Blog Masonry

"A Voz Humana" da personagem de Almodóvar (alerta de spoiler)

Por Katia Peixoto dos Santos -  Aconteceu no mês de agosto de 2024 na EPP (Escola Paulista de Psicanálise), o ciclo de estudos: "Grandes Nomes do Cinema - Sobre Ser Humano”, coordenado pela psicanalista Lilian Afonso do Instituto Ékatus. Ao analisarmos três filmes de realizadores consagrados do cinema mundial: Almodóvar em "A Voz Humana”; Guillermo del Toro em "A Forma da Água" e Stephen King em "Partes de Nós”, fomos convidados a lançar um olhar mais observador e questionador às emoções dos personagens. Eles, como nós, possuem uma vida, sendo que a deles é construída pelos roteiristas para possuírem recalques, traumas, desejos, dores e decepções que são avivadas nas cenas pelos sentimentos de amor, ódio, medo, coragem, tristeza, alegria e tantos outros que perpassam pelas suas trajetórias, uma verdadeira saga fictícia. Por esse caminho proposto, pudemos observar os personagens e refletir a respeito das modulações  emocionais experimentadas por eles durante as tramas fílmicas, evidenciando suas fragilidades, vulnerabilidades e impermeabilidades. Tais experiências emocionais se tornam modelos para pensarmos a práxis psicanalítica, no manejo clínico perpassando pela supervisão e análise pessoal. Um exercício interessante recomendado principalmente aos amantes do cinema e da psicanálise. O filme escolhido do ciclo para pensarmos aqui, ”A Voz Humana” 2020 de Almodóvar, é um curta-metragem de trinta minutos de duração, livremente adaptado do texto original homônimo de Jean Cocteau, poeta francês de quem o diretor é fã. Filmado entre 16 e 27 de julho de 2020, durante a pandemia de Covid 19, esse monólogo foi dirigido e interpretado em inglês, uma novidade para o diretor. Tilda Swinton, como protagonista, deu ao dilema existencial da personagem de Almodóvar, uma tonalidade fria e racional, com alguns instantes de desequilíbrios contidos, portanto, menos melodramática, menos caliente e menos cômica que a maioria dos personagens do diretor. Com uma temática mais voltada ao universo feminino e queer, os personagens de Almodóvar costumam ser mulheres, gays, travestis e transexuais que transitam pelas histórias desafiando seus desejos, suas fraquezas, seus amores, suas tristezas e elaborando suas doces vinganças. Olhar para um filme de Almodóvar por um viés psicanalítico, nos proporciona dois movimentos fantásticos que se completam, um para dentro de nós e outro para o íntimo dos personagens em seus universos dramáticos e inquietantes. Ao vivenciarmos as experiências emocionais pelas quais ospersonagens atravessam durante o percurso fílmico, somos movidos a pensar em questões delicadas e profundas que refletem nossa própria humanidade, pela catarse aristotélica ou, especialmente neste filme, pelo distanciamento brechtiano. Em “A voz Humana”, a mulher e seu amante são inomináveis, portanto se aproximam mais de uma realização em que o ato cênico é mais importante do que a profundidade do personagem. A mulher sofre há três dias por não ter noticias de seu companheiro, ele parece estar tão desinteressado que não consegue voltar pra casa nem para buscar suas roupas, abandonando também o seu cachorro. Um telefonema é o único contato entre eles, porém só é possível ouvir a voz da mulher. Almodóvar subverte o lugar onde essa mulher se encontra, ele a coloca dentro de um cenário, set cinematográfico, favorecendo uma quebra dramática da ficção para a realidade critica. Nós, espectadores, estamos vendo um filme e sabemos que estamos num filme. A metalinguagem traz essa atmosfera dúbia entre ficção e realidade. O cenário nos mostra por detrás das câmeras, comunicando a nós, espectadores, que aquilo tudo se trata de uma ficção. Quem sofre neste cenário fictício? A atriz ou a mulher que a atriz interpreta? Há no roteiro a intencionalidade de dinamizar um jogo entre realidade x ficção, fantasia x realidade, imaginação x desejo, documentário x ficção, essas posições se alternam durante toda a trama fílmica. O incrível cenário do filme foi assinado pelo diretor de arte Antxón Gómez, que acompanha o diretor há algum tempo. Ele foi elaborado com cores primárias e secundárias impressas em quadros, tapetes e obras de arte, tudo para simbolizar os estados mentais referenciais da personagem, esse mundo organizado, culto, moderno, luxuoso e que remete à uma "casa de bonecas”, perfeita, onde subentende-se que o casal viveu seus instantes de amor. Esse mesmo cenário que representa a ordem e a beleza é o mesmo que enclausura o amor, a mulher está numa espécie de "prisão luxuosa domiciliar”. O espaço cênico a aprisiona, esse set cinematográfico não esconde sua artificialidade cenográfica (à la Federico Fellini). Para nós espectadores fica claro que ela é uma atriz interpretando um papel: umamulher que fora abandonada pelo seu amante. O cenário e a atuação da mulher são componentes metafóricos dos estados mentais dessa mulher, que oscila entre o que acontece dentro dela, o que é projetado e o que ela imagina. Esse processo de conflito entre o fora e o dentro caracteriza estados transitórios ou até permanentes de alucinação.Alucinar não é uma exclusividade de indivíduos sob efeitos de drogas e/ou transtornos mentais, estados alucinatórios podem acontecer no dia-a-dia das pessoas em forma de conta-gotas ou em momentos específicos, como em situações de estresse, paixões arrebatadoras ou desejos incontroláveis. Portanto, podemos pensar em até que ponto essa mulher alucina esse amor, acreditando ser amada por seu companheiro ou demostrando ao falar com o amante no telefone que consegue lidar facilmente com esse abandono. Existe pontos cruciais no cenário e como se dá a ocupação da mulher nesse espaço cênico, como na cena inicial em que ela aparece no set com um vestido vermelho de armação, um exuberante Balanciaga, impecável em vermelho sangue vivo. Logo, num corte, a câmera fecha para um close-up da mulher, um olhar apreensivo e triste se destaca. Sai o vestido vermelho entra o vestido preto, o luto anuncia o drama do filme, a tragédia anunciada. Como duas mulheres que brigam e habitam dentro da personagem; a de vermelho e a de preto representando essa ambiguidade do amor. A vontade de ter somente prazeres, o principio do prazer, como defendeu Freud, a força que nega e evita a dor e o sofrimento. Outro vestido vermelho vai aparecer e a mulher que veste vermelho, está disposta a sublimar, fingir ou até mesmo fugir de sua dor pelos artifícios disponíveis naquele universo luxuoso e fantástico em que aparenta viver. É a luta interna entre o luto, a morte, o fim e o prazer do recomeço da vida. As pulsões de vida e de morte, a magia de ser levado de um momento glorioso a um outro de perda, num ciclo infinito. Logo no início do filme há uma cena em que a mulher sai para comprar um machadinho, um objeto simbólico muito comum em filmes de terror e suspense que geralmente são usado para o assassino psicopata cometer um crime. Para a mulher, o machadinho é para matar no entanto, de forma mais simbólica: Esquartejar o paletó exposto na cama. Quem morre dentro de mim quando o amor acaba, quem deixo ir embora? Eu? O outro? E o pedaço de mim que era do outro? E o pedaço do outro que era meu, ou pensava ser meu? Como descolar-se do outro? O que sobra de mim depois que o outro se vai? Eu projetei o meu eu idealizado no outro? Era aquilo de que necessitava? O que vou fazer nas horas em que estaria com o outro? Agora sou indivíduo, comigo mesma atuo minha própria solidão e invento músicas para dançar a incerteza e as transformações do viver. No cenário do banheiro, podemos ver um perfume Chanel nº5 dividindo espaço com diazepam, maquiagens e remédios se misturam na ambiguidade entre o fundo do poço e o céu das futilidades inebriantes, como a dos perfumes franceses e maquiagens caras. Também se torna possível vivenciarmos a vontade dessa mulher de seguir em frente e deixar as partes ultrapassadas pra trás, como o amor que agora não é correspondido, o amor de um ser que abandona sua amada e seu próprio cão. Quem é esse ser humano que abandona seu cachorro? Essa metáfora da fidelidade do cão é incrível, durante as cenas o cão fareja incansavelmente o cheiro de seu dono e se conforta com o mesmo terno do dono que será esquartejado e que fará companhia à mulher em sua petite mort. O desalento do cão, o desalento da mulher. A mulher e o cão na mesma situação de abandono. Aquele homem que faz essa mulher em frangalhos, surge apenas como um ser do outro lado da linha telefônica, sem voz, sem imagem própria, apenas como uma possibilidade. Esse homem realmente existe? Ele é o desejo dessa mulher? O telefone toca e a transformação se valida, o íntimo dela se expande quando ao atender a chamada e ouvir a voz do ex amante, ela abre a caixinha do headphones Apple e de dentro sai um AirPods. A dignidade se impõe pela forma, não somente aqui mas no vestido de grife, no perfume Chanel ou na decoração impecável do cenário, é a pulsão de vida se contrapondo aos remédios, vestido preto, cama, tristeza e morte. Mesmo com muita dor ela não desmorona, ela possui elementos de fora que a ajudam, a sua figura esguia e bela, o seu vestido vermelho… e nesse momento o conteúdo das coisas se tornam insignificantes, pois exigem outras significações. Ela finge, mente, escamoteia e vai aos poucos se colocando, transforma em atitude uma pequena parte da dor, que certamente durará ainda por algum tempo. Ela consegue a purificação pela vingança e fecha com chave de fogo a situação em um grande finale. A Fênix começa arenascer. O vestido vermelho Balanciaga, o perfume Chanel, os headphones I Phone e o quadro de Artemísia Gentileschi, "Vênus e Cupido”, a Vênus sendo abanada por Cupido enquanto dorme tranquila banhada de amor e paixão, esses objetos do cenário ressignificam sua existência no mundo de fora. A deusa do amor, da beleza, do sexo, da fertilidade é poderosa, essa é a mulher representada por Almodóvar, independente, bonita, bem sucedida com imenso desejo de viver um amor forte e ardente, mas também aquela pós-moderna, com fama, dinheiro, beleza e independência. Não é possível suprir o desejo ardente de amor? Mas o amor já está nela, ela é o amor, a deusa, a Vênus em sua plenitude, em seu corpo e em sua alma. Na adaptação de Almodóvar, a mulher dá a volta por cima, ao contrário da mulher do curta homônimo interpretado pela atriz Ingrid Bergman em 1966. No curta interpretado por Ingrid Bergman, a mulher ao telefone com o amante está jogada na cama repetindo; "eu te amo, eu te amo, eu te amo", submissa e afundada na amargura, fadada a morrer de amor. No curta de Almodóvar, a mulher sabe que naquele lugar seus desejos foram recalcados, mas também sabe que é emancipada, erotizada, e por esse motivo consegue e pode desligar o telefone primeiro, queimar o cenário que a aprisionava e continuar dona da sua vida na companhia, do agora, seu cão. Fora daquele cenário há outras vidas, outros amores e provavelmente outros desejos. ___________Direção: Pedro AlmodóvarPlataforma: MUBI

Supervisão: a análise do analista

Por Marcelo Moya -  Com o objetivo de orientar, direcionar ou inspecionar uma determinada função ou atividade, a supervisão é um processo bastante comum entre as relações de ensino e aprendizagem de ofícios e práticas que demandam foco em torno de manejos ou procedimentos de especificidade técnica. Na tradição psicanalítica, a supervisão se tornou uma das bases do tripé de formação. Embora Freud trocasse correspondências com seus aprendizes para discutirem situações clínicas, o que se sabe é que foi no Instituto de Berlim que este formato se une à análise pessoal e conhecimentos teóricos, assumindo desde então um lugar elementar nas instituições transmissoras da psicanálise.  A caminhada do psicanalista normalmente é solitária e fonte de angústias, incertezas, questionamentos, saturações, inconsistências e equívocos que exigem manter o aprimoramento de suas ferramentas, certo grau de tolerância ao não-saber, capacidade continente e alguma segurança para seguir na tarefa.  Neste caso, estabelecer uma aliança com outro colega analista com certa experiência de saberes, vivência técnica e neutralidade, pode ajudar a preencher lacunas que somente o processo de análise pessoal e/ou conhecimentos conceituais não são capazes de suprirem no árduo ofício psicanalítico.  Numa parceria entre dois analistas é possível obter novos vértices de observação clínica para serem pensados e transformados, explorar dimensões inconscientes da relação analítica, fortalecer as bases e contornos do setting, ampliar hipóteses de trabalho e identificar potenciais elementos opositores e bastante comuns ao progresso de uma análise, entre outros.  Portanto, a supervisão individual é uma análise do analista e as relações com a sua técnica e clínica quando estas reivindicam um melhor refinamento e atenção instrumental, bem como de necessários ajustes frente a situações de maior impacto e densidade vivenciados no cotidiano do consultório.  Na EPP, além dos Processos de Supervisão já contemplados na formação, a saber, grupos de Fundamentação da Técnica, Notação e Exercícios da Clínica, alunos em estágio e membros do Instituto Ékatus também contam com a opção de analistas selecionados para oferecerem supervisão individual.

Uma mão lava a outra

Por  Carlos Guilherme M. Teixeira -  Embora tenham origens distintas, a psicanálise e a neurociência compartilham um objetivo comum: compreender a mente humana. A psicanálise, fundada por Sigmund Freud, foca na exploração do inconsciente, dos processos internos e dos conflitos psicológicos, utilizando métodos como a livre associação e a análise dos sonhos para investigar as profundezas da psique. A interseção entre essas duas disciplinas pode ser especialmente proveitosa. A neurociência oferece evidências empíricas que podem apoiar ou desafiar teorias psicanalíticas. Por exemplo, estudos de neuroimagem identificaram áreas do cérebro relacionadas a emoções e memórias reprimidas, corroborando conceitos freudianos sobre o inconsciente e a repressão. Além disso, o entendimento neurocientífico dos processos de memória e aprendizagem pode enriquecer a interpretação psicanalítica de traumas e do desenvolvimento psicossexual. Por sua vez, a psicanálise proporciona à neurociência um arcabouço teórico robusto para interpretar dados empíricos de uma forma que considera a subjetividade e a complexidade das experiências humanas. A abordagem psicanalítica pode ajudar a contextualizar os achados neurocientíficos dentro da narrativa pessoal e histórica do indivíduo, fornecendo uma compreensão mais holística da mente. Pesquisadores contemporâneos têm se empenhado em integrar esses campos, propondo modelos que combinam os insights da neurociência com as teorias psicanalíticas. Um exemplo disso é a neuropsicanálise, uma disciplina emergente que busca unificar a abordagem qualitativa da psicanálise com a abordagem quantitativa da neurociência. Essa integração tem o potencial de revolucionar tanto a prática clínica quanto a pesquisa teórica, promovendo um entendimento mais completo e interdisciplinar da mente humana. Em resumo, a relação entre psicanálise e neurociência é uma via de mão dupla, onde cada disciplina pode enriquecer e complementar a outra. A psicanálise oferece à neurociência um quadro teórico para interpretar dados complexos, enquanto a neurociência fornece à psicanálise evidências empíricas para validar e refinar suas teorias. Juntas, essas disciplinas podem aprofundar nosso entendimento da mente humana de maneiras que seriam impossíveis de alcançar isoladamente. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Nesta segunda parte estão as citações que corroboram com o texto acima. “Sempre existiram, no meio psicanalítico, aqueles que se interessaram em buscar fazer correlações entre a neurociência e os conhecimentos adquiridos na investigação psicanalítica. Com isso, puderam ser mostradas as contribuições que a psicanálise poderia dar para um enriquecimento mútuo nas investigações neuropsicológicas e traduzir em termos psicanalíticos as conquistas neurocientíficas (SOUSSUMI, 2001).” “O desenvolvimento da neurociência começa a tornar realidade o vaticínio de Freud de que no futuro as hipóteses psicanalíticas seriam explicadas pela biologia (ANDRADE, 2003).” “As aquisições recentes da neurobiologia indicam que a neuroplasticidade pode ser um dos caminhos para a reconciliação entre a psicanálise e a neurociência. Dentre os achados neurocientíficos no âmbito do psiquismo, destaca-se a ação da relação afetiva sobre circuitos neurais de bebês, os quais podem sofrer atrofia cerebral se cuidados inadequadamente. Também há evidências de que métodos psicológicos podem promover modificações no cérebro. Este ponto é de especial interesse para a psicanálise, cujo método se baseia numa relação afetiva (transferência) (ANDRADE, 2003).” “Recentes avanços no estudo interdisciplinar da emoção também indicam possibilidades de uma aproximação bem-sucedida entre a psicanálise e a neurociência. O conhecimento atual dos mecanismos psicobiológicos, por meio dos quais, por exemplo, o hemisfério direito processa informações sociais e emocionais em níveis subconscientes e mediante os quais o córtex orbito frontal regula o afeto e a motivação, permite uma compreensão mais profunda da “Estrutura Psíquica” formulada por Freud (SCHORE, 1997 apud LIMA, 2009).”  “A descrição tradicional de inconsciência como concebida por Freud é de significância histórica e não somente ganhou ampla aceitação, mas também atraiu muito criticismo. Entretanto, hoje se sabe que o modo fundamental de processamento das funções cerebrais é de ordem inconsciente. Partes do processamento simbólico-declarativo e do processamento de funções emocionais do cérebro são permanentemente inconscientes. Outras partes desses processos são conscientes ou podem ser trazidas à consciência ou, alternativamente, podem ser excluídas da consciência. Ressaltando o papel essencial dos processos psíquicos inconscientes, Winograd et al (2005) citam como exemplo a verificação de que o comportamento de pacientes incapazes de se lembrar de acontecimentos passados, por causa de lesões em estruturas cerebrais responsáveis pelo armazenamento de memória, é claramente influenciado pelos fatos “esquecidos”. Esses dados corroboram a teoria de Freud, segundo a qual o inconsciente domina a maior parte dos processos psicofisiológicos. Segundo estudos de Lima (2010) a neurociência também demonstrou que as estruturas do cérebro essenciais para a formação de memórias conscientes não são funcionais durante os dois primeiros anos de vida, explicando o que Freud identificou como “amnésia infantil”. Assim como Freud hipotetizou, não poder trazer à luz da consciência a maior parte de nossas memórias de infância não significa que elas não tenham se inscrito em nós nem que não afetem nossos sentimentos, pensamentos e comportamentos atuais. As experiências da primeira infância, sobretudo entre mãe e bebê, influenciam o padrão das conexões cerebrais e, correlativamente, o padrão de nossos comportamentos e pensamentos. A vasta contribuição de Freud relativamente à função dos sonhos foi em grande parte ignorada pela ciência, pela falta de um método quantitativo e de hipóteses testáveis. Felizmente, os avanços da neurociência convergiram nos últimos anos para dois importantes insights psicanalíticos. O primeiro consiste na observação concreta de que os sonhos, frequentemente, contêm elementos da experiência do dia anterior, denominados de “restos do dia”. O segundo é o reconhecimento de que estes “restos” incluem atividades mnemônicas e cognitivas da vigília, persistindo nos sonhos na medida de sua importância para o sonhador. Assim, ainda que de maneira difusa, a psicanálise prevê que a consolidação de memórias e o aprendizado sejam importantes funções oníricas (SIDARTA, 2003).” “Segundo Freud, os sonhos constituem “uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)”. A hipótese de que o sistema dopaminérgico mesolímbico- mesocortical, INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 13 relacionado aos estados motivacionais, é essencial para a formação dos sonhos também oferece algum respaldo à teoria freudiana. Assim, as emoções parecem exercer um papel fundamental na formação dos sonhos (CHENIAUX, 2006).” “Estudos experimentais recentes trazem à tona duas grandes contribuições de Freud aos conhecimentos atuais sobre a supressão e/ou inibição de memórias. Ambos os processos, largamente estudados por ele, a repressão e a extinção, já têm boa parte de seus mecanismos conhecidos. Essa inibição ou supressão é inerente à nossa natureza. Por um lado, precisamos impedir o acesso à consciência de muitas memórias, porque sua evocação seria prejudicial ou insuportável. Por outro, precisamos fazê-lo porque devemos recordar ou aprender outras memórias (IZQUIERDO, 2006). Em seu estudo, Izquierdo cita achados interessantes de outros pesquisadores (Anderson ET al, 2004): no momento em que o cérebro exclui da consciência a expressão de memórias indesejadas, ocorrem: a) inibição da evocação dessas memórias (repressão);b) ativação do córtex pré-frontal anterolateral (envolvido na memória de trabalho);c) inibição da atividade do hipocampo. O hipocampo é o “diretor” da “orquestra” de áreas corticais envolvidas na evocação de memórias.O estudo desses cientistas pretendeu explicar casos de bloqueio de memória especialmente nas situações de abusos sexuais sofridos por crianças que não se lembram dos abusos quando se tornam adultas. Sua existência foi percebida por meio da utilização de imagens cerebrais que mostravam os sistemas neurológicos participantes do bloqueio da evocação de memórias indesejáveis. Esses dados corroboram a hipótese de Freud sobre o processo de “recalque”. Analisando todos esses dados, Lima (2010) considera que as visões psicanalíticas e neurocientífica podem ser complementares e mutuamente enriquecedoras. Tomados em conjunto, esses achados indicam não só a viabilidade, mas a necessidade de reavaliar o legado psicanalítico de Freud, com uma diferente abordagem.” “Sigmund Freud (1895) - estudos funcionais do inconsciente. Entende que os processos físicos não poderiam ocorrer na ausência dos processos fisiológicos, mas que os físicos precediam ao fisiológico.”

Novos horizontes para a psicanálise

Por Débora W. Matzenbacher -  Ao longo de sua vida, Bion desenvolveu seus estudos e trabalhos usando as teorias psicanalíticas já propostas, como modelos, principalmente as de Freud e Klein, deixando cada vez mais de lado, com o avançar do tempo os excessos dessas teses e pressuposições que eram aplicados no trabalho clínico da psicanálise. A obra Bioniana apresenta um nova visão da psicanálise, mais espontânea e fluida, se concentrando não em teorias, mas sim nas ferramentas que o analista tem a sua disposição, e que podem ser usadas das mais diversas formas e maneiras. Ademais, a valorização do vínculo entre analista e analisando, que até então não tinha o devido reconhecimento e relevância, passou a ter um papel fundamental na clínica, ou seja, uma psicanálise vincular onde o foco do trabalho é o conhecimento, que vai encaminhando analista e analisando, juntos, em direção ao modo como esse último se relaciona com as suas próprias verdades. Esse vínculo é uma relação que pode ser entre duas pessoas, mas também entre partes dessas personalidades, sendo ainda um dos fatores que conduzem ao processo do conhecer e que vai tornar o trabalho analítico tão rico. Bion tinha o entendimento que em uma análise o relevante não são somente as experiências emocionais que ali são experienciadas, mas também os infinitos vínculos que de alguma forma fazem a ligação entre analista e analisando, o vínculo direto. Chamava atenção também para os chamados vínculos indiretos, que são aqueles vínculos externos do paciente e que podem contribuir quando aparecem em algo que é sentido na sessão. Portanto, a ideia do vínculo é que através dele se consiga dar novos significados àquilo que se apresenta na sessão, isto é, transformar algo em capacidade para pensar. Para tanto, Bion reconhecia três importantes vínculos que são trabalhados juntos, à saber: do Amor (A), do Ódio (O) e do conhecimento (K), favorecendo e privilegiando esse último, o vínculo do conhecimento, que como já acima citado, ele chamava de vínculo K. É através dele (K) que o aprender com as experiências vai se produzir e evoluir, deixando assim, o paciente habilitado e capacitado para vivenciar o processo do conhecer. Bion definia K como algo que está se realizando, se tornando, um processo e não um conteúdo, o que remete a algo dinâmico e vivo em toda nova sessão e que implica numa relação de crescimento mútuo e em alguma coisa ganhar um novo significado, mesmo que a turbulência emocional esteja presente, pois em K essa turbulência é tolerada. Portanto, para Bion conhecer é aumentar e expandir as possibilidades e capacidades para pensar. Quando se está num lugar de observação do paciente, tudo aquilo que se intui e que se capta, seja pela palavra, atitudes, gestos e reações, e que Bion chamava de experiência emocional, está conectado e relacionado ao vínculo do conhecimento que está se revelando no momento da sessão, justamente quando a dupla está em frente ao desconhecido. Dessa forma, conforme o analista alcança e compreende uma parte dessa experiência emocional, uma parte desse desconhecido do paciente, o Ò, acontece uma transformação para K, e em ato subsequente, se dessa transformação, o que o analista comunica para o analisando na sessão, surgir um novo significado para esse paciente, acontece uma transformação no sentido inverso, de K para Ò, e assim, ambos estão caminhando juntos. No vínculo K o analisando tem um sentimento de reconhecimento, ele volta a conhecer aquilo que já existe dentro dele, mesmo que muitas vezes esse processo seja doloroso, mas ele tolera a frustração sentida. Por isso que se diz que o vínculo K está ligado as experiências emocionais, porque ele está sempre ganhando e perdendo significado, sempre se transformando. Quando o analisando não consegue suportar e tolerar o desconhecido que se apresenta, quando ele não tem capacidade de abstração e portanto não consegue gerar e ganhar novos significados, não aprende da experiência, ele está em –K. O  é o não entender, o não conhecer. É quando o analisando não tem tolerância ao desconhecido e uma gigantesca turbulência emocional se apresenta entre as partes, uma vez que o que ele está vivenciando é uma fantasia. Importante frisar, que nesse contínuo processo do conhecer, Bion não trabalhava a mente humana separando consciente e inconsciente, como Freud por exemplo o fazia. Para Bion a psicanálise não se restringia ao inconsciente, mas também ao consciente, tanto do analisando quanto do analista. A ideia era de que a barreira entre um e outro, ou seja, consciente e inconsciente, fosse bem mais permeável do que até então se imaginava, e que a comunicação entre ambos aconteça o tempo todo e ao mesmo tempo. Pensando assim, Bion nominava “visão binocular” esse modo de ver e sentir o indivíduo como um todo, quer dizer, consciente e inconsciente trabalhando e operando juntos o tempo todo. A partir daí novos vértices de compreensão e sentido vão se abrindo no momento em que, tanto analista como analisando, consigam observar um mesmo “fato psíquico” sob outras perspectivas e entendimentos que vai ter como consequência um desenvolvimento e um crescimento mental do paciente.  Para tanto, a comunicação do analista ao analisando, ou seja, aquilo que ele interpreta e posteriormente devolve numa fala, precisa estar em consonância com o momento do pensamento do paciente, quer dizer, o analista sentir se esse pensamento está num momento mais rústico, em que o paciente não tem capacidade para “receber” a sua interpretação/fala, ou num momento mais elaborado, em que o pensamento do paciente esteja “apto” para tal comunicação. A proposta é que a mente do analista opere sempre em Ò, em “estado de fé”, isto é, que ele evite o uso das percepções de caráter sensoriais, bem como trabalhe com seu estado de mente livre de desejo, memória e pretensão de compreensão justamente para que não se fique com os pensamentos saturados de inclinações e expectativas que possam vir a atrapalhar sua condição de trabalho e capacidade de intuição daquilo que está acontecendo no momento em que a sessão está acontecendo. E assim, Bion dando novos rumos para a psicanálise, entendia que, enquanto o par, analista e analisando, estiverem reunidos sempre haverá algo possível de ser observado e explorado, uma vez que, a “psicanálise proporciona capacidade de desenvolver um aparelho para pensar”.

Da origem ao futuro da psicanálise

Por Leonardo Neri -  No início do século passado, a psicanálise emergiu como um campo de estudo diferenciado que abriu novos horizontes para compreensão da mente humana. No entanto, a psicanálise surgiu repleta de conceitos médicos, pois muitos de seus pesquisadores, como o fundador Sigmund Freud, tinham formação médica. Foi neste contexto que o psicanalista britânico Wilfred Bion desenvolveu uma teoria inovadora que rompeu com as convenções da medicina tradicional, a qual tratava os sintomas pelo viés de causa-efeito. Bion trouxe uma nova perspectiva para a psicanálise, enfatizando aspectos emocionais e subjetivos e desvirtuando a necessidade de se atingir um resultado, como destino a ser alcançado no processo de análise, o que se diferenciava com a prática da psicanálise da época. Nos primeiros anos do desenvolvimento da psicanálise, muitos dos seus principais representantes, como Freud, eram médicos. Isto muitas vezes se reflete nas abordagens clínicas da psicanálise, que se concentravam em trazer significados sobre o funcionamento do aparelho psíquico, visando uma suposta cura do paciente. O foco estava na análise da histeria, neuroses, psicoses e perversões, bem como na compreensão de seus sintomas causados pelos conflitos intrapsíquicos do indivíduo, muitas vezes associados a traumas sexuais e/ou infantis. Por outro lado, Bion apresentou uma nova perspectiva fundamental para a psicanálise moderna. Essa abordagem é menos embasada nos conceitos médicos e mais vinculados aos aspectos psicológico e emocional. Bion desafiou a visão predominante da mente como uma entidade puramente cognitiva, ressaltando a importância dos processos emocionais e inconscientes. Bion sugere que a mente humana lida com pensamentos primitivos chamados “pensamentos beta”, que podem ser a causa de tristeza, sintomas e problemas psicológicos. A contribuição mais importante de Bion foi sua teoria da mudança emocional. Ele acreditava que as pessoas têm a capacidade de transformar o pensamento beta em pensamento alfa consciente e significativo. Este processo de mudança emocional está no cerne da psicanálise Bioniana. Bion entendia que ao processar pensamentos puros e transformá-los em pensamentos conscientes, as pessoas poderiam transformar suas emoções de uma forma mais saudável e aliviar a dor emocional e psíquica. A teoria de Bion teve grande influência na interface entre a medicina e a psicanálise atual. Ele desafiou a visão puramente ontológica da psicanálise, concentrada na necessidade de atrelar os sintomas dos pacientes em diagnósticos pré-moldados, conforme teorias de transferências ou das posições, citando as bases de estudo de Freud e Klein, respectivamente. As mudanças para uma epistemologia não convencional destacadas por Bion, demonstram a importância de explorar os aspectos emocionais e psicológicos dos pacientes, inclusive daqueles com doenças crônicas ou psicoses. Bion desempenhou um papel importante na mudança da psicanálise, afastando-a fundamentalmente de seu viés médico e destacando a evolução emocional do paciente, para compreensão da mente humana. A contribuição de Bion é um exemplo notável de como a psicanálise evoluiu para abraçar uma visão mais abrangente e holística da existência humana. No início da psicanálise, Freud concentrou seus estudos com base na premissa de que os anseios e aflições humanos estão intimamente relacionados a experiências distantes que merecem uma investigação aprofundada. Freud concluiu que os sintomas constituem reflexos de emoções e vivências que foram reprimidas, ocultas nas profundezas do inconsciente. Assim, formulou teorias acerca das fases do desenvolvimento sexual humano, destaca a importância do Complexo de Édipo e desmembra o aparelho psíquico em Id, Ego e Superego. A exploração teórica de Freud estabeleceu os fundamentos da psicanálise, e sua abordagem clínica segue uma lógica semelhante à da medicina, onde se procura a raiz de um sintoma, realizando uma investigação que, quando esclarecida, contribui para a cura do “problema”. O analista empreende a busca por respostas, sabendo exatamente o que está procurando - emoções reprimidas - e onde deve direcionar sua pesquisa, ou seja, aplicar a experiência subjetiva humana à “fórmula” do Complexo de Édipo, para se descobrir as causas. Outra personalidade crucial no desenvolvimento da psicanálise foi Melanie Klein, que avançou com os conceitos de Freud, sobretudo a partir da análise de crianças, adiantando o Complexo de Édipo para as fases mais precoces do desenvolvimento humano. Klein também introduziu as lógicas das posições persecutória e depressiva e trouxe à tona o conceito de identificação projetiva, dentre outros. A sua abordagem clínica também estava focada na busca de respostas no inconsciente, revisitando o período infantil e os estágios iniciais do desenvolvimento psíquico e as relações com objetos, tudo isso com o objetivo de atenuar sintomas e promover a cura. Bion inova ao propor uma abordagem psicanalítica que, em resumo, não visa a diagnósticos ou esclarecimentos do passado. Em vez disso, amplia perspectivas e sugere diferentes maneiras de interpretar eventos psíquicos, conscientes ou inconscientes, promovendo uma exploração que capacita o paciente a descobrir novos conhecimentos sobre si mesmo, infinitamente. A abordagem psicanalítica de Bion não se concentra em conceitos pré-determinados, como o Complexo de Édipo ou a Castração, mas sim em um processo de descoberta e transformação, questionamento e expansão do conhecimento. Não há busca por algo específico no inconsciente; em vez disso, tudo o que se apresenta é explorado em busca de entendimento.

Ilha do desassossego - resenha da série “O Maestro e o Mar” (alerta de spoiler)

Por  Katia Peixoto dos Santos Certa vez, um amigo querido, com o coração partido e entristecido pelo recente término de seu relacionamento, me contou que iria gastar todo seu dinheiro guardado em uma viagem, logo pensei: Que boa ideia! Dias depois, num post no Instagram, avisto uma foto deste querido dentro de um barco com a seguinte legenda: Chorar no mar do Mediterrâneo é melhor que chorar na cama. Curti o post. Pela localização veio a confirmação, ele estava na Grécia. Ah, que foto azul… o céu e o mar em Blues iluminavam o segundo plano, incrível !! E o amigo? Lindo, nem reparei se haviam lágrimas em seus olhos, elas deveriam estar lá porém camufladas pela beleza do mar. Quem nunca quis ir à Grécia? Então, que tal irmos para a Grécia? Para o Blue? Mais especificamente para o mar Jônico na ilha de Paxos? Banhada por praias paradisíacas num cenário incrível viveremos as emoções, dores, amores, desamores, encontros e desencontros de personagens essencialmente dramáticas. Vamos? Sim, podemos … um pedacinho da Grécia agora está no streaming Netflix. Novidade, pois pela primeira vez uma série televisiva grega ganha o mundo.  O teatro grego nos deu Sófocles e seu dramático Édipo Rei, Eurípedes nos deu sua cruel Medéia e agora a televisão grega nos dá Christoforos Papakaliatis, roteirista, diretor e galã protagonista de O Maestro e o Mar, uma série exibida originalmente pela Mega TV que ganhou seu lançamento mundial no dia 17 de março de 2023 ao ser inserida no catálogo Netflix. Um drama grego contemporâneo dividido em 9 episódios. A história da série foi elaborada em torno do protagonista, o músico Orestis e sua vontade de montar um festival de música, do zero, na ilha de Paxos. O maestro deixa sua vida em Atenas e vai ao encontro de possíveis músicos da ilha para organizarem o tal festival. O futuro candidato a prefeito Fanis é quem o contrata com o intuito de obter prestígio junto aos moradores da Ilha. Chegando à ilha, Orestis começa a se envolver com as argruras dos moradores. Se apaixona, faz amigos e passa a fazer parte daquela comunidade. Algumas coisas me chamaram a atenção nessa trama, uma delas foi a trilha sonora, bem eclética que vai do erudito ao rock, passando por músicas gregas clássicas e populares. Na abertura da série a música A Summer Place traz um momento romântico ao nos apresentar a charmosa ilha. Durante o decorrer dos episódios, podemos apreciar músicas de Bizet, Debussy e Kostas Christides que acompanham as personagens em momentos cruciais. A música Absence de Kostas, surpreende o espectador que não conhece a música grega, uma experiência sonora emocionante que nos faz mergulhar nesta trama. As bandas Queen com I Want to Break Free e U2 & BB King com When Love Comes to Town, embalam as cenas dos jovens, cada música é introduzida e pensada a partir da dramaticidade das personagens. Quando toca I Want Break Free num luau, as personagens aproveitam para soltarem as amarras e proibições, inclusive a de realizarem festas durante a pandemia da Covid 19, época da gravação da série. Cada episódio é dedicado a um personagem que narra sua própria existência. O recuso flashback é utilizado para nos dar a oportunidade de vivenciarmos a história de cada um deles pelos seus próprios viesses. Ao vivenciarmos tais relações entre as personagens, entramos em contato com alguns preconceitos arraigados naquela comunidade: etário, de gênero e social, percebidos nas ações e até incutidos na vivência hipócrita de alguns. As personagens vivem sob a doutrina ortodoxa, mesmo que inconscientemente tal doutrina funciona muito bem para negar algumas questões, como por exemplo a da diversidade de gêneros, porém, por outro lado, a doutrina não serve para condenar as práticas de corrupção. Isso pode ser percebido na conivência dos moradores com atos criminosos que vão desde lavagem de dinheiro, violência doméstica e até assassinatos. As relações das personagens criam duplas e triângulos amorosos. Orestis, Klelia e Thanos formam o triangulo central, o sentimento predominante dessa relação é o desejo ardente e proibido entre Orestis e Klelia e a indiferença de Klelia à Thanos, seu namorado. Outro triângulo, Fanis, Sofia e seu amante médico que também vivem um amor proibido, que se opõem a relação fria de Sofia com Fanis, seu marido. As duplas se articulam para formarem outras relações como a de Haris e Klelia que vivem um amor projetivo, de avó para neta. Outro exemplo é a relação de Maria com o filho Spyros, que se desmembra em Spyros e Yianna, sua namorada e Spyros e Antonis, seu amante, formando as teias relacionais. Em O Maestro e o Mar o que predomina são os conflitos dramáticos sem momentos de leveza. A alegria e a descontração só aparecem dentro dos devaneios de alguns personagens ao criarem cenas mentais em que estão felizes em suas situações imaginárias, logo sufocadas pela dura e crua realidade da vida. Essas relações podem nos fazer pensar nas dores intensas que é possível vivenciamos em nome do amor. Sem a possibilidade de exercerem suas sexualidades, sem a possibilidade de realizarem seus desejos, suas libidos, as personagens sentem seus amores sendo sucumbidos e legados aos devaneios. A Série O Mastro e o Mar nos faz entrar em contato com normas de conduta sociais que engessam e enfraquecem a capacidade de amar, de experimentar e de transformar. Maria é capaz de sublimar seus desejos não realizados. Haris ama sua neta e se projeta nela. E o corrupto Fanis, interessado apenas em ganhar dinheiro, é quem leva o maestro à Ilha, isto é, o protagonista. O que é possível fazer quando não se consegue mais ver o Blue do mar, o Blue do céu ? Os Blues da vida? Enfim, para meu amigo que foi para o mar do Mediterrâneo aliviar sua dor de amor, êxito. Ele melhorou, se sentiu feliz por estar lá, foi um oásis, respirou, descansou, voltou e continuou. Para Shirley Valentine, a personagem da peça de Willy Russell, a Grécia foi um elixir à sua crise existencial. Voltou outra, revigorada e se sentindo amada. Mas para as personagens de O Maestro e o Mar, a beleza do lugar, A Summer Place não deu conta de camuflar os seus mais pecaminosos conflitos. Parece que não adianta estar no paraíso se você não pode dar, ao menos, uma mordida na maça. Amar dói? Para o poeta Caetano Veloso o amor, Mora na filosofia, pra que rimar amor com dor … porém para Milton Nascimento, Qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor, valerá… Boa Série a todos !!!___________Direção: Christoforos PapakaliatisPlataforma: Netflix

Políticas identitárias e psicanálise

O psicanalista bem como as instituições às quais ele está ligado, estão inseridos na sociedade, e desta forma, ambos estão permeáveis a discussões de cunho político, sociológico, antropológico, científico, etc. Essa permeabilidade ou cesura é como uma pele: precisa permitir que o corpo entre em contato com o meio que o rodeia, o proteja, indique se está calor ou frio etc., mantendo a integridade do corpo. Na última década vemos um acirramento de discussões políticas no campo social que acabam afetando e demandando das Sociedades e Instituições Psicanalíticas um posicionamento. Muitas vezes somos demandados por questões que nunca havíamos pensado, e que no sentido bioniano do termo, nos exige um aprender da experiência, um pensar sobre algo que muitas vezes esteve sempre presente. A EPP-Escola Paulista de Psicanálise e o Instituto Ékatus possuem um programa de atendimento em psicanálise e às vezes somos demandados por pedidos de analistas pretos (essa é palavra usada nos formulários de inscrição do programa), LGBTQI+, cristãos, héteros, etc. Nesse ponto faz-se necessário uma profunda reflexão sobre o que é ser um psicanalista. O psicanalista é uma pessoa que tem como ofício a psicanálise. Nesse ofício um ser humano oferece um espaço de escuta e oportunidade de crescimento para outro ser humano. Se explora aquela emoção não nomeada, se buscam novos significados para as experiências emocionais, se busca um mundo emocional cada vez mais complexo, com aumento da liberdade e a possibilidade de ir sendo si mesmo. Nesse ofício o psicanalista não tem sexo, idade, orientação sexual, cor, cheiro, preferências políticas. A pessoa do psicanalista sim, o psicanalista não. Assim como o paciente. Uma ideia em circulação é que caso a pessoa do psicanalista seja gay ou cristã ele estaria mais capacitado para escutar o sofrimento da pessoa do paciente gay ou cristão. Se assim o fosse, somente homens poderiam ser psicanalistas de homens, mulheres de mulheres, pessoas de 30 anos de pessoas de 30 anos. Nada disso é garantia de uma melhor escuta psicanalítica: é como se mulheres não pudessem ser machistas, gays homofóbicos etc.  O preconceito é mais democrático do que a sabedoria. Essa forma de uso da ideia de políticas identitárias é falsa a partir do vértice psicanalítico na opinião dessa instituição – quanto mais identificado o analista com seu paciente, pior para o processo psicanalítico. Esse é um dos principais fatores de contratransferência, ou pontos cegos do analista e que levam ao fracasso de uma análise. A pessoa do psicanalista é um profissional treinado para o exercício da sua tarefa. Não está impermeável a preconceitos, posicionamentos religiosos, políticos, sociológicos, econômicos etc. Mas ele tem dois dispositivos para cuidar desses aspectos: análise pessoal e supervisões contínuas. Também é fato que o próprio movimento psicanalítico já usou de forma preconceituosa as teorias psicanalíticas: durante décadas pessoas LGBTQIA+ foram impedidas de serem analistas por diversas sociedades psicanalíticas. Ainda hoje não é difícil encontrar um analista que classifique como psicótico qualquer pessoa que se identifique como “trans”. Mas a própria psicanálise e o movimento psicanalítico têm seus recursos para trabalhar esses pontos contra-transferenciais - o tripé psicanalítico: análise pessoal, estudo constante e supervisão.  Frente ao exposto a EPP-Escola Paulista de Psicanálise e o Instituto Ékatus têm alguns posicionamentos, a saber: - Não monitoramos ou questionamos nossos alunos e membros quanto à sua sexualidade, orientação sexual, crenças pessoais, posicionamentos políticos, cor etc. São assuntos de fórum pessoal a serem tratados em suas respectivas análises; - Não divulgamos fotos dos membros ou alunos, para que justamente sua aparência não seja usada de forma preconceituosa – todos aqui somos psicanalistas! - Buscamos oferecer sempre uma formação de excelência, para que o profissional aqui formado seja capaz de manter uma escuta psicanalítica, e esteja sempre cuidando de sua contratransferência. Em outras palavras, mantemos o tripé psicanalítico vivo, que consideramos até o momento o único instrumento capaz de fazer frente as demandas sociais. Entendemos que possam existir preferências por parte dos pacientes acerca do profissional que irá atendê-lo (sexo, orientação sexual, cor, religião, etc.), mas em nosso programa de atendimento em psicanálise, não serão atendidos tais pedidos. O único critério utilizado nesse programa é a compatibilidade de horários entre analista e paciente. __________________EPP- Escola Paulista de Psicanálise e Instituto Ékatus

O Faroeste dos desejos - resenha do filme “Ataque dos Cães” (alerta de spoiler)

Por  Katia Peixoto dos Santos "The Power of The Dog" é uma adaptação da obra literária homônima, escrita pelo norte-americano Thomas Savage e publicada em 1967. O filme é um drama Western que deixa de lado os revólveres, rifles e portas bang bang para apostar nas imagens, ora de planos de detalhes minuciosamente trabalhados, ora de panorâmicas de paisagens desoladoras instigadas por cortes atemporais. A fotografia, da australiana Ari Weigner, dá precisão cirúrgica ao roteiro e a direção da neozelandesa Jane Campion. O filme ganha sentido pela leitura atenta de nós, espectadores, nos detalhes imagéticos. Em "Ataque dos Cães", a antiga frase de Confúcio; Uma imagem fala mais do que mil palavras, rege o drama. A adaptação do roteiro nos traz uma trama simples com apenas um núcleo cênico central, o do protagonista, portanto o foco fílmico gira em torno, praticamente, de quatro personagens, interpretados por atores incríveis que conseguem dar o tom dramático, ao ponto, aos personagens. São eles: Benedict Cumberbatch, como Phil Burbank; Jesse Plemons como George Burbank; Kodi Smith-Mc Phee como Peter Gordon e Kirsten Dunst como Rose Gordon. Apesar de conter um roteiro simples "Ataque dos Cães" nos propõe alguns questionamentos profundos, isso acontece na medida em que começamos a vivenciar as fragilidades, as vulnerabilidades, as angústias, as dores e os desejos das personagens. Cada personagens traz consigo a vontade latente de ter o que deseja a qualquer custo, assim todas elas se mostram auto-centradas, frias, descontentes e enigmáticas. Peter, mesmo demostrando suas habilidades e virtudes durante o percurso fílmico, está mais preocupado em fazer sua mãe feliz. Lembrando do ditado popular; cão que ladra não morde, talvez possamos por dedução, pensar que Peter representaria o contrário disso. Peter é o personagem que conduz a trama mas não está em algumas cenas principais, será que podemos pensar que ele seria a figura central da história? Seria Peter o narrador off desta trama? Fazendo uma pequena analogia com a vida, seria possível alguém dar um desfecho de algo sem precisar estar em todos os ambientes do qual controla, apenas por ter em mente planos diabólicos e executáveis? E como se comporta Phil? O homem rude que vive sob a influência fúnebre de seu amigo, possível amante, Bronco Henry? É mórbido e sacro o altar de Bronco, o santo Henry ao qual Phil lhe dá fortes poderes, até mesmo de o fazer acreditar que os dois poderiam representar o modelo de Rômulo e Remo, os irmãos que fundaram Roma, criados e amamentados por uma loba. Logo, semi-animais ou semi-humanos? Até que ponto esse modelo delirante sustenta Phil e o afasta da realidade? Em que medida sua relação com Bronco é sacra ou profana ou as duas coisas? E Bronco Henry, quem é esse ser que mesmo morto rege a vida de Phil e o faz viver em eterno luto? A quem dar o poder de nos fazer ser e sentir? Rose, ah Rose, quanto dela está perdido no seu olhar triste, angustiado e patético? Quem foi a Rose que tocava piano no cinema mudo da década de 1920? O que o piano representa para Rose? George, o irmão de Phil, um homem bondoso, bem aprumado porém não tão inteligente quanto Phil, não tão belo como Phil, nem tão atlético como Phil, nem tão …. como Phil. Mas o que Rose pode ver nele? O consolo e a segurança que sempre almejou? Luxo? Amor? Descanso? Muitos são os questionamentos propostos a nós, espectadores. É como num jogo de quebra-cabeças que para encontrar as peças que cabem nos espaços, é preciso procurar com atenção para formar um sentido, uma imagem conhecida nossa e das personagens. São muitas peças e cada uma delas um questionamento, outras imagens incompletas que nos levam a outras peças e a outros questionamentos. Porque os cães atacam? Por defesa? Por medo? Para receberem a recompensa? Pelos três motivos anteriores? Quem pode te salvar de um ataque de cães? Você próprio? Seus pais? Seu filho? Ninguém? A partir dessas questões vão surgindo outras que respondem essas e assim as peças do quebra-cabeças vão se formando, mas também cuidado, podem aparecer peças aparentemente erradas que não se encaixam, que se bifurcam no jogo trazendo outros questionamentos. O que fazer quando os desejos estão sufocados e aniquilados pela dureza do dia-a-dia e pela carência de afeto? O que fazer para proteger uma mãe que já sofreu tanto? O que fazer para resgatar um amor do passado que se foi? Como lidar com o luto? O que fazer para sair de um trabalho que esgota sua vida e adoece sua alma e se tornar rica? O que é preciso fazer para que isso possa se tornar realidade? Será possível matar seu pai alcoólatra para proteger sua mãe? Quem são os assassinos? É possível matar qualquer pessoa que faça sua mãe sofrer? Um homem rude é mesmo um sensível incompreendido? O filme responde cada uma dessas questões nas ações fílmicas, mas, volta a nos questionar, agora num jogo de esconde-esconde e novamente esconde encontra. Com calma, sem pressa, em cada olhar sutil das personagens, nas portas entreabertas, no corpo que exala fedor para isolar-se de outros, pelo casamento às pressas, pela música de Strauss que não sai e pela mesma música que implode dentro do ser, pela frieza dos afetos, pelo gosto amargo do rum que abafa a dor, pela sutileza da maldade na expertise, pela vulnerabilidade do coelho assustado, pela força e beleza do cavalo. Enfim, pela vida que corre e que aos poucos vai sendo capaz de satisfazer os desejos de cada personagem, de cada ser, de cada pessoa. Alguns desejos vão se tornando realidade, seria um momento feliz, porém para que esse possa existir é necessário sacrificar aquele que por um breve momento se descuidou, acreditou, amoleceu, se apaixonou, dormiu em seu posto de guarda - soldado - pois em sua essência, acreditou que aquele cão, logo após alguns rápidos e significativos afagos, não seria capaz de atacá-lo. A dura pedra quebrada pela água certeira que a fura pela astúcia sem compaixão e com extrema persistência. Vale muito a pena assistir "Ataque dos cães” e nos deixar embrear nas questões, nas soluções de cada personagem. Cada um de nós pode montar o seu próprio quebra-cabeças e propor novas construções em análises. Bom filme!!!___________Direção: Jane CampionPlataforma: Netflix

É possível amar o que se desconhece?

Por Ale Esclapes Amar e ser amado tem uma relação direta com o que algumas pessoas chamam de autoestima. Mas não são tarefas emocionais nada fáceis. Vou me concentrar nesse vídeo em apenas alguns aspectos desse desafio. As mais úteis definições que conheço para o vínculo de amor eu aprendi um colega Argentino chamado Leandro Stitzman – amar implica ver a pessoa como ela é e ódio implica vê-la como ela não é. E isso é uma tarefa dificílima, pois entre o amor e o ódio existe nossa fantasia sobre o outro – como ele deveria ou não ser, e isso gera uma tormenta emocional imensa. Tolerar e aceitar o que o outro é e não é implica um luto da minha fantasia. E é justamente essa é a grande tarefa nesse momento, e notem que não tem nada a ver com o outro. É comigo.  Vemos isso em Freud no conceito de transferência, onde o paciente transfere para baseado no mecanismo do recalque suas fantasias para o analista e do ponto de vista de Klein ele se dá pelos mecanismos de projeção e introjeção, mas observem que é possível estabelecer essa análise sem o peso de toda a teoria desses autores.  A pergunta que se faz a partir dessa reflexão é: é possível se amar uma fantasia? Ou dito de outra forma, como amar aquilo que não consigo tolerar que seja o que se é, ou ainda, como amar aquilo que desconheço? Essas e outras reflexões estão no Livro Framework, e principalmente no como pensar psicanaliticamente sem o peso das teorias, editado pela EPP, e caso você queira se aprofundar nesses temas com o próprio autor, nos dias 26, 27 e 28 de maio, teremos um encontro de três dias, presencialmente para essas e outras discussões. O link para mais informações estão na bio, no feed ou na descrição desse vídeo. https://youtu.be/3ZzswyvdGP8  

Algunas ideas sobre la experiencia de lectura de M. Klein

Por Sua Baquero -  Estudiar: lo que pasa entre el leer y el escribir. (…) Jorge Larrosa. La experiencia de la lectura. En el capítulo sobre “La técnica de análisis tempranos” que se encuentra en el libro El psicoanálisis de niños, Melanie Klein va a presentar dos casos: Pedro (3 años y 9 meses) y Ruth (4 años y 3 meses), haciendo una breve referencia a un tercero, Trude (3 años y 3 meses).  En ese texto, la autora reflexiona sobre diversos aspectos de su técnica de juego, señalando sus potencias y a la vez describiendo algunas situaciones excepcionales requeridas en la atención de los casos expuestos, indicando para el lector una descripción de setting analítico como un espacio también de experimentación.   Al inicio de lo que se nos cuenta, Klein describe el tamaño de los juguetes, su variedad, material y ubicación dentro del consultorio y finaliza incluyendo juegos más de tipo imaginativo, uso de agua, fuego, tijeras y papel que, conforme a la edad y el género de los pacientes se irá modificando, dejando entrever como al final de cuentas, incluso en el análisis de adultos, en el consultorio todos jugamos: con narraciones, palabras, imágenes.  Otra parte importante de lo que se lee estará dedicada a la reflexión sobre la interpretación, su profundidad y el momento adecuado para realizarla. Animando a los practicantes de su técnica a manifestar las interpretaciones tan pronto surjan y en lo posible desde el inicio, la autora enfatiza como estas son una estrategia efectiva en la disminución de la ansiedad y un buen inicio en el ahondamiento del proceso analítico. A continuación, se presentan dos tablas que proponen una organización de las principales ideas de Klein en torno a: i) precisiones sobre la técnica del juego y ii) algunas innovaciones creadas durante el desarrollo de las sesiones de los casos presentados y atendiendo a las particularidades de los mismos. Aspecto de la técnica de juego    ValorIdentificación del léxico utilizado por los padres para referirse a los genitales, defecación y etc.    Comunicar con precisión las diferentes interpretaciones que surgen durante la implementación de la técnica. Esto se hace con los pacientes de todas las edades. Interpretaciones iniciales    Dada la inmediatez con que se va a manifestar la transferencia (positiva o negativa) en el caso de los niños, Klein va a recomendar que la interpretación comience en cuanto sea posible, independientemente que más adelante vuelva a salir material similar para ser nuevamente reelaborado.  En el caso de Trude, Klein va a señala como una interpretación realizada en un encuentro inicial de una hora, facilitaría la disminución de su transferencia negativa, lo que mejorará sustancialmente la retoma del proceso posteriormente. Así, oportunidad y profundidad son factores que el analista deberá considerar orientándose técnicamente sin timidez.  Pensamiento de juego    Este concepto, le da a la técnica un valor más profundo que una mera forma, acaso un hacer, un actuar. Existen contenidos, ideas, que se identifican principalmente por repetición independientemente de su multiplicidad de formas y también por la intensidad de los sentimientos ligados a su contenido, por tanto pareciera que cuando el niño juega también piensa. Fuente: Elaboración Propia

A música marcando a história da vida - resenha da série “O maestro e o mar” (alerta de spoiler)

Por Ana Cristina Ibañes -  A série de 09 episódios nos mostra o poder da música na vida das pessoas, quem nunca teve uma música que marcou sua vida? A história começa no final da pandemia da Covid 19 onde o maestro Orestes é convidado para fazer um festival de música na cidade. A primeira pessoa que ele vê é uma linda jovem que o ajuda a ir até o local de sua casa. Se você acredita em amor à primeira vista, foi exatamente isso que aconteceu, o desenrolar desse lindo romance só assistindo para saber. A segunda pessoa que ele encontra é Maria uma senhora encantadora que durante cada episódio irá cativar a todos, uma mulher sofrida com um casamento abusivo, mas, mesmo assim ela não perde o encanto de uma mulher com um coração imenso. A história se desenvolve com o preconceito de opção sexual de dois jovens e a diferença de idade em um relacionamento amoroso, caso esse que se repete em duas gerações. O abuso doméstico através da violência física onde a própria justiça não faz nada. A lavagem de dinheiro, onde todos sabem que é errado, mas, continuam porque convém a família. Um personagem em especial que é o marido da Maria, um homem extremamente violento, que repete a violência trazida de seu pai e ele tenta passar para seu filho. Quando ele ouve uma música isso mexe com ele e ele tenta fugir de suas lembranças. Acaba tendo um final trágico, que com certeza trará a continuação dessa série tão cativante e que nos traz muitos pensamentos.___________Direção: Christoforos PapakaliatisPlataforma: Netflix