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Nem Sísifo, nem Prometeu, apenas Seres no Jardim das Delícias

Nem Sísifo, nem Prometeu, apenas Seres no Jardim das Delícias

Por Lúcia Nogueira Leiria -

No lado avesso do avesso do problema econômico do masoquismo, por detrás de mulheres submissas e homens castrados, há uma espécie de caleidoscópio que, dependendo do ângulo de que se olha, reflete não padrões simétricos, mas estruturas complexas em constante mudança – andrógenos, assexuados, hermafroditas, fálicos, eunucos, queers. Nesse emaranhado de luzes, também podem ser avistados, por entre espelhos e fragmentos de vidros coloridos, os contornos de Sísifo e Prometeu apontando os caminhos para as mulheres contemporâneas. 

Freud teorizou sobre o masoquismo a partir de um corpus masculino, associando esse conceito ao princípio do prazer e ao princípio de realidade, propondo que o sujeito masoquista faz do sofrimento uma fonte de prazer. Trata-se, segundo ele, de um comportamento tipicamente feminino, já que estas características femininas – subjugação, humilhação, submissão, priorização do outro etc. – tornam as mulheres mais vulneráveis e mais propensas à busca do prazer no sofrimento. Além disso, a natureza castrada deixa-as menores diante do masculino, intensificando esse modo sofredor de movimentar-se no mundo. Vale lembrar que Freud viveu e elaborou sua teoria na virada do século XIX para o XX, época que, embora não possa ser comparada com a contemporaneidade, foi o tempo e o palco dos costumes que deram origem à psicanálise, saber que abriu espaço para que hoje nós – homens e mulheres – possamos pensar sobre os desafios e as alegrias da arte do viver. 

Naquela Áustria austera, dos vestidos longos e dos camisolões brancos usados para dormir com os maridos, o normal era as mulheres caminharem lado a lado com Sísifo. Condenadas a rolar suas vidas à sombra dos homens, iam empurrando cotidianamente seus desejos sufocados, as tarefas domésticas, a vida do lar, o cuidado do outro, de forma invisível e sem reconhecimento. Quando enxergadas, ou era para abrigar os traços da histeria, ou para facilitar a compreensão de um comportamento estudado a partir de um corpus masculino: o masoquismo. Porém, à lição do mestre que encontra sentido na repetição, elas também foram ressignificando seus papéis, desafiando regras e posições e rompendo limites. 

Daí surge uma mulher que ousa roubar o fogo dos seus guardiões para queimar sutiãs, incendiar seus desejos e manter acesa a chama do prazer, a mulher-Prometeu, irreverente que só. Por desejo ou necessidade, deixou crescer o falo, lutou por acesso à educação, à ciência e à cultura e foi encontrar os homens no sexo, no mundo do trabalho, na academia, na política, na literatura. Esse ato de coragem, entretanto, não é isento de castigo; essa mulher enfrenta resistência, críticas e punição social semelhantes às impostas ao gigante mitológico ao roubar o fogo dos deuses para a evolução dos humanos.

Ao ser libertada por Hércules, com o fígado regenerado e as brasas ainda ardentes, essa mulher, certamente desafiada pelo pensamento freudiano, acende os pontos de luz de sua rede neural e põe-se a pensar sobre onde, de fato, reside o masoquismo. À luz das teorias feministas, defende que o masoquismo feminino é, na verdade, resultado de construções sociais e culturais que reforçam papéis de gênero opressores. O debate, então, posiciona suas lentes para identificar como a sociedade molda os comportamentos masculinos, femininos, gays, lésbicos e tais, em vez de apenas atribuir características essenciais a um gênero ou outro.

De volta ao caleidoscópio maluco que nada tem de simetria, na difícil tentativa de configurar as estruturas complexas em constante mudança, na impossibilidade de engessar o tempo e os costumes, e na consideração da importância do social para a formação de nossa personalidade, vale aceitar nossas veredas internas, retas ou tortuosas, repletas de encruzilhadas, e depararmo-nos com nós mesmos, mulheres fálicas e/ou masoquistas, homens masoquistas e/ou fálicos. Todos com direito a uma vida livre de padronizações e formatos, lindamente representados e eternizados nas figuras do Jardim das Delícias, de Bosch.