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A técnica freudiana e seus alicerces

A técnica freudiana e seus alicerces

Por Rafael Abud Menezes -

A técnica psicanalítica proposta por Freud foi desenvolvida aos poucos, não de uma vez. Ao longo dos anos, com o passar das sessões, ele foi tendo impressões e as armazenando em textos, que foram publicados. Assim, também aos poucos, ele foi usando termos no contexto psicanalítico e os aprofundando posteriormente. Exemplos desses termos são repressão, transferência e inconsciente, pilares da técnica psicanalítica e que serão descritos ao longo deste texto.

A teoria freudiana se baseava no fato de algumas experiências irem do consciente para o inconsciente por conta do excesso de quantum de excitação. Ele chamou esse processo de repressão. Apesar de o conteúdo reprimido pertencer ao inconsciente, ele não o compõe na sua totalidade. Esse engano pode muitas vezes acontecer porque nós conhecemos o inconsciente apenas quando ele se torna consciente. Pode-se dizer que o inconsciente é conhecido por nós por meio dos espaços que os dados conscientes nos são apresentados. Seguindo esse raciocínio, o analista pode perceber o que o paciente quer dizer por meio do que ele diz, não diz ou de atos ocasionais apresentados durante as sessões. Por isso é tão importante que o paciente diga tudo o que vier à mente, com sinceridade absoluta. Essas formas não diretas são usadas para acesso ao conteúdo recalcado pois o paciente não pode acessá-los conscientemente, sendo esse o motivo de eles terem sido recalcados, ou seja, enviados ao inconsciente. Dessa forma, resgatar o conteúdo recalcado pode ser definido como o objetivo do tratamento psicanalítico, sendo que, durante o processo de lembrança, o acesso ao inconsciente é feito por meio dos sonhos, dos chistes, atos falhos, sintomas e da transferência. Outra forma de enxergar isso, segundo Freud, é definir que os processos inconscientes se tornam cognoscíveis para nós apenas nas condições do sonho e das neuroses.

A essência do processo de repressão é impedir que o conteúdo se torne consciente, armazenando-o no inconsciente. Esse movimento é feito com a ajuda do contra investimento, processo que fica no pré-consciente e sustenta a repressão e cuida da sua produção e continuidade. O conteúdo reprimido é composto essencialmente de ideia e fator quantitativo. Freud define que a ideia ligada ao conteúdo reprimido fica fora da consciência. O que ele chama de fator quantitativo, durante a repressão, pode ser suprimido, virar afeto ou ser transformado em angústia. A forma como o fator quantitativo e as representações são direcionadas definem a neurose da qual o paciente sofre. Existe, neste ponto, um balanço entre o contra investimento e a descarga de quantum de energia que é importante para a definição entre histeria de conversão, histeria de angústia e neurose obsessiva. Quando falamos aqui de consciente, pré-consciente e inconsciente, vale ressaltar que não estamos falando de sistemas do ponto de vista de localidade, e sim de funcionamento.

Durante a tentativa de lembrança dos conteúdos recalcados, o que também pode ser definido como o resgate do Eu, pode surgir um fenômeno chamado por Freud de transferência. A transferência pode ser definida como um processo de resgate de sentimentos infantis atualizados para o objeto do analista. Freud definiu que a transferência ocorre por conta de predisposições inatas e influência durante a infância, sendo que o consciente e o inconsciente têm participação positiva nela. Dessa forma, o Investimento libidinal se volta para o médico e se torna a mais forte resistência, podendo assim ser um obstáculo. Assim, o analista passa a ter um papel fundamental para a continuidade do processo, que é tornar a libido novamente acessível à consciência, colocá-la a serviço da realidade. A partir desse momento, passa a existir uma diferença de papeis importante entre médico e paciente, com o médico privilegiando o intelecto e o reconhecer, enquanto o paciente tem como força a vida pulsional e o querer agir. Se o médico comunica prematuramente que está ocorrendo a transferência, pode anular a eficácia terapêutica. Vale ainda ressaltar que pode haver transferência positiva, com sentimentos carinhosos e transferência negativa, sentimentos hostis.

O resgate do conteúdo recalcado se dá pelo processo de recordação, repetição e elaboração. O recordar é se pôr numa situação anterior. A partir daí, há uma compulsão em repetir, sendo que quanto mais a resistência, mais o recordar será substituído pela atuar (repetir). Assim, o analisando repete em vez de lembrar. Durante o processo, é comum o paciente pensar coisas como” Eu sempre soube, mas não pensava nisso”. A transferência, processo descrito neste texto, é parcela da repetição. Ela substitui o impulso à repetição, não apenas pela relação pessoal com o médico, mas por todos os demais recalcamentos e atitudes contemporâneas. Posteriormente, a superação das resistências tem início quando o médico desvela a resistência jamais reconhecida pelo paciente e a comunica. Depois disso, é preciso dar tempo ao paciente para que ele possa lidar com a resistência agora conhecida.

Freud escreveu algumas recomendações àqueles que fossem tratar pessoas usando o método psicanalítico. Segundo ele, conhecimento prévio do paciente e paciente na dianteira são desvantagens, assim como a desconfiança do paciente em relação ao analista pode ser vista como um sintoma. Ainda sobre o paciente, é intuitivo achar que aquele com capacidade de psicanalisar seja um bom paciente. Freud desmentiu essa afirmação. Uma preocupação do paciente que ele trouxe para discussão foi sobre o tempo usado para tratamento. Ainda hoje, o tratamento psicanalítico é conhecido por ser demorado e é impossível definir um tempo de tratamento, já que o processo de recordar, repetir e elaborar também definido por ele, requer tempo. Ainda segundo Freud, não tem como conhecer o tamanho do passo do paciente sem andar junto com ele. Então, antes de caminhar junto com ele, ou seja, de o tratamento começar, não dá para definir o tempo de tratamento. Sobre o dinheiro, Freud pensava que o atendimento sem cobrança pode criar um tipo de resistência e que o tratamento sempre deve ser cobrado. Pensando na forma como os assuntos devem ser conduzidos, não existe fio condutor, devendo o paciente dizer tudo o que vier à mente, com sinceridade absoluta. Além disso, Freud sugeria atenção em relação ao que o paciente comunica nas sessões e durante um momento que ele chamava de parte simpática, que eram os momentos antes e depois das sessões. Ele sugeria que a parte simpática não se estendesse por muito tempo.