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Breve História do Grupo Pavese

Desenvolvimentos Teóricos - O Grupo Pavese nasce fisicamente em 2005, por iniciativa de Antonino Ferro, que reúne ao seu redor um grupo de seus alunos provenientes de várias partes da Itália e residentes em Pavia, já membros da Sociedade Psicanalítica Italiana, da Associação Psicanalítica Internacional e, naquele momento, ainda associados ao Centro Milanês de Psicanálise. O grupo começou a se reunir à noite no consultório de Ferro, inicialmente discutindo exclusivamente sessões de análise.Cada um, em sua própria individualidade, mas também por meio de frequentes intercâmbios com aqueles que viriam a se tornar integrantes do Grupo Pavese, já havia, há vários anos, adotado e estudado a teoria de Wilfred Ruprecht Bion, que chegou à Itália graças a Francesco Corrao, que, em diversas ocasiões, durante os anos 1970, havia convidado Bion a Roma para seminários, promovendo seu pensamento.O trabalho de Ferro e Bezoari (1989), “Escuta, interpretação e funções transformadoras no diálogo analítico”, representa a síntese de múltiplas influências que, de diferentes vertentes, estavam desenvolvendo teorias sob uma perspectiva de Campo Bipessoal, sobretudo os cônjuges Willy Baranger e Madeleine Baranger, que, com essa proposta, abandonam a visão unipessoal de Freud, ou ainda Robert Langs (1978), que enfatiza o movimento em espiral do diálogo analítico.Em particular, o trabalho de Ferro e Bezoari tem o mérito de estabelecer um vínculo claro entre as contribuições dos Baranger e de Bion e, sobretudo, marca o nascimento da Teoria do Campo Analítico de vertente pavese, que se torna objeto de estudo e desenvolvimento do grupo.O grupo percebe que, nos três livros de Bion — Transformações (1965), Second Thoughts, ao qual acrescentou os Comentários (1967), e Atenção e Interpretação (1970) —, além da trilogia Memória do Futuro (1975), Bion promove mudanças que permitem definir um primeiro período de Bion, mais kleiniano em suas obras anteriores, e um segundo Bion, no qual emergem conceitos e uma linguagem completamente novos, que se afastam da metapsicologia freudiana e kleiniana, construindo sua própria arquitetura metapsicológica.Isso começa por uma concepção diferente do inconsciente: ele deixa de ser um recipiente do reprimido que deve ser desvelado e passa a ser um inconsciente que se cria continuamente na relação, com o objetivo de desenvolver a capacidade de sonhar os próprios impasses emocionais.O grupo decide seguir esses segundos desenvolvimentos, que sente serem mais coerentes com uma maneira de trabalhar na qual está se reconhecendo.Se a teoria do Campo Bipessoal dos Baranger está mais fundamentada no conceito de Fantasma, de identificação projetiva e no conceito de Bastião, os trabalhos do segundo Bion procuram um Campo mais relacionado à teoria das Transformações, na qual a identificação projetiva não possui mais apenas um valor patológico, mas assume um caráter mais relacional e comunicativo.Dessa perspectiva nascerão os conceitos de Continente e Continente/Conteúdo, com seus grafos, ♀ e ♀↔♂, mas sobretudo o conceito de O, como a coisa em si, que não pode ser conhecida diretamente.A essa visão, o Grupo Pavese acrescenta, ao longo do tempo, uma teoria do personagem como vetor de emoções à espera de transformações, com importantes consequências para a técnica e inaugurando uma Teoria do Campo pós-bioniana.Os desenvolvimentos mais recentes caminham para a afirmação de um vértice do NÓS, isto é, para considerar virtualmente todo acontecimento da análise como uma cocriação, definindo uma “ontologia do NÓS” e uma psicanálise ontológica, em vez de epistemológica, bem como uma absoluta corresponsabilidade, no plano inconsciente, pelos acontecimentos da análise entre analista e paciente.Com isso, afasta-se do modelo bipessoal Eu/Tu e adota-se uma matriz intersubjetiva (Kurt Lewin, Husserl, Merleau-Ponty), na qual o objeto de investigação é o ENTRE, o Campo — pensando, por exemplo, no vaso de Rubin.Nesse contexto, ganha interesse o estudo de sua meteorologia, de seu clima e da consideração da dupla como um grupo, com seus pressupostos básicos, que constituem o O do Campo.A história do sujeito não desaparece, mas permanece em segundo plano, com a finalidade de criar um espaço no qual o onírico possa se desenvolver mais amplamente.O analista, com seu Eu, permanece sempre como o garantidor do processo analítico.Basta pensar na famosa citação de Donald Woods Winnicott, “não existe um bebê, não existe uma mãe”, com a qual ele apreende a dimensão do crescimento mental somente e exclusivamente dentro de uma relação, como no modelo mãe/bebê.De maneira autorizada, Otto Friedmann Kernberg (2011), Anthony Elliott e Jeffrey Prager (2016) e Stephen Seligman (2017) incluíram a Teoria do Campo Analítico entre as principais correntes da psicanálise contemporânea.Otto Friedmann Kernberg (2011, p. 8), em “Divergências na psicanálise contemporânea”, afirma que: “Os desenvolvimentos mais significativos dentro do amplo espectro da teoria psicanalítica dizem respeito […] à abordagem neobioniana, de um lado, e à abordagem relacional, de outro. A primeira ampliou sua esfera de influência no contexto europeu, sobretudo na Itália e, em certa medida, também na América Latina, por impulso dos trabalhos de Antonino Ferro.”Logo, no grupo, surge a necessidade de dar voz às ideias que estavam emergindo, com a publicação, em 2007, do primeiro volume, “Sonhar a análise: desenvolvimentos clínicos do pensamento de Wilfred Ruprecht Bion”.Seguiram-se outros três livros coletivos, todos traduzidos para diferentes idiomas, além da produção científica individual dos integrantes.Também foram publicados outros volumes nos quais aparecem trabalhos dos membros do grupo juntamente com outros analistas de diferentes orientações teóricas, como “Contenho Multidões”, Atos do décimo aniversário do Centro Psicanalítico de Pavia (2023), com prefácio de Howard Levine e posfácio de Jay Greenberg.Ao longo dos mais de trinta anos seguintes, quem principalmente desenvolve a Teoria do Campo Analítico é Ferro, juntamente com o grupo de alunos de Pavia.A intenção inicial era aprofundar a reflexão sobre o novo paradigma teórico do Campo, por meio do qual se chegou à Teoria do Campo Analítico pós-bioniana.É importante destacar que foi do Grupo Pavese que surgiu a ideia e o estímulo para que todos os analistas de Pavia fundassem, em 2011, um Centro Psicanalítico de Pavia, que hoje conta com mais de 60 membros, não apenas de Pavia.É preciso esclarecer que o Grupo Pavese se constitui como um componente externo ao Centro, com sua própria especificidade teórica e de estudo, enriquecendo a multiplicidade teórica do Centro Psicanalítico de Pavia.A atualidade do grupo é hoje representada por aqueles que, autenticamente, continuam, juntamente com suas próprias linhas pessoais de desenvolvimento, uma reflexão sobre o paradigma do Campo e fazem dele seu atual modelo de trabalho.Os membros atuais são: Antonino Ferro, Giuseppe Civitarese, Maurizio Collovà, Fulvio Mazzacane, Elena Molinari, aos quais se juntaram, em 2014, Mauro Manica e Violet Pietrantonio.Desde sempre, embora não esteja concretamente presente no grupo, Michele Bezoari possui, para todos nós, um importante valor como referência teórica no que diz respeito à teoria do Campo e não apenas a ela, sendo certamente um refinado teórico da psicanálise.No modelo bioniano, enfatiza-se a maneira de conceber o inconsciente como função psicanalítica da mente, a importância do pensamento onírico da vigília, e o percurso analítico concebido como expansão da capacidade de sentir, pensar e sonhar.O modelo de Campo conduz a uma escolha forte: considerar o percurso psicanalítico como bipessoal e a construção das interpretações como fruto de uma escrita a quatro mãos.Fundamental para a construção do modelo onírico pós-bioniano de Campo foi a hibridização com alguns conceitos provenientes da narratologia, sobretudo a teoria do personagem e a leitura do sonho, mas também de toda comunicação do paciente como uma “obra aberta” (Umberto Eco, 1960).Um breve resumo do percurso do Grupo Pavese:Um breve resumo de parte do percurso realizado pelo Grupo Pavese pode ser feito retomando os temas dos quatro livros publicados.No primeiro livro produzido pelo grupo, em 2007, “Sonhar a análise” (Dreaming analysis), também traduzido para o espanhol (Soñar el análisis), o foco esteve nos desenvolvimentos clínicos do pensamento de Bion.A importância do pensamento onírico da vigília e da reverie, as vicissitudes da relação continente-conteúdo, desde a avaliação da possibilidade de sustentação das emoções favorecida pelo enquadre analítico até a construção extrema de conteúdos-assassinos, e os sintomas que sinalizam a presença de núcleos hiperbeta são alguns dos temas abordados.O segundo livro, de 2011, “Psicanálise em amarelo” (Psychoanalysis as a detective story), foi uma maneira de desenvolver de forma diferente o paradigma indiciário, que esteve na base do trabalho freudiano.Do analista dotado de um saber enciclopédico que, com racionalidade científica, seguindo indícios, buscava interpretações resolutivas e a descoberta do culpado, chegou-se à descrição de um analista imerso no Campo, que procura digerir, juntamente com o paciente, as emoções e os pensamentos novos que o encontro analítico ativa.Por meio dos momentos de emergência do Campo, o analista procura identificar o aspecto patológico que a situação psicanalítica coloca em cena naquele momento.O analista está consciente de seus limites e de sua inevitável participação no adoecimento do Campo analítico e tem como objetivo a cura das inevitáveis doenças do Campo analítico, de modo que possa deixar para a dupla analítica e para o paciente uma memória imunológica.Inevitavelmente, em uma situação como a descrita, emergirão aspectos mais humanos, e não apenas profissionais, que poderão constituir um recurso nos momentos em que o aspecto lúdico, o “talking as dreaming” (Thomas Ogden), permitir uma troca livre e criativa.O analista se resigna a ter de reinventar um método analítico com cada paciente e a poder se tornar, dentro das turbulências do Campo, não apenas investigador, mas também culpado e vítima.No terceiro livro, de 2013, “Psicanálise hoje”, traduzido para o inglês em 2018 com o título Contemporary Bionian Theory and Technique in Psychoanalysis, são abordados, a partir da perspectiva da Teoria Bion-Campo, os capítulos mais importantes da semiologia psicanalítica:* Enquadre;* Transferência e contratransferência;* Interpretação;* O sonho e o onírico;* As vicissitudes do percurso terapêutico;* As variações na psicanálise da criança e do adolescente.Os percursos dos diversos capítulos desenham uma evolução histórica, mas, com o auxílio de material clínico, delineiam uma psicanálise cujo objetivo não é o desvelamento, mas a expansão do inconsciente.O olhar sobre os fundamentos da psicanálise tende a evidenciar sobretudo as descontinuidades em relação aos modelos mais clássicos. Isso tanto para ampliar a possibilidade de utilização do instrumento analítico em situações diferentes daquelas clássicas — tratamento de crianças e adolescentes, de pacientes psicóticos e borderline, psicanálise de grupos e em instituições — quanto para não perder a função de pesquisa que toda experiência analítica deve ter, transformando ambos os participantes.Complementar a esse livro é o seguinte, “A clínica psicanalítica hoje” (Psychoanalytic Practice Today), que seria publicado em inglês em 2019 e é composto por duas partes.Na primeira, são abordadas algumas categorias clínicas sob uma perspectiva de Campo, desvinculadas da nosografia tradicional:* Anorexia;* fobia;* Obsessividade;* Depressão;* Transtorno borderline;* Paranoia;* Psicose.Na segunda parte, são tratadas algumas emoções e sentimentos:* Abandono;* Exclusão;* Raiva;* Vergonha;* Ciúme;* Traição;* Desprezo;* Surpresa;* Tristeza.A psicopatologia é concebida como a impossibilidade de sonhar a própria experiência emocional, e o Campo como o espaço no qual os sintomas podem encontrar desenvolvimentos por meio de narrativas em um clima onírico.Os capítulos sobre as emoções procuram delinear uma espécie de semiologia afetiva do encontro analítico, partindo sempre da ideia de     que as emoções envolvem a dupla analítica e de que a difícil gestão de sua intensidade é o motor que impulsiona a mudança em análise.O objetivo é desbloquear as emoções e os pensamentos ligados a elas, libertá-los da repetição e gerar novas histórias.

Um Canteiro de Obras Chamado Aparelho Psíquico

Por Karin C. Grabner -  Realizar a leitura dos três artigos metapisicológicos em conjunto, foi como observar Freud desenhando uma estrutura enquanto ainda testava suas fundações. Menos um sistema fechado e mais de um canteiro de obra ainda em atividade.Em Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico, o que aparece é quase uma cena inaugural: o aparelho psíquico ainda muito próximo de uma lógica imediata, regido pelo princípio do prazer, buscando alívio como quem abre saídas rápidas para não colapsar sob a pressão. Há algo de provisório nisso, como uma estrutura que ainda não suporta demora. A satisfação pode até ser alucinatória, como se bastasse imaginar para resolver. Mas a realidade não se deixa contornar tão facilmente. Ela entra como uma espécie de exigência estrutural: impõe limites, exige cálculo, pede adiamento. E o aparelho, então, se reorganiza. Não abandona o que era, mas passa a funcionar também de outro modo. A fantasia permanece, quase como um espaço interno onde a antiga lógica continua operando, silenciosa, mas ativa.Quando chego em Os destinos da Pulsão, a sensação é de que Freud se aproxima ainda mais do que sustenta essa construção por baixo. A pulsão aparece ali como uma força contínua, sem pausa, que vem de dentro, e que, por isso, não pode ser evitada. Não há fuga possível. A reversão em seu oposto, o retorno ao próprio Eu, a repressão e a sublimação aparecem não como categorias rígidas, mas como caminhos que vão sendo abertos para que essa força encontre alguma forma de circulação. Ou seria mais como um rio? Um caminho único que contorna, não cessa, mas encontra seus desvios durante seu curso? Nesse movimento se instauram as primeiras relações objetais. O outro não aparece como dado, mas como algo que passa a existir psiquicamente na medida em que é investido. A libido sai, se dirige para fora, encontra algo, se liga. Mas não permanece ali por garantia. Pode retornar, se retrair, se redistribuir. O laço com o objeto depende dessa circulação, não de uma fixação definitiva. E isso abre uma questão que, para mim, fica em suspenso: o que acontece com aquilo que nunca chegou a encontrar um objeto? Permanece como resto, como tensão sem forma, ou sempre encontrará outras vias de se fazer presente?É nesse ponto que Introdução ao narcisismo me parece me dar algumas pistas quando Freud traz um olhar para o lugar onde essa energia se deposita. A ideia de que a libido investe o próprio Eu, me parece, como se antes de qualquer abertura ao mundo, houvesse uma espécie de recolhimento. Como se toda a energia estivesse inicialmente concentrada no próprio núcleo da construção. O Eu não é apenas quem organiza, ele é também aquilo que recebe investimento. O aparelho deixa de ser apenas um funcionamento e passa a ter um ponto de referência. Ele é habitado.Mesmo quando o sujeito se volta para o mundo, algo permanece voltado para si, como um centro que nunca se esvazia por completo. A pulsão insiste, e o aparelho psíquico responde redesenhando seus próprios limites. O que me leva a pensar: existe um equilíbrio possível? Ou estamos sempre lidando com uma estabilidade apenas momentânea, sempre à beira de se refazer? Se tento amarrar tudo isso, o que se forma não é exatamente uma teoria fechada, mas um campo em movimento. Um aparelho que se organiza entre prazer e realidade, atravessado por forças internas que não cessam, e sustentado por uma economia que distribui, recolhe e desloca investimentos o tempo todo.Talvez seja por isso que não haja um ponto de chegada estável. O próprio sujeito não se fixa. Ele circula. Investe, retira, retorna. E a meu ver, é nesse movimento, mais do que em qualquer forma acabada, que o aparelho psíquico vai se constituindo.Assim, mesmo antes de uma teoria pulsional formalizada, o que Freud esboça aqui, na minha leitura, é menos uma teoria acabada e mais uma lógica de constituição: um aparelho que se organiza entre exigências que não cessam, que precisa dar destino àquilo que o atravessa e que só encontra o outro na medida em que consegue investir para além de si. O narcisismo não aparece, então, como uma etapa a ser abandonada, mas como essa base silenciosa que sustenta (e ao mesmo tempo ameaça) toda possibilidade de ligação.

O Narcisismo na Formação do Aparelho Psíquico

Por Celso Augusto Alberti -  Em 1914, quando Freud escreveu Introdução ao narcisismo, ele ainda não havia sistematizado sua teoria pulsional da forma como faria em Pulsões e seus destinos e em O inconsciente, ambos de 1915. Mesmo assim, esse texto de 1914 ocupa um lugar muito importante na obra freudiana, porque nele aparecem de forma mais concentrada alguns problemas que já vinham sendo discutidos e que depois ganhariam maior desenvolvimento. Entre eles, está justamente a questão do narcisismo, que se torna central para pensar a formação do Eu, a distribuição da libido, as primeiras relações de objeto e, de modo mais amplo, a própria constituição do aparelho psíquico.Para entendermos isso melhor, vale começar pela teoria das pulsões. Em Pulsões e seus destinos, Freud define a pulsão como algo que fica no limite entre o somático e o psíquico, não se tratando simplesmente de um estímulo do corpo, nem de uma ideia já pronta, mas de uma exigência de trabalho que parte do corpo e pressiona o psiquismo em busca de satisfação. Freud distingue nela 4 fatores que se interrelacionam: a fonte, a pressão, o alvo e o objeto. A fonte é o processo corporal de onde ela parte (nasce); a pressão é a força constante e insistente atuando no psiquismo; o alvo é sempre alguma forma de satisfação; e o objeto é aquilo (algo ou alguém) por meio do qual essa satisfação pode ser alcançada. Essa formulação permite compreender que a vida psíquica não nasce pronta e nem unificada, mas se forma sob a pressão de exigências pulsionais que pedem descarga, satisfação, transformação e representação. Nesse ponto, em O inconsciente, Freud avança ao mostrar que o inconsciente não deve ser entendido apenas como aquilo que não está presente na consciência. Ele funciona como um sistema com características próprias, em que predominam os processos primários, o deslocamento, a condensação, a ausência de contradição, a atemporalidade e uma relação diferente com a realidade. Isso mostra que o aparelho psíquico não pode ser pensado como algo simples ou linear; ele vai se formando à medida que precisa dar algum destino às pulsões, organizar representações e lidar com tensões internas que não desaparecem por conta própria. É justamente aí que Introdução ao narcisismo ganha importância maior. Freud afirma que o Eu não existe desde o começo como uma unidade pronta e essa é, para mim, uma das ideias mais importantes do texto. No início, não há um Eu já constituído que possa investir em si mesmo. O que existe são pulsões parciais, ligadas a zonas erógenas, funcionando de forma autoerótica, que encontram satisfação no próprio corpo sem que haja ainda uma unidade psíquica organizada. O narcisismo surge quando essa dispersão começa a se reunir em torno de uma imagem mais unificada do Eu. Em outras palavras, ele marca um momento importante da constituição subjetiva. Essa passagem do autoerotismo ao narcisismo ajuda muito a pensar a formação do aparelho psíquico. No autoerotismo, a satisfação acontece no próprio corpo, mas isso não quer dizer independência real. Desde o início, o bebê depende de um outro para viver. A alimentação, o cuidado, o alívio da tensão e a própria experiência de satisfação passam por esse outro (exemplo: a mãe). É nesse ponto que as pulsões sexuais se apoiam nas funções de autoconservação e começam a aparecer os primeiros vínculos com o objeto. O objeto, então, não surge primeiro como algo amado em sentido pleno, mas como aquilo ou aquele por meio de quem a satisfação se torna possível. Por isso, as primeiras relações de objeto não podem ser separadas da constituição do Eu. Num primeiro momento, o objeto vale por sua função satisfatória. Mas, pouco a pouco, com a repetição das experiências de presença e ausência, satisfação e frustração, ele vai ganhando consistência psíquica. É nesse movimento que começa a se estabelecer uma diferença entre dentro e fora, entre Eu e não Eu. O aparelho psíquico vai se formando justamente nesse trabalho de dar alguma organização a essas experiências e às tensões que delas decorrem. Nesse contexto, o narcisismo deixa de ser entendido como simples amor-próprio, no sentido comum da palavra, e passa a ser visto como uma forma fundamental de investimento libidinal. Freud mostra que a libido pode se dirigir tanto aos objetos externos quanto ao próprio Eu. O chamado narcisismo primário corresponde ao momento em que o Eu em constituição se torna o principal alvo desse investimento. Isso é decisivo porque mostra que o Eu também pode ser objeto da libido. Já não se trata apenas de pulsões dispersas, mas de uma certa centralização libidinal em torno de uma unidade nascente. Essa formulação tem consequências importantes. Antes disso, a oposição principal era entre pulsões do Eu e pulsões sexuais. Com a introdução do narcisismo, Freud percebe que o próprio Eu pode ser investido pela libido. Surge, então, a distinção entre libido do Eu e libido de objeto. Essa circulação é importante porque mostra que a relação com os objetos não elimina o investimento em si mesmo, e que o retorno da libido ao Eu também não apaga a importância dos objetos. Há, portanto, uma mobilidade constante, e é nela que a constituição subjetiva se deixa pensar. Por isso, o narcisismo ocupa um lugar tão importante na formação do aparelho psíquico. Ele permite articular a dispersão pulsional inicial, a constituição do Eu e o surgimento das relações de objeto. Sem esse conceito, a passagem do autoerotismo para a escolha de objeto talvez ficasse menos compreensível. O narcisismo mostra que, antes de amar o objeto, o sujeito precisa se constituir como unidade investida. O outro só pode aparecer como objeto de investimento quando o Eu já começou, de algum modo, a se organizar. Assim, para Freud, o narcisismo não deve ser entendido como um fechamento completo do sujeito sobre si mesmo. Ele é um momento necessário da constituição psíquica e é a partir dele que o Eu começa a se organizar, que a libido encontra um centro provisório e que o outro pode aparecer como objeto de amor, conflito, perda e investimento. Pensar o narcisismo, portanto, é também pensar como se formam o Eu, a economia libidinal e o próprio aparelho psíquico.

O Corpo que Sonha: Campo Incorporado e Reverie Somático na Clínica Psicanalítica

Por Pedro Castro -  Uma reflexão epistemológica e técnica a partir da obra de Giuseppe Civitarese Introdução: Para além da palavra A psicanálise sempre reconheceu que a comunicação ultrapassa o verbal. Freud já nos alertava para a "outra cena" que se expressa nos sonhos, nos lapsos e nos sintomas. Contudo, foi com Bion e os desenvolvimentos da teoria de campo que pudemos avançar na compreensão de como o inconsciente se manifesta não apenas em representações imaginativas, mas também em sensações, afetos e ações que ocorrem no encontro analítico. Giuseppe Civitarese, em seu artigo "Campo incorporado e reverie somático", propõe uma expansão radical do conceito de reverie: ela não se restringe a imagens e pensamentos oníricos, mas inclui sensações corporais, gestos e ações aparentemente banais do analista. Essas manifestações, longe de serem meros ruídos contratransferenciais ou enactments a serem evitados, constituem vias privilegiadas de acesso aos níveis mais arcaicos da experiência emocional - aqueles que ainda não alcançaram simbolização e que se inscrevem no que Civitarese chama de campo incorporado. Este texto tem por objetivo apresentar os fundamentos epistemológicos dessa noção, diferenciá-la de concepções retificadoras e oferecer subsídios para sua utilização na clínica cotidiana. Para isso, partiremos das premissas da teoria de campo bioniana, examinaremos o estatuto do corpo como instrumento de conhecimento e ilustraremos, com exemplos clínicos, como o analista pode "sonhar no corpo" aquilo que o paciente ainda não pode sonhar. 1. O campo analítico como terceiro inconsciente Antes de adentrarmos o conceito de reverie somático, é necessário situar o modelo de campo que o sustenta. Civitarese filia-se à tradição inaugurada por Bion e desenvolvida por autores como Ferro e Ogden, na qual o campo analítico é concebido como um terceiro inconsciente que emerge do encontro entre duas subjetividades. Não se trata de uma entidade metafísica, mas de um instrumento de observação que nos permite pensar os fenômenos clínicos como cocriações. Nesse modelo, todo evento na análise - uma palavra, um silêncio, um gesto, uma sensação - é visto como expressão do campo, isto é, como resultante da interação inconsciente entre paciente e analista. A mente individual cede lugar a uma matriz relacional onde as fronteiras entre sujeito e objeto se tornam permeáveis. É nesse contexto que o corpo do analista deixa de ser um mero receptáculo de projeções e passa a ser compreendido como parte integrante do campo: um lugar de inscrição e transformação de experiências ainda não simbolizadas. 2. O que é reverie somático? Tradicionalmente, a reverie designa a capacidade do analista de acolher e transformar, por meio de devaneios e imagens, as comunicações inconscientes do paciente. Civitarese propõe que essa capacidade se estende ao domínio do sensível: sensações corporais, impulsos motores, reações fisiológicas e até ações automáticas podem ser compreendidas como reveries em estado bruto. Reverie somático é, pois, a manifestação corporal de um processo de transformação psíquica ainda incipiente. Quando o analista sente um aperto no peito, uma vontade de tapar os ouvidos, um impulso de se mexer na cadeira ou mesmo um gesto repetitivo como beber água em sincronia com o paciente, ele está, potencialmente, sonhando no corpo aquilo que o campo analítico está vivendo. A diferença crucial entre reverie somático e enactment (entendido como atuação inconsciente) reside na atitude reflexiva posterior. O enactment tende a ser visto como uma falha técnica, uma repetição não elaborada. O reverie somático, por sua vez, é acolhido como dado clínico: a sensação ou ação é observada, interrogada e, posteriormente, interpretada à luz do campo. Não se trata de agir deliberadamente, mas de deixar-se afetar e, em seguida, despertar para o significado que essa afetação revela. 3. Epistemologia do corpo: o corpo como instrumento de conhecimento Para que o reverie somático não seja confundido com uma comunicação mística ou com uma simples descarga emocional, é fundamental compreender seu estatuto epistemológico. Civitarese recorre à fenomenologia de Merleau-Ponty e à noção de intercorporalidade para fundamentar a ideia de que o corpo é, ele mesmo, um lugar de produção de sentido. Na tradição fenomenológica, o corpo não é um objeto entre outros, mas a condição de possibilidade de toda experiência. É por meio dele que estamos no mundo e que nos relacionamos com os outros. Na clínica, isso implica que a comunicação entre analista e paciente se dá também em um nível pré-reflexivo, tônico e postural. Posturas, ritmos e sincronias motoras são formas de diálogo que precedem e sustentam a troca verbal. Bion, por sua vez, nos oferece o conceito de sistema protomental, um estado indiferenciado em que emoções, sensações e pensamentos se confundem. É nesse registro que o reverie somático opera: o analista, ao sentir uma tensão muscular ou um cansaço súbito, está em contato com uma dimensão do campo que ainda não foi "digerida" pela função alfa. A sensação corporal é, assim, um elemento beta em busca de transformação. Ao acolher essa sensação e tratá-la como um fenômeno do campo - e não como idiossincrasia pessoal - o analista inicia um processo de simbolização. O corpo "pensa" antes que a mente consciente elabore; cabe ao analista, num segundo momento, traduzir esse pensamento corporal em linguagem interpretativa. 4. Exemplos clínicos: o corpo em cena Para ilustrar a aplicação do conceito, tomemos algumas vinhetas do próprio Civitarese, adaptadas para fins didáticos. Exemplo 1: A voz que fere Durante uma sessão, uma paciente utiliza repetidamente expressões de forte carga agressiva. O analista sente um desconforto físico crescente, como se as palavras "perfurassem" sua pele. Em determinado momento, percebe que está com os punhos cerrados e uma vontade quase incontrolável de interromper a sessão. Em uma leitura tradicional, isso poderia ser visto como contratransferência reativa ou como falha na capacidade de continência. Pela ótica do reverie somático, o analista interroga: "O que meu corpo está me dizendo sobre o campo?". A sensação de ser perfurado aponta para a violência psíquica que a paciente viveu e que agora é encenada na relação. O corpo do analista sonha a dor que a paciente não pode simbolizar. Após a sessão, ao refletir sobre sua reação, o analista percebe que a paciente testava se ele suportaria suas partes "sujas". A sensação corporal foi a primeira forma de contato com essa área cindida, permitindo que, mais tarde, uma interpretação pudesse ser construída. Exemplo 2: A sincronia da água Outro paciente, sempre pontual, traz uma garrafa de água e bebe um gole ao deitar-se no divã. O analista, sem pensar, repete o gesto no mesmo instante. Só depois de várias sessões notam essa sincronia e se pergunta sobre seu significado. O gesto automático de beber água em espelho revela uma unissonância sensorial que precede qualquer diferenciação. O paciente, que se queixa de conversas vazias e superficiais, precisava, antes de tudo, de uma sintonia corporal básica - uma experiência de "ser um só corpo" - para que, posteriormente, pudesse emergir a palavra significativa. O analista, ao participar desse ritual sem planejamento, estava oferecendo, em ato, a base para a simbolização. Exemplo 3: O toque que integra Uma jovem paciente com histórico de autolesão, em meio a uma sessão, levanta-se e pede que a analista toque seus cabelos, para que sinta como são finos. A analista toca. O gesto, longe de ser uma invasão ou um acting out, é compreendido como uma tentativa de restabelecer a continuidade física com o objeto, condição necessária para a integração somatopsíquica. A analista, posteriormente, reflete que sua mão, ao tocar, simbolizou o acolhimento que a paciente não pudera internalizar. O toque não foi uma intervenção técnica no sentido clássico, mas um reverie encarnado, uma resposta do campo a uma necessidade de unidade. 5. Como usar o reverie somático na prática clínica A incorporação do reverie somático à técnica exige do analista uma mudança de vértice em relação à sua própria corporalidade. Em vez de tratar sensações e ações como ruídos a serem eliminados, o analista é convidado a: • Cultivar a atenção ao próprio corpo durante as sessões, observando tensões, ritmos e impulsos, sem julgamento imediato. • Interrogar a sensação como fenômeno do campo: "O que esta tensão, este cansaço, este gesto repetitivo pode estar me dizendo sobre o vínculo?". • Diferenciar o idiossincrático do campal: nem toda sensação é um reverie; algumas são pessoais e não dizem respeito ao paciente. A distinção se faz pela reflexão e, muitas vezes, pela supervisão. • Permitir-se ser afetado, mas sem agir impulsivamente. O reverie somático não é um convite à atuação, mas à receptividade ativa. • Traduzir em interpretação apenas após o "despertar", ou seja, depois de elaborar mentalmente a experiência. A interpretação pode ser verbal, mas também pode se manifestar em uma mudança de atitude, em um olhar, em um acolhimento silencioso. É fundamental lembrar que o reverie somático não substitui a palavra, mas a prepara. Ele atua nos estratos mais profundos da comunicação, onde a linguagem ainda não chegou. Por isso, é especialmente valioso no trabalho com pacientes de difícil acesso, com grave comprometimento da capacidade simbólica. 6. Distinções necessárias: reverie somático, enactment e equação simbólica Para evitar mal-entendidos, Civitarese faz questão de diferenciar o reverie somático de outros conceitos. Enactment: Geralmente entendido como uma atuação inconsciente que repete padrões patológicos e que, idealmente, deveria ser evitada ou analisada a posteriori. O reverie somático, por sua vez, é acolhido como fonte de conhecimento desde o início, mesmo que só possa ser compreendido depois. Equação simbólica: Na equação simbólica, o símbolo é confundido com a coisa simbolizada (ex.: o paciente que diz "estou morrendo de medo" e age como se a morte fosse literal). No reverie somático, o corpo não é tomado como literalidade, mas como metáfora encarnada. A diferença está no despertar: a equação simbólica é um estado de não-sonho; o reverie é um sonho que, ao ser refletido, se torna símbolo. Comunicação direta de inconsciente a inconsciente: Civitarese não postula nenhuma forma de telepatia ou transmissão energética. O corpo do analista registra o campo porque ambos os participantes estão imersos em uma mesma matriz relacional. É a intercorporalidade que explica essa ressonância, não uma comunicação extrassensorial. 7. Implicações éticas e técnicas Acolher o reverie somático na clínica implica uma revisão da neutralidade clássica. O analista não é uma tábula rasa, mas um corpo vivo que participa da cena. Isso exige: Humildade para reconhecer que nem sempre compreendemos imediatamente o que sentimos. Confiança no processo inconsciente, tanto do paciente quanto do próprio analista. Capacidade de esperar antes de interpretar, permitindo que o sentido se desdobre. Supervisão constante, para que o analista possa discriminar o que é seu e o que é do campo. Além disso, o reverie somático nos lembra que o setting não é apenas um conjunto de regras formais, mas um campo vivo que respira. Pequenas violações - um encurtamento involuntário da sessão, um gesto inesperado - podem ser oportunidades preciosas de acesso ao que estava congelado. O importante é que, após a turbulência, o analista recupere a capacidade de pensar e de sonhar o ocorrido. Conclusão: O corpo como lugar de sonho A psicanálise sempre soube que o inconsciente se escreve no corpo. Dos sintomas conversivos de Freud às identificações projetivas de Klein, passando pelas psicossomatizações, o corpo nunca esteve ausente. No entanto, faltava-nos um modelo que integrasse a corporalidade do analista como instrumento de trabalho. Civitarese, ao propor o conceito de reverie somático, oferece-nos uma ferramenta epistemológica e clínica de grande alcance. Ela nos permite: • Observar o corpo do analista como parte do campo. Transformar sensações em pensamentos. Acolher níveis arcaicos de experiência sem reduzi-los à patologia. Ampliar nossa capacidade de sonhar junto com o paciente. Sonhar no corpo é, afinal, uma forma de estar presente na relação com toda a nossa humanidade. É reconhecer que, antes de sermos mentes que interpretam, somos corpos que sentem, que se movem, que tocam e que são tocados. E é nesse toque sensível que a psicanálise encontra, mais uma vez, sua potência transformadora. Psicanalista Pedro Castro - Contato: (12) 99175-1787Instituto Ékatus / Escola Paulista de Psicanálise Referência:Civitarese, G. (2021). Campo incorporado e reverie somático. In: Revista de Psicanálise.

Psicanálise da Infância: Diálogos e Divergências entre Freud e Klein

Por Tais Romero -  A constituição da psicanálise da infância está profundamente vinculada às formulações inaugurais de Sigmund Freud e às reformulações propostas por Melanie Klein. Ainda que a obra kleiniana se origine no interior do campo conceitual aberto por Freud, suas contribuições produziram deslocamentos teóricos e técnicos significativos, especialmente no que concerne à compreensão da vida psíquica precoce, à temporalidade do complexo de Édipo e às modalidades de intervenção clínica com crianças. A análise comparativa entre esses dois autores permite evidenciar um movimento simultâneo de continuidade e ruptura no interior da tradição psicanalítica, revelando aproximações fundamentais, mas também divergências estruturantes. No que se refere à psicanálise de crianças, Freud foi o primeiro a reconhecer de forma sistemática a centralidade da infância na constituição da subjetividade. Ao afirmar a existência da sexualidade infantil, Freud rompeu com concepções moralizantes e naturalizantes da infância, propondo que o psiquismo da criança é atravessado por conflitos pulsionais e por processos inconscientes complexos. A infância passa a ser compreendida como um período decisivo de organização da vida psíquica, no qual se estabelecem as bases estruturais da personalidade. Entretanto, apesar de ter inaugurado esse campo de investigação, Freud manteve certa prudência quanto à análise direta de crianças pequenas. Em muitos momentos de sua obra, suas formulações sobre o psiquismo infantil derivam de reconstruções realizadas a partir da análise de adultos ou de observações indiretas, como se verifica no célebre caso do pequeno Hans. Freud considerava que a criança ainda se encontra em processo de constituição simbólica e que, portanto, a transferência e a associação livre não se apresentariam da mesma forma que na clínica com adultos. Dessa maneira, a intervenção analítica frequentemente demandaria a mediação dos pais e a consideração do ambiente familiar como parte essencial do processo terapêutico. Melanie Klein, por sua vez, radicaliza e amplia esse horizonte teórico ao sustentar que o inconsciente infantil é plenamente acessível ao trabalho analítico desde os primeiros anos de vida. Para Klein, as fantasias inconscientes não surgem apenas em etapas posteriores do desenvolvimento, mas estão presentes desde os primórdios da existência psíquica, estruturando as relações do bebê com os objetos e com o próprio corpo. O mundo interno da criança é concebido como intensamente povoado por representações fantasmáticas, marcadas por sentimentos de amor, agressividade, medo e reparação. Nesse sentido, Klein propõe uma concepção mais precoce e dinâmica do funcionamento psíquico, na qual os conflitos fundamentais não aguardam a maturidade da linguagem para se manifestar. A criança pequena, mesmo antes de dominar plenamente a palavra, já expressa simbolicamente suas experiências emocionais por meio de formas próprias de comunicação. Essa perspectiva permitiu a Klein desenvolver uma prática clínica voltada diretamente para a escuta da criança, reconhecendo no brincar uma via privilegiada de acesso ao inconsciente. Outro ponto central de divergência entre Freud e Klein diz respeito à formulação do complexo de Édipo. Na teoria freudiana, o complexo de Édipo constitui o núcleo organizador da vida psíquica e se desenvolve predominantemente durante a fase fálica, aproximadamente entre os três e cinco anos de idade. Nesse momento do desenvolvimento, a criança direciona seus desejos amorosos ao genitor do sexo oposto e experimenta sentimentos de rivalidade e hostilidade em relação ao genitor do mesmo sexo. A superação desse conflito, mediada pela ameaça de castração e pela identificação com a figura parental rivalizada, conduz à formação do superego e à internalização das normas culturais. O complexo de Édipo assume, portanto, um papel estruturante na transição da criança para a vida social e na consolidação das instâncias psíquicas. Melanie Klein propõe uma reformulação profunda dessa temporalidade. Em sua perspectiva, o complexo de Édipo não se restringe à fase fálica, mas se manifesta de forma muito mais precoce, emergindo já nos primeiros meses de vida. A criança, segundo Klein, desde cedo estabelece relações triangulares com os objetos internos que representam as figuras parentais. Essas relações são vivenciadas em um plano fantasmático intenso, no qual o bebê imagina interações entre os pais e constrói fantasias sobre sua própria participação nessas relações. Assim, o Édipo kleiniano não se apresenta apenas como um conflito tardio ligado à descoberta da diferença sexual, mas como uma organização psíquica precoce associada às primeiras experiências de amor, inveja, rivalidade e reparação. Essa concepção está diretamente relacionada à teoria das posições esquizoparanóide e depressiva, por meio das quais Klein descreve os modos iniciais de organização do psiquismo infantil. A posição esquizoparanóide caracteriza-se pela predominância de ansiedades persecutórias e pela tendência à divisão dos objetos em bons e maus, enquanto a posição depressiva envolve a integração progressiva desses aspectos e o surgimento de sentimentos de culpa e desejo de reparação. Nesse quadro teórico, o complexo de Édipo se entrelaça com as primeiras experiências emocionais do bebê, adquirindo uma dimensão mais ampla e precoce do que aquela descrita por Freud. No plano técnico, as diferenças entre Freud e Klein tornam-se particularmente evidentes. Freud estabeleceu os princípios fundamentais da técnica psicanalítica, baseados na associação livre, na interpretação dos sonhos e na análise da transferência. Esses procedimentos foram elaborados a partir da clínica com adultos e pressupõem um sujeito capaz de verbalizar livremente seus pensamentos e lembranças. Quando se trata de crianças, Freud reconhece que tais condições nem sempre estão plenamente presentes, razão pela qual enfatiza a necessidade de adaptações metodológicas e da participação da família no processo terapêutico. Klein, ao contrário, concebe uma técnica específica para a análise infantil, na qual o brincar ocupa uma função central. Em seu enquadre clínico, a sala de análise é organizada com brinquedos, objetos e materiais que permitem à criança expressar simbolicamente suas fantasias inconscientes. O brincar é compreendido como equivalente funcional da associação livre do adulto, constituindo uma forma de linguagem por meio da qual a criança comunica seus conflitos internos. O analista observa atentamente as escolhas da criança, as narrativas que emergem durante o jogo, as relações que ela estabelece entre os objetos e os afetos que se manifestam nesse processo. A interpretação dirige-se às fantasias inconscientes que organizam essas produções simbólicas, possibilitando à criança elaborar ansiedades e conflitos que ainda não podem ser plenamente verbalizados. A leitura comparativa dos textos clínicos de Freud e Klein também permite perceber diferenças importantes no estilo interpretativo e na forma de construir o caso clínico. Freud frequentemente adota uma postura analítica que privilegia a reconstrução gradual da história psíquica do paciente, articulando elementos biográficos, lembranças infantis e manifestações transferenciais. Seu método valoriza a prudência interpretativa e o desenvolvimento progressivo da compreensão clínica. Klein, por sua vez, apresenta um estilo interpretativo mais direto e incisivo, frequentemente focalizado nas fantasias inconscientes mais primitivas e nas ansiedades que emergem no contexto da relação transferencial. Suas interpretações tendem a enfatizar os conflitos relacionados à agressividade, à inveja e ao medo de destruição do objeto amado, aspectos que ocupam lugar central em sua teoria do desenvolvimento psíquico. A aproximação entre Freud e Klein, contudo, permanece evidente no reconhecimento compartilhado de que a infância constitui o terreno privilegiado de formação do sujeito e de que os conflitos inconscientes desempenham papel determinante na organização da personalidade. Ambos os autores compreendem o psiquismo como resultado de processos dinâmicos nos quais pulsões, fantasias e relações objetais se entrelaçam de maneira complexa. As divergências que os separam não anulam essa herança comum, mas evidenciam diferentes caminhos de aprofundamento teórico e clínico dentro da tradição psicanalítica. Desse modo, a interlocução entre Freud e Klein revela-se fundamental para compreender o desenvolvimento da psicanálise da infância. Enquanto Freud inaugura a descoberta da sexualidade infantil e estabelece os fundamentos da teoria psicanalítica, Klein amplia esse campo ao investigar as camadas mais precoces da vida psíquica e ao desenvolver uma técnica clínica que permite acessar diretamente o mundo interno da criança. A tensão entre continuidade e inovação que caracteriza essa relação teórica contribuiu decisivamente para a consolidação da psicanálise infantil como um campo autônomo e fecundo de investigação clínica e conceitual.
Colóquio EPP: Psicanálise do Contemporâneo EAD – Acessibilidade e o Rigor que a Alma Exige

Colóquio EPP: Psicanálise do Contemporâneo EAD – Acessibilidade e o Rigor que a Alma Exige

A psicanálise, qual um rio que se adapta ao leito, mas mantém a profundidade de suas águas, confronta-se com os desafios e as possibilidades da contemporaneidade. Neste cenário de transformações velozes, questionamos: como o rigor acadêmico, inerente à formação psicanalítica, pode coexistir com a acessibilidade que a era digital nos oferece? O próximo Colóquio da EPP, intitulado “Psicanálise do Contemporâneo EAD: acessibilidade e rigor acadêmico”, propõe-se a desvendar esta aparente dicotomia, convidando a uma reflexão profunda sobre o futuro do saber psicanalítico.

O Método Psicanalítico de Freud

Por Celso Augusto Alberti - Até este momento, pudemos definir o que é o esquecimento e como acontece; chegamos à definição do que é o inconsciente, como se forma e como é acessado; e redatamos sobre as primeiras formulações do tratamento psicanalítico. Agora, neste breve ensaio, vamos discorrer sobre o método psicanalítico proposto por Freud, numa compilação dos seus artigos técnicos.Freud postulou que a psicanálise não é somente uma teoria sobre o funcionamento psíquico, mas um método clínico específico cujo objetivo é tornar conscientes os conteúdos inconscientes que produzem sofrimento, repetições e sintomas. Esse método se caracteriza pela prática rigorosa de investigação e elaboração psíquica, não com o propósito de suprimir diretamente o sintoma como um fenômeno isolado, mas intervir na dinâmica que o produz. Freud nos propõe que o tratamento deve alcançar as causas psíquicas inconscientes do conflito além dos seus efeitos aparentes.O método tem como ponto de partida a ideia de que os sintomas neuróticos, os lapsos, os sonhos, as inibições e as repetições não são acontecimentos sem sentido. Ainda que de forma distorcida, eles expressam desejos, lembranças, fantasias e conflitos recalcados. Por isso, o objetivo do tratamento psicanalítico consiste em levar o paciente a reconhecer e elaborar aquilo que estava inconsciente, mas insistentemente atuante. Freud não concebe a cura como simples desaparecimento do sofrimento, mas como ampliação da capacidade do sujeito de lidar com as exigências pulsionais, com a realidade e com os conflitos internos. Em sua formulação, o tratamento busca fazer com que haja maior apropriação psíquica por parte do sujeito onde antes havia domínio do inconsciente recalcado.Para atingir esse objetivo, Freud propõe um binômio técnico fundamental: a regra da associação livre e a atenção flutuante. Nos seus ensaios técnicos, ele postula que o paciente deve ser convidado a dizer tudo o que lhe vier à mente, sem seleção, censura ou preocupação com ordem, sentido, relevância ou decoro. Essa regra é essencial porque contorna a tendência de o consciente organizar o discurso de forma lógica e defensiva. Quando o paciente fala livremente, aparecem interrupções, hesitações, esquecimentos, mudanças bruscas de tema, repetições e associações aparentemente sem nexo, fuga das sessões, e é justamente aí que o analista encontra os indícios dos conflitos inconscientes. Dessa forma, o método psicanalítico funciona abrindo espaço para que o próprio inconsciente se manifeste por meio das falhas e deformações do discurso e comportamento.Porém, o analista tem que cumprir sua parte. Se por um lado o paciente deve cumprir com a associação livre, o analista deve manter a atenção flutuante. Enquanto o paciente é orientado a dizer tudo o que lhe vier à mente, o analista deve escutar sem privilegiar antecipadamente nenhum elemento, evitando selecionar o material segundo suas próprias expectativas. É a partir dessa escuta, sustentada pelo material trazido pelo paciente, que a interpretação pode aparecer como uma intervenção importante. O analista procura reconhecer, por trás do conteúdo manifesto, os encadeamentos inconscientes que organizam os sintomas, fantasias e modos de sofrer. No entanto, a interpretação não funciona sozinha nem deve ser um ato arbitrário; ela deve ser construída a partir do próprio material do paciente, respeitando o tempo do tratamento e as resistências em jogo. O analista não apresenta uma verdade pronta vinda de fora, e sim ajuda o paciente a estabelecer ligações entre elementos dispersos de sua vida psíquica. O método não é operado por aconselhamento moral nem por sugestão, mas por uma escuta sustentada pela associação livre, pela atenção flutuante e, quando possível, por intervenções interpretativas apoiadas na própria experiência analítica.Entretanto, Freud observa que o acesso ao inconsciente não ocorre de forma linear. O paciente não apenas ignora certos conteúdos; ele também se defende ativamente contra eles. Daí a importância decisiva do conceito de resistência. Em Recordar, repetir e perlaborar, Freud mostra que aquilo que foi recalcado tende a retornar não só como lembrança, mas como repetição. Objetivamente, o paciente não recorda o conflito; ele o revive, o encena e atua na relação com o analista e em sua própria conduta. Por isso, o tratamento não consiste simplesmente em “lembrar o passado”, mas em reconhecer, dentro do processo analítico, a maneira pela qual esse passado continua operando no presente. O método psicanalítico funciona justamente ao transformar a repetição inconsciente em material de análise.É nesse ponto que a transferência se torna o instrumento clínico de grande importância. Em A Dinâmica da transferência e Observações sobre o amor transferencial, Freud demonstra que o paciente desloca para a figura do analista sentimentos, expectativas, temores e desejos originalmente ligados a figuras importantes da sua infância. A transferência não é um obstáculo acidental. Na verdade, é algo esperado e até necessário ao tratamento, porque abre caminho para tornar atual o conflito inconsciente. Aquilo que o paciente viveu em outras relações reaparece diante do analista com outra roupagem. Dessa forma, o método psicanalítico se vale desse fenômeno para tornar visível aquilo cuja tendência é manter-se oculto. A neurose comum do paciente é, por assim dizer, substituída por uma “neurose de transferência”, mais acessível ao trabalho clínico.Importantíssimo ressaltar que o trabalho do analista consiste em sustentar essa situação sem satisfazer diretamente as demandas transferenciais nem recuar diante delas. Em Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, Freud é veemente em estabelecer que o analista deve manter essa atitude de atenção flutuante e preservar a reserva afetiva, evitando ocupar para o paciente um lugar de gratificação, autoridade moral ou direção prática da vida. Daí podemos dizer que o método analítico exige que o conflito apareça e possa ser elaborado, e não encoberto por consolo, conselho ou sugestão. O analista não deve substituir a atividade psíquica do paciente pela sua própria; mas favorecer as condições para que o paciente trabalhe psiquicamente.Freud dá a esse trabalho o nome de perlaboração. Não basta interpretar uma vez para que o conflito desapareça. O paciente precisa atravessar repetidamente as resistências, voltar ao mesmo ponto sob diferentes formas, suportar os afetos penosos e integrar pouco a pouco aquilo que antes era recusado. A perlaboração é o processo pelo qual a interpretação deixa de ser uma compreensão apenas intelectual e se transforma em modificação efetiva da vida psíquica. É ela que permite ao sujeito ter conhecimento sobre seu conflito e reposicionar-se diante dele.Concluindo, podemos sintetizar o método psicanalítico proposto por Freud como um processo clínico em que a associação livre do paciente e a atenção flutuante do analista sustentam o trabalho analítico, ao lado da análise das resistências, do manejo da transferência, da interpretação e da perlaboração, para tornar consciente o inconsciente e elaborar os conflitos recalcados. Seu objetivo terapêutico consiste em produzir uma transformação mais profunda da psiquê, na qual o sujeito deixe de ser conduzido por forças que desconhece e possa, em grande medida, ampliar sua liberdade interior antes contida por conteúdos que se impunham de forma estranha e compulsiva. Em seus artigos técnicos, Freud mostra com clareza que a psicanálise é um trabalho de verdade e elaboração, que busca fazer com que o sujeito possa reconhecer em si aquilo que antes o dominava sem que ele soubesse.

A Evolução da Sexualidade na Teoria Freudiana

Por Paula A. Rebellato - Para Freud a sexualidade não é apenas o ato reprodutivo entre adultos, mas uma força potente e complexa presente desde o nascimento. Neste sentido, a infância seria o nascedouro das pulsões sexuais no ser humano. Ao separar o conceito de “sexual” e “genital”, Freud amplia a ideia de busca pelo prazer para as diversas zonas erógenas do corpo, assim como também para as suas funções biológicas. Por exemplo, o ato da criança chupar no seio da mãe, para além de necessidade e nutrição, é também uma manifestação de natureza sexual. Ela poderá buscar a mesma sensação de prazer através do autoerotismo, ou seja, encontrará uma zona erógena eficiente em seu corpo (sucção da pele com a boca, por exemplo), para repetir a sensação de prazer já vivida anteriormente, sem a necessidade do objeto externo (o seio). A criança “perversa polimorfa” é um conceito que descreve a multiplicidade das formas (significado do polimorfa) pelas quais a criança pode encontrar o prazer, desviando-se da norma (perversa por fugir a norma e não em um sentido pejorativo) que limita a sexualidade como função apenas reprodutiva.Freud organizou o desenvolvimento psicossexual em fases: oral, anal, fálica, latência e genital. A fase fálica é marcada pelo descobrimento das diferenças sexuais e é neste período que se situa o Complexo de Édipo. As experiências e desejos sexuais desta fase são especialmente intensas e angustiantes e, portanto, são empurradas para o inconsciente. É este recalque que inaugura a entrada para a fase de latência - momento onde as pulsões sexuais são “adormecidas” e as energias redirecionadas (sublimação) para as exigências do mundo exterior e também onde são criadas as futuras barreiras (formação reativa) sexuais, ou seja, é o momento onde sentimentos como vergonha e/ou nojo surgem como defesas e a moralidade e a ética começam a ser absorvidos pela criança. O que é recalcado são as representações ligadas às pulsões sexuais infantis que entram em conflito com esta moralidade em formação.  Nos estudos sobre a Histeria, Freud explica o recalque como uma defesa contra uma lembrança de um evento traumático real, geralmente ligado a um abuso sexual, sedução, etc. Já nos Três Ensaios sobre a Sexualidade, ele opera uma virada teórica fundamental: desloca a origem do trauma do campo factual para o campo da fantasia. O conteúdo reprimido expande para além de um abuso sofrido e engloba também as manifestações da sexualidade infantil, pulsões, desejos incestuosos.
Psicanálise do Contemporâneo EAD: Acessibilidade e Rigor Acadêmico na Formação

Psicanálise do Contemporâneo EAD: Acessibilidade e Rigor Acadêmico na Formação

A Psicanálise em Tempos de ConectividadeA Escola Paulista de Psicanálise (EPP) tem se dedicado a pensar a psicanálise em sua interface com o mundo contemporâneo, buscando formas de tornar este saber tão essencial acessível a um público cada vez mais amplo. A modalidade de Educação a Distância (EAD) surge como um caminho potente para democratizar o acesso à formação psicanalítica, permitindo que profissionais e interessados de diversas localidades possam se aprofundar nos complexos mecanismos do inconsciente e nas bases do funcionamento psíquico. Este movimento, contudo, exige um compromisso inabalável com o rigor acadêmico e a profundidade teórica que a psicanálise, desde suas origens, sempre demandou.
Psicanálise do Contemporâneo EAD: Acessibilidade e Rigor Acadêmico na EPP

Psicanálise do Contemporâneo EAD: Acessibilidade e Rigor Acadêmico na EPP

A Psicanálise em Diálogo com o Contemporâneo A Escola Paulista de Psicanálise (EPP) convida à reflexão sobre a relevância da psicanálise no cenário atual, um campo de conhecimento que, desde seus primórdios com Freud, tem se mostrado essencial para a compreensão da complexidade humana. Em um mundo em constante transformação, a capacidade de acessar e aprofundar-se nos fundamentos psicanalíticos torna-se um diferencial não apenas para profissionais da saúde mental, mas para todos que buscam entender as dinâmicas do inconsciente e suas manifestações. É com esse propósito que apresentamos a Pós-Graduação em Psicanálise do Contemporâneo EAD, uma ponte entre a tradição e a inovação. Esta pós-graduação, reconhecida pelo MEC em parceria com a FaCiência, foi cuidadosamente desenhada para oferecer um percurso teórico e clínico abrangente. Desde as descobertas revolucionárias de Sigmund Freud sobre o inconsciente e o aparelho psíquico, passando pelas contribuições de Melanie Klein e os pós-kleinianos na clínica infantil, até as perspectivas enriquecedoras de Donald Winnicott sobre o ambiente facilitador e Wilfred Bion com sua teoria do pensar, o curso proporciona uma visão panorâmica e profunda. A proposta é desvendar a evolução do pensamento psicanalítico, conectando-o às questões que emergem na contemporaneidade, em um formato totalmente flexível. Um Percurso Acessível e de Alta Qualidade A modalidade EAD, com aulas 100% gravadas, garante a acessibilidade para aqueles que possuem rotinas desafiadoras, permitindo que o estudo se adapte ao ritmo e à disponibilidade de cada aluno. Contamos com um corpo docente de psicanalistas renomados, como Alexandre Esclapes, Pedro Castro e Marcos Capelli, que trazem sua vasta experiência clínica e acadêmica para cada módulo. Este formato não compromete o rigor acadêmico, mas o potencializa, oferecendo materiais exclusivos e exercícios de acompanhamento que consolidam o aprendizado de forma progressiva e eficaz. Os módulos são estruturados para guiar o estudante por temas essenciais: desde os fundamentos freudianos, passando pela revolução kleiniana, a expansão pós-kleiniana, a psicanálise do desenvolvimento de Winnicott, até o pensamento contemporâneo de Bion. Cada etapa é um convite à imersão, com a possibilidade de tirar dúvidas ao vivo semanalmente e contar com um grupo de suporte no WhatsApp. Essa estrutura garante que, mesmo à distância, o aluno sinta-se acolhido e amparado em sua jornada de conhecimento, promovendo uma experiência de aprendizado rica e interativa. A Psicanálise como Ferramenta para o Agora Com um certificado de conclusão de Pós-Graduação reconhecido pelo MEC, este curso não apenas aprofunda o conhecimento teórico, mas também capacita o indivíduo a aplicar a lente psicanalítica na compreensão de fenômenos complexos da vida e da clínica. A psicanálise, ao nos convidar a olhar para o inconsciente e para as dinâmicas internas, oferece ferramentas valiosas para lidar com os desafios emocionais e relacionais que marcam o nosso tempo. É uma oportunidade de formação contínua, que enriquece a prática profissional e a vida pessoal, fomentando uma escuta mais atenta e um pensamento mais atenção prioritária. Convidamos você a explorar essa jornada de autoconhecimento e desenvolvimento profissional com a EPP. A Pós-Graduação em Psicanálise do Contemporâneo EAD é mais do que um curso; é um convite para integrar a tradição psicanalítica com as demandas do presente, preparando-se para um futuro onde a compreensão profunda do ser humano é cada vez mais necessária. Venha fazer parte dessa comunidade de aprendizado e transformação, onde o rigor científico encontra a empatia humana em cada aula e em cada reflexão proposta.

Manifesto Contra o Fim da Psicanálise

Por Emanuelle Duarte - Há algo de indomável na psicanálise. Vai ver seja isso que a mantenha viva. Sigmund Freud não nos deixou um sistema — deixou uma inquietação. E, ao reformular sua própria teoria, ao deslocar seus próprios alicerces, ele não apenas produziu um novo modelo do aparelho psíquico: ele instituiu, no coração da psicanálise, a impossibilidade de seu fechamento. A psicanálise nasce, assim, condenada, ou destinada, a se refazer. Há, nesse gesto, uma ética. Uma recusa em cristalizar o humano em fórmulas definitivas. Uma espécie de saber que se sabe incompleto. E isso não é fraqueza: é força. Talvez por isso ela ressoe tão bem com João Guimarães Rosa, para quem viver é sempre travessia. Nada está pronto.  Nada termina. Tudo está sendo. Se, em um primeiro momento, Freud acreditou que o esquecimento poderia ser desfeito, que bastaria trazer à consciência o que foi recalcado, logo a própria clínica começou a rachar essa certeza. Algo não cedia. Algo insistia. O sujeito não lembrava. O sujeito repetia. Essa repetição não era erro: era destino em ato. Em textos como A interpretação dos sonhos, ainda havia a promessa de que o esquecido poderia ser recuperado, como quem desenterra um passado soterrado. Mas, pouco a pouco, Freud se viu diante de algo mais inquietante: havia um esquecimento que não se resolvia pela lembrança. Há um esquecimento que estrutura. Em Além do princípio do prazer, a cena muda. O sujeito não apenas sofre, ele repete o sofrimento. Como se houvesse nele uma fidelidade obscura ao que o fere. E então, com O ego e o id, o golpe final na ilusão de transparência: o eu não é senhor de si. O ego também é atravessado pelo inconsciente. O superego vigia, acusa, impõe. O id pulsa, insiste, exige. O sujeito é conflito. O esquecimento já não é um simples esconderijo de conteúdos recalcados. Ele é efeito dessa guerra interna, dessa cena em que forças heterogêneas disputam o corpo e a linguagem. A partir daí, não há mais retorno. A psicanálise abandona a fantasia de que tudo pode ser lembrado. Abandona a promessa de um sujeito plenamente consciente de si. Abandona, enfim, a ideia de que há um ponto final possível. Porque o que não pode ser lembrado não desaparece. O que não se diz, se faz. O que não se recorda, se encena. Como nas tragédias, como no destino de Édipo, o sujeito caminha dentro de uma história que não domina, atuando naquilo que ignora. Ele vive aquilo que não sabe. E a clínica (ah, a clínica!) já não pode ser arqueológica. Não se trata mais de escavar o passado como quem busca uma verdade intacta. Trata-se de sustentar a cena, de escutar a repetição, de permitir que algo do que se atua possa, quem sabe, ser elaborado. Não lembrar, mas elaborar. Não revelar, mas trabalhar. Não concluir, mas sustentar. A psicanálise se torna, inevitavelmente, um manifesto contra o acabamento. Porque se o esquecimento é estrutural, então não há totalidade possível. Não há cura como fechamento. Não há saber definitivo sobre o sujeito. Há processo. Há deslocamento. Há reescrita. A cada análise, a cada escuta, a cada reformulação teórica, a psicanálise se redescobre e, ao fazê-lo, desfaz-se um pouco também. Como se sua própria existência dependesse dessa oscilação entre construção e ruína. Freud começou algo que ele mesmo recusou terminar. Daí, sua maior herança: não um corpo teórico fixo, mas um campo em movimento. Um saber que se constrói e se desconstrói, que avança e se corrige, que afirma e se interroga. Pensar o lugar do esquecimento na segunda tópica é, portanto, aceitar essa instabilidade como condição. O esquecimento não é uma falha a ser eliminada, é, na verdade, uma engrenagem do sujeito. É o que impede o fechamento. É o que faz retornar, insistir, repetir. E, paradoxalmente, é também o que torna possível a elaboração. Pois se tudo pudesse ser lembrado, nada precisaria ser trabalhado. Sem trabalho, sem esse labor lento, imperfeito, interminável — não há psicanálise. Quiçá, no fim, reste isso: A psicanálise não promete respostas. Ela sustenta perguntas. Não promete completude. Ela insiste no inacabado. Como a própria vida (como Rosa já sabia), ela não se resolve. Ela se reinventa.
Psicanálise do Contemporâneo EAD: Acessibilidade e Rigor Acadêmico na EPP

Psicanálise do Contemporâneo EAD: Acessibilidade e Rigor Acadêmico na EPP

A Psicanálise no Cenário Atual: Um Convite à ReflexãoEm um mundo em constante transformação, a psicanálise se mantém como uma bússola essencial para a compreensão das complexidades da mente humana. Na Escola Paulista de Psicanálise (EPP), acreditamos que o acesso a esse conhecimento profundo deve ser democrático, sem jamais comprometer a excelência acadêmica e o rigor teórico. É com essa premissa que nossa Pós-Graduação em Psicanálise do Contemporâneo, na modalidade EAD, se destaca como um caminho sólido para aqueles que buscam uma formação psicanalítica robusta e adaptada aos desafios do nosso tempo.