Por Juliana Oliveira Macedo Malassise -
Cresci escutando esta voz. Uma voz alta, forte, cruel. Ela me dizia que não estava bom, que Eu não era suficiente, que Eu não era boa o bastante. Na vida adulta, demorei, mas percebi que Eu não era esta voz. Mas ela estava ali desde o momento que eu acordava ao momento que eu dormia. Você tem que ser perfeita, você tem que ser melhor, você tem que emagrecer, você tem que trabalhar mais, você não chegou aonde queria. Mas porque Eu tenho que lidar com este julgamento que não sou Eu, que não me representa e que definitivamente não vai me fazer feliz. Vivo com um inimigo imaginário, ele mora na minha psique, no meu consciente, e é meu pior inimigo.
Sinto culpa. Sinto culpa de dormir, de descansar, de comer. Sinto culpa de falar alto, de falar baixo, de me posicionar, de não me posicionar. Meu inimigo me diz todos os dias que estou errada e que não vou conseguir. Me machuca, dói. Eu sofro, mas sinto que mereço sofrer, gosto de sofrer. Meu inimigo busca um ideal, um ideal inalcançável, um ideal do Eu. Eu teria que ser super para conseguir, teria que ser um Super-eu. Freud diz que esta voz representa o herdeiro do complexo de Édipo, minhas primeiras identificações, as vozes da infância introjetadas, minha família. Eles eram meus investimentos libidinais, sabiam tudo, me ensinaram tudo. Eu os idolatrava e fazia qualquer coisa para conseguir sua admiração, sua aprovação, seu amor. No entanto, o mundo aos poucos foi me mostrando novidades, diferentes pontos de vista, reflexões. Escolhi o que me identificava, me dilui e floresci. E com isso meu Eu foi crescendo, se fortalecendo e se adaptando aos princípios da realidade.
No entanto, Eu e esta voz vivemos um conflito sem fim. Meu inimigo imaginário insiste em coisas que não fazem mais sentido pra mim, distantes do meu Eu. E por mais que Eu fuja, tente esquecer, parte delas continuam ali, pois são primárias, imediatas e diretas. A voz do meu inimigo representa a sociedade, a moral, as instituições, a religião. Tudo que quer controlar o Eu de forma imperativa, categórica, reativa e coerciva. Me sinto doente, a voz dentro de mim é patológica, me adoece. Sou neurótica, psicótica, perversa.
Nesta melancolia, estou sufocada. Afinal meu inimigo imaginário não se cansa, quer minha energia, meu prazer, julga minhas fantasias e me poda. Sinto que minha libido se derrete, estou gelada e sem forças para continuar essa briga, vivo em luto, estou destruída. Me destruí. Meu Super-eu me destruí. O inimigo dentro de mim me julgou e me condenou, Eu sou a culpada. Agora só quero dormir, desligar, aquietar e silenciar essa voz. Não quero ser mais Eu, só quero o descanso, a paz e o inorgânico. Não entendo, mas sinto Isso.
Mas graças ao Eros, meu Eu é mais forte, retoma sua construção, sua transformação. Dizem que as pessoas não mudam, mas o Eu muda. O Eu é o líder, o rei, o racional. O Eu escolhe, programa, reprograma, substitui, desloca, configura. Eu já cheguei ao fundo do poço, e sei como é estar lá. Como consequência, tenho que renascer, resistir mais uma vez, buscar o meu prazer, minha vida. O amor e o ser amada. Assim, construo equilíbrio interior e exterior. Eu decido meus investimentos, me acolho, supero meu inimigo imaginário e me adapto ao mundo, sublimando mais uma vez.
Todavia meu Eu gostaria de ter controle de tudo, é exaustivo. Minimizar riscos, fugir do medo e da sua angústia. Mas a realidade da psique humana é muito mais complexa e Eu não tenho controle. Existe algo abstrato que me move, Isso que é estranho quando aparece, que é inexplicável, mas ao mesmo tempo familiar. Isso é tão infinito, quanto meu mundo exterior e me impulsiona em direções que Eu não entendo. Esta força visceral e ambivalente exerce forte poder sobre mim, por mais que Eu tente domá-la. Isso aparece em meus sonhos, meus atos falhos, em comportamentos que Eu não entendo, em coisas que simplesmente faço sem saber o porquê. Está no meu princípio de prazer e nos meus desejos mais profundos e incompreensíveis. Isso não fala, Isso simboliza. Isso pulsa vida e morte, amor e ódio. Freud afirma na segunda tópica, que a psique é formada por três instâncias, o Isso, o Eu e o Super-Eu.
Eu estou no meio desta sagrada trindade, na qual Isso é tudo, menos santo. O Super-eu compete para ser Pai, sua voz soa onipotente. E Eu? Ora busco satisfazer Isso, ora me defendo, esqueço, recalco, introjeto. Ora sou compulsiva, repito o padrão, escutando meu inimigo. Depois lembro, elaboro e construo, escolhendo meus objetos. Também fantasio, sonho, desligo. Ora sei o que fazer, ora não sei por que estou fazendo Isso. Mas sustento o não saber. Afinal, Eu sou Pai. Tenho que reforçar minha autoestima, e aceitar a frustração, o erro. Simplesmente confio. No meu Eu, no Isso, e por que não? No meu inimigo. Antes de enlouquecer, me aproprio da minha função egóica e invisto libido em mim. Um narcisismo necessário. Assim vivo este conflito. Esta guerra civil. Ao equilibrar prazer e realidade, Eu me liberto.
