Por Rodrigo Lopes Barreto -
Era uma tarde de seis de maio, o céu estava nublado e um grupo de pessoas se dirigia ao Jardim Cristina, bairro afastado do centro onde aconteceria o grande evento do dia. Lá residia o Sr. Astolfo, renomado incorporador, que havia anunciado que naquele dia receberia o famoso médico austríaco que fundou a psicanálise. Cerca de trinta pessoas aguardavam o início do evento, tinha psicanalista, influencer, estudante, comediante... Era uma casa simples e os ouvintes foram recebidos em uma garagem desativada, as paredes alternavam tinta amarela desbotada com áreas de mofo. Havia uma pequena mesa e uma cadeira, nela estava sentado o incorporador, tinha os olhos fechados. Às três horas em ponto ele abriu os olhos, sorriu e agradeceu a presença de todos, de repente suas feições se tornaram sérias, ele cruzou as pernas e sua postura ficou mais ereta. Todos ficaram em silêncio e assustados. Após alguns minutos encarando a audiência ele começou a falar, em português perfeito, mas com forte sotaque dos nativos de língua germânica. Não tenham medo, disse. O silêncio continuou... Eu sei que vocês têm dúvidas, a hora de perguntar é agora, disse com voz assertiva. Um rapaz ao fundo, com cara de desespero disse ao ver que todos continuavam quietos: Boa tarde Sr. Freud! Estou no primeiro ano de formação em psicanálise e tenho muitas perguntas! Pois comece, disse o incorporado.
Rapaz desesperado- Difícil escolher uma, são tantas questões técnicas e teóricas que nem sei por onde começar... Mas vamos lá, o que é o inconsciente?
Incorporado- Meu jovem, você já começa com uma pergunta dessas? Vou tentar ser sucinto se não só vou responder uma pergunta. O inconsciente é uma instância do aparelho psíquico, as pessoas acham que ele apenas contém traumas, mas ele guarda memórias, registros, e vivências que foram suprimidas do consciente. Ele também guarda todos os desejos pulsionais. O inconsciente é atemporal, lá impulsos instintuais completamente antagônicos convivem tranquilamente e a realidade externa é substituída pela realidade psíquica. Ele contém processos inacessíveis à consciência, mas que a influenciam, e se tornam sonhos, atos falhos, repetições, sintomas... Nosso trabalho é tornar essa influência conhecida pelo paciente, buscar o que foi reprimido.
Rapaz desesperado- O senhor está falando de repressão?
Incorporado- Sim, e temos dois tipos de repressão. A repressão primária é do inconsciente, fundacional e a base dos recalques. Também temos a repressão secundária, ou propriamente dita, que atinge ideias e impulsos similares ou que se alinham ao que foi recalcado inicialmente. Ela age na fronteira do inconsciente com o pré-consciente, provocando consideráveis distorções. Deste processo derivam representações que podem chegar ao consciente, como formações substitutas e sintomas. Um impulso pode ser reprimido quando sua meta instintual produz desprazer ao invés de prazer, porém o representante deste instinto segue existindo no inconsciente. A repressão atua de forma altamente individualizada e seu trabalho gasta muita energia psíquica, tudo que gera um investimento de muita energia psíquica tende a se aproximar do inconsciente e o que reduz essa energia sofre um distanciamento ou uma deformação. Esses representantes instintuais, de acordo com o montante afetivo podem ser inteiramente suprimidos, aparecer como um afeto ou ser transformado em angústia. A angústia é a falha da repressão. É muito interessante como o limite do prazer e desprazer é tênue, já repararam que em uma piada trazemos de forma prazerosa algo que produz claro desprazer, e... (Comediante interrompe o Incorporado).
Comediante- De piada eu entendo seu Sig! Esses dias perguntaram para minha mulher o que ela mais gostava que eu fizesse por ela. A resposta: TRANSFERÊNCIAS. (a plateia riu nervosamente).
Incorporado- Faz-me rir o cavalheiro com esse interessante jogo de palavras entre transferências de dinheiro e transferências de afeto.
Rapaz desesperado- Já que o colega trouxe o tema, fale-nos um pouco sobre a dinâmica da transferência...
Incorporado- Vamos lá, apenas algumas de nossas pulsões passaram pelo desenvolvimento psíquico completo, parte delas são detidas no inconsciente e só se expandem na fantasia. Novas representações e reedições dessas expectativas são repetidas na medida em que nos relacionamos com outros indivíduos em nossa vida. Esse investimento em terceiros também se repetirá no tratamento psicanalítico, e a isso chamamos de transferência. A transferência pode ser positiva, manifestando admiração e confiança, mas também pode ser negativa e precisa ser reconhecida adequadamente, sempre que nos aproximamos de um complexo patogênico, a porção capaz de transferência é empurrada para a consciência e defendida, surgindo apenas como uma expressão da resistência. Como o paciente confessará demandas direcionadas ao psicanalista? Entenderam a armadilha? (um psicanalista bem alto se levanta, é o típico feio bonitão).
Psicanalista feio bonitão- E quanto ao amor transferencial?
Incorporado- Precisamos entender que este enamoramento não é devido ao nosso charme ou ótima personalidade, mas sim forçado pela situação analítica e carece de realidade. Ele atrapalha o tratamento psicanalítico, e a resistência tem grande participação no seu surgimento. Por vezes aparece num momento em que o paciente precisa recordar ou admitir uma parte muito desconcertante e recalcada de sua vida. Não devemos incentivar, nem adotar uma postura repressora a este sentimento, devemos nos manter de forma neutra e cuidar do ambiente analítico. Eu tenho que tirar esse afeto do campo moral e colocar no campo analítico, temos que pensar como uma estrutura que se repete (uma psicanalista usando um lindo macacão de linho se levanta).
Psicanalista do macacão de linho- Falando em repetir, gostaria de lhe agradecer, seu texto. Lembrar, Repetir e Perlaborar marcou profundamente a minha formação psicanalítica.
Incorporado- Fico lisonjeado, tenho muito orgulho deste texto. Fiz ele em 1914, conforme minha técnica evoluía a partir da ideia inicial de preencher lacunas na lembrança e vencer resistências, visando a superação dos recalques, acreditava que somente lembrando, ou seja, chegando ao consciente haveria uma mudança. Na prática, observei que o analisando nem sempre se lembra do que foi esquecido e recalcado, mas ele atua com aquilo, e o reproduz como algo que ele repete, sem saber o que é. Ele repete ao invés de lembrar. A repetição também ocorre no processo de transferência, use deste evento para conter esta tendência, nomear as resistências desconhecidas e a partir daí perlabora-las. Perlaborar é um trabalho contínuo, difícil e exige paciência.
Rapaz desesperado- Que conselhos técnicos o senhor me daria acerca do tratamento psíquico?
Incorporado- Bem amplo esse tema, mas vou tentar elencar algumas orientações básicas. Pra começar acomode o paciente em um divã, sente-se atrás dele, e peça que sempre lhe diga o que vier à cabeça. Nunca ceda ao pedido de indicar sobre o que falar. Evite ficar anotando em demasia, registre pequenos dados ou conteúdos de sonhos, seria desumano lembrar de absolutamente tudo o que o paciente nos conta, confie na atenção flutuante, ouça o que o paciente diz e se entregue à sua memória inconsciente. Coloque de lado seus afetos pessoais, amplie ao máximo sua assistência e use tudo que foi dito para fins de interpretação, dirija para o inconsciente emissor do doente o seu próprio inconsciente enquanto órgão receptor. Sintonize-se com seu cliente. Muito importante, tenha conhecimento de seus complexos próprios. Faça sua análise pessoal, cada recalque mal resolvido do analista se constitui um ponto cego em sua percepção analítica. Tenha consciência da importância da transferência e faça o manejo dela de forma adequada. Seja tolerante diante da fraqueza do doente, não o force demais no rumo da sublimação. Jamais dê tarefas ao doente fora do espaço psicanalítico, isso pode causar intelectualização excessiva do processo. Nunca busque a concordância ou apoio de pais ou familiares do doente.
Rapaz desesperado- E alguma orientação especial no início do tratamento?
Incorporado- Recomendo que você faça uma espécie de ‘test drive’ com seu cliente, um período probatório para decidir se ele é bom candidato à psicanálise. Não aceite familiares, ou pessoas com relações sociais ou de amizade como pacientes, isso hoje é obvio, mas em 1913 não era. Não se surpreenda com posturas céticas ou absolutamente crédulas ao nosso método, a desconfiança do paciente em si já é um sintoma e é normal a resistência se manifestar das mais diversas formas. Cobre pelo seu ofício! Já repararam que o dinheiro é tratado com a mesma dubiedade que os assuntos sexuais? Abdique desta falsa vergonha e trate deste assunto com a mesma e óbvia honestidade para a qual vamos educa-lo em relação à vida sexual. Não responda ou faça previsões acerca da duração do tratamento, sabemos que o processo será longo. Não se importe em extrair do doente narrativas sistematizadas, cada pedaço da história será repetido e contado novamente, um paciente que prepara com detalhes a narrativa da sessão pode dar a impressão de empenho, mas no fundo é proteção e resistência. Conversar com amigos e familiares sobre o processo deve ser desaconselhado, porque poderiam aflorar nessas conversas ideias que seriam melhor aproveitadas no espaço psicanalítico. Sempre esteja atento à transferência, mas deixe este tema intocado enquanto as informações do paciente se derem sem interrupções. As comunicações ao paciente só devem ser iniciadas quando se tiver instalado uma transferência produtiva, faça-as apenas quando o analisando estiver quase lá, e quando as fizer evite posturas moralizantes e não atue como representante de uma parte interessada externa. Fique atento, a comunicação de um material recalcado suscitará resistências antes de se estabelecer um processo de pensamento eficaz.
Rapaz desesperado- O que o senhor acha da psicanálise selvagem?
Incorporado- Na época que cunhei esse termo, o selvagem se referia a colegas médicos que praticavam a psicanálise sem o conhecimento adequado das técnicas psicanalíticas, sem se atentar às nuances e enfocando de forma exacerbada no fator somático sexual. Essa técnica precisa ser aprendida com aqueles que já a dominam. O selvagem em questão não se atentava que o desconhecido era na verdade um saber impedido no consciente, o que por vezes era comunicado de forma inadequada e gerando uma grande piora do sofrimento, para haver uma comunicação é preciso que o doente se aproxime do recalcado por uma preparação adequada e que ele tenha se apegado ao médico, estamos falando novamente de transferência, e isso demanda tempo. Eu agora falo diretamente ao tiktoker sentado ali (aponta um rapaz magrinho de cabelo platinado), pare com suas dancinhas psicanalíticas e vá fazer uma formação decente! De repente o incorporador fechou os olhos, seu semblante ficou mais relaxado, ele abriu os olhos e disse que a sessão havia acabado. Freud deixou o incorporador e se prometeu nunca mais voltar ao Jardim Cristina... Para onde ele foi eu não sei, espero que esteja feliz e de preferência bem longe do Jung.
