Por Camila Avila -
"O gato preto cruzou a estrada/ Passou por debaixo da escada/ E lá no fundo azul/ Na noite da floresta/ A lua iluminou/ A dança, a roda, a festa.../ Vira! Vira! Vira!/ Vira! Vira!/ Vira Homem/ Vira! Vira!/ Vira! Vira! Lobisomem.../ Bailam corujas e pirilampos/ Entre os sacis e as fadas/ E lá no fundo azul/ Na noite da floresta/ A lua iluminou/ A dança, a roda, a festa.../ Bailam corujas e pirilampos/ Entre os sacis e as fadas"/ (João Ricardo e Luli)
A voz de Ney Matogrosso, a melodia e os acordes de Secos e Molhados apresentando “O vira” se desenhou instantaneamente quando pensei em escrever sobre dois casos clínicos de Sigmund Freud que rementem ao “universo masculino” e o mundo animal: “O homem dos ratos” e o “O homem dos lobos”. Caro leitor entenda que chamei de universo masculino a descrição de casos de pacientes do sexo masculino e essa descrição já inundou meus pensamentos (sem que eu pudesse contê-los de pronto) em quantos desdobramentos as palavras “universo” e “masculino” poderiam desencadear. O que eu entendo por universo? O que eu entendo por masculino? Deveria usar outras palavras e não estas? Como as pessoas iriam interpretar? E agora, deleto tudo e recomeço, ou, simplesmente continuo? Ansiedade, angustia, inconsciente, emoções, razão .... Pensamento obsessivo ou fantasias?
Em o Homem dos Ratos, Freud discorre sobre um caso de neurose obsessiva em que o paciente, assim como iniciei meu discurso, não conseguia controlar o fluxo de pensamentos. Para o paciente caso não concluísse uma determinada ação algo ruim aconteceria com alguém de seu convívio (no caso seu pai, ou uma dama que estava interessado). Detalhe importante é que o pai já havia falecido. Tais ideias obsessivas eram vistas em determinados momentos como irracionais por ele, mas ainda assim não conseguia conter os pensamentos. O caso clínico recebeu essa denominação pois o homem relatou a Freud uma história sádica que ouviu de seu tenente sobre um castigo em que a pessoa era amarrada nua sentada em um balde com ratos. O transtorno obsessivo compulsivo (TOC) tem essa característica: pensamentos obsessivos involuntários e compulsões (comportamentos / rituais) que objetivam eliminar as ideias obsessivas.
Faz-se importante destacar enquanto técnica psicanalítica que diferente de outros casos publicados em que ficava focado na interpretação de sonhos, Freud deu prioridade aqui aos comportamentos e palavras. Os comportamentos repetidos e a interpretação das palavras para realizar as construções psicanalíticas necessárias. Ainda muito preocupado em preencher as lacunas da história de vida do paciente e não atento às questões transferenciais na sua relação médico / paciente.
No caso do Homem dos Lobos, Sigmund Freud focou seu trabalho analítico à interpretação de um sonho do paciente. A História de uma neurose infantil, ao contrário do título diz respeito a análise de um adulto. Ainda na ideia de compreender o sintoma atual Freud buscava detalhes da infância do paciente. Momento em que o paciente relata um sonho no qual esta dormindo e uma janela se abre, diante da janela há uma arvore com vários galhos secos e na ponta dos galhos um lobo. Em um dos galhos, um lobo branco olha fixamente para o paciente que acorda muito angustiado.
Durante as sessões Freud interpreta o sonho e o relaciona a um evento denominado cena primária na qual o paciente teria presenciado uma cena de coito anal entre seus pais. Para Freud a repressão deste evento desencadeou no jovem os sintomas de uma neurose. Dois pontos merecem destaques, o primeiro diz respeito acontecimento relatado pelo paciente, seria realidade ou fantasia? E o segundo ponto, a proposta de Freud para que o termino da análise tivesse data marcada. O que de fato ocorreu.
Em uma perspectiva mais pragmática sobre técnica psicanalista, de Freud aos autores mais atuais da psicanálise (não que eu não considere Freud atual, é tipo aquele pretinho básico do guarda roupas que nunca sai de moda, mas precisa sempre de complementos para se atualizar), avanços podem ser percebidos hodiernamente. A formação médica de Freud e a preocupação com sintomas, diagnósticos e cura se fazem presentes em seus escritos. A falta de cuidado com a transferência e a contratransferência é visível, além da busca pela história pregressa do paciente como componente da técnica psicanalítica dos atendimentos clínicos apesar do destaque já dado á associação livre. A Psicanálise de hoje se ocupa muito mais da transferência e contratransferência do que a elaboração de um relato detalhado da história de vida do paciente. O compromisso é com a realidade e verdade do paciente naquele encontro com o analista, não precisa ter compromisso com a realidade histórica tão buscada por Freud. Diagnósticos e rótulos já não ganham mais espaço, assim como a tão sonhada cura. Busca-se uma ressignificação, uma compreensão do mundo interno para uma ampliação das formas de viver e lidar com a vida.
Fazendo um gancho com as ideias iniciais deste artigo em que cito lobos, ratos e lobisomens, o inconsciente e suas armadilhas bailam por toda parte (ao som de Ney Matogrosso e Secos e Molhados). Inconsciente dos pacientes, inconsciente de Freud e inconsciente desta escritora aqui. Quantos bichos e comportamentos escondem sentimentos e desejos inconscientes. O que povoa nossas fantasias e nos amedrontam diante da vida? Como tirar a máscara e olhar para o espelho? Como seria para o Homem dos Ratos passar por baixo de uma escada ou ver o gato preto cruzando a estrada? Será que o Homem dos Lobos acreditava em sacis e fadas?
Entre avanços e retrocessos Sigmund desbravou o início deste percurso que cada um de nós deveria percorrer em busca de nossa própria história através da análise pessoal. A lua pode iluminar a noite na floresta e nos mostrar as corujas e os pirilampos e assim virarmos homem. Ou seria lobisomem?
Por Raquel C. R. Mariano -
A leitura do ser humano pode ser feita por diferentes ópticas, isso se aplicou tanto para Freud quanto para Klein, ambos psicanalistas de fundamental importância e de grande contribuição para o desenvolvimento da psicanálise. Freud, acreditava que o Complexo de Édipo tinha início próximo dos 4-5 anos, que o superego era herdeiro desse complexo e o núcleo do seu trabalho era fundamentado na sexualidade infantil, enquanto para Melanie Klein, o Complexo de Édipo tinha início muito mais cedo, por volta de 1 ano e 6 meses, 2 anos, o núcleo do seu trabalho era genuinamente a inveja e o superego já existia muito antes que o Freudiano.
Na análise de crianças, Klein percebeu que o superego era formado muito antes do complexo de édipo, que ele era extremamente rígido, cruel, primitivo e por isso, a criança acabava desenvolvendo a culpa e ansiedade muito cedo, diferente de Freud, onde, o superego é herdeiro do Complexo de Édipo e a compreensão de moral, culpa iniciava a partir daí.
Klein acreditava e provou que era possível atender crianças, que elas eram passíveis de serem analisadas e não somente educadas, como Freud pontuava, Klein enfatiza a importância da figura feminina em sua teoria, enquanto Freud dava maior ênfase na figura masculina. Para Klein as relações eram objetais, enquanto para Freud, eram transferenciais.
Klein percebeu que no processo do brincar analítico, a criança representa papéis, se identifica com diversos personagens, expressa sua realidade interna, suas experiências emocionais, suas fantasias, o que auxilia o analista a compreender o mundo interno da criança sem tantas defesas, pois o inconsciente da criança é mais acessível que o do adulto.
Uma outra diferença importante a salientar na diferença entre as teorias kleinianas e freudianas é que Klein abre espaço para a clínica das psicoses, enquanto Freud dava ênfase às neuroses. Quando Klein trabalha com as relações objetais e mecanismos de defesa, percebe que a criança possui um funcionamento mais próximo do psicótico, pois ela é mais concreta e não diferencia as coisas.
Frente a tantas diferenças, o Complexo de Édipo, também não poderia ser igual.
Para Klein, o desenvolvimento inicial e a conclusão do complexo de édipo masculino passa pela fase oral, anal e genital, onde o objetivo é a penetração, é a posse do pênis. A posição libidinal e seu objetivo se mantém, assim como o objeto amoroso. Já para as meninas o desenvolvimento é um pouco diferente, inicia-se na fase oral, passa para a genital, muda a posição libidinal e seu mantém seu objetivo, o que leva à frustração frente à mãe. A menina vai desenvolver reciprocidade ao pênis e o pai será seu objeto de amor.
Para Klein, quanto mais cruel for o superego, mais medo o menino terá de ser castrado pelo pai e mais força esse usará para fugir dos seus impulsos genitais e mais fragilizado ficará sua estrutura egóica.
No complexo de édipo kleiniano, há a fase da feminilidade, onde a ansiedade está relacionada ao útero da mãe e ao pênis do pai, isto é, o menino acredita que o útero da mãe pode devorá-lo, mutilá-lo e o pai castrá-lo, então condensa a imagem do pai e da mãe juntos, como se eles fossem um só, e denomina-se pais combinados. O menino teme a mãe e o pai juntos.
O menino deseja a capacidade de ter bebês, assim como a mãe, se identifica com a mãe, mas como percebe que é diferente, que tem um pênis e que a mãe não tem, precisa recalcar o desejo de ser igual a ela e identifica-se com o pai. A inveja infantil do filho menino será solucionada quando encontrar uma esposa e puder ser pai.
A menina, num primeiro momento identifica-se com a mãe, percebe-se como ela, mas que para fazer bebê, precisa de um pênis. Então identifica-se com a mãe e acredita que assim tem o pênis do pai, porém, este a recusa. Nesse momento, a menina passa pela segunda frustração da vida dela, onde a primeira foi o desmame e agora, a rejeição do pai. Sendo assim, a menina acaba fazendo alguns ataques sádicos à mãe e busca ter um marido para que ela possa ter um filho.
Já para Freud, o menino apaixona-se pela mãe e vê o pai como seu rival, e deseja mata-lo para ficar com a mãe. Como o filho percebe que o pai é mais forte que ele e teme ser castrado, abandona a mãe, identifica-se com o pai e busca outra mulher que substitua a mãe. Já a menina, na fase I, apaixona-se pela mãe, acredita que ela lhe dará um pênis, mas como isso não ocorre, culpa a mãe por não ter lhe dado, mas como a mãe é possuidora desse pai, logo ela possui um pênis, então inicia-se a rivalidade entre mãe e filha e o início da fase II desse complexo, onde abandona o investimento pela mãe e passa esse ao pai, que lhe nega o amor, então identifica-se com a mãe e busca na maternidade a completude do falo.
Por Willian Fausto Lourenço -
No início da teoria metapsicológica de abordagem do inconsciente (a primeira tópica), Freud compreendia o aparato psíquico conformado por três áreas topográficas (modelo territorial): 1. Consciência: lugar de memórias e emoções atuais, onde se “toma” decisões estando em contato direto com o mundo externo; 2. pré-consciente: lugar de conteúdos ora conscientes ora inconscientes, como por exemplo muitas das memórias que mencionamos antes, pois só se fará consciente quando necessário for e logo voltará a ser inconsciente; e 3. Inconsciente: a princípio, o que não é capaz de ser consciente.
Depois, Freud entende o inconsciente como sede do reprimido onde parte dele poderá vir para a consciência de maneira disfarçada.
De modo sintético, nessa primeira tópica, Freud postulava que conteúdos reprimidos ao inconsciente foram resultado de uma cena traumática, geralmente um abuso incestuoso, e/ou por desejos em relação às figuras parentais. Além disso, o inconsciente na primeira tópica é o reprimido da consciência para o inconsciente e exige um gasto constante de energia (a censura) para mantê-lo inconsciente.
Ao passo que seus estudos foram sendo aprimorados e noções de fantasia, desejo sexual da criança em relação aos pais, sonhos, transferências, resistência, entre outros, novos aspectos foram agregados à teoria. Assim que, Freud obteve outras compreensões do conteúdo inconsciente colocando o ponto central do reprimido nos complexos de castração e de Édipo. A partir dessa concepção, vai-se conformando a segunda tópica do aparato psíquico como um funcionamento mais dinâmico e não tão geográfico como na primeira tópica. A grandes pinceladas, na segunda tópica o aparato psíquico é visto como qualidade e não como lugar.
Ademais, mesmo não abandonando por completo a primeira tópica, Freud reformula sua teoria subdividindo o aparelho psíquico em instancias dinâmicas que se interagem: o Eu, o Supereu e o Isso (ou Ego, superego, id). Não será preciso caracterizar e discorrer sobre estas instâncias porque já foi feito em trabalhos anteriores. No entanto, para compreender as proposições da segunda tópica, é necessário irmos ao famigerado complexo de Édipo.
No início da formação psíquica, tanto o menino quanto a menina têm como objeto de amor a mãe e ambos se percebem sem sexo pois as zonas erógenas ainda não estão entendidas como órgão sexual. Com o passar do tempo, o menino percebe que a menina não tem o pênis que ele tem; e a menina, a sua vez, se dá conta que o menino tem pênis e ela não. O menino lida com o horror da possibilidade de ser castrado pois a menina já foi; e a menina com a fantasia de que o seu pênis crescerá.
Em algum momento o objeto de amor toma novos direcionamentos. O menino duela com o pai pelo amor da mãe, mas percebe que o pai tem um pênis maior e mais poderoso que o seu. A menina rivaliza com a mãe e deseja o amor do pai pois esse sim poderá dar o pênis que ela não tem. Resumidamente, a menina tem inveja do pênis e se vê castrada e o menino tem medo de ser castrado.
Todo esse movimento é chamado de complexo de castração (medo de ser castrado no menino e se perceber castrada na menina) e complexo de Édipo (menina deseja o pai que lhe dará o pênis faltante e o menino deseja a mãe mesmo com medo de perder o pênis que tem).
O complexo de Édipo é dissolvido no menino quando o medo de ser castrado é eliminado ao entender que não deve seguir desejando a mãe pois esse desejo é o que poderá leva-lo à castração. De maneira distinta, a menina é introduzida no complexo de Édipo pelo complexo de castração (sabe que perdeu o pênis e vai atrás do pai). No entanto, quando o menino entende que não perderá o pênis e a menina aceita que nela não vai crescer, o complexo de Édipo se dissolve. Embora Freud não deixa o complexo de Édipo totalmente resolvido na menina pois ele acredita que só realmente dissolverá quando ela tiver o filho que o pai não lhe deu. Ou seja, a maternidade é o fim do Édipo da menina.
Como estamos falando a partir da estrutura psíquica neurótica, é necessário ressaltar que os desejos em relação às figuras parentais que deverão ser reprimidos pois são desejos incestuosos como dita nossa cultura. Para que isso aconteça o pai, como função ou pessoa física, agirá de maneira a fazer-se entender que é impossível desejar o pai ou a mãe. Se instaura a noção de lei moral e os desejos presentes no complexo de Édipo são reprimidos. Essa repressão conforma uma instância do aparelho psíquico que tem parte conscientes e inconscientes: o Superego. Como já vimos, o superego se forma de maneira distinta no menino e na menina porque é o resultado do complexo de castração e do complexo de Édipo. Em poucas palavras e teoricamente, os complexos mencionados vão garantir a introjeção de leis morais e códigos narrativos estabelecidos pela sociedade onde as crianças nascem. Embora todas essas vivências sexuais infantis são reprimidas sempre aparecerão de maneira disfarçada na vida, escolhas e comportamento repetitivo do neurótico.
Como vimos, o centro de toda teoria psicanalítica e formação neurótica para Freud na segunda tópica afasta-se de um trauma infantil e é deslocado para um complexo incestuoso estando totalmente conformada ao redor do pênis, bem como, sua presença ou ausência. Outra importância que Freud dá são aos sentimentos de insatisfação, rebelião à ordem biológica e social, ambivalências como amor-ódio e prazer-desprazer, vingança, disputa, frustração, medo de perder, rivalidade que são experimentados já em tenra idade. O complexo de Édipo é uma espécie de fracasso por não obter as figuras desejadas e êxito pela formação do superego.
Um outro tema, sempre presente na obra Freudiana, é a noção de perversão como toda prática sexual que não cumpre a ordem biológica do coito realizado entre homem e mulher rechaçando assim a fidelidade à copulação. De aí nasce as perversões com base no narcisismo infantil e seus desdobramentos: masoquismo, sadismo e sadomasoquismo. Curioso que ao evoluir em sua teoria, Freud, nos artigos finais, já começa a admitir uma certa normalidade na perversão. Um exemplo é o fetichismo, uma organização sexual na qual a satisfação só é possível na presença e uso de um outro objeto. Freud encara esta possibilidade como um substituto do pênis que falta na mãe pelo homem e como recusa à castração biológica pela mulher.
Para finalizar, percebo Freud, nesse momento, fazendo uma separação entre a noção de sexual, mais ligado à sexualidade infantil e os seus movimentos libidinais já relados, e sexualidade, sentido mais amplo admitindo-a como parte do funcionamento do próprio aparelho psíquico a partir do princípio de prazer. Nessa nova ordem de pensamentos em gestação, o que se refere ao sexual é tido como uma tensão dentro do aparelho psíquico em busca de satisfação ou diminuição da excitação. Desta maneira, estamos no campo da pulsão de morte relacionada à descarga de tensões com intenção de eliminá-la completamente (isso como ideal, pois a descarga da excitação nunca será completa ou eliminada). Evidente que a sexualidade dentro dessas tensões e descargas está concatenada com os destinos da pulsão de morte que tende à eliminação total dessa excitação seja dentro do complexo de Édipo ou nas experiências de descargas pulsionais post-Édipo ao longo da vida.
Por Dr. Emir Tomazelli -
O trabalho com pessoas em crise, bloqueadas em casa por determinação do Poder Público, para que se evite ao máximo a disseminação do covid19 e o sistema hospitalar não colapse, fez ficar bem evidente certos tipos de emoção e certos tipos de sintoma que costumeiramente passam despercebidos.
Estes sintomas são comuns ao homem do dia-a-dia em sua indetenível aceleração, e minimizam os danos da complexa condução dos seus fazeres necessários à sua sobrevivência, tanto quanto aos cuidados de sua angústia. Mas cobram seu preço em loucura. Ou seja, há fazeres que encobrem manifestações patológicas transformando-as em hábitos que, infelizmente, escondem angústias, sabidamente problemáticas, há muito observadas pelos psicanalistas, e denominadas de angústias psicóticas.
Todos sabem que agir é uma benção. Mesmo porque pensar2 é penoso. A ação descarrega, o pensamento carrega, pesa, exige, mesmo que depois de tudo seja a única solução madura para quem tem que aceitar que ter um psíquico é uma tarefa sem solução, e que esta tarefa exige treino e tempo.
A angústia da inação, agora, é associada a uma angústia determinada pelo governo. Esta é não só resultante de uma apatia diante da vida (como acontece nas melancolias), mas resultante também de um compromisso com a solidariedade que se exige de todos nós esforços duríssimos quando os que governam não sabem o que fazer.
Seja como for, não agir é uma angústia, é um tipo de abatimento pela privação de ação significativa que pode esclarecer e iluminar o quanto precisamos do nosso corpo e de nossa inteligência para descansar mente e coração, tanto quanto para alimentá-los.
Num certo sentido somos o que fazemos, somos o resultado de nossas práticas, de nossos atos e, para pensarmos, dependemos do corpo, naquilo que, o agir ajuda a mitigar, ajuda a medicar a angústia elevada, que precisa do remédio derivado estritamente do fazer, do “trabalhar”, do estar ligado e concentrado no executar que tem um fim e um sentido – um para quê.
Não se costuma observar, mas tudo na mente está organizado para resolver a repetição pulsional, e tirá-la da monotonia da pressão que busca a descarga de qualquer modo. Porém, como carecemos de instintos que ofereçam “paterns” de ações prontas que nos indiquem para que direção ir; a pulsão, motor que nos empurra para todos os lados, exerce apenas uma exigência: descarrega-me. E, para isto, precisamos construir um eu que faça o papel de conduzir.
Por sua vez, essa descarga passa por um processo de decantação que exige trabalho contínuo do aparelho psicossomático. Mas o processo todo, como acabo de dizer, precisa de um guia, precisa de esteios, precisa de convenções. Como está claro que não temos esse guia, ele deve ser construído por tudo que lhe possa oferecer forma e sentido. As terapias ajudam a fazermos isso. Desnecessário dizer que sem guia interno, a descarga é sem direção, e colapsa o sujeito possível de se manifestar, pois o leva à produção de sintomas.
Esse guia, é, em parte, ligado ao agir, ao aprender e à capacidade para compreender o que se está vivendo. O agir que é regido pela descarga de tensão excessiva é só um agir louco. O que se necessita é a construção de uma ordem. É necessário que se crie um campo organizado de tal forma que seja um sistema que, espontaneamente cuide de suprir demanda e buscar solução que a alivie. Uma mente imatura evita o pensamento, e o faz agindo, ainda não mostra sinais de haver aprendido da experiência. Executa um ato automático, não usa categorias e sim reações sem inteligência. Se usar pensamento vai ter que compreender que este último envolve que o psíquico se torne um centro de digestão do estímulo, e que seja capaz de sentir dor mental para poder constituir ações ligadas à realidade e ao senso comum.
Mesmo que Marx acentue o problema do trabalho como exploração do homem pelo homem – do que não duvido, e, menos ainda, discordo -, o que está em jogo, do ponto de vista da psicanálise, é que, sem a ação disciplinada e organizada no cotidiano, o que resulta do viver repetitivo é dispersão de atos sem direção, extremamente perigosos, principalmente porque serão atos formalizados mesmo que não tenham propósito.
Socialmente isso pode se traduzir em abuso ou em desastre humano. Por isso, teríamos de pensar que disciplina, concentração e ação são caminhos de vida, são sentidos de direção, e não se pode construí-los em plataformas não éticas. O ‘cuidado com’ e o ‘cuidado do’ outro exige muito de todos nós. Sem isso, não haverá mundo dito humano. Mesmo que se considere seriamente que essa rede possa se formar de modo coletivo e inconsciente, ainda assim devemos formalizá-la conscientemente.
Construção de laços entre nós, mesmo que tenhamos capacidade para tê-los, desde bebês, sem precisarmos de aprendizado para isso, ainda assim se necessita construir um senso de similaridade, um senso de empatia que indica que, juntos, podemos nos proteger de nossa própria dispersão quando estamos em estado de massa! Coletividade sem direção é manobrável pelo uso da estupidez e por machos alfa que são estúpidos, uma vez que só sabem transformar a ignorância em ato de violência. O estúpido não tem curiosidade, não formula conhecimento. O medo, se bem guiado por um líder psicótico - que é estúpido, mas não é burro - se transforma em força para sustentar qualquer ação de ódio. É por esta razão que as dificuldades de aprendizado, em qualquer nível que se fale, são, frequentemente, vistas e transformadas em atos de brutalidade. Não existe só a burrice ou a limitação para aprender e compreender, há, isto sim, um desejo profundo e arraigado em nós, que é o desejo de ignorar e o de servir sem ter que pensar.
É, exatamente, nessa capacidade(?) de agir sem propósito, que reside a tragédia do homem. É esta a base emocional de qualquer um de nós. Este é o mal-estar, a angústia sem ligação a objetos e ações. Este estado primário é o mesmo que uma bomba relógio armada, cujo ‘timer’ decide quando dispara, e só dispara num momento desconhecido, e por fato inesperado.
Façamos, agora, uma brevíssima distinção entre agir e atuar.
Ação e atuação, para a psicanálise, são expressões diferentes, que envolvem estados mentais qualitativamente diferentes. Pertencem, no entanto, ao campo das possibilidades humanas, principalmente quando somos convocados a fazer frente a estímulos - vindos do mundo - e às pulsões - vindas de dentro. A ação é pensamento; a atuação (acting out) é ato que escapa, é a impulsividade, é a automaticidade sem relações que se liguem aos fatos, à verdade ou ao conhecimento.
Esse é o ponto que me interessa.
Sem agir, o dia se abre para uma angustia que depende e demanda ação, e sem ação ninguém acalma o impulso. E sem ação não há como pensar os pensamentos baseados na realidade. Sem ação ninguém reduz o pulso! Ninguém pega o compasso! Ninguém sintoniza.
Um impulso que possa se transferir para o universo do agir, precisa poder ser experimentado de um modo minimamente seguro. Isto exige a presença de cultura humana e liberdade para encenar no âmbito social. Por isso há que se constituir um espaço onde caiba homem e pensamento, e ação inteligente, e onde se construa uma temporalidade que torne possível de se observar o quanto de continência cada humano exige para poder vir a ser. E essa continência só pode vir de uma comunidade, de uma coletividade, uma vez que são estes territórios que garantem o mundo onde um eu se publica, e se garante vivo em sua teatralização expressiva.
Junto a isso também teríamos que expandir esse campo que faz do ato – pura descarga - um agir – pensamento/corpo. Esta passagem implica na complicada confecção de um território sagrado que possa dar ao ato o seu estatuto de agir, uma vez que se constitui em um campo que poderia ser definido como lúdico - no sentido que Huizinga dá ao termo, em seu livro Homo Ludens.
Ainda assim, esse ato precisa ser repetitivo e suficientemente simples e seguro para que possa ser feito sem pensar, por todos que necessitarem dele. O agir que o confinamento detém é esse, esse que é o agir que é pensar, e que também é algo que ajuda a conter o estado ansioso. Este é o agir que pode nos conter e nos dar uma chance de não passar ao ato sem mediação ética ou moral. Não se pode parar o movimento do homem vivo. E ponto. Porém, é necessário fazê-lo ser um agir que é cabível no interior dessas linhas imaginárias que chamamos de território lúdico.
Não é a calma que nos acalma, não é só o sono que nos descansa e refaz. São nossos envoltórios que nos dão continência, e, É A CONTINÊNCIA QUE NOS ACALMA. E, por favor, anotem: agir pode ser a solução de quase todas as coisas, mas, cuidado, ele pode se transformar no maior perigo que nos ronda, porque pode nos levar - e certamente leva - à submissão a comandos de ação inconscientes, autoritário e cruéis. E isto por sua vez leva a um tipo de obediência a esses comandos, dando vazão a atos violentos, que não passaram pelo pensamento, nem pela humanização.
É necessário que seja uma ação que nos leve à solução da turbulência que nossa experiência de ansiedade gera. É necessário que se crie um continente e um ritmo, já que não vimos internamente com um programa que nos imponha um hábito, um sentido e uma direção. Não sabemos para onde ir, só podemos construir uma disciplina quando nos falta direção. E é dela que dependemos.
Alerto, claro, não sou ingênuo: os guias que dissolvem as angústias diárias dão brecha, lógico, ao oportunismo estúpido dos homens estúpidos que tendem uns a mandar, e outros a obedecer. Como quando juntos somos manada, e, infelizmente, por isso precisamos ser guiados por líderes que beiram a estupidez, como Freud esclareceu em O Mal Estar na Civilização.
Não são os homens éticos que nos guiam. Somos guiados por estúpidos, que aceitamos nos liderar. Eles usam nossas formações primitivas e rudimentares de encarar a realidade, e usam das formas rudimentares de julgamento sobre nós – formas que não respeitam a realidade comum, quebrando nosso contato com o mundo – e fazem de nosso agir cognitivo um mar de lama. Ou seja, onde se poderia buscar os gestos mais complexos para diminuir angústias violentas com ações produtivas, encontramos dejetos escatológicos. Pois, em nossa urgência e ânsia de nos livrarmos de angústia, nos livramos também de inteligência.
Por outro lado, e para nosso espanto, também se observa que a desaceleração gera uma aceleração perturbadora e angustiante, e impede que o pensamento (dor necessária) seja usado para guiar o fazer e transformar-se em ferramenta capaz de conter a angústia fantasiada, buscando uma ação possível, e que corresponda a uma tentativa de solução do problema pelas vias que a cultura nos oferece e valida.
Outro aspecto que gostaria de marcar é que, o excesso de informação desinforma e gera angústia desnecessária, e movimento inútil, impedindo o pensar, suscitando um processo curioso que é a transformação de angústia em loucura. O desespero ansioso está para além daquilo que somos capazes de elaborar. O mundo previsto, antecipado por índices, todos baseados em informações e fatos de fontes seguras, torna-se um impeditivo da capacidade de ver vida além do presente que promete futuro avassalador. Desse modo, o único que criamos é um tipo de futuro que é apenas a continuidade lógica de um raciocínio que não inclui a surpresa como um elemento possível dentro das chances abertas.
O medo do invisível presente está além daquilo que somos capazes de elaborar sem ficar loucos, porque muitas vezes a experiência de saber gera um tipo de desespero. Somos incapazes de lidar com categorias ausentes e criadas em um lugar sem tempo e sem fato a observar. Não sabemos o que fazer diante dos objetos microscópicos, sem presença sensível. A mente sobrecarregada de fatos é medo. Hipóteses enlouquecem os homens que não estejam preparados para lidar com não coisas e não fatos.
Acrescente-se a isso o medo de si e da própria mente. E acrescente-se que isto venha a gerar aflição quando impedida de sonho e movimento. Não sabemos o que fazer se não estivermos em um mundo mais calmo, menos aflitivo, menos agressivo. A vida humana não sobrevive à própria tensão que produz quando antecipa o que desconhece. E quando vive em uma comunidade que não sabe o que é o cuidar de todos, sem afligi-los. Sem zelo profundo e hospitalidade, não haverá nada que nos acolha. Necessitamos de muito mais, precisamos viver em um lugar onde não estejamos com medo. Se a calma é dificultada por não podermos formular fantasia de esperança e a ilusão, necessárias para dar suporte ao sem sentido do cotidiano, anódino e sem promessa, a vida acaba porque vira em desespero psicótico.
A vida viva depende do movimento, e a capacidade de desenvolvimento de cada um depende do sonho de cada um. Parados estamos mortos. Portanto não atue, aja! Proteja-se do nada, labore.
São Paulo, 03 de junho de 2020
1-Psicólogo e Psicanalista, mestre e doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Há 45 anos atua na área clínica em Consultório no Brooklin, Sp. Autor de livros de psicanálise e referência acadêmica.
2-Uso a palavra pensamento de modo a não confundir com a palavra imaginação. Pensamento não é a imaginação.
Por Willian Fausto Lourenço -
A partir da descoberta do inconsciente e sua influência na vida psíquica e comportamental do sujeito, Freud desenvolve teoria e técnica para conhecer este universo desconhecido e chamou essa abordagem de psicanálise. Para Freud, existe um conteúdo manifesto e outro latente, esse último era o que mais o interessava, porém, era exposto pelo paciente de maneira disfarçada (sonhos, ato falho, sintomas, transferências, chistes) e provinha de vivências reprimidas pelo sujeito.
Nessa fase da técnica, Freud acolhia o que o paciente trazia (o que lhe vinha à mente – atenção flutuante) para, por meio da associação livre, interpretar o conteúdo e, supostamente, conhecer o inconsciente do paciente permitindo assim, que ele elabore e entenda suas questões neuróticas apresentadas. É bom dizer, que Freud já reconhecia limitações em sua técnica.
Sabemos que Freud entende o funcionamento mental a partir de três estruturas possíveis: a neurótica, a psicótica e a perversa. Focaremos nesse trabalho a neurose como principal mecanismo de defesa do que foi reprimido. Nesse modo de estruturar o inconsciente, Freud põe em evidência na sua técnica elementos valiosos como: a figura do pai e da mãe e a sexualidade infantil; o ter ou não um pênis e seus desdobramentos para a menina e o menino; os desejos em relação ao pai e a mãe que foram reprimidos e podem retornar como hostilidade, ódio, raiva, disputa, transferência; bem como o desejo da morte e da destruição dessas figuras parentais que também podem ser reeditadas na fase adulta; do mesmo modo, o papel da castração, as disputas amorosas libidinosas na infância e todos os seus conflitos que também são passiveis de serem revividos pelo sujeito em diversos âmbitos de sua vida, nos sonhos, sintomas e sentimentos ora opostos ora deslocados como já se pode deduzir.
Um dos casos famosos de Freud é o homem dos ratos. Um tratamento que durou mais ou menos um ano com um rapaz que apresentava impulsos obsessivos. Seus sintomas e práticas eram: ideia de que seus pais sabiam o que ele pensava, horror ao prazer, sentimento de punição e medo do pai, incapacidade para o trabalho, recriminação do desejo (inclusive o de eliminar o pai), disputa amorosa com o pai.
Nesse caso há muitos avances na técnica de abordagem do inconsciente como: permitir que o paciente diga o que vem à mente e escolha a ordem dos fatos a serem relatados, os conflitos sentimentais como amor-ódio, a percepção das resistências em relação ao tratamento. Por outro lado, o analista se colocou no lugar do detentor do saber: para tudo havia explicação teórica incestuosa; o diagnóstico dado que estigmatizava o caminho da terapia não permitia ampliar possibilidades de intervenção e a mania de completar o que o paciente deveria dizer. Isso pode ter impedido Freud de perceber as fantasias contidas do conteúdo manifesto; os sentimentos invertidos (amor-ódio como deslocamento do afeto); a reedição do complexo de Édipo na atualidade (desejo incestuoso de obter a mãe e matar o pai); a percepção da verdade inconsciente contida nos sentimentos apresentados como o ódio, a vingança, a culpa, o medo, o amor, a raiva. Uma dinâmica importante que Freud deixa a desejar foi a falta atenção à transferência e principalmente na sua contratransferência (filho (paciente)-pai (analista) e pai(analista)-filho(paciente). Hoje sabemos da fundamental importância do tripé teoria-técnica-supervisão para impedir ou amenizar os efeitos da corriqueira contratransferência na clínica.
Outro caso importante no estudo da técnica psicanalítica freudiana é o Homem dos Lobos. Um rapaz de 18 anos com graves sintomas neuróticos como severa depressão, relação insatisfatória com o pai, disputa dessa presença com a irmã, fobias e perversidades, lembranças de cenas sexuais e prazerosas com a irmã outras pessoas, atividade masturbatória na infância e fortes retaliações em relação ao seu pênis, sua exposição ou manipulação.
Nesse caso a técnica utilizada valorizou os sonhos e a cena primária que originou o trauma neurótico. É muito interessante o estudo que Freud faz do caso e suas ligações com os complexos de castração e de Édipo, a importância de trabalhar o triângulo amoroso pai-mãe-filho; como percebe a resistência do paciente, os desencontros e desconexões do relato, as ambivalências presente nos sentimentos e vivências da rejeição, da inveja, do ciúme, do ódio e das disputas; os medos atuais que podem ter origem na castração e suas consequências na fase adulta. Mas outra vez há situações questionáveis e limitantes: a crença de que um sonho na infância iria ser recordado tal qual pelo adulto (não lembramos do sonho de ontem, imagina o de 12 anos atrás), a necessidade de explicar tudo para o paciente (analista que sabe tudo) e encontrar uma razão apenas no complexo de Édipo e de castração impedido de perceber o sadomasoquismo presente na relação paciente-analista, as fantasias do pacienta, a reedição dos afetos na atualidade inclusive na clínica e as vivências dramáticas e atuais do paciente que podem propiciar sintomas tão importantes quanto os que estão no passado real ou não.
Uma questão interessante a dizer e valorizar foi o esforço de Freud de dar um lugar à psicanálise. Assim, ele a desvincula da medicina priorizando à fala e a escuta do paciente tão válidas quanto medidas farmacológicas: o sujeito, por muito repetir, necessita recordar e elaborar para trabalhar outros campos que podem resultar em enfermidades (o psicossomático).
Outro ponto interessante é que Freud abre a psicanálise a leigos contanto que passe por formação séria e esteja sendo analisado. De uma vez por todas, ele desvincula a psicanálise da medicina. Nessa fase, Freud já está ampliando a teoria e suas consequências na técnica: Ego, Id e superego, a diferença dos complexos de castração e édipo entre meninos e meninas e a somatização de sintomas relacionados a dores psíquicas (o desejo reprimido).
Nessa ordem de ideias, sobre o tempo ou o término de uma análise, Freud diz que deve ser terminada quando o sujeito for capaz de trabalhar bem e amar, e o fim da análise se dá quando os dois envolvidos não se encontram mais. Porém, ele deixa em aberto o debate de outras possibilidades: o sujeito pode sofrer outro trauma e necessitar se analisar outra vez, outros conteúdos do mundo psíquico podem aparecer e o sujeito não saber lidar com isso, situações como luto, perdas e circunstâncias de diversas ordens podem acometer o sujeito e ele se vê necessitado de rever seus sentimentos, comportamentos e modo de colocar-se no mundo. Sou partidário de que sempre se poderá analisar-se mesmo com intervalos ou temporadas sem análise, porque sempre será possível e necessário rever o mundo interno e tudo o que aí está, afinal estamos manejando o inconsciente e sabemos de sua infinitude de processos. Não sei se a cura total existirá, todavia sempre há algo a ser elaborado e transformado. Por isso gosto de pensar na cura como transformação da dor e possíveis de preenchimento de lacunas existenciais, sentimentais e até inconscientes. Tudo sempre aberto e vulnerável, afinal a vida e o inconsciente sempre poderão nos surpreender.
Como vimos, critiquei as limitações de Freud em relação à comunicação e interpretação tendenciosos dos conteúdos latentes e manifestos trazidos pelo paciente. Há que dizer que o paciente é o único que pode dizer algo. Só ele sonha, senti, fantasia, transfere, sofre. Ele é o detentor da interpretação e do saber. Cabe ao analista ajudá-lo nesse movimento de elaborar seus traumas, medos, conflitos, afetos e sintomas. O que se comunica para o paciente nunca pode ser uma verdade dogmática. É um “como si”. Pois há que saber que a memória do paciente pode estar equivocada, por mais que ele acredite nela e sofra todos os efeitos do que diz e viva. Pertinentemente, que toda construção seja feita em conjunto e que mesmo assim poderá ser falha, parcial ou válida para aquela situação. Sempre haverá possibilidade ou necessidade de rever, retomar, reelaborar e transformar. Pois dentro do sujeito há um saber que ele não quer saber e, coerentemente, tenderá a escondê-lo. Esse lugar de ignorância e não saber tanto do paciente quanto do analista é o que mais nos interessa e fascina.
Por Glaudston Cordeiro de Lima -
Escrever sobre os impactos causados ao ler uma parte da clínica kleiniana é, para mim, acompanhar a originalidade e expansão dos seus conceitos. As pessoas que estudaram sua obra, psicanalistas ou não, são de acordo que é uma obra profícua, ou seja, que contém sementes de desenvolvimento de vários pensamentos.
A participação no grupo de leitura, facilitado pelo psicanalista Marcos Capelli (Psicanalista da EPP), possibilitou a descoberta das contribuições metapsicológicas e técnicas de uma das autoras mais importantes no progresso da psicanálise. Para quem não conhece a autora vale uma rápida biografia. Melanie Klein (1882-1960) psicanalista austríaca, ela marcou a consolidação da psicanálise inglesa.
Seu primeiro contato com a obra freudiana foi em 1916 no congresso de Budapeste. Fez análise com Sándor Ferenczi, e dali passou a ser estimulada a iniciar o atendimento com crianças, contrariando e criticando as ideias de Anna Freud. O grande mérito de Klein foi o de recuperar a soberania dos processos inconscientes, contrapondo-se radicalmente a Anna Freud. A clínica de Klein representa outra forma de fazer a relação entre psicanálise educação; conclui a autora que o tratamento psicanalítico é uma reeducação da capacidade de fantasiar. Ao estudar Klein a neurose infantil passa a ser percebida como uma formação defensiva, ou seja, pode aparecer bem cedo na vida como forma de proteger a criança contra as situações de angústia de traço psicótico. Neste sentido, a criança é colocada no status de indivíduo que pode ser tratada, no sentido psicanalítico, porque vivem em um campo de forças intrapsíquicas em conflito. Por isso, a importância de em 1924 Klein apresentar no VIII Congresso Internacional de Psicanálise o trabalho intitulado “A técnica da Análise de Crianças Pequenas”.
No referido grupo de estudo sobre Klein tratamos de alguns dos trabalhos de Klein dos anos de 1921 a 1945, advertindo que seria impossível dar conta de todos os debates, reflexões e apontamentos que aconteceram em diversos encontros. E por que Klein? Porque ela apresenta o desafio de uma clínica psicanalítica de crianças, ousa rever bases da teoria Freudiana da sexualidade e apresenta as bases para um tipo de tratamento baseado na observação e interpretação das ansiedades, fantasias, defesas e relações de objeto. O seu projeto já inspira a proposta de entrar em contato com a experiência emocional e a importância dos objetos internos, sem esses objetos não podemos viver, ou seja, dão-nos uma arrumação, mesmo que instável. Entre as forças pulsionais e a cadeia de simbolizações, sem esses objetos as pulsões só abririam passagens através da repetição, do acting out e dos enactments (uma espécie de encenação).
No momento, a escolha foi pelo trabalho psicanalítico de Klein apresentado na tese sobre a “psicogênese do tique”, que consolida os resultados clínicos sobre as inibições, tratando-as como expressão do mal estar, mas com possibilidades de modulações. O artigo de referência é o de 1925 “Uma Contribuição a Psicogênese dos Tiques”. A autora descreve dois casos importantes que apontam para o estilo kleiniano. Pode-se intuir que Klein mantém-se na técnica freudiana, e o que isso significa? Significa que seu manejo dos casos aponta para a reconstrução ou restituição do passado, ou seja, trata-se de recuperar o passado reprimido que se instituiu na história dos pacientes. Nesse caso, o inconsciente, em Klein, ainda continuaria a ser o da teoria freudiana baseada no tripé o infantil, o recalcado e o sexual.
Na época, Klein indica que o tique era considerado um sintoma secundário, com a continuidade do tratamento percebeu o papel que desempenhava no desenvolvimento da sexualidade, da neurose e do caráter dos pacientes. Grosso modo, o tique se apresentou como uma forma substituta da masturbação como descarga da ansiedade. Apreende-se que Klein usa o modelo ligado ao complexo e a ansiedade de castração, ansiedade que se instalou na história dos pacientes a partir da observação do coito (cena primária) e, no caso Félix, intensificada com a ablação do prepúcio. Essa intervenção provou uma experiência traumática, já que o menino encontrava-se em idade de clímax da sexualidade infantil. Vale salientar que Freud admite o trauma no segundo tempo, ou seja, na ordem da reminiscência (ordem da inscrição) e não da ordem do fato. O caso Felix é considerado como a primeira análise mais longa (1921-1924, 370 sessões) e profunda, definido por Klein como uma análise que chegou a bom termo.
No desenvolvimento do atendimento de Felix, Klein anuncia que as situações acima descritas produziram a inscrição de um trauma que culminou em situação edipiana invertida, aumento da ansiedade de castração e regressão no desenvolvimento da sexualidade a fase sádico-anal e, ainda maior, para o narcisismo. Parafraseando a autora, pode-se concluir que assim estavam instaladas as condições para a rejeição do mundo externo. Neste sentido, as atividades do mundo externo (jogos, tarefas escolares, a escola, uma cabana e outras) atuavam como objetos das fantasias ligadas ao coito, as ameaças do pai, a tensão sexual, ou seja, havia uma identificação das atividades com as relações sexuais, submetidas à ansiedade de castração. Esse ato da clínica kleiniana passa a acentuar a necessidade de interpretar as fantasias subjacentes nas atividades do mundo externo.
Pode-se observar, na leitura do texto, que todas as atividades na sala de análise ou fora dela passavam a compor uma “constelação” em que algo sempre era semelhante, uma repetição a despeito das variações. Nesse ponto, vala salientar que no modelo kleiniano a escuta psicanalítica se destina aos vértices da “fantasmatização” e da ansiedade. Vértices em que os elementos se repetem através das variações, ou seja, dentro da fantasia há elementos que se repetem em tais variações, culminando na ideia de que a estrutura fundamental do sintoma é a repetição. Essa forma de manejo clínico parece apontar para a futura predileção de Klein pela pulsão de morte ao lidar com o modelo energético de Freud (metapsicologia da economia psíquica). Ouso afirmar que ela passou a considerar a pulsão de morte como a única pulsão, quebrando a divisão pulsão de vida e de morte.
Klein parece ter elaborado na observação das variantes da fantasia uma teoria sobre a gênese das organizações das fantasias como regra da interpretação. Quiçá a tentativa de uma primeira teoria de tratamento psicanalítico baseada na fantasia. Um exemplo no texto é também o caso de Werner, que acentua a importância da “cena primária” e dos processos de identificação com o pai, possibilitando um contraponto a teoria clássica do narcisismo e a consolidação do conceito de fantasia como operador clínico.
Se para Freud sob a batuta do processo secundário há possibilidade de uma operação racional, sem as infiltrações da fantasia, salvo em situações regressivas, Klein aponta para a importância da fantasia na organização da vida mental, conclusão das suas observações e interpretação das fantasias dos pacientes, fantasias que não se infiltram e sim organizam. A criança kleiniana tem uma configuração bastante peculiar. A história da criança é a história da pulsão. Ela é determinada pela quantidade dos instintos de vida e de morte presentes na inveja e no ciúme.
O objeto real externo é contingente, ou seja, não tem nenhum poder de estruturar o psiquismo do sujeito. Assim, Klein indica uma clínica em que a relação com o outro, com a mãe real, é acidental e não estrutural. As fantasias inconscientes já estão presentes na fase mais primitiva da vida. Aliás, essa autora privilegia a dimensão imaginária da fantasia e faz dela o eixo principal em torno do qual giram suas concepções.
Uma (In)conclusão é saber que a única realidade psíquica para Klein é a fantasia. Propõe uma posição imaginária para o objeto mãe. É esse um ponto de crucial diferença de Melanie Klein em relação a Freud, ou seja, a teoria kleiniana se apresenta na centralização do relacionamento de objeto, seja este parcial ou total. Neste sentido, o modelo kleiniano baseia-se em definir o sujeito e sua história a partir dos destinos da relação de objeto.
Por Fernanda Borges Hisaba -
Entrar em contato com as ideias de Melanie Klein tem sido algo fascinante. Perturbador, a um tempo, nos faz mergulhar a fundo em nossas próprias análises pessoais, buscando compreender como se processaram nossas vivências mais arcaicas, que ansiedades nos atravessam, que mecanismos de defesa desenvolvemos, como oscilamos entre mais ou menos integrados, como nos relacionamos com nossos objetos, como nos portamos diante do nosso horror à dependência do outro.
Quanto mais próxima de sua linguagem me sentia, tanto mais condicionada me via a pensar dentro de seus modelos. Porém essa percepção se deu na forma de um estranhamento, que procuro relatar a seguir.
Havíamos concluído o estudo curricular de Melanie Klein na formação de Psicanálise, e estávamos iniciando uma leitura mais aprofundada da autora em nosso grupo de estudos. O momento, então, assim era constituído: investido e entranhado pelos modelos até então estudados, como já dito, com o cérebro condicionado a pensar em termos de ansiedades e defesas, vamos em busca de algo que não está lá. Buscamos Klein, e nos deparamos com Freud. Algo parecia errado; uma dificuldade compartilhada pelo grupo que nos levantou questões, e fez pensar.
Imagino uma Sra. Klein no início dos seus trabalhos, fascinada pela Psicanálise, e Psicanálise, até então, significava Freud, Complexo de Édipo, castração, pulsão de morte, Id, Ego e Superego. Teorias e modelos desenvolvidos em quase 30 anos haviam despertado o interesse daquela mulher. Percebe-se, então, uma Melanie Klein que procurava comprovar em suas observações e análises de crianças a existência concreta da criança imaginada por seu antecessor. Seus pensamentos são recheados de fantasias infantis nas quais procura identificar a libido sexual direcionada aos genitores, e percebe-se uma tentativa de adequação que não se pode dizer tão bem-sucedida. Klein começa a notar, num terreno somente imaginado mas não vivido efetivamente por Freud, algo que escapara a esse imaginário do mestre. Capta em seus pequenos pacientes intensidade, ansiedades e angústias em uma época da vida em que ainda não eram concebidas. Klein germina em terras freudianas, mas nascem divergências as quais ela, por muito tempo, procura negar. E neste momento nos encontramos. No cerne da luta entre o sabido e o percebido, inexplicável. Há que se ampliar os modelos, há que se encontrar novas bases teóricas para fundamentar suas observações.
Esse desconforto agora encontra explicação em algo apontado por Bion. Fui buscar algo que já sabia existir no contexto kleiniano, e quando a realização dessa pré-concepção foi negativa, houve uma frustração, à qual me apeguei por semanas. Aprender a tolerar essa frustração tem sido difícil, assim como imagino que tenha sido para Klein lidar com a frustração de encontrar, na prática clínica, elementos que não esperava, que divergiam daquilo que ela buscava. Interessantes os movimentos para negar essa frustração, até que, sustentada, permitiu a construção de um novo conhecimento, e essa construção, desde os primórdios, acompanhamos agora.
Procuro guardar essa experiência como representante daquilo que ainda precisa ser desenvolvido na configuração da analista que me proponho a ser. Procurar abandonar o desejo de encontrar algo que já sei, e me manter aberta para vislumbrar o que pode ser. Lutar contar a ânsia de compreensão, e a dor que advém do seu não encontro. Procurar digerir, decompor e criar pensamentos a partir do que foi metabolizado. Se pensar esse estranhamento me levou a hipotetizar sobre o contexto kleiniano, com certeza me trouxe percepções sobre mim mesma, e começo a encontrar o valor de todo o processo. Árdua e longa essa nossa tarefa.
Por Willian Fausto Lourenço -
A psicanalítica se sustenta em quatro fundamentos: a existência do inconsciente; a possibilidade de explorar o inconsciente; se dispõem de um aparato técnico que permite a realização de tal exploração; e que o inconsciente é infinito, atemporal, incognoscível e sem contradição.
Igualmente, para Freud, o inconsciente é a sede das pulsões e está composto pelo material reprimido advindo de desejos sexuais do sujeito em relação a figuras parentais; por isso mesmo esse conteúdo foi ocultado pois o sujeito não suportaria mantê-lo em instancias consciente.
No inicio de sua teoria, Freud entendia o aparelho psíquico como um lugar topográfico, algo que ocupava espaço dentro da mente humana sendo subdividido em consciente, pré-consciente e inconsciente. Por isso que ele, na clínica analítica, buscava fazer consciente o conteúdo inconsciente. E também, havia a crença de que era possível conhecer o inconsciente, o problema é que ele se manifesta de maneira disfarçada nos sonhos, sintomas, fantasias, ato falhos. Más, neste modelo o inconsciente era o reprimido enquanto o consciente reprimia constantemente o que provinha deste lugar.
Com o passar do tempo, Freud concebe o aparato psíquico mais como um modelo estrutural e o subdivide em Ego, Id e superego. Essas instâncias vivem em uma certa tensão, sendo que este conflito é exatamente o que permite entender seu modo de funcionar. O inconsciente passa a ser entendido a partir do principio de prazer, enquanto o consciente relacionado com o principio de realidade. De igual modo, outra perspectiva é a de que alguns conteúdos que estão no inconsciente não são conteúdos reprimidos e nem tudo que está no inconsciente é reprimido.
O Id se torna o ponto de partida de tudo. Ele é a instância regida pelo princípio de prazer estando ligado à libido, aos impulsos inatos, não conhece a realidade consciente muito menos a ética e a moral. Por fim, o Id é a sede das pulsões, dos desejos e afetos. Ele está marcado por uma dinâmica quase animalesca pois se acerca ao instintivo, ao mais primitivo e arcaico do ser humano não conhecendo a realidade consciente. Mas já sabemos que o ser humano não é apenas regido pelos instintos, há que negociar com a realidade e os desejos e expectativas individuais, coletivos e sociais. Aí entra a importâncias das outras instancias do mundo psíquico do sujeito, Ego e Superego.
O Ego se distingue do Id; na verdade, ele se conforma em oposição ao Id. Assim, o Ego se contacta com a realidade funcionando com base no principio de realidade e sendo construído por identificações. Ou seja, o Ego ao se identificar, torna-se “igual” aos objetos que deram prazer ao Id. Assim, ele define quem é a pessoa sendo uma parte consciente e outra inconsciente. Se pode compreender então, que o Ego tem relação com a realidade, se forma com parte do que vem do Id e do ideal do Eu (uma instancia crítica). Por esse último, o Ego se firma também em um ideal de perfeição, espécie de nirvana onde tudo voltará a ser como antes, talvez como foi na vida uterina.
O superego nasce das pulsões de vida e de morte e é o herdeiro da castração ocorrida no complexo de Édipo. Então ele é constituído pelo sentimento de culpa inconsciente e se mostra em performances relacionadas à imposição da lei. O superego tem um caráter inibidor, impositor, moral, atuando a partir de leis herdadas do grupo, valores e modo de atuar.
O Ego é o mediador entre o Id e o Superego. Nem tanto prazer sem limites, nem tanto dever; nem muita culpa, nem muito pecado. Há que encontrar um ponto de equilíbrio para não enlouquecer e atuar de maneira possível e aceitável à vida psíquica e à vida com os outros. O Ego é responsável por fazer este diálogo, então.
Outro tema que nos importa que já tocamos de maneira superficial, é a importância do complexo de Édipo na formação do Ego e do Superego. O menino que deseja a mãe e rivaliza com o pai e tem vontade de elimina-lo e ao se deparar com a castração, abandona a mãe e identifica-se com o pai. A menina, a princípio, desenvolve amor pela mãe, acredita que ela lhe vai dar um pênis, mas chega a ponto de culpa-la por não ter tal órgão. Ela entra em rivalidade com a mãe por acreditar que ela, por estar com o pai, tem também tem um pênis. Ao abandonar a mãe, a menina buscará o amor do pai através do pênis que receberá, o pai nega esse amor e a obriga a identificar-se com ele.
Todo esse processo é internalizado e as instancias Ego e superego são formadas, afinal não é possível desejar tudo e obter tudo o que se deseja (id). Se pode dizer que a formação do Ego, Superego e Id e suas implicações já ditas, permite (de maneira simbólica) a introjeção dos pais que viverão inconscientemente dentro de cada ser humano.
O incesto de desejar os pais e a vontade de mata-los por não os ter, permitirão a formação do senso moral, das ideias de certo ou errado, permitido e não permitido, aceito e não aceito. O sujeito aprenderá, pela culpa inconsciente e pela lei estabelecida, que há um mundo externo e que para nele viver será necessário obedecer a princípios, códigos de convivência e ordens para assim dialogar com desejos pessoais, com desejos do outro, da sociedade e todas as expectativas morais e éticas que de aí nascem.
Por Dr. Emir Tomazelli -
Nesses 45 anos de clínica, não é a primeira vez que observo a íntima relação que se estabelece entre a morte e o amansamento da experiência interna de desespero e de rompimento afetivo. Mais uma vez ela, a morte, faz seu apontamento e com ele faz seu bem, re-despertando o amor em nós, pela via da ameaça da vida.
A morte desperta o além de mim. Desperta o futuro de minha vida, e indica que há um lugar onde eu ainda estou inscrito enquanto presença, mesmo que seja apenas como um projeto, uma fantasia, uma ilusão.
Não é a primeira vez que observo que essa sombra da morte rondando – sinto no cotidiano esse voo áspero de asas negras batendo ao redor – não só apresenta o anjo da morte, como também apresenta a força de recolhimento que temos diante dele, esse lindo anjo. (Nem sempre a beleza nos salva!)
Penso que seja por isso que nosso padecer futuro é abrigado em minha hospitalidade, quando o hóspede se apresenta à minha porta. E, a hospitalidade, em sua face mais dolorida, deriva desse receio: temos que acolher o outro não porque exista uma norma social para isso, mas porque o receio é uma recordação, uma reminiscência de um momento futuro possível em nossas vidas, porque inúmeros egos nos legaram o medo da morte que lhes permitiu o sentido necessário da vida.
A hospitalidade é uma recordação que temos do homem passando pelos tempos da vida e deixando um enorme rastro de acolhimento efetivo diante de toda incerteza vivida, porque o que está ali no desamparo pode ser o nosso ser a qualquer momento.
Margareth Mead2 define como o ponto crucial do início da humanidade aquele momento em que se achou, se teve acesso arqueológico ao primeiro osso humano que se reabilitou após fratura, isto é, para que alguém que tenha sido perigosamente ferido manter-se vivo, alguém cuidou desse alguém de modo a que ele tivesse o tempo necessário para voltar a cuidar de si novamente. E isto é o que faz toda a diferença. Não somos um animal social, somos um animal que necessita de cuidado para manter-se vivo por mais tempo. É por esta razão que nos dirigimos ao outro. Temos consciência de nossa fragilidade, intuímos que a solidão para ser apreendida, tem-se que estar acompanhado por alguém. É só junto que um pode se sentir verdadeiramente só. O algoritmo da economia e da política é o do abandono, é o do largar alguém à sua própria sorte. E isto é outra história, não há a ideia de cooperação, não há companheirismo.
Por isso que busco trazer a nossa lembrança que a proximidade da morte nos faz bem, principalmente quando entristecemos com ela. Entristecemos dessa tristeza que restaura porque reconhece a perda e aceita a dor do luto. É nesse sentido que a proximidade da morte nos retira do narcisismo, e recupera o homem hospitaleiro e a hospitalidade
Nosso único problema é que, por sermos ainda muito imaturos, temos uma desconfiança essencial que, desafortunadamente, nos obriga a olhar para o outro como ameaça ao eu.
No entanto, posso dizer que a morte quando ronda, próxima, desperta, em alguns, o melhor que esse cada um pode oferecer. Certamente, penso: não é a morte que traz a calma. Mas a morte é, isto sim, um disparador de tristeza, pelo menos naqueles que são capazes de experimentá-la, e é a tristeza aquela emoção que porta o amansamento, de onde brota o gesto amoroso, o acolhimento e o desejo de ofertar algo porque a oferta se torna algo necessário. Isto é: a oferta é aquilo que não pode não ser. Ela é. E ao vir a ser se torna ética, ação direta e objetivação prática.
Me parece curioso que a morte quando faz sua ronda seja capaz de recordar a todos (alguns!) que é bem possível que o amor e a prestação de ajuda a quem necessita seja, ainda, o melhor que temos a dar e que, ainda assim e mesmo assim esse amor, o melhor dele, é oferta-lo graciosamente, isto é, oferta-lo grátis.
Acreditar, ter esperança e fé3, essa é uma trilha por onde quero passar, é a perspectiva que me atrai. E é por esta atração exercida pela aposta, pela busca, pela luta por tudo que seja ainda possível, que fico feliz de estar ligado a um grupo que pensa que nós, como psicanalistas que somos, ainda somos uma das últimas reservas desse produto humano, o cuidado, que nos compete oferece-lo profissionalmente a quem, agora, sente necessidade de nós.
São Paulo, 19 de abril de 2020
1-Psicólogo e Psicanalista, mestre e doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Há 45 anos atua na área clínica em Consultório no Brooklin, Sp. Autor de livros de psicanálise e referência acadêmica.
2-Years ago, anthropologist Margaret Mead was asked by a student what she considered the first sign of civilization in a culture.The student expected Mead to talk about fish hooks or clay pots or grinding stones.But no, Mead said that the first sign of civilization in an ancient culture was a femur (thighbone) that had been broken then healed. Mead explained, that in the animal kingdom, if you break your leg, you die. You can not run from danger, get to the river for a drink or hunt food. You are meat for prowling beasts. No animal survives a broken leg long enough for the bone to heal. A broken femur that has healed is proof that someone has taken time to stay with the person who has fell, has bound up the wound, has carried the person to safety and has tended the person through recovery. ‘Helping someone through difficulty is where civilization starts’ said Mead.We are at our best when we serve others. Be civilized.”
Por Raquel Casonato Rodrigues Mariano -
É sabido que no desenvolvimento de crianças, as noções referentes ao que é um genital, o que é seu, o que é do outro, o igual e o diferente começam a se formar, entretanto, as maiores implicações dessas diferenças e de suas vivencias, vão ser consolidadas no Complexo de Édipo.
Deste modo, é importante compreender que até chegar ao Complexo de Édipo, essas noções ainda não existiam e nada disso estava claro e organizado no universo psíquico infantil. O único conhecimento que a criança tinha, era que para ambos os sexos, só existia um único genital, que era o pênis, onde o dos meninos já estavam desenvolvidos e o das meninas ainda não.
Com o desenvolvimento infantil, essas diferenças foram sendo percebidas e descobriu-se que o pênis não é um órgão comum a todos, que pertence apenas aos meninos e isso trouxe implicações psíquicas tanto para eles quanto para as meninas. A menina inicialmente nega que não tem um pênis, pensa que ele irá crescer, para depois compreender que não tem e assim sente-se castrada e isso traz um sentimento ruim, como se estivesse recebendo um castigo, punição, enquanto para o menino, possuir o pênis, ter um falo, é significado de potência, de superioridade.
Deste modo, a organização genital infantil fica entendida como o masculino e o castrado, onde a mulher inveja o pênis do homem, para só mais tarde falar em feminino e masculino. O homem por possuir um pênis, acaba sendo o sujeito, possuidor do objeto, que no caso seria a mulher, que assumiria uma posição passiva diante da ativa do homem.
Porém, o desenvolvimento da sexualidade acaba não sendo tão simplista, e vivenciando o Complexo de Édipo e suas verdadeiras implicações, essas questões podem se mostrar um pouco mais compreensíveis no Universo Freudiano.
Para compreensão do Complexo de Édipo será feita algumas considerações frente as principais diferenças entre primeira e segunda tópica do aparelho psíquico na teoria freudiana, pois quando falamos do Complexo de Édipo, pensamos em dissolução e não em término, e através da compreensão do funcionamento psíquico, podemos analisar como essa dissolução acontece e suas consequências, tendo uma muito importante que é a formação do Super Ego.
A primeira tópica, faz menção ao modelo topográfico, que consiste em inconsciente, pré consciente e consciente. Nessa tópica o inconsciente abrange o reprimido, sede das pulsões, onde o conteúdo latente se encontra e é movido pelo princípio do prazer, o pré-consciente é separado do inconsciente pela censura, deste modo, os conteúdos inconscientes para tornarem pré-conscientes precisam ser transformados. Já o consciente encontra-se na superfície do aparelho psíquico e está ligado ao mundo externo e interno, tem ligação com o EU, com suas emoções, lembranças que estão no pré-consciente e que é acessível. O conflito desse modelo implica na pulsão que se encontra no inconsciente e a instância da censura, na consciência, e que para ser manifestada precisará passar por formação de compromisso no pré-consciente e ser manifestado de forma deformada através de atos falhos, sintomas, chistes, sonhos, transferências, etc... Através das manifestações do retorno do reprimido é possível trabalhar com esse material na psicanálise, tentando trazer o inconsciente mais próximo da consciência. Já a segunda tópica, Freud trabalha com o modelo estrutural, onde estuda as instâncias psíquicas Id, Ego e Superego, sendo Id, sede das pulsões, fantasias, desejos, afetos, prazer, Ego, uma instância do aparelho psíquico que faz conexão com a realidade interna e externa, sendo ela consciente e inconsciente e o superego, como herdeiro do complexo de édipo e de castração, uma instância crítica, sede da moral e da culpa inconsciente, compreendendo o inconsciente, o consciente e o pré consciente. O conflito desse modelo apresenta-se através das suas representações psíquicas onde a angústia sentida pelo ego traz desprazer, o que o coloca em posição de defesa, fazendo com que a repressão atue e haja formação de sintomas. O sintoma é um representante do reprimido diante do Ego, que por via indireta permite a satisfação pulsional, que é uma satisfação substitutiva deformada e irreconhecível, porém, traz sofrimento, desprazer e angústia. Quando se faz a psicanálise, o indivíduo tem a oportunidade de ter um ego analisável e verificar como este se adapta aos diferentes níveis de conflito, como se manifesta frente aos mecanismos de defesa, podendo assim, olhar se esse ego é integrado, fragmentado e quais são os caminhos que a análise deve percorrer.
O complexo de édipo inicia tanto para a menina quanto para o menino por volta dos 4-5 anos, é vivido individualmente, isto é, todos passam por ele, porém cada um tem sua particularidade. O menino se apaixona pela mãe e vê o pai como seu rival, e deseja matá-lo para ficar com a mãe. Percebe que o pai é mais forte que ele, teme ser castrado pelo pai, então abandona a mãe, identifica-se com o pai e busca outra mulher que substitua a mãe. A menina na fase I se apaixona primeiro pela mãe, acredita que ela lhe dará um pênis, porém como isso não acontece, culpa a mãe por não ter lhe dado e acredita que a mãe sendo possuidora desse pai, logo possui um pênis, então começa o momento da rivalidade entre as duas e o início da fase II desse complexo, onde abandona o investimento pela mãe e passa esse para o pai, que lhe nega o amor, então identifica-se com a mãe e busca na maternidade a completude do falo.
Os investimentos de objeto são abandonados e substituídos por identificação. A autoridade parental introduzida no EU (EGO), forma o núcleo do SUPER EU (SUPER EGO), que empresta do pai a severidade, permanece a proibição do incesto e assegura o EU (EGO) contra o retorno dos investimentos do objeto.
A libido pertencente ao Complexo de Édipo será dessexualizada e sublimada na forma de identificação e partes inibidas quanto às suas metas e transformadas em moções de ternura. Também há a possibilidade de ocorrer intercorrências no Complexo de Édipo e consequentemente problemas identificatórios.
Deste modo, fica evidente que o núcleo do material reprimido está sexualidade infantil, que não pode ser levada à consciência, precisa ser recalcado, que é feito pelo SUPEREGO, que atua como instância crítica, como moral, censura, sendo herdeiro do Complexo de Édipo.
Assim, ocorre a dissolução do Complexo de Édipo e inicia o Período de Latência, onde o desenvolvimento sexual da criança fica interrompido.Com o término do período de latência, as pulsões sexuais voltam a ter um destino e a maneira como a dissolução do complexo de édipo foi realizada, terá influência de como essas vão emergir.
É importante lembrar que o processos psíquicos são dominados pelo Princípio do Prazer, isto é, busca de diminuição da tensão de estímulos, busca de estabilidade. Assim, podemos dizer que o Princípio do Prazer está a serviço da Pulsão de Morte e que o Princípio do Prazer se identifica com o Princípio de Nirvana, porém não há como o princípio do nirvana trabalhar sem o princípio do prazer e sem o princípio da realidade, pois todos estão interligados. Ora um estabelece rebaixamento quantitativo de carga de estímulos, outro mudança qualitativa deles e outro o adiamento da descarga dos estímulos e aceitação temporária da tensão desprazeirosa.
Ao pensar em destinos pulsionais e dissolução do complexo de édipo, podemos pensar em algumas perversões, lembrando que para Freud, perversão é aquilo que foge da norma (pênis-vagina). Ex: masoquismo, onde o fenômeno psíquico de castração fica evidente, onde a pessoa deseja ser contida, amarrada, amordaçada, podendo chegar à agressões; fetichismo, onde menino nega que a mulher é castrada e por isso, cria objetos para substituí-lo.
Enfim, sexualidade é um ponto crucial da teoria Freudiana e o Complexo de Édipo é uma parte dela que nos dá acesso à alguns tópicos que nos faz compreender um pouquinho mais do desenvolvimento sexual do ser humano.
Por Jucimary Silveira -
Já dizia Chacrinha o Velho Guerreiro: “Quem não se Comunica se Trumbica”A comunicação é tida como um dos grandes motivos de desentendimento entre as pessoas; e deve ser mesmo.Será que a gente simplifica demais a comunicação e simplificando a gente complica? Será que a gente pensa que comunicar é só falar?
Quem nunca ouviu a frase que diz: “Uma imagem fala mais que mil palavras.” Quem nunca saiu de fininho, depois daquela olhada de canto, lançada pelo pai, quando criança? Quem nunca pensou: “agora me lasquei”, quando a mãe chamou pelo nome completo? Quem nunca chorou com aquela música de arrepiar? Quem nunca sentiu a presença de alguém com o cheirinho do perfume dela? E aquela marca preferida, que a gente reconhece de longe, só pela logo? E o silêncio? Ah! Este também pode falar mais que mil palavras. Se prestarmos atenção, tudo, a todo o momento, nos comunica algo.
Mas a forma de comunicação que talvez nos traga mais confusão no dia a dia seja a fala.
Já percebeu que quando um bebê chora é a mãe quem lhe entende o choro? Que quando a criança começa a falar suas primeiras palavras, muitas vezes, precisamos da tradução dos pais para entendê-la? Parece que para se estabelecer uma comunicação é necessário mais do que simplesmente dizer e escutar.
Experimente explicar para uma pessoa que nunca, mas nunca mesmo comeu um doce, qual o sabor do doce. Será que você conseguirá fazer com que ela entenda?
Quando queremos nos comunicar com alguém precisamos levar em consideração que formulamos nossa fala de acordo com nossas experiências, com nosso arquivo pessoal; e vamos transmitir a alguém que tem suas próprias experiências e seu próprio arquivo. Será que no arquivo dela terão registros capazes de entender o que eu digo? E não é só isso, além dos arquivos existirem, há ainda que se levar em consideração a forma como eu combino os meus registros e a forma com a pessoa combina os dela também. Eu posso combinar leite condensado com chocolate e resultar em brigadeiro, talvez a mesma combinação para a pessoa seja uma mousse. Então nós temos os mesmos ingredientes, mas o como juntá-los é parte fundamental para o resultado final da receita. E dentro desse como ainda tem aquela pitada muito subjetiva, porque nem todos batem claras em neve e conseguem ponto de suspiro. Aqui estou mencionando sobre como eu falo (tom de voz, emoções, etc) e como a outra pessoa recebe.
Muitas vezes falamos achando que, para a pessoa que está ouvindo, é tão obvio quanto para nós, e nos chateamos quando ela nos retorna com um resultado que nos frustra. Nestas horas, antes de achar que a pessoa não quis fazer melhor, seria interessante levar em consideração que talvez ela não tenha conseguido entender efetivamente o que queríamos.
E aí, nos cabe um questionamento bem interessante: isso ocorre frequentemente comigo? Se sim, o que faz com que as pessoas não me perguntem sobre o que não entenderam e saiam com dúvidas? Será que é a forma como eu me coloco? Será que eu não estou precisando ser mais acessível? Simplificar a comunicação não no sentido de dar menos informações, mas no sentido de dar mais informações de mais fácil entendimento.
Talvez, uma boa pergunta seria: O que você entendeu do que eu disse? Mas, tenha paciência para explicar caso ela lhe responda com algo que não foi bem o que você quis dizer, caso contrário, nem pergunte, risos...
E na via contrária? Afinal, assim como precisamos nos fazer entender, e queremos ser entendidos; seria justo que estivéssemos prontos e receptivos a comunicação do outro. Na dúvida, porque não perguntar sobre o que a outra pessoa quis dizer. Ou: “foi isso que eu entendi, está correto?” pode ajudar a evitar conflitos de comunicação.
Já presenciei duas pessoas falando a mesma coisa e conseguindo discordar entre si. É pode ser estranho, mas acontece. Pensemos se já não passamos por isso também.
E nesta era de comunicação digital, comunicação virtual, sigamos nos comunicando cada vez mais, de preferência com mais entendimento, mais paciência e respeito às opiniões divergentes...Até Breve!