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Amanhã nos Reverberações: O Tripé e a Supervisão na Formação do Psicanalista

Amanhã nos Reverberações: O Tripé e a Supervisão na Formação do Psicanalista

A Essência da Formação PsicanalíticaNa Escola Paulista de Psicanálise (EPP), compreendemos que a jornada para se tornar um psicanalista é um caminho de profunda transformação e rigor acadêmico. É por isso que, amanhã, em nosso evento Reverberações, dedicaremos nossa atenção a um tema de suma importância: "A formação do psicanalista: tripé e supervisão". Este encontro é um convite à reflexão sobre os alicerces que sustentam uma prática clínica ética e eficaz, garantindo a solidez e a profundidade necessárias para o exercício da psicanálise no cenário contemporâneo. A EPP, com sua história de mais de 20 anos, tem como missão a transmissão de uma psicanálise viva e atuante.
A Formação do Psicanalista: O Tripé e a Essência da Supervisão na EPP

A Formação do Psicanalista: O Tripé e a Essência da Supervisão na EPP

A jornada para se tornar um psicanalista é um caminho de profunda imersão e transformação, que na Escola Paulista de Psicanálise (EPP) é cuidadosamente estruturado sobre alicerces que garantem não apenas o conhecimento teórico, mas também a capacidade de atuação clínica ética e sensível. O famoso tripé psicanalítico, concebido por Freud – composto por conhecimentos teóricos, análise pessoal e supervisão – é a bússola que orienta essa formação, assegurando que o futuro profissional esteja preparado para as complexidades do consultório.
Após Reverberações: O Legado de Winnicott e o Ambiente Facilitador – Reflexões e Desdobramentos

Após Reverberações: O Legado de Winnicott e o Ambiente Facilitador – Reflexões e Desdobramentos

A alma humana, esse labirinto de paradoxos e anseios, encontra sua forma e seu desassossego na teia das relações e dos espaços que a circundam. Recentemente, nas Reverberações da Escola Paulista de Psicanálise, mergulhamos na obra de Donald Winnicott, um pensador que, com a delicadeza de um poeta e a precisão de um cientista, desvendou a crucialidade do “ambiente facilitador”. Não se trata de um cenário passivo, mas de um útero psíquico que nutre, contém e permite a emergência do ser em sua plenitude mais autêntica, um convite à reflexão sobre a própria existência.
Transferência e Contratransferência na Clínica Atual: Uma Reflexão Preparatória

Transferência e Contratransferência na Clínica Atual: Uma Reflexão Preparatória

A Dinâmica Inconsciente na Relação AnalíticaA psicanálise, em sua essência, constitui um campo de investigação e intervenção que se ergue sobre a complexa teia das relações humanas, e no cerne dessa teia, encontramos a transferência e a contratransferência. Estes não são meros conceitos abstratos, mas forças vivas que moldam o encontro entre analista e analisando, revelando as repetições inconscientes de padrões objetais e as ressonâncias emocionais que estes provocam. A transferência, como atualização de figuras significativas do passado no presente da relação analítica, oferece uma oportunidade ímpar para a elaboração de conflitos psíquicos profundos e para a reescrita de narrativas existenciais. É o palco onde o paciente encena seus dramas mais íntimos, muitas vezes sem ter consciência plena do roteiro que o move.
A Essência da Formação Psicanalítica: Tripé e Supervisão na EPP

A Essência da Formação Psicanalítica: Tripé e Supervisão na EPP

A jornada para se tornar um psicanalista é um caminho de autoconhecimento e rigor acadêmico, fundamentado em pilares que garantem a profundidade e a ética da prática clínica. Na Escola Paulista de Psicanálise (EPP), compreendemos que a formação é um processo contínuo e multifacetado, que vai muito além da simples aquisição de conhecimento teórico. É uma imersão que transforma o indivíduo, preparando-o para a complexidade do encontro analítico e para a responsabilidade de acolher o sofrimento humano.
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A coragem de perder a terceira perna

Por Pedro Castro -  Há momentos na vida em que algo se rompe. Não é uma simples mudança, nem uma perda comum. É como se uma parte de nós, que até então nos mantinha firmes, de repente deixasse de existir. Clarice Lispector, no seu livro A Paixão Segundo GH, chama isso de “perder a terceira perna”. Uma perna que não era necessária para andar, mas que fazia dela um tripé estável. Sem ela, restam apenas duas pernas – e a liberdade de caminhar, finalmente, com o próprio corpo. Mas também resta o medo. Quem nunca sentiu que desabou uma estrutura que levou uma vida para construir? Pode ser o fim de um relacionamento, a perda de um emprego, uma crise de sentido, ou simplesmente aquela sensação estranha de que o jeito como sempre nos organizamos já não funciona mais. O chão some. E o que vem depois é uma espécie de desorganização profunda, como Clarice descreve: “não confio no que me aconteceu”. A mente se vê diante de um vazio que assusta, porque não há mapa, não há garantias. Na psicanálise, chamamos isso de encontro com o caos. Não o caos destrutivo, mas aquele estado amorfo onde tudo é possível e nada está definido. É o momento em que o conhecido se desfaz e o novo ainda não nasceu. E é justamente aí que mora o maior desafio: suportar não saber. Suportar a suspensão. Como diz Clarice, “tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo”. Esse medo é humano, e talvez seja o preço da liberdade. A “terceira perna” simboliza tudo o que usamos para nos sentir seguros: as certezas, os papéis que representamos, as respostas prontas, as verdades que repetimos sem questionar. Ela nos dava equilíbrio, mas também nos impedia de experimentar outros modos de ser. Quando ela cai, ficamos à mercê do acaso – esse “sagrado risco” que Clarice nomeia com coragem. O acaso é o imprevisível, o que não controlamos. E viver é, em grande parte, aprender a dançar com ele. O que fazer com o que vivemos quando não sabemos ainda o que aquilo significa? Clarice tenta dar forma ao nada, mas resiste à tentação de “inventar uma forma” apressada. Há uma sabedoria aí: a pressa de dar um sentido rápido pode ser uma nova “terceira perna”, uma muleta que nos impede de realmente integrar a experiência. A verdadeira transformação exige um tempo de latência, um tempo de não saber. É como se a mente precisasse gestar um novo significado, em silêncio, antes de poder nomeá-lo. No consultório de psicanálise, esse processo é acolhido. O analista não oferece respostas prontas, nem tenta tapar o vazio com explicações. Ele oferece presença – uma mão invisível, como a que Clarice pede: “Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria”. Essa mão não é a muleta, mas um apoio provisório para que a pessoa possa suportar o desamparo e, aos poucos, aprender a caminhar sozinha. Aos poucos, a desorganização vira organização nova, mais autêntica, mais próxima de quem realmente se é. Clarice escreve: “Sei que vi – porque não entendo”. Há um saber que não passa pelo intelecto, mas pelo corpo, pela intuição, pela emoção. É o saber do vivido, que ainda não virou palavra, mas que já nos transformou. A psicanálise é uma aposta nesse saber silencioso. Ela nos ajuda a ter coragem de “ir sendo si mesmo”, como diria Bion, sem a necessidade de uma identidade fixa, sem a rigidez da terceira perna. Ao final do fragmento, Clarice fala de um amor neutro, cego, como o de uma célula-ovo. Talvez seja o amor pela própria vida, em sua nudez, sem adornos. Um amor que não precisa de sentido para existir. E é isso que a psicanálise, em sua essência, busca restaurar: a capacidade de estar vivo, de sonhar, de criar, mesmo diante do desconhecido. Mesmo sem a terceira perna. Que possamos, como ela, ter a coragem de nos perder. Porque só assim, talvez, a gente se ache de verdade.
O Ambiente Facilitador de Winnicott: Um Pilar para o Desenvolvimento do Self

O Ambiente Facilitador de Winnicott: Um Pilar para o Desenvolvimento do Self

A psicanálise, em sua constante evolução, nos convida a revisitar e aprofundar conceitos que moldam nossa compreensão do psiquismo humano. Dentre as contribuições mais significativas, o legado de Donald Winnicott se destaca, especialmente por sua teoria do ambiente facilitador. Este conceito não apenas revolucionou a forma como pensamos o desenvolvimento infantil, mas também oferece lentes valiosas para entender as complexidades da vida adulta e as demandas da clínica contemporânea.
Após Reverberações: O Eco de Melanie Klein e as Relações Objetais na Infância

Após Reverberações: O Eco de Melanie Klein e as Relações Objetais na Infância

A Infância como Palco do Ser: Uma Perspectiva KleinianaO recente evento Reverberações da Escola Paulista de Psicanálise (EPP) nos convidou a uma imersão profunda na obra de Melanie Klein, explorando a intrincada tapeçaria das relações objetais na infância. Como Ricardo Reis diria, a existência é um fluxo contínuo, e Klein nos mostra que os primeiros riachos desse fluxo moldam o oceano que seremos. A psicanálise, sob seu olhar, desvela que os primórdios da vida não são um mero prelúdio, mas o próprio palco onde se encenam os dramas e as construções fundamentais da subjetividade humana, forjando o destino psíquico de cada um.
A Formação do Psicanalista: Tripé e Supervisão – Uma Reflexão Preparatória

A Formação do Psicanalista: Tripé e Supervisão – Uma Reflexão Preparatória

A jornada para se tornar um psicanalista é um empreendimento que transcende a mera aquisição de conhecimentos teóricos; ela exige uma profunda imersão em um processo de transformação pessoal e profissional. Freud, com sua perspicácia inigualável, estabeleceu o que viria a ser conhecido como o tripé psicanalítico: a análise pessoal, o estudo teórico e a supervisão clínica. Este alicerce não é uma formalidade burocrática, mas a própria condição de possibilidade para o desenvolvimento de uma escuta analítica genuína e de uma capacidade de intervenção que respeite a complexidade do inconsciente. É um convite à contínua elaboração da própria subjetividade em relação à do outro.
MAL_ESTAR_CULTURA Blog Masonry - Results from #60

O Mal-Estar na Cultura 

Por Ale Esclapes - O texto O Mal-Estar na Cultura, de Sigmund Freud, constitui uma das formulações mais densas de sua metapsicologia aplicada ao campo social, ao propor que a cultura, ao mesmo tempo em que protege o homem, é também fonte inevitável de sofrimento. Freud parte da premissa de que a vida humana é orientada pela busca de prazer e pela evitação do desprazer, mas demonstra que essa lógica é estruturalmente frustrada pela própria organização civilizatória. A cultura exige renúncia pulsional, sobretudo no que se refere às pulsões agressivas e sexuais, instaurando um conflito permanente entre o indivíduo e o coletivo. Esse conflito não é contingente, mas estrutural, pois a coexistência social só é possível mediante repressão e sublimação. Nesse sentido, a cultura se sustenta sobre um sacrifício contínuo do sujeito, que paga pela segurança com sua liberdade pulsional. O mal-estar, portanto, não é um acidente da cultura, mas sua própria condição de possibilidade.Freud aprofunda essa leitura ao articular o papel do superego como instância psíquica responsável por internalizar as exigências culturais, tornando o conflito ainda mais radical. O superego, ao invés de apenas regular o comportamento, converte-se em uma fonte constante de culpa e autovigilância, frequentemente intensificando o sofrimento psíquico. A agressividade, que poderia ser dirigida ao exterior, passa a ser voltada contra o próprio sujeito, produzindo uma economia psíquica marcada pela tensão interna. Esse movimento cria um paradoxo: quanto mais civilizado o indivíduo se torna, maior tende a ser seu sofrimento subjetivo. Freud identifica, assim, uma relação estrutural entre progresso cultural e incremento da infelicidade. A cultura não elimina a violência, apenas a reinscreve no interior do aparelho psíquico.Outro ponto central do texto é a introdução da pulsão de morte como componente fundamental da vida psíquica e social. Freud sustenta que não apenas o princípio do prazer orienta o comportamento humano, mas também uma tendência destrutiva que busca o retorno a um estado inorgânico. Essa pulsão se manifesta tanto na agressividade dirigida ao outro quanto na autodestruição, sendo permanentemente tensionada pelas forças de ligação do Eros. A cultura assume, então, a função de conter e organizar essa destrutividade, sem jamais eliminá-la por completo. Isso implica que a violência permanece como elemento constitutivo da vida social. O resultado é um equilíbrio instável entre forças antagônicas que jamais se resolvem plenamente. O mal-estar emerge exatamente dessa impossibilidade de síntese.Essa concepção encontra um antecedente filosófico significativo em Arthur Schopenhauer, que já havia formulado uma visão estruturalmente pessimista da condição humana. Para ele, a vida é governada por uma vontade incessante, que nunca encontra satisfação plena e, por isso, mantém o sujeito preso a um ciclo contínuo de desejo e frustração. Assim como em Freud, o prazer aparece apenas como suspensão momentânea da dor. A cultura não resolve essa condição, apenas a reorganiza sob novas formas. A diferença reside no plano de análise: metafísico em Schopenhauer, metapsicológico em Freud. Ainda assim, ambos convergem na ideia de que o sofrimento é constitutivo da existência. Freud pode ser lido, nesse sentido, como uma formalização clínica de uma intuição filosófica anterior.Em Jean Baudrillard, essa problemática assume a forma de uma crítica à sociedade de consumo e à lógica do simulacro. Baudrillard propõe que a cultura contemporânea não apenas reprime, mas também produz desejos de maneira artificial, instaurando uma hiper-realidade onde os signos substituem o real. O sujeito não sofre apenas por não satisfazer seus desejos, mas por perder a referência do que é desejável. A falta estrutural é capturada por uma lógica de produção infinita de necessidades. O conflito deixa de ser entre pulsão e cultura, deslocando-se para a relação entre sujeito e simulacro. Ainda assim, permanece a impossibilidade de satisfação plena. O mal-estar se reconfigura, mas não desaparece.Já em Zygmunt Bauman, a tensão freudiana é deslocada para o campo da modernidade líquida, marcada pela dissolução das estruturas estáveis. Diferentemente de uma cultura repressiva, o sujeito contemporâneo é convocado a desejar, escolher e se reinventar continuamente. A liberdade, que poderia ser pensada como solução, transforma-se em fonte de angústia. A ausência de referências duradouras produz insegurança estrutural. A culpa cede lugar à ansiedade, mas a lógica do sofrimento permanece. O mal-estar não desaparece, apenas muda de forma. Bauman evidencia que a instabilidade é hoje o novo regime psíquico.Essa mesma linha encontra uma formulação precisa em Byung-Chul Han, especialmente em A Sociedade do Cansaço. Han propõe que saímos de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do desempenho, onde o sujeito não é mais reprimido, mas explorado por si mesmo. A violência não vem mais de fora, mas é internalizada sob a forma de autoexigência e produtividade excessiva. O resultado não é mais a culpa freudiana, mas o esgotamento, a depressão e o colapso psíquico. O sujeito torna-se simultaneamente senhor e escravo de si mesmo. A negatividade dá lugar a uma positividade excessiva que adoece. Ainda assim, a estrutura permanece: há sempre uma tensão constitutiva que impede a realização plena.Independentemente do vértice — filosófico, psicanalítico ou sociológico —, evidencia-se a presença de uma dualidade constitutiva no ser humano. Essa dualidade pode ser pensada, na tradição judaica, como Yetzer Tov e Yetzer Hará, as inclinações para o bem e para o mal. Essa leitura dialoga diretamente com a oposição freudiana entre Eros e Tanatos. O conflito não é apenas psicológico ou social, mas ético e estrutural. O homem se constitui como campo de forças em permanente disputa. Não há síntese definitiva, apenas gestão dessa tensão. É precisamente essa condição que sustenta a experiência humana e sua complexidade.
Winnicott e o Ambiente Facilitador: Um Convite à Reflexão nas Reverberações da EPP

Winnicott e o Ambiente Facilitador: Um Convite à Reflexão nas Reverberações da EPP

A psicanálise, em sua vasta e complexa teia de teorias, oferece lentes preciosas para compreendermos a constituição do sujeito e suas interações com o mundo. Entre os grandes pensadores que enriqueceram este campo, Donald Winnicott destaca-se por sua sensibilidade e originalidade, especialmente ao introduzir o conceito fundamental de “ambiente facilitador”. Este conceito nos convida a uma profunda reflexão sobre como as condições iniciais do entorno moldam a emergência do self autêntico, uma ideia que continua a reverberar intensamente na clínica e na teoria contemporâneas.
Cobica_Amor Blog Masonry - Results from #60

A cobiça e o amor

Por Lúcia Nogueira Leiria “... nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.”A partir dos estudos realizados desde o início de minha formação psicanalítica, desenvolvi uma especial identificação com o jeito de entender nossas angústias teorizado por Melaine Klein. Sua obra Inveja e gratidão é o marco referencial que nos fez olhar para a inveja como um bibelô exposto na estante, como uma experiência emocional que não se pode negar, dado que nos constitui e nos acompanha desde os primeiros dias de vida. A autora também mostra que amar não se resume aos preciosos conselhos deixados por Ovídio em seu manual de sedução, A arte de amar, tampouco às vivências contadas por Bioy Casares em seu Histórias de amor, mas envolve um desafio constante, capaz de tirar-nos da posição esquizoparanóide, descrita abaixo, para desenvolver o amor e a gratidão. Antes de Klein, no entanto, Freud já havia me acenado com jeitos de olhar para a angústia. E, ao estabelecer-se um paralelo entre os modelos teóricos de ambos os autores, há considerações importantes a serem mencionadas. Na obra Inibição, sintomas e ansiedade, sob a ótica estrutural do aparelho psíquico, Freud teoriza que esses conceitos operam conjuntamente em defesa do Ego ameaçado, tendo a ansiedade como elemento central, que lança mão da inibição, seja por economia psíquica, seja por evitação, para não entrar em contato com os perigos e experiências das quais não conseguiria dar conta. Tal inibição volta depois como sintoma resultante dos conflitos entre os desejos inconscientes e as proibições do ego/superego, este formado com a resolução do complexo de Édipo. A estrutura psíquica está consolidada por volta dos cinco anos de idade, com o superego sendo a última instância a constituir-se.Melanie Klein avança nos estudos sobre o desenvolvimento de nossa estrutura psíquica e desloca as angústias já para o início de nossas vidas, considerando nosso mundo interno e as relações objetais pelas quais passamos e introduzindo as posições esquizoparanóide e depressiva como modos de organização psíquica primitiva. Na posição esquizoparanóide, a criança é medo, aniquilação e agressividade; padece de ansiedades e, presa na inveja, sofre com as capacidades da mãe de produzir leite, de fazer bebês. Nessa posição, as ansiedades são persecutórias e, para proteger-se, conta com estes mecanismos de defesa: (a) introjeção, mecanismo em que a criança incorpora aspectos e objetos do ambiente ao seu mundo interno, os bons e os maus; (b) cisão, um dos mecanismos mais antigos, que faz com que a criança separe as experiências/sentimentos, representados pelo seio da mãe, em boas e más, afastando de si o seio mau, na tentativa de ficar só com a parte boa desse seio; (c) idealização, processo em que ocorre a criação do objeto ideal, da gratificação ilimitada, ou seja, o seio bom fica muito bom, e o mau fica muito mau, e, quanto mais distante estiver um do outro, melhor para destruir o mau e ficar somente com o bom; e (d) projeção, em que, ao contrário da introjeção, ocorre a expulsão do objeto mau e a permanência do bom, ou seja, a criança passa a projetar seu desconforto interno em objetos externos, como a mãe ou cuidadores.Na sequência, ocorre a passagem para a posição depressiva, quando as angústias são de ordem depressiva, oriundas do entendimento de que o objeto é um só e contém a parte boa e a má; da compreensão de que objeto e sujeito são um todo e de que fazer mal ao objeto é igual a fazer mal a si mesmo; e da culpa por perceber que, se o objeto mau for destruído, o bom também o será. Os mecanismos de defesa para as angústias depressivas são (a) a reparação onipotente, em que a criança fantasia que pode reparar, restaurar e proteger o objeto danificado; e (b) a integração do objeto, que, ao contrário da cisão, faz com que a criança consiga integrar características boas e más no mesmo objeto, objeto que a mãe que é boa também pode ser. Essa posição representa um momento importante do amadurecimento afetivo, pois nela a criança desenvolve o amor, a empatia e a gratidão, preparando o terreno para a construção de relações interpessoais gratificantes e mais saudáveis.Há descontinuidades entre um modelo e outro. Freud não dava tanta importância às relações objetais precoces para o desenvolvimento da personalidade; defendia que os estágios autoeróticos e narcísicos excluem a possibilidade da relação com o objeto, priorizando o papel da sexualidade e do Complexo de Édipo no desenvolvimento infantil. Klein, por sua vez, defende que a criança se desenvolve justamente por meio das relações objetais, que são operantes desde o início da vida pós-natal e estão no centro da vida emocional. Essa criança já nasce com fantasias inconscientes, representando a vida psíquica, e já possui id, superego e ego, embora este seja frágil demais e esteja à mercê dos outros dois. O fortalecimento do ego vai acontecendo à medida que a criança aprende a transitar desde a posição esquizoparanóide para a depressiva, e, quanto mais bem-sucedido esse trânsito, mais bem formado o ego.Verificam-se, portanto, diferenças quanto à temporalidade: em Freud, as fases estão constituídas até os cinco anos, e o superego forma-se após o Complexo de Édipo; em Klein, as relações objetais são ativas desde o nascimento, com um superego precoce e atuante. Freud concebe a formação do superego após o Édipo; Klein postula um superego precoce e severo. A ansiedade freudiana é um sinal de perigo para o ego; já a kleiniana representa uma ameaça interna de destruição ou perda do objeto.E, acima de tudo, tem-se em Klein a indicação de olharmos para a inveja, que nos aprisiona na posição esquizoparanóide, não mais como um dos sete pecados capitais da tradição cristã, muito menos como uma das proibições dos Dez Mandamentos da tradição judaica – “Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo" (Êxodo 20:17) –, mas sim como um sentimento constituinte das subjetividades. Saber lidar com a inveja é, acima de tudo, uma dinâmica fundamental que nos liberta da posição esquizoparanóide e nos permite desenvolver o amor e a gratidão, sentimentos da posição depressiva, sonhar e ter vivências prazerosas e bem-sucedidas ao longo de nossa jornada.