infância, sua mãe era o universo inteiro. Eurídice penteava os cabelos diante do espelho tentando reproduzir seus gestos. Sentia-se parte dela, como se fossem continuação uma da outra. Mas um dia, ao brincar com os meninos da rua, percebeu algo que não soube compreender. Voltou para casa silenciosa, olhando o próprio corpo com estranhamento. Havia descoberto a diferença.
A mãe, antes continente absoluto, pareceu-lhe de repente insuficiente. Incompleta. E Eurídice, sem compreender exatamente o porquê, começou a afastar-se dela com pequenas hostilidades delicadas: recusava colo, fechava a porta do quarto, respondia secamente. Foi então que voltou os olhos para o pai. Augusto, agora, parecia-lhe detentor de algo misterioso, algo ligado ao poder, à autoridade, à inteireza imaginária que a menina julgava não possuir. Eurídice passou a buscá-lo pela casa, sentava-se perto dele enquanto lia jornal, ria excessivamente de suas piadas sem graça.
À noite, sonhava com jardins proibidos. Em um desses sonhos, caminhava por um bosque onde todas as árvores tinham frutos dourados, exceto uma árvore seca no centro do terreno. Ao aproximar-se dela, ouvia uma voz sussurrar:
— Nem toda falta pode ser preenchida.
Eurídice despertava angustiada. Com o tempo, começou também a se identificar com a mãe, mas já não da forma fusional da infância. Agora, havia distância, rivalidade, semelhança e perda misturadas numa mesma matéria afetiva. A mãe deixava de ser extensão do corpo; tornava-se enigma.
As duas crianças cresciam sem perceber que dentro delas existia uma casa ainda maior que aquela em que moravam. No porão desta casa interior, pulsavam desejos indomáveis. Nos corredores, o eu tentava manter certa ordem, equilibrando medos, vontades e exigências do mundo. E no sótão, às vezes sombrio, às vezes majestoso, instalava-se lentamente uma voz feita de proibições, ideais e culpa.
O desejo.O Eu.A proibição.
Mas as crianças não conheciam esses nomes. Conheciam apenas os sintomas. Orfeu começou a roer as unhas até ferir os dedos. Eurídice passou a inventar histórias antes de dormir, histórias em que princesas desapareciam dentro de espelhos. Porque aquilo que não pode ser vivido diretamente retorna disfarçado. O desejo, quando impedido de falar claramente, aprende a usar máscaras.
Anos depois, já adultos, Orfeu e Eurídice não se lembrariam dessas cenas infantis. A memória apagaria detalhes, mudaria rostos, confundiria datas. Ainda assim, algo permaneceria. Orfeu apaixonava-se sempre por mulheres diante das quais precisava disputar lugar: mulheres indisponíveis, excessivamente admiradas, quase inalcançáveis. Sem perceber, repetia o antigo movimento infantil de desejar aquilo que parecia pertencer a outro homem. Em cada amor, havia novamente um rival invisível, uma interdição silenciosa e a esperança impossível de voltar a ocupar, sozinho, o centro do afeto.
Eurídice, por sua vez, buscava homens cuja presença carregava autoridade, proteção e distância. Amava aqueles que pareciam prometer reconhecimento absoluto, mas que permaneciam emocionalmente inacessíveis, como se o amor precisasse conservar certa ausência para continuar existindo. Em cada escolha amorosa reaparecia, disfarçada, a antiga tentativa de recuperar no outro aquilo que um dia julgara perdido. E ambos carregavam, sem plena consciência, os vestígios daquele primeiro drama infantil: a descoberta de que o desejo nasce precisamente daquilo que não pode ser inteiramente possuído.
Talvez seja isso que Sigmund Freud tenha compreendido com espantosa lucidez: o ser humano não nasce pronto para o amor, para a lei ou para si mesmo. Ele se constrói atravessando interdições, fantasias, identificações e faltas.
A infância, afinal, nunca termina completamente. Ela apenas aprende a vestir roupas adultas.
Por Karin C. Grabner -
Realizar a leitura dos três artigos metapisicológicos em conjunto, foi como observar Freud desenhando uma estrutura enquanto ainda testava suas fundações. Menos um sistema fechado e mais de um canteiro de obra ainda em atividade.Em Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico, o que aparece é quase uma cena inaugural: o aparelho psíquico ainda muito próximo de uma lógica imediata, regido pelo princípio do prazer, buscando alívio como quem abre saídas rápidas para não colapsar sob a pressão. Há algo de provisório nisso, como uma estrutura que ainda não suporta demora. A satisfação pode até ser alucinatória, como se bastasse imaginar para resolver. Mas a realidade não se deixa contornar tão facilmente. Ela entra como uma espécie de exigência estrutural: impõe limites, exige cálculo, pede adiamento. E o aparelho, então, se reorganiza. Não abandona o que era, mas passa a funcionar também de outro modo. A fantasia permanece, quase como um espaço interno onde a antiga lógica continua operando, silenciosa, mas ativa.Quando chego em Os destinos da Pulsão, a sensação é de que Freud se aproxima ainda mais do que sustenta essa construção por baixo. A pulsão aparece ali como uma força contínua, sem pausa, que vem de dentro, e que, por isso, não pode ser evitada. Não há fuga possível. A reversão em seu oposto, o retorno ao próprio Eu, a repressão e a sublimação aparecem não como categorias rígidas, mas como caminhos que vão sendo abertos para que essa força encontre alguma forma de circulação. Ou seria mais como um rio? Um caminho único que contorna, não cessa, mas encontra seus desvios durante seu curso? Nesse movimento se instauram as primeiras relações objetais. O outro não aparece como dado, mas como algo que passa a existir psiquicamente na medida em que é investido. A libido sai, se dirige para fora, encontra algo, se liga. Mas não permanece ali por garantia. Pode retornar, se retrair, se redistribuir. O laço com o objeto depende dessa circulação, não de uma fixação definitiva. E isso abre uma questão que, para mim, fica em suspenso: o que acontece com aquilo que nunca chegou a encontrar um objeto? Permanece como resto, como tensão sem forma, ou sempre encontrará outras vias de se fazer presente?É nesse ponto que Introdução ao narcisismo me parece me dar algumas pistas quando Freud traz um olhar para o lugar onde essa energia se deposita. A ideia de que a libido investe o próprio Eu, me parece, como se antes de qualquer abertura ao mundo, houvesse uma espécie de recolhimento. Como se toda a energia estivesse inicialmente concentrada no próprio núcleo da construção. O Eu não é apenas quem organiza, ele é também aquilo que recebe investimento. O aparelho deixa de ser apenas um funcionamento e passa a ter um ponto de referência. Ele é habitado.Mesmo quando o sujeito se volta para o mundo, algo permanece voltado para si, como um centro que nunca se esvazia por completo. A pulsão insiste, e o aparelho psíquico responde redesenhando seus próprios limites. O que me leva a pensar: existe um equilíbrio possível? Ou estamos sempre lidando com uma estabilidade apenas momentânea, sempre à beira de se refazer? Se tento amarrar tudo isso, o que se forma não é exatamente uma teoria fechada, mas um campo em movimento. Um aparelho que se organiza entre prazer e realidade, atravessado por forças internas que não cessam, e sustentado por uma economia que distribui, recolhe e desloca investimentos o tempo todo.Talvez seja por isso que não haja um ponto de chegada estável. O próprio sujeito não se fixa. Ele circula. Investe, retira, retorna. E a meu ver, é nesse movimento, mais do que em qualquer forma acabada, que o aparelho psíquico vai se constituindo.Assim, mesmo antes de uma teoria pulsional formalizada, o que Freud esboça aqui, na minha leitura, é menos uma teoria acabada e mais uma lógica de constituição: um aparelho que se organiza entre exigências que não cessam, que precisa dar destino àquilo que o atravessa e que só encontra o outro na medida em que consegue investir para além de si. O narcisismo não aparece, então, como uma etapa a ser abandonada, mas como essa base silenciosa que sustenta (e ao mesmo tempo ameaça) toda possibilidade de ligação.
Por Celso Augusto Alberti -
Em 1914, quando Freud escreveu Introdução ao narcisismo, ele ainda não havia sistematizado sua teoria pulsional da forma como faria em Pulsões e seus destinos e em O inconsciente, ambos de 1915. Mesmo assim, esse texto de 1914 ocupa um lugar muito importante na obra freudiana, porque nele aparecem de forma mais concentrada alguns problemas que já vinham sendo discutidos e que depois ganhariam maior desenvolvimento. Entre eles, está justamente a questão do narcisismo, que se torna central para pensar a formação do Eu, a distribuição da libido, as primeiras relações de objeto e, de modo mais amplo, a própria constituição do aparelho psíquico.Para entendermos isso melhor, vale começar pela teoria das pulsões. Em Pulsões e seus destinos, Freud define a pulsão como algo que fica no limite entre o somático e o psíquico, não se tratando simplesmente de um estímulo do corpo, nem de uma ideia já pronta, mas de uma exigência de trabalho que parte do corpo e pressiona o psiquismo em busca de satisfação. Freud distingue nela 4 fatores que se interrelacionam: a fonte, a pressão, o alvo e o objeto. A fonte é o processo corporal de onde ela parte (nasce); a pressão é a força constante e insistente atuando no psiquismo; o alvo é sempre alguma forma de satisfação; e o objeto é aquilo (algo ou alguém) por meio do qual essa satisfação pode ser alcançada. Essa formulação permite compreender que a vida psíquica não nasce pronta e nem unificada, mas se forma sob a pressão de exigências pulsionais que pedem descarga, satisfação, transformação e representação.
Nesse ponto, em O inconsciente, Freud avança ao mostrar que o inconsciente não deve ser entendido apenas como aquilo que não está presente na consciência. Ele funciona como um sistema com características próprias, em que predominam os processos primários, o deslocamento, a condensação, a ausência de contradição, a atemporalidade e uma relação diferente com a realidade. Isso mostra que o aparelho psíquico não pode ser pensado como algo simples ou linear; ele vai se formando à medida que precisa dar algum destino às pulsões, organizar representações e lidar com tensões internas que não desaparecem por conta própria.
É justamente aí que Introdução ao narcisismo ganha importância maior. Freud afirma que o Eu não existe desde o começo como uma unidade pronta e essa é, para mim, uma das ideias mais importantes do texto. No início, não há um Eu já constituído que possa investir em si mesmo. O que existe são pulsões parciais, ligadas a zonas erógenas, funcionando de forma autoerótica, que encontram satisfação no próprio corpo sem que haja ainda uma unidade psíquica organizada. O narcisismo surge quando essa dispersão começa a se reunir em torno de uma imagem mais unificada do Eu. Em outras palavras, ele marca um momento importante da constituição subjetiva.
Essa passagem do autoerotismo ao narcisismo ajuda muito a pensar a formação do aparelho psíquico. No autoerotismo, a satisfação acontece no próprio corpo, mas isso não quer dizer independência real. Desde o início, o bebê depende de um outro para viver. A alimentação, o cuidado, o alívio da tensão e a própria experiência de satisfação passam por esse outro (exemplo: a mãe). É nesse ponto que as pulsões sexuais se apoiam nas funções de autoconservação e começam a aparecer os primeiros vínculos com o objeto. O objeto, então, não surge primeiro como algo amado em sentido pleno, mas como aquilo ou aquele por meio de quem a satisfação se torna possível.
Por isso, as primeiras relações de objeto não podem ser separadas da constituição do Eu. Num primeiro momento, o objeto vale por sua função satisfatória. Mas, pouco a pouco, com a repetição das experiências de presença e ausência, satisfação e frustração, ele vai ganhando consistência psíquica. É nesse movimento que começa a se estabelecer uma diferença entre dentro e fora, entre Eu e não Eu. O aparelho psíquico vai se formando justamente nesse trabalho de dar alguma organização a essas experiências e às tensões que delas decorrem.
Nesse contexto, o narcisismo deixa de ser entendido como simples amor-próprio, no sentido comum da palavra, e passa a ser visto como uma forma fundamental de investimento libidinal. Freud mostra que a libido pode se dirigir tanto aos objetos externos quanto ao próprio Eu. O chamado narcisismo primário corresponde ao momento em que o Eu em constituição se torna o principal alvo desse investimento. Isso é decisivo porque mostra que o Eu também pode ser objeto da libido. Já não se trata apenas de pulsões dispersas, mas de uma certa centralização libidinal em torno de uma unidade nascente.
Essa formulação tem consequências importantes. Antes disso, a oposição principal era entre pulsões do Eu e pulsões sexuais. Com a introdução do narcisismo, Freud percebe que o próprio Eu pode ser investido pela libido. Surge, então, a distinção entre libido do Eu e libido de objeto. Essa circulação é importante porque mostra que a relação com os objetos não elimina o investimento em si mesmo, e que o retorno da libido ao Eu também não apaga a importância dos objetos. Há, portanto, uma mobilidade constante, e é nela que a constituição subjetiva se deixa pensar.
Por isso, o narcisismo ocupa um lugar tão importante na formação do aparelho psíquico. Ele permite articular a dispersão pulsional inicial, a constituição do Eu e o surgimento das relações de objeto. Sem esse conceito, a passagem do autoerotismo para a escolha de objeto talvez ficasse menos compreensível. O narcisismo mostra que, antes de amar o objeto, o sujeito precisa se constituir como unidade investida. O outro só pode aparecer como objeto de investimento quando o Eu já começou, de algum modo, a se organizar.
Assim, para Freud, o narcisismo não deve ser entendido como um fechamento completo do sujeito sobre si mesmo. Ele é um momento necessário da constituição psíquica e é a partir dele que o Eu começa a se organizar, que a libido encontra um centro provisório e que o outro pode aparecer como objeto de amor, conflito, perda e investimento. Pensar o narcisismo, portanto, é também pensar como se formam o Eu, a economia libidinal e o próprio aparelho psíquico.
Por Pedro Castro -
Uma reflexão epistemológica e técnica a partir da obra de Giuseppe Civitarese
Introdução: Para além da palavra
A psicanálise sempre reconheceu que a comunicação ultrapassa o verbal. Freud já nos alertava para a "outra cena" que se expressa nos sonhos, nos lapsos e nos sintomas. Contudo, foi com Bion e os desenvolvimentos da teoria de campo que pudemos avançar na compreensão de como o inconsciente se manifesta não apenas em representações imaginativas, mas também em sensações, afetos e ações que ocorrem no encontro analítico.
Giuseppe Civitarese, em seu artigo "Campo incorporado e reverie somático", propõe uma expansão radical do conceito de reverie: ela não se restringe a imagens e pensamentos oníricos, mas inclui sensações corporais, gestos e ações aparentemente banais do analista. Essas manifestações, longe de serem meros ruídos contratransferenciais ou enactments a serem evitados, constituem vias privilegiadas de acesso aos níveis mais arcaicos da experiência emocional - aqueles que ainda não alcançaram simbolização e que se inscrevem no que Civitarese chama de campo incorporado.
Este texto tem por objetivo apresentar os fundamentos epistemológicos dessa noção, diferenciá-la de concepções retificadoras e oferecer subsídios para sua utilização na clínica cotidiana. Para isso, partiremos das premissas da teoria de campo bioniana, examinaremos o estatuto do corpo como instrumento de conhecimento e ilustraremos, com exemplos clínicos, como o analista pode "sonhar no corpo" aquilo que o paciente ainda não pode sonhar.
1. O campo analítico como terceiro inconsciente
Antes de adentrarmos o conceito de reverie somático, é necessário situar o modelo de campo que o sustenta. Civitarese filia-se à tradição inaugurada por Bion e desenvolvida por autores como Ferro e Ogden, na qual o campo analítico é concebido como um terceiro inconsciente que emerge do encontro entre duas subjetividades. Não se trata de uma entidade metafísica, mas de um instrumento de observação que nos permite pensar os fenômenos clínicos como cocriações.
Nesse modelo, todo evento na análise - uma palavra, um silêncio, um gesto, uma sensação - é visto como expressão do campo, isto é, como resultante da interação inconsciente entre paciente e analista. A mente individual cede lugar a uma matriz relacional onde as fronteiras entre sujeito e objeto se tornam permeáveis. É nesse contexto que o corpo do analista deixa de ser um mero receptáculo de projeções e passa a ser compreendido como parte integrante do campo: um lugar de inscrição e transformação de experiências ainda não simbolizadas.
2. O que é reverie somático?
Tradicionalmente, a reverie designa a capacidade do analista de acolher e transformar, por meio de devaneios e imagens, as comunicações inconscientes do paciente. Civitarese propõe que essa capacidade se estende ao domínio do sensível: sensações corporais, impulsos motores, reações fisiológicas e até ações automáticas podem ser compreendidas como reveries em estado bruto.
Reverie somático é, pois, a manifestação corporal de um processo de transformação psíquica ainda incipiente. Quando o analista sente um aperto no peito, uma vontade de tapar os ouvidos, um impulso de se mexer na cadeira ou mesmo um gesto repetitivo como beber água em sincronia com o paciente, ele está, potencialmente, sonhando no corpo aquilo que o campo analítico está vivendo.
A diferença crucial entre reverie somático e enactment (entendido como atuação inconsciente) reside na atitude reflexiva posterior. O enactment tende a ser visto como uma falha técnica, uma repetição não elaborada. O reverie somático, por sua vez, é acolhido como dado clínico: a sensação ou ação é observada, interrogada e, posteriormente, interpretada à luz do campo. Não se trata de agir deliberadamente, mas de deixar-se afetar e, em seguida, despertar para o significado que essa afetação revela.
3. Epistemologia do corpo: o corpo como instrumento de conhecimento
Para que o reverie somático não seja confundido com uma comunicação mística ou com uma simples descarga emocional, é fundamental compreender seu estatuto epistemológico. Civitarese recorre à fenomenologia de Merleau-Ponty e à noção de intercorporalidade para fundamentar a ideia de que o corpo é, ele mesmo, um lugar de produção de sentido.
Na tradição fenomenológica, o corpo não é um objeto entre outros, mas a condição de possibilidade de toda experiência. É por meio dele que estamos no mundo e que nos relacionamos com os outros. Na clínica, isso implica que a comunicação entre analista e paciente se dá também em um nível pré-reflexivo, tônico e postural. Posturas, ritmos e sincronias motoras são formas de diálogo que precedem e sustentam a troca verbal.
Bion, por sua vez, nos oferece o conceito de sistema protomental, um estado indiferenciado em que emoções, sensações e pensamentos se confundem. É nesse registro que o reverie somático opera: o analista, ao sentir uma tensão muscular ou um cansaço súbito, está em contato com uma dimensão do campo que ainda não foi "digerida" pela função alfa. A sensação corporal é, assim, um elemento beta em busca de transformação.
Ao acolher essa sensação e tratá-la como um fenômeno do campo - e não como idiossincrasia pessoal - o analista inicia um processo de simbolização. O corpo "pensa" antes que a mente consciente elabore; cabe ao analista, num segundo momento, traduzir esse pensamento corporal em linguagem interpretativa.
4. Exemplos clínicos: o corpo em cena
Para ilustrar a aplicação do conceito, tomemos algumas vinhetas do próprio Civitarese, adaptadas para fins didáticos.
Exemplo 1: A voz que fere
Durante uma sessão, uma paciente utiliza repetidamente expressões de forte carga agressiva. O analista sente um desconforto físico crescente, como se as palavras "perfurassem" sua pele. Em determinado momento, percebe que está com os punhos cerrados e uma vontade quase incontrolável de interromper a sessão.
Em uma leitura tradicional, isso poderia ser visto como contratransferência reativa ou como falha na capacidade de continência. Pela ótica do reverie somático, o analista interroga: "O que meu corpo está me dizendo sobre o campo?". A sensação de ser perfurado aponta para a violência psíquica que a paciente viveu e que agora é encenada na relação. O corpo do analista sonha a dor que a paciente não pode simbolizar.
Após a sessão, ao refletir sobre sua reação, o analista percebe que a paciente testava se ele suportaria suas partes "sujas". A sensação corporal foi a primeira forma de contato com essa área cindida, permitindo que, mais tarde, uma interpretação pudesse ser construída.
Exemplo 2: A sincronia da água
Outro paciente, sempre pontual, traz uma garrafa de água e bebe um gole ao deitar-se no divã. O analista, sem pensar, repete o gesto no mesmo instante. Só depois de várias sessões notam essa sincronia e se pergunta sobre seu significado.
O gesto automático de beber água em espelho revela uma unissonância sensorial que precede qualquer diferenciação. O paciente, que se queixa de conversas vazias e superficiais, precisava, antes de tudo, de uma sintonia corporal básica - uma experiência de "ser um só corpo" - para que, posteriormente, pudesse emergir a palavra significativa. O analista, ao participar desse ritual sem planejamento, estava oferecendo, em ato, a base para a simbolização.
Exemplo 3: O toque que integra
Uma jovem paciente com histórico de autolesão, em meio a uma sessão, levanta-se e pede que a analista toque seus cabelos, para que sinta como são finos. A analista toca. O gesto, longe de ser uma invasão ou um acting out, é compreendido como uma tentativa de restabelecer a continuidade física com o objeto, condição necessária para a integração somatopsíquica.
A analista, posteriormente, reflete que sua mão, ao tocar, simbolizou o acolhimento que a paciente não pudera internalizar. O toque não foi uma intervenção técnica no sentido clássico, mas um reverie encarnado, uma resposta do campo a uma necessidade de unidade.
5. Como usar o reverie somático na prática clínica
A incorporação do reverie somático à técnica exige do analista uma mudança de vértice em relação à sua própria corporalidade. Em vez de tratar sensações e ações como ruídos a serem eliminados, o analista é convidado a: • Cultivar a atenção ao próprio corpo durante as sessões, observando tensões, ritmos e impulsos, sem julgamento imediato.
• Interrogar a sensação como fenômeno do campo: "O que esta tensão, este cansaço, este gesto repetitivo pode estar me dizendo sobre o vínculo?".
• Diferenciar o idiossincrático do campal: nem toda sensação é um reverie; algumas são pessoais e não dizem respeito ao paciente. A distinção se faz pela reflexão e, muitas vezes, pela supervisão.
• Permitir-se ser afetado, mas sem agir impulsivamente. O reverie somático não é um convite à atuação, mas à receptividade ativa.
• Traduzir em interpretação apenas após o "despertar", ou seja, depois de elaborar mentalmente a experiência. A interpretação pode ser verbal, mas também pode se manifestar em uma mudança de atitude, em um olhar, em um acolhimento silencioso.
É fundamental lembrar que o reverie somático não substitui a palavra, mas a prepara. Ele atua nos estratos mais profundos da comunicação, onde a linguagem ainda não chegou. Por isso, é especialmente valioso no trabalho com pacientes de difícil acesso, com grave comprometimento da capacidade simbólica.
6. Distinções necessárias: reverie somático, enactment e equação simbólica Para evitar mal-entendidos, Civitarese faz questão de diferenciar o reverie somático de outros conceitos.
Enactment: Geralmente entendido como uma atuação inconsciente que repete padrões patológicos e que, idealmente, deveria ser evitada ou analisada a posteriori. O reverie somático, por sua vez, é acolhido como fonte de conhecimento desde o início, mesmo que só possa ser compreendido depois.
Equação simbólica: Na equação simbólica, o símbolo é confundido com a coisa simbolizada (ex.: o paciente que diz "estou morrendo de medo" e age como se a morte fosse literal). No reverie somático, o corpo não é tomado como literalidade, mas como metáfora encarnada. A diferença está no despertar: a equação simbólica é um estado de não-sonho; o reverie é um sonho que, ao ser refletido, se torna símbolo.
Comunicação direta de inconsciente a inconsciente: Civitarese não postula nenhuma forma de telepatia ou transmissão energética. O corpo do analista registra o campo porque ambos os participantes estão imersos em uma mesma matriz relacional. É a intercorporalidade que explica essa ressonância, não uma comunicação extrassensorial.
7. Implicações éticas e técnicas
Acolher o reverie somático na clínica implica uma revisão da neutralidade clássica. O analista não é uma tábula rasa, mas um corpo vivo que participa da cena. Isso exige: Humildade para reconhecer que nem sempre compreendemos imediatamente o que sentimos.
Confiança no processo inconsciente, tanto do paciente quanto do próprio analista.
Capacidade de esperar antes de interpretar, permitindo que o sentido se desdobre.
Supervisão constante, para que o analista possa discriminar o que é seu e o que é do campo.
Além disso, o reverie somático nos lembra que o setting não é apenas um conjunto de regras formais, mas um campo vivo que respira. Pequenas violações - um encurtamento involuntário da sessão, um gesto inesperado - podem ser oportunidades preciosas de acesso ao que estava congelado. O importante é que, após a turbulência, o analista recupere a capacidade de pensar e de sonhar o ocorrido.
Conclusão: O corpo como lugar de sonho
A psicanálise sempre soube que o inconsciente se escreve no corpo. Dos sintomas conversivos de Freud às identificações projetivas de Klein, passando pelas psicossomatizações, o corpo nunca esteve ausente. No entanto, faltava-nos um modelo que integrasse a corporalidade do analista como instrumento de trabalho.
Civitarese, ao propor o conceito de reverie somático, oferece-nos uma ferramenta epistemológica e clínica de grande alcance. Ela nos permite:
• Observar o corpo do analista como parte do campo.
Transformar sensações em pensamentos.
Acolher níveis arcaicos de experiência sem reduzi-los à patologia.
Ampliar nossa capacidade de sonhar junto com o paciente.
Sonhar no corpo é, afinal, uma forma de estar presente na relação com toda a nossa humanidade. É reconhecer que, antes de sermos mentes que interpretam, somos corpos que sentem, que se movem, que tocam e que são tocados. E é nesse toque sensível que a psicanálise encontra, mais uma vez, sua potência transformadora.
Psicanalista Pedro Castro - Contato: (12) 99175-1787Instituto Ékatus / Escola Paulista de Psicanálise
Referência:Civitarese, G. (2021). Campo incorporado e reverie somático. In: Revista de Psicanálise.
Por Tais Romero -
A constituição da psicanálise da infância está profundamente vinculada às formulações inaugurais de Sigmund Freud e às reformulações propostas por Melanie Klein. Ainda que a obra kleiniana se origine no interior do campo conceitual aberto por Freud, suas contribuições produziram deslocamentos teóricos e técnicos significativos, especialmente no que concerne à compreensão da vida psíquica precoce, à temporalidade do complexo de Édipo e às modalidades de intervenção clínica com crianças. A análise comparativa entre esses dois autores permite evidenciar um movimento simultâneo de continuidade e ruptura no interior da tradição psicanalítica, revelando aproximações fundamentais, mas também divergências estruturantes.
No que se refere à psicanálise de crianças, Freud foi o primeiro a reconhecer de forma sistemática a centralidade da infância na constituição da subjetividade. Ao afirmar a existência da sexualidade infantil, Freud rompeu com concepções moralizantes e naturalizantes da infância, propondo que o psiquismo da criança é atravessado por conflitos pulsionais e por processos inconscientes complexos. A infância passa a ser compreendida como um período decisivo de organização da vida psíquica, no qual se estabelecem as bases estruturais da personalidade. Entretanto, apesar de ter inaugurado esse campo de investigação, Freud manteve certa prudência quanto à análise direta de crianças pequenas. Em muitos momentos de sua obra, suas formulações sobre o psiquismo infantil derivam de reconstruções realizadas a partir da análise de adultos ou de observações indiretas, como se verifica no célebre caso do pequeno Hans. Freud considerava que a criança ainda se encontra em processo de constituição simbólica e que, portanto, a transferência e a associação livre não se apresentariam da mesma forma que na clínica com adultos. Dessa maneira, a intervenção analítica frequentemente demandaria a mediação dos pais e a consideração do ambiente familiar como parte essencial do processo terapêutico.
Melanie Klein, por sua vez, radicaliza e amplia esse horizonte teórico ao sustentar que o inconsciente infantil é plenamente acessível ao trabalho analítico desde os primeiros anos de vida. Para Klein, as fantasias inconscientes não surgem apenas em etapas posteriores do desenvolvimento, mas estão presentes desde os primórdios da existência psíquica, estruturando as relações do bebê com os objetos e com o próprio corpo. O mundo interno da criança é concebido como intensamente povoado por representações fantasmáticas, marcadas por sentimentos de amor, agressividade, medo e reparação. Nesse sentido, Klein propõe uma concepção mais precoce e dinâmica do funcionamento psíquico, na qual os conflitos fundamentais não aguardam a maturidade da linguagem para se manifestar. A criança pequena, mesmo antes de dominar plenamente a palavra, já expressa simbolicamente suas experiências emocionais por meio de formas próprias de comunicação. Essa perspectiva permitiu a Klein desenvolver uma prática clínica voltada diretamente para a escuta da criança, reconhecendo no brincar uma via privilegiada de acesso ao inconsciente.
Outro ponto central de divergência entre Freud e Klein diz respeito à formulação do complexo de Édipo. Na teoria freudiana, o complexo de Édipo constitui o núcleo organizador da vida psíquica e se desenvolve predominantemente durante a fase fálica, aproximadamente entre os três e cinco anos de idade. Nesse momento do desenvolvimento, a criança direciona seus desejos amorosos ao genitor do sexo oposto e experimenta sentimentos de rivalidade e hostilidade em relação ao genitor do mesmo sexo. A superação desse conflito, mediada pela ameaça de castração e pela identificação com a figura parental rivalizada, conduz à formação do superego e à internalização das normas culturais. O complexo de Édipo assume, portanto, um papel estruturante na transição da criança para a vida social e na consolidação das instâncias psíquicas.
Melanie Klein propõe uma reformulação profunda dessa temporalidade. Em sua perspectiva, o complexo de Édipo não se restringe à fase fálica, mas se manifesta de forma muito mais precoce, emergindo já nos primeiros meses de vida. A criança, segundo Klein, desde cedo estabelece relações triangulares com os objetos internos que representam as figuras parentais. Essas relações são vivenciadas em um plano fantasmático intenso, no qual o bebê imagina interações entre os pais e constrói fantasias sobre sua própria participação nessas relações. Assim, o Édipo kleiniano não se apresenta apenas como um conflito tardio ligado à descoberta da diferença sexual, mas como uma organização psíquica precoce associada às primeiras experiências de amor, inveja, rivalidade e reparação. Essa concepção está diretamente relacionada à teoria das posições esquizoparanóide e depressiva, por meio das quais Klein descreve os modos iniciais de organização do psiquismo infantil. A posição esquizoparanóide caracteriza-se pela predominância de ansiedades persecutórias e pela tendência à divisão dos objetos em bons e maus, enquanto a posição depressiva envolve a integração progressiva desses aspectos e o surgimento de sentimentos de culpa e desejo de reparação. Nesse quadro teórico, o complexo de Édipo se entrelaça com as primeiras experiências emocionais do bebê, adquirindo uma dimensão mais ampla e precoce do que aquela descrita por Freud.
No plano técnico, as diferenças entre Freud e Klein tornam-se particularmente evidentes. Freud estabeleceu os princípios fundamentais da técnica psicanalítica, baseados na associação livre, na interpretação dos sonhos e na análise da transferência. Esses procedimentos foram elaborados a partir da clínica com adultos e pressupõem um sujeito capaz de verbalizar livremente seus pensamentos e lembranças. Quando se trata de crianças, Freud reconhece que tais condições nem sempre estão plenamente presentes, razão pela qual enfatiza a necessidade de adaptações metodológicas e da participação da família no processo terapêutico.
Klein, ao contrário, concebe uma técnica específica para a análise infantil, na qual o brincar ocupa uma função central. Em seu enquadre clínico, a sala de análise é organizada com brinquedos, objetos e materiais que permitem à criança expressar simbolicamente suas fantasias inconscientes. O brincar é compreendido como equivalente funcional da associação livre do adulto, constituindo uma forma de linguagem por meio da qual a criança comunica seus conflitos internos. O analista observa atentamente as escolhas da criança, as narrativas que emergem durante o jogo, as relações que ela estabelece entre os objetos e os afetos que se manifestam nesse processo. A interpretação dirige-se às fantasias inconscientes que organizam essas produções simbólicas, possibilitando à criança elaborar ansiedades e conflitos que ainda não podem ser plenamente verbalizados.
A leitura comparativa dos textos clínicos de Freud e Klein também permite perceber diferenças importantes no estilo interpretativo e na forma de construir o caso clínico. Freud frequentemente adota uma postura analítica que privilegia a reconstrução gradual da história psíquica do paciente, articulando elementos biográficos, lembranças infantis e manifestações transferenciais. Seu método valoriza a prudência interpretativa e o desenvolvimento progressivo da compreensão clínica. Klein, por sua vez, apresenta um estilo interpretativo mais direto e incisivo, frequentemente focalizado nas fantasias inconscientes mais primitivas e nas ansiedades que emergem no contexto da relação transferencial. Suas interpretações tendem a enfatizar os conflitos relacionados à agressividade, à inveja e ao medo de destruição do objeto amado, aspectos que ocupam lugar central em sua teoria do desenvolvimento psíquico.
A aproximação entre Freud e Klein, contudo, permanece evidente no reconhecimento compartilhado de que a infância constitui o terreno privilegiado de formação do sujeito e de que os conflitos inconscientes desempenham papel determinante na organização da personalidade. Ambos os autores compreendem o psiquismo como resultado de processos dinâmicos nos quais pulsões, fantasias e relações objetais se entrelaçam de maneira complexa. As divergências que os separam não anulam essa herança comum, mas evidenciam diferentes caminhos de aprofundamento teórico e clínico dentro da tradição psicanalítica.
Desse modo, a interlocução entre Freud e Klein revela-se fundamental para compreender o desenvolvimento da psicanálise da infância. Enquanto Freud inaugura a descoberta da sexualidade infantil e estabelece os fundamentos da teoria psicanalítica, Klein amplia esse campo ao investigar as camadas mais precoces da vida psíquica e ao desenvolver uma técnica clínica que permite acessar diretamente o mundo interno da criança. A tensão entre continuidade e inovação que caracteriza essa relação teórica contribuiu decisivamente para a consolidação da psicanálise infantil como um campo autônomo e fecundo de investigação clínica e conceitual.
A psicanálise, qual um rio que se adapta ao leito, mas mantém a profundidade de suas águas, confronta-se com os desafios e as possibilidades da contemporaneidade. Neste cenário de transformações velozes, questionamos: como o rigor acadêmico, inerente à formação psicanalítica, pode coexistir com a acessibilidade que a era digital nos oferece? O próximo Colóquio da EPP, intitulado “Psicanálise do Contemporâneo EAD: acessibilidade e rigor acadêmico”, propõe-se a desvendar esta aparente dicotomia, convidando a uma reflexão profunda sobre o futuro do saber psicanalítico.