A Psicanálise e a Reconfiguração do Espaço de EstudoApós a instigante discussão em nosso Reverberações sobre a Psicanálise EAD, somos levados a uma reflexão sobre a natureza do conhecimento e sua transmissão. Onde reside a essência do aprendizado psicanalítico, se não na mente que o acolhe e na capacidade de ressoar com suas complexidades? A distância física, que outrora parecia um obstáculo intransponível, revela-se agora como uma ponte para a universalização do saber. Não é o espaço que confere profundidade, mas a qualidade da investigação e a seriedade do percurso. A EAD, neste sentido, não diminui, mas expande os horizontes da psicanálise, permitindo que suas verdades alcancem mentes ávidas em qualquer latitude.
A psicanálise, desde suas origens, tem se mostrado uma disciplina em constante movimento, capaz de lançar luz sobre as complexidades da experiência humana e os desafios de cada época. Na EPP — Escola Paulista de Psicanálise, compreendemos a importância de manter viva essa chama da investigação e da reflexão, convidando a todos para uma jornada de aprofundamento e descoberta. É com esse espírito que anunciamos a nossa 'Semana da Psicanálise EPP – Reverberações', um evento que celebra o saber psicanalítico e convida à formação contínua.
Por Rodrigo Lopes Barreto -
Boa tarde, Seguiróticos1 ! Sejam bem-vindos a mais uma edição do meu podcast. Para quem não me conhece eu sou a Segunda Tópica, o programa de hoje está egotrip total, resolvi falar sobre minha origem e implicações na psicanálise. Convidei meu empresário, mentor e desenvolvedor, Sigmund Freud, que dispensa apresentações e Ivan Augusto, estudante de formação em psicanálise, que acabou de ser exposto a mim. Vou começar com tudo... eu sou melhor que a Primeira?
Sigmund Freud- Estimada Segunda, não creio que melhor se encaixe nesta questão, podemos dizer que você foi uma evolução da Primeira, para começar, o conceito de consciente e inconsciente tinha um contexto geográfico, e passa a ser visto como uma qualidade do aparelho psíquico.
Ivan Augusto- Li vários textos do Sr. Freud, e os conceitos que levam à Segunda Tópica aparecem progressivamente já no começo do século XX. É muito interessante observar a evolução do pensamento, que acredito eu, chega ao seu ápice no texto ‘O Eu e o Id’. Segunda Tópica- Sei! Ambos falaram em evolução, vai dizer que isso não é melhor? Mas deixa quieto... Ivan, fala um pouquinho pra gente da fase inicial dessa evolução (A Segunda faz sinal de ‘aspas’ com os dedos). Ivan Augusto- Já em 1905, os ensaios do Sr. Freud tratam da sexualidade infantil, das fases do desenvolvimento libidinal, fazendo relação entre essa sexualidade e o conteúdo que seria reprimido no inconsciente. Posteriormente aparecem os conceitos dos princípios do funcionamento mental. O Princípio de Prazer seria a atividade psíquica que tem como objetivo evitar o desprazer, ele funciona de forma econômica, sendo que desprazer seria tudo que provocasse aumento da tensão no aparelho psíquico, e prazer a sua redução. O Princípio de Prazer é imediatista, obedece a imperiosas exigências internas e... Olha as pulsões aí gente! (Gritou a Segunda Tópica, Ivan começa a rir e depois prossegue) Já o Princípio de Realidade regula e modifica o princípio de prazer, a busca pela satisfação não segue caminhos curtos, mas desvios, adiando suas recompensas em função das condições impostas pelo mundo externo. É legal que neste momento já aparecem os termos Eu-de-prazer e Eu-realidade.
Segunda Tópica- Hummmmmm! No que será que isso vai dar? Segue daqui Tio Sig...
Sigmund Freud- Ah Segunda! Encantadora como sempre, acho que você é minha extensão narcísica favorita! Logo em seguida desenvolvi o conceito de Pulsão, alguns preferem instinto, que é uma força psíquica interna, potente e constante que busca a satisfação de uma necessidade, inicialmente agrupei essas forças em instintos de autoconservação e instintos sexuais, e o destino deles pode ser a reversão ao contrário, voltar-se contra a própria pessoa, a repressão ou a sublimação. Esse conceito também evolui posteriormente...
Segunda Tópica- O que eu ouvi foi você admitindo que eu sou sua favorita! Ivan, já que o Tio Sig me chamou de extensão narcísica, fala um pouco de narcisismo para nossos Seguiróticos.
Ivan Augusto- Antes de narcisismo temos que falar de libido, libido é a quantidade de energia psíquica que investimos em algo ou alguém. O narcisismo é a porção da libido que é voltada para o eu. No início da vida psíquica ela é totalmente voltada ao eu (narcisismo primário), posteriormente deslocamos parte dessa energia libidinal para os objetos, e por vezes parte dessa energia deslocada é retraída para o eu novamente (narcisismo secundário). Um momento crítico no desenvolvimento da vida psíquica ocorre como consequência do complexo de castração, que esmorece o narcisismo original da criança. Na busca de um o substituto do narcisismo perdido da infância surge um ideal do eu, e uma instância psíquica que continuamente mede o eu atual pelo ideal de eu, visando assegurar essa satisfação narcísica. Essa instância também é citada na melancolia, quando toda a energia libidinal que foi investida em um objeto se volta de forma crítica contra uma porção do eu, e a toma como se fosse um objeto. E sabemos que esta instância crítica vai dar no...
Segunda tópica- Supereu! Fiquei arrepiada! Tudo está se encaixando... E agora Tio Sig?
Sigmund Freud- Chegou a hora de falar do que há além do princípio do prazer... (Freud dá um sorriso maroto) Nesse artigo eu observei que fontes de desprazer partem de dentro do aparelho psíquico, que não há proteção contra elas, e que as fontes destas excitações são as pulsões do organismo. Muito do nosso Eu é inconsciente e por vezes essas pulsões tentam trazer o que foi reprimido pelo organismo, gerando um embate entre o eu coerente e o eu reprimido. Esse reprimido é repetido pelo doente e o conteúdo desse reprimido vem da sexualidade infantil, e inclui o Complexo de Édipo e sua ferida narcísica. Podemos dividir as pulsões entre vida e morte, do embate entre elas inúmeros processos surgem na nossa psique. A Pulsão de morte é um impulso que pretende restaurar um estado anterior, que esse ser vivo teve de abandonar por conta de influências externas, perturbadoras e desviantes. Esse instinto quer regredir e alcançar o estado inanimado que havia antes, segundo ele o objetivo de toda a vida é a morte. Já a Pulsão de vida visa a manutenção, geração e perpetuação da vida e age contra os outros instintos cuja função conduz à morte.
Segunda tópica- Que forte! Ivan, imagina o grau de inquietação que isso causa no indivíduo?
Ivan Augusto- Pois é Segunda, a inquietação ou estranheza vem do termo em alemão usado pelo Sr. Freud, Heimlich, uma palavra tão complexa que pode significar familiar e oculto ao mesmo tempo!
Sigmund Freud- Me desculpem ouvintes, mas se o português tem a palavra saudade, porque o alemão não pode ter Heimlich. Essa palavra nos conduz à incerteza e à ambiguidade, tem algo mais humano que a ambiguidade? Morte como objetivo da vida, desprazer no prazer, pulsões que se opõem, ideal e real, reprimido e repetido... Viver dói! Quando convicções antigas abandonadas são novamente confirmadas e quando vivências infantis reprimidas são avivadas... lá está o inquietante! Segunda Tópica- Vivências infantis Tio Sig? Fale-me mais sobre isso. (Freud começa a rir)
Sigmund Freud- É o que eu sempre digo, o analista que negligência a análise da infância está cometendo um grave erro. É inegável a importância das primeiras vivências. Em alguns pacientes percebi que as fantasias podem ser o desfecho final de uma pré-história no desenvolvimento da sexualidade infantil. Vou citar como exemplo pacientes que relatavam a fantasia de ver um menino apanhando. A fantasia manifesta parece sádica, mas é a expressão masoquista de uma vontade reprimida de ser espancada pelo pai, oriunda da culpa por desejos incestuosos reprimidos no inconsciente. O Complexo de Édipo e a sexualidade infantil são o cerne da neurose, e o processo de neurotização é como lidamos com essas forças arcaicas reprimidas na nossa formação psíquica.
Segunda Tópica- Ivan, nosso tempo está quase acabando, faz um resumo pra nós de como eu me estruturo depois de toda essa evolução e novos conceitos... (Ivan olha para Freud com medo).
Ivan Augusto- Resumo? Vou tentar, imaginemos que o aparelho psíquico surja como uma grande massa. Essa massa contém diversos resíduos de vivências de Eus anteriores, a parte profunda dessa massa, que mantém esses resíduos e nossos instintos fundacionais é o Id, a parte mais superficial, em íntima relação com o meio externo é o Eu, que se desenvolve através dos estímulos e percepções recebidas. Completamente inconsciente, o Id é a sede das nossas organizações psíquicas mais arcaicas, nossas pulsões, instintos e de boa parte do que é reprimido, em especial elementos oriundos da sexualidade infantil. O Id é regido pelo princípio do prazer e quer dar vazão aos seus instintos através do Eu, que recebe essas sensações das camadas mais profunda do aparelho psíquico via percepção interna. O Eu tenta via o princípio da realidade fazer uma mediação entre as necessidades pulsionais do Id e a percepção da realidade externa.
Sigmund Freud- Está indo bem, não se esqueça de falar do reprimido neste novo contexto.
Ivan Augusto- O inconsciente não coincide com o reprimido, mas todo reprimido é inconsciente. A repressão parte do Eu sobre tendências psíquicas que devem ser retiradas da consciência. No Eu também há conteúdo inconsciente, que com um trabalho especial pode ser tornado consciente. Em resumo o indivíduo seria um Id psíquico, desconhecido e inconsciente, em cuja superfície se acha o Eu. Conforme o Eu se aprofunda ele conflui com o Id, de quem não é totalmente separado. O reprimido é separado do Eu pelas resistências, e conflui com o Id, de quem é apenas uma parte. O reprimido só se comunica com o Eu através do Id. E de onde vem Supereu? O Supereu é uma diferenciação do Eu em seu interior, que projeta o nosso Ideal de Eu, inalcançável e com relação menos estreita com o consciente. Nesse ideal se esconde a mais antiga e significativa relação do indivíduo: seus pais. Quando o Complexo de Édipo se esvai, o indivíduo precisa abandonar o investimento objetal em um dos genitores, mas surge a identificação com o outro. Essa dissolução resulta num precipitado no Eu, que contém o Ideal de Eu e forma o Supereu. O Supereu é um entreposto do Id dentro do Eu, o representante da relação com nossos pais, e que segue sendo alimentado também por novos estímulos, gerando por exemplo a consciência moral. Podemos comparar o Supereu a um pai que quer o melhor do seu filho, mas perde a mão, é impiedoso e gera um terrível sentimento de culpa, ele sempre lembra o Eu de sua anterior fraqueza e dependência. No fim das contas o Eu é um grande malabarista, tem que lidar com a realidade, as vontades pulsionais do Id, e com as exigências do Supereu. Pobre sede da angústia humana!
Sigmund Freud- Parabéns Ivan! Segunda, antes de encerrar, me permite uma pergunta clichê? (A Segunda Tópica consente com a cabeça) Segunda Tópica por Segunda Tópica?
Segunda Tópica- Inexoravelmente complexa! Continente! Pulsional! Friccional! Amalgamada!Lembrem-se sempre, se eu não fosse incrível Freud teria feito uma Terceira! Obrigada a todos e até o próximo podcast! Tchau Seguiróticos!
Nota do autor1- Seguirótico – Contração de seguidor com neurótico.
A Psicanálise na Era Digital: Desafios e PossibilidadesA Escola Paulista de Psicanálise (EPP) tem se dedicado a expandir o alcance do saber psicanalítico, e a Pós-Graduação em Psicanálise do Contemporâneo - EAD é um testemunho dessa missão. Em um cenário onde a demanda por flexibilidade e o acesso ao conhecimento se intensificam, a modalidade a distância emerge não apenas como uma alternativa, mas como uma potente ferramenta de democratização. Contudo, a questão que frequentemente se impõe é: como manter o rigor acadêmico e a profundidade teórica inerentes à psicanálise em um formato 100% online? Este questionamento, longe de ser um obstáculo, serve como um convite à reflexão e à inovação pedagógica, preparando o terreno para o nosso próximo Colóquio sobre o tema.
A psicanálise, desde suas origens, tem se debruçado sobre as complexidades do sujeito e sua relação com o mundo. Em um cenário social em constante mutação, a urgência de compreender as dinâmicas inconscientes que moldam nossas interações e nossa percepção da realidade se faz cada vez mais premente. É nesse contexto que as Reverberações da EPP propõem um mergulho na “Semana da Psicanálise EPP”, um convite à reflexão sobre como a psicanálise pode iluminar os desafios e as oportunidades que emergem do nosso convite social.
Em um cenário educacional que se reinventa constantemente, a Escola Paulista de Psicanálise (EPP) convida à reflexão sobre as possibilidades que a modalidade de ensino a distância (EAD) oferece para a formação em psicanálise. Longe de ser uma simplificação, a psicanálise EAD, quando cuidadosamente estruturada, revela-se um caminho promissor para conciliar a necessidade de flexibilidade da vida contemporânea com a profundidade teórica e a rigorosidade clínica que a psicanálise exige. Este formato permite que o acesso ao conhecimento psicanalítico se amplie, alcançando indivíduos que, de outra forma, teriam barreiras geográficas ou de tempo para se dedicar a um estudo tão enriquecedor.
Após Reverberações: Teoria Psicanalítica: por que estudar os clássicos? — Reflexões e Desdobramentos
A Perenidade do Inconsciente: O Legado dos ClássicosA questão sobre a relevância dos clássicos na psicanálise é um convite à introspecção e ao questionamento fundamental de nossa disciplina. Após as instigantes discussões no evento Reverberações, emerge a certeza de que a obra de mestres como Sigmund Freud não é um mero artefato histórico, mas uma bússola essencial para navegar pelas complexidades do psiquismo humano. Suas formulações sobre o inconsciente, a sexualidade infantil e os mecanismos de defesa continuam a oferecer um arcabouço teórico robusto, indispensável para qualquer um que deseje compreender as profundezas da mente e suas manifestações no contemporâneo.
Por Bruno Ueno -
Durante o infindável trajeto de volta para Ítaca, seu lugar no mundo, o que Ulisses e seus marujos mais angustiavam e temiam era o trecho onde sua embarcação passaria, necessariamente, entre a ilha de Circe e os rochedos de Caribdesi. A lenda dizia que ninguém dali voltava vivo. E o motivo dos naufrágios não eram nem as traiçoeiras correntes marítimas nem as assustadoras falésias rochosas que ali pendiam ameaçadoramente sobre os tripulantes. O que eles temiam eram as guardiãs daquele local, as sereias. Dizia-se que os seduzidos pelo seu belo canto pulavam ao mar como que hipnotizados, sendo devorados em seguida. Por sua vez, os poucos sobreviventes que conseguiam voltar para contar sua história simplesmente não conseguiam contar sua história. Não lembravam o que elas lhes tinham dito, muito menos por que tinham sido poupados.
Ao se aproximarem do estreito, o rei de Ítaca ordena a seus homens que vedassem bem seus ouvidos com cera de abelha derretida e que não parassem de remar nem por um segundo. Ele, no entanto, permaneceria de ouvidos livres, bem atentos ao que diriam aqueles seres mágicos. Deteriam elas todo o conhecimento sobre o homem? Revelariam a grande verdade? Para o herói, a sobrevivência não era suficiente, a ele cabia o papel de entender quais tentações as sereias impunham ao caráter humano. Mas como ainda era um homem, e não um deus, deu outra ordem aos marujos. Determinou que o amarrassem no mastro principal do navio, para evitar que fosse levado pelo próprio desejo.
Ao adentrarem a temida região, ecoou uma voz gélida, como se o vento marítimo a tivesse trazido de um futuro distante: “O HOMEM NÃO É MAIS SENHOR EM SUA PRÓPRIA CASA”. O silêncio que se seguiu foi breve, logo interrompido pelas figuras que surgiam - as belas, as encantadoras, as letais sereias. Ao vê-las, Ulisses se apaixona, avassaladoramente. Nunca havia visto criaturas tão esplêndidas e inexpugnáveis. Foi então que as vozes das sereias irromperam em coro uníssono e melodioso, que parecia habitar as profundezas de sua mente, um local alheio ao tempo, ao espaço, às contradições morais.
Mas o que diziam as vozes? Em meio à música, Ulisses conseguiu distinguir um discurso. Elas prometiam destinos de grandeza, projetando diante de seus olhos a miragem de um Ideal do Ego, onde Ulisses era um rei viril e presente, destemido em vida e impassível na morte. Por um instante, ele se sentiu revigorado pela notícia revelada. Ele trilhava o caminho correto; inflou-se de um senso de propósito, entregue à melodia. Aos poucos, entretanto, foi percebendo que aquelas vozes eram familiares, familiares demais... eram a voz de seu pai! Sim, era a voz do antigo rei Laertes. E Ulisses foi se dando conta que o que parecia ser a promessa de glórias futuras era em realidade uma recriminação ao seu passado. Como um Superego tirânico e arcaico, o que as vozes na verdade questionavam era se Ulisses estava à altura de ser aquele grande líder. Afinal, que homem era aquele que abandonava sua fiel esposa, Penélope, e seu filho, Telêmaco, à própria sorte por dez invernos? Que marido era aquele que, em meio ao seu dever, entregava-se aos prazeres, tornando-se amante da deusa Calipso? Aquelas vozes sádicas instigavam uma culpa avassaladora a respeito de sua negligência ao mesmo tempo que colocavam em dúvida sua capacidade, e seu Ego foi ferido.
Mesmo após ter vivido tantas provações e guerras, Ulisses nunca sentira um abalo tão grande. Finalmente compreendia por que tinham sucumbido todos aqueles que as ouviam. Um sentimento de culpa, de autodepreciação, emergiu das profundezas. Naquelas vozes, Ulisses já não reconhecia o pai; identificara-se nelas. Uma voz impessoal, a voz da verdade! Era efetivamente a pulsão de morte que o assolava no interior de seu psiquismo e o instigava a se entregar. Até então sua visão de mundo era mais próxima aos conflitos da primeira tópica, onde imaginava que os seres humanos são orientados para a satisfação, e que o único conflito que divide o homem seria entre a busca de prazer e as dificuldades da realidade. As sereias têm vagina? Mas agora, o conflito parecia ser anterior e mais profundo, tal como aquele oculto na segunda tópica. O que o conduzia a adentrar o ventre das sereias já não era a busca do prazer, era antes a pulsão de retorno a um estado localizado antes do nascimento. Sem reino, sem família, sem identidade: o nada. O estado inanimado era a verdadeira meta de qualquer organismo vivo. Ele queria saltar ao mar.
Num breve momento de lucidez, Ulisses agradeceu por ter se feito amarrar ao mastro. Porém, ao olhar seus próprios pulsos, percebeu que não havia corda alguma. Teria ele esquecido de dar a ordem? Percebeu, naquele momento, que estivera livre o tempo todo para, com seu punhal, defender-se. Por que então ele – o herói da Guerra de Troia - permanecia imóvel? Embora não compreendesse a própria autossabotagem, experimentava um prazer enigmático naquela imobilidade. Inconscientemente, revivia seus pecados, tomado pelo sentimento profundo de que merecia ser punido, essência do masoquismo moral. Não lembrava, mas repetia. De maneira estranha, encontrava satisfação no próprio dano, comprazendo-se libidinalmente naquela fantasia. Sucumbira a uma inércia melancólica, preferindo a “orgulhosa reivindicação do sofrimento” a qualquer tentativa de cura. E, paradoxalmente, quanto mais Ulisses prometia renunciar aos seus impulsos, mais sacrifícios o Superego lhe exigia. O castigo final surgia, então, como único alívio para a dívida acumulada perante todos os que dele dependiam.
Felizmente, com o incansável ritmo de remada dos marinheiros, que, fiéis a seu soberano, continuavam elaborando uma resposta a sua ordem, a embarcação começava a superar a região dos rochedos. O canto das sereias esmaeceu e, com ele, seu poder de coerção. Ulisses aos poucos começou a sentir seu Ego não como mera instância defensiva, mas como polo de observação. Já não era apenas um joguete das pulsões eróticas advindas do Id nem sofria passivamente a tirania do Superego. Sentiu-se, gradualmente, posicionado de maneira mais equidistante em relação às três instâncias psíquicas. A voz que o assolava, aquela voz impessoal, voltou a ter ecos da voz de seu pai e diminuiu de intensidade. E aquelas acusações, que pareciam até há pouco tempo serem a voz da verdade, agora revelavam-se julgamentos distorcidos que subestimavam as chances de vitória ao mesmo tempo que inflavam desproporcionalmente o castigo por qualquer falha. No horizonte, uma pequena ilha se delineava, e, progressivamente, alguma pulsão interna o direcionava para a vida... Tomado por uma grande vertigem, Ulisses desmaiou.
Quando voltou a si, não lembrava de nada. Seus homens o ajudaram a se recompor o mais rápido possível. Logo retomou sua identidade. Para que a epopeia seguisse seu curso, o homem cindido precisava retornar ao mito indivisível. Restaurou o papel de herói clássico, onde a divisão psíquica é um anacronismo impertinente. Voltou a ser o “senhor em sua própria casa”, um homem que, unificado, conquista e serve de exemplo aos outros. As vozes seriam silenciadas por algum tempo, alguns séculos, até que um médico austríaco lhes dedicasse a devida atenção e teorizasse sobre elas. Talvez fosse prudente não as calar, uma vez que elas revelavam muito sobre o ser humano. Mas não naquele momento. Em Ítaca, outros épicos desafios aguardavam Ulisses.
A Psicanálise no Cenário Digital: Um Novo Horizonte
Em um mundo em constante transformação, a busca por conhecimento e aprofundamento profissional encontra na modalidade a distância um caminho promissor. A psicanálise, com sua complexidade e riqueza teórica, também se adapta a essa realidade, oferecendo a flexibilidade necessária para que mais pessoas possam acessar seus fundamentos. Na EPP, compreendemos que a profundidade do estudo psicanalítico pode ser mantida e até mesmo enriquecida por meio de plataformas digitais, desde que haja um compromisso inabalável com a qualidade pedagógica e o rigor acadêmico.
Nossa Pós-Graduação em Psicanálise do Contemporâneo - EAD é um exemplo disso, desenhada para proporcionar um percurso completo, desde as descobertas de Freud até as contribuições de Melanie Klein, Winnicott e Bion. Este curso permite que estudantes e profissionais de diversas áreas mergulhem nos mecanismos do inconsciente e nas bases do funcionamento psíquico, sem as barreiras geográficas ou de tempo. A flexibilidade do EAD não significa menor engajamento, mas sim a possibilidade de integrar o estudo à rotina, potencializando a aprendizagem.
Metodologia e Qualidade no EAD da EPP
A EPP se dedica a garantir que a experiência de aprendizado em nossos cursos EAD seja tão rica quanto a presencial, com uma metodologia que prioriza a interação e o suporte contínuo. As aulas, cuidadosamente gravadas por psicanalistas experientes como Alexandre Esclapes, Pedro Castro e Marcos Capelli, oferecem conteúdo de alta qualidade, complementado por materiais exclusivos e exercícios de acompanhamento em cada módulo. Esse formato permite que o aluno avance em seu próprio ritmo, revisitando os temas sempre que necessário, consolidando o aprendizado de forma eficaz.
Além das aulas gravadas, o diferencial de nosso modelo inclui sessões de dúvidas ao vivo semanais, proporcionando um espaço vital para a troca e aprofundamento com os facilitadores. O grupo de WhatsApp para suporte também cria uma comunidade de aprendizado ativa, onde questões podem ser discutidas e insights compartilhados. Essa combinação de recursos assegura que o aluno não se sinta isolado, mas parte integrante de uma jornada de formação robusta e apoiada.
A Psicanálise Contemporânea e a Prática Clínica
Estudar psicanálise na modalidade EAD da EPP significa ter acesso a um currículo que abrange desde os pilares freudianos até as expansões pós-kleinianas e o pensamento contemporâneo de Bion, preparando o aluno para uma compreensão abrangente do psiquismo humano. Essa base teórica sólida é fundamental para quem busca não apenas o conhecimento, mas também a aplicação prática na clínica ou em outras áreas da saúde mental. A capacidade de articular conceitos complexos com a realidade do sujeito contemporâneo é um dos pilares de nossa formação.
Ao final do percurso, o certificado de Pós-Graduação reconhecido pelo MEC, em parceria com a FaCiencia, atesta a seriedade e a validade acadêmica do curso, abrindo portas para novas possibilidades profissionais e pessoais. A psicanálise, em sua essência, é um convite à reflexão e ao autoconhecimento, e a modalidade EAD da EPP torna essa jornada ainda mais acessível e adaptável às demandas da vida moderna. Convidamos você a explorar essa oportunidade de aprofundamento e transformação.
Em um mundo em constante transformação, a busca por conhecimento e desenvolvimento pessoal se adapta a novas modalidades, e a psicanálise não é exceção. A EPP – Escola Paulista de Psicanálise convida a todos para uma reflexão crucial em nosso próximo evento Reverberações, com o tema "Psicanálise EAD: flexibilidade e profundidade". Este encontro propõe desmistificar a ideia de que o ensino a distância compromete a riqueza teórica e a imersão necessárias para a compreensão dos complexos mecanismos do inconsciente, abrindo um diálogo sobre as possibilidades que a modalidade EAD oferece para a formação psicanalítica contemporânea.
A Psicanálise e o Zeitgeist: Um Convite à ReflexãoEm um cenário global de incessantes transformações, a Escola Paulista de Psicanálise (EPP) propõe um aquecimento intelectual para sua 'Semana da Psicanálise EPP', um evento que convida à imersão nas complexidades da mente humana e da cultura. Não se trata apenas de uma introdução, mas de uma provocação para que possamos, juntos, interrogar a ressonância da teoria psicanalítica diante dos desafios impostos pelo contemporâneo. A psicanálise, em sua essência, sempre se dedicou a desvelar o que subjaz às aparências, e hoje, mais do que nunca, essa capacidade de escuta profunda se mostra indispensável para decifrar as novas formas de subjetividade e sofrimento que emergem.