tr?id=1902345913565961&ev=PageView&noscript=1 De Freud a Klein – Da Pulsão a Emoção

Blog

O melhor conteúdo da internet sobre psicanálise

De Freud a Klein – Da Pulsão a Emoção

De Freud a Klein – Da Pulsão a Emoção

Por Karen Rodrigues - 

Klein trilhou a base psicanalítica construída por Freud mas, em determinado momento apesar de seus esforços em se manter fiel ao pensamento freudiano, fez certas descobertas que começariam a contradizer tais teorias.

Ela se esforça em refazer sua teoria sem discordar de forma direta de Freud, mas acaba ficando insustentável e a criança descrita nos 3 Ensaios da Sexualidade, passa a não fazer mais sentido algum para ela.

A partir de então, apesar das técnicas psicanalíticas de Freud e Klein compartilharem a base da teoria do inconsciente, divergem significativamente na aplicação clínica, especialmente no tratamento de crianças, na interpretação da transferência e no foco nas fases iniciais do desenvolvimento.

Klein desponta em um momento onde ficava evidente que a psicanálise deixava brechas quanto ao trabalho psicanalítico com crianças. O que se tinha até então eram adaptações do modelo de trabalho com adultos, para o trabalho com crianças; e as proposições de Anna Freud quanto a psicanálise com crianças como um modelo educativo/pedagógico. A análise voltada para o público infantil era considerada algo inferior dentro da psicanálise.

E é justamente em sua clínica com crianças que Klein começa a questionar algumas das teorias e das técnicas de Freud.

Freud inseriu a criança a partir de suas observações com os adultos e com base em suas teorias quanto a questão pulsional e a sexualidade. Para ele o desenvolvimento se dava por meio da organização libidinal em fases: oral, anal e fálica. Ele define a criança como perversa e polimorfa, com uma sexualidade própria e com a libido se concentrando em diversas partes do corpo, contestando a ideia de uma infância “pura”.

Enquanto Freud construiu sua teoria com base pulsional, com a descarga libidinal através das pulsões, com o objeto como alvo para a realização de um desejo, Klein constrói a sua teoria das relações objetais. Nela ela dá ênfase as relações de objeto, o qual deixa de ser o alvo da pulsão, mas sim parte de uma relação capaz de provocar uma emoção. Ao se aprofundar no tema ela observa que o bebê existe em relação a objetos que são primitivamente distinguidos do ego, evidenciando que as relações objetais ocorrem desde o nascimento.

Para Klein a primeira relação objetal do bebê é com o seio materno, o qual lhe causa emoções conflituosas, e dessa violência pulsional sobre o próprio bebê, se origina o superego arcaico. Um superego considerado mais cruel do que o superego em Freud, por ser um perseguidor arcaico do Eu.

Ao invés de trabalhar com as fases propostas por Freud, Klein define posições onde não haveria mais fases lineares de desenvolvimento psíquico e sim, a ideia de que ora estamos em uma posição esquizoparanóide e ora em uma posição depressiva. Nossas mentes estariam sempre em movimento entre essas duas posições, conforme a internalização dos objetos que tivemos em nossas experiências enquanto bebês, quanto de nossas relações objetais no momento presente.

Klein dá importância a ansiedade, que para Freud era resultado da repressão, decorrentes de traumas ou de libido não descarregadas. Já Klein via a ansiedade com uma resposta à pulsão de morte, a qual se manifesta desde o nascimento, cujos mecanismos de defesa seriam cisão de objetos em bons e maus, a projeção e a introjeção. Ela identifica dois tipos de ansiedade; a ansiedade persecutória que está ligada ao medo de ser aniquilado e a ansiedade depressiva que é o resultado do medo da perda do objeto.

Outro tema fundamental da teoria freudiana, o Complexo de Édipo, também recebe uma nova abordagem na teoria de Klein.

Na visão freudiana, o Complexo de Édipo surge no início da fase fálica em decorrência dos conflitos e a rivalidade na relação da criança com seus progenitores, vistos como objeto do desejo infantil, e ação de impedimento à realização desse desejo, onde temos a castração. Freud coloca o Complexo de Édipo, como o problema central de todas as neuroses.

Na fase fálica, por volta dos 5 anos de idade, surge o Superego com a internalização de normas e valores sociais, como instância que pune, que cobra o Eu e dá suporte a consciência moral. O Superego como herdeiro do Édipo.

Klein considera a relação das neuroses ao Complexo de Édipo, mas vai expandir o conceito, divergindo de Freud em alguns pontos. Em suas descobertas clínicas ela evidenciou em crianças ainda em idade tenra, as fantasias das reações pulsionais, em componentes pré-genitais (orais e anais), como prova da origem precoce do complexo de Édipo.

Ela propõe a instalação do conflito edipiano e do superego em momentos muito primitivos da existência do bebê, por volta dos seis meses de idade, e não na fase fálica, como propôs Freud. Com um Superego arcaico que se forma já no bebê mediante as relações de objeto e ansiedades típicas de uma fase primitiva do Eu.

Conforme a teoria freudiana, na transferência o paciente transfere para o analista sentimentos, atitudes e desejos relacionados a figuras do seu passado, possibilitando a exploração das relações inconscientes. A transferência como referência direta ao analista, como uma figura de substituição, sendo considerada para análise somente a transferência positiva.

Em Klein, a transferência ocorre como projeção e introjeção de algo do passado que o paciente traz para o presente, como um mecanismo de defesa do ego que tenta lidar com a culpa e a ansiedade; mas também como a forma de expressão do inconsciente, onde o paciente utiliza o outro como um meio de expressão, controle e eventual transformação. A transferência é vista como a reedição das relações objetais que foram internalizadas, e não apenas como algo direto ao analista, mas tudo o que o paciente traz para a relação; como ele usa o analista além do que está sendo falado. Transferências positivas e negativas em estreita relação assim como o amor e o ódio.

Quanto a técnica, Freud a pautava na associação livre, com a linguagem verbal como suporte das relações psíquicas; e na interpretação de sonhos, considerado a porta de entrada para o inconsciente.

Contudo Klein, ao observar crianças, percebeu que a associação livre se apresenta também no brincar, por meio do qual o mundo interno e os conflitos eram encenados. Ela então propôs que a criança explorasse suas emoções dentro do setting por meio do brincar, incluindo a transferência negativa, em divergência a Freud que só trabalhava com a transferência positiva.

Klein apresenta uma postura mais flexível do analista no atendimento a crianças, permitindo que os conteúdos possam ser abordados por meio da elucidação das fantasias persecutórias, levando a simbolização.

Dois casos clínicos demonstram de forma bem evidente as diferentes abordagens desses dois grandes psicanalistas, quanto a clínica com crianças.

No caso do pequeno Hans, temos um exemplo da abordagem infantil de Freud, na qual ele utilizou o pai do menino como intermediário, considerando que a criança não pudesse ser analisada diretamente. Ele interpretou a fobia de cavalos apresentada pelo menino, a qual lhe era exposta pelo pai por meio de cartas, como expressão das angústias edípicas e do medo da castração.

Em Klein temos o caso Erna, que apresentava um quadro de neurose obsessiva grave com traços de psicose infantil. Klein utilizou a técnica do brincar como a principal via de acesso ao inconsciente da paciente, rompendo assim as barreias quanto a comunicação verbal. Através de brinquedos, lápis e papel, Erna expressava seus conflitos internos, seus medos e suas fantasias agressivas, permitindo que Klein interpretasse suas fantasias inconscientes e suas ansiedades, sendo esse caso fundamental para o desenvolvimento da teoria kleiniana, que revolucionaria a clínica para crianças.

Klein ainda expandiu essa técnica como se observa no caso Dick, onde diante de um quadro psicótico do tipo esquizofrênico com pouca adaptação a realidade, ela decide modificar sua técnica de só interpretar o material que se expressava em diversas representações, fazendo enxertos simbólicos.

A técnica freudiana visava vencer a resistência para que o conteúdo recalcado pudesse ser transferido e interpretado pelo analista, tornando-a
consciente, fortalecendo o ego do paciente para poder lidar com a realidade e com as demandas internas e externas, para que tenha controle das suas emoções.

Klein tinha o objetivo de interpretar a phantasia, relacionando os objetos do mundo interno com os do mundo externo do paciente, integrando esses objetos e com isso diminuindo a ansiedade.

Em Freud, a fantasia era considerada com um mecanismo de defesa, um meio de satisfação do reprimido que permite que o indivíduo se adapte à realidade e suporte as frustações dos desejos. Por sua vez para Klein, phantasia era vista como um elemento fundamental da experiência psíquica, como a expressão dos instintos, dos desejos e dos mecanismos de defesa, mas também um processo que molda como o indivíduo se relaciona e experimenta o mundo.

A evolução da teoria psicanalítica, de Freud a Klein, representa uma ampliação da compreensão do inconsciente, que passa a considerar tanto o conflito psíquico quanto as dinâmicas emocionais precoces. Freud focou no conflito entre instintos e moralidade e Klein explorou a dinâmica emocional das primeiras relações, dando ênfases as emoções intensas e primitivas como amor, ódio, inveja e culpa.

A partir de Klein o que passa a importar para a psicanálise não é mais a libido, mas a forma como nos relacionamos com outros objetos – pessoas, situações, acontecimento, coisas, ou seja, tudo o que dá forma ao mundo.