Por Bruno Ueno -
Durante o infindável trajeto de volta para Ítaca, seu lugar no mundo, o que Ulisses e seus marujos mais angustiavam e temiam era o trecho onde sua embarcação passaria, necessariamente, entre a ilha de Circe e os rochedos de Caribdesi. A lenda dizia que ninguém dali voltava vivo. E o motivo dos naufrágios não eram nem as traiçoeiras correntes marítimas nem as assustadoras falésias rochosas que ali pendiam ameaçadoramente sobre os tripulantes. O que eles temiam eram as guardiãs daquele local, as sereias. Dizia-se que os seduzidos pelo seu belo canto pulavam ao mar como que hipnotizados, sendo devorados em seguida. Por sua vez, os poucos sobreviventes que conseguiam voltar para contar sua história simplesmente não conseguiam contar sua história. Não lembravam o que elas lhes tinham dito, muito menos por que tinham sido poupados.
Ao se aproximarem do estreito, o rei de Ítaca ordena a seus homens que vedassem bem seus ouvidos com cera de abelha derretida e que não parassem de remar nem por um segundo. Ele, no entanto, permaneceria de ouvidos livres, bem atentos ao que diriam aqueles seres mágicos. Deteriam elas todo o conhecimento sobre o homem? Revelariam a grande verdade? Para o herói, a sobrevivência não era suficiente, a ele cabia o papel de entender quais tentações as sereias impunham ao caráter humano. Mas como ainda era um homem, e não um deus, deu outra ordem aos marujos. Determinou que o amarrassem no mastro principal do navio, para evitar que fosse levado pelo próprio desejo.
Ao adentrarem a temida região, ecoou uma voz gélida, como se o vento marítimo a tivesse trazido de um futuro distante: “O HOMEM NÃO É MAIS SENHOR EM SUA PRÓPRIA CASA”. O silêncio que se seguiu foi breve, logo interrompido pelas figuras que surgiam - as belas, as encantadoras, as letais sereias. Ao vê-las, Ulisses se apaixona, avassaladoramente. Nunca havia visto criaturas tão esplêndidas e inexpugnáveis. Foi então que as vozes das sereias irromperam em coro uníssono e melodioso, que parecia habitar as profundezas de sua mente, um local alheio ao tempo, ao espaço, às contradições morais.
Mas o que diziam as vozes? Em meio à música, Ulisses conseguiu distinguir um discurso. Elas prometiam destinos de grandeza, projetando diante de seus olhos a miragem de um Ideal do Ego, onde Ulisses era um rei viril e presente, destemido em vida e impassível na morte. Por um instante, ele se sentiu revigorado pela notícia revelada. Ele trilhava o caminho correto; inflou-se de um senso de propósito, entregue à melodia. Aos poucos, entretanto, foi percebendo que aquelas vozes eram familiares, familiares demais... eram a voz de seu pai! Sim, era a voz do antigo rei Laertes. E Ulisses foi se dando conta que o que parecia ser a promessa de glórias futuras era em realidade uma recriminação ao seu passado. Como um Superego tirânico e arcaico, o que as vozes na verdade questionavam era se Ulisses estava à altura de ser aquele grande líder. Afinal, que homem era aquele que abandonava sua fiel esposa, Penélope, e seu filho, Telêmaco, à própria sorte por dez invernos? Que marido era aquele que, em meio ao seu dever, entregava-se aos prazeres, tornando-se amante da deusa Calipso? Aquelas vozes sádicas instigavam uma culpa avassaladora a respeito de sua negligência ao mesmo tempo que colocavam em dúvida sua capacidade, e seu Ego foi ferido.
Mesmo após ter vivido tantas provações e guerras, Ulisses nunca sentira um abalo tão grande. Finalmente compreendia por que tinham sucumbido todos aqueles que as ouviam. Um sentimento de culpa, de autodepreciação, emergiu das profundezas. Naquelas vozes, Ulisses já não reconhecia o pai; identificara-se nelas. Uma voz impessoal, a voz da verdade! Era efetivamente a pulsão de morte que o assolava no interior de seu psiquismo e o instigava a se entregar. Até então sua visão de mundo era mais próxima aos conflitos da primeira tópica, onde imaginava que os seres humanos são orientados para a satisfação, e que o único conflito que divide o homem seria entre a busca de prazer e as dificuldades da realidade. As sereias têm vagina? Mas agora, o conflito parecia ser anterior e mais profundo, tal como aquele oculto na segunda tópica. O que o conduzia a adentrar o ventre das sereias já não era a busca do prazer, era antes a pulsão de retorno a um estado localizado antes do nascimento. Sem reino, sem família, sem identidade: o nada. O estado inanimado era a verdadeira meta de qualquer organismo vivo. Ele queria saltar ao mar.
Num breve momento de lucidez, Ulisses agradeceu por ter se feito amarrar ao mastro. Porém, ao olhar seus próprios pulsos, percebeu que não havia corda alguma. Teria ele esquecido de dar a ordem? Percebeu, naquele momento, que estivera livre o tempo todo para, com seu punhal, defender-se. Por que então ele – o herói da Guerra de Troia - permanecia imóvel? Embora não compreendesse a própria autossabotagem, experimentava um prazer enigmático naquela imobilidade. Inconscientemente, revivia seus pecados, tomado pelo sentimento profundo de que merecia ser punido, essência do masoquismo moral. Não lembrava, mas repetia. De maneira estranha, encontrava satisfação no próprio dano, comprazendo-se libidinalmente naquela fantasia. Sucumbira a uma inércia melancólica, preferindo a “orgulhosa reivindicação do sofrimento” a qualquer tentativa de cura. E, paradoxalmente, quanto mais Ulisses prometia renunciar aos seus impulsos, mais sacrifícios o Superego lhe exigia. O castigo final surgia, então, como único alívio para a dívida acumulada perante todos os que dele dependiam.
Felizmente, com o incansável ritmo de remada dos marinheiros, que, fiéis a seu soberano, continuavam elaborando uma resposta a sua ordem, a embarcação começava a superar a região dos rochedos. O canto das sereias esmaeceu e, com ele, seu poder de coerção. Ulisses aos poucos começou a sentir seu Ego não como mera instância defensiva, mas como polo de observação. Já não era apenas um joguete das pulsões eróticas advindas do Id nem sofria passivamente a tirania do Superego. Sentiu-se, gradualmente, posicionado de maneira mais equidistante em relação às três instâncias psíquicas. A voz que o assolava, aquela voz impessoal, voltou a ter ecos da voz de seu pai e diminuiu de intensidade. E aquelas acusações, que pareciam até há pouco tempo serem a voz da verdade, agora revelavam-se julgamentos distorcidos que subestimavam as chances de vitória ao mesmo tempo que inflavam desproporcionalmente o castigo por qualquer falha. No horizonte, uma pequena ilha se delineava, e, progressivamente, alguma pulsão interna o direcionava para a vida... Tomado por uma grande vertigem, Ulisses desmaiou.
Quando voltou a si, não lembrava de nada. Seus homens o ajudaram a se recompor o mais rápido possível. Logo retomou sua identidade. Para que a epopeia seguisse seu curso, o homem cindido precisava retornar ao mito indivisível. Restaurou o papel de herói clássico, onde a divisão psíquica é um anacronismo impertinente. Voltou a ser o “senhor em sua própria casa”, um homem que, unificado, conquista e serve de exemplo aos outros. As vozes seriam silenciadas por algum tempo, alguns séculos, até que um médico austríaco lhes dedicasse a devida atenção e teorizasse sobre elas. Talvez fosse prudente não as calar, uma vez que elas revelavam muito sobre o ser humano. Mas não naquele momento. Em Ítaca, outros épicos desafios aguardavam Ulisses.
