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A Interpretação de um Sonho

A Interpretação de um Sonho

Por Karin C. Grabner - 

Quando leio A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud, sinto que ele não está apenas explicando o que é o inconsciente, mas está ensinando a suportar a sua existência. Freud escreve como quem descobriu que o chão da casa não é maciço, mas oco em alguns pontos, e que, ainda assim, é preciso morar ali. O inconsciente, para ele, não é um porão escuro cheio de fantasmas folclóricos. É um sistema vivo, ativo, que deseja, que insiste, que retorna que funciona segundo leis próprias: desloca, condensa, deforma e disfarça. O sonho é a via régia justamente porque permite que o desejo atravesse essa censura, ainda que deformado.

O que lembramos é sempre o conteúdo manifesto, a pequena narrativa que conseguimos contar. O que o sustenta é o conteúdo latente, inacessível de forma direta. A única forma de chegar perto é falar sem peneira. É assim que se toca o inconsciente: não pela lógica, mas pela deriva.

Dia desses sonhei que estava na minha casa. Meus colegas de EPP estavam na varanda, rindo, tocando violão. A varanda, uma simbolização desse entre-lugar arquitetônico, nem dentro nem fora, um espaço de exposição, parece a borda da minha identidade. Estou justamente tentando ampliar essa borda, integrar a psicanálise à minha antiga vida profissional como arquiteta. O desejo está ali: trazer para dentro aquilo que antes era exterior. Ampliar o Eu.

Então surge uma fissura na parede que divide a sala da varanda. A alegria é atravessada por uma rachadura. Meu desejo de expansão vem acompanhado de defesa e já carrega o medo do colapso. Se eu coloco tudo isso para dentro (esse novo saber, essa nova identidade) a estrutura suporta? E se não suportar?

A fissura aumenta e rompe. A varanda cai. Todos caem. E então algo decisivo: ninguém morre. Estamos apenas no primeiro andar. O inconsciente parece ensaiar a catástrofe para torná-la suportável. A queda da antiga identidade, do ideal de competência absoluta, do ego que precisava ser mestre e agora na posição de estudante já não mais é. Porém a queda não é aniquiladora. Cair não é desaparecer.

Depois da queda, minha mãe entra. Ela acusa: “Você colocou gente demais.” A culpa aparece. Minha mãe encarna essa instância que proíbe, que mede, que diz: foi excesso. Foi você.

Desperto no auge da raiva. O afeto se torna intenso demais para continuar sendo sonhado. O sonho falha em conter a carga afetiva. A censura retoma seu posto. Quando acordo, conto tudo como se fosse uma narrativa coerente: o trabalho que organiza o sonho numa história aparentemente lógica, o que Freud denominou como a elaboração secundária. Mas o que vejo, ao costurar essas associações, é o conflito que Freud descreve como núcleo da neurose: desejo, defesa e culpa.

O sonho mostra seu caráter de compromisso: o desejo de integrar a psicanálise e a voz que interdita. A estrutura parece a representar as bases formativas, e um pensamento me vem: “Talvez a sustentação nunca tenha sido suficiente”. E numa única imagem arquitetônica, o sonho condensa profissão, identidade, história e fragilidade estrutural.

Se tento responder, então, o que é o inconsciente segundo Freud: é esse campo onde o desejo recalcado insiste. Como funciona? Nunca em frases lineares, ele fala em imagens condensadas, deslocadas, simbólicas, sempre negociando com a censura. Como se obtém acesso a ele? Pela associação livre, pela escuta do próprio sonho, aceitando que nunca chegaremos ao núcleo inteiro, porque sempre resta um ponto opaco, um umbigo do sonho que não se deixa traduzir. Dessa forma o inconsciente não se acessa por força, mas por escuta. Pela disposição de sustentar o desconforto de não saber exatamente o que estamos dizendo quando falamos, e assim a censura continua trabalhando, mesmo enquanto escrevo.

Freud não promete clareza total. Ele oferece método. O inconsciente funciona como uma lógica subterrânea que insiste em se expressar. E talvez seja isso que Freud nos ensina: o inconsciente não se elimina. Ele se revela nas rachaduras. E, se tivermos coragem de olhar para elas, descobrimos que a estrutura pode tremer sem que a casa inteira desabe.