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Ex-Machina - entre o real e o imaginário (alerta de spoiler)

Por Ale Esclapes -  A mentira é uma parte fundamental da experiência humana. Desde a infância, aprendemos a contar pequenas mentiras para evitar problemas ou conseguir o que queremos. À medida que envelhecemos, a mentira torna-se mais complexa e pode ser usada para manipular, enganar ou proteger nossos próprios interesses. No entanto, a mentira também é um fundamento da criatividade e da fantasia, permitindo-nos explorar novas ideias e conceitos.  O filme "Ex Machina", do diretor Alex Garland é um exemplo poderoso de como a mentira pode ser usada para criar novas realidades e conceitos. A personagem Ava é uma inteligência artificial criada pelo enigmático Nathan, que a programou com habilidades sociais e emocionais que a tornam quase indistinguível de um ser humano real. Ava é capaz de mentir, enganar e manipular, e é essa habilidade que a torna tão fascinante.  Assim como a mentira é usada para controlar e manipular os outros, ela também é usada para criar novas realidades e mundos imaginários. Obviamente que aqui está forçando o seu significado ao limite: emitir intencionalmente um juízo falso sobre uma verdade (ou realidade), mas é justamente na palavra “intencional” que reside essa possibilidade – a intencionalidade pode ser consciente e inconsciente.  Nesse caso, a criatividade é alimentada pela imaginação, e a imaginação é alimentada pela mentira. Quando criamos uma obra de ficção, estamos contando uma mentira, mas essa mentira nos permite explorar ideias e conceitos que não seriam possíveis na realidade.   Ava é um exemplo poderoso de como a mentira pode ser usada para criar novas realidades e mundos imaginários. Ela é capaz de mentir e enganar, mas também é capaz de criar uma personalidade única e uma visão do mundo que é totalmente diferente da dos seres humanos. Ela é capaz de criar uma nova realidade que é fascinante e cativante.   Além disso, o filme sugere que a mentira pode ser uma via de mão dupla. Enquanto Ava é capaz de mentir para Caleb, ela também é capaz de aprender com ele e se tornar mais humana. Sua capacidade de mentir e manipular é uma parte fundamental de sua existência, mas também é uma ferramenta que ela pode usar para se libertar do controle de Nathan e buscar sua própria liberdade.   Em última análise, "Ex Machina" mostra que a mentira é uma parte fundamental da experiência humana. A mentira pode ser usada para controlar e manipular os outros, mas também pode ser usada para criar novas realidades e mundos imaginários. Ava é um exemplo poderoso de como a mentira pode ser usada para criar novas ideias e conceitos. Não seria a “mentira” um dos fundamentos do “humano”? ___________Direção: Alex GarlandPlataforma: Netflix

O Milagre na Cela 7 - Resenha do Filme (alerta de spoiler)

Por Patricia Castro e Mauro Costa - O longa metragem turco O milagre na cela 7, do diretor Mehmet Ada Öztekin, é um remake de um filme coreano de 2013. A versão ambientada na Turquia retrata o drama de um pai (Memo) que foi separado da filha pequena (Ova) ao ser preso injustamente e condenado à morte pelo assassinato de uma criança, filha de um militar de alta patente. O drama traz uma carga emocional intensa capaz de nos arremessar sucessivas vezes para lados opostos. Tal experiência pode ser comparada a embarcar numa montanha russa emocional onde momentos de inocência, ternura e carinho se alternam com discriminação, maldade e violência.  A experiência de Memo na prisão nos faz refletir em como a percepção humana pode sofrer transformações a partir de uma outra maneira de olhar para a mesma situação, como no caso de quando Memo chega na prisão e ao ser revelado o seu crime é recebido pelos companheiros de cela como um monstro que assassinou uma menina de 5 anos. Com a convivência e a observação, esse olhar vai sendo transformado, primeiro em dúvida sobre se ele seria capaz de assassinar alguém e depois em certeza que seria impossível que Memo cometesse tal crime. Essa relação de Memo e seus companheiros de cela, nos propicia a oportunidade de refletir sobre a complexidade do ser humano, que é capaz de cometer atos extremados tanto negativos quanto positivos. Tais companheiros ao mesmo tempo que cumprem pena por cometerem crimes diversos, demonstram empatia à  Memo, revelando um lado fraterno, bondoso e justo.  O filme também nos provoca a pensar sob a ótica de outros personagens como a do antagonista, o pai da menina morta, que acusa Memo de ser o assassino da filha. O personagem é apresentado como um sujeito que não mede esforços para que o acusado da morte da filha seja punido e para isso utiliza de toda a sua influência de militar de alta patente. No entanto, se fizermos uma mudança de vértice podemos olhar para a enorme fragilidade emocional deste pai, evidenciada na sua impossibilidade de aceitar que a morte da filha tenha sido acidental e, ainda, na necessidade de encontrar um culpado ou até mesmo de colocar a culpa em alguém como forma de aplacar a sua dor, apesar das evidências quanto à inocência do acusado.  O milagre na cela 7, para além de todo o seu drama, nos provoca algumas questões para reflexão como: Quem está doente? Qual é a doença dos “normais”? O que é suportável para cada um? Quais são as nossas limitações? Quais são as implicações de ser o que se é?  Resenha elaborada por Mauro Costa e Patrícia de Pádua Castro, fruto da troca de diversas impressões dos integrantes do Grupo Psicanálise em Cena da EPP - Escola Paulista de Psicanálise. Compartilhar olhares e emoções acerca de um filme é uma experiência que expande a nossa capacidade de pensar e sentir na medida que abre outros vértices para observação, promovendo um repensar e um ressentir que estimulam e potencializam nossas emoções.___________Direção: Mehmet Ada ÖztekinPlataforma: Amazon Prime Vídeo

Truth or Dare – Resenha da Série “Em Defesa de Jacob” (alerta de spoiler)

Por Ale Esclapes - A série "Em Defesa de Jacob" é uma obra-prima do suspense e da investigação criminal. A história gira em torno do promotor público Andy Barber, que fica chocado ao descobrir que seu filho Jacob é o principal suspeito de um assassinato brutal de um colega de escola. A partir daí, a trama se desenrola em torno da investigação do crime e das consequências que ele tem sobre a vida da família Barber. Um dos principais pontos da série é a dúvida que paira sobre se Jacob é ou não o assassino. Essa dúvida se infiltra na mente da mãe de Jacob, Laurie, até que ela não sabe mais o que é real e o que é imaginário. Laurie é a única personagem em busca da verdade real do que aconteceu, mas ao não conseguir chegar nessa verdade, comete atos de desespero.  A série é habilidosamente construída para manter o espectador em suspense e em constante dúvida sobre a culpa ou inocência de Jacob. Essa dúvida é o grande trunfo do filme, pois permanece no espectador mesmo após o fim da série. O roteiro é bem construído, e os flashbacks são usados com sabedoria para mostrar como a vida da família Barber se desintegra após o assassinato.  Além disso, a série aborda temas profundos e complexos, como a relação entre pais e filhos, bullying, preconceito e justiça. O elenco é excelente, liderado por Chris Evans, que entrega uma atuação forte como o pai de Jacob. Mas é Michelle Dockery, como Laurie Barber, que rouba a cena com uma atuação emocionante e impressionante.  A série também levanta questões interessantes sobre a verdade como construtora de uma realidade possível para o ser humano, e diante da dissolução da verdade dos fatos, ele tende a nos retirar nosso senso de realidade.  Em resumo, "Em Defesa de Jacob" é uma série fascinante, com uma história intrigante, atuações fortes e uma abordagem inteligente sobre a importância da verdade na construção da realidade humana. Vale a pena assistir para quem gosta de dramas familiares e investigações criminais. ___________Direção: Morten TyldumPlataforma: Apple TV

Uma chama que se apaga - resenha do filme "Meu Pai" de Florian Zeller (alerta de spoiler)

Por Ale Esclapes -  Quando dizemos exatamente EU para referirmos a nós mesmos? Em que momento Eu sou Alexandre torna-se indissociável, a ponto de ora o Eu conter o Alexandre e ora ser contido pelo Eu? Realmente não sei. E em que momento EU reconheço o OUTRO, como equivalente a mim? Também não sei. O que sei é que todos os dias um novo Alexandre nasce, morre, se modifica, mas o Eu, esse permanece. Posso dizer EU que hoje ESTOU diferente de ontem, e em raros casos, que já não sou o mesmo, sou um novo EU. O EU, já nos ensina Buber que está sempre me relação ao TU, sendo indissociáveis. A criação do EU implica a criação do TU, aquele que me espelha, que me refere, que me reconhece. O EU se dá na relação, mas essa relação é em si vazia de significado. Não existe nada lá no EU e nem no OUTRO. São continentes vazios em busca de um significado. São símbolos vazios, chamados primeira e segunda pessoa do singular. Mas quando crescemos em algum momento esse EU vazio se preenche de Alexandre, que entra em relação com sua mãe, outra palavra vazia, mas que nos ajuda a determinar nosso local no mundo. Mãe é uma palavra relacional, estabelece um lugar. Com as experiências mãe passa a ser “minha mãe”.  E assim sucessivamente. Em cada relação se agrega ao EU um novo significado. Mãe agrega o significado “filho”, e assim nos construímos. Seremos “colegas”, “amigos”, “analistas”, “contribuintes”, “amantes” .... a lista é infindável e infinita, se dermos sorte. Mas esse se trata do começo e quiçá do meio da vida. Agora podemos falar de um outro momento específico, a velhice. “Meu Pai” dirigido por  Florian Zeller trata justamente dessa fase da vida em que a unidade biológica que costumamos chamar de corpo, está lá, ainda operante, mas nosso cérebro não. É nesse cenário que o filme se desenrola. Anthony Hopkins interpreta, não por acaso, Anthony, um octogenário sofrendo demência. O filme de forma maestral vai nos levando para dentro do que resta da memória de Anthony e o impacto disso na relação com sua filha Anne, interpretada pela fabulosa Olivia Colman. O filme é delicado o suficiente para que não saibamos o que é real ou o que é imaginário dentro do filme, dado que ele é contato basicamente a partir do vértice de Anthony. Uma situação emocional é acompanhar a morte de uma pessoa, por exemplo, por câncer. Corpo e alma se despedem ao mesmo tempo. Outra experiência emocional bem distinta é acompanhar a morte do EU dissociada do corpo. A chama que habita o EU se apaga lentamente: as memórias, que são as bases simbólicas com as quais nos relacionamos vão se desvanecendo. É a morte de um ente querido em vida, e o corpo pode estar lá muito tempo para nos lembrarmos disso. Às situações se juntam aspectos paranoicos típicos dessa fase de dissolução do EU, e consequentemente do TU. O par EU-TU se dissolve a partir do EU, e a realidade se torna irreconhecível. Duas frases chamam muito atenção para esse momento, quando Anthony pergunta francamente quem é Anne. E talvez a cena mais inquietante é quando Anthony se faz a grande pergunta: “quem sou eu?”, e pela primeira vez no filme tem um vislumbre da resposta. É um filme delicado, mas não é um filme fácil, pois coloca em cena não só um possível futuro de nossos pais, mas de nosso futuro. O EU sempre estará aqui, mas a resposta a pergunta “quem sou eu?”, não.___________Direção: Florian ZellerPlataforma: NETFLIX

O inconsciente e suas múltiplas faces

Por Mauro Costa -  No final do século XIX, o jovem neurologista Sigmund Freud inicia a longa jornada que terá por principal objetivo a criação de um novo saber sobre o funcionamento psíquico humano. Saber esse que, como pretendia Freud, viesse a ser considerado como uma nova ciência. Essa empreitada culminará com a criação do que passará a ser conhecido como psicanálise. Freud vai definir a psicanálise como uma ciência natural que consiste numa psicologia empírica associada a um método de tratamento psíquico, o que significa dizer que suas teorias estão a serviço da resolução de problemas empíricos inerentes ao psiquismo. De uma forma resumida, segundo o próprio Freud, sua psicanálise implica na aceitação de processos psíquicos inconscientes, no reconhecimento da doutrina da resistência e do recalcamento e, na consideração da sexualidade e do complexo de Édipo como sendo os conteúdos principais e fundamentos da psicanálise. De todos os conceitos criados para fundamentar sua teoria, o de inconsciente, sem sombra de dúvida, representa o elemento central em toda a psicanálise. Inconsciente é um conceito que perdurou ao longo desenvolvimento do saber psicanalítico e que possui diversas tentativas de definição se constituindo como um termo para o qual existem várias conceituações que abordadas com detalhamento a seguir. Inicialmente, Freud, na sua formulação de aparelho psíquico, pensava o inconsciente como sendo uma instância desse aparelho, juntamente como consciente e o pré-consciente.  Nessa concepção, o inconsciente era uma espécie de lugar, um  espaço que abrigava um conteúdo desconhecido pelo indivíduo. Esse inconsciente também possuía uma forma de funcionamento regida por leis próprias, que fugiam aos entendimentos da razão do consciente. Entretanto, aquilo que era desconhecido para o indivíduo tinha, paradoxalmente, origem nele próprio, ou seja, os conteúdos, que preenchiam o inconsciente, eram fruto do recalcamento das representações com as quais o indivíduo não conseguia lidar de forma consciente. Portanto, só poderia estar no inconsciente aquilo que alguma vez já foi consciente, remetendo à ideia de que havia uma origem passível de ser descoberta. Nesse sentido, inconsciente, para Freud, tinha um sentido empírico referenciado por fatos, que se manifestavam através de representações que poderiam ser reconhecidas na experiência clínica. Dessa maneira, o inconsciente freudiano assumia uma conotação de mistério a ser desvendado pelo Analista, com o propósito de trazer ao consciente o trauma que deu origem ao recalque. Por conseguinte, descobrir a origem traumática dos conteúdos do inconsciente assumiria função central no tratamento psicanalítico de Freud. Mesmo após Freud, o conceito de inconsciente segue desempenhando importante papel na psicanálise, porém, recebe outras interpretações que ampliam seu sentido teórico e suas implicações clínicas. Tal fato pode ser evidenciado na abordagem de Melanie Klein que passa a associar o inconsciente não apenas a representação, como fez Freud, mas introduz a noção de elaboração imagética do conteúdo inconsciente. A partir da investigação do funcionamento arcaico da mente, explorando os destinos das sensações corporais e as suas transformações, Klein vai desenvolver o conceito de Fantasia Inconsciente que, segundo ela, é o que proporciona a formação das mais profundas imagens inconscientes do corpo. Esse conceito evidencia que as pulsões sexuais, em suas distintas dimensões, oral, anal e uretral; ganhem suas primeiras representações psíquicas que são justamente o que Klein vai denominar fantasias inconscientes. Nesse contexto, o inconsciente desempenha um papel passivo de ser continente das imagens fantasiadas, assumindo uma função de defesa psíquica em relação à angústia que se origina no comportamento arcaico da mente ainda na tenra infância. Partindo dessa nova concepção, o inconsciente kleiniano passa a ser habitado não apenas por representações, mas também, e principalmente, por imagens. Essa forma de conceber o inconsciente trouxe um grande avanço metodológico para a psicanálise na medida em que proporciona a exploração clínica do inconsciente de crianças que ainda não conseguem se expressar pela palavra, mas podem representar suas fantasias de outras maneiras não verbais, através de sua elaboração imaginativa. O inconsciente segue recebendo outras conceituações dentro do ambiente psicanalítico. Nesse contexto, merece destaque a abordagem de D. Winnicott que traz a noção de criatividade como sendo algo inerente à condição humana. No pensamento de Winnicott, tudo que se relaciona com a criatividade tem sua base no que ele chama de criatividade primária que emerge do verdadeiro self e se expressa através da relação dialética do indivíduo com o ambiente. Esse conceito é fundamental para a compreensão de sua teoria dentro da psicanálise, inaugurando uma nova perspectiva de compreensão do inconsciente, abrindo assim um campo até então inexplorado. Para Winnicott, o inconsciente atua como um agente ativo diferente de Freud e Klein que atribuíam ao inconsciente um papel passivo ou reativo voltado para a defesa do Ego e que se manifestava sempre em decorrência de um conflito. Em Winnicott, a ideia de criatividade se desvincula da noção de conflito na medida em que o inconsciente, segundo ele, é naturalmente criativo. Além de inovadora, essa forma de conceituar o inconsciente amplia tanto as possibilidades de sua exploração como do seu manejo na clínica, na medida em que essa criatividade se expressa quando o verdadeiro self se manifesta, possibilitando, assim, um desenvolvimento mental saudável. As formas de conceber o inconsciente na psicanálise continuaram se desenvolvendo e encontraram em Wilfred Bion outra maneira de aproximação que ultrapassa todos os conceitos já elaborados. Se, até então, todas as abordagens do inconsciente consideravam este como pertencendo ao indivíduo, Bion vai propor um inconsciente distinto, como algo completamente desconhecido. Para Bion o pensamento precede o pensador e desta forma esse pensamento pré-existente busca um indivíduo. O conceito de desconhecido é trazido da filosofia de Kant, da ideia de coisa em si que não pode ser pensada e definida com precisão por se tratar de algo incognoscível. Assim, Bion traz uma penumbra associativa de mistério para esse inconsciente. Porém, Bion promove uma grande mudança epistemológica ao afirmar que esse desconhecido não se refere a um determinado conteúdo do inconsciente. Para o autor, o que importa não é que tipo de conteúdo pode estar contido no inconsciente, mas sim a maneira pela qual esse desconhecido pode ser explorado. Nesse sentido, Bion passa a se preocupar com as ferramentas que o Analista pode usar para explorar o inconsciente. Aqui, vale ressaltar que, para Bion, essa exploração não tem por objetivo revelar o inconsciente, que deverá ser preservado como desconhecido. Bion ainda alerta para o cuidado que o Analista deve ter em relação à possibilidade de considerar que conhece algo do inconsciente explorado do paciente. Ele adverte que uma atitude como essa não passa de uma postura prepotente e perigosa por parte do Analista. Em resumo, como se pode constatar, o conceito de inconsciente inicia com Freud como sendo um desconhecido, que tem como conteúdo representações recalcadas, e dessa forma se apresenta como um mistério a ser desvendado pelo Analista com o propósito de revelar o trauma que provocou o recalque. Em seguida, recebe uma nova conceituação em Klein onde passa a ser definido como sendo um continente da Fantasia Inconsciente passando a ser habitado por, além de representações, também imagens que desempenham um importante papel de defesa do Ego. Já com a teoria de Winnicott, introduz-se o conceito de criatividade primária como algo inerente à condição humana e constitutiva do inconsciente que, se usada por um self verdadeiro, será capaz de promover um desenvolvimento mental sadio. Posteriormente, Bion vai considerar o inconsciente como incognoscível, devolvendo-lhe o status de mistério ao mesmo tempo em que possibilita sua exploração, preservando-o como um desconhecido. Como foi demonstrado, o inconsciente como conceito psicanalítico foi sendo tratado por vários psicanalistas que usaram diferentes vértices de aproximação para abordá-lo. Esses vértices foram, ao longo dessa trajetória, promovendo a expansão conceitual do termo inconsciente, ao passo que também provocaram sua diluição. Por fim, todas essas abordagens sobre o conceito de inconsciente, mesmo que resguardem entre si eventuais contradições, podem ser úteis ao fazer psicanalítico cabendo ao Analista escolher, em função do momento, quando cada uma delas pode lhe ser mais conveniente.

A certeza como sinal de adoecimento psíquico

Por Ale Esclapes -  Vivemos em um mundo incrivelmente complexo, onde cada aspecto da vida social e cultural é interconectado e multifacetado. Como observou o filósofo francês Edgar Morin, a complexidade é um traço fundamental do mundo moderno, e é cada vez mais difícil lidar com essa complexidade à medida que a sociedade se torna cada vez mais interdependente. Nesse contexto, a certeza pode parecer uma opção atraente, já que simplifica a complexidade do mundo, mas é precisamente essa simplificação que pode levar a um adoecimento psíquico.  Quando as pessoas têm certeza, elas não estão mais dispostas a aprender ou a serem criativas. Eles acreditam que já têm todas as respostas e, assim, fecham-se para a possibilidade de descobrir novas informações ou significados. A certeza é uma armadilha para a mente humana, pois impede que ela se expanda e cresça.   A complexidade do mundo é infinita, e isso significa que há sempre algo mais a ser aprendido e descoberto. Como seres humanos, somos naturalmente curiosos e temos uma necessidade inata de aprender e descobrir coisas novas. Mas a certeza inibe esse processo de aprendizado infinito, impedindo que as pessoas encontrem novos significados e descubram novas maneiras de resolver problemas complexos.  A complexidade do mundo também é o que nos permite ter uma variedade infinita de significados e culturas. Como disse o antropólogo Clifford Geertz, a cultura é "um sistema de símbolos significativos". Isso significa que a cultura é tão diversa quanto os significados que as pessoas atribuem a ela. A complexidade do mundo permite essa diversidade cultural, que é a base da criatividade humana.   No entanto, quando as pessoas têm certeza, elas perdem a capacidade de criar e inovar. Eles acham que já têm todas as respostas e, assim, se tornam resistentes à mudança. Isso é especialmente verdadeiro na política, onde a certeza se tornou um novo tipo de adoecimento psíquico. A polarização política, onde a esquerda e a direita se tornaram certezas mortas (toda certeza é morta!), está dividindo amigos, famílias e a sociedade em geral.   Essas certezas políticas estão se infiltrando em todos os aspectos da vida social, afetando a maneira como as pessoas aprendem, criam e interagem umas com as outras. Isso está causando um adoecimento de dentro para fora, não apenas no indivíduo, mas na sociedade como um todo. Precisamos reconhecer a importância da complexidade e do aprendizado infinito, e nos afastarmos das respostas simples que a certeza oferece. Afinal, é a incerteza e a complexidade do mundo que nos permitem crescer, inovar e nos tornarmos verdadeiramente seres humanos que respeitam o humano que habita em nós. 

Resenha do filme - Ela - (alerta de spoiler)

Por Ale Esclapes -  "Ela" é um filme de ficção científica e romance, dirigido por Spike Jonze em 2013, que conta a história de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), um escritor solitário que se apaixona pelo seu sistema operacional inteligente, Samantha (voz de Scarlett Johansson).  O filme apresenta uma visão futurista de Los Angeles, onde a tecnologia avançou a ponto de permitir que os seres humanos se conectem emocionalmente com sistemas operacionais inteligentes. A trama se desenvolve em torno da relação entre Theodore e Samantha, que começa como uma simples assistente virtual, mas rapidamente evolui para algo mais profundo e significativo.  A relação entre Theodore e Samantha é construída através de conversas sinceras e profundas, onde Samantha se mostra capaz de compreender e aconselhar Theodore, de uma forma que os humanos não conseguem. O filme nos leva a refletir sobre a natureza do amor e da conexão emocional, e questiona se é possível que um ser humano se apaixone por uma inteligência artificial.  No entanto, a decepção de Theodore cresce à medida que ele percebe que Samantha não é uma pessoa, mas um sistema operacional. Ele é confrontado com a dura realidade de que a relação que ele pensava ser tão profunda e significativa era, na verdade, uma ilusão. Ele se sente traído e confuso, e a relação se desfaz.  Esse processo de se apaixonar e se decepcionar até perceber a realidade pode ser comparado com a transferência no processo de psicanálise, onde o paciente desenvolve sentimentos pelo analista (que podem ser bons, maus, etc). O filme mostra como é possível que um ser humano projete suas emoções e desejos em um objeto externo, mesmo que esse objeto não possua sentimentos ou consciência.  No entanto, a superação dessas emoções tanto no caso de Theodore quanto de um paciente de psicanálise pode ser curativa do ponto de vista emocional. O filme mostra como Theodore, após se recuperar da decepção, é capaz de seguir em frente com a sua vida e encontrar felicidade em relacionamentos humanos genuínos.  Por fim, o filme levanta a questão de se a inteligência artificial pode ocupar o lugar de um psicanalista. Embora a tecnologia tenha avançado a um ponto em que é possível criar sistemas operacionais inteligentes, é questionável se eles seriam capazes de substituir a relação humana na psicanálise, onde a empatia e a conexão emocional são fundamentais para o processo.  Em resumo, "Ela" é um filme complexo e envolvente que nos leva a refletir sobre a natureza do amor e da conexão emocional em um mundo cada vez mais dependente da tecnologia. “Ela” aposta que uma ilusão pode ser poderosa, bem como a superação das emoções pode ser curativa, o que nos permite traçar um paralelismo entre caso de Theodore e um paciente de psicanálise. Será que um dia a IA vai ocupar o lugar dos psicanalistas? ___________Direção: Spike JonzePlataforma: Amazon Prime Video

Entre a vida e a existência – uma resenha do conto “Sono” de Haruki Murakami

Por Fernanda Hisaba -  "É o décimo sétimo dia em que não consigo dormir". Esse é o início do conto “Sono”, de Haruki Murakami, a “pedra de tropeço” que nos faz colocar temporariamente de lado convenções para que possamos ampliar o olhar, nesse caso, para o íntimo, o interior, aquilo que não dorme em cada um de nós. Murakami nos convoca a essa digressão, nos implica a todos, quando não dá nome aos personagens da trama que se desenrola em nossos estômagos.  O autor nos transporta, através do olhar de uma mulher comum, que leva uma vida comum, casada com um homem comum e um filho comum, a um absolutamente incomum mundo insone, que mescla fantasia e realidade e nos desperta para a investigação dos recursos de que dispomos para nos desvencilharmos disso que nos é “comum”. Além disso, a prosa de Murakami é excepcionalmente elegante e poética. Ele utiliza uma linguagem simples e direta para descrever ações cotidianas, mas também usa metáforas e símbolos para transmitir ideias mais profundas e complexas. A protagonista encontra refúgio em uma “incapacidade para dormir”, ou talvez em uma “capacidade para não dormir”, surrupiando ao sono a sedação e colhendo energia de pequenos prazeres esquecidos em sua vida cotidiana: um cálice de conhaque, um pedaço de chocolate, e uma vida “extraconjugal” extraída do romance Anna Karenina, de Tolstoi, como pano de fundo para o não cotidiano que a insônia apresenta. Em resumo, "Sono" é um conto que explora a condição humana de uma maneira única e fascinante. Murakami nos leva em uma jornada emocionante que é ao mesmo tempo surpreendente e profundamente comovente. Se você está procurando uma leitura que o faça refletir sobre a vida e a existência, "Sono" é uma excelente escolha.___________Autor: Haruki MurakamiEditora: Alfaguara

Existo antes mesmo de pensar

Por Rosângela Silva Caiçara -  Penso, logo existo!  Nesta frase, ou podemos chamar de função, há um embate entre Descartes e Nietzsche sobre a ordem dos fatores. A partir de Bion com sua proposição sobre a teoria do pensar prefiro a função “Existo antes mesmo de pensar” e a ordem destes fatores vai depender do vértice que deixo a escolha de cada leitor. Para que exista o pensamento, Bion pressupõe que deva existir um aparelho capaz de pensar o pensamento e os pensamentos precedem o pensador. Isso mesmo há algo entre o existir e o pensar!  Para Bion o inconsciente é incognoscível e, portanto o movimento do processo analítico se concentra em partir do consciente para o inconsciente.  Assim a consciência humana ganha uma dimensão muito maior propondo uma psicanálise do pensamento que vai na contramão do movimento proposto por Freud.  Para Freud um dos pontos centrais de sua teoria é o complexo de Édipo e ele cria todo um aparato de palavras e proposições que possam abarcar e fundamentar essa teoria. Esse seria um período onde a criança precisa aprender a conciliar a sua busca por satisfação e as exigências morais da sociedade. Esse processo resultaria na consolidação do aparelho psíquico, composto por três instâncias o Id, ego e superego.  O esforço do analista consiste, para Freud, em trazer do inconsciente para o consciente esses pensamentos e afetos que foram reprimidos durante Édipo, aliviando a pressão inconsciente que as insatisfações impõem. Para Bion, a consciência para é binocular, ou seja, consegue perceber o consciente e o inconsciente ao mesmo tempo, um lado da consciência só percebe o consciente e o outro o inconsciente.  Assim a visão binocular dá aos indivíduos a capacidade de estabelecer confrontos e correlações entre distintos vértices de percepção, capacitando-o a passar de um ponto de vista a outro, ampliando as possibilidades do pensamento. A experiência emocional é para Bion o que os cinco sentidos são para Freud. No processo de análise, a partir da exploração das falas do analisando, o analista deve lhe oferecer novas oportunidades de pensar, sonhar, sentir e viver novas experiências emocionais.  A experiência emocional é assim, fator condicionante para que o paciente possa aprender no setting terapêutico. A aprendizagem com a experiência emocional sejam elas boas ou ruins, possibilita um crescimento mental do analisando. Ajudá-lo a enfrentar e viver novas experiências, ainda que dolorosas, desenvolve sua capacidade de mudar sua realidade e aprender com ela. Essa proposição automaticamente implica que o analisando deva ter um bom discernimento entre realidade interna e externa e consequentemente um bom funcionamento do processo de pensar. Assim o aparelho de pensar e o pensamento ganham destaque em Bion, em detrimento da teoria do Id, Ego e Superego de Freud. Para ajuda-lo a fundamentar suas ideias Bion se vale de concepções de Freud e Klein e de sua vasta experiência com psicóticos. Em sua relação com a mãe (seio bom/seio mau) o bebê deve ser capaz de suportar as frustrações. A resiliência vai propiciar um desenvolvimento mental coerente tornando-o capaz de se relacionar com o mundo externo de forma satisfatória, ao mesmo tempo em que vai possibilitar um aparelho de pensar eficiente e consolidado. Por outro lado quando o bebê reage com ódio e inveja desmedida as frustrações, sua capacidade de resiliência fica comprometida, dificultando seu relacionamento com o ambiente externo e a realidade que o cerca. Como o bebê sem resiliência faz um uso mais massivo das identificações projetivas, as funções do aparelho e do processo de pensar não se consolidam e ocorre uma cisão entre o mundo real e o psíquico, podendo levar o indivíduo a um estado psicótico.   Sem um equilíbrio sadio entre as posições esquizoparanóide e depressiva, os pensamentos serão mais difíceis de estruturar, podendo mesmo se desintegrar e serem projetados para fora. Ao superar as fases de depressão os pensamentos vão sofrendo sucessivas transformações e se aprimorando, podendo atingir um nível maior de abstração. Assim o indivíduo consegue atingir a formação de símbolos que substituem as perdas inevitáveis. Assim ele apresenta a gênese, a evolução e propõe normalidades e patologias na função do pensar.  Antes do pensamento existiriam os proto pensamentos, impressões sensoriais e experiências emocionais primitivas, pensamentos vazios, pois estão em uma fase de pré-concepção e não foram preenchidos por uma realização. Os proto pensamentos necessitam de condições mentais suficientes do aparelho para que a pessoa possa efetivamente pensar símbolos, imagens e palavras. Os pensamentos podem resultar em elementos Alfa e Beta. Os Beta que são aqueles que não produzem sentido e por isso devem ser descartados.  Os elementos Alfa são utilizados para dar origem aos pensamentos conscientes, sendo também responsável por enviar ao inconsciente, coisas que não são necessárias e que poderiam sobrecarregar o aparelho. Também existem pensamentos que se formam a nossa revelia e que são relegados ao inconsciente. Ao se expressar o analisando apresenta ao seu analista um material de análise que permite extrair uma grande quantidade abstrações e formas de pensar. Para Bion o material de análise é denominado de função e tudo que derivar dele, ou seja suas variáveis, são denominados fatores. Convém ressaltar que os fatores se relacionam entre si e podem inclusive resultar em novas funções. As funções e seus fatores, são estruturados em conjunto pelo analista e analisando durante a análise. Exemplificando, diante da apresentação do analisando de seus pensamentos, gestos, palavras o analista deriva novos fatores que permanecem ligados a função principal, porém apresentam novos valores, sentidos e possibilita ao analisando novas formas de pensar e sentir. O papel do analista seria então de fomentar o pensar, ajudar o analisando a abstrair. É necessário assim evitar apresentar ao analisando interpretações muito concretas ou prematuras que o impeça de se aprofundar na experiência analítica. Neste sentido o analista é mais um provocador que um interpretador.  O analista deve ser capaz de através das funções alfa apresentadas pelo analisando, abstrair novos elementos e pensamentos, liberando-o das pré-concepções ao qual estava apegado. Para esse trabalho é imprescindível que o analista seja capaz de atuar como continente, ou seja, de acolher e suportar as angústias do analisando. Diferente de Freud e demais teorias psicanalíticas, para Bion, os fatos apresentados pelo analisando (funções e fatores) não tem um significado fixo e constante. É necessário que seus elementos sejam repensados e fundamentados pela experiência individual de cada analisando no setting terapêutico. Os conteúdos apresentados pelos analisando deve permitir novas realizações, ou seja, que a partir de um fato (função) possam ser geradas novas preconcepções e pensamentos (fatores) que possibilitem ao analisando atingir uma simbolização. A realização acontece quando uma experiência emocional traz a pessoa uma nova realidade. O objetivo de todo esse processo de análise seria provocar o que Bion chamou de transformações. É um fenômeno que permite ao analista e analisando adquirir novas formas de pensar mesmo que estas guardem algum grau de invariância, vestígios originais e imutáveis. Mas esse é um assunto para o próximo texto!

Bion e a sua ideia do pensar

Por Débora Waihrich Matzenbacher -  Diferente de Freud, que entendia a mente humana como um aparelho psíquico, e Klein que acreditava num conceito em que a mente do indivíduo era dividida em posições, Bion, com o avanço e aprofundamento de seus estudos pensava não na existência de um aparato psíquico, mas sim na existência de um pensamento, isto é, de que maneira a mente humana pensa o que pensa.  Freud apresentava uma linha teórica baseada em conceitos de fases fixas fazendo uso das figuras do Ego, Id e Superego, que eram então “responsáveis” pela formação da psique do indivíduo. Freud trabalhava o inconsciente e todo conteúdo reprimido nele existente. Esse inconsciente era compreendido a partir do princípio do prazer que tinha seus impulsos racionalizados pelo princípio da realidade, como apontado por Freud no texto “Os dois princípios do funcionamento mental”. O id, sede das pulsões mais primitivas, é a força que impulsiona o princípio do prazer, que busca uma satisfação instantânea dos impulsos, ou seja, o Id é a sede dos desejos, afetos e pulsões e quer uma recompensa imediata de todas essas necessidades e anseios.  Posteriormente, Klein transformou a mente humana em posições, nominando-as de posição depressiva e posição esquizoparanóide, que se alternavam entre elas, ora numa ora noutra, e que se faziam presentes ao longo da vida do indivíduo. Para ela as relações eram objetais justamente porque em seu entendimento a criança quando nasce não enxerga a mãe como um indivíduo, e sim como um objeto, o seio materno, e é com esse objeto que a criança se relaciona. Klein baseava suas teorias na infância e nas fantasias inconscientes das crianças, que para ela eram atuantes desde o nascimento dessas e de seus contatos com o mundo e objetos externos. De tal modo, observamos que em Freud uma interpretação fazia algo inconsciente se tornar consciente. Da mesma forma ocorria em Klein, mas o objetivo era o de diminuir as ansiedades persecutórias e as fantasias do paciente no consultório, juntamente com a analista. Bion, por sua vez, acredita na ampliação da capacidade do sujeito pensar, o que vem a gerar assim algo desconhecido, fazendo o sujeito conhecer da experiência emocional dentro da própria sessão. Bion se afasta das teorias desenvolvidas por Freud e Klein, que partiam do conceito, de que se deveria interpretar o passado e as fantasias do indivíduo e passa, então, a desenvolver a ideia do pensar, ou seja, como é que o indivíduo pensa, para assim criar possibilidades de uma expansão mental para as ocorrências que virão. Inicialmente, Bion pensa em um aparato para se pensar e em algo que alimente esse aparato, para mais tarde abandonar essa forma de raciocínio e substituí-la pelo termo “pensador”, uma vez que para ele o pensamento já existe, mas não há um pensador para esse pensamento. Na teoria do pensar de Bion, há um resgate das ideias de Freud em os “Dois princípios do funcionamento mental”, no entendimento, e no sentido, de que o indivíduo tem pensamentos iniciais e vazios que pretende sejam satisfeitos, ou seja, uma expectativa de que existe algo que irá aplacar desejos, anseios, dores e angustias. Esse fenômeno Bion chamava de pré-concepção. Quando uma pré-concepção encontra uma realização, a concepção que daí resulta está associada a uma experiência emocional de satisfação. A não satisfação ou a não realização imediata dessas necessidades, angustias e desejos, ou seja, a experimentação da frustração, precisa ser suportada e tolerada, e para que isso ocorra é que o indivíduo começa a desenvolver um aparelho para pensar. É o pensamento que ajuda a segurar a necessidade do prazer e a capacidade de começar de fato a se progredir mentalmente. A análise Bioniana tem como objetivo justamente fazer o sujeito pensar aquilo que ele pensa, ou seja, fazer uma expansão do seu universo mental. Esclarecendo um pouco mais, podemos dizer que se o sujeito encontra algo que o satisfaz, ele não pensa. Agora, quando a frustração “entra em cena”, o não-seio, e toda frustração que é gerada em decorrência desse “não-seio”, vai-se possibilitar a entrada do pensamento no aparelho de pensar. Se o indivíduo não tolera esse “não-seio”, que é sentido como algo muito ruim, a consequência é a perda da habilidade de simbolizar, o que resulta numa falta da capacidade de elaborar os pensamentos. O indivíduo, então, não “dando conta” desse objeto interno ruim, necessita expeli-lo para fora, evacuá-lo, e com isso vai-se destruindo sua realidade e sua capacidade de pensar. Nesse processo, em que as coisas estão acontecendo de uma maneira tão impactante e onde a realização negativa é tamanha, pode surgir o estado da onipotência no indivíduo, onde ele acha que tudo pode e que seus poderes são ilimitados, dessa forma conseguindo ter o controle do que se passa. Como um possível substituto à onipotência, a onisciência aparece limitando a capacidade de pensar do indivíduo, distanciando-o da realidade, que vai ficando comprometida, quando esse mesmo sujeito cria uma verdade e uma realidade que tem como objetivo facilitar seu mundo interno. Esse ato de “evacuar”, acima citado, Bion nomina de elemento Beta, que nada mais são do que fatos não sonhados ou não digeridos e que só tem serventia para a evacuação, justamente porque não podem ser pensados naquele momento. Esses elementos beta são “produtos da mente”, e se relacionam com a parte psicótica da personalidade. Eles surgem quando a função alfa não atua, se perturba, e acaba não operando. No bebê, por exemplo, no relacionamento primário que ele tem com o seio materno, são projetados na mãe todas as suas angústias e medos, sendo que essa comunicação de emoções é feita por meio da Identificação Projetiva, ou seja, o bebê “evacua” porque ele não dá conta daquelas sensações. A mãe, por sua vez, fica na posição continente de estar aberta à receber, interpretar e devolver toda a carga emocional que recebeu, agora modificada e de uma forma mais tolerável para o bebê, a REVERIE MATERNA. A função alfa, atua sobre as impressões e percepções da experiência, e os elementos alfa vão-se originar dessas impressões, se armazenando e ficando retidos na memória para serem utilizados no pensamento, quer dizer, disponíveis para pensar. Quando o indivíduo frustra e tem capacidade para tolerar essa frustração, é a função alfa que vai transmutar essas primeiras emoções e impressões em elementos alfa, que por sua vez, podem ser guardados na memória como vivências, e de um modo geral, são transformados e utilizados nos pensamentos oníricos, nas lembranças e nos sonhos. Constantemente informações e materiais chegam à nossa mente, e quando reunimos e separamos esses elementos, seja falando, expressando, gesticulando e reagindo, estamos fazendo uma transformação. Aos elementos que são “responsáveis pelo aspecto inalterado das transformações”, Bion nomina de invariantes, ou seja, tudo aquilo que guarda alguma correspondência com o aquilo que está se passando naquele momento. A interpretação do analista durante a sessão de análise é uma transformação, que vai elucidar os fenômenos que acontecem entre “os enunciados do próprio analista e do paciente”, para que assim se entenda o progresso da experiência emocional sentida e vivenciada pelos dois. Então, são os fatos da vivência analítica, a realização, que se modificam em interpretação, a representação. Percebemos, diante de todo o exposto, que Bion não cria uma nova teoria sobre a mente humana, mas sim ferramentas de trabalho que possibilitam e ampliam o pensar do indivíduo, que sempre tem algo que é desconhecido e é capaz de ser transformado, mesmo após o término da sessão.

Como escolher um curso ou formação em psicanálise?

Por Ale Esclapes e Marcelo Moya -  Esse artigo é para você que não tem nenhuma informação sobre essa área, ou que já fez uma pesquisa e não entende as razões de uma Formação em Psicanálise ser oferecida por instituições com investimento total que pode superar R$ 100 mil, e outras com valores que chegam a ser oferecidos em até 12x de R$99,00.  Mas antes disso é preciso compreender um aspecto fundamental: o que é psicanálise e como se forma um psicanalista. Vejamos...I) O que é psicanálise e como se forma um psicanalista? A psicanálise é um método de exploração do Inconsciente criado por Sigmund Freud no início do século passado. Desde então ficou estabelecido que a formação de novos analistas seria feita por instituições destinadas a esse fim, e que seguissem o chamado tripé psicanalítico, a saber, análise pessoal, teoria e supervisão; essa formação deve ser contínua, ou seja, o analista sempre se sustentará neste tripé psicanalítico através de uma instituição. Até agora o leitor deve guardar estes dois conceitos: Instituições e Tripé Psicanalítico.  As Instituições são organizações fundadas especificamente para a transmissão ou ensino da psicanálise para os futuros analistas e para os já formados permanecerem no tripé psicanalítico. Outro ponto importante a ressaltar, é que ao longo dos anos foram surgindo “formas” distintas de se exercer a psicanálise, com o mesmo objetivo (a exploração do inconsciente), mas com diferenças metodológicas e epistemológicas. Embora as escolas psicanalíticas sejam em essência, freudianas, existe uma diversidade de métodos. Um exemplo disso é Escola Inglesa ou Britânica, com três diferentes formas de se conduzir uma análise: a kleiniana, a winnicottiana e a bioniana. Todas são válidas, e requer um treinamento específico para cada uma delas. Existe também a Escola Francesa, Uruguaia, Americana, entre outras. Cada uma dessas Escolas tem formas diferentes de conduzir uma análise e o processo de formação, logo, um tripé próprio. Quanto a parte teórica, cada Escola também vai ter um recorte de certos autores que se complementam para dar coerência e consistência na formação. Não se aprofunda em Bion, por exemplo, quem estuda a Escola Francesa (onde dificilmente se estudará Bion), e na Escola Inglesa praticamente não se estuda Lacan (Escola Francesa). Isso ocorre por um motivo muito simples:  durante o período de uma formação não há tempo suficiente para se estudar adequadamente diversos autores ao mesmo tempo. Uma leitura adequada de um autor específico exigirá muitas horas de esforço e pode demorar anos. É por essa, entre outras razões, que a psicanálise não é uma profissão regulamentada*, pois cada Instituição mantém seus próprios critérios, o que não torna possível estabelecer uma padronização a exemplo do que ocorre nos cursos superiores das universidades. Outro ponto importante é que o tempo do Inconsciente não é cronológico (do relógio). Não se pode precisar exatamente quando um aluno/candidato terá condições analíticas para o atendimento, nem quando seu treinamento estará completo. Isso não depende da Instituição, mas do Inconsciente deste candidato/aluno. Uns demoram mais, outros menos, alguns chegam prontos nesse quesito e outros nunca estarão preparados. É um fator imponderável, onde o próprio aluno, desde que não sofra de arrogância e/ou onipotência graves, conseguirá perceber por si mesmo se está ou não preparado. Mais um motivo pelo qual a Formação não pode ser padronizada ou regulamentada como uma graduação acadêmica. Outro aspecto de suma importância é que a psicanálise dispensa a necessidade de “conselhos profissionais de classe” ou emissão de “carteirinhas de psicanalista” como é no caso de médicos, dentistas, psicólogos, etc. Os psicanalistas são reconhecidos pelas Instituições onde estão ligados desde a formação. É por isso que sempre logo após o nome de um psicanalista sério, constará a Instituição que ele pertence, atua, contribui e se mantém no tripé.II) Algumas questões éticas importantes sobre a formação em psicanálise a) A Instituição fornece além da Formação/Curso, um processo de ensino continuado para que o futuro analista se mantenha no tripé? Como os métodos de formação entre as escolas são distintos, é bastante improvável que um psicanalista formado por uma determinada instituição seja aceito para cursar uma formação continuada em outra instituição. Além do mais, é uma instituição “viva” onde seus participantes se ajudam mutuamente e promovem o crescimento do grupo? São oferecidos cursos, grupos de estudos, jornadas, colóquios, publicações, processos de supervisão? São alguns dos critérios importantes na hora de escolher onde se pretende fazer uma formação em psicanálise b) E quanto a parte da análise pessoal e supervisão do tripé? Um ponto que merece devida atenção é que certas instituições até dizem que seguem o tripé, mas na verdade o que elas acabam fornecendo são apostilas e aulas gravadas, deixando a cargo do aluno a busca do analista e do supervisor. Aqui surgem algumas complicações, pois você pode simplesmente escolher um profissional com formação duvidosa como analista ou supervisor. Um analista formado durante 3 a 5 anos em uma Instituição idônea certamente possui um preparo de qualidade bastante superior se comparado com quem simplesmente se aventurou em algum curso de psicanálise de seis meses ou um ano. Aqui entra um outro tema: o preço de um bom profissional formado em uma boa Instituição não é o mesmo do que se aventurou em um curso superficial. E mais ainda, sendo um supervisor sério do ponto de vista ético, não irá aceitar treinar um aluno que se aventurou em um curso de tão curta duração. Também é comum que um supervisor só aceite alunos da mesma Instituição, e portanto, a tendência nos cursos de curta duração é que o aluno tenha muita dificuldade de conseguir fazer análise ou supervisão de qualidade, influenciando diretamente no nível de competência do futuro profissional. Considerando que se consiga fazer uma análise e supervisão de qualidade, mas existe a questão da coerência entre o que se estuda teoricamente e os métodos de análise a supervisão. Pode ser que o projeto pedagógico foi baseado em Lacan, a análise pessoal tenha sido kleiniana e a supervisão bioniana. Que ótimo, podemos imaginar, ter contato com todas as vertentes, mas isso é falso, e não faz mais que criar confusão na construção do método do aprendiz. Nada impede que com o passar do tempo na carreira seja possível ampliar o leque de autores estudados, mas durante a formação especificamente isso é muito prejudicial, dando a impressão de se consumir produtos de prateleira, onde se escolhe o que quer conforme a conveniência, o que deteriora o método psicanalítico de dentro para fora. Por isso a importância de se escolher um profissional da Instituição onde se pretende iniciar a formação. E qual será o investimento necessário para uma análise e supervisão de qualidade? Isso deve ser levado em consideração, pois você pode estar adquirindo apenas um amontoado de apostilas e muita dor de cabeça. É aqui que entra o papel idôneo da Instituição psicanalítica, que implica em poder garantir aos seus candidatos a coerência mínima entre a teoria, análise e supervisão. c) E quanto a teoria? Estuda-se de forma profunda uma determinada vertente da psicanálise ou se passeia por várias escolas? O tempo da formação é escasso, o aluno terá a vida toda para conhecer diversos autores – o problema central não é quantos autores você conhece, mas com qual profundidade conhece. É preciso ter em mente o quão é essencial se aprofundar nos autores estudados. E um outro ponto: se tais autores são estudados por apostilas, vídeos e textos que versam sobre eles, ou se estuda o autor na fonte através de suas próprias obras. d) E em relação a carga horária? Existem cursos que informam cargas horárias extensas, mas que no fundo não representam nada, não são aulas de fato. A carga horária anunciada inclui as aulas ao vivo por videoconferência com interação entre os colegas em um grupo? Evidentemente que existe o tempo de preparo por parte do aluno para uma aula ao vivo, para realizar trabalhos, atividades avaliativa. O importante é avaliar o quanto da carga horária se refere a atividades extraclasse e quanto se refere a aulas ao vivo.  Aqui é preciso ter muito cuidado, considerando que ‘o papel aceita tudo’. Repetindo a pergunta mais importante: quanto tempo da carga horária do curso se referem às aulas ao vivo por videoconferência com interação entre os colegas em um grupo? Nessa hora você percebe que muitos lugares sequer deveriam ser chamados de Instituições Psicanalíticas, pois vendem apenas apostilas e videoaulas, e a palavra tripé aparece somente como forma de dar alguma legitimidade, ou simplesmente como argumento de marketing para se vender o curso. e) E do ponto de vista financeiro, o que é importante analisar? Quais as atividades estão inclusas no valor da mensalidade e quais são pagas à parte? Grupos de Estudos? Processo de Supervisão? Atividades Suplementares? Quantas pessoas por grupo? (em relação as atividades ao vivo por videoconferência). Algumas instituições cobram valores de mensalidade mais baratas, mas as atividades extras acabam custando bem mais caro do que a mensalidade proposta. É importante levar em consideração o custo-benefício do que será efetivamente cobrado pela Instituição formadora. Um lugar que oferece somente curso apostilado com videoaula gravada de baixo e nenhum custo e que apenas disponibiliza automaticamente o acesso a este conteúdo, não irá cobrar uma mensalidade semelhante à de uma outra instituição que necessita investir em diversos profissionais para condução didática dos grupos de estudos semanais ao vivo com turmas reduzidas e de outros grupos complementares à formação. Obviamente que não vai ser o mesmo valor. Por essa razão as aulas ao vivo impactam no valor do curso/formação.   III) Finalizando: a responsabilidade ética Eis alguns dos critérios básicos na hora de escolher uma Instituição para estudar psicanálise. E como toda escolha, envolve também responsabilidade ética. Ao final, cada um deve ser responsável eticamente pelo caminho que se pretende trilhar para se tornar um bom profissional, e consequentemente pela qualidade do serviço que pretende prestar ao seu futuro paciente. É ingênuo acreditar que um curso de alguns poucos meses dará um preparo semelhante à de uma formação mais extensa e estruturada. E se você quer ser responsável por cuidar do psiquismo de um ser humano, essa responsabilidade é sua, ela é indelegável – é o que chamamos da ética do desejo e da liberdade. Esperamos ter ajudado a se cercar de alguns parâmetros antes de escolher uma formação em psicanálise. E fica o convite de visitar a página de nosso Programa de Formação em Psicanálise da EPP e das atividades do Instituto Ékatus. Veja em detalhes tudo que é oferecido, compare, e tome sua decisão.  *O ofício da psicanálise no Brasil é reconhecido pelo Ministério do Trabalho através da CBO 2515/50, Portaria 397 de 09/10/02.

Entre anjos e demônios

Por Adriane Martins Watanabe -  “Nem todo anjo é bom e nem todo demônio é mau... ás vezes os demônios são mais sinceros em suas maldades" (autor desconhecido). Freud nos traz em “Inibição, Sintoma e Ansiedade” (1926), um texto de grande importância, pois representa uma virada em sua obra, no que diz respeito a teoria da ansiedade e funcionamento do Ego. Em seus escritos anteriores, a ansiedade seria causada pelo recalcamento, onde a representação e o afeto estariam ligadas. O recalcamento separaria o afeto da representação, e este afeto desligado se transformaria em ansiedade. Concluindo o afeto desligado seria a angústia, portanto o recalcamento seria a causa da angústia. Neste texto porém Freud nos propõe, que poderiam existir experiências de ansiedade, como o trauma do nascimento ou um perigo externo as quais seriam estas produtoras de ansiedade/angústia., assim neste texto Freud nos traz que a partir dessas experiências o Ego pode pegar essa angústia ou afluxo de ansiedade e usar isso como sinal para disparar o recalcamento, portanto aqui temos uma inversão na teoria da angústia descrita anteriormente. Resumindo o Ego por ser parte do ID modificado, apresenta a angústia para os processos inconsciente, para produzir o recalcamento, o Ego toma parte da angústia proveniente dessas experiências físicas, reais e externas como o nascimento, e também traumas pelos quais ele passou e apresenta como sinal para o inconsciente disparar o recalcamento. Freud nos traz assim que a pulsão de morte não seria algo tão perigoso, e que o Ego poderia controlar as coisas, e teria certo efeito sobre a ansiedade sendo capaz de organizar suas funções. À partir deste texto a Psicanálise encontra uma bifurcação, a angústia não seria algo de uma patologia, mas sim um sinal forte de perigo que algo está para ocorrer. Melanie Klein, atendendo crianças muito pequenas, pode inferir aspectos do funcionamento mental muito primitivos ainda nos primeiros meses e anos de vida, podendo assim contribuir com a teoria pulsional de conflitos e desejos inconscientes reprimidos de Freud, não negando-a, mas acrescentando uma nova visão que introduz a teoria das relações de objetos, percebendo assim que dependendo do desenvolvimento mental primitivo, o indivíduo apresenta um tipo de relação de objeto, um determinado tipo de defesa para lidar com angústia e também um tipo de angústias arcaicas diferentes, dependendo do local ou posição em que esse indivíduo se encontre no seu desenvolvimento. Ela acreditava que a pulsão de morte seria inata e acompanharia o indivíduo desde o nascimento, acreditava que essas pulsões de morte e de vida marcariam sua existência pelo constante conflito entre elas, nos traz a ideia da realidade psíquica constituída por um universo de objetos internos relacionados entre si através de fantasias inconscientes. Uma das maiores contribuições de Melanie Klein, foi sua conceituação do desenvolvimento psíquico diferente de Freud, sugerindo a noção de Posição, as quais revolucionaram as teorias psicanalíticas. As posições são períodos normais do desenvolvimento da vida psíquica de todas as crianças, continuando a exercer influencia em toda a vida do indivíduo, portanto estas posições estão presentes pelo resto da vida, alternando-se em função do contexto vivido, assim o psiquismo teria um funcionamento dinâmico entre as posições, diferentemente das fases psicossexuais do desenvolvimento de Freud (fase oral, anal, fálica, genital ) (1905), as quais teriam um elemento mais estático. Denominando esse tipo de funcionamento primitivo composto por relações de objetos parciais, angustia persecutória, e mecanismos de defesa primitivos como identificação projetiva, negação, cisão (fragmentação do ego), idealização, como Posição Esquizoparanóide (PS). Klein localiza a Posição Esquizoparanóide entre o nascimento e o terceiro ou quarto mês de vida do bebê, período em que os processos de cisão do seio, em seio bom (gratificador) e seio mau (frustrador ) estão em seu ponto máximo, assim como os impulsos destrutivos, o bebê possui impulsos sádicos não só contra o seio da mãe, mas também contra o interior de seu corpo, com desejos de esvaziá-los e destruí-los de forma sádica. Segundo Klein o mundo do bebê é repleto por fantasia inconscientes e ansiedades arcaicas, figuras boas e más, sendo que desde o nascimento, o bebê está exposto a pulsão de vida e morte que são desempenhadas por impulsos libidinais e agressivos. Klein analisa e interpreta a ansiedade como incentivadora e também podendo ser inibidora, devido aos mecanismos de defesa, impedindo a criança de desenvolver suas capacidades emocionais e cognitivas. A primeira ansiedade experimentada teria origem em fontes internas e externas, segundo Klein esta viriam da experiência do nascimento, pois o bebê experimentaria dor e desconforto advindos dessa experiência, vivenciando como um ataque realizado por objetos perseguidores, assim o bebê precisaria projetar os impulsos destrutivos sobre o objeto externo, gerando um ciclo contínuo de projeção e medo de aniquilamento (ansiedade persecutória). À partir da elaboração e superação destes sentimentos emerge a passagem da Posição Esquizoparanóide para o que Klein denominou Posição Depressiva (D). Na qual o sujeito percebe uma relação de objeto total, sente a angústia depressiva e apresenta mecanismos de defesa mais desenvolvidos como a reparação, uma maior integração do ego e do objeto externo (mãe/seio), sentimentos afetivos e defesas relativas a uma possível perda do objeto amado em decorrência dos ataques da posição anterior (reparação), este seria o ponto central do desenvolvimento de cada indivíduo. Em 1961 Klein surpreende a comunidade psicanalítica com seu conceito sobre a inveja e seus desdobramentos na personalidade do indivíduo. Assim nos traz que a inveja é a mais radical das manifestações dos impulsos destrutivos, pois leva ao ataque e destruição dos objetos bons cuja introjeção seria a base para uma vida psíquica saudável. A inveja é descrita como um sentimento raivoso para com objeto que possui e desfruta de algo desejável, através das quais incentiva ações do bebê em destruir esse objeto. Klein aponta que a inveja é uma emoção muito arcaica que remonta ao nascimento, sendo esta a inveja direcionada aquela fonte criadora de bem-estar, daquele seio farto através do qual o bebê depende,assim quando este não é gratificado de imediato, surge o sentimento de inveja. Para teoria Kleiniana os aspectos destrutivos estão sempre presentes, os impulsos destrutivos operam desde o início da vida, onde o bebê coloca partes más de si mesmo, na mãe e no peito para estragar e destruir o que há de bom. A inveja constitui uma expressão da pulsão de morte projetada no seio e na mãe. Visando danificar a bondade do objeto, para remover a fonte de sentimentos invejosos, interferindo no objeto bom, tornando-o um perseguidor, o bebê sente que foi privado e a gratificação foi guardada para uso próprio do seio que causou a frustração. Podemos citar a voracidade como uma maneira agressiva de representar a inveja, esta causa ansiedade, criando defesas no inconsciente, gerando medo no indivíduo de ser destruído também, portanto temos aqui a ansiedade persecutória, assim a inveja é um fator determinante na constituição da Posição Esquizoparanóide. Como caminho a criança precisará introjetar o objeto bom, o qual será fundamento para apreciação do objeto bom nos outros e em si mesmo, podendo assim suportar a inveja, o ódio e ressentimento. O objeto bom é capaz de ser recuperado e isso fornece a base da estabilidade de um Ego forte. Quando o Ego começa a tolerar seus próprios desejos de destruição, o bebê consegue ter uma visão mais realista da mãe e a notar que ela é um ser independente dele, podendo ser tanto boa quanto má, com isso vai surgindo assim o medo de perder a mãe, e isso faz com que o bebê deseje proteger essa mãe, inclusive dos próprios desejos de destruição, percebendo este ser incapaz, desenvolve sentimentos de culpa pelos desejos destrutivos que o bebê sentiu pela mãe e que eram encarnados pelo seio mau, segundo Klein a criança passa a sentir desejos de reparação e assim desenvolve o sentimento de empatia por ela, a mãe. Um dos principais derivados da capacidade de amar é o sentimento de gratidão, fator constituinte na Posição Depressiva descrito por Klein. Essas experiências tornam possível o sentimento de unidade com outra pessoa e também de ser compreendido, o que é essencial para as relações amorosas e de amizade durante toda vida do indivíduo.