Um livro que trata sobre a vida de maneira filosófica, biológica e psicanalítica, que se aproxima da experiência de criar vida, nascer em situações críticas e dar os primeiros passos em um mundo estranho. A autora trata de maneira séria, formal e íntima, os processos que permeiam a vida de um bebê, através de ideias, conceitos, observações e imagens. Consegue mostrar detalhadamente os movimentos emocionais invisíveis ao olho nu, ampliando as experiências da vida em sua forma mais humana. Propõe um modelo de observação, cuidado e acompanhamento dos bebês levando em conta suas mães e pais, com uma riqueza, potência e profundidade incomum nesses tempos terríveis do nascer em situações tão críticas. Comentários de Leandro Stitzman e Lilian Afonso.
Autora: Hilda Botero Cadavid é Psicanalista, supervisora, membro convidada do Instituto Ékatus e membro da Associação Psicanalítica da Colômbia. Observadora de Bebés, Método Esther Bick. Assessora de atenção emocional em Unidades de Recém-nascidos e Programas Canguru.
Data/horário: 05/08/2024 (segunda-feira) 20hs
Coordenação: Sueli Matsuki - Psicanalista e membro efetivo do Instituto Ékatus.
Comentadores: Leandro Stitzman - Psicanalista, supervisor, membro convidado do Instituto Ékatus e membro da APC-Associação Psicanalítica da Colômbia. Lilian Afonso psicanalista formada pela EPP-Escola Paulista de Psicanálise e membro efetivo do Instituto Ékatus.
Investimento: Evento online, gratuito e realizado por videoconferência. Necessária a inscrição prévia, número de vagas limitadas.
Organização: Grupo Ateliê de Ideias - Ale Esclapes; Adriane Watanabe; Fernanda Hisaba; Giuliana Sagulo; Lilian Afonso e Mauro Costa.
Haverá emissão de certificados de participação: Ao final do evento será disponibilizado um link para um formulário de pesquisa de satisfação e emissão de certificado válido somente para o dia do evento. _______________________________Dúvidas: Tel.: (11) 3628-1262; WhatsApp (11) 9 9876 9939 ou Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Atenciosamente, Equipe EPP.
Afinal, como se forma um psicanalista? Quais são os critérios? O que é um psicanalista? Qual a diferença entre psicanálise, psicologia e psiquiatria? Esse evento é para você que não tem nenhuma informação sobre essa área, ou que já fez uma pesquisa e não entende as razões de uma Formação em Psicanálise ser oferecida por instituições com investimento total que pode superar R$ 500 mil e ter duração de 10 anos, e outras com valores que chegam a ser oferecidos em até 12 x de R$99,00 com duração de seis meses. Nesse encontro vamos abordar esses e outros temas ligados a formação do analista.
Data/horário: 31/07/2024 (quarta-feira) 20hs
Coordenação: Patrícia de Pádua - Psicanalista, facilitadora no Programa de Formação da EPP-Escola Paulista de Psicanálise e membro efetivo do Instituto Ékatus.
Comentadores: Helton Alves e Débora Matzenbacher são psicanalistas formados pela EPP-Escola Paulista de Psicanálise e membros efetivos do Instituto Ékatus.
Investimento: Evento online, gratuito e realizado por videoconferência. Necessária a inscrição prévia, número de vagas limitadas.
Organização: Grupo Ateliê de Ideias - Ale Esclapes; Adriane Watanabe; Fernanda Hisaba; Giuliana Sagulo; Lilian Afonso e Mauro Costa.
Haverá emissão de certificados de participação: Ao final do evento será disponibilizado um link para um formulário de pesquisa de satisfação e emissão de certificado válido somente para o dia do evento. _______________________________Dúvidas: Tel.: (11) 3628-1262; WhatsApp (11) 9 9876 9939 ou Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Atenciosamente, Equipe EPP.
Por Katia Peixoto dos Santos -
Aconteceu no mês de agosto de 2024 na EPP (Escola Paulista de Psicanálise), o ciclo de estudos: "Grandes Nomes do Cinema - Sobre Ser Humano”, coordenado pela psicanalista Lilian Afonso do Instituto Ékatus. Ao analisarmos três filmes de realizadores consagrados do cinema mundial: Almodóvar em "A Voz Humana”; Guillermo del Toro em "A Forma da Água" e Stephen King em "Partes de Nós”, fomos convidados a lançar um olhar mais observador e questionador às emoções dos personagens. Eles, como nós, possuem uma vida, sendo que a deles é construída pelos roteiristas para possuírem recalques, traumas, desejos, dores e decepções que são avivadas nas cenas pelos sentimentos de amor, ódio, medo, coragem, tristeza, alegria e tantos outros que perpassam pelas suas trajetórias, uma verdadeira saga fictícia.
Por esse caminho proposto, pudemos observar os personagens e refletir a respeito das modulações emocionais experimentadas por eles durante as tramas fílmicas, evidenciando suas fragilidades, vulnerabilidades e impermeabilidades. Tais experiências emocionais se tornam modelos para pensarmos a práxis psicanalítica, no manejo clínico perpassando pela supervisão e análise pessoal. Um exercício interessante recomendado principalmente aos amantes do cinema e da psicanálise.
O filme escolhido do ciclo para pensarmos aqui, ”A Voz Humana” 2020 de Almodóvar, é um curta-metragem de trinta minutos de duração, livremente adaptado do texto original homônimo de Jean Cocteau, poeta francês de quem o diretor é fã. Filmado entre 16 e 27 de julho de 2020, durante a pandemia de Covid 19, esse monólogo foi dirigido e interpretado em inglês, uma novidade para o diretor. Tilda Swinton, como protagonista, deu ao dilema existencial da personagem de Almodóvar, uma tonalidade fria e racional, com alguns instantes de desequilíbrios contidos, portanto, menos melodramática, menos caliente e menos cômica que a maioria dos personagens do diretor. Com uma temática mais voltada ao universo feminino e queer, os personagens de Almodóvar costumam ser mulheres, gays, travestis e transexuais que transitam pelas histórias desafiando seus desejos, suas fraquezas, seus amores, suas tristezas e elaborando suas doces vinganças.
Olhar para um filme de Almodóvar por um viés psicanalítico, nos proporciona dois movimentos fantásticos que se completam, um para dentro de nós e outro para o íntimo dos personagens em seus universos dramáticos e inquietantes. Ao vivenciarmos as experiências emocionais pelas quais ospersonagens atravessam durante o percurso fílmico, somos movidos a pensar em questões delicadas e profundas que refletem nossa própria humanidade, pela catarse aristotélica ou, especialmente neste filme, pelo distanciamento brechtiano.
Em “A voz Humana”, a mulher e seu amante são inomináveis, portanto se aproximam mais de uma realização em que o ato cênico é mais importante do que a profundidade do personagem. A mulher sofre há três dias por não ter noticias de seu companheiro, ele parece estar tão desinteressado que não consegue voltar pra casa nem para buscar suas roupas, abandonando também o seu cachorro. Um telefonema é o único contato entre eles, porém só é possível ouvir a voz da mulher. Almodóvar subverte o lugar onde essa mulher se encontra, ele a coloca dentro de um cenário, set cinematográfico, favorecendo uma quebra dramática da ficção para a realidade critica.
Nós, espectadores, estamos vendo um filme e sabemos que estamos num filme. A metalinguagem traz essa atmosfera dúbia entre ficção e realidade. O cenário nos mostra por detrás das câmeras, comunicando a nós, espectadores, que aquilo tudo se trata de uma ficção. Quem sofre neste cenário fictício? A atriz ou a mulher que a atriz interpreta? Há no roteiro a intencionalidade de dinamizar um jogo entre realidade x ficção, fantasia x realidade, imaginação x desejo, documentário x ficção, essas posições se alternam durante toda a trama fílmica.
O incrível cenário do filme foi assinado pelo diretor de arte Antxón Gómez, que acompanha o diretor há algum tempo. Ele foi elaborado com cores primárias e secundárias impressas em quadros, tapetes e obras de arte, tudo para simbolizar os estados mentais referenciais da personagem, esse mundo organizado, culto, moderno, luxuoso e que remete à uma "casa de bonecas”, perfeita, onde subentende-se que o casal viveu seus instantes de amor. Esse mesmo cenário que representa a ordem e a beleza é o mesmo que enclausura o amor, a mulher está numa espécie de "prisão luxuosa domiciliar”. O espaço cênico a aprisiona, esse set cinematográfico não esconde sua artificialidade cenográfica (à la Federico Fellini). Para nós espectadores fica claro que ela é uma atriz interpretando um papel: umamulher que fora abandonada pelo seu amante.
O cenário e a atuação da mulher são componentes metafóricos dos estados mentais dessa mulher, que oscila entre o que acontece dentro dela, o que é projetado e o que ela imagina. Esse processo de conflito entre o fora e o dentro caracteriza estados transitórios ou até permanentes de alucinação.Alucinar não é uma exclusividade de indivíduos sob efeitos de drogas e/ou transtornos mentais, estados alucinatórios podem acontecer no dia-a-dia das pessoas em forma de conta-gotas ou em momentos específicos, como em situações de estresse, paixões arrebatadoras ou desejos incontroláveis. Portanto, podemos pensar em até que ponto essa mulher alucina esse amor, acreditando ser amada por seu companheiro ou demostrando ao falar com o amante no telefone que consegue lidar facilmente com esse abandono.
Existe pontos cruciais no cenário e como se dá a ocupação da mulher nesse espaço cênico, como na cena inicial em que ela aparece no set com um vestido vermelho de armação, um exuberante Balanciaga, impecável em vermelho sangue vivo. Logo, num corte, a câmera fecha para um close-up da mulher, um olhar apreensivo e triste se destaca. Sai o vestido vermelho entra o vestido preto, o luto anuncia o drama do filme, a tragédia anunciada. Como duas mulheres que brigam e habitam dentro da personagem; a de vermelho e a de preto representando essa ambiguidade do amor. A vontade de ter somente prazeres, o principio do prazer, como defendeu Freud, a força que nega e evita a dor e o sofrimento. Outro vestido vermelho vai aparecer e a mulher que veste vermelho, está disposta a sublimar, fingir ou até mesmo fugir de sua dor pelos artifícios disponíveis naquele universo luxuoso e fantástico em que aparenta viver. É a luta interna entre o luto, a morte, o fim e o prazer do recomeço da vida. As pulsões de vida e de morte, a magia de ser levado de um momento glorioso a um outro de perda, num ciclo infinito.
Logo no início do filme há uma cena em que a mulher sai para comprar um machadinho, um objeto simbólico muito comum em filmes de terror e suspense que geralmente são usado para o assassino psicopata cometer um crime. Para a mulher, o machadinho é para matar no entanto, de forma mais simbólica: Esquartejar o paletó exposto na cama. Quem morre dentro de mim quando o amor acaba, quem deixo ir embora? Eu? O outro? E o pedaço de mim que era do outro? E o pedaço do outro que era meu, ou pensava ser meu? Como descolar-se do outro? O que sobra de mim depois que o outro se vai? Eu projetei o meu eu idealizado no outro? Era aquilo de que necessitava? O que vou fazer nas horas em que estaria com o outro? Agora sou indivíduo, comigo mesma atuo minha própria solidão e invento músicas para dançar a incerteza e as transformações do viver.
No cenário do banheiro, podemos ver um perfume Chanel nº5 dividindo espaço com diazepam, maquiagens e remédios se misturam na ambiguidade entre o fundo do poço e o céu das futilidades inebriantes, como a dos perfumes franceses e maquiagens caras. Também se torna possível vivenciarmos a vontade dessa mulher de seguir em frente e deixar as partes ultrapassadas pra trás, como o amor que agora não é correspondido, o amor de um ser que abandona sua amada e seu próprio cão. Quem é esse ser humano que abandona seu cachorro? Essa metáfora da fidelidade do cão é incrível, durante as cenas o cão fareja incansavelmente o cheiro de seu dono e se conforta com o mesmo terno do dono que será esquartejado e que fará companhia à mulher em sua petite mort. O desalento do cão, o desalento da mulher. A mulher e o cão na mesma situação de abandono.
Aquele homem que faz essa mulher em frangalhos, surge apenas como um ser do outro lado da linha telefônica, sem voz, sem imagem própria, apenas como uma possibilidade. Esse homem realmente existe? Ele é o desejo dessa mulher? O telefone toca e a transformação se valida, o íntimo dela se expande quando ao atender a chamada e ouvir a voz do ex amante, ela abre a caixinha do headphones Apple e de dentro sai um AirPods. A dignidade se impõe pela forma, não somente aqui mas no vestido de grife, no perfume Chanel ou na decoração impecável do cenário, é a pulsão de vida se contrapondo aos remédios, vestido preto, cama, tristeza e morte.
Mesmo com muita dor ela não desmorona, ela possui elementos de fora que a ajudam, a sua figura esguia e bela, o seu vestido vermelho… e nesse momento o conteúdo das coisas se tornam insignificantes, pois exigem outras significações. Ela finge, mente, escamoteia e vai aos poucos se colocando, transforma em atitude uma pequena parte da dor, que certamente durará ainda por algum tempo. Ela consegue a purificação pela vingança e fecha com chave de fogo a situação em um grande finale. A Fênix começa arenascer.
O vestido vermelho Balanciaga, o perfume Chanel, os headphones I Phone e o quadro de Artemísia Gentileschi, "Vênus e Cupido”, a Vênus sendo abanada por Cupido enquanto dorme tranquila banhada de amor e paixão, esses objetos do cenário ressignificam sua existência no mundo de fora. A deusa do amor, da beleza, do sexo, da fertilidade é poderosa, essa é a mulher representada por Almodóvar, independente, bonita, bem sucedida com imenso desejo de viver um amor forte e ardente, mas também aquela pós-moderna, com fama, dinheiro, beleza e independência. Não é possível suprir o desejo ardente de amor? Mas o amor já está nela, ela é o amor, a deusa, a Vênus em sua plenitude, em seu corpo e em sua alma.
Na adaptação de Almodóvar, a mulher dá a volta por cima, ao contrário da mulher do curta homônimo interpretado pela atriz Ingrid Bergman em 1966. No curta interpretado por Ingrid Bergman, a mulher ao telefone com o amante está jogada na cama repetindo; "eu te amo, eu te amo, eu te amo", submissa e afundada na amargura, fadada a morrer de amor. No curta de Almodóvar, a mulher sabe que naquele lugar seus desejos foram recalcados, mas também sabe que é emancipada, erotizada, e por esse motivo consegue e pode desligar o telefone primeiro, queimar o cenário que a aprisionava e continuar dona da sua vida na companhia, do agora, seu cão. Fora daquele cenário há outras vidas, outros amores e provavelmente outros desejos.
___________Direção: Pedro AlmodóvarPlataforma: MUBI
Por Marcelo Moya -
Com o objetivo de orientar, direcionar ou inspecionar uma determinada função ou atividade, a supervisão é um processo bastante comum entre as relações de ensino e aprendizagem de ofícios e práticas que demandam foco em torno de manejos ou procedimentos de especificidade técnica.
Na tradição psicanalítica, a supervisão se tornou uma das bases do tripé de formação. Embora Freud trocasse correspondências com seus aprendizes para discutirem situações clínicas, o que se sabe é que foi no Instituto de Berlim que este formato se une à análise pessoal e conhecimentos teóricos, assumindo desde então um lugar elementar nas instituições transmissoras da psicanálise.
A caminhada do psicanalista normalmente é solitária e fonte de angústias, incertezas, questionamentos, saturações, inconsistências e equívocos que exigem manter o aprimoramento de suas ferramentas, certo grau de tolerância ao não-saber, capacidade continente e alguma segurança para seguir na tarefa.
Neste caso, estabelecer uma aliança com outro colega analista com certa experiência de saberes, vivência técnica e neutralidade, pode ajudar a preencher lacunas que somente o processo de análise pessoal e/ou conhecimentos conceituais não são capazes de suprirem no árduo ofício psicanalítico.
Numa parceria entre dois analistas é possível obter novos vértices de observação clínica para serem pensados e transformados, explorar dimensões inconscientes da relação analítica, fortalecer as bases e contornos do setting, ampliar hipóteses de trabalho e identificar potenciais elementos opositores e bastante comuns ao progresso de uma análise, entre outros.
Portanto, a supervisão individual é uma análise do analista e as relações com a sua técnica e clínica quando estas reivindicam um melhor refinamento e atenção instrumental, bem como de necessários ajustes frente a situações de maior impacto e densidade vivenciados no cotidiano do consultório.
Na EPP, além dos Processos de Supervisão já contemplados na formação, a saber, grupos de Fundamentação da Técnica, Notação e Exercícios da Clínica, alunos em estágio e membros do Instituto Ékatus também contam com a opção de analistas selecionados para oferecerem supervisão individual.
Por Carlos Guilherme M. Teixeira -
Embora tenham origens distintas, a psicanálise e a neurociência compartilham um objetivo comum: compreender a mente humana. A psicanálise, fundada por Sigmund Freud, foca na exploração do inconsciente, dos processos internos e dos conflitos psicológicos, utilizando métodos como a livre associação e a análise dos sonhos para investigar as profundezas da psique.
A interseção entre essas duas disciplinas pode ser especialmente proveitosa. A neurociência oferece evidências empíricas que podem apoiar ou desafiar teorias psicanalíticas. Por exemplo, estudos de neuroimagem identificaram áreas do cérebro relacionadas a emoções e memórias reprimidas, corroborando conceitos freudianos sobre o inconsciente e a repressão. Além disso, o entendimento neurocientífico dos processos de memória e aprendizagem pode enriquecer a interpretação psicanalítica de traumas e do desenvolvimento psicossexual.
Por sua vez, a psicanálise proporciona à neurociência um arcabouço teórico robusto para interpretar dados empíricos de uma forma que considera a subjetividade e a complexidade das experiências humanas. A abordagem psicanalítica pode ajudar a contextualizar os achados neurocientíficos dentro da narrativa pessoal e histórica do indivíduo, fornecendo uma compreensão mais holística da mente.
Pesquisadores contemporâneos têm se empenhado em integrar esses campos, propondo modelos que combinam os insights da neurociência com as teorias psicanalíticas. Um exemplo disso é a neuropsicanálise, uma disciplina emergente que busca unificar a abordagem qualitativa da psicanálise com a abordagem quantitativa da neurociência. Essa integração tem o potencial de revolucionar tanto a prática clínica quanto a pesquisa teórica, promovendo um entendimento mais completo e interdisciplinar da mente humana.
Em resumo, a relação entre psicanálise e neurociência é uma via de mão dupla, onde cada disciplina pode enriquecer e complementar a outra. A psicanálise oferece à neurociência um quadro teórico para interpretar dados complexos, enquanto a neurociência fornece à psicanálise evidências empíricas para validar e refinar suas teorias. Juntas, essas disciplinas podem aprofundar nosso entendimento da mente humana de maneiras que seriam impossíveis de alcançar isoladamente.
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Nesta segunda parte estão as citações que corroboram com o texto acima.
“Sempre existiram, no meio psicanalítico, aqueles que se interessaram em buscar fazer correlações entre a neurociência e os conhecimentos adquiridos na investigação psicanalítica. Com isso, puderam ser mostradas as contribuições que a psicanálise poderia dar para um enriquecimento mútuo nas investigações neuropsicológicas e traduzir em termos psicanalíticos as conquistas neurocientíficas (SOUSSUMI, 2001).”
“O desenvolvimento da neurociência começa a tornar realidade o vaticínio de Freud de que no futuro as hipóteses psicanalíticas seriam explicadas pela biologia (ANDRADE, 2003).”
“As aquisições recentes da neurobiologia indicam que a neuroplasticidade pode ser um dos caminhos para a reconciliação entre a psicanálise e a neurociência. Dentre os achados neurocientíficos no âmbito do psiquismo, destaca-se a ação da relação afetiva sobre circuitos neurais de bebês, os quais podem sofrer atrofia cerebral se cuidados inadequadamente. Também há evidências de que métodos psicológicos podem promover modificações no cérebro. Este ponto é de especial interesse para a psicanálise, cujo método se baseia numa relação afetiva (transferência) (ANDRADE, 2003).”
“Recentes avanços no estudo interdisciplinar da emoção também indicam possibilidades de uma aproximação bem-sucedida entre a psicanálise e a neurociência. O conhecimento atual dos mecanismos psicobiológicos, por meio dos quais, por exemplo, o hemisfério direito processa informações sociais e emocionais em níveis subconscientes e mediante os quais o córtex orbito frontal regula o afeto e a motivação, permite uma compreensão mais profunda da “Estrutura Psíquica” formulada por Freud (SCHORE, 1997 apud LIMA, 2009).”
“A descrição tradicional de inconsciência como concebida por Freud é de significância histórica e não somente ganhou ampla aceitação, mas também atraiu muito criticismo. Entretanto, hoje se sabe que o modo fundamental de processamento das funções cerebrais é de ordem inconsciente. Partes do processamento simbólico-declarativo e do processamento de funções emocionais do cérebro são permanentemente inconscientes. Outras partes desses processos são conscientes ou podem ser trazidas à consciência ou, alternativamente, podem ser excluídas da consciência. Ressaltando o papel essencial dos processos psíquicos inconscientes, Winograd et al (2005) citam como exemplo a verificação de que o comportamento de pacientes incapazes de se lembrar de acontecimentos passados, por causa de lesões em estruturas cerebrais responsáveis pelo armazenamento de memória, é claramente influenciado pelos fatos “esquecidos”. Esses dados corroboram a teoria de Freud, segundo a qual o inconsciente domina a maior parte dos processos psicofisiológicos. Segundo estudos de Lima (2010) a neurociência também demonstrou que as estruturas do cérebro essenciais para a formação de memórias conscientes não são funcionais durante os dois primeiros anos de vida, explicando o que Freud identificou como “amnésia infantil”. Assim como Freud hipotetizou, não poder trazer à luz da consciência a maior parte de nossas memórias de infância não significa que elas não tenham se inscrito em nós nem que não afetem nossos sentimentos, pensamentos e comportamentos atuais. As experiências da primeira infância, sobretudo entre mãe e bebê, influenciam o padrão das conexões cerebrais e, correlativamente, o padrão de nossos comportamentos e pensamentos. A vasta contribuição de Freud relativamente à função dos sonhos foi em grande parte ignorada pela ciência, pela falta de um método quantitativo e de hipóteses testáveis. Felizmente, os avanços da neurociência convergiram nos últimos anos para dois importantes insights psicanalíticos. O primeiro consiste na observação concreta de que os sonhos, frequentemente, contêm elementos da experiência do dia anterior, denominados de “restos do dia”. O segundo é o reconhecimento de que estes “restos” incluem atividades mnemônicas e cognitivas da vigília, persistindo nos sonhos na medida de sua importância para o sonhador. Assim, ainda que de maneira difusa, a psicanálise prevê que a consolidação de memórias e o aprendizado sejam importantes funções oníricas (SIDARTA, 2003).”
“Segundo Freud, os sonhos constituem “uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)”. A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico- mesocortical, INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 13 relacionado aos estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos também oferece algum respaldo à teoria freudiana. Assim, as emoções parecem exercer um papel fundamental na formação dos sonhos (CHENIAUX, 2006).”
“Estudos experimentais recentes trazem à tona duas grandes contribuições de Freud aos conhecimentos atuais sobre a supressão e/ou inibição de memórias. Ambos os processos, largamente estudados por ele, a repressão e a extinção, já têm boa parte de seus mecanismos conhecidos. Essa inibição ou supressão é inerente à nossa natureza. Por um lado, precisamos impedir o acesso à consciência de muitas memórias, porque sua evocação seria prejudicial ou insuportável.
Por outro, precisamos fazê-lo porque devemos recordar ou aprender outras memórias (IZQUIERDO, 2006). Em seu estudo, Izquierdo cita achados interessantes de outros pesquisadores (Anderson ET al, 2004): no momento em que o cérebro exclui da consciência a expressão de memórias indesejadas, ocorrem:
a) inibição da evocação dessas memórias (repressão);b) ativação do córtex pré-frontal anterolateral (envolvido na memória de trabalho);c) inibição da atividade do hipocampo. O hipocampo é o “diretor” da “orquestra” de áreas corticais envolvidas na evocação de memórias.O estudo desses cientistas pretendeu explicar casos de bloqueio de memória especialmente nas situações de abusos sexuais sofridos por crianças que não se lembram dos abusos quando se tornam adultas. Sua existência foi percebida por meio da utilização de imagens cerebrais que mostravam os sistemas neurológicos participantes do bloqueio da evocação de memórias indesejáveis. Esses dados corroboram a hipótese de Freud sobre o processo de “recalque”. Analisando todos esses dados, Lima (2010) considera que as visões psicanalíticas e neurocientífica podem ser complementares e mutuamente enriquecedoras. Tomados em conjunto, esses achados indicam não só a viabilidade, mas a necessidade de reavaliar o legado psicanalítico de Freud, com uma diferente abordagem.”
“Sigmund Freud (1895) - estudos funcionais do inconsciente. Entende que os processos físicos não poderiam ocorrer na ausência dos processos fisiológicos, mas que os físicos precediam ao fisiológico.”