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A coragem de perder a terceira perna

A coragem de perder a terceira perna

Por Pedro Castro - 

Há momentos na vida em que algo se rompe. Não é uma simples mudança, nem uma perda comum. É como se uma parte de nós, que até então nos mantinha firmes, de repente deixasse de existir. Clarice Lispector, no seu livro A Paixão Segundo GH, chama isso de “perder a terceira perna”. Uma perna que não era necessária para andar, mas que fazia dela um tripé estável. Sem ela, restam apenas duas pernas – e a liberdade de caminhar, finalmente, com o próprio corpo. Mas também resta o medo.

Quem nunca sentiu que desabou uma estrutura que levou uma vida para construir? Pode ser o fim de um relacionamento, a perda de um emprego, uma crise de sentido, ou simplesmente aquela sensação estranha de que o jeito como sempre nos organizamos já não funciona mais. O chão some. E o que vem depois é uma espécie de desorganização profunda, como Clarice descreve: “não confio no que me aconteceu”. A mente se vê diante de um vazio que assusta, porque não há mapa, não há garantias.

Na psicanálise, chamamos isso de encontro com o caos. Não o caos destrutivo, mas aquele estado amorfo onde tudo é possível e nada está definido. É o momento em que o conhecido se desfaz e o novo ainda não nasceu. E é justamente aí que mora o maior desafio: suportar não saber. Suportar a suspensão. Como diz Clarice, “tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo”. Esse medo é humano, e talvez seja o preço da liberdade.

A “terceira perna” simboliza tudo o que usamos para nos sentir seguros: as certezas, os papéis que representamos, as respostas prontas, as verdades que repetimos sem questionar. Ela nos dava equilíbrio, mas também nos impedia de experimentar outros modos de ser. Quando ela cai, ficamos à mercê do acaso – esse “sagrado risco” que Clarice nomeia com coragem. O acaso é o imprevisível, o que não controlamos. E viver é, em grande parte, aprender a dançar com ele.

O que fazer com o que vivemos quando não sabemos ainda o que aquilo significa? Clarice tenta dar forma ao nada, mas resiste à tentação de “inventar uma forma” apressada. Há uma sabedoria aí: a pressa de dar um sentido rápido pode ser uma nova “terceira perna”, uma muleta que nos impede de realmente integrar a experiência. A verdadeira transformação exige um tempo de latência, um tempo de não saber. É como se a mente precisasse gestar um novo significado, em silêncio, antes de poder nomeá-lo.

No consultório de psicanálise, esse processo é acolhido. O analista não oferece respostas prontas, nem tenta tapar o vazio com explicações. Ele oferece presença – uma mão invisível, como a que Clarice pede: “Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria”. Essa mão não é a muleta, mas um apoio provisório para que a pessoa possa suportar o desamparo e, aos poucos, aprender a caminhar sozinha. Aos poucos, a desorganização vira organização nova, mais autêntica, mais próxima de quem realmente se é.

Clarice escreve: “Sei que vi – porque não entendo”. Há um saber que não passa pelo intelecto, mas pelo corpo, pela intuição, pela emoção. É o saber do vivido, que ainda não virou palavra, mas que já nos transformou. A psicanálise é uma aposta nesse saber silencioso. Ela nos ajuda a ter coragem de “ir sendo si mesmo”, como diria Bion, sem a necessidade de uma identidade fixa, sem a rigidez da terceira perna.

Ao final do fragmento, Clarice fala de um amor neutro, cego, como o de uma célula-ovo. Talvez seja o amor pela própria vida, em sua nudez, sem adornos. Um amor que não precisa de sentido para existir. E é isso que a psicanálise, em sua essência, busca restaurar: a capacidade de estar vivo, de sonhar, de criar, mesmo diante do desconhecido. Mesmo sem a terceira perna.

Que possamos, como ela, ter a coragem de nos perder. Porque só assim, talvez, a gente se ache de verdade.