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Uma experiência com Melanie Klein

Por Fernanda Borges Hisaba -  Entrar em contato com as ideias de Melanie Klein tem sido algo fascinante. Perturbador, a um tempo, nos faz mergulhar a fundo em nossas próprias análises pessoais, buscando compreender como se processaram nossas vivências mais arcaicas, que ansiedades nos atravessam, que mecanismos de defesa desenvolvemos, como oscilamos entre mais ou menos integrados, como nos relacionamos com nossos objetos, como nos portamos diante do nosso horror à dependência do outro. Quanto mais próxima de sua linguagem me sentia, tanto mais condicionada me via a pensar dentro de seus modelos. Porém essa percepção se deu na forma de um estranhamento, que procuro relatar a seguir. Havíamos concluído o estudo curricular de Melanie Klein na formação de Psicanálise, e estávamos iniciando uma leitura mais aprofundada da autora em nosso grupo de estudos. O momento, então, assim era constituído: investido e entranhado pelos modelos até então estudados, como já dito, com o cérebro condicionado a pensar em termos de ansiedades e defesas, vamos em busca de algo que não está lá. Buscamos Klein, e nos deparamos com Freud. Algo parecia errado; uma dificuldade compartilhada pelo grupo que nos levantou questões, e fez pensar. Imagino uma Sra. Klein no início dos seus trabalhos, fascinada pela Psicanálise, e Psicanálise, até então, significava Freud, Complexo de Édipo, castração, pulsão de morte, Id, Ego e Superego. Teorias e modelos desenvolvidos em quase 30 anos haviam despertado o interesse daquela mulher. Percebe-se, então, uma Melanie Klein que procurava comprovar em suas observações e análises de crianças a existência concreta da criança imaginada por seu antecessor. Seus pensamentos são recheados de fantasias infantis nas quais procura identificar a libido sexual direcionada aos genitores, e percebe-se uma tentativa de adequação que não se pode dizer tão bem-sucedida. Klein começa a notar, num terreno somente imaginado mas não vivido efetivamente por Freud, algo que escapara a esse imaginário do mestre. Capta em seus pequenos pacientes intensidade, ansiedades e angústias em uma época da vida em que ainda não eram concebidas. Klein germina em terras freudianas, mas nascem divergências as quais ela, por muito tempo, procura negar. E neste momento nos encontramos. No cerne da luta entre o sabido e o percebido, inexplicável. Há que se ampliar os modelos, há que se encontrar novas bases teóricas para fundamentar suas observações. Esse desconforto agora encontra explicação em algo apontado por Bion. Fui buscar algo que já sabia existir no contexto kleiniano, e quando a realização dessa pré-concepção foi negativa, houve uma frustração, à qual me apeguei por semanas. Aprender a tolerar essa frustração tem sido difícil, assim como imagino que tenha sido para Klein lidar com a frustração de encontrar, na prática clínica, elementos que não esperava, que divergiam daquilo que ela buscava. Interessantes os movimentos para negar essa frustração, até que, sustentada, permitiu a construção de um novo conhecimento, e essa construção, desde os primórdios, acompanhamos agora. Procuro guardar essa experiência como representante daquilo que ainda precisa ser desenvolvido na configuração da analista que me proponho a ser. Procurar abandonar o desejo de encontrar algo que já sei, e me manter aberta para vislumbrar o que pode ser. Lutar contar a ânsia de compreensão, e a dor que advém do seu não encontro. Procurar digerir, decompor e criar pensamentos a partir do que foi metabolizado. Se pensar esse estranhamento me levou a hipotetizar sobre o contexto kleiniano, com certeza me trouxe percepções sobre mim mesma, e começo a encontrar o valor de todo o processo. Árdua e longa essa nossa tarefa.

Ego, Id, superego e suas dinâmicas no mundo psíquico do sujeito

Por  Willian Fausto Lourenço -  A psicanalítica se sustenta em quatro fundamentos: a existência do inconsciente; a possibilidade de explorar o inconsciente; se dispõem de um aparato técnico que permite a realização de tal exploração; e que o inconsciente é infinito, atemporal, incognoscível e sem contradição. Igualmente, para Freud, o inconsciente é a sede das pulsões e está composto pelo material reprimido advindo de desejos sexuais do sujeito em relação a figuras parentais; por isso mesmo esse conteúdo foi ocultado pois o sujeito não suportaria mantê-lo em instancias consciente. No inicio de sua teoria, Freud entendia o aparelho psíquico como um lugar topográfico, algo que ocupava espaço dentro da mente humana sendo subdividido em consciente, pré-consciente e inconsciente. Por isso que ele, na clínica analítica, buscava fazer consciente o conteúdo inconsciente. E também, havia a crença de que era possível conhecer o inconsciente, o problema é que ele se manifesta de maneira disfarçada nos sonhos, sintomas, fantasias, ato falhos. Más, neste modelo o inconsciente era o reprimido enquanto o consciente reprimia constantemente o que provinha deste lugar. Com o passar do tempo, Freud concebe o aparato psíquico mais como um modelo estrutural e o subdivide em Ego, Id e superego. Essas instâncias vivem em uma certa tensão, sendo que este conflito é exatamente o que permite entender seu modo de funcionar. O inconsciente passa a ser entendido a partir do principio de prazer, enquanto o consciente relacionado com o principio de realidade. De igual modo, outra perspectiva é a de que alguns conteúdos que estão no inconsciente não são conteúdos reprimidos e nem tudo que está no inconsciente é reprimido. O Id se torna o ponto de partida de tudo. Ele é a instância regida pelo princípio de prazer estando ligado à libido, aos impulsos inatos, não conhece a realidade consciente muito menos a ética e a moral. Por fim, o Id é a sede das pulsões, dos desejos e afetos. Ele está marcado por uma dinâmica quase animalesca pois se acerca ao instintivo, ao mais primitivo e arcaico do ser humano não conhecendo a realidade consciente. Mas já sabemos que o ser humano não é apenas regido pelos instintos, há que negociar com a realidade e os desejos e expectativas individuais, coletivos e sociais. Aí entra a importâncias das outras instancias do mundo psíquico do sujeito, Ego e Superego. O Ego se distingue do Id; na verdade, ele se conforma em oposição ao Id. Assim, o Ego se contacta com a realidade funcionando com base no principio de realidade e sendo construído por identificações. Ou seja, o Ego ao se identificar, torna-se “igual” aos objetos que deram prazer ao Id. Assim, ele define quem é a pessoa sendo uma parte consciente e outra inconsciente. Se pode compreender então, que o Ego tem relação com a realidade, se forma com parte do que vem do Id e do ideal do Eu (uma instancia crítica). Por esse último, o Ego se firma também em um ideal de perfeição, espécie de nirvana onde tudo voltará a ser como antes, talvez como foi na vida uterina. O superego nasce das pulsões de vida e de morte e é o herdeiro da castração ocorrida no complexo de Édipo. Então ele é constituído pelo sentimento de culpa inconsciente e se mostra em performances relacionadas à imposição da lei. O superego tem um caráter inibidor, impositor, moral, atuando a partir de leis herdadas do grupo, valores e modo de atuar. O Ego é o mediador entre o Id e o Superego. Nem tanto prazer sem limites, nem tanto dever; nem muita culpa, nem muito pecado. Há que encontrar um ponto de equilíbrio para não enlouquecer e atuar de maneira possível e aceitável à vida psíquica e à vida com os outros. O Ego é responsável por fazer este diálogo, então. Outro tema que nos importa que já tocamos de maneira superficial, é a importância do complexo de Édipo na formação do Ego e do Superego. O menino que deseja a mãe e rivaliza com o pai e tem vontade de elimina-lo e ao se deparar com a castração, abandona a mãe e identifica-se com o pai. A menina, a princípio, desenvolve amor pela mãe, acredita que ela lhe vai dar um pênis, mas chega a ponto de culpa-la por não ter tal órgão. Ela entra em rivalidade com a mãe por acreditar que ela, por estar com o pai, tem também tem um pênis. Ao abandonar a mãe, a menina buscará o amor do pai através do pênis que receberá, o pai nega esse amor e a obriga a identificar-se com ele. Todo esse processo é internalizado e as instancias Ego e superego são formadas, afinal não é possível desejar tudo e obter tudo o que se deseja (id). Se pode dizer que a formação do Ego, Superego e Id e suas implicações já ditas, permite (de maneira simbólica) a introjeção dos pais que viverão inconscientemente dentro de cada ser humano. O incesto de desejar os pais e a vontade de mata-los por não os ter, permitirão a formação do senso moral, das ideias de certo ou errado, permitido e não permitido, aceito e não aceito. O sujeito aprenderá, pela culpa inconsciente e pela lei estabelecida, que há um mundo externo e que para nele viver será necessário obedecer a princípios, códigos de convivência e ordens para assim dialogar com desejos pessoais, com desejos do outro, da sociedade e todas as expectativas morais e éticas que de aí nascem.

Sobre o cuidado

Por  Dr. Emir Tomazelli -  Nesses 45 anos de clínica, não é a primeira vez que observo a íntima relação que se estabelece entre a morte e o amansamento da experiência interna de desespero e de rompimento afetivo. Mais uma vez ela, a morte, faz seu apontamento e com ele faz seu bem, re-despertando o amor em nós, pela via da ameaça da vida. A morte desperta o além de mim. Desperta o futuro de minha vida, e indica que há um lugar onde eu ainda estou inscrito enquanto presença, mesmo que seja apenas como um projeto, uma fantasia, uma ilusão. Não é a primeira vez que observo que essa sombra da morte rondando – sinto no cotidiano esse voo áspero de asas negras batendo ao redor – não só apresenta o anjo da morte, como também apresenta a força de recolhimento que temos diante dele, esse lindo anjo. (Nem sempre a beleza nos salva!) Penso que seja por isso que nosso padecer futuro é abrigado em minha hospitalidade, quando o hóspede se apresenta à minha porta. E, a hospitalidade, em sua face mais dolorida, deriva desse receio: temos que acolher o outro não porque exista uma norma social para isso, mas porque o receio é uma recordação, uma reminiscência de um momento futuro possível em nossas vidas, porque inúmeros egos nos legaram o medo da morte que lhes permitiu o sentido necessário da vida. A hospitalidade é uma recordação que temos do homem passando pelos tempos da vida e deixando um enorme rastro de acolhimento efetivo diante de toda incerteza vivida, porque o que está ali no desamparo pode ser o nosso ser a qualquer momento. Margareth Mead2 define como o ponto crucial do início da humanidade aquele momento em que se achou, se teve acesso arqueológico ao primeiro osso humano que se reabilitou após fratura, isto é, para que alguém que tenha sido perigosamente ferido manter-se vivo, alguém cuidou desse alguém de modo a que ele tivesse o tempo necessário para voltar a cuidar de si novamente. E isto é o que faz toda a diferença. Não somos um animal social, somos um animal que necessita de cuidado para manter-se vivo por mais tempo. É por esta razão que nos dirigimos ao outro. Temos consciência de nossa fragilidade, intuímos que a solidão para ser apreendida, tem-se que estar acompanhado por alguém. É só junto que um pode se sentir verdadeiramente só. O algoritmo da economia e da política é o do abandono, é o do largar alguém à sua própria sorte. E isto é outra história, não há a ideia de cooperação, não há companheirismo. Por isso que busco trazer a nossa lembrança que a proximidade da morte nos faz bem, principalmente quando entristecemos com ela. Entristecemos dessa tristeza que restaura porque reconhece a perda e aceita a dor do luto. É nesse sentido que a proximidade da morte nos retira do narcisismo, e recupera o homem hospitaleiro e a hospitalidade Nosso único problema é que, por sermos ainda muito imaturos, temos uma desconfiança essencial que, desafortunadamente, nos obriga a olhar para o outro como ameaça ao eu. No entanto, posso dizer que a morte quando ronda, próxima, desperta, em alguns, o melhor que esse cada um pode oferecer. Certamente, penso: não é a morte que traz a calma. Mas a morte é, isto sim, um disparador de tristeza, pelo menos naqueles que são capazes de experimentá-la, e é a tristeza aquela emoção que porta o amansamento, de onde brota o gesto amoroso, o acolhimento e o desejo de ofertar algo porque a oferta se torna algo necessário. Isto é: a oferta é aquilo que não pode não ser. Ela é. E ao vir a ser se torna ética, ação direta e objetivação prática. Me parece curioso que a morte quando faz sua ronda seja capaz de recordar a todos (alguns!) que é bem possível que o amor e a prestação de ajuda a quem necessita seja, ainda, o melhor que temos a dar e que, ainda assim e mesmo assim esse amor, o melhor dele, é oferta-lo graciosamente, isto é, oferta-lo grátis. Acreditar, ter esperança e fé3, essa é uma trilha por onde quero passar, é a perspectiva que me atrai. E é por esta atração exercida pela aposta, pela busca, pela luta por tudo que seja ainda possível, que fico feliz de estar ligado a um grupo que pensa que nós, como psicanalistas que somos, ainda somos uma das últimas reservas desse produto humano, o cuidado, que nos compete oferece-lo profissionalmente a quem, agora, sente necessidade de nós. São Paulo, 19 de abril de 2020 1-Psicólogo e Psicanalista, mestre e doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Há 45 anos atua na área clínica em Consultório no Brooklin, Sp. Autor de livros de psicanálise e referência acadêmica. 2-Years ago, anthropologist Margaret Mead was asked by a student what she considered the first sign of civilization in a culture.The student expected Mead to talk about fish hooks or clay pots or grinding stones.But no, Mead said that the first sign of civilization in an ancient culture was a femur (thighbone) that had been broken then healed. Mead explained, that in the animal kingdom, if you break your leg, you die. You can not run from danger, get to the river for a drink or hunt food. You are meat for prowling beasts. No animal survives a broken leg long enough for the bone to heal. A broken femur that has healed is proof that someone has taken time to stay with the person who has fell, has bound up the wound, has carried the person to safety and has tended the person through recovery. ‘Helping someone through difficulty is where civilization starts’ said Mead.We are at our best when we serve others. Be civilized.”

Estruturas organizacionais da sexualidade, segundo Freud

Por Raquel Casonato Rodrigues Mariano -  É sabido que no desenvolvimento de crianças, as noções referentes ao que é um genital, o que é seu, o que é do outro, o igual e o diferente começam a se formar, entretanto, as maiores implicações dessas diferenças e de suas vivencias, vão ser consolidadas no Complexo de Édipo. Deste modo, é importante compreender que até chegar ao Complexo de Édipo, essas noções ainda não existiam e nada disso estava claro e organizado no universo psíquico infantil. O único conhecimento que a criança tinha, era que para ambos os sexos, só existia um único genital, que era o pênis, onde o dos meninos já estavam desenvolvidos e o das meninas ainda não. Com o desenvolvimento infantil, essas diferenças foram sendo percebidas e descobriu-se que o pênis não é um órgão comum a todos, que pertence apenas aos meninos e isso trouxe implicações psíquicas tanto para eles quanto para as meninas. A menina inicialmente nega que não tem um pênis, pensa que ele irá crescer, para depois compreender que não tem e assim sente-se castrada e isso traz um sentimento ruim, como se estivesse recebendo um castigo, punição, enquanto para o menino, possuir o pênis, ter um falo, é significado de potência, de superioridade. Deste modo, a organização genital infantil fica entendida como o masculino e o castrado, onde a mulher inveja o pênis do homem, para só mais tarde falar em feminino e masculino. O homem por possuir um pênis, acaba sendo o sujeito, possuidor do objeto, que no caso seria a mulher, que assumiria uma posição passiva diante da ativa do homem. Porém, o desenvolvimento da sexualidade acaba não sendo tão simplista, e vivenciando o Complexo de Édipo e suas verdadeiras implicações, essas questões podem se mostrar um pouco mais compreensíveis no Universo Freudiano. Para compreensão do Complexo de Édipo será feita algumas considerações frente as principais diferenças entre primeira e segunda tópica do aparelho psíquico na teoria freudiana, pois quando falamos do Complexo de Édipo, pensamos em dissolução e não em término, e através da compreensão do funcionamento psíquico, podemos analisar como essa dissolução acontece e suas consequências, tendo uma muito importante que é a formação do Super Ego. A primeira tópica, faz menção ao modelo topográfico, que consiste em inconsciente, pré consciente e consciente. Nessa tópica o inconsciente abrange o reprimido, sede das pulsões, onde o conteúdo latente se encontra e é movido pelo princípio do prazer, o pré-consciente é separado do inconsciente pela censura, deste modo, os conteúdos inconscientes para tornarem pré-conscientes precisam ser transformados. Já o consciente encontra-se na superfície do aparelho psíquico e está ligado ao mundo externo e interno, tem ligação com o EU, com suas emoções, lembranças que estão no pré-consciente e que é acessível. O conflito desse modelo implica na pulsão que se encontra no inconsciente e a instância da censura, na consciência, e que para ser manifestada precisará passar por formação de compromisso no pré-consciente e ser manifestado de forma deformada através de atos falhos, sintomas, chistes, sonhos, transferências, etc... Através das manifestações do retorno do reprimido é possível trabalhar com esse material na psicanálise, tentando trazer o inconsciente mais próximo da consciência. Já a segunda tópica, Freud trabalha com o modelo estrutural, onde estuda as instâncias psíquicas Id, Ego e Superego, sendo Id, sede das pulsões, fantasias, desejos, afetos, prazer, Ego, uma instância do aparelho psíquico que faz conexão com a realidade interna e externa, sendo ela consciente e inconsciente e o superego, como herdeiro do complexo de édipo e de castração, uma instância crítica, sede da moral e da culpa inconsciente, compreendendo o inconsciente, o consciente e o pré consciente. O conflito desse modelo apresenta-se através das suas representações psíquicas onde a angústia sentida pelo ego traz desprazer, o que o coloca em posição de defesa, fazendo com que a repressão atue e haja formação de sintomas. O sintoma é um representante do reprimido diante do Ego, que por via indireta permite a satisfação pulsional, que é uma satisfação substitutiva deformada e irreconhecível, porém, traz sofrimento, desprazer e angústia. Quando se faz a psicanálise, o indivíduo tem a oportunidade de ter um ego analisável e verificar como este se adapta aos diferentes níveis de conflito, como se manifesta frente aos mecanismos de defesa, podendo assim, olhar se esse ego é integrado, fragmentado e quais são os caminhos que a análise deve percorrer. O complexo de édipo inicia tanto para a menina quanto para o menino por volta dos 4-5 anos, é vivido individualmente, isto é, todos passam por ele, porém cada um tem sua particularidade. O menino se apaixona pela mãe e vê o pai como seu rival, e deseja matá-lo para ficar com a mãe. Percebe que o pai é mais forte que ele, teme ser castrado pelo pai, então abandona a mãe, identifica-se com o pai e busca outra mulher que substitua a mãe. A menina na fase I se apaixona primeiro pela mãe, acredita que ela lhe dará um pênis, porém como isso não acontece, culpa a mãe por não ter lhe dado e acredita que a mãe sendo possuidora desse pai, logo possui um pênis, então começa o momento da rivalidade entre as duas e o início da fase II desse complexo, onde abandona o investimento pela mãe e passa esse para o pai, que lhe nega o amor, então identifica-se com a mãe e busca na maternidade a completude do falo. Os investimentos de objeto são abandonados e substituídos por identificação. A autoridade parental introduzida no EU (EGO), forma o núcleo do SUPER EU (SUPER EGO), que empresta do pai a severidade, permanece a proibição do incesto e assegura o EU (EGO) contra o retorno dos investimentos do objeto. A libido pertencente ao Complexo de Édipo será dessexualizada e sublimada na forma de identificação e partes inibidas quanto às suas metas e transformadas em moções de ternura. Também há a possibilidade de ocorrer intercorrências no Complexo de Édipo e consequentemente problemas identificatórios. Deste modo, fica evidente que o núcleo do material reprimido está sexualidade infantil, que não pode ser levada à consciência, precisa ser recalcado, que é feito pelo SUPEREGO, que atua como instância crítica, como moral, censura, sendo herdeiro do Complexo de Édipo. Assim, ocorre a dissolução do Complexo de Édipo e inicia o Período de Latência, onde o desenvolvimento sexual da criança fica interrompido.Com o término do período de latência, as pulsões sexuais voltam a ter um destino e a maneira como a dissolução do complexo de édipo foi realizada, terá influência de como essas vão emergir. É importante lembrar que o processos psíquicos são dominados pelo Princípio do Prazer, isto é, busca de diminuição da tensão de estímulos, busca de estabilidade. Assim, podemos dizer que o Princípio do Prazer está a serviço da Pulsão de Morte e que o Princípio do Prazer se identifica com o Princípio de Nirvana, porém não há como o princípio do nirvana trabalhar sem o princípio do prazer e sem o princípio da realidade, pois todos estão interligados. Ora um estabelece rebaixamento quantitativo de carga de estímulos, outro mudança qualitativa deles e outro o adiamento da descarga dos estímulos e aceitação temporária da tensão desprazeirosa. Ao pensar em destinos pulsionais e dissolução do complexo de édipo, podemos pensar em algumas perversões, lembrando que para Freud, perversão é aquilo que foge da norma (pênis-vagina). Ex: masoquismo, onde o fenômeno psíquico de castração fica evidente, onde a pessoa deseja ser contida, amarrada, amordaçada, podendo chegar à agressões; fetichismo, onde menino nega que a mulher é castrada e por isso, cria objetos para substituí-lo. Enfim, sexualidade é um ponto crucial da teoria Freudiana e o Complexo de Édipo é uma parte dela que nos dá acesso à alguns tópicos que nos faz compreender um pouquinho mais do desenvolvimento sexual do ser humano.

Quem não se comunica se trumbica

Por Jucimary Silveira -  Já dizia Chacrinha o Velho Guerreiro: “Quem não se Comunica se Trumbica”A comunicação é tida como um dos grandes motivos de desentendimento entre as pessoas; e deve ser mesmo.Será que a gente simplifica demais a comunicação e simplificando a gente complica? Será que a gente pensa que comunicar é só falar? Quem nunca ouviu a frase que diz: “Uma imagem fala mais que mil palavras.” Quem nunca saiu de fininho, depois daquela olhada de canto, lançada pelo pai, quando criança? Quem nunca pensou: “agora me lasquei”, quando a mãe chamou pelo nome completo? Quem nunca chorou com aquela música de arrepiar? Quem nunca sentiu a presença de alguém com o cheirinho do perfume dela? E aquela marca preferida, que a gente reconhece de longe, só pela logo? E o silêncio? Ah! Este também pode falar mais que mil palavras. Se prestarmos atenção, tudo, a todo o momento, nos comunica algo. Mas a forma de comunicação que talvez nos traga mais confusão no dia a dia seja a fala. Já percebeu que quando um bebê chora é a mãe quem lhe entende o choro? Que quando a criança começa a falar suas primeiras palavras, muitas vezes, precisamos da tradução dos pais para entendê-la? Parece que para se estabelecer uma comunicação é necessário mais do que simplesmente dizer e escutar. Experimente explicar para uma pessoa que nunca, mas nunca mesmo comeu um doce, qual o sabor do doce. Será que você conseguirá fazer com que ela entenda? Quando queremos nos comunicar com alguém precisamos levar em consideração que formulamos nossa fala de acordo com nossas experiências, com nosso arquivo pessoal; e vamos transmitir a alguém que tem suas próprias experiências e seu próprio arquivo. Será que no arquivo dela terão registros capazes de entender o que eu digo? E não é só isso, além dos arquivos existirem, há ainda que se levar em consideração a forma como eu combino os meus registros e a forma com a pessoa combina os dela também. Eu posso combinar leite condensado com chocolate e resultar em brigadeiro, talvez a mesma combinação para a pessoa seja uma mousse. Então nós temos os mesmos ingredientes, mas o como juntá-los é parte fundamental para o resultado final da receita. E dentro desse como ainda tem aquela pitada muito subjetiva, porque nem todos batem claras em neve e conseguem ponto de suspiro. Aqui estou mencionando sobre como eu falo (tom de voz, emoções, etc) e como a outra pessoa recebe. Muitas vezes falamos achando que, para a pessoa que está ouvindo, é tão obvio quanto para nós, e nos chateamos quando ela nos retorna com um resultado que nos frustra. Nestas horas, antes de achar que a pessoa não quis fazer melhor, seria interessante levar em consideração que talvez ela não tenha conseguido entender efetivamente o que queríamos. E aí, nos cabe um questionamento bem interessante: isso ocorre frequentemente comigo? Se sim, o que faz com que as pessoas não me perguntem sobre o que não entenderam e saiam com dúvidas? Será que é a forma como eu me coloco? Será que eu não estou precisando ser mais acessível? Simplificar a comunicação não no sentido de dar menos informações, mas no sentido de dar mais informações de mais fácil entendimento. Talvez, uma boa pergunta seria: O que você entendeu do que eu disse? Mas, tenha paciência para explicar caso ela lhe responda com algo que não foi bem o que você quis dizer, caso contrário, nem pergunte, risos... E na via contrária? Afinal, assim como precisamos nos fazer entender, e queremos ser entendidos; seria justo que estivéssemos prontos e receptivos a comunicação do outro. Na dúvida, porque não perguntar sobre o que a outra pessoa quis dizer. Ou: “foi isso que eu entendi, está correto?” pode ajudar a evitar conflitos de comunicação. Já presenciei duas pessoas falando a mesma coisa e conseguindo discordar entre si. É pode ser estranho, mas acontece. Pensemos se já não passamos por isso também. E nesta era de comunicação digital, comunicação virtual, sigamos nos comunicando cada vez mais, de preferência com mais entendimento, mais paciência e respeito às opiniões divergentes...Até Breve!

Fui seduzida na infância - realidade ou fantasia

Por Francisco César Pereira Retrão -  Freud como médico e pesquisador da sua época, tinha sede pela investigação focada no que estava além dos sintomas físicos das doenças. Diante disso lançou mão de investigações relacionadas a uma inquietação: os sintomas perceptíveis em consultório têm uma gênese que não é “visível” a olho nu. A comunicação preliminar faz parte de uma obra de estudos que visa investigar essa gênese, versa sobre histeria e para muitos ela inaugura a psicanálise. Nessa comunicação a parte teórica foi elaborada por Breuer e a parte técnica por Freud. A tese principal desta comunicação afirma: o sintoma é um trauma ocorrido no passado que se manifesta no presente através dos sintomas e que sua gênese está geralmente na infância. A ligação entre os dois não é de causa e efeito, mas algo mais profundo chamado por eles de ligação onírica. Para tentar “visualizar” essa gênese – Freud - começou a compreender que era na vida psíquica que estava a razão do desenvolvimento dos sintomas histéricos. Fez então uma primeira constatação (a partir da hipnose e do método catártico): nos fenômenos da histeria há sempre uma experiência muito forte no âmbito afetivo-sexual de quase todos os sujeitos de modo que toda histeria seria consequência de um trauma psíquico. Esta histeria se dá por uma série de impressões afetivas baseadas em um histórico de sofrimentos. Freud então entende nesse primeiro momento: - “Na histeria terei que lidar com a atuação dos traumas psíquicos”. Os sintomas advindos desses traumas não se apresentam com uma transparência suficiente em todos os casos impossibilitando determinar facilmente o sintoma pelo trauma psíquico. A anorexia e o vômito são exceções nessa tópica, segundo a análise feita por Freud ao identificar facilmente os traumas que causavam esses dois sintomas. O questionamento feito nessa questão é: como um trauma gerado no passado se transforma em um sintoma? Como algo insignificante em uma pessoa poderia em outra causar um trauma? Quando ocorreu o trauma a pessoa não teve a opção de reagir adequadamente à situação desagradável ou não tinha a tinha maturidade humana suficiente para suportar a situação vivida por isso houve a instalação do trauma. Freud na prática terapêutica foi vislumbrando um caminho de cura intitulado “escoamento do afeto” comprovando o seguinte: o paciente ao expressar verbalmente o afeto violento atualizando a vivência daquele momento do passado com todas as emoções envolvidas (raiva, repulsa, indignação) uma vez mais - ao falar sobre ele - o sintoma crônico desaparece desse momento em diante. A terapia aqui é o meio facilitador e propiciador dessa ab-reação. Ela poderá ocorrer também com o paciente sob hipnose ao reviver no presente a situação traumática, fazendo ele reagir com a expressão de toda emoção. O que é muito melhor e efetivo do que a sugestão direta. A energia psíquica envolvida na vivência desagradável versa sobre quando alguma coisa fica estrangulada e essa energia fica aprisionada, se movimentando dentro dessa segunda consciência e a partir dali vai se manifestar em um momento posterior como sintoma. Nesse sentido o sintoma é a lembrança de um trauma, razão pela qual os pacientes histéricos sofrem de reminiscências. Por exemplo uma empregada doméstica que é insultada pela sua patroa e por medo de perder o emprego não revida o insulto. A energia da raiva fica guardada e depois pode se transformar em um trauma ao reprimir essa lembrança, aparecendo em momento posterior da vida, o sintoma. Para que isso não aconteça a empregada poderia em outra ocasião dizer à sua patroa “as do fim” (como se diz aqui no Ceará) como resposta pelo insulto recebido e não reagido. O mecanismo psíquico sadio tem meios de lidar com o afeto gerador de um trauma psíquico. O que ele faz? Evoca ideias contraditórias como a de seu valor, de que é amado por outras pessoas e a má índole daquele que lhe ofende. Isso ajuda a reduzir o impacto do afeto causado pelo insulto ocasionando a diminuição da sua intensidade até que não haja mais lembrança que influencie negativamente. No que diz respeito à causa da histeria - Freud – fala da ocorrência da incompatibilidade explicitando o seguinte: o paciente tem uma experiência afetiva tão forte que é incompatível com sua capacidade de assimilação que ele decide esquecer, então reprime. Essa experiência está diretamente ligada a sensações sexuais vividas realmente ou a fantasias que invadiram suas “descobertas sexuais”. Freud acredita que a representação sexual recalcada é substituída na consciência pela obsessão.  Os abusos sexuais sofridos na pequena infância mesmo que a criança não tenha ainda desenvolvimento sexual, são a causa principal da histeria - segundo Freud – o que se dá pela passividade sexual durante o período pré-sexual. Destarte a etiologia específica da histeria é a sexualidade. Formula a partir dessa realidade a teoria da sedução acreditando piamente que todos os pacientes histéricos foram abusados, seduzidos sexualmente na infância, quer seja por uma pessoa mais velha ou por um irmão mais velho. Mas sempre foi algo real que aconteceu na compreensão do paciente. Percebo que o equívoco cometido aqui por Freud está no fato de que o pressuposto estava errado, o fato também de acreditar na fala do paciente como se o material trazido havia acontecido de verdade não percebendo que haveria uma realidade que ele só descobrirá depois (fantasia) e que mesmo sob hipnose os pacientes mentiam. Sua capacidade de julgamento nesse âmbito ainda estava incipiente e por não entender o que era o inconsciente não podia “prever” certas reações. Percebe-se até aqui uma relação muito estreita na história da histeria e na teoria da sedução, pois em ambas havia a crença de que toda histérica teria sido abusada na infância e de que o relato estava baseado em um fato real. A premissa comum é de cunho sexual. Freud percebe então nas diversas experiências que a fala não estava relacionada sempre a um fato. O que lhe faz imaginar uma realidade que ainda não sabe qual é e na qual se deparou com o limite de não conseguir alcançar as causas mais profundas do sofrimento dos seus pacientes. Vai viver depois um processo de superação da teoria da sedução compreendendo que no relato dos pacientes há muita fantasia. Encaminhar-se-ão outras descobertas.

Teoria da Sedução - o engano de Freud que a psicanálise agradece

Por Dulce Scalzilli -  Freud, em sua primeira publicação, em Viena, 1893, formula algumas teorias sobre a histeria, depois de começar a tratar mulheres histéricas, a partir da influência de Charcot, quando trabalhou com este na Salpêtrière, em Paris. Ainda com um discurso onde fazia muito uso de termos médicos, porém com genialidade, Freud mantinha uma comunidade médica atenta aos seus estudos e conclusões, apesar desta ser incrédula a respeito de seus métodos terapêuticos. Precisava manter seus colegas  atentos e, ao mesmo tempo, ele mesmo percebia estar se afastando da Medicina e seguindo por outros caminhos, ainda desconhecidos, mas para um lugar do qual ela não faria parte, a não ser para identificar uma doença orgânica e tratá-la de acordo com os protocolos médicos. Freud começa a utilizar-se da hipnose para tratar seus pacientes, método do qual se apoderou do colega Breuer. O método consistia em colocar o paciente sob hipnose, indagar sobre a origem de algum sintoma, quando este teria surgido pela primeira vez e qual a conexão deste com sua vida presente. A memória que, em vigília era inacessível, retornava quando em estado hipnótico. Seguindo a linha de raciocínio de Charcot, que dizia que os sintomas histéricos estavam associados a um trauma físico, Freud amplia esse entendimento, analisando vários pacientes, e deduz que há uma semelhança entre os sintomas da histeria traumática (Charcot) e a histeria não traumática, comum. Com a diferença que, na última, existia uma série de afetos (dor, medo, terror) operantes no trauma, ou seja, o trauma seria psíquico e não mecânico. Freud percebe que, por sugestão do analista/médico, durante a hipnose, ao lembrar do momento em que o sintoma se instaurou pela primeira vez, este momento guardava, geralmente, um afeto muito forte e a respeito do qual não teria acontecido uma reação adequada, ficando este sentimento recalcado no inconsciente. Ao lembrar do episódio e ter a respeito dele a reação recalcada, com a intensidade adequada, uma “ab-reação”, ocorreria uma “catarse”, os sintomas desapareceriam e o paciente estaria “curado”. Também descobre que a hipnose não é uma unanimidade, uma vez que nem todas as pessoas podiam ser hipnotizadas, por não o desejarem ou por resistências internas, inconscientes. Começa a utilizar-se de outras formas de tratamento, como a imposição das mãos e a solicitar que o paciente falasse o que lembrava a respeito do surgimento de determinado sintoma ao sentir a pressão de sua mão na testa. Até que, uma paciente, Anna O., lhe sugere que a deixe falar livremente. Observa então que as lembranças, as falas deixadas acontecerem de forma livre, o que  viesse à consciência, mesmo que parecesse não ter nada a ver com os sintomas e/ou conteúdos de sua análise, se revelaram mais verdadeiras por virem do paciente e não por sugestão do analista e, dessa forma, muito mais libertadoras. Assim, através dessas observações, conclui que pacientes histéricos sofrem de Traumas Psíquicos não ab-reagidos, e sua cura viria através do Método Catártico.  A catarse reconduz o sintoma físico para o campo psíquico e resolve a contradição quando o afeto é descarregado por meio da fala. Ocorre a conversão de uma representação em um sintoma no corpo. Nesta apresentação Freud acredita poder sustentar que existe uma divisão da consciência histérica. Ou o paciente tem condições psíquicas para a conversão, ou existe uma divisão da consciência histérica, transformando os afetos recalcados não “ab-reagidos” em obsessões (ligadas ao pensamento) ou em fobias (dirigidas a um objeto). Para Freud, a etiologia da histeria teria seu fundamento em traumas psíquicos ligados especificamente à sexualidade, principalmente em mulheres e, durante muito tempo, não abriu mão desta conclusão. No decorrer de seus tratamentos, de repente, se depara com vários casos em que teriam ocorrido abusos sexuais na tenra infância, antes da puberdade. Esses pacientes teriam sido seduzidos por pai, mãe, irmão/irmã mais velho, primo, prima, professores, babás. E que estes supostos abusos/seduções geravam traumas psíquicos, cujos sintomas se traduziam numa neurose histérica, formulando assim a Teoria da Sedução. Porém, alertado pela quantidade de casos relatados, começa a questionar essas lembranças. E, numa análise mais profunda e num processo investigativo dos casos, à exaustão, descobre que tais lembranças não seriam de fatos reais, apenas “pareciam” reais, onde pudesse ter havido um desejo ou fantasia não condizente com a vida real do paciente e por isso, o sentimento gerado por essa fantasia ficou registrado na sua memória inconsciente.  Durante a hipnose, aquele desejo assumia uma forma real, como se tivesse ocorrido de verdade. Ou, outras vezes, fora do estado hipnótico, era até inventado, talvez no desejo inconsciente de que aquela “fantasia” tivesse ocorrido realmente. E então se dá conta do equívoco da sua Teoria da Sedução. A principal relação entre este “engano” de Freud e os já ocorridos anteriormente na história da histeria seria o fato de que todos os profissionais (médicos) envolvidos no tratamento das pacientes histéricas acreditaram que os relatos obtidos através da hipnose seriam verdadeiros. Freud postula então que seus pacientes não tinham memórias de abusos sexuais sofridos na infância, mas um conflito psíquico inconsciente, gerado por um desejo inconsciente (fantasia), e esse sim, seria o principal causador da neurose histérica. Esta descoberta teria resolvido o problema da Teoria da Sedução. Pois as fantasias relatadas como fatos reais dão a Freud elementos para sustentar que o fantasiado era tão importante como se tivesse ocorrido. Tratava-se de uma realidade psíquica, sentida e trazida como real a partir da sua memória.

Em busca de entender o equívoco da teoria da sedução

Por Silvio Ribeiro da Silva -  A tese principal associada à comunicação preliminar está ligada a como os teóricos, Freud e Breuer, entendiam ser o sintoma presente algo ligado a um trauma acontecido no passado. Para eles, o trauma encontrava sua origem na infância.  É curioso pensar que eles entendiam ser a relação entre o trauma e o sintoma algo não diretivo, ou seja, um não era necessariamente consequência do outro. A teoria da hipnose era colocada em prática no tratamento proposto pelos dois. O objetivo da hipnose era resgatar na memória do paciente as lembranças esquecidas. Na hipnose, buscava-se fazer com que o paciente se lembrasse do trauma e reagisse a ele com o uso das palavras, colocando, no presente, a emoção, a fim de expurgar, através da catarse, aquela emoção ‘ácida’ mal resolvida no passado. Outra teoria associada é a da ab-reação, a qual consiste no seguinte: uma pessoa é tratada com grosseria e falta de respeito por outra em escala superior; pelo fato de o agressor ser superior, a pessoa não pode revidar (o não revide seria o gerador do trauma, a ser manifestado como sintoma posteriormente); a ab-reação ocorreria se o agredido revidasse de alguma forma a agressão sofrida (jogando café no rosto do agressor, por exemplo). O recalque seria outro aspecto relevante para o sintoma segundo Freud e Breuer. Emoções (afetos) recalcados (engolidos) podem se manifestar futuramente como sintomas de algo marcante do passado e não ab-reagido. Para Freud, a sexualidade é a etiologia da histeria. Sobre isso, ele indicava o que a hipnose e a catarse, métodos até então em uso, buscavam alcançar. Começava a tomar mais força a tese de que o enunciado do paciente não era tão importante sem a presença da enunciação (o que leva à produção de um enunciado. Pode-se associar isso ao que o próprio Freud chamava de ‘exploração arqueológica’ do caso relatado pelo paciente). O Freud psicanalista surgia a partir do interesse pelo enigma por trás dos relatos do paciente. Ganhava força o desejo de Freud pela investigação das causas por trás das doenças. Nesse sentido, o sintoma presente no paciente pode ser interpretado pelo analista como restos de momentos psíquicos passados não resolvidos (não ab-reagidos) e que se manifestam na consciência, trazendo por trás um arcabouço psíquico vinculado a um quadro patológico qualquer, manifestado, no caso da histeria, como sintoma somático. Cabe ressaltar que, para Freud, tudo isto tinha como pontapé inicial uma experiência sexual infantil oriunda de um contexto de sedução feita por um adulto (ainda não havia indicação sobre o lugar do desejo e da fantasia nisso tudo). Assim, o tratamento analítico consistia em fazer associações entre os dizeres do paciente, em busca do momento inicial gerador do quadro atual, aflitivo para o paciente, associando isso tudo a uma experiência sexual precoce. Junto com Breuer, Freud desenvolvia seu trabalho acoplado à teoria da sedução. Para Freud, como já dito, a sexualidade é a causa da histeria. Essa histeria viria como resposta sintomática a um afeto gerado por conta de uma sedução, que levou a um caso de abuso sexual na infância, sofrida pelo paciente, seja por um cuidador, seja por outra pessoa mais velha, seja por alguém próximo, também já vítima de abuso sexual. Tempos depois de dizer isso, o próprio Freud admitiu que foi um equívoco de sua parte, ou seja, seus pacientes não sofreram efetivo abuso sexual, mas, sim, viveram uma experiência sexual fantasiosa. Freud, então, reorganiza sua teoria: anteriormente, havia um trauma no passado, o qual se manifestava como um sintoma; a partir de então, o que existe é uma fantasia sobre o que aconteceu nesta infância. Por mais que a fantasia não seja algo concreto, ela não poderia ser absolutamente descartada, já que está, de algum modo, conectada ao quadro histérico, constituindo, assim, parte da enunciação do paciente (o gerador do enunciado produzido por ele na associação livre). A fantasia acabava tendo um papel estruturante para a realidade factual, de certo modo facilitando o acesso ao mundo real. O equívoco de Freud em relação à teoria da sedução deve ter ocorrido pela, até então, ausência de sua parte de uma maior reflexão a respeito do que acontecia durante o processo de análise com o paciente. Analisando sua trajetória profissional, percebe-se que houve momentos em que, após uma reflexão mais detida, ele acabou por abandonar um processo terapêutico em uso e adotar outro. Assim, ele parte da hipnose (feita com o paciente fora de si) e começa o método da associação livre (com o paciente fora de hipnose). A pessoa hipnotizada relatava fatos de sua vida passada, mas não se lembrava deles quando retornava do momento de transe. Assim, Freud deve ter percebido que não fazia muito sentido ter acesso àqueles dados, já que a pessoa não se lembrava do que havia acontecido depois do transe. Logo, o que fazer com aquilo? De modo semelhante, ao refletir sobre a questão da sedução, apresentada pelos pacientes, ele deve ter ido concluindo que era muito estranho um número tão grande de pessoas ter sido vítima de sedução. Um dos motivos dessa conclusão pode ter sido o fato de, dentre outros aspectos, os pacientes irem dizendo a ele que as considerações feitas acerca de seu caso não se encaixavam na verdade dos fatos. Se não se encaixavam, é porque havia alguma peça errada naquele quebra-cabeça. Possivelmente, a peça errada era a fantasia do paciente, tratada até então como verdade factual. Como já dito, a fantasia era um importante elemento, mas deveria ser tratada como uma estratégia para a execução (montagem) do quebra-cabeça, não como uma peça desse quebra-cabeça. Ao longo de seu processo de construção como analista, houve alguns equívocos de Freud, os quais podem ser associados a outros cometidos na história da histeria. No caso da histeria, os estudos a seu respeito remetem a Hipócrates (460-377 a.C.), considerado o Pai da Medicina, na Grécia Antiga. Séculos depois, quando Freud desperta seu interesse pelo tema, muito já havia ocorrido e, certamente, houve muitas modificações no que diz respeito à teoria. A tentativa incessante de descobrir a causa real de um mal acaba por conduzir a caminhos equivocados pelo fato de que ocorrem mudanças nos fatos nem sempre acompanhadas pelo interessado por aquilo. A ‘substituição’ da ideia de sedução pela tese da fantasia resolveria os problemas daquela, por mais que posteriormente tenham surgido alguns pontos de vista bem contundentes de que abandonar a teoria da sedução tenha sido uma atitude covarde da parte dele, ou até mesmo um meio de autopromoção e aceitação, considerando a reação negativa da comunidade científica da época para a teoria da sedução. A fantasia de algum modo está contida na sedução.  

Análise a três - uma visão crítica sobre o trabalho técnico de Freud no caso Dora

Por Alan Araújo da Costa -  Analisar o trabalho terapêutico desenvolvido por Freud no caso Dora sempre será bastante curioso. Se passando no início da estruturação da técnica psicanalítica, logo após abandonar a hipnose e começando a utilizar a livre associação, percebemos com riqueza de detalhes o desenvolvimento do seu trabalho como terapeuta, os seus deslizes e a base da ideia daquilo que viria a se tornar a técnica clínica da psicanálise. Logo no prefácio, Freud esclarece que não foi possível chegar até a meta fixada, pois a paciente abandonou antes que chegassem nela. Essa questão da expectativa dele em relação ao atendimento de Dora me leva a refletir sobre a tal meta fixada, sobre quem estipulou, se era algo combinado, e principalmente qual a relação de um ponto em um tratamento analítico. Essas questões, assim como o texto por si só, mostram que Freud vivia em função de buscar um espaço para sua teoria, de “fixar” a psicanálise no meio do corpo médico, e o quanto ele pecou em não se desprender disso, tanto que posteriormente em outras obras ele estabelece que o terapeuta deve manter a neutralidade dentro do setting analítico, o que é algo que não encontramos ao ler o caso Dora. Outro importante conceito da técnica que posso destacar é a abstinência do terapeuta, dado que deixou suas expectativas serem levadas durante à análise, ou melhor dizendo o “planejamento” do caso. Nessa época Freud já havia abandonado a hipnose, o tratamento sugestivo, e tinha recém adotado o método da livre associação, pois via como sendo uma técnica essencial para combater as forças da resistência. No entanto, na tentativa de estabelecer a livre associação vemos um Freud ainda muito ligado com a técnica da sugestão, pois na tentativa de ouvir o paciente ele acabava voltando sua atenção para si próprio e para seus conteúdos. Isso mostra o desuso da atenção que ele mencionaria posteriormente, que deveria permanecer de forma flutuante a fim de que não se fixasse a nenhum conteúdo específico, estando aberto para as questões que o paciente livre associaria. Uma forma de pensar sobre os desusos da técnica psicanalítica no caso Dora pode ser vista no contexto em que ele se encontrava, logo após ter desenvolvido a interpretação dos sonhos ele se confrontava com a necessidade de mostrar (para si) seus conceitos na clínica, e como resultado disso vemos uma incessante procura para tentar provar a teoria, deixando ocupado o espaço da atenção que escutaria os conteúdos do paciente. O método investigativo de Freud o fez pecar também em trabalhar a transferência dentro deste caso. É possível observar que ele já iniciava o atendimento com suas próprias respostas, tendo apenas o trabalho de encaixá-las na história da paciente. A transferência tem um peso impar para o funcionamento da análise, e olhar um trabalho terapêutico realizado por um psicanalista que ignora tal fator pode ser considerado (o que ele mesmo chamou de) selvageria. O caso Dora me leva a acreditar que poderia não ter sido denominado de tal maneira, pois a paciente Dora foi a última a ser analisada nesse meio. Nos atendimentos, Freud colocava suas próprias premissas, e fundamentos no meio da relação terapêutica, o que leva a compreender a sua ilusão de estar analisando Dora, e que na verdade estava (inconscientemente) analisando a si próprio e sua teoria. Vale destacar da mesma forma a postura do terapeuta diante da sintomatologia da paciente neurose, no qual Freud demonstrava voltar sua atenção para a eliminação dos sintomas, representando estar procurando uma cura, o que é incompreensível ao ponto de vista psicanalítico acerca do tratamento. A psicanálise não dá o que o paciente quer, dá o que ele precisa. Não existe essa relação médico-paciente dentro da análise. De acordo com o texto de 1910 sobre a psicanalise selvagem podemos refletir que tais atitudes causam mais danos a própria psicanálise do que ao doente. Esse texto ao ser analisado de forma crítica parece ser sido escrito por ele ao olhar suas posturas diante da técnica clínica, mesmo que seja de forma inconsciente, que ao recomendar para os médicos ele também estivesse si incluindo.      Dessa forma, vemos uma prática ainda engatinhando na época do caso Dora. Juntamente com isso, também vemos um Freud carregando suas incertezas em relação à teoria e o tratamento psicanalítico, e que olhando de forma positiva serviu para que posteriormente reajustasse pontos importantes e solidificasse o tratamento dentro do contexto cultural no qual se encontrava.

O pulso ainda pulsa - a pulsão e suas vicissitudes

Por Camila Ferreira de Avila -  ... O pulso ainda pulsa - Hepatite, escarlatina, estupidez, paralisiaToxoplasmose, sarampo, esquizofreniaUlcera, trombose, coqueluche, hipocondriaSífilis, ciúmes, asma, cleptomaniaO corpo ainda é pouco...(O pulso - Marcelo Fromer / Antonio Bellotto / Arnaldo Filho) O que te faz pulsar? O que te faz viver? Que energia conduz nossa vida? Sigmund Freud trouxe para a Psicanálise o conceito de Pulsão. De forma bem genérica podemos compreender como aquilo que nos instiga, que nos leva a alguma direção ou ação. Mas ao contrario de um pensamento behaviorista para o comportamento humano baseado em estimulo/resposta, a pulsão não é representada por um estímulo externo e sim um estímulo interno, não vem do ambiente. Seria então esse estímulo interno o que compreendemos por instinto? Neste sentido, podemos pensar que o instinto é o que nos faz pulsar, estando ligado à preservação da espécie, estaríamos marcados geneticamente. Portanto, o instinto é filogenético, independe de aprendizagem. Mas Freud traz a ideia de Pulsão como algo diferente de Instinto, visto que a pulsão é um estímulo para a psique. A função da pulsão é fazer o aparelho psíquico funcionar. Pense neste constructo como algo entre o somático e o psíquico. É ontogenético, do próprio individuo. Freud inicia o conceito de Pulsão em 1905 quando escreve “Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, mas é em 1915 no texto “As pulsões e suas vicissitudes” que se debruça com mais afinco a esta formulação. O conceito de Pulsão é fundamental para a clínica psicanalítica. Aspectos relativos à força, ao ímpeto, ao impacto são introduzidos na dimensão psíquica. Sendo assim, a pulsão seria a pressão ou força que nos impele para um objetivo. Não podemos esquecer que tal pressão é interna, portanto, impossível fugir desse estímulo interno. Agora imagine uma pressão constante, a pulsão é da ordem de uma força constante. É a força que nos faz ser o que somos em uma perspectiva constante. Somos instigados o tempo todo por essa força. Mas qual objetivo ou meta dessa força? A força que nos pressiona constantemente e da qual é impossível fugir tem como meta a obtenção de prazer, a satisfação. A pulsão tem sempre uma fonte corporal, provocando uma erotização, fazendo dessa forma com que Freud pensasse a sexualidade de uma maneira bem diferente, para além do genital. A sexualidade humana não estaria baseada em instintos como nos animais, e sim na pulsão. Organizando as ideias iniciais, a pulsão é uma energia que alimenta e pressiona a psique. Tem uma fonte corporal, portanto, está entre o corpo e a psique. De uma força constante e impossível de se fugir visto que trata-se de um estímulo interno e que tem como meta a satisfação. Além dessas características, inclua-se o direcionamento para um objeto. Características da pulsão: energia constante, busca pelo prazer e é dirigida para um objeto. O objeto é aquilo que nos desperta o desejo, aquilo que nos atrai, é aquele pelo qual a pulsão alcança sua meta. A pulsão se coloca entre nós e o objeto do desejo, ou objeto que causa o desejo. A pulsão e o objeto tem uma conexão, mas uma conexão de uma ordem que não está pronta, não é ditada pela natureza, é estabelecida, montada, é própria de cada indivíduo. Sendo um conceito ontológico, o que cada um faz com essa força constante é diferente. Exige um trabalho psíquico. O que fazer com essa pressão é algo que se apresenta para nós o tempo todo. Cada um tem que se haver com essa força, tal trabalho pode ocorrer através dos sintomas, da sexualidade, da escolha do objeto. Freud destaca que os destinos da pulsão seriam o narcisismo, a repressão, a sublimação e a reversão no contrário (ambivalência). O narcisismo é um dos destinos da pulsão. Nesta situação, o objeto da pulsão torna-se o próprio eu. Freud dividiu o narcisismo em dois tipos: narcisismo primário e narcisismo secundário. No narcisismo primário (pode também ser compreendido como uma fase do desenvolvimento) não existe objeto externo para se relacionar (autoerotismo). Já no narcisismo secundário, há uma relação com outros objetos, mas a libido retorna para o próprio sujeito. Abandona o mundo externo, retira a libido do mundo externo. A repressão faz um trabalho de retirar, expulsar da consciência conteúdos desagradáveis. Tem como objetivo evitar o desprazer. A essência deste mecanismo, portanto, é rejeitar e manter tais conteúdos afastados da consciência. O conteúdo recalcado pode retornar de algumas formas como, por exemplo: nos sonhos, na transferência, nos sintomas e ato falho. Na sublimação, outra vicissitude da pulsão, um novo destino é dado aos desejos. Desejos que não podem ser manifestos em função das regras sociais, censuras, moral, religiosidade, são transformados em algo socialmente aceito. Há uma dessexualização da libido. Freud também assinala a reversão no contrário. Esta reversão pode acontecer com a inversão do conteúdo, transformação do amor em ódio ou na conversão da atividade em passividade: sadismo/masoquismo, exibicionismo/voyeurismo. Por fim, o que fica explicitado neste momento é que a pulsão sempre encontra um caminho. Nossa psique é desejante e busca o prazer, o pulso sempre pulsa, algo nos impulsiona para a vida. Mesmo com a sífilis, o ciúmes, a asma e a cleptomania essa força não diminui. Mesmo que corpo ainda seja pouco, o pulso ainda pulsa e a pulsão segue seu curso.

Caso Dora - seria Freud um culpado inocente?

Por Camila Ferreira de Avila -  “Este histórico de apenas três meses é abarcável e memoriável; mas seus resultados permaneceram incompletos em mais de um ponto de vista.... Desse modo, posso oferecer aqui apenas um fragmento de uma análise”. (Freud, 1905) “Bruchstuck einer Hysterie-Analyse” em Alemão, “Fragmento da análise de um caso de histeria” em português ou simplesmente o “O caso Dora”. Sempre me intrigou as escolhas dos nomes fictícios dos pacientes de Freud. Por que ele teria escolhido o nome “Dora” para Ida Bauer? A pesquisa etimológica do nome Dora resultou em alguns achados, nome de origem grega que significa presente ou dádiva (dôron). Fico imaginando quais foram os motivos pelo qual Freud escolheu este e não outro nome feminino, existiram motivos inconscientes para atribuir a Dora este status de presente ou dádiva? Existem escolhas que não são influenciadas pelo inconsciente? Para Freud com certeza não. Ainda sobre o nome Dora, a palavra pode ter outros significados como, por exemplo, na Botânica, dora (Sorghum dora) é uma angiosperma (tem a capacidade de produzir flores e frutos), da família das gramíneas, sorgo -apesar de pouco utilizado no Brasil para o consumo humano, mas é o quinto cereal mais importante do mundo, muito consumido na África. Mas entre a Grécia e a África, o que esperar de Dora? O que teria levado Sigmund Freud a publicar e se expor no âmbito científico através de um caso de insucesso? Para aqueles que não tiveram a oportunidade ainda de ler “O caso Dora” não espere encontrar um relato de sucesso total, ao contrário, será a leitura de um Freud que por vezes contradiz seus achados, mais focado em construir uma teoria do que ajudar a sua paciente. Mesmo com erros e descuidos Freud não apenas escolheu publicar o caso (Dora foi atendida em 1900, Freud escreveu o artigo em 1901 e publicou em 1905), como escolheu também um nome com significado de presente. Imagino então que Freud compreendia que Dora era uma mistura de dôron (presente) com Sorghum dora, com capacidade de produzir flores e frutos e que após transformações poderia alimentar a teoria Psicanalítica. Clarice Lispector tem uma frase que diz: “passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar. Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro. Sou uma culpada inocente”, e é nesta perspectiva, olhando Freud como um culpado inocente que podemos compreender a publicação do Caso Dora. Publicou o caso Dora entre “A interpretação dos sonhos” e os “Três ensaios da teoria da sexualidade”, usou o caso para fazer a ponte entre teoria e prática. Mas sempre com uma pontinha de culpa, acrescentando notas na publicação do caso por vários anos. A Psicanálise ainda era vista com descrença pela classe médica, Freud era alvo constante de críticas. No tratamento de Dora, pretendia demonstrar o uso de técnicas da psicanálise, bem como comprovar seus escritos sobre sexualidade infantil e histeria. Neste período a hipnose e o método catártico haviam sido abandonados enquanto técnicas psicanalíticas, Freud já fazia uso da associação livre. Sem a pretensão de trazer uma definição teórica fechada, a associação livre é uma técnica que consiste em que o paciente fale livremente sobre tudo que vier à sua mente. A ideia é reduzir as resistências no fluxo de pensamentos. Entretanto, percebe-se em várias situações descritas por Freud que ele direcionava as ideias de Dora ao encontro da construção de sua teoria (principalmente nos conteúdos ligados à sexualidade). Neste aspecto apesar de não contribuir com Dora conforme esperado, foi possível para Freud ampliar a ideia acerca da origem das patologias para além do que se imaginava anteriormente. Outro ponto abordado por ele foi o uso da interpretação dos sonhos nos atendimentos. Em destaque dois sonhos trazidos por Dora foram enredo de muitas sessões. Para Freud a interpretação dos sonhos seria um auxílio para trazer à tona conteúdos reprimidos ajudando na elucidação dos sintomas. A interpretação dos sonhos era análoga à interpretação dos sintomas. Freud buscou construir sua teoria baseado em seus casos clínicos. Utilizou o atendimento clínico para concretamente interpretar os sonhos da paciente, teoria e prática em uma relação de co-dependência. Paralelo ao seu objetivo inicial Freud começou a perceber o surgimento de uma dinâmica muito importante na relação médico/paciente denominada transferência. Freud atendeu Dora por apenas três meses, e emblematicamente, a paciente abandonou o tratamento em 31 de dezembro. A ideia de transferência pode ser compreendida como uma reedição de afetos do paciente na figura do terapeuta, por exemplo: a relação com a mãe, ou com o pai, ou com um namorado. Uma dinâmica que acontece, sobretudo, no tratamento psicanalítico. O paciente revive tais afetos com o analista. Tais afetos podem ser bons ou ruins. No caso de Dora, essa transferência foi negativa. Para Freud o abandono da paciente do tratamento aconteceu pois ele não interpretou a transferência, não houve um manejo adequado deste processo. Percebeu então o poder da transferência no sucesso ou fracasso do tratamento. O autor admite seu erro e aproveita deste mesmo erro para também justificar a publicação do caso destacando a importância e o cuidado que o psicanalista precisava ter com a relação médico/paciente. O encerramento prematuro do atendimento de Dora não possibilitou que Freud oferecesse resultados completos. Não conseguiu ajudar sua paciente, falhou. Em 1917 Freud escreve que “a transferência esta presente no paciente desde o começo do tratamento e, por algum tempo, é o mais poderoso móvel do seu progresso”. As críticas à publicação e as falhas de Freud na condução do caso são várias, se estendem até os dias atuais. Mas em nada diminui a genialidade de Freud inclusive fazendo sua mea-culpa. É certo que ficou incomodado com seus erros– justificado com tantas notas posteriores, mas acredito que os avanços, inclusive, com os não acertos, o conduziram na aceitação de ser um culpado inocente, cometeu erros na ânsia de acertar. “Você é livre para fazer suas escolhas, mas prisioneiro das consequências” (Pablo Neruda).