A existência, para nós, que a observamos sob o véu da psicanálise, é um incessante desdobrar de camadas, onde o corpo emerge não como mera estrutura biológica, mas como o próprio mapa da alma. Nas recentes Reverberações da Escola Paulista de Psicanálise (EPP), mergulhamos na complexidade do tema 'O corpo na psicanálise: de Freud a Winnicott', um percurso que nos convida a repensar a materialidade da nossa presença no mundo e seus ecos no psiquismo. O corpo, esse enigma palpável, é o palco onde se encenam as mais primárias e profundas experiências do ser, desde o grito inaugural até o silêncio final.
A Psicanálise e os Desafios da ContemporaneidadeA Psicanálise, desde seus primórdios com Freud, sempre se apresentou como um campo de investigação que exige dedicação e uma imersão profunda nas complexidades do psiquismo humano. Contudo, a contemporaneidade nos impõe ritmos e demandas que, por vezes, parecem incompatíveis com a profundidade que o estudo psicanalítico requer. A modalidade EAD, nesse contexto, emerge não como uma simplificação, mas como um desafio e uma oportunidade para repensarmos as formas de acesso e assimilação do saber, mantendo o rigor acadêmico e a seriedade clínica que a psicanálise demanda de seus praticantes e estudiosos.
A Voz dos Fundamentos: Por Que Retornar aos Clássicos?Na Escola Paulista de Psicanálise (EPP), compreendemos que a psicanálise é um campo de saber dinâmico, em constante evolução, mas que encontra suas raízes mais profundas nos pensamentos de seus fundadores. Estudar os clássicos não é um mero exercício de erudição histórica, mas uma imersão nas bases conceituais que continuam a moldar nossa compreensão do psiquismo humano e da prática clínica. Freud, com sua genialidade, nos legou os pilares da metapsicologia, enquanto Melanie Klein nos abriu os olhos para a riqueza do mundo interno precoce, e Winnicott nos ensinou sobre a importância do ambiente facilitador e da espontaneidade. A revisitação desses autores é um convite à reflexão crítica, permitindo-nos discernir a origem de muitos conceitos que hoje utilizamos de forma quase intuitiva.
A Jornada Interior do PsicanalistaA formação em psicanálise transcende a mera aquisição de conhecimento teórico, configurando-se como uma jornada de profunda transformação pessoal. Na Escola Paulista de Psicanálise (EPP), compreendemos que o tripé psicanalítico — teoria, supervisão e análise pessoal — não é apenas uma estrutura acadêmica, mas um caminho intrínseco para a capacitação ética e clínica do futuro analista. A análise pessoal, em particular, emerge como o alicerce fundamental, o espaço onde o indivíduo é convidado a mergulhar em seu próprio inconsciente, desvendando as complexas tramas que moldam sua subjetividade.
Por Rafael Abud Menezes -
A técnica psicanalítica proposta por Freud foi desenvolvida aos poucos, não de uma vez. Ao longo dos anos, com o passar das sessões, ele foi tendo impressões e as armazenando em textos, que foram publicados. Assim, também aos poucos, ele foi usando termos no contexto psicanalítico e os aprofundando posteriormente. Exemplos desses termos são repressão, transferência e inconsciente, pilares da técnica psicanalítica e que serão descritos ao longo deste texto.
A teoria freudiana se baseava no fato de algumas experiências irem do consciente para o inconsciente por conta do excesso de quantum de excitação. Ele chamou esse processo de repressão. Apesar de o conteúdo reprimido pertencer ao inconsciente, ele não o compõe na sua totalidade. Esse engano pode muitas vezes acontecer porque nós conhecemos o inconsciente apenas quando ele se torna consciente. Pode-se dizer que o inconsciente é conhecido por nós por meio dos espaços que os dados conscientes nos são apresentados. Seguindo esse raciocínio, o analista pode perceber o que o paciente quer dizer por meio do que ele diz, não diz ou de atos ocasionais apresentados durante as sessões. Por isso é tão importante que o paciente diga tudo o que vier à mente, com sinceridade absoluta. Essas formas não diretas são usadas para acesso ao conteúdo recalcado pois o paciente não pode acessá-los conscientemente, sendo esse o motivo de eles terem sido recalcados, ou seja, enviados ao inconsciente. Dessa forma, resgatar o conteúdo recalcado pode ser definido como o objetivo do tratamento psicanalítico, sendo que, durante o processo de lembrança, o acesso ao inconsciente é feito por meio dos sonhos, dos chistes, atos falhos, sintomas e da transferência. Outra forma de enxergar isso, segundo Freud, é definir que os processos inconscientes se tornam cognoscíveis para nós apenas nas condições do sonho e das neuroses.
A essência do processo de repressão é impedir que o conteúdo se torne consciente, armazenando-o no inconsciente. Esse movimento é feito com a ajuda do contra investimento, processo que fica no pré-consciente e sustenta a repressão e cuida da sua produção e continuidade. O conteúdo reprimido é composto essencialmente de ideia e fator quantitativo. Freud define que a ideia ligada ao conteúdo reprimido fica fora da consciência. O que ele chama de fator quantitativo, durante a repressão, pode ser suprimido, virar afeto ou ser transformado em angústia. A forma como o fator quantitativo e as representações são direcionadas definem a neurose da qual o paciente sofre. Existe, neste ponto, um balanço entre o contra investimento e a descarga de quantum de energia que é importante para a definição entre histeria de conversão, histeria de angústia e neurose obsessiva. Quando falamos aqui de consciente, pré-consciente e inconsciente, vale ressaltar que não estamos falando de sistemas do ponto de vista de localidade, e sim de funcionamento.
Durante a tentativa de lembrança dos conteúdos recalcados, o que também pode ser definido como o resgate do Eu, pode surgir um fenômeno chamado por Freud de transferência. A transferência pode ser definida como um processo de resgate de sentimentos infantis atualizados para o objeto do analista. Freud definiu que a transferência ocorre por conta de predisposições inatas e influência durante a infância, sendo que o consciente e o inconsciente têm participação positiva nela. Dessa forma, o Investimento libidinal se volta para o médico e se torna a mais forte resistência, podendo assim ser um obstáculo. Assim, o analista passa a ter um papel fundamental para a continuidade do processo, que é tornar a libido novamente acessível à consciência, colocá-la a serviço da realidade. A partir desse momento, passa a existir uma diferença de papeis importante entre médico e paciente, com o médico privilegiando o intelecto e o reconhecer, enquanto o paciente tem como força a vida pulsional e o querer agir. Se o médico comunica prematuramente que está ocorrendo a transferência, pode anular a eficácia terapêutica. Vale ainda ressaltar que pode haver transferência positiva, com sentimentos carinhosos e transferência negativa, sentimentos hostis.
O resgate do conteúdo recalcado se dá pelo processo de recordação, repetição e elaboração. O recordar é se pôr numa situação anterior. A partir daí, há uma compulsão em repetir, sendo que quanto mais a resistência, mais o recordar será substituído pela atuar (repetir). Assim, o analisando repete em vez de lembrar. Durante o processo, é comum o paciente pensar coisas como” Eu sempre soube, mas não pensava nisso”. A transferência, processo descrito neste texto, é parcela da repetição. Ela substitui o impulso à repetição, não apenas pela relação pessoal com o médico, mas por todos os demais recalcamentos e atitudes contemporâneas. Posteriormente, a superação das resistências tem início quando o médico desvela a resistência jamais reconhecida pelo paciente e a comunica. Depois disso, é preciso dar tempo ao paciente para que ele possa lidar com a resistência agora conhecida. Freud escreveu algumas recomendações àqueles que fossem tratar pessoas usando o método psicanalítico. Segundo ele, conhecimento prévio do paciente e paciente na dianteira são desvantagens, assim como a desconfiança do paciente em relação ao analista pode ser vista como um sintoma. Ainda sobre o paciente, é intuitivo achar que aquele com capacidade de psicanalisar seja um bom paciente. Freud desmentiu essa afirmação. Uma preocupação do paciente que ele trouxe para discussão foi sobre o tempo usado para tratamento. Ainda hoje, o tratamento psicanalítico é conhecido por ser demorado e é impossível definir um tempo de tratamento, já que o processo de recordar, repetir e elaborar também definido por ele, requer tempo. Ainda segundo Freud, não tem como conhecer o tamanho do passo do paciente sem andar junto com ele. Então, antes de caminhar junto com ele, ou seja, de o tratamento começar, não dá para definir o tempo de tratamento. Sobre o dinheiro, Freud pensava que o atendimento sem cobrança pode criar um tipo de resistência e que o tratamento sempre deve ser cobrado. Pensando na forma como os assuntos devem ser conduzidos, não existe fio condutor, devendo o paciente dizer tudo o que vier à mente, com sinceridade absoluta. Além disso, Freud sugeria atenção em relação ao que o paciente comunica nas sessões e durante um momento que ele chamava de parte simpática, que eram os momentos antes e depois das sessões. Ele sugeria que a parte simpática não se estendesse por muito tempo.
A jornada para se tornar um psicanalista é uma travessia que exige mais do que apenas o domínio teórico; ela demanda uma profunda imersão no próprio psiquismo, um processo que Freud, com sua sabedoria visionária, consolidou como a análise pessoal. Este pilar fundamental do tripé psicanalítico – teoria, supervisão e análise pessoal – não é um mero requisito burocrático, mas a própria essência da formação, o cadinho onde a sensibilidade clínica e a ética profissional são forjadas. Na EPP, compreendemos que é através dessa experiência íntima que o futuro analista desenvolve a capacidade de escuta e a continência necessárias para o complexo trabalho com o inconsciente alheio.
Por Paula A. Rebellato -Para Freud a sexualidade não é apenas o ato reprodutivo entre adultos, mas uma força potente e complexa presente desde o nascimento. Neste sentido, a infância seria o nascedouro das pulsões sexuais no ser humano. Ao separar o conceito de “sexual” e “genital”, Freud amplia a ideia de busca pelo prazer para as diversas zonas erógenas do corpo, assim como também para as suas funções biológicas. Por exemplo, o ato da criança chupar no seio da mãe, para além de necessidade e nutrição, é também uma manifestação de natureza sexual. Ela poderá buscar a mesma sensação de prazer através do autoerotismo, ou seja, encontrará uma zona erógena eficiente em seu corpo (sucção da pele com a boca, por exemplo), para repetir a sensação de prazer já vivida anteriormente, sem a necessidade do objeto externo (o seio). A criança “perversa polimorfa” é um conceito que descreve a multiplicidade das formas (significado do polimorfa) pelas quais a criança pode encontrar o prazer, desviando-se da norma (perversa por fugir a norma e não em um sentido pejorativo) que limita a sexualidade como função apenas reprodutiva.Freud organizou o desenvolvimento psicossexual em fases: oral, anal, fálica, latência e genital. A fase fálica é marcada pelo descobrimento das diferenças sexuais e é neste período que se situa o Complexo de Édipo. As experiências e desejos sexuais desta fase são especialmente intensas e angustiantes e, portanto, são empurradas para o inconsciente. É este recalque que inaugura a entrada para a fase de latência - momento onde as pulsões sexuais são “adormecidas” e as energias redirecionadas (sublimação) para as exigências do mundo exterior e também onde são criadas as futuras barreiras (formação reativa) sexuais, ou seja, é o momento onde sentimentos como vergonha e/ou nojo surgem como defesas e a moralidade e a ética começam a ser absorvidos pela criança. O que é recalcado são as representações ligadas às pulsões sexuais infantis que entram em conflito com esta moralidade em formação.
Nos estudos sobre a Histeria, Freud explica o recalque como uma defesa contra uma lembrança de um evento traumático real, geralmente ligado a um abuso sexual, sedução, etc. Já nos Três Ensaios sobre a Sexualidade, ele opera uma virada teórica fundamental: desloca a origem do trauma do campo factual para o campo da fantasia. O conteúdo reprimido expande para além de um abuso sofrido e engloba também as manifestações da sexualidade infantil, pulsões, desejos incestuosos.
A jornada para se tornar um psicanalista é um caminho intrincado de descobertas, tanto teóricas quanto pessoais, alicerçado no tripé fundamental proposto por Freud: o estudo da teoria, a supervisão clínica e, inegavelmente, a análise pessoal. Este último pilar, muitas vezes percebido como um requisito formal, revela-se na prática como a essência da formação, o laboratório onde o futuro analista lapida sua principal ferramenta de trabalho: sua própria subjetividade. É nesse espaço de acolhimento e escuta profunda que as dinâmicas inconscientes do indivíduo vêm à tona, permitindo uma elaboração que transcende o meramente intelectual.
Após a ressonância das "Reverberações", onde as ideias se entrelaçaram e os questionamentos se aprofundaram, somos novamente convidados a um exercício de discernimento. A busca pelo conhecimento psicanalítico, em sua essência, é uma jornada de escolhas, de caminhos que se bifurcam e demandam uma reflexão acurada sobre o próprio desejo e o destino profissional almejado. A EPP, atenta a essa complexidade, propõe um workshop que se debruça sobre uma encruzilhada contemporânea: a distinção entre a Formação em Psicanálise e a Pós-Graduação EAD.
A Perenidade dos FundamentosEm um cenário de efervescência teórica e pressões por respostas imediatas, a pergunta sobre a relevância dos clássicos psicanalíticos não é retórica, mas um convite à profunda reflexão. Não se trata de um apego nostálgico a um passado idealizado, mas da compreensão de que os alicerces conceituais forjados por Freud, Klein, Winnicott e os pós-kleinianos constituem a bússola indispensável para a navegação nas complexas águas do psiquismo humano. A solidez de uma formação psicanalítica reside na capacidade de dialogar criticamente com esses textos fundadores, extraindo deles a vitalidade para decifrar as novas configurações do sofrimento e das relações contemporâneas. É na densidade da teoria que encontramos a base para a inovação clínica.
A existência, como um rio caudaloso, nunca é a mesma. Nossas almas, complexas e multifacetadas, refletem as correntes do tempo, e os sintomas que as habitam transformam-se, como nuvens no céu de um dia de verão. A recente edição de nossas Reverberações, focada na Psicanálise e Contemporaneidade e nos seus novos sintomas, foi um convite a contemplar essa metamorfose. Não se trata apenas de novas patologias, mas de novas formas pelas quais o antigo sofrimento se manifesta, exigindo de nós, psicanalistas e pensadores, uma escuta renovada e um olhar que transcenda o óbvio.
A psicanálise, desde suas origens, tem se debruçado sobre a complexidade da experiência humana, e o corpo emerge como um campo de significados e manifestações psíquicas de profunda relevância. Freud, ao desvendar a histeria e a linguagem dos sintomas corporais, inaugurou uma nova forma de compreender como o inconsciente se expressa através do físico, mostrando que o corpo não é apenas biológico, mas também um palco onde dramas psíquicos são encenados. Suas formulações sobre as pulsões e as zonas erógenas também sublinham a centralidade do corpo na constituição do sujeito e na dinâmica do desejo, convidando-nos a uma escuta atenta às suas múltiplas vozes.