Coordenador: Ale Esclapes Psicanalista, diretor da EPP-Escola Paulista de Psicanálise, e membro efetivo do Instituto Ékatus.
Data/horário: 03/06/2023 (sábado) 09:00hs
Investimento: Evento online, gratuito e realizado por videoconferência. Necessária a inscrição prévia, número de vagas limitadas.
Organização: Grupo Ateliê de Ideias - Maria Foster, Fernanda Hisaba, Juliana Rocha, Sueli Matsuki e Tatiana Costa.
Haverá emissão de certificados de participação: Ao final do evento será disponibilizado um link para um formulário de pesquisa de satisfação e emissão de certificado válido somente para o dia do evento._______________________________Dúvidas: Tel.: (11) 3628-1262; WhatsApp (11) 9 9876 9939 ou Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Atenciosamente, Equipe EPP.
Por Ale Esclapes -
"Nada de Novo no Front" é um filme de guerra alemão de 1930, dirigido por Lewis Milestone. O enredo é baseado no livro homônimo de Erich Maria Remarque, que conta a história de um jovem chamado Paul Baumer (Lew Ayres) e seus amigos que se alistam para lutar na Primeira Guerra Mundial. O filme é conhecido por ser um dos mais realistas e impactantes filmes de guerra já feitos.
No processo de alistamento, os jovens mostram uma ingenuidade e uma empolgação pelo seu país, que logo é destruída pela brutalidade da guerra e a máquina de guerra do estado alemão. A decepção quanto aos ideais vendidos pelo estado alemão é rápida, e os jovens soldados se veem confrontados com uma realidade muito diferente daquela que lhes foi vendida. No front de batalha, Paul desenvolve amizades e luta pela sobrevivência.
Talvez numa das cenas mais impactantes do filme, Paul ataca um soldado francês a facadas, e a despeito de todo horror vivido até então, entra em um misto de desespero e epifania, como se o horror da guerra se ali manifestasse: o soldado era um ser humano, igual a ele. Como o soldado francês não morre a despeito das facadas, em desespero, enfia terra na boca do soldado, como tentando acabar logo com aquilo, mas cujo simbolismo vai muito além desse. Para Paul viver um outro ser humano precisa morrer, ao mesmo tempo em que o humano em Paul morre nesse instante.
O filme também aborda com maestria a vida dos políticos alemães em contraste com a vida dos soldados no campo de batalha. Já o fanatismo do alto comando alemão é destacado no filme, que envia soldados para morrerem, a despeito do tratado de cessar fogo. Essa atitude mostra a falta de valorização da vida humana por parte dos líderes militares.
A cena final em que Paul é morto um minuto antes do cessar fogo é uma poderosa metáfora do título do filme "Nada de Novo no Front". A morte de Paul mostra que a guerra é um ciclo interminável de morte e destruição, e que a esperança é ausente neste contexto.
Em resumo, "Nada de Novo no Front" é um filme poderoso que retrata a brutalidade da guerra e a perda da inocência dos jovens soldados. A ingenuidade no processo de alistamento, a máquina de guerra do estado alemão, o desenvolvimento de amizades no front de batalha, a epifania de Paul e a falta de valorização da vida humana pelos líderes militares são temas fortes abordados no filme. Aqui nenhuma cena é menor ou em excesso, nenhum diálogo é dispensável. A cena final, que mostra a ausência de esperança em um ciclo interminável de guerra e morte, é uma mensagem impactante e perturbadora. ___________Direção: Edward BergerPlataforma: Netflix
Por Ale Esclapes -
Toda obra de arte aponta para um lugar além do óbvio, além do sensível que se apresenta. Close é um desses casos que com maestria, nos brinda com um drama sobre saída da infância e entrada na juventude circunscrita aqui pelo elemento sexual presente nessa passagem.
Uma outra delicadeza do filme é conseguir colocar outros elementos tão difíceis de abordar como amizade, culpa, suicídio de forma que cada espectador possa abordar o filme por um desses eixos, dado ao equilíbrio entre os temas.
Leo e Remi são melhores amigos apresentados em um estado de “pura inocência”. Brincam juntos, dormem juntos, não se desgrudam. Aqui o roteiro já coloca o espectador em uma posição única: entre admirar a pureza da uma relação de amizade entre dois garotos e saber que ainda que esses não “saibam”, dormir junto em conchinha em pouco tempo terá um significado diferente do que tem ali apresentado, ou, já desperta na imaginação do expectador que esses serão um futuro casal.
Eis que Leo é confrontado com a pergunta: “vocês são namorados”? Uma cesura se cria que vagamente tende à uma cisão. A partir desse ponto, vai ficando algumas lacunas e conclamando cada vez mais o espectador a fazer parte do filme, para que este o signifique. Leo começa a afastar-se de Remi, jogar bola e hóquei com outros garotos, e se enturmar como é típico da adolescência. Mas não é um movimento qualquer, ele vem a partir da pergunta: “vocês são namorados”. Não fosse a pergunta, ambos poderiam seguir o mesmo rumo, mas não ... Leo faz o caminho também para se afastar de Remi. O que teme Leo? Remi pelo seu lado não entende o que se passa, tenta se reaproximar, sempre sem sucesso.
Nesse ponto o roteiro introduz um outro tema (atenção, perigo de spoiler). Remi se suicida. Novamente o filme convoca o espectador para preencher uma lacuna. Foi por causa do afastamento de Leo? De qualquer forma Leo acredita que sim. Se antes tinha que dar conta do elemento sexual que se introduziu na relação com seu melhor amigo, o afastamento, uma eventual culpa por esse afastamento, a perda da inocência ... agora tem que dar conta de se sentir culpado pelo suicídio do melhor amigo. Esse enfim passa a ser o grande enredo do filme.
O diretor e roteirista Lukas Dhont nos propõe um olhar sensível e complexo sobre essa passagem tão dramática na vida de todos nós: a passagem da infância que aqui quer dizer uma forma específica de relação consigo e com o outro, para a adolescência, com a introdução do elemento sexual que muda toda essa estrutura já montada. Essa passagem não é fácil, é dolorosa, pois se perde o lugar no mundo, e é uma tarefa indelegável. Um filme sensível, muito bem construído, que convoca o espectador o tempo todo a significá-lo deixando lacunas (o que temia Leo? o que ele realmente sentia por Remi?) e que toca em temas muito difíceis com maestria.
___________Direção: Lukas DhontPlataforma: MUBI
Por Ale Esclapes -
Muitas pessoas associam o pecado da gula exclusivamente ao excesso de comida, mas sua essência é muito mais ampla e profunda. A gula, em seu cerne, está intrinsecamente ligada ao vício, a uma busca incessante por preencher um vazio interior que nunca se satisfaz. Ela se manifesta em qualquer comportamento descontrolado, seja no consumo de substâncias, na busca por bens materiais ou até mesmo na compulsão por trabalho. É a incapacidade de dizer "basta", transformando o prazer em uma corrente que aprisiona a alma em um ciclo de desejo e frustração.
Um dos filhotes da inveja é a avidez, um sentimento que nos impede de encontrar satisfação na vida. A pessoa ávida, ao observar a felicidade alheia, sente um desejo insaciável de possuir o que o outro tem, acreditando que ali encontrará a sua própria alegria. No entanto, essa busca é uma ilusão, pois a avidez anula o prazer e a satisfação genuínos. Como mais não me satisfaço, logo tenho que comer mais, em uma tentativa vã de preencher o vazio existencial que a própria avidez alimenta, tornando-se um ciclo vicioso de insatisfação.
O drogado é o exemplo mais contundente da dinâmica do vício. Ele experimenta um prazer momentâneo e intenso, que logo é retirado, deixando um rastro de vazio e desespero. A partir desse ponto, sua vida se resume a uma busca incessante por reviver aquela sensação, custe o que custar. Isso se chama vício, uma escravidão moderna onde a liberdade é trocada pela promessa de um alívio fugaz. O indivíduo se torna refém de sua própria busca, perdendo o controle sobre suas escolhas e sua própria vida.
No vício, o indivíduo está fadado ao fracasso, e, de novo, retorna a um outro pecado. "O vício antes de matar, ele humilha", diz um velho ditado, e essa humilhação é uma das consequências mais cruéis da dependência. A pessoa viciada perde sua dignidade, sua autoestima e seus relacionamentos, tornando-se uma sombra de quem um dia foi. A humilhação é um lembrete constante da perda de controle, da incapacidade de resistir ao desejo que a consome, aprofundando ainda mais o ciclo de dor e autodestruição.
A superação da gula e do vício não se encontra em uma simples abstinência, mas em uma jornada de autoconhecimento e ressignificação do prazer. É preciso compreender as raízes da insatisfação que alimenta o comportamento compulsivo, questionando os vazios que tentamos preencher de forma inadequada. A busca por satisfação genuína, que nutre a alma em vez de apenas saciar o corpo, é o caminho para a libertação. Isso envolve cultivar relacionamentos saudáveis, encontrar propósito em atividades significativas e aprender a apreciar a beleza da moderação, redescobrindo o verdadeiro sabor da vida.
Além da avidez, a gula também se alimenta de outros sentimentos sombrios, como a soberba e a solidão. A soberba nos faz acreditar que merecemos mais do que os outros, que temos o direito de consumir sem limites, ignorando as consequências de nossos atos. A solidão, por sua vez, nos empurra para um consumo desenfreado como forma de preencher o vazio deixado pela falta de conexão humana. Em ambos os casos, a gula se torna uma fuga, uma tentativa de silenciar a dor da alma com o barulho do consumo, aprofundando ainda mais o abismo da insatisfação.
A gula se manifesta de forma proeminente na sociedade de consumo, onde o desejo é constantemente estimulado e a satisfação, perpetuamente adiada. A busca incessante pelo último lançamento, pela tendência da moda ou pelo gadget mais moderno é uma expressão contemporânea da avidez. O ato de consumir torna-se um ritual para aplacar uma insatisfação crônica, um prazer fugaz que, uma vez extinto, exige um novo objeto de desejo. Assim, o indivíduo se vê preso em um ciclo de compra e descarte, confundindo o ter com o ser e alimentando um vazio que os bens materiais jamais conseguirão preencher.
No ambiente corporativo, a gula assume uma faceta socialmente aceitável: o vício em trabalho, ou 'workaholism'. Em uma cultura que exalta a produtividade e o sucesso a qualquer custo, a dedicação profissional pode facilmente se converter em uma compulsão destrutiva. O 'workaholic' busca no excesso de trabalho a mesma gratificação insaciável que o glutão busca na comida, sacrificando sua saúde, seus relacionamentos e seu bem-estar em nome de uma ambição sem limites. A exaustão e a ansiedade se tornam suas companheiras constantes, evidenciando a presença de um vício que consome a vida em vez de preenchê-la.
O uso de drogas representa a manifestação mais explícita e devastadora da gula como vício. A substância química oferece uma rota de fuga imediata, um prazer artificialmente intenso que mascara temporariamente a dor e o vazio existencial. No entanto, essa euforia é efêmera e cobra um preço altíssimo, aprisionando o indivíduo em um ciclo de dependência física e psicológica. A busca pela próxima dose se sobrepõe a todas as outras prioridades, corroendo a identidade, a dignidade e os laços afetivos, e ilustrando de forma trágica a humilhação que precede a destruição final imposta pelo vício.
Por Karen Rodrigues A. Chaves -
Em Freud, a psicanálise era sobretudo a arte da interpretação e não uma técnica por sugestão. O método psicanalítico proposto por ele visa ter acesso ao inconsciente, trazendo para o consciente aquilo que foi reprimido, liberando emoções e experiências. Resgatar a libido que se moveu para a regressão e reanimar as imagens infantis, colocando essa libido a serviço da realidade. Mas, como ele propõe isso?
Primeiramente é importante destacar que de todos os conceitos criados para fundamentar sua teoria, o de inconsciente representa o elemento central em toda a psicanálise, e é para onde o olhar do analista deve ser direcionado. Freud chegou a suposição do inconsciente ao perceber que a consciência possui muitas lacunas, como atos psíquicos que não se justificam apenas pela consciência, e para os quais se faz necessário considerarmos a influência do inconsciente.
O inconsciente é o consciente reprimido (recalcado), é um lugar psíquico com uma energia específica e é o campo de trabalho da psicanálise. Durante sua clínica, Freud, identificou algumas formas de obter acesso ao inconsciente, e uma dessas formas seria por meio da associação livre. Essa técnica na qual o analisando pode falar tudo aquilo que lhe vier a mente sem a intervenção ou orientação do analista, se tornou essencial para o psicanalista conseguir ter acesso ao inconsciente do paciente. Pela sua fala o analista pode captar aquilo que surge, por vezes, nas entrelinhas e, assim, identificar os conteúdos inconscientes.
Naquilo que não é dito, omissões, confusões e esquecimentos, é que se expressa o inconsciente. São formas de exprimir opiniões ou verdades que a razão consciente não permite, funcionando como um disfarce. Freud destaca a necessidade da atenção equiflutuante por parte do analista, que seria ouvir sem raciocinar, escutar sem seleção prévia, sem censura, as associações livres do analisando.
Outro caminho identificado por Freud para ter acesso ao inconsciente seria por meio da interpretação dos sonhos. Ele define os sonhos como o caminho mais rico para a investigação do inconsciente.
O sonho se apresenta pelo conteúdo manifesto, que se refere ao que pode ser lembrado e relatado; e pelo conteúdo latente, que é o conteúdo oculto e inconsciente, que provoca o sonho.
Ao narrar o sonho para o analista, o paciente consegue fazer associações a respeito das imagens e dos símbolos do seu inconsciente. Esse trabalho de interpretação dos sonhos se realiza ao nível da linguagem, do discurso do paciente e não das imagens oníricas que o paciente recorda.
No processo de interpretação, o analista precisa olhar para as imagens do sonho e interpretá-lo como uma narrativa não linear, em que estarão manifestos os desejos, medos e traumas enraizados no inconsciente, dando liberdade para o analisando criar as suas próprias associações, e não interpretar o sonho do paciente logo de imediato.
O tratamento analítico segue para tentar resgatar a libido e nesse ponto a resistência luta para o que foi reprimido não seja revelado, evitando assim o desprazer. A resistência usa a repressão como recurso para manter algo afastado da consciência.
Ao invés de lembrar de tudo que está reprimido, o paciente é levado a repetir o que foi recalcado, como vivência atual e não como parte do passado. Essa reprodução, que sempre tem por conteúdo algo da vida sexual infantil, se dá no âmbito da transferência, isto é, da relação com o analista.
A transferência é um retorno do reprimido que volta para a figura do analista, e ocorre quando algo do recalcado for adequado para ser transferido a pessoa do analista.
O analista deve utilizar a transferência para fazer com que o paciente recorde, tome consciência.
Para Freud, o conteúdo reprimido é expresso pelo indivíduo através de um conjunto de ações repetitivas, e o manejo seria a maneira de transformar pouco a pouco a compulsão a repetição, levando o indivíduo a se reapropriar da sua história.
O manejo da transferência configura como uma das maiores dificuldades da clínica. O amor transferencial, que é criado pela própria situação analítica, acaba sendo utilizado pela resistência para impedir a continuidade do tratamento e cabe ao analista saber manejar esse sentimento, mantendo a transferência amorosa, a tratando como algo que deverá ser enfrentado durante o tratamento para reconduzir ao consciente o que foi recalcado, para que o paciente consiga elaborar o que foi tratado em sua sessão.
A superação da resistência não ocorre quando a mesma é comunicada ao paciente. Ele precisa de tempo para se aprofundar na resistência para poder elaborá-la e então superá-la.
A comunicação do recalcado ao analisando é apenas uma das preparações necessárias para o tratamento, e essa revelação do inconsciente costuma ter como consequência a intensificação do conflito dentro dele e o aumento do sofrimento. Por isso antes, como preparação, o analisando precisa estar próximo do recalcado, e apegado ao analista para não querer interromper o tratamento. Só com o preenchimento desses pré-requisitos será possível reconhecer e dominar as resistências que levaram ao recalque e ao desconhecimento.
O tratamento psicanalítico pressupõe um contato mais prolongado, sendo que seria totalmente condenável uma revelação precipitada pelo analista, o que colocaria em risco todo o processo. Atrasar o prazer é um dos pontos do princípio de realidade no psiquismo, como forma de evitar um desprazer maior, considerando que não podemos realizar tudo o que desejamos.
Freud destacou a importância da sensibilidade do psicanalista aos movimento psíquicos do analisando, para que o tratamento seja efetivo e alcance seu objetivo, ajudando o analisando a compreender seus pensamentos e traumas, se libertando dos sintomas, para que ele saiba lidar com seus sofrimentos, se sentindo no comando da sua vida.
Por Ale Esclapes -
A preguiça é, talvez, um dos pecados capitais mais profundamente incompreendidos. Longe de ser a simples falta de vontade momentânea para realizar uma tarefa, ela representa um estado de torpor existencial muito mais complexo. A preguiça, em sua essência teológica, não é o descanso merecido ou a procrastinação ocasional, mas uma recusa em engajar-se com a própria vida, uma apatia que corrói a alma e nos afasta da nossa própria humanidade, um desinvestimento radical na própria existência que nos foi dada como um presente.
Nos mosteiros medievais, esse estado era conhecido como acídia e temido como o "demônio do meio-dia". Evagrius Ponticus, um monge do deserto do século IV, descreveu vividamente como esse demônio assaltava os monges nas horas mais quentes do dia, mergulhando-os em um estado de prostração e inquietação. O monge acometido pela acídia sentia aversão à sua cela, ao seu trabalho e à sua própria vocação, olhando incessantemente pela janela, desejando estar em qualquer outro lugar, incapaz de encontrar paz ou propósito no momento presente.
Hoje, à luz da psicologia moderna, daríamos a esse mal o nome de depressão. A semelhança entre os sintomas da acídia e os da depressão é notável. Comportamentos como a perda de interesse e prazer em atividades cotidianas (anedonia), a fadiga persistente e falta de energia, o isolamento social e aversão ao contato humano, a dificuldade de concentração e tomada de decisões, e uma profunda sensação de desesperança e vazio são manifestações claras que transitam entre a descrição monástica da acídia e o diagnóstico clínico da depressão.
A acídia era considerada um dos pecados mais graves precisamente por sua capacidade de desinvestir o monge de sua pulsão de vida. Ao sucumbir a essa tristeza paralisante, o indivíduo renunciava à sua capacidade de amar, de sentir gratidão e, no contexto da fé, de se conectar com Deus. Era uma morte espiritual em vida, uma recusa em aceitar a bondade da criação e a própria existência como um dom. Essa apatia profunda representava uma quebra fundamental na relação com o sagrado e com o próprio sentido da vida.
Se um indivíduo for deixado nesse estado de acídia ou depressão profunda, ele certamente irá perecer, tanto do ponto de vista emocional quanto físico. A negligência com o autocuidado, a má alimentação, a insônia e o isolamento social progressivo levam a uma deterioração da saúde física, aumentando o risco de doenças crônicas e morte. Emocionalmente, a pessoa se afunda em um abismo de desesperança que pode culminar no suicídio. A acídia, portanto, era vista como o pecado derradeiro, pois seu caminho inevitavelmente conduzia à morte, sendo o mais difícil de ser combatido por sua natureza silenciosa e paralisante.
Por Ale Esclapes -
Diante do fracasso do orgulho e da persistência da inveja, emerge a luxúria como uma falsa promessa de alívio. Ela se apresenta como a crença de que os prazeres corporais podem preencher o vazio deixado por essas feridas narcísicas. A busca incessante por sensações físicas torna-se uma tentativa desesperada de silenciar o mal-estar existencial. Nesse contexto, o corpo é convocado a ser uma máquina de prazer, uma ferramenta para negar a própria vulnerabilidade e a dor psíquica que o orgulho e a inveja insistem em revelar.
Na luxúria, o corpo é transformado em um instrumento de negação, uma máquina de prazer cuja função é provar a inexistência do vazio e do mal-estar. A busca frenética por satisfação carnal visa criar uma realidade paralela, onde a angústia não tem espaço para se manifestar. Cada novo prazer é uma tentativa de sobrepor a sensação de inadequação e de fracasso que o orgulho ferido e a inveja corrosiva geram. O corpo, então, é explorado em sua capacidade de sentir, na esperança de que a intensidade das sensações possa apagar a consciência da dor.
A luxúria também evidencia uma falha no controle do ego sobre o id, sobre os desejos mais primitivos e imediatos. A economia psíquica, assim como a economia material, lida com a gestão de desejos ilimitados diante de recursos limitados. Quando o ego se mostra incapaz de exercer essa gestão, de impor limites aos impulsos do id, a luxúria encontra terreno fértil para se instalar. Esse descontrole gera um impasse, uma vez que a busca incessante por prazer não apenas falha em resolver o problema original, como também cria um ciclo vicioso de insatisfação.
É crucial compreender que a luxúria, neste contexto, transcende a esfera sexual, abrangendo todo desejo carnal desenfreado. Ela se manifesta em tudo aquilo que nos proporciona um prazer momentâneo, uma fuga para esquecer o estrago que a inveja provoca em nosso psiquismo. Seja na comida, na bebida, ou em qualquer outra forma de gratificação sensorial, a luxúria atua como um anestésico para a alma, uma tentativa de preencher com sensações o vazio deixado pela falta de sentido e pela dor da comparação.
Por Ale Esclapes -
O orgulho pode ser compreendido como uma armadura reluzente que encobre a corrosiva inveja e o profundo vazio existencial que ela engendra. Trata-se de uma sofisticada ilusão de grandeza, uma autoimagem inflada que busca espelhar os atributos divinos que o ser humano, em sua fragilidade, anseia possuir. Essa miragem se manifesta primordialmente em três facetas da experiência humana: a onipotência, a onisciência e a onipresença, cada qual tecendo uma teia de controle e autoengano que distancia o indivíduo da realidade e de si mesmo, criando uma casca rígida e solitária.
A onipotência se revela na avassaladora sensação de que tudo é possível, de que se tem o poder de comandar o universo e de que todos ao redor devem se curvar à sua vontade. É a fantasia do controle absoluto sobre pessoas e circunstâncias, uma negação da própria finitude e das limitações inerentes à condição humana. Em suas manifestações mais extremas, essa necessidade de poder absoluto pode fraturar a percepção da realidade, dando origem a delírios de grandeza nos quais o indivíduo habita um mundo paralelo, construído unicamente para validar sua ilusória e inabalável soberania.
A onisciência, por sua vez, costuma se apresentar sob a máscara da arrogância, a crença inabalável de possuir todo o conhecimento e de ter certezas sobre qualquer assunto. Funciona como um controle onipotente aplicado ao domínio dos pensamentos e das ideias, onde não há espaço para a dúvida, o questionamento ou a perspectiva alheia. Este fenômeno é particularmente visível no cenário político contemporâneo, onde discursos inflamados e repletos de certezas dogmáticas polarizam o debate e impedem o diálogo construtivo, transformando a troca de ideias em um campo de batalha de egos.
A manifestação da onipresença ocorre através de um controle obsessivo e minucioso sobre o ambiente e as relações. Tudo precisa ser perfeitamente previsível, cada detalhe meticulosamente orquestrado para eliminar qualquer possibilidade de surpresa ou imprevisto. O acaso, a espontaneidade e a incerteza do mundo tornam-se fontes de profunda angústia, pois desafiam a ilusão de que se pode estar em todos os lugares e controlar todos os eventos. Essa busca incessante por previsibilidade sufoca a vida e transforma a existência em um roteiro rígido e sem vitalidade.
Contudo, essa elaborada construção está, invariavelmente, fadada ao fracasso. A realidade, com sua força imprevisível e caótica, costuma passar como um trator sobre a frágil estrutura do orgulho, expondo suas rachaduras. Mesmo diante do colapso, a reação mais comum não é a rendição, mas sim dobrar a aposta na ilusão. Desistir desse lugar de suposta grandeza significaria ter que encarar o doloroso vazio e a inveja que o orgulho tão arduamente tentou ocultar, um confronto que a maioria prefere adiar indefinidamente, perpetuando o ciclo de sofrimento.
Por Pedro Castro - A série O Paciente, da FX, é curta, com apenas 10 episódios, mas rica em elementos que permitem refletir sobre a prática psicanalítica e os desafios do trabalho clínico. Neste texto, parto do pressuposto de que a abordagem utilizada é psicanalítica e foco na condução do analista, destacando as lacunas evidenciadas ao longo do processo terapêutico.Falhas na Identificação da Parte Psicótica da Personalidade do Paciente e na Capacidade Negativa do AnalistaNo primeiro episódio, o analista, interpretado por Steve Carell, recebe um paciente, vivido por Domhnall Gleeson, que relata ter sido repetidamente agredido pelo pai. Durante a sessão, torna-se evidente que o paciente se mostra evasivo e distante, tanto em relação às perguntas quanto ao próprio analista.Após algumas sessões, o analista rapidamente interpreta a relação, apontando ao paciente sua postura evasiva e distante, e sugere que, para o progresso do trabalho, ambos precisariam estabelecer uma relação mais íntima. Nesse momento, surge o problema: o que “ser íntimo” significa para esse paciente? O analista presume que o paciente compreende a ideia de intimidade, o que não é o caso.A teoria de Bion sobre a capacidade negativa — a habilidade do analista de suportar o “não saber” sem projetar suas próprias suposições — revela-se crucial aqui.A resposta do paciente à proposta do analista é alarmante: ele o sequestra e o mantém no porão de sua casa. Ao recobrar a consciência, o analista pergunta o que está acontecendo, e o paciente responde: “Você sugeriu que deveríamos ser íntimos.” Esse momento ilustra a recomendação de Melanie Klein, posteriormente expandida por Bion, de que a comunicação com a parte psicótica da personalidade deve ser distinta daquela com a parte neurótica.Enquanto a parte neurótica tem capacidade simbólica, a parte psicótica interpreta tudo de forma literal. Assim, para o paciente, a ideia de “intimidade” justifica o sequestro como meio de estabelecer proximidade.Ao longo da série, outras lacunas tornam-se evidentes. O exemplo mais marcante ocorre quando o analista sugere que os atos de violência do paciente — um serial killer — poderiam simbolizar seus sentimentos em relação ao pai. Para o paciente, essa interpretação oferece alívio, e ele decide matar o pai.Embora o paciente, em alguns momentos, acesse partes neuróticas de sua personalidade, permitindo maior simbolização e diálogo, o analista se equivoca quando não diferencia adequadamente essas instâncias, o que compromete o trabalho analítico. É fundamental evitar pressupostos sobre o entendimento do paciente, diferenciando as comunicações dirigidas às partes psicótica e neurótica da personalidade.Questões para reflexão:1. O que meu paciente compreende do que eu digo?2. Como analista, sou capaz de tolerar meu “não saber” e, quando necessário, pergunto ao paciente o significado que algo tem para ele?3. Sei distinguir as nuances da comunicação entre as partes psicótica e neurótica da personalidade?________________________________________O Lugar do AnalistaDesde o primeiro episódio, observa-se uma inversão de papéis: o paciente começa a ocupar o lugar do analista, percebendo e nomeando as emoções do terapeuta.Autores pós-kleinianos, assim como Melanie Klein em Inveja e Gratidão, destacam que o analista deve sempre manter seu lugar no setting terapêutico. Contudo, isso nem sempre é fácil. Esta leitura pode sugerir que há uma responsabilidade do paciente por inverter o papel com o analista, todavia o paciente pode “fazer o que bem entender” no setting terapêutico, mas cabe ao analista sustentar sua posição e não se deixar desviar de seu papel.
Reflexão: Até que ponto conseguimos sustentar nosso papel, sem sermos capturados pelo conteúdo manifesto apresentado pelo paciente? Somos capazes de resistir ao desejo do paciente por uma interpretação imediata, mantendo o silêncio quando necessário?________________________________________Proximidade e DistanciamentoDurante o tratamento de experiências emocionais, é essencial equilibrar proximidade e distanciamento. É necessário estar “um” com o paciente em determinados momentos, mas também saber sair dessa posição simbiótica com cuidado e leveza.Na série, especialmente nos primeiros episódios, o paciente percebe a desconexão do analista e sente-se frustrado.Perguntas fundamentais:1. Qual é minha capacidade de me conectar emocionalmente com o paciente?2. Como está meu espaço interno para lidar com as demandas de cada sessão?3. Estou negligenciando minha própria análise e supervisão?________________________________________A Não Percepção da Própria Experiência EmocionalPara finalizar, destaco a importância de acolhermos nossas próprias experiências emocionais durante as sessões. Focar exclusivamente no paciente, ignorando nossos próprios sentimentos, compromete a eficácia do trabalho analítico.Conceitos como contratransferência ou turbulência emocional mostram que as emoções do analista podem ser ferramentas valiosas. Na série, se o analista tivesse percebido seu desejo de afastar-se do paciente como reflexo de algo vivido por este, o desfecho trágico poderia ter sido evitado.O paciente, ao final da série, acolhe parte das interpretações do analista, decidindo se trancar em casa e confirmando a interpretação de que precisaria ser internado.Reflexão final: Quando, de fato, uma análise termina? Mesmo com as lacunas inevitáveis, cabe ao analista sustentar uma prática ética e reflexiva, garantindo que o paciente de amanhã encontre um profissional mais inteiro e consciente.
________________________________________Sobre o Autor: Sou Pedro Castro, membro do Instituto Ékatus, facilitador no programa de formação em psicanálise e coordenador do grupo Melanie Klein Hoje, na EPP-Escola Paulista de Psicanálise. Ministro cursos sobre os pensamentos de Bion, Klein, pós-kleinianos e Winnicott. Atuo como psicanalista clínico e supervisor. Para análise pessoal e supervisão, entre em contato pelo telefone (12) 99175-1787.
Por Ale Esclapes -
O documentário Dahomey, dirigido por Mati Diop, explora as complexas relações entre passado e presente, abordando o impacto do colonialismo sobre o Reino de Dahomey, situado no atual Benim, áfrica Ocidental. O filme narra não apenas a história de um dos reinos mais influentes da região durante os séculos XVII ao XIX, mas também o trauma do colonialismo europeu e sua influência persistente nas sociedades africanas contemporâneas. Mati Diop adota uma perspectiva que combina memória histórica e identidade cultural, questionando os desdobramentos da exploração colonial e seu legado de violência, apagamento e resistência.
O documentário evidencia como o colonialismo devastou culturas inteiras, impondo não apenas dominação territorial e econômica, mas também destruindo ou desarticulando as bases culturais, lingísticas e identitárias dos povos colonizados. O roubo de bens materiais é acompanhado pelo roubo simbólico: a imposição das línguas europeias, que substituíram as línguas nativas como forma de comunicação e expressão. Essa violência cultural teve consequências profundas, afetando gerações e criando uma ruptura entre os povos e suas heranças históricas.
Questões Centrais: Colonialismo e Identidade Cultural
O colonialismo europeu não apenas saqueou riquezas materiais dos territórios africanos, mas também implantou estruturas de poder que perpetuam desigualdades até hoje. A imposição de línguas como o francês, o inglês e o português é um exemplo claro de como a dominação colonial impactou a identidade cultural. A língua, além de ser um meio de comunicação, é um elemento essencial para a preservação de histórias, crenças e tradições. Assim, quando as línguas nativas foram suprimidas, as culturas também foram silenciadas.
Outro ponto levantado por Dahomey é o papel da resistência. Mesmo sob as condições mais adversas, os povos africanos encontraram maneiras de preservar suas tradições e memórias. Essa resistência, no entanto, é frequentemente ignorada ou subestimada nas narrativas tradicionais que enfatizam o poderio europeu.
O Contexto Brasileiro
O Brasil, enquanto uma ex-colônia de Portugal, carrega um histórico de exploração semelhante, mas com especificidades que tornam a situação complexa. A mistura de povos indígenas, africanos escravizados, europeus colonizadores e, posteriormente, imigrantes de diversas partes do mundo, criou uma sociedade altamente miscigenada. Essa realidade torna difícil aplicar conceitos de identidade unívoca, como aqueles apresentados em Dahomey, ao contexto brasileiro.
No Brasil, as lutas por reconhecimento cultural e histórico também enfrentam desafios particulares. Embora o país tenha uma diversidade única, as estruturas de poder e desigualdade ainda são profundamente marcadas pela herança colonial. A população negra, por exemplo, continua enfrentando discriminação e exclusão social. Ao mesmo tempo, a luta por uma identidade cultural autêntica pode ser usada de forma político-partidária, alimentando divisões culturais que ignoram a realidade miscigenada do país.
Reflexões sobre a Divisão Cultural
A necessidade de reexaminar o passado colonial é indiscutível. No entanto, é crucial que essas discussões não sejam instrumentalizadas para criar novas divisões. No Brasil, as questões identitárias devem reconhecer a complexidade da miscigenação, que é tanto uma força quanto um desafio. Forçar uma identidade fixa, ignorando a pluralidade histórica e cultural do país, pode resultar em interpretações reducionistas que não correspondem à realidade.
Assim como em Dahomey, a busca por justiça histórica deve ser acompanhada por um reconhecimento das nuances e das especificidades de cada sociedade. O Brasil, com sua diversidade única, pode ser um exemplo de como encontrar caminhos para a reconciliação, desde que as discussões não se tornem ferramentas de polarização política.
Conclusão
O documentário Dahomey é um convite para refletirmos sobre as marcas deixadas pelo colonialismo, não apenas em territórios africanos, mas em toda a diáspora. No caso do Brasil, essas reflexões são fundamentais para compreender as desigualdades e os desafios contemporâneos. Contudo, é essencial que tais debates sejam conduzidos com responsabilidade, valorizando a pluralidade e evitando simplificações que possam reforçar divisões ao invés de construir pontes.