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A Prisão da Inveja: Uma Análise Psicanalítica

A Prisão da Inveja: Uma Análise Psicanalítica

Por Ale Esclapes - 

A inveja é um sentimento que nos engana, pois nos faz crer que os sentimentos e suas encarnações são limitados. Se o outro tem, é porque eu não tenho. A pessoa não consegue perceber, por exemplo, que o amor é infinito, e a felicidade do outro não anula a sua. Essa percepção equivocada de escassez gera uma angústia constante, uma sensação de que a vida é uma competição onde a vitória de um representa a derrota do outro. A mente invejosa opera sob uma lógica de soma zero, incapaz de conceber a abundância e a partilha como possibilidades reais, o que a aprisiona em um ciclo de ressentimento e amargura.

A inveja também faz com que não tenhamos prazer na vida e pela vida, pois com ela nunca estamos satisfeitos. Sempre queremos mais, pois a sensação de que há uma festa da qual não participamos é sempre presente. Essa insatisfação crônica nos impede de valorizar nossas próprias conquistas e alegrias, por menores que sejam. O foco se desloca do nosso próprio bem-estar para a vida do outro, que é sempre percebida como mais interessante e gratificante. Vivemos, assim, em um estado de comparação constante, onde a nossa realidade parece sempre pálida e sem graça diante da suposta felicidade alheia, o que nos rouba a capacidade de desfrutar o presente.

Isso cria um vazio em quem sente muita inveja, e faz com que a pessoa queira sempre mais e mais. Esse desejo insaciável tem o nome de voracidade. A voracidade é um apetite que não se sacia, uma tentativa desesperada de preencher um vazio interior que a própria inveja alimenta. A pessoa voraz não deseja apenas o que o outro tem, mas anseia por esgotar a fonte de prazer do outro, como se pudesse, assim, aplacar a sua própria carência. É um ciclo vicioso: a inveja gera o vazio, e o vazio alimenta a voracidade, que por sua vez intensifica a inveja, tornando o indivíduo um prisioneiro de seus próprios desejos destrutivos.

A inveja também faz com que tenhamos ódio de quem tem algo que não temos. Esse ódio não é apenas um sentimento de raiva, mas um desejo de aniquilar o objeto invejado, de destruir aquilo que nos lembra da nossa própria falta. O sucesso do outro se torna um espelho insuportável da nossa própria insuficiência, e a única forma de aliviar essa dor é atacando o que a causa. Esse impulso destrutivo, como apontou Melanie Klein, está presente desde o início da vida e se manifesta como um ataque ao objeto bom, uma tentativa de estragar aquilo que não se pode possuir.

Por fim, a inveja gera um ciúme generalizado, pois se quem amamos dá atenção para algo além de nós, ou gosta de algo ou alguém para além de nós, sentimos ciúme. O ciúme, nesse contexto, é o medo de perder o amor ou a atenção do outro para um rival. A inveja, por sua vez, é o desejo de possuir o que o outro tem. Quando a inveja se generaliza, qualquer objeto ou pessoa que receba a atenção de quem amamos se torna um rival em potencial, despertando um ciúme patológico. A pessoa invejosa não suporta a ideia de que o outro possa ter interesses e prazeres que não a incluam, pois isso a faz sentir-se excluída e desvalorizada.

Essa combinação de inveja, voracidade, ódio e ciúme, segundo Wilfred Bion, impede o crescimento mental. Para Bion, o desenvolvimento psíquico depende da nossa capacidade de criar vínculos, de aprender com a experiência e de tolerar a frustração. A inveja, ao atacar os vínculos e destruir o objeto bom, impede a formação de um mundo interno rico e criativo. A mente invejosa se torna estéril, incapaz de pensar e de se desenvolver. Superar essa combinação de sentimentos destrutivos é um dos maiores desafios da análise, pois eles representam uma barreira quase intransponível para o crescimento e a transformação pessoal.