Em um cenário educacional que se reinventa constantemente, a Escola Paulista de Psicanálise (EPP) convida à reflexão sobre as possibilidades que a modalidade de ensino a distância (EAD) oferece para a formação em psicanálise. Longe de ser uma simplificação, a psicanálise EAD, quando cuidadosamente estruturada, revela-se um caminho promissor para conciliar a necessidade de flexibilidade da vida contemporânea com a profundidade teórica e a rigorosidade clínica que a psicanálise exige. Este formato permite que o acesso ao conhecimento psicanalítico se amplie, alcançando indivíduos que, de outra forma, teriam barreiras geográficas ou de tempo para se dedicar a um estudo tão enriquecedor.
Após Reverberações: Teoria Psicanalítica: por que estudar os clássicos? — Reflexões e Desdobramentos
A Perenidade do Inconsciente: O Legado dos ClássicosA questão sobre a relevância dos clássicos na psicanálise é um convite à introspecção e ao questionamento fundamental de nossa disciplina. Após as instigantes discussões no evento Reverberações, emerge a certeza de que a obra de mestres como Sigmund Freud não é um mero artefato histórico, mas uma bússola essencial para navegar pelas complexidades do psiquismo humano. Suas formulações sobre o inconsciente, a sexualidade infantil e os mecanismos de defesa continuam a oferecer um arcabouço teórico robusto, indispensável para qualquer um que deseje compreender as profundezas da mente e suas manifestações no contemporâneo.
Por Bruno Ueno -
Durante o infindável trajeto de volta para Ítaca, seu lugar no mundo, o que Ulisses e seus marujos mais angustiavam e temiam era o trecho onde sua embarcação passaria, necessariamente, entre a ilha de Circe e os rochedos de Caribdesi. A lenda dizia que ninguém dali voltava vivo. E o motivo dos naufrágios não eram nem as traiçoeiras correntes marítimas nem as assustadoras falésias rochosas que ali pendiam ameaçadoramente sobre os tripulantes. O que eles temiam eram as guardiãs daquele local, as sereias. Dizia-se que os seduzidos pelo seu belo canto pulavam ao mar como que hipnotizados, sendo devorados em seguida. Por sua vez, os poucos sobreviventes que conseguiam voltar para contar sua história simplesmente não conseguiam contar sua história. Não lembravam o que elas lhes tinham dito, muito menos por que tinham sido poupados.
Ao se aproximarem do estreito, o rei de Ítaca ordena a seus homens que vedassem bem seus ouvidos com cera de abelha derretida e que não parassem de remar nem por um segundo. Ele, no entanto, permaneceria de ouvidos livres, bem atentos ao que diriam aqueles seres mágicos. Deteriam elas todo o conhecimento sobre o homem? Revelariam a grande verdade? Para o herói, a sobrevivência não era suficiente, a ele cabia o papel de entender quais tentações as sereias impunham ao caráter humano. Mas como ainda era um homem, e não um deus, deu outra ordem aos marujos. Determinou que o amarrassem no mastro principal do navio, para evitar que fosse levado pelo próprio desejo.
Ao adentrarem a temida região, ecoou uma voz gélida, como se o vento marítimo a tivesse trazido de um futuro distante: “O HOMEM NÃO É MAIS SENHOR EM SUA PRÓPRIA CASA”. O silêncio que se seguiu foi breve, logo interrompido pelas figuras que surgiam - as belas, as encantadoras, as letais sereias. Ao vê-las, Ulisses se apaixona, avassaladoramente. Nunca havia visto criaturas tão esplêndidas e inexpugnáveis. Foi então que as vozes das sereias irromperam em coro uníssono e melodioso, que parecia habitar as profundezas de sua mente, um local alheio ao tempo, ao espaço, às contradições morais.
Mas o que diziam as vozes? Em meio à música, Ulisses conseguiu distinguir um discurso. Elas prometiam destinos de grandeza, projetando diante de seus olhos a miragem de um Ideal do Ego, onde Ulisses era um rei viril e presente, destemido em vida e impassível na morte. Por um instante, ele se sentiu revigorado pela notícia revelada. Ele trilhava o caminho correto; inflou-se de um senso de propósito, entregue à melodia. Aos poucos, entretanto, foi percebendo que aquelas vozes eram familiares, familiares demais... eram a voz de seu pai! Sim, era a voz do antigo rei Laertes. E Ulisses foi se dando conta que o que parecia ser a promessa de glórias futuras era em realidade uma recriminação ao seu passado. Como um Superego tirânico e arcaico, o que as vozes na verdade questionavam era se Ulisses estava à altura de ser aquele grande líder. Afinal, que homem era aquele que abandonava sua fiel esposa, Penélope, e seu filho, Telêmaco, à própria sorte por dez invernos? Que marido era aquele que, em meio ao seu dever, entregava-se aos prazeres, tornando-se amante da deusa Calipso? Aquelas vozes sádicas instigavam uma culpa avassaladora a respeito de sua negligência ao mesmo tempo que colocavam em dúvida sua capacidade, e seu Ego foi ferido.
Mesmo após ter vivido tantas provações e guerras, Ulisses nunca sentira um abalo tão grande. Finalmente compreendia por que tinham sucumbido todos aqueles que as ouviam. Um sentimento de culpa, de autodepreciação, emergiu das profundezas. Naquelas vozes, Ulisses já não reconhecia o pai; identificara-se nelas. Uma voz impessoal, a voz da verdade! Era efetivamente a pulsão de morte que o assolava no interior de seu psiquismo e o instigava a se entregar. Até então sua visão de mundo era mais próxima aos conflitos da primeira tópica, onde imaginava que os seres humanos são orientados para a satisfação, e que o único conflito que divide o homem seria entre a busca de prazer e as dificuldades da realidade. As sereias têm vagina? Mas agora, o conflito parecia ser anterior e mais profundo, tal como aquele oculto na segunda tópica. O que o conduzia a adentrar o ventre das sereias já não era a busca do prazer, era antes a pulsão de retorno a um estado localizado antes do nascimento. Sem reino, sem família, sem identidade: o nada. O estado inanimado era a verdadeira meta de qualquer organismo vivo. Ele queria saltar ao mar.
Num breve momento de lucidez, Ulisses agradeceu por ter se feito amarrar ao mastro. Porém, ao olhar seus próprios pulsos, percebeu que não havia corda alguma. Teria ele esquecido de dar a ordem? Percebeu, naquele momento, que estivera livre o tempo todo para, com seu punhal, defender-se. Por que então ele – o herói da Guerra de Troia - permanecia imóvel? Embora não compreendesse a própria autossabotagem, experimentava um prazer enigmático naquela imobilidade. Inconscientemente, revivia seus pecados, tomado pelo sentimento profundo de que merecia ser punido, essência do masoquismo moral. Não lembrava, mas repetia. De maneira estranha, encontrava satisfação no próprio dano, comprazendo-se libidinalmente naquela fantasia. Sucumbira a uma inércia melancólica, preferindo a “orgulhosa reivindicação do sofrimento” a qualquer tentativa de cura. E, paradoxalmente, quanto mais Ulisses prometia renunciar aos seus impulsos, mais sacrifícios o Superego lhe exigia. O castigo final surgia, então, como único alívio para a dívida acumulada perante todos os que dele dependiam.
Felizmente, com o incansável ritmo de remada dos marinheiros, que, fiéis a seu soberano, continuavam elaborando uma resposta a sua ordem, a embarcação começava a superar a região dos rochedos. O canto das sereias esmaeceu e, com ele, seu poder de coerção. Ulisses aos poucos começou a sentir seu Ego não como mera instância defensiva, mas como polo de observação. Já não era apenas um joguete das pulsões eróticas advindas do Id nem sofria passivamente a tirania do Superego. Sentiu-se, gradualmente, posicionado de maneira mais equidistante em relação às três instâncias psíquicas. A voz que o assolava, aquela voz impessoal, voltou a ter ecos da voz de seu pai e diminuiu de intensidade. E aquelas acusações, que pareciam até há pouco tempo serem a voz da verdade, agora revelavam-se julgamentos distorcidos que subestimavam as chances de vitória ao mesmo tempo que inflavam desproporcionalmente o castigo por qualquer falha. No horizonte, uma pequena ilha se delineava, e, progressivamente, alguma pulsão interna o direcionava para a vida... Tomado por uma grande vertigem, Ulisses desmaiou.
Quando voltou a si, não lembrava de nada. Seus homens o ajudaram a se recompor o mais rápido possível. Logo retomou sua identidade. Para que a epopeia seguisse seu curso, o homem cindido precisava retornar ao mito indivisível. Restaurou o papel de herói clássico, onde a divisão psíquica é um anacronismo impertinente. Voltou a ser o “senhor em sua própria casa”, um homem que, unificado, conquista e serve de exemplo aos outros. As vozes seriam silenciadas por algum tempo, alguns séculos, até que um médico austríaco lhes dedicasse a devida atenção e teorizasse sobre elas. Talvez fosse prudente não as calar, uma vez que elas revelavam muito sobre o ser humano. Mas não naquele momento. Em Ítaca, outros épicos desafios aguardavam Ulisses.
A Psicanálise no Cenário Digital: Um Novo Horizonte
Em um mundo em constante transformação, a busca por conhecimento e aprofundamento profissional encontra na modalidade a distância um caminho promissor. A psicanálise, com sua complexidade e riqueza teórica, também se adapta a essa realidade, oferecendo a flexibilidade necessária para que mais pessoas possam acessar seus fundamentos. Na EPP, compreendemos que a profundidade do estudo psicanalítico pode ser mantida e até mesmo enriquecida por meio de plataformas digitais, desde que haja um compromisso inabalável com a qualidade pedagógica e o rigor acadêmico.
Nossa Pós-Graduação em Psicanálise do Contemporâneo - EAD é um exemplo disso, desenhada para proporcionar um percurso completo, desde as descobertas de Freud até as contribuições de Melanie Klein, Winnicott e Bion. Este curso permite que estudantes e profissionais de diversas áreas mergulhem nos mecanismos do inconsciente e nas bases do funcionamento psíquico, sem as barreiras geográficas ou de tempo. A flexibilidade do EAD não significa menor engajamento, mas sim a possibilidade de integrar o estudo à rotina, potencializando a aprendizagem.
Metodologia e Qualidade no EAD da EPP
A EPP se dedica a garantir que a experiência de aprendizado em nossos cursos EAD seja tão rica quanto a presencial, com uma metodologia que prioriza a interação e o suporte contínuo. As aulas, cuidadosamente gravadas por psicanalistas experientes como Alexandre Esclapes, Pedro Castro e Marcos Capelli, oferecem conteúdo de alta qualidade, complementado por materiais exclusivos e exercícios de acompanhamento em cada módulo. Esse formato permite que o aluno avance em seu próprio ritmo, revisitando os temas sempre que necessário, consolidando o aprendizado de forma eficaz.
Além das aulas gravadas, o diferencial de nosso modelo inclui sessões de dúvidas ao vivo semanais, proporcionando um espaço vital para a troca e aprofundamento com os facilitadores. O grupo de WhatsApp para suporte também cria uma comunidade de aprendizado ativa, onde questões podem ser discutidas e insights compartilhados. Essa combinação de recursos assegura que o aluno não se sinta isolado, mas parte integrante de uma jornada de formação robusta e apoiada.
A Psicanálise Contemporânea e a Prática Clínica
Estudar psicanálise na modalidade EAD da EPP significa ter acesso a um currículo que abrange desde os pilares freudianos até as expansões pós-kleinianas e o pensamento contemporâneo de Bion, preparando o aluno para uma compreensão abrangente do psiquismo humano. Essa base teórica sólida é fundamental para quem busca não apenas o conhecimento, mas também a aplicação prática na clínica ou em outras áreas da saúde mental. A capacidade de articular conceitos complexos com a realidade do sujeito contemporâneo é um dos pilares de nossa formação.
Ao final do percurso, o certificado de Pós-Graduação reconhecido pelo MEC, em parceria com a FaCiencia, atesta a seriedade e a validade acadêmica do curso, abrindo portas para novas possibilidades profissionais e pessoais. A psicanálise, em sua essência, é um convite à reflexão e ao autoconhecimento, e a modalidade EAD da EPP torna essa jornada ainda mais acessível e adaptável às demandas da vida moderna. Convidamos você a explorar essa oportunidade de aprofundamento e transformação.
Em um mundo em constante transformação, a busca por conhecimento e desenvolvimento pessoal se adapta a novas modalidades, e a psicanálise não é exceção. A EPP – Escola Paulista de Psicanálise convida a todos para uma reflexão crucial em nosso próximo evento Reverberações, com o tema "Psicanálise EAD: flexibilidade e profundidade". Este encontro propõe desmistificar a ideia de que o ensino a distância compromete a riqueza teórica e a imersão necessárias para a compreensão dos complexos mecanismos do inconsciente, abrindo um diálogo sobre as possibilidades que a modalidade EAD oferece para a formação psicanalítica contemporânea.
A Psicanálise e o Zeitgeist: Um Convite à ReflexãoEm um cenário global de incessantes transformações, a Escola Paulista de Psicanálise (EPP) propõe um aquecimento intelectual para sua 'Semana da Psicanálise EPP', um evento que convida à imersão nas complexidades da mente humana e da cultura. Não se trata apenas de uma introdução, mas de uma provocação para que possamos, juntos, interrogar a ressonância da teoria psicanalítica diante dos desafios impostos pelo contemporâneo. A psicanálise, em sua essência, sempre se dedicou a desvelar o que subjaz às aparências, e hoje, mais do que nunca, essa capacidade de escuta profunda se mostra indispensável para decifrar as novas formas de subjetividade e sofrimento que emergem.
A recente edição das Reverberações da EPP nos conduziu a um ponto fulcral da formação psicanalítica: a análise pessoal. Não se trata de um mero adendo ao currículo, mas da própria substância que molda o psicanalista em sua capacidade de escuta e intervenção. Como Ricardo Reis talvez ponderasse, é na quietude e no confronto com o próprio abismo interior que a verdadeira sabedoria para guiar outrem se ergue, sólida e inabalável. A EPP compreende que a teoria, por mais robusta que seja, encontra seu solo fértil na experiência vivida e elaborada do analista.
Em um cenário educacional que se reinventa constantemente, a psicanálise, com sua intrínseca complexidade e aprofundamento, encontra novos caminhos para se fazer presente. A Escola Paulista de Psicanálise (EPP) compreende que a busca pelo conhecimento não pode estar restrita a barreiras geográficas ou temporais, e é nesse espírito que a modalidade EAD se apresenta como uma ponte valiosa. Longe de ser um atalho, o ensino a distância, quando estruturado com rigor e paixão, oferece uma flexibilidade sem precedentes, permitindo que o estudo da alma humana se integre à dinâmica da vida contemporânea, sem perder sua essência transformadora.
A Base Inegociável da PsicanáliseNa Escola Paulista de Psicanálise (EPP), compreendemos que o estudo aprofundado dos clássicos não é um luxo, mas uma necessidade inegociável para qualquer um que deseje trilhar os caminhos da psicanálise com seriedade e profundidade. As obras de Sigmund Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott e os pós-kleinianos representam os alicerces sobre os quais toda a estrutura do pensamento psicanalítico foi erguida, oferecendo ferramentas conceituais robustas para desvendar as complexidades da mente humana. É nesse retorno constante às fontes primárias que reside a vitalidade de nossa disciplina, permitindo-nos não apenas entender suas origens, mas também projetar seu futuro com discernimento.
A Perenidade do Pensamento PsicanalíticoNa Escola Paulista de Psicanálise (EPP), compreendemos que o estudo da psicanálise é uma jornada contínua de aprofundamento e reflexão, onde as raízes teóricas se entrelaçam com as demandas do presente. A pergunta “por que estudar os clássicos?” não é apenas retórica, mas um convite à compreensão da solidez e da vitalidade de um campo de saber que, desde sua gênese com Freud, tem se mostrado fundamental para a compreensão da condição humana. Revisitá-los é mergulhar na fonte de onde brotam as mais complexas e sutis elaborações sobre o psiquismo, oferecendo um alicerce inabalável para a prática e a pesquisa.
A Perenidade dos FundamentosEm um cenário de constante e acelerada evolução, onde novas teorias e abordagens surgem a cada dia, a Escola Paulista de Psicanálise (EPP) convida à reflexão sobre a importância inegável de revisitar os pilares da psicanálise. A pergunta "Teoria Psicanalítica: por que estudar os clássicos?" não é retórica, mas um convite profundo a compreender como os alicerces lançados por pensadores como Sigmund Freud, Melanie Klein e Donald Winnicott continuam a moldar nossa compreensão do psiquismo humano. Estudar os clássicos é mergulhar na gênese de conceitos que ainda hoje são indispensáveis para a clínica e para a reflexão sobre a subjetividade contemporânea.
Por Emanuelle Duarte -
Há algo de indomável na psicanálise. Vai ver seja isso que a mantenha viva. Sigmund Freud não nos deixou um sistema — deixou uma inquietação. E, ao reformular sua própria teoria, ao deslocar seus próprios alicerces, ele não apenas produziu um novo modelo do aparelho psíquico: ele instituiu, no coração da psicanálise, a impossibilidade de seu fechamento. A psicanálise nasce, assim, condenada, ou destinada, a se refazer. Há, nesse gesto, uma ética. Uma recusa em cristalizar o humano em fórmulas definitivas. Uma espécie de saber que se sabe incompleto. E isso não é fraqueza: é força. Talvez por isso ela ressoe tão bem com João Guimarães Rosa, para quem viver é sempre travessia. Nada está pronto. Nada termina. Tudo está sendo.
Se, em um primeiro momento, Freud acreditou que o esquecimento poderia ser desfeito, que bastaria trazer à consciência o que foi recalcado, logo a própria clínica começou a rachar essa certeza. Algo não cedia. Algo insistia.
O sujeito não lembrava.
O sujeito repetia.
Essa repetição não era erro: era destino em ato. Em textos como A interpretação dos sonhos, ainda havia a promessa de que o esquecido poderia ser recuperado, como quem desenterra um passado soterrado. Mas, pouco a pouco, Freud se viu diante de algo mais inquietante: havia um esquecimento que não se resolvia pela lembrança.
Há um esquecimento que estrutura.
Em Além do princípio do prazer, a cena muda. O sujeito não apenas sofre, ele repete o sofrimento. Como se houvesse nele uma fidelidade obscura ao que o fere. E então, com O
ego e o id, o golpe final na ilusão de transparência: o eu não é senhor de si. O ego também é atravessado pelo inconsciente. O superego vigia, acusa, impõe. O id pulsa, insiste, exige.
O sujeito é conflito.
O esquecimento já não é um simples esconderijo de conteúdos recalcados. Ele é efeito dessa guerra interna, dessa cena em que forças heterogêneas disputam o corpo e a linguagem. A partir daí, não há mais retorno. A psicanálise abandona a fantasia de que tudo pode ser lembrado. Abandona a promessa de um sujeito plenamente consciente de si. Abandona, enfim, a ideia de que há um ponto final possível. Porque o que não pode ser lembrado não desaparece.
O que não se diz, se faz.
O que não se recorda, se encena.
Como nas tragédias, como no destino de Édipo, o sujeito caminha dentro de uma história que não domina, atuando naquilo que ignora. Ele vive aquilo que não sabe. E a clínica (ah, a clínica!) já não pode ser arqueológica. Não se trata mais de escavar o passado como quem busca uma verdade intacta. Trata-se de sustentar a cena, de escutar a repetição, de permitir que algo do que se atua possa, quem sabe, ser elaborado.
Não lembrar, mas elaborar.
Não revelar, mas trabalhar.
Não concluir, mas sustentar.
A psicanálise se torna, inevitavelmente, um manifesto contra o acabamento. Porque se o esquecimento é estrutural, então não há totalidade possível. Não há cura como fechamento. Não há saber definitivo sobre o sujeito.
Há processo.
Há deslocamento.
Há reescrita.
A cada análise, a cada escuta, a cada reformulação teórica, a psicanálise se redescobre e, ao fazê-lo, desfaz-se um pouco também. Como se sua própria existência dependesse dessa oscilação entre construção e ruína. Freud começou algo que ele mesmo recusou terminar. Daí, sua maior herança: não um corpo teórico fixo, mas um campo em movimento. Um saber que se constrói e se desconstrói, que avança e se corrige, que afirma e se interroga. Pensar o lugar do esquecimento na segunda tópica é, portanto, aceitar essa instabilidade como condição. O esquecimento não é uma falha a ser eliminada, é, na verdade, uma engrenagem do sujeito. É o que impede o fechamento. É o que faz retornar, insistir, repetir. E, paradoxalmente, é também o que torna possível a elaboração. Pois se tudo pudesse ser lembrado, nada precisaria ser trabalhado. Sem trabalho, sem esse labor lento, imperfeito, interminável — não há psicanálise. Quiçá, no fim, reste isso:
A psicanálise não promete respostas.
Ela sustenta perguntas.
Não promete completude.
Ela insiste no inacabado.
Como a própria vida (como Rosa já sabia), ela não se resolve.
Ela se reinventa.