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Manifesto Contra o Fim da Psicanálise

Manifesto Contra o Fim da Psicanálise

Por Emanuelle Duarte -

Há algo de indomável na psicanálise. Vai ver seja isso que a mantenha viva. Sigmund Freud não nos deixou um sistema — deixou uma inquietação. E, ao reformular sua própria teoria, ao deslocar seus próprios alicerces, ele não apenas produziu um novo modelo do aparelho psíquico: ele instituiu, no coração da psicanálise, a impossibilidade de seu fechamento. A psicanálise nasce, assim, condenada, ou destinada, a se refazer. Há, nesse gesto, uma ética. Uma recusa em cristalizar o humano em fórmulas definitivas. Uma espécie de saber que se sabe incompleto. E isso não é fraqueza: é força. Talvez por isso ela ressoe tão bem com João Guimarães Rosa, para quem viver é sempre travessia. Nada está pronto.  Nada termina. Tudo está sendo.

Se, em um primeiro momento, Freud acreditou que o esquecimento poderia ser desfeito, que bastaria trazer à consciência o que foi recalcado, logo a própria clínica começou a rachar essa certeza. Algo não cedia. Algo insistia.

O sujeito não lembrava.

O sujeito repetia.

Essa repetição não era erro: era destino em ato. Em textos como A interpretação dos sonhos, ainda havia a promessa de que o esquecido poderia ser recuperado, como quem desenterra um passado soterrado. Mas, pouco a pouco, Freud se viu diante de algo mais inquietante: havia um esquecimento que não se resolvia pela lembrança.

Há um esquecimento que estrutura.

Em Além do princípio do prazer, a cena muda. O sujeito não apenas sofre, ele repete o sofrimento. Como se houvesse nele uma fidelidade obscura ao que o fere. E então, com O

ego e o id, o golpe final na ilusão de transparência: o eu não é senhor de si. O ego também é atravessado pelo inconsciente. O superego vigia, acusa, impõe. O id pulsa, insiste, exige.

O sujeito é conflito.

O esquecimento já não é um simples esconderijo de conteúdos recalcados. Ele é efeito dessa guerra interna, dessa cena em que forças heterogêneas disputam o corpo e a linguagem. A partir daí, não há mais retorno. A psicanálise abandona a fantasia de que tudo pode ser lembrado. Abandona a promessa de um sujeito plenamente consciente de si. Abandona, enfim, a ideia de que há um ponto final possível. Porque o que não pode ser lembrado não desaparece.

O que não se diz, se faz.

O que não se recorda, se encena.

Como nas tragédias, como no destino de Édipo, o sujeito caminha dentro de uma história que não domina, atuando naquilo que ignora. Ele vive aquilo que não sabe. E a clínica (ah, a clínica!) já não pode ser arqueológica. Não se trata mais de escavar o passado como quem busca uma verdade intacta. Trata-se de sustentar a cena, de escutar a repetição, de permitir que algo do que se atua possa, quem sabe, ser elaborado.

Não lembrar, mas elaborar.

Não revelar, mas trabalhar.

Não concluir, mas sustentar.

A psicanálise se torna, inevitavelmente, um manifesto contra o acabamento. Porque se o esquecimento é estrutural, então não há totalidade possível. Não há cura como fechamento. Não há saber definitivo sobre o sujeito.

Há processo.

Há deslocamento.

Há reescrita.

A cada análise, a cada escuta, a cada reformulação teórica, a psicanálise se redescobre e, ao fazê-lo, desfaz-se um pouco também. Como se sua própria existência dependesse dessa oscilação entre construção e ruína. Freud começou algo que ele mesmo recusou terminar. Daí, sua maior herança: não um corpo teórico fixo, mas um campo em movimento. Um saber que se constrói e se desconstrói, que avança e se corrige, que afirma e se interroga. Pensar o lugar do esquecimento na segunda tópica é, portanto, aceitar essa instabilidade como condição. O esquecimento não é uma falha a ser eliminada, é, na verdade, uma engrenagem do sujeito. É o que impede o fechamento. É o que faz retornar, insistir, repetir. E, paradoxalmente, é também o que torna possível a elaboração. Pois se tudo pudesse ser lembrado, nada precisaria ser trabalhado. Sem trabalho, sem esse labor lento, imperfeito, interminável — não há psicanálise. Quiçá, no fim, reste isso:

A psicanálise não promete respostas.

Ela sustenta perguntas.

Não promete completude.

Ela insiste no inacabado.

Como a própria vida (como Rosa já sabia), ela não se resolve.

Ela se reinventa.