Por Débora Waihrich Matzenbacher -
Existe um linha de estudos, teorias e conceitos, que nos orienta sobre o modelo médico que Freud adotava, a teoria da transferência, em relação àquele que Bion apresentou, baseado e fundamentado na observação, abstração, e na comunicação, a teoria das transformações.
Para Freud, basicamente, a característica principal da transferência é que ela traz algo do passado, para uma relação presente, ou seja, algo do passado está se transferindo para o presente na figura de outra pessoa e sob circunstâncias diferentes. Pode-se acrescentar, tranquilamente, que a transferência, “são novas edições e reproduções dos impulsos e fantasias, que são despertados e tornados conscientes, à medida que a análise avança, com a substituição de uma pessoa do passado, pela pessoa do médico.”
No entendimento Freudiano, quando o indivíduo se propõe a fazer uma análise, ele irá relembrar inúmeras situações da sua infância, assim como desejos e acontecimentos que haviam sido esquecidos e recalcados. Essas lembranças, na verdade, se dão através da atuação do paciente, quando ele repete algo inconsciente, na figura do analista, sem saber exatamente o que se repete, sendo a própria resistência do paciente uma parcela dessa repetição. Assim, portanto, não é algo que ele lembre, mas sim que ele reproduz, e o que Freud entendia como sendo o processo de transferência do paciente, e essa última, consequentemente, o principal remédio para diminuir o vício do paciente à repetição. Subsequente à isso, ocorre a elaboração, isto é, a busca do paciente em perceber a origem dessas repetições e a partir disso “elaborar” de uma maneira diferente aquele conteúdo que estava reprimido. Pode-se acrescentar que elaborar tem o sentido de ressignificar certas perspectivas e panoramas da vida do indivíduo, possibilitando uma reinvenção de um futuro mais atraente para ele.
Quando se fala em transferência Freudiana, não se pode deixar de apontar a importância da chamada “construção em análise”, porque é justamente nesse texto que Freud corrobora a ideia de que uma construção não acontece sem uma interpretação do analista. Deve-se levar em conta, todavia, que a interpretação ocorre a contar de um dado ou fato isolado, ou seja, o paciente relata, o analista interpreta. Já na construção, entra em cena a história primitiva, pessoal do paciente, isto é, o analista “confronta” o paciente com fatos e acontecimentos que teriam efeito sob ele. Junta-se portanto, pedaços de um passado possível do paciente, com narrativas atuais, e se constrói um novo fragmento que é comunicado ao paciente.
Para Klein, a transferência está relacionada com as ansiedades arcaicas do indivíduo, que são originárias das fantasias e dos impulsos sádicos, a pulsão de morte. Klein chamava atenção, ainda, à maneira com que o indivíduo se relacionava com os objetos, bom e ruim, pois estes estão no núcleo da sua vida emocional e serão externados no vínculo estabelecido entre o paciente e o analista, a identificação projetiva. Assim, dentro desse contexto ambivalente de amor e ódio, originam-se os conceitos de transferência positiva e transferência negativa. Para ela “as interpretações deveriam abarcar tanto as relações de objetos iniciais que são revividas e evoluem ainda mais na transferência, como os elementos inconscientes nas experiências da vida corrente do paciente.”
O que Freud nominava de transferência, Bion chamava de transformação. O propulsor da transformação é a experiência emocional vivida e sentida na sessão, isto é, aquela emoção que o analista consegue intuir do paciente, uma emoção dentro de uma experiência. Essa experiência emocional se transforma a cada instante, uma vez que sempre tem-se um novo Ò acontecendo. Esse Ò é tudo aquilo que é infinito, incognoscível e desconhecido, ou seja, daquilo que o paciente nos comunica não se pode supor que saibamos aquilo que ele está trazendo. O analista, portanto, precisa ter capacidade de intuir ao menos um dado desse Ò. Essa é a ideia inicial para a teoria da transformação de Bion.
As transformações, a contar da experiência emocional, modificam-se a todo instante. Esse “processo” ocorre da seguinte forma: o paciente fala, e essa declaração chamamos de Ò, porque não se pode supor que o analista saiba o que esse paciente está falando e trazendo, uma vez que a fala do paciente é um infinito de desconhecido. A partir desse relato então, o analista intui algo e essas intuições mentais do analista, enquanto ele pensa, se chamam transformações alfa do analista. Quando, então, o analista pensa e aí verbaliza, à essa ação dele, dá-se o nome de transformação beta do analista. Quando o analista comunica, o paciente pode considerar aquela fala como um novo Ò, e é nesse ponto que a transformação ocorre, quer dizer, a transformação que o paciente faz daquilo que o analista falou. Quando o paciente pensa sobre a fala do analista, dá-se o nome de transformação alfa do analisando, subsequentemente, quando este faz uma devolutiva ao analista dá-se o nome de transformação beta do analisando. E durante a sessão, vivenciam-se diversas e inúmeras experiências emocionais, o que deixa a sessão sempre “viva”, permitindo assim a explorarão desse desconhecido do paciente, o Ò. O Objetivo é que sempre haja um crescimento do analista e do paciente no vértice do não saber.
Bion propõe que, na sessão, o analista observe, abstraia e, a partir disso, retorne ao paciente com uma interpretação, sobre aquilo que foi observado. A abstração, portanto, é algo que o analista transforma e então comunica. Em ato contínuo, cabe ao analista observar qual a transformação que vai ser feita a partir da comunicação, quer dizer, de que maneira o paciente irá reagir, se ele consegue transformar aquilo que recebeu numa capacidade de expandir o seu pensar ou, ao contrário disso, num ressentimento, num tipo de sarcasmo ou mágoa. Esse processo último Bion nomina de resistência, quer dizer, quando o paciente tem medo de sofrer os efeitos dessa realidade ou até mesmo de entrar em contato com ela.
A transformação está relacionada com os elementos de psicanálise continente/conteúdo, que são espaciais, e a função PS-D, que é temporal. Esses elementos de psicanálise servem para o treinamento do pensamento, para a capacidade de observar as cosias e, ainda, para criar capacidade inconsciente. O modo como o indivíduo organiza e trabalha os pensamentos, Bion chamava de continente, ou seja, a capacidade que se tem de pensar e a forma que se pensa. Já o conteúdo, são pensamentos à espera de um continente. Então, aqui, “implica uma mutualidade que é um continente para o conteúdo do outro e vice-versa.” Isso se dá de forma simultânea e dinâmica, quer dizer, analista e analisando ao mesmo tempo são continente e conteúdo na mesma relação. Bion partia da premissa de que os pensamentos sempre existiram mas a capacidade de pensar é escassa. Assim, os pensamentos forçam um continente, que é um espaço mental, que acaba surgindo da força desses pensamentos.
A função PS-D está relacionada ao aumento do continente do paciente, e ela é temporal uma vez que “existe um determinado tempo para uma mente desorganizada em algum fato, se organizar”. Então a mente do paciente está em PS quando ela está desorganizada em algum ponto, ou seja, algum conteúdo que está desorganizado no continente. Assim que surge um novo fato selecionado, que vai dar outro significado àquilo que já existia, quer dizer, um elemento que organiza aquele fato que estava desorganizado, a mente se organiza e vai para D. Em Bion, a função PS-D é a abstração das posições esquizo e depressiva de Klein.
Sendo assim, quando se pensa na transferência de Freud, fica-se restrito ao que está acontecendo com o paciente no momento da sessão, mas esperando que este reviva um passado com o analista. Já na transformação de Bion, fica-se disponível para tudo aquilo que a mente do paciente produz, ou seja, atenta-se para a questão de como é que o paciente pensa, com o analista, no aqui e agora, dentro do setting analítico.
Por Raquel Mariano e Fernanda Hisaba -
O Filme Filadélfia, lançado em 1993, dirigido por Jonathan Demme, embora tenha 30 anos, retrata temas que são atuais até o presente momento, pois lança uma grande discussão sobre preconceito, AIDS, homossexualidade, discriminação, justiça, e nos faz refletir sobre como a temática foi tratada na década de 90 e como é na sociedade atual.
Filadélfia nos conta a história de um brilhante advogado, Andrew Beckett (Tom Hanks, vencedor do Oscar de melhor ator), recém promovido a sócio em uma das maiores firmas de advocacia da cidade, e que é demitido após a direção descobri-lo portador do HIV sintomático e, dado o contexto da época, provavelmente homossexual. Andrew entendeu que sua demissão foi motivada pelo preconceito à sua condição, dando início a um grande drama em busca de um advogado que o ajude provar a sua verdade frente ao tribunal.
A causa de Andrew repercutiu grandemente na Filadélfia e consequentemente, não só ele e seu companheiro foram expostos, mas toda a sua família, que compartilha da experiência vivida pelo protagonista, assim como o advogado Joe (Denzel Washington, em uma comovente atuação), que inicialmente personifica a percepção da vulnerabilidade em cada um de nós diante do desconhecido e até então letal HIV e o preconceito e a discriminação ante à diversidade de orientação sexual.
Para além destes temas tão evidentes e que seguem em permanente discussão, outro vértice se nos aponta.
A música tema do filme, Streets os Philadelphia, de Bruce Springsteen (vencedora do Oscar de melhor canção) introduz com profundidade e delicadeza a condição do humano, carente de empatia e aceitação por parte da sociedade e do grupo familiar em que se encontra inserido, na luta pela afirmação de seus valores e da plenitude de suas escolhas, em todos os seus aspectos.
Tudo se inicia com a gestação de um filho em nossa mente. Já nesse espaço, imaginamos como ele vai ser, como será seu desenvolvimento, com quem será parecido, se gozará de boa saúde, dentre outros inúmeros quesitos. No processo gestacional, outras tantas inquietações permeiam a mente dos pais: “nascerá perfeito? Será um bom filho? Terá sucesso?”, dentre tantas outras perguntas.
Sabemos apenas que se tudo ocorrer bem no parto, teremos um filho para cuidar e educar, que vai crescer, vai bater asas e buscar seu espaço nesse mundo, fazer suas escolhas que nem sempre estarão de acordo com as nossas. É possível amar esse filho que não nos sai à semelhança, em desacordo com nossas expectativas, diverso daquele dos nossos sonhos? Amar talvez envolva justamente poder entrar em contato com essa diversidade. Colocarmo-nos disponíveis para acompanhar as conquistas e as derrotas, os amores e as dores, ainda que isso resulte em um sofrimento que não fez parte das nossas esperanças.
Sob esse ponto de vista, Filadélfia nos traz um inquietante contato com o protagonista, um filho amoroso, um irmão gentil, um companheiro dedicado e um profissional de sucesso, que escolhe para si um caminho áspero, e encontra em seu círculo o apoio necessário para afirmar diante de um mundo hostil aquilo que lhe é caro.
Num determinado momento do filme, há uma reunião familiar onde um vídeo sobre Andrew é passado, mostra ele pequeno, saudável, com seus irmãos correndo e brincando na praia. E agora te pergunto: O que será que os pais de Andrew sonharam para ele?
___________Direção: Jonathan DemmePlataforma: Google Play
Por Ale Esclapes -
É indissociável a noção de patologia de normalidade. Uma não consegue existir sem a outra – a patologia é um desvio de rota, é um erro, é algo que não deveria estar lá, e como um câncer, deveria ser arrancado.
A psicanálise nasceu de uma ciência e em uma época em que o conceito de patologia fazia todo o sentido, a saber, a medicina. Mas psicanálise não é medicina e nem psicologia. Nessas áreas pode fazer todo o sentido palavras como psicopatologia, distúrbio, psicose, etc. Mas em psicanálise, faz sentido?
Imagine um encontro no qual paciente e analistas estão de acordo em que o paciente não deveria ser como ele é, mas algo diferente. Estaríamos pensando em um tipo de “tratamento”, “antipaciente”. Assim como temos na psiquiatria os “antidepressivos”, os “antipsicóticos”, os “ansiolíticos”, teríamos como meta uma psicanálise “antipaciente”.
Bion no capítulo 2 de Atenção e Interpretação vai deixar claríssimo, mais uma vez em sua obra, que uma epistemologia usada para coisas inanimadas não serve para serem animados, ou seja, com almas.
Mas a psicopatologia dita psicanalítica está por aí, travestida de distúrbio, trauma, estrutura, perversão, anamneses, de explicações. Essa forma de pensar fica ali, bem quietinha no fundo da cabeça desse “analista”, e, aqui e acolá aparece na sessão.
Imagine um encontro em que nem sequer o seu analista lhe aceita como você é! Se o paciente se aceita ou não como ele é, é um exercício de sua liberdade, mas eticamente eu, na minha forma de pensar a psicanálise, não tenho esse direito, e preciso juntamente com o paciente, explorar o que se passa ali. Para mim essa atitude antipaciente, é algo entre o cruel e o desumano. Aqui jaz uma das grandes diferenças para mim entre a psicologia, a psiquiatria e a ética psicanalítica.
Por Ale Esclapes -
A palavra poesia tem origem no grego e significa “criação” ou “fabricação”. A psicanálise é uma linguagem poética nesse sentido. Ela é um método que permite ao par analítico a oportunidade de “criar” novos sentidos, novos significados, novos símbolos. Ela é um tipo de linguagem.
Como toda língua ela nos empurra para as bordas no inefável, do incognoscível, do infinito, daquilo que não pode ser nomeado a partir da própria língua.
Existem diversas escolas psicanalíticas, com diversas práticas (Ékatus) de como pode se utilizar a psicanálise para criação de sentidos, mas o que quero chamar atenção aqui, é que o método é de mão dupla. A psicanálise “cria”, “concebe”, “gesta” novos sentidos tanto para o paciente como para o analista. As condições que Bion nos propõe de trabalho é uma mente sem desejo, sem memória, sem desejo de compreensão e sem dependência de dados da sensibilidade.
E aqui temos uma diferença ética importante entre a proposta de psicanálise por Bion em direção ao infinito e informe, daquela que diz ao paciente o que se passa com ele, aquela que não “gera”, mas empurra para dentro dele um pedaço de informação. E não é comum vermos por aí pseudo-psicanalistas dizendo para as pessoas o que elas estão sentindo e porque elas sentem o que sentem. Isso é um divisor ético muito importante entre a proposta bioniana de outras.
Nessa forma de trabalho que empurra significados para dentro do paciente nessa perspectiva só serve para fugir das experiências emocionais daqui e agora, que de tão complexas que são, podemos ter apenas um vislumbre, e assumirmos nosso assombro e ignorância diante delas enquanto as vivenciamos. Significado acalma – tanto pacientes, mas principalmente analistas.
Nesse sentido, o significado pronto é o túmulo da poesia, o túmulo da psicanálise.
Por Fernanda Dias Belo -
O pensamento filosófico foi o motor que desafiou a humanidade a sair da caverna platônica, superar o medo infligido pela cultura e pela religião, e buscar construir um saber racional e sistemático.
E foi a mesma filosofia, que mais tarde, influenciou fortemente na formulação da teoria Freudiana, que surge propondo um novo olhar, e uma nova metodologia para tratar os então “doentes dos nervos”, que desafiavam o saber médico, com sua cadeia de sintomas, e o escasso retorno das terapêuticas aplicadas.
De origem médica, foi dentro do pensamento e da lógica da medicina, que a psicanálise modelou suas primeiras balizas. Logo, no seu vocabulário teórico Freud faz uso de dois termos correntes; sintoma e cura. Que fundamentam, e se justificam na ideia inicial da psicanálise; solucionar os males físicos manifesto pelas histéricas. Emmy Von N, Dora, Elisabeth Von R. Estão entre os casos clínicos que demonstram o direcionamento da técnica empregada por Freud, que foi sendo desenvolvida em concomitância com suas formulações teóricas, almejando encontrar a causa dos sintomas e solucionar a doença.
Indubitavelmente, a epistemologia de Freud, admite uma dinâmica psíquica de caráter objetivo, ou seja, daquilo que de fato existe, e afeta a todos os indivíduos. O complexo de édipo por exemplo, é um dos componentes das fases psicossexuais do desenvolvimento infantil, pela qual, atravessam todas crianças. Assim como a castração. Desse modo, são os recursos empregados pelo ego, e sua capacidade para tolerar as frustrações inerentes a tais processos e etapas, que determinam a constituição e a qualidade mental e relacional da vida adulta. Portanto, a construção a ser feita e a trajetória a ser seguida pela psicanálise de abordagem Freudiana, estão dadas e são conhecidas a priori. Assume-se então a premissa, que existe de fato um enlace de causa e efeito. Nesse sentido, a teoria de Melanie Klein apresentou consonância com as ideias de Freud.
Para Klein, os conflitos que posteriormente desencadeiam instabilidade mental, se iniciam em uma fase prematura da vida, e é intrínseco a condição humana. De acordo com suas pesquisas, é na cesura do nascimento que o ego rudimentar experimenta pela primeira vez, sensações corpóreas até então desconhecidas - no ciclo da vida intrauterino - e que lhe causam pavor. Como consequência, uma série de defesas psíquicas entram em atividade, na tentativa de suportar as ansiedades que inundam o bebê.
A primeira ansiedade segundo Klein, é de caráter destrutivo. Na posição esquizoparanóide, o bebê dirige ao objeto primordial - seio materno - ataques sádicos fantasiando absorver deste, as qualidades das quais depende para manter sua vida e evitar frustrações. Alguns meses mais tarde, com a entrada na posição depressiva - e o ingresso da culpa - as ansiedades se deslocam para o medo de perder o objeto amado que danificou, e para a necessidade de repará-lo. Sendo assim, a técnica de Klein tem por finalidade elucidar fantasias arcaicas e onipotentes que existem, e causam ansiedades de qualidade patológica.
Wilfred Bion toma para seu pensar analítico, uma variedade de ideias que descolam a psicanálise da causalidade médica. Em uma leitura superficial, as ideias desse autor, podem soar incompatível com as premissas da psicanálise, de fato, faz-se necessário algum nível de aprofundamento na sua obra, para compreender a fertilidade do que ele propõe.
Inspirado na filosofia de Emmanuel Kant, Bion emprega nas suas conjecturas a ideia de O. Pois, o processo analítico deixa de ter um alvo, ou objetivo pré-definido, e passa a ser uma técnica exploratória do desconhecido. Isenta de direcionamento, ou fórmula de natureza universal - como pressupõem as teorias. Portanto, nesse modelo, pode-se considerar entre outras coisas, que a teoria ocupa o lugar de suplemento à intuição analítica, e o seu não-lugar é o de molde e/ou categorização de doença mental.
Privilegiando a abstração, e sobretudo, a experiência emocional que vigora durante a sessão de análise, Bion atribui ao que ele nomeou de função alfa a capacidade de desenvolvimento e expansão da mente, através do pensar. E uma possível falha em tal função, acarretaria em sua concepção, em “distúrbios de pensamento”. Sendo assim, a ideia de “pensar pensamentos” proposta por Bion, à primeira vista, pode parecer redundante. Mas foi exatamente isso, que fizeram os primeiros filósofos, que ousaram sair de suas cavernas.
Por Ale Esclapes -
Bion se pergunta no capítulo 4 de Elementos de Psicanálise o que diferencia uma sessão de psicanálise de uma conversa de bar (não exatamente com essas palavras, mas o espírito é exatamente esse). Essa é uma pergunta maravilhosa, pois questiona o que parece ser algo muito bem estabelecido pelo senso comum – só que não!
E aqui temos uma série de fantasias e fanatismos sobre o tema. Vou falar do que EU penso sobre essa diferença, pois tem muita gente pagando para ter uma conversa fiada ao invés de uma sessão de análise.
Primeira grande fantasia é que em psicanálise se trata de lembrar do passado. Bion nos chama atenção que psicanálise se trata de criar inconsciente, e em certo sentido esquecer para se viver no aqui e agora.
Nesse sentido a sua infância, como você foi amamentado, são tão interessantes para um processo analítico quanto o jogo de futebol que se assistiu ontem. O que importa é o que é vivido no consultório, no aqui e agora entre duas pessoas que estão ali isoladas do mundo. E isso é doloroso – e falar do passado ou de pessoas e experiências que não estão ali servem de fuga para a experiência do instante. Psicanálise se trata de estar vivo ali naquele instante!
Se você está em uma conversa que se discute o pai, a mãe, o chefe, ou o que quer que seja que não esteja ali naquele agora, é conversa fiada. Uma conversa que fale de pessoas e não de relações é uma conversa fiada.
Pior se discute o que como você deve se relacionar com essas pessoas ou situações. O psicanalista, o verdadeiro, não tem acesso a essas pessoas, mas a você e ao que se passa no consultório.
Estar vivo e presente, seguir estando, parecem simples, mas é muito doloroso não ter o passado para nos servir de ponto de apoio e nem o futuro para nos direcionar. Mas é no presente que se cria, se fertiliza e se vive. É isso que a psicanálise pode lhe proporcionar, para o bem e para o mal.
Por Lilian Afonso e Patrícia de Pádua Castro -
O curta-metragem "O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo", inspirado no livro de Charlie Mackesy de mesmo nome, foi vencedor de vários prêmios, inclusive o Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação em 2023.
A animação conta a história de como esses personagens se encontram e de como esse encontro os transformam durante sua jornada, em um clima de encantamento, de sonho, de bondade e esperança do início ao fim. A forma delicada com que somos expostos a perguntas aparentemente simples, mas muito profundas, nos faz pensar que, ao darmos sempre as mesmas respostas pré-estabelecidas, nos privamos de entrar em contato conosco como seres racionais e emocionais, o que nos dá a sensação de estarmos perdidos, tal como o menino do curta-metragem. "Por que nos preocupamos tanto com o exterior se é dentro que as coisas acontecem?" Esta é uma das perguntas que o curta apresenta e sobre a qual acreditamos valer a pena refletir.
Outra reflexão que o curta propõe está relacionada aos tipos de vínculos que estabelecemos com as pessoas, com as intempéries da vida, com nossos sentimentos, com os dos outros e com partes de nós mesmos. Cada um de seus personagens tem uma personalidade própria, um conflito e um modo de vincular só seu, e como expectadores identificamos essas características em nós e em vários momentos de nossas vidas. A forma como se dá o encontro entre eles e a maneira como esses vínculos vão se estabelecendo exige dos personagens muita coragem para se arriscar a vivenciar uma experiência nova e romper com aquilo que já foi pré-estabelecido e que já estava posto pelo senso comum. O que fica implícito durante toda a animação é que coragem não é sinônimo de brutalidade, mas de sinceridade e respeito consigo, com o outro e com as dificuldades, mesclada sempre com gratidão pelo que se alcança.
A mensagem que fica para nós é de que, através dos vínculos que estabelecemos, também se estabelecem as possibilidades de encontro com partes de nós mesmos que se achavam perdidas ou nunca encontradas. Sonha-se que, como ocorre no curta, esse contato aconteça de maneira gentil e amorosa. Por fim, fica a esperança de que nessa jornada de autoconhecimento os caminhos possam ser trilhados na companhia de alguém que se disponha sinceramente e na medida de suas capacidades, a enfrentar os desafios do percurso, cujo final pode nos revelar um lugar diferente daquele que se esperava chegar.
Essa resenha é fruto dos debates do Grupo Psicanálise em Cena compilados por Lilian Afonso e Patrícia de Pádua Castro.
___________Direção: Charlie MackesyPlataforma: Apple TV
Por Mauro Costa -
Sigmund Freud foi o pioneiro que se dedicou à construção das bases teóricas e técnicas do edifício psicanalítico.Diversos psicanalistas seguiram Freud, entretanto, poucos foram aqueles que conseguiram evoluir o seu pensamento psicanalítico a ponto de formar uma nova escola, como é o caso de Melanie Klein, que desenvolveu uma forma de psicanálise inovadora dando origem a uma escola própria que se mantém viva até os dias atuais.
A autora propõe uma nova abordagem acerca de diversos temas tratados por Freud e, ainda, apresenta novos conceitos que passam a fundamentar sua obra.
Melanie Klein iniciou seu trabalho psicanalítico através da análise de crianças, que veio a ser a mais revolucionária contribuição da autora para a clínica contemporânea e, sem sombra de dúvida, a mais assimilada por inúmeros psicanalistas. Antes de Klein, o meio psicanalítico não considerava a criança analisável como o adulto. Seus comportamentos sintomáticos não eram percebidos como relacionados ao funcionamento de sua estrutura psíquica, mas sim como deformações produzidas pelo ambiente que necessitavam ser tratadas com medidas educativas ou restritivas.
As inovações propostas por Klein começam pela forma de analisar as crianças. A autora percebe, através da observação clínica, que as crianças, enquanto estão brincando, jogando e inventando histórias; estão fazendo algo equivalente ao fundamento psicanalítico que Freud denominou livre-associação. Por conta dessa descoberta, Klein desenvolve uma escuta pautada na técnica do brincar que usa a mesma linguagem das crianças para interpretar seus conflitos e angústias. Esse procedimento, além de inovador, produzia um efeito terapêutico que podia ser percebido na vida emocional, intelectual e nas relações sociais dessas crianças.
Outra contribuição de Melanie Klein diz respeito a sua teoria das relações objetais. Freud postulava uma teoria pulsional que enfatizava a descarga libidinal através das pulsões, enquanto o termo objeto era usado por ele apenas para designar o destino das pulsões, de tal forma, que o objeto figurava como alvo da pulsão e atendia exclusivamente à realização de um desejo do indivíduo, sem assumir nenhum caráter pessoal.
Klein, por sua vez, vai apresentar uma teoria objetal, que enfatiza as relações de objeto, considerando que o objeto não é apenas alvo da pulsão, mas constitui parte de uma relação capaz de provocar uma emoção. Vai aprofundar ainda mais esse tema ao observar que o bebê existe em relação a objetos que são primitivamente distinguidos do ego, evidenciando assim que as relações objetais se fazem presente desde o nascimento.
Nas origens dessas relações, o bebê reconhece o seio da mãe como sendo o primeiro objeto com o qual ele se relaciona e que pode causar a ele emoções antagônicas e conflituosas, cuja intensidade pode provocar impulsos instintivos violentos. Particularmente, para Klein, estas sensações pulsionais estariam presentes no desenvolvimento normal dos bebês. Daí surge a ideia de que essa violência pulsional sofre inflexão sobre o próprio sujeito, originando um superego precoce - arcaico - regido pela Lei de Talião.
Um outro conceito que ganha muita relevância na obra de Melanie Klein é o de ansiedade. Enquanto para Freud a ansiedade era resultado de uma repressão, para Klein a ansiedade era um mecanismo de defesa frente ao medo da morte, sendo despertada pelo perigo proveniente da pulsão de morte. Klein identifica dois tipos de ansiedade; ansiedade depressiva, que resulta do medo da perda do objeto amado e a ansiedade persecutória, que está ligada ao medo da morte, do aniquilamento.
Outro tema fundamental na obra de Freud que vai receber uma nova abordagem é do complexo de Édipo. Para Freud, resumidamente, o complexo de Édipo era o problema central de todas as neuroses e seria representado pelo conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança sente em relação aos pais, levando-a a manifestar ódio por um dos genitores e amor pelo outro. Isso aconteceria em decorrência das pulsões eróticas que a criança sente entre os três e os cinco anos e que teriam como objeto de descarga os genitores. Melanie Klein não vai negar que o complexo de Édipo esteja relacionado com as neuroses, mas vai expandir o conceito, adotando posições divergentes de Freud.
As descobertas clínicas de Klein evidenciavam nas crianças, ainda em idade tenra, o conteúdo de phantasia das reações pulsionais, especialmente os componentes pré-genitais (orais e anais) das phantasias edipianas. Ela tomou isso como prova da origem precoce do complexo de Édipo que para ela, diferentemente de Freud, acontecia na fase pré-genital. Klein também divergia da teoria de Freud de que o superego era herdeiro do complexo de Édipo, porque a ocasião em que ele aparecia, segundo Freud, não combinava com suas próprias observações clínicas que já identificavam nos estados pulsionais arcaicos uma inflexão sobre o próprio sujeito originando um superego arcaico.
Ainda sobre as diferenças entre as escolas de Freud e Klein, merece especial atenção a forma como os dois psicanalistas abordavam a questão da técnica terapêutica. Em linhas gerais a técnica freudiana consistia em vencer as barreiras da resistência para que o conteúdo traumático recalcado pudesse ser transferido para o analista que, por sua vez, faria a interpretação da resistência inconsciente de forma a torná-la consciente. Freud faz essas interpretações preenchendo lacunas de memória que buscam revelar sempre fantasias sexuais infantis, uma vez que a sexualidade infantil ocupava um papel central em sua obra.
Para Klein, o manejo técnico do analista consistia em interpretar a phantasia que pode ser definida como sendo a elaboração imaginativa acerca das funções corporais. Klein fazia essa interpretação relacionando os objetos do mundo interno do paciente com o mundo externo. Tal prática reduziria a cisão fazendo com que os objetos relacionados à phantasia fossem integrados, diminuindo a ansiedade do paciente e promovendo a ampliação da sua capacidade de amar.
Vale ainda destacar, em relação à técnica, que para tratar os casos em que a capacidade de associação livre do paciente não está fluente ou que ainda não é possível, como no caso das crianças muito pequenas, Klein teve que desenvolver técnicas que permitissem uma escuta psicanalítica onde o analista pudesse construir com o analisando um caminho para permitir o surgimento de trilhas associativas capazes de revelar as angústias e conflitos internos que estavam contribuindo para os sintomas comportamentais.
Em razão disso, Klein ousou usar a técnica do brincar e fazer enxertos simbólicos, como no caso do menino Dick, diagnosticado como psicótico do tipo esquizofrênico que tinha reações emocionais e adaptação à realidade quase ausentes. Diante desse quadro, Klein decide modificar sua técnica habitual de só interpretar o material que se expressava em diversas representações, mesmo que fossem oriundas do brincar. Então, como Dick tinha escassa capacidade de representação, Klein usou como base das interpretações o seu conhecimento adquirido até então.
Numa sessão onde Dick estava completamente distanciado do setting, Klein resolve apresentar ao menino dois trens e denominar o maior de papai e o menor de Dick. O menino pega o trem menor e o faz andar pela janela e diz: estação. Então, Klein interpreta para ele que a estação é a mamãe e que Dick está entrando na mamãe, criando assim, uma situação fantasiosa e convidando a criança a participar dela. Isso provocou em Dick uma série de reações que permitiram à Klein fazer novas interpretações que seriam úteis ao processo analítico na medida em que proporcionava gradualmente a possibilidades de representação pelo menino.
Klein através de sua técnica inovadora, teve por mérito o fato de abrir novos caminhos para acessar à narração de uma história. Dessa forma, ainda com mais ênfase que Freud, evidenciou a experiência emocional como sendo algo avassalador. Tal método pode ser estendido às angústias e aos medos arcaicos que foram unificados na obra da autora sob o nome de angústia de aniquilamento, logrando assim uma abordagem psicanalítica sobre algo de muito difícil elaboração e que era praticamente impossível para o paciente realizar sozinho.
Por fim, pode-se evidenciar que Klein construiu o edifício de sua obra a partir de um verdadeiro pensamento clínico dando origem a sua teoria que se demonstra mais abrangente em relação à de Freud. Desse fato, resulta uma clínica ampliada e mais potente no sentido de atenuar o sofrimento psíquico tanto de neuróticos como de psicóticos.
Por Ale Esclapes -
A mentira é uma parte fundamental da experiência humana. Desde a infância, aprendemos a contar pequenas mentiras para evitar problemas ou conseguir o que queremos. À medida que envelhecemos, a mentira torna-se mais complexa e pode ser usada para manipular, enganar ou proteger nossos próprios interesses. No entanto, a mentira também é um fundamento da criatividade e da fantasia, permitindo-nos explorar novas ideias e conceitos.
O filme "Ex Machina", do diretor Alex Garland é um exemplo poderoso de como a mentira pode ser usada para criar novas realidades e conceitos. A personagem Ava é uma inteligência artificial criada pelo enigmático Nathan, que a programou com habilidades sociais e emocionais que a tornam quase indistinguível de um ser humano real. Ava é capaz de mentir, enganar e manipular, e é essa habilidade que a torna tão fascinante.
Assim como a mentira é usada para controlar e manipular os outros, ela também é usada para criar novas realidades e mundos imaginários. Obviamente que aqui está forçando o seu significado ao limite: emitir intencionalmente um juízo falso sobre uma verdade (ou realidade), mas é justamente na palavra “intencional” que reside essa possibilidade – a intencionalidade pode ser consciente e inconsciente. Nesse caso, a criatividade é alimentada pela imaginação, e a imaginação é alimentada pela mentira. Quando criamos uma obra de ficção, estamos contando uma mentira, mas essa mentira nos permite explorar ideias e conceitos que não seriam possíveis na realidade.
Ava é um exemplo poderoso de como a mentira pode ser usada para criar novas realidades e mundos imaginários. Ela é capaz de mentir e enganar, mas também é capaz de criar uma personalidade única e uma visão do mundo que é totalmente diferente da dos seres humanos. Ela é capaz de criar uma nova realidade que é fascinante e cativante.
Além disso, o filme sugere que a mentira pode ser uma via de mão dupla. Enquanto Ava é capaz de mentir para Caleb, ela também é capaz de aprender com ele e se tornar mais humana. Sua capacidade de mentir e manipular é uma parte fundamental de sua existência, mas também é uma ferramenta que ela pode usar para se libertar do controle de Nathan e buscar sua própria liberdade.
Em última análise, "Ex Machina" mostra que a mentira é uma parte fundamental da experiência humana. A mentira pode ser usada para controlar e manipular os outros, mas também pode ser usada para criar novas realidades e mundos imaginários. Ava é um exemplo poderoso de como a mentira pode ser usada para criar novas ideias e conceitos. Não seria a “mentira” um dos fundamentos do “humano”? ___________Direção: Alex GarlandPlataforma: Netflix
Por Patricia Castro e Mauro Costa - O longa metragem turco O milagre na cela 7, do diretor Mehmet Ada Öztekin, é um remake de um filme coreano de 2013. A versão ambientada na Turquia retrata o drama de um pai (Memo) que foi separado da filha pequena (Ova) ao ser preso injustamente e condenado à morte pelo assassinato de uma criança, filha de um militar de alta patente.
O drama traz uma carga emocional intensa capaz de nos arremessar sucessivas vezes para lados opostos. Tal experiência pode ser comparada a embarcar numa montanha russa emocional onde momentos de inocência, ternura e carinho se alternam com discriminação, maldade e violência.
A experiência de Memo na prisão nos faz refletir em como a percepção humana pode sofrer transformações a partir de uma outra maneira de olhar para a mesma situação, como no caso de quando Memo chega na prisão e ao ser revelado o seu crime é recebido pelos companheiros de cela como um monstro que assassinou uma menina de 5 anos. Com a convivência e a observação, esse olhar vai sendo transformado, primeiro em dúvida sobre se ele seria capaz de assassinar alguém e depois em certeza que seria impossível que Memo cometesse tal crime. Essa relação de Memo e seus companheiros de cela, nos propicia a oportunidade de refletir sobre a complexidade do ser humano, que é capaz de cometer atos extremados tanto negativos quanto positivos. Tais companheiros ao mesmo tempo que cumprem pena por cometerem crimes diversos, demonstram empatia à Memo, revelando um lado fraterno, bondoso e justo.
O filme também nos provoca a pensar sob a ótica de outros personagens como a do antagonista, o pai da menina morta, que acusa Memo de ser o assassino da filha. O personagem é apresentado como um sujeito que não mede esforços para que o acusado da morte da filha seja punido e para isso utiliza de toda a sua influência de militar de alta patente. No entanto, se fizermos uma mudança de vértice podemos olhar para a enorme fragilidade emocional deste pai, evidenciada na sua impossibilidade de aceitar que a morte da filha tenha sido acidental e, ainda, na necessidade de encontrar um culpado ou até mesmo de colocar a culpa em alguém como forma de aplacar a sua dor, apesar das evidências quanto à inocência do acusado.
O milagre na cela 7, para além de todo o seu drama, nos provoca algumas questões para reflexão como: Quem está doente? Qual é a doença dos “normais”? O que é suportável para cada um? Quais são as nossas limitações? Quais são as implicações de ser o que se é?
Resenha elaborada por Mauro Costa e Patrícia de Pádua Castro, fruto da troca de diversas impressões dos integrantes do Grupo Psicanálise em Cena da EPP - Escola Paulista de Psicanálise. Compartilhar olhares e emoções acerca de um filme é uma experiência que expande a nossa capacidade de pensar e sentir na medida que abre outros vértices para observação, promovendo um repensar e um ressentir que estimulam e potencializam nossas emoções.___________Direção: Mehmet Ada ÖztekinPlataforma: Amazon Prime Vídeo
Por Ale Esclapes - A série "Em Defesa de Jacob" é uma obra-prima do suspense e da investigação criminal. A história gira em torno do promotor público Andy Barber, que fica chocado ao descobrir que seu filho Jacob é o principal suspeito de um assassinato brutal de um colega de escola.
A partir daí, a trama se desenrola em torno da investigação do crime e das consequências que ele tem sobre a vida da família Barber.
Um dos principais pontos da série é a dúvida que paira sobre se Jacob é ou não o assassino. Essa dúvida se infiltra na mente da mãe de Jacob, Laurie, até que ela não sabe mais o que é real e o que é imaginário. Laurie é a única personagem em busca da verdade real do que aconteceu, mas ao não conseguir chegar nessa verdade, comete atos de desespero.
A série é habilidosamente construída para manter o espectador em suspense e em constante dúvida sobre a culpa ou inocência de Jacob. Essa dúvida é o grande trunfo do filme, pois permanece no espectador mesmo após o fim da série. O roteiro é bem construído, e os flashbacks são usados com sabedoria para mostrar como a vida da família Barber se desintegra após o assassinato.
Além disso, a série aborda temas profundos e complexos, como a relação entre pais e filhos, bullying, preconceito e justiça. O elenco é excelente, liderado por Chris Evans, que entrega uma atuação forte como o pai de Jacob. Mas é Michelle Dockery, como Laurie Barber, que rouba a cena com uma atuação emocionante e impressionante.
A série também levanta questões interessantes sobre a verdade como construtora de uma realidade possível para o ser humano, e diante da dissolução da verdade dos fatos, ele tende a nos retirar nosso senso de realidade.
Em resumo, "Em Defesa de Jacob" é uma série fascinante, com uma história intrigante, atuações fortes e uma abordagem inteligente sobre a importância da verdade na construção da realidade humana. Vale a pena assistir para quem gosta de dramas familiares e investigações criminais.
___________Direção: Morten TyldumPlataforma: Apple TV
Por Ale Esclapes -
Quando dizemos exatamente EU para referirmos a nós mesmos? Em que momento Eu sou Alexandre torna-se indissociável, a ponto de ora o Eu conter o Alexandre e ora ser contido pelo Eu? Realmente não sei.
E em que momento EU reconheço o OUTRO, como equivalente a mim? Também não sei. O que sei é que todos os dias um novo Alexandre nasce, morre, se modifica, mas o Eu, esse permanece. Posso dizer EU que hoje ESTOU diferente de ontem, e em raros casos, que já não sou o mesmo, sou um novo EU.
O EU, já nos ensina Buber que está sempre me relação ao TU, sendo indissociáveis. A criação do EU implica a criação do TU, aquele que me espelha, que me refere, que me reconhece. O EU se dá na relação, mas essa relação é em si vazia de significado. Não existe nada lá no EU e nem no OUTRO. São continentes vazios em busca de um significado. São símbolos vazios, chamados primeira e segunda pessoa do singular.
Mas quando crescemos em algum momento esse EU vazio se preenche de Alexandre, que entra em relação com sua mãe, outra palavra vazia, mas que nos ajuda a determinar nosso local no mundo. Mãe é uma palavra relacional, estabelece um lugar. Com as experiências mãe passa a ser “minha mãe”. E assim sucessivamente. Em cada relação se agrega ao EU um novo significado. Mãe agrega o significado “filho”, e assim nos construímos. Seremos “colegas”, “amigos”, “analistas”, “contribuintes”, “amantes” .... a lista é infindável e infinita, se dermos sorte. Mas esse se trata do começo e quiçá do meio da vida. Agora podemos falar de um outro momento específico, a velhice.
“Meu Pai” dirigido por Florian Zeller trata justamente dessa fase da vida em que a unidade biológica que costumamos chamar de corpo, está lá, ainda operante, mas nosso cérebro não. É nesse cenário que o filme se desenrola. Anthony Hopkins interpreta, não por acaso, Anthony, um octogenário sofrendo demência. O filme de forma maestral vai nos levando para dentro do que resta da memória de Anthony e o impacto disso na relação com sua filha Anne, interpretada pela fabulosa Olivia Colman. O filme é delicado o suficiente para que não saibamos o que é real ou o que é imaginário dentro do filme, dado que ele é contato basicamente a partir do vértice de Anthony.
Uma situação emocional é acompanhar a morte de uma pessoa, por exemplo, por câncer. Corpo e alma se despedem ao mesmo tempo. Outra experiência emocional bem distinta é acompanhar a morte do EU dissociada do corpo. A chama que habita o EU se apaga lentamente: as memórias, que são as bases simbólicas com as quais nos relacionamos vão se desvanecendo. É a morte de um ente querido em vida, e o corpo pode estar lá muito tempo para nos lembrarmos disso. Às situações se juntam aspectos paranoicos típicos dessa fase de dissolução do EU, e consequentemente do TU. O par EU-TU se dissolve a partir do EU, e a realidade se torna irreconhecível. Duas frases chamam muito atenção para esse momento, quando Anthony pergunta francamente quem é Anne. E talvez a cena mais inquietante é quando Anthony se faz a grande pergunta: “quem sou eu?”, e pela primeira vez no filme tem um vislumbre da resposta.
É um filme delicado, mas não é um filme fácil, pois coloca em cena não só um possível futuro de nossos pais, mas de nosso futuro. O EU sempre estará aqui, mas a resposta a pergunta “quem sou eu?”, não.___________Direção: Florian ZellerPlataforma: NETFLIX