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Coloquio%20-%20Nada%20de%20novo%20no%20Front Blog Masonry - Results from #36

Colóquio: Nada de novo no Front com o psicanalista Ale Esclapes - 03/06/2023

Coordenador: Ale Esclapes Psicanalista, diretor da EPP-Escola Paulista de Psicanálise, e membro efetivo do Instituto Ékatus. Data/horário: 03/06/2023 (sábado) 09:00hs  Investimento: Evento online, gratuito e realizado por videoconferência. Necessária a inscrição prévia, número de vagas limitadas.  Organização: Grupo Ateliê de Ideias - Maria Foster, Fernanda Hisaba, Juliana Rocha, Sueli Matsuki e Tatiana Costa. Haverá emissão de certificados de participação: Ao final do evento será disponibilizado um link para um formulário de pesquisa de satisfação e emissão de certificado válido somente para o dia do evento._______________________________Dúvidas: Tel.: (11) 3628-1262; WhatsApp (11) 9 9876 9939 ou Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Atenciosamente, Equipe EPP.
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Des (esperança) - resenha do filme "Nada de novo no front" (alerta de spoiler)

Por Ale Esclapes -  "Nada de Novo no Front" é um filme de guerra alemão de 1930, dirigido por Lewis Milestone. O enredo é baseado no livro homônimo de Erich Maria Remarque, que conta a história de um jovem chamado Paul Baumer (Lew Ayres) e seus amigos que se alistam para lutar na Primeira Guerra Mundial. O filme é conhecido por ser um dos mais realistas e impactantes filmes de guerra já feitos.  No processo de alistamento, os jovens mostram uma ingenuidade e uma empolgação pelo seu país, que logo é destruída pela brutalidade da guerra e a máquina de guerra do estado alemão. A decepção quanto aos ideais vendidos pelo estado alemão é rápida, e os jovens soldados se veem confrontados com uma realidade muito diferente daquela que lhes foi vendida. No front de batalha, Paul desenvolve amizades e luta pela sobrevivência.   Talvez numa das cenas mais impactantes do filme, Paul ataca um soldado francês a facadas, e a despeito de todo horror vivido até então, entra em um misto de desespero e epifania, como se o horror da guerra se ali manifestasse: o soldado era um ser humano, igual a ele. Como o soldado francês não morre a despeito das facadas, em desespero, enfia terra na boca do soldado, como tentando acabar logo com aquilo, mas cujo simbolismo vai muito além desse. Para Paul viver um outro ser humano precisa morrer, ao mesmo tempo em que o humano em Paul morre nesse instante.   O filme também aborda com maestria a vida dos políticos alemães em contraste com a vida dos soldados no campo de batalha. Já o fanatismo do alto comando alemão é destacado no filme, que envia soldados para morrerem, a despeito do tratado de cessar fogo. Essa atitude mostra a falta de valorização da vida humana por parte dos líderes militares.  A cena final em que Paul é morto um minuto antes do cessar fogo é uma poderosa metáfora do título do filme "Nada de Novo no Front". A morte de Paul mostra que a guerra é um ciclo interminável de morte e destruição, e que a esperança é ausente neste contexto.  Em resumo, "Nada de Novo no Front" é um filme poderoso que retrata a brutalidade da guerra e a perda da inocência dos jovens soldados. A ingenuidade no processo de alistamento, a máquina de guerra do estado alemão, o desenvolvimento de amizades no front de batalha, a epifania de Paul e a falta de valorização da vida humana pelos líderes militares são temas fortes abordados no filme. Aqui nenhuma cena é menor ou em excesso, nenhum diálogo é dispensável. A cena final, que mostra a ausência de esperança em um ciclo interminável de guerra e morte, é uma mensagem impactante e perturbadora.  ___________Direção: Edward BergerPlataforma: Netflix
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Close (Lukas Dhont) - Resenha de filme (alerta de spoiler)

Por Ale Esclapes -  Toda obra de arte aponta para um lugar além do óbvio, além do sensível que se apresenta. Close é um desses casos que com maestria, nos brinda com um drama sobre saída da infância e entrada na juventude circunscrita aqui pelo elemento sexual presente nessa passagem. Uma outra delicadeza do filme é conseguir colocar outros elementos tão difíceis de abordar como amizade, culpa, suicídio de forma que cada espectador possa abordar o filme por um desses eixos, dado ao equilíbrio entre os temas.  Leo e Remi são melhores amigos apresentados em um estado de “pura inocência”.  Brincam juntos, dormem juntos, não se desgrudam. Aqui o roteiro já coloca o espectador em uma posição única: entre admirar a pureza da uma relação de amizade entre dois garotos e saber que ainda que esses não “saibam”, dormir junto em conchinha em pouco tempo terá um significado diferente do que tem ali apresentado, ou, já desperta na imaginação do expectador que esses serão um futuro casal.   Eis que Leo é confrontado com a pergunta: “vocês são namorados”? Uma cesura se cria que vagamente tende à uma cisão. A partir desse ponto, vai ficando algumas lacunas e conclamando cada vez mais o espectador a fazer parte do filme, para que este o signifique. Leo começa a afastar-se de Remi, jogar bola e hóquei com outros garotos, e se enturmar como é típico da adolescência. Mas não é um movimento qualquer, ele vem a partir da pergunta: “vocês são namorados”. Não fosse a pergunta, ambos poderiam seguir o mesmo rumo, mas não ... Leo faz o caminho também para se afastar de Remi. O que teme Leo? Remi pelo seu lado não entende o que se passa, tenta se reaproximar, sempre sem sucesso.   Nesse ponto o roteiro introduz um outro tema (atenção, perigo de spoiler). Remi se suicida. Novamente o filme convoca o espectador para preencher uma lacuna. Foi por causa do afastamento de Leo? De qualquer forma Leo acredita que sim. Se antes tinha que dar conta do elemento sexual que se introduziu na relação com seu melhor amigo, o afastamento, uma eventual culpa por esse afastamento, a perda da inocência ... agora tem que dar conta de se sentir culpado pelo suicídio do melhor amigo. Esse enfim passa a ser o grande enredo do filme.   O diretor e roteirista Lukas Dhont nos propõe um olhar sensível e complexo sobre essa passagem tão dramática na vida de todos nós: a passagem da infância que aqui quer dizer uma forma específica de relação consigo e com o outro, para a adolescência, com a introdução do elemento sexual que muda toda essa estrutura já montada. Essa passagem não é fácil, é dolorosa, pois se perde o lugar no mundo, e é uma tarefa indelegável.  Um filme sensível, muito bem construído, que convoca o espectador o tempo todo a significá-lo deixando lacunas (o que temia Leo? o que ele realmente sentia por Remi?) e que toca em temas muito difíceis com maestria.   ___________Direção: Lukas DhontPlataforma: MUBI
Realidade_do_Psiquismo3 Blog Masonry - Results from #36

A realidade do psiquismo

Por Karen Rodrigues A. Chaves -  Em Freud, a psicanálise era sobretudo a arte da interpretação e não uma técnica por sugestão. O método psicanalítico proposto por ele visa ter acesso ao inconsciente, trazendo para o consciente aquilo que foi reprimido, liberando emoções e experiências. Resgatar a libido que se moveu para a regressão e reanimar as imagens infantis, colocando essa libido a serviço da realidade. Mas, como ele propõe isso? Primeiramente é importante destacar que de todos os conceitos criados para fundamentar sua teoria, o de inconsciente representa o elemento central em toda a psicanálise, e é para onde o olhar do analista deve ser direcionado. Freud chegou a suposição do inconsciente ao perceber que a consciência possui muitas lacunas, como atos psíquicos que não se justificam apenas pela consciência, e para os quais se faz necessário considerarmos a influência do inconsciente. O inconsciente é o consciente reprimido (recalcado), é um lugar psíquico com uma energia específica e é o campo de trabalho da psicanálise. Durante sua clínica, Freud, identificou algumas formas de obter acesso ao inconsciente, e uma dessas formas seria por meio da associação livre. Essa técnica na qual o analisando pode falar tudo aquilo que lhe vier a mente sem a intervenção ou orientação do analista, se tornou essencial para o psicanalista conseguir ter acesso ao inconsciente do paciente. Pela sua fala o analista pode captar aquilo que surge, por vezes, nas entrelinhas e, assim, identificar os conteúdos inconscientes. Naquilo que não é dito, omissões, confusões e esquecimentos, é que se expressa o inconsciente. São formas de exprimir opiniões ou verdades que a razão consciente não permite, funcionando como um disfarce. Freud destaca a necessidade da atenção equiflutuante por parte do analista, que seria ouvir sem raciocinar, escutar sem seleção prévia, sem censura, as associações livres do analisando. Outro caminho identificado por Freud para ter acesso ao inconsciente seria por meio da interpretação dos sonhos. Ele define os sonhos como o caminho mais rico para a investigação do inconsciente. O sonho se apresenta pelo conteúdo manifesto, que se refere ao que pode ser lembrado e relatado; e pelo conteúdo latente, que é o conteúdo oculto e inconsciente, que provoca o sonho. Ao narrar o sonho para o analista, o paciente consegue fazer associações a respeito das imagens e dos símbolos do seu inconsciente. Esse trabalho de interpretação dos sonhos se realiza ao nível da linguagem, do discurso do paciente e não das imagens oníricas que o paciente recorda. No processo de interpretação, o analista precisa olhar para as imagens do sonho e interpretá-lo como uma narrativa não linear, em que estarão manifestos os desejos, medos e traumas enraizados no inconsciente, dando liberdade para o analisando criar as suas próprias associações, e não interpretar o sonho do paciente logo de imediato. O tratamento analítico segue para tentar resgatar a libido e nesse ponto a resistência luta para o que foi reprimido não seja revelado, evitando assim o desprazer. A resistência usa a repressão como recurso para manter algo afastado da consciência. Ao invés de lembrar de tudo que está reprimido, o paciente é levado a repetir o que foi recalcado, como vivência atual e não como parte do passado. Essa reprodução, que sempre tem por conteúdo algo da vida sexual infantil, se dá no âmbito da transferência, isto é, da relação com o analista. A transferência é um retorno do reprimido que volta para a figura do analista, e ocorre quando algo do recalcado for adequado para ser transferido a pessoa do analista. O analista deve utilizar a transferência para fazer com que o paciente recorde, tome consciência. Para Freud, o conteúdo reprimido é expresso pelo indivíduo através de um conjunto de ações repetitivas, e o manejo seria a maneira de transformar pouco a pouco a compulsão a repetição, levando o indivíduo a se reapropriar da sua história. O manejo da transferência configura como uma das maiores dificuldades da clínica. O amor transferencial, que é criado pela própria situação analítica, acaba sendo utilizado pela resistência para impedir a continuidade do tratamento e cabe ao analista saber manejar esse sentimento, mantendo a transferência amorosa, a tratando como algo que deverá ser enfrentado durante o tratamento para reconduzir ao consciente o que foi recalcado, para que o paciente consiga elaborar o que foi tratado em sua sessão. A superação da resistência não ocorre quando a mesma é comunicada ao paciente. Ele precisa de tempo para se aprofundar na resistência para poder elaborá-la e então superá-la. A comunicação do recalcado ao analisando é apenas uma das preparações necessárias para o tratamento, e essa revelação do inconsciente costuma ter como consequência a intensificação do conflito dentro dele e o aumento do sofrimento. Por isso antes, como preparação, o analisando precisa estar próximo do recalcado, e apegado ao analista para não querer interromper o tratamento. Só com o preenchimento desses pré-requisitos será possível reconhecer e dominar as resistências que levaram ao recalque e ao desconhecimento. O tratamento psicanalítico pressupõe um contato mais prolongado, sendo que seria totalmente condenável uma revelação precipitada pelo analista, o que colocaria em risco todo o processo. Atrasar o prazer é um dos pontos do princípio de realidade no psiquismo, como forma de evitar um desprazer maior, considerando que não podemos realizar tudo o que desejamos. Freud destacou a importância da sensibilidade do psicanalista aos movimento psíquicos do analisando, para que o tratamento seja efetivo e alcance seu objetivo, ajudando o analisando a compreender seus pensamentos e traumas, se libertando dos sintomas, para que ele saiba lidar com seus sofrimentos, se sentindo no comando da sua vida.
O_ANALISTA_SUAS_LACUNAS Blog Masonry - Results from #36

O Analista e Suas Lacunas: Reflexões Inspiradas na Série “O Paciente” (alerta de spoiler)

Por Pedro Castro - A série O Paciente, da FX, é curta, com apenas 10 episódios, mas rica em elementos que permitem refletir sobre a prática psicanalítica e os desafios do trabalho clínico. Neste texto, parto do pressuposto de que a abordagem utilizada é psicanalítica e foco na condução do analista, destacando as lacunas evidenciadas ao longo do processo terapêutico.Falhas na Identificação da Parte Psicótica da Personalidade do Paciente e na Capacidade Negativa do AnalistaNo primeiro episódio, o analista, interpretado por Steve Carell, recebe um paciente, vivido por Domhnall Gleeson, que relata ter sido repetidamente agredido pelo pai. Durante a sessão, torna-se evidente que o paciente se mostra evasivo e distante, tanto em relação às perguntas quanto ao próprio analista.Após algumas sessões, o analista rapidamente interpreta a relação, apontando ao paciente sua postura evasiva e distante, e sugere que, para o progresso do trabalho, ambos precisariam estabelecer uma relação mais íntima. Nesse momento, surge o problema: o que “ser íntimo” significa para esse paciente? O analista presume que o paciente compreende a ideia de intimidade, o que não é o caso.A teoria de Bion sobre a capacidade negativa — a habilidade do analista de suportar o “não saber” sem projetar suas próprias suposições — revela-se crucial aqui.A resposta do paciente à proposta do analista é alarmante: ele o sequestra e o mantém no porão de sua casa. Ao recobrar a consciência, o analista pergunta o que está acontecendo, e o paciente responde: “Você sugeriu que deveríamos ser íntimos.” Esse momento ilustra a recomendação de Melanie Klein, posteriormente expandida por Bion, de que a comunicação com a parte psicótica da personalidade deve ser distinta daquela com a parte neurótica.Enquanto a parte neurótica tem capacidade simbólica, a parte psicótica interpreta tudo de forma literal. Assim, para o paciente, a ideia de “intimidade” justifica o sequestro como meio de estabelecer proximidade.Ao longo da série, outras lacunas tornam-se evidentes. O exemplo mais marcante ocorre quando o analista sugere que os atos de violência do paciente — um serial killer — poderiam simbolizar seus sentimentos em relação ao pai. Para o paciente, essa interpretação oferece alívio, e ele decide matar o pai.Embora o paciente, em alguns momentos, acesse partes neuróticas de sua personalidade, permitindo maior simbolização e diálogo, o analista se equivoca quando não diferencia adequadamente essas instâncias, o que compromete o trabalho analítico. É fundamental evitar pressupostos sobre o entendimento do paciente, diferenciando as comunicações dirigidas às partes psicótica e neurótica da personalidade.Questões para reflexão:1.    O que meu paciente compreende do que eu digo?2.    Como analista, sou capaz de tolerar meu “não saber” e, quando necessário, pergunto ao paciente o significado que algo tem para ele?3.    Sei distinguir as nuances da comunicação entre as partes psicótica e neurótica da personalidade?________________________________________O Lugar do AnalistaDesde o primeiro episódio, observa-se uma inversão de papéis: o paciente começa a ocupar o lugar do analista, percebendo e nomeando as emoções do terapeuta.Autores pós-kleinianos, assim como Melanie Klein em Inveja e Gratidão, destacam que o analista deve sempre manter seu lugar no setting terapêutico. Contudo, isso nem sempre é fácil. Esta leitura pode sugerir que há uma responsabilidade do paciente por inverter o papel com o analista, todavia o paciente pode “fazer o que bem entender” no setting terapêutico, mas cabe ao analista sustentar sua posição e não se deixar desviar de seu papel. Reflexão: Até que ponto conseguimos sustentar nosso papel, sem sermos capturados pelo conteúdo manifesto apresentado pelo paciente? Somos capazes de resistir ao desejo do paciente por uma interpretação imediata, mantendo o silêncio quando necessário?________________________________________Proximidade e DistanciamentoDurante o tratamento de experiências emocionais, é essencial equilibrar proximidade e distanciamento. É necessário estar “um” com o paciente em determinados momentos, mas também saber sair dessa posição simbiótica com cuidado e leveza.Na série, especialmente nos primeiros episódios, o paciente percebe a desconexão do analista e sente-se frustrado.Perguntas fundamentais:1.    Qual é minha capacidade de me conectar emocionalmente com o paciente?2.    Como está meu espaço interno para lidar com as demandas de cada sessão?3.    Estou negligenciando minha própria análise e supervisão?________________________________________A Não Percepção da Própria Experiência EmocionalPara finalizar, destaco a importância de acolhermos nossas próprias experiências emocionais durante as sessões. Focar exclusivamente no paciente, ignorando nossos próprios sentimentos, compromete a eficácia do trabalho analítico.Conceitos como contratransferência ou turbulência emocional mostram que as emoções do analista podem ser ferramentas valiosas. Na série, se o analista tivesse percebido seu desejo de afastar-se do paciente como reflexo de algo vivido por este, o desfecho trágico poderia ter sido evitado.O paciente, ao final da série, acolhe parte das interpretações do analista, decidindo se trancar em casa e confirmando a interpretação de que precisaria ser internado.Reflexão final: Quando, de fato, uma análise termina? Mesmo com as lacunas inevitáveis, cabe ao analista sustentar uma prática ética e reflexiva, garantindo que o paciente de amanhã encontre um profissional mais inteiro e consciente. ________________________________________Sobre o Autor: Sou Pedro Castro, membro do Instituto Ékatus, facilitador no programa de formação em psicanálise e coordenador do grupo Melanie Klein Hoje, na EPP-Escola Paulista de Psicanálise. Ministro cursos sobre os pensamentos de Bion, Klein, pós-kleinianos e Winnicott. Atuo como psicanalista clínico e supervisor. Para análise pessoal e supervisão, entre em contato pelo telefone (12) 99175-1787.
Dahomey%20de%20Mati%20Dio%20-%20Reflexoes%20sobre%20Colonialismo%20Identidade%20Cultural Blog Masonry - Results from #36

Dahomey de Mati Diop: Reflexões sobre Colonialismo, Identidade Cultural e o Contexto Brasileiro (alerta de spoiler)

Por Ale Esclapes - O documentário Dahomey, dirigido por Mati Diop, explora as complexas relações entre passado e presente, abordando o impacto do colonialismo sobre o Reino de Dahomey, situado no atual Benim, áfrica Ocidental. O filme narra não apenas a história de um dos reinos mais influentes da região durante os séculos XVII ao XIX, mas também o trauma do colonialismo europeu e sua influência persistente nas sociedades africanas contemporâneas. Mati Diop adota uma perspectiva que combina memória histórica e identidade cultural, questionando os desdobramentos da exploração colonial e seu legado de violência, apagamento e resistência. O documentário evidencia como o colonialismo devastou culturas inteiras, impondo não apenas dominação territorial e econômica, mas também destruindo ou desarticulando as bases culturais, lingísticas e identitárias dos povos colonizados. O roubo de bens materiais é acompanhado pelo roubo simbólico: a imposição das línguas europeias, que substituíram as línguas nativas como forma de comunicação e expressão. Essa violência cultural teve consequências profundas, afetando gerações e criando uma ruptura entre os povos e suas heranças históricas. Questões Centrais: Colonialismo e Identidade Cultural O colonialismo europeu não apenas saqueou riquezas materiais dos territórios africanos, mas também implantou estruturas de poder que perpetuam desigualdades até hoje. A imposição de línguas como o francês, o inglês e o português é um exemplo claro de como a dominação colonial impactou a identidade cultural. A língua, além de ser um meio de comunicação, é um elemento essencial para a preservação de histórias, crenças e tradições. Assim, quando as línguas nativas foram suprimidas, as culturas também foram silenciadas. Outro ponto levantado por Dahomey é o papel da resistência. Mesmo sob as condições mais adversas, os povos africanos encontraram maneiras de preservar suas tradições e memórias. Essa resistência, no entanto, é frequentemente ignorada ou subestimada nas narrativas tradicionais que enfatizam o poderio europeu. O Contexto Brasileiro O Brasil, enquanto uma ex-colônia de Portugal, carrega um histórico de exploração semelhante, mas com especificidades que tornam a situação complexa. A mistura de povos indígenas, africanos escravizados, europeus colonizadores e, posteriormente, imigrantes de diversas partes do mundo, criou uma sociedade altamente miscigenada. Essa realidade torna difícil aplicar conceitos de identidade unívoca, como aqueles apresentados em Dahomey, ao contexto brasileiro. No Brasil, as lutas por reconhecimento cultural e histórico também enfrentam desafios particulares. Embora o país tenha uma diversidade única, as estruturas de poder e desigualdade ainda são profundamente marcadas pela herança colonial. A população negra, por exemplo, continua enfrentando discriminação e exclusão social. Ao mesmo tempo, a luta por uma identidade cultural autêntica pode ser usada de forma político-partidária, alimentando divisões culturais que ignoram a realidade miscigenada do país. Reflexões sobre a Divisão Cultural A necessidade de reexaminar o passado colonial é indiscutível. No entanto, é crucial que essas discussões não sejam instrumentalizadas para criar novas divisões. No Brasil, as questões identitárias devem reconhecer a complexidade da miscigenação, que é tanto uma força quanto um desafio. Forçar uma identidade fixa, ignorando a pluralidade histórica e cultural do país, pode resultar em interpretações reducionistas que não correspondem à realidade. Assim como em Dahomey, a busca por justiça histórica deve ser acompanhada por um reconhecimento das nuances e das especificidades de cada sociedade. O Brasil, com sua diversidade única, pode ser um exemplo de como encontrar caminhos para a reconciliação, desde que as discussões não se tornem ferramentas de polarização política. Conclusão O documentário Dahomey é um convite para refletirmos sobre as marcas deixadas pelo colonialismo, não apenas em territórios africanos, mas em toda a diáspora. No caso do Brasil, essas reflexões são fundamentais para compreender as desigualdades e os desafios contemporâneos. Contudo, é essencial que tais debates sejam conduzidos com responsabilidade, valorizando a pluralidade e evitando simplificações que possam reforçar divisões ao invés de construir pontes.
Resenha_filme_Bruxas_Witches2 Blog Masonry - Results from #36

Resenha do filme Bruxas (Witches) - Histeria ou Psicose pós-parto? (alerta de spoiler)

Por Ale Esclapes -  O filme Bruxas (Witches), dirigido por Elisabeth Sankey, é um documentário fascinante que cruza os limites entre história, psicologia e cultura, abordando um tema ainda negligenciado: as conexões entre a depressão, a psicose pós-parto e as confissões forçadas de bruxaria na Inglaterra renascentista. De forma perspicaz, Sankey coloca em evidência as complexas condições psicológicas e sociais enfrentadas por mulheres em diferentes contextos históricos, propondo uma reflexão que desafia teorias amplamente aceitas, especialmente no campo da psicanálise. A depressão e a psicose pós-parto são condições psiquiátricas que afetam mulheres no período após o nascimento de um filho. A depressão pós-parto caracteriza-se por sentimentos persistentes de tristeza, cansaço extremo e desconexão emocional com o bebê. Já a psicose pós-parto é uma condição mais grave, que pode incluir delírios, alucinações, pensamentos suicidas e comportamentos perigosos, exigindo intervenção médica urgente. O filme explora como essas condições podem ser agravadas pelo estigma e a falta de compreensão, tanto no passado quanto no presente. A abordagem de Sankey é visceral ao retratar o impacto psicológico de tais transtornos, muitas vezes exacerbado por questões culturais e estruturais que isolam e culpabilizam as mulheres. Sankey faz uma analogia poderosa entre os sintomas da depressão e psicose pós-parto e as confissões de mulheres acusadas de bruxaria durante a Inglaterra renascentista. Na época da Inquisição, muitas mulheres foram submetidas a torturas físicas e psicológicas, levando-as a confessar práticas de feitiçaria sob extremo sofrimento. O filme sugere que os comportamentos atribuídos às bruxas — como alucinações, crises de histeria ou comportamentos desorientados — poderiam ser manifestações de transtornos psicológicos, como a psicose pós-parto, agravados por condições sociais opressoras e a ausência de suporte emocional ou médico. Essa perspectiva desafia interpretações psicanalíticas que tradicionalmente associam as bruxas dessa época à histeria, uma condição frequentemente atribuída às mulheres em contextos históricos. Sankey propõe uma ruptura com essa teoria comum, questionando se muitas das mulheres rotuladas como histéricas não estariam, na verdade, sofrendo de transtornos psicológicos reais, como depressão ou psicose pós-parto, exacerbados por um ambiente profundamente misógino e repressivo. O filme provoca um debate crucial sobre como a psicanálise, em alguns casos, tenta encaixar fenômenos históricos em suas teorias. A visão de Sankey abre espaço para a reconsideração de como eventos históricos são interpretados à luz da psicologia moderna. Se as mulheres acusadas de bruxaria eram vítimas de transtornos psicológicos reais e não de histeria, isso transforma completamente a narrativa psicanalítica predominante, demandando uma revisão dos paradigmas teóricos que moldam nossa compreensão sobre esses episódios históricos. O documentário também traz uma reflexão valiosa para a prática clínica contemporânea, especialmente no atendimento a mulheres no período pós-parto. Sankey destaca que esse momento de vulnerabilidade emocional é marcado por conflitos inconscientes, frequentemente silenciados pela vergonha ou culpa. Nesse sentido, o consultório psicanalítico assume um papel central como espaço de escuta privilegiada, onde o analista deve estar atento à evolução rápida e potencialmente perigosa dos sintomas. Essa abordagem reforça a necessidade de sensibilidade clínica para identificar sinais de depressão e psicose pós-parto, oferecendo suporte antes que as condições se agravem. O filme, portanto, serve como um lembrete de que, na prática psicanalítica, a compreensão profunda do contexto emocional e histórico de cada paciente é indispensável para oferecer um cuidado efetivo. Bruxas é um filme provocador que cruza as fronteiras entre história, psicologia e cultura para questionar narrativas estabelecidas sobre as mulheres rotuladas como bruxas na renascença. Ao destacar a depressão e a psicose pós-parto, Elisabeth Sankey não apenas traz à tona a complexidade dessas condições, mas também desafia os pressupostos da psicanálise tradicional, oferecendo um olhar mais empático e atualizado. Essa perspectiva não apenas enriquece nossa compreensão histórica, mas também reforça a importância da escuta sensível e do cuidado clínico no período pós-parto.Direção de Elisabeth Sankey (2024) Disponível no MUBI
A_SUBSTANCIA_UM_OLHAR_SOBRE_CONFLITO_ENTRE_IDEAL_REALIDADE Blog Masonry - Results from #36

A Substância: um olhar sobre o conflito entre ideal e realidade (alerta de spoiler)

Por Ale Esclapes -  O filme A Substância, dirigido por Coralie Fargeat, apresenta uma narrativa sombria e visceral sobre identidade, aceitação e os limites impostos por ideais inalcançáveis. Elisabeth Sparkle, interpretada de forma magnética por uma atriz cuja performance transcende o drama psicológico, é uma figura central no mundo do entretenimento que luta para conciliar quem ela realmente é com a imagem idealizada que construiu ao longo dos anos. Em uma mistura de ficção científica, horror e drama psicológico, o longa cria uma experiência visualmente marcante, com momentos que oscilam entre a introspecção e a brutalidade, enquanto explora os conflitos internos da protagonista.Um dos temas mais marcantes de A Substância é a crítica ao etarismo, uma forma de discriminação que privilegia a juventude e marginaliza quem envelhece. No mundo do entretenimento, essa crueldade é amplificada por padrões estéticos e comportamentais que relegam artistas como Elisabeth Sparkle à irrelevância conforme o tempo passa. A pressão para permanecer jovem e vibrante é sufocante, transformando o envelhecimento em uma sentença de invisibilidade. O filme retrata esse dilema com crueza, mostrando como a obsessão por um ideal de juventude artificial corrói a autoestima e a saúde mental daqueles que tentam se moldar a ele.Essa pressão externa alimenta o conflito interno de Elisabeth, que internaliza o etarismo do meio em que vive. Surge, então, um abismo entre o "eu ideal" – representado pela persona jovem e glamorosa chamada Sue – e o "eu real", que luta para ser aceito em sua imperfeição e humanidade. Esse embate entre duas versões de si mesma não é apenas uma metáfora; no universo do filme, a divisão entre esses dois "eus" torna-se literal. A dualidade de Elisabeth expõe como a rejeição do próprio eu pode se transformar em uma violência psíquica devastadora.Em um momento-chave do filme, Elisabeth é separada fisicamente de Sue, que ganha forma própria. Contudo, essa cisão não resolve seus problemas: ambas descobrem que estão interligadas por regras rigorosas. Cada uma só pode viver sete dias antes de ceder o controle à outra, e sua sobrevivência depende dessa coexistência forçada. O filme transforma essa dinâmica em uma alegoria poderosa sobre a necessidade de aceitação mútua entre as diferentes facetas de uma mesma pessoa. Sue representa o ideal inatingível, mas essencial para a identidade de Elisabeth, enquanto Elisabeth personifica a humanidade crua que Sue tenta negar.A Substância transcende sua premissa ao propor uma reflexão mais ampla: o que acontece quando violentamos a nós mesmos em nome de um ideal? O filme sugere que, ao rejeitar nossa essência em favor de expectativas externas, estamos condenados à autodestruição. Como lembra a narrativa, somos o que somos, e ignorar essa verdade fundamental pode levar à aniquilação do que nos torna humanos. No desfecho da história, o custo dessa luta se revela alto para Elisabeth e Sue, ecoando uma mensagem universal: apenas ao aceitar nossa totalidade – incluindo nossas imperfeições – podemos encontrar uma forma genuína de sobrevivência. Direção: Coralie FargeatDisponível no MUBI