Por Lúcia Nogueira Leiria
“... nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.”
A partir dos estudos realizados desde o início de minha formação psicanalítica, desenvolvi uma especial identificação com o jeito de entender nossas angústias teorizado por Melaine Klein. Sua obra Inveja e gratidão é o marco referencial que nos fez olhar para a inveja como um bibelô exposto na estante, como uma experiência emocional que não se pode negar, dado que nos constitui e nos acompanha desde os primeiros dias de vida. A autora também mostra que amar não se resume aos preciosos conselhos deixados por Ovídio em seu manual de sedução, A arte de amar, tampouco às vivências contadas por Bioy Casares em seu Histórias de amor, mas envolve um desafio constante, capaz de tirar-nos da posição esquizoparanóide, descrita abaixo, para desenvolver o amor e a gratidão.
Antes de Klein, no entanto, Freud já havia me acenado com jeitos de olhar para a angústia. E, ao estabelecer-se um paralelo entre os modelos teóricos de ambos os autores, há considerações importantes a serem mencionadas. Na obra Inibição, sintomas e ansiedade, sob a ótica estrutural do aparelho psíquico, Freud teoriza que esses conceitos operam conjuntamente em defesa do Ego ameaçado, tendo a ansiedade como elemento central, que lança mão da inibição, seja por economia psíquica, seja por evitação, para não entrar em contato com os perigos e experiências das quais não conseguiria dar conta. Tal inibição volta depois como sintoma resultante dos conflitos entre os desejos inconscientes e as proibições do ego/superego, este formado com a resolução do complexo de Édipo. A estrutura psíquica está consolidada por volta dos cinco anos de idade, com o superego sendo a última instância a constituir-se.
Melanie Klein avança nos estudos sobre o desenvolvimento de nossa estrutura psíquica e desloca as angústias já para o início de nossas vidas, considerando nosso mundo interno e as relações objetais pelas quais passamos e introduzindo as posições esquizoparanóide e depressiva como modos de organização psíquica primitiva.
Na posição esquizoparanóide, a criança é medo, aniquilação e agressividade; padece de ansiedades e, presa na inveja, sofre com as capacidades da mãe de produzir leite, de fazer bebês. Nessa posição, as ansiedades são persecutórias e, para proteger-se, conta com estes mecanismos de defesa: (a) introjeção, mecanismo em que a criança incorpora aspectos e objetos do ambiente ao seu mundo interno, os bons e os maus; (b) cisão, um dos mecanismos mais antigos, que faz com que a criança separe as experiências/sentimentos, representados pelo seio da mãe, em boas e más, afastando de si o seio mau, na tentativa de ficar só com a parte boa desse seio; (c) idealização, processo em que ocorre a criação do objeto ideal, da gratificação ilimitada, ou seja, o seio bom fica muito bom, e o mau fica muito mau, e, quanto mais distante estiver um do outro, melhor para destruir o mau e ficar somente com o bom; e (d) projeção, em que, ao contrário da introjeção, ocorre a expulsão do objeto mau e a permanência do bom, ou seja, a criança passa a projetar seu desconforto interno em objetos externos, como a mãe ou cuidadores.
Na sequência, ocorre a passagem para a posição depressiva, quando as angústias são de ordem depressiva, oriundas do entendimento de que o objeto é um só e contém a parte boa e a má; da compreensão de que objeto e sujeito são um todo e de que fazer mal ao objeto é igual a fazer mal a si mesmo; e da culpa por perceber que, se o objeto mau for destruído, o bom também o será. Os mecanismos de defesa para as angústias depressivas são (a) a reparação onipotente, em que a criança fantasia que pode reparar, restaurar e proteger o objeto danificado; e (b) a integração do objeto, que, ao contrário da cisão, faz com que a criança consiga integrar características boas e más no mesmo objeto, objeto que a mãe que é boa também pode ser. Essa posição representa um momento importante do amadurecimento afetivo, pois nela a criança desenvolve o amor, a empatia e a gratidão, preparando o terreno para a construção de relações interpessoais gratificantes e mais saudáveis.
Há descontinuidades entre um modelo e outro. Freud não dava tanta importância às relações objetais precoces para o desenvolvimento da personalidade; defendia que os estágios autoeróticos e narcísicos excluem a possibilidade da relação com o objeto, priorizando o papel da sexualidade e do Complexo de Édipo no desenvolvimento infantil. Klein, por sua vez, defende que a criança se desenvolve justamente por meio das relações objetais, que são operantes desde o início da vida pós-natal e estão no centro da vida emocional. Essa criança já nasce com fantasias inconscientes, representando a vida psíquica, e já possui id, superego e ego, embora este seja frágil demais e esteja à mercê dos outros dois. O fortalecimento do ego vai acontecendo à medida que a criança aprende a transitar desde a posição esquizoparanóide para a depressiva, e, quanto mais bem-sucedido esse trânsito, mais bem formado o ego.
Verificam-se, portanto, diferenças quanto à temporalidade: em Freud, as fases estão constituídas até os cinco anos, e o superego forma-se após o Complexo de Édipo; em Klein, as relações objetais são ativas desde o nascimento, com um superego precoce e atuante. Freud concebe a formação do superego após o Édipo; Klein postula um superego precoce e severo. A ansiedade freudiana é um sinal de perigo para o ego; já a kleiniana representa uma ameaça interna de destruição ou perda do objeto.
E, acima de tudo, tem-se em Klein a indicação de olharmos para a inveja, que nos aprisiona na posição esquizoparanóide, não mais como um dos sete pecados capitais da tradição cristã, muito menos como uma das proibições dos Dez Mandamentos da tradição judaica – “Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo" (Êxodo 20:17) –, mas sim como um sentimento constituinte das subjetividades. Saber lidar com a inveja é, acima de tudo, uma dinâmica fundamental que nos liberta da posição esquizoparanóide e nos permite desenvolver o amor e a gratidão, sentimentos da posição depressiva, sonhar e ter vivências prazerosas e bem-sucedidas ao longo de nossa jornada.
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