Por Helenice da Conceição C. Lopes -
A história desenvolve-se em torno de 2 meninos Brian Lackey e Neil McComick que passaram pela mesma experiência de abuso infantil, mas cada um “processou” essa experiência de formas diferentes: Brian Lackey não consegue lembrar-se e Neil McComick não consegue esquecer. Em um processo de busca de Brian, o reencontrar-se com Nil, possibilita que se ajudem a ressignificar o abuso pelo qual passaram juntos.
Tendo como base a teoria psicanalítica Freudiana, a apresentação inicial do filme na triangulação das duas crianças abusadas e seu treinador pedófilo, quase nos faz sucumbir ao primeiro erro reconhecido por Freud no desenvolver de seu trabalho sobre a Psicogenese das Neuroses, a manifestação histérica na vida adulta como resultante de um processo de sedução ocorrido nos primeiros anos da infância. Porém, assim como no processo de evolução da psicanálise Freudiana, no filme vamos tomando conhecimento da complexidade de uma possível estruturação da libido humana.
Vemos que os dois meninos de 8 anos abusados, segundo Os três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, estão no período de latência, período após a fase fálica (em torno dos 5 anos) e anterior a puberdade e que ambos tem a triangulação do Édipo não tão estruturados: pai - mãe - criança. A vértice pai de Neil McComick é constantemente alterado pelos inúmeros namorados de sua Mãe, namorados esses que em seus olhos de criança já desperta-lhe a observação sensual, apresentando até mesmo uma disputa pelo objeto comum com sua mãe. A falta da presença fixa da figura paterna na infância de Nill é facilmente preenchida pela dedicação e atenção que o treinador lhe oferece, desenvolvida através de jogos de sedução para consumação do abuso. No filme, a perversão do treinador em ser possuído pela criança, provoca o comportamento perverso que Nil desenvolve em sua adolescência, não aprofundando vínculos afetivos e nos sintoma característico de sua neurose obsessiva de relacionar-se com homens mais velhos, sempre procurando reencontrar o afeto que imaginava ter recebido de seu treinador na infância.
Para Brian Lackey, vemos a construção do comportamento neurótico através das lembranças recalcadas resultantes do abuso sofrido. Os sintomas em Brian apresentam-se através da sangramento nasal inconscientemente provocado, como forma de retorno ao desmaio após ao abuso sofrido, a enurese noturna associado a excitação sexual proibida e provocada pelo abuso , o ódio ao pai que não era presente em sua infância, e posteriormente a sublimação desenvolvida na crença de extraterrestres e abdução, presentes em seus sonhos e como uma forma condensada de apresentar-se a figura do pai substituído pelo treinador e deslocada para a figura do extra terrestre, pai que não foi de sua escolha e que não possuía entendimento dentro de seu universo infantil; e a abdução como a condensação do abuso sofrido. Enquanto Nil faz seu processo de busca através do comportamento perverso presente em suas relações de prostituição, Brian vive sua busca através da sublimação na crença em extraterrestre, forma de condensação pela qual seu inconsciente encontrou, mesmo que em processo de busca ele nunca reencontrar-se com a figura central de seu trauma. O reencontro entre Brian e Nil possibilitou a reconstrução do momento compartilhado por ambos, através das lembranças nítidas do perverso Nil e sua vivência de afeto com neurótico Brian que buscava sair de seu estado neurótico quase alucinatório. Brian consegue entender seus sonhos e reconstruir suas lembranças e Nil entende que nunca foi amado como acreditou ser pelo treinador e toma consciência da decrepitude de suas vidas.
A experiência da análise do filme foi perturbadora para mim, pois objetificar a dor de duas crianças que passaram por abuso e enquadrá-las no modelo psicanalítico Freudiano a fim de reconhecer os possíveis fatores motivadores de suas neuroses, mostrou-me que o modelo pode nos auxiliar enquanto psicanalistas no entendimento dos sintomas, mas não responde aos caminhos a serem tomados para acolher a dor do paciente e apresentar-lhe a decrepitude da existência humana sem amplificar os sintomas.___________Direção: Gregg Araki Plataforma: Prime Video
Por Fernanda B. Hisaba -
O conteúdo recalcado em nosso inconsciente busca, a todo momento, fazer-se sabido, tornar-se explícito e acessível, de tal forma que, descarregado, possa reduzir a quantidade de energia que nos afeta. O reprimido retorna, via de regra mascarado, nos chistes, nos atos falhos, na transferência, nos sintomas e nos sonhos.
O reprimido retorna, via de regra mascarado, nos chistes, nos atos falhos, na transferência, nos sintomas e nos sonhos.
Através da transferência, o analisando torna presente o trauma ocorrido no passado, o revive no ambiente terapêutico usando a figura do psicanalista para tal. Explicita seus afetos e desejos reprimidos. A transferência torna-se, desta forma, mecanismo fundamental através do qual o analista entra em contato com o conteúdo representacional que retorna do inconsciente do analisando.
Os sintomas, seguindo o mesmo processo regressivo que se dá na formação dos sonhos, obedecem a uma formação de compromisso entre as forças represadas no inconsciente e as resistências impostas pela censura, que procura manter desconhecidos os desejos que o paciente procura realizar. Para manifestar o resultado deste acordo, o paciente irá se valer de um elo enfraquecido presente em seu organismo, como um tornozelo torcido, um joelho comprometido por um reumatismo, um estômago sensível, um terror a ele incutido na infância.
Através dos sonhos, o homem busca a satisfação de um desejo reprimido, satisfação essa que ocorre sempre no tempo presente, e que se torna possível através do movimento regressivo que traz o conteúdo alojado no pré-consciente e inconsciente de volta ao sistema perceptivo, sensorial.
Os pensamentos oníricos, que expressam o reprimido, as ideias intoleráveis ao nosso consciente, são “manipulados” extensamente pela censura para que possam emergir de forma tal que não sejam reconhecidos e prontamente reenviados ao inconsciente.
Ao trabalho realizado pela censura sobre os pensamentos oníricos denominamos trabalho dos sonhos. Estes seriam a condensação, o deslocamento, a transposição dos afetos e a elaboração secundária.
Assim, um desejo reprimido que procura se realizar faz o papel de força propulsora no desencadeamento dos sonhos. Arma-se de pensamentos oníricos, fragmentos de imagens mnêmicas, reminiscências presentes no pré-consciente, associa-se a um afeto em trânsito e, moldado pelas resistências através dos trabalhos dos sonhos, emerge na consciência, disfarçado, em tempo presente, transmutado em alucinação.
Muitas pessoas a serem representadas unem-se em uma só. Fragmentos de palavras condensam-se e emergem sob a forma de uma outra palavra, desconhecida. Forma-se um “condeslocafeto secundário”, que compõe o conteúdo do sonho, através do trabalho da condensação. Múltiplas cadeias associativas são representadas em uma única, sobre determinada, que resume, em um conteúdo relativamente curto, o extenso material que constitui a fonte de um único sonho. Dessa forma, o trabalho da condensação satisfaz a necessidade de conduzir ao consciente uma enorme quantidade de informações em um ínfimo intervalo de tempo e espaço.
Porém, não satisfeita com o disfarce precário oferecido pelo trabalho da condensação, a censura impõe mais uma barreira. Através do deslocamento, o intolerável desejo de “matar o papai”, que é o provedor, que trabalha no campo e manuseia uma enxada, transforma-se em “queimar a colheita”. Talvez, aquela pessoa que, pelo trabalho da condensação, chama-se “Flanetecelo” e tem o meu nariz, os olhos do meu irmão, a voz da minha mãe e anda como meu tio, ateie fogo ao trigo. E o trigo, que me lembra cevada, me possibilitará celebrar, à beira da fogueira, tomando cerveja e dando risadas. O intenso afeto associado ao desejo de morte liga-se à ideia da celebração, destituída do pesaroso significado relacionado ao desejo primário, permitindo que eu alegremente inale a fumaça da cremação; desta forma, posso dar “descarga” a essa imensa quantidade de energia que me exauria, e que, provinda do inconsciente, incessantemente me torturava.
Ainda é possível que, submetido à elaboração secundária, crie um contexto, e o sonho que contarei em minha sessão de psicanálise começará com um convite para um luau no interior. E haverá violão tocando “Pra não dizer que não falei das flores”; comeremos batata-doce (que estava na maionese que fiz no jantar) assada na fogueira e um cachorro meio ébrio apagará com xixi as últimas brasas, tristes remanescentes de uma vida infeliz...
Aliás, provavelmente me esquecerei de tudo isso, e contarei que me lembro de ter dançado ao redor de uma fogueira ontem à noite, e me encontro exausta pelo intenso trabalho do sonho e estupefata com seu parco volume. E um odor de crematório me trará uma estranha sensação de paz.
Conhecer o trabalho dos sonhos permite ao psicanalista vislumbrar uma porta de acesso ao universo reprimido do sonhador. Assim, pode-se dar início ao árduo trabalho investigativo do par terapêutico que, em última instância, procura alívio através da descarga de um quantum de energia represada no inconsciente deste sonhador.
Por Alba Tengnom -
“Cinza, caro amigo, é toda teoria e verde a dourada árvore do saber” (Mefistófeles, em Fausto de Goethe).
Sem o saber clínico construído ao longo da experiência de trabalho de análise de inúmeros pacientes, não seria possível a Freud desenvolver as concepções teóricas psicanalíticas. Teoria e técnica são complementares e se constroem mutuamente na obra freudiana.
Porém, enquanto a teoria ganhava visibilidade e estivesse de certo modo estabelecida, o procedimento terapêutico ainda lutava para obter reconhecimento. O desenvolvimento da técnica da associação livre, regra fundamental da Psicanálise se dá de maneira gradual a partir do distanciamento de Freud em relação às técnicas hipnótica, sugestiva e catártica. Somente a partir de sua autoanálise e da experiência clínica Freud foi capaz de formular e aprimorar pouco a pouco a técnica psicanalítica, possibilitando o acesso ao material recalcado e revelando ao paciente parte de seu inconsciente.
Na técnica hipnótica utilizada inicialmente por Charcot e outros neurologistas no século XIX, o médico induzia o paciente mediante diferentes recursos, como o movimento de um objeto de modo pendular, a uma condição próxima ao sono. O doente em estado de passividade psíquica atendia aos comandos do hipnotizador para que narrasse fatos que não seria capaz de recordar em estado de vigília. O médico exercia, desse modo, grande poder sobre as ações corporais e o psiquismo do doente. A técnica sugestiva era aplicada juntamente com a hipnose: o paciente era levado ao estado hipnótico e o médico sugeria que o sintoma desaparecesse, o que geralmente ocorria temporariamente. O mérito do método hipnótico está na diferenciação dos doentes histéricos de outros doentes, e na descrição de sintomas, mecanismo e diagnóstico de uma doença até aquele momento ignorada como psicopatologia e considerada uma dissimulação.
Influenciado por Charcot no início de sua prática clínica, Freud também utilizou a técnica hipnótica sugestiva, mas pouco a pouco foi mesclando-a com outras técnicas, ao perceber sua utilidade para investigar as origens do trauma. No entanto, foram diversos os entraves encontrados por Freud ao aplicar a hipnose, um deles o fato de que nem todos os pacientes eram hipnotizáveis. Havia também a limitação da hipnose em vencer as resistências do paciente, já que a técnica apenas as suspendia temporariamente e não permitia observá-las para investigar as causas do adoecimento por meio da rememoração dos traumas. Sem uma investigação das causas da doença, os sintomas reapareciam.
Em seu texto Sobre a Psicoterapia, de 1905 [1904], Freud aponta uma diferença fundamental entre as técnicas sugestivas e o método psicanalítico inspirando-se na comparação que faz Leonardo Da Vinci entre as artes da pintura e escultura. Per via di porre seria o modo de operar da sugestão hipnótica, que não se interessa em investigar a origem e significado dos sintomas, e à semelhança da pintura que apenas acrescenta tinta a um quadro, introduz uma sugestão que busca se sobrepor à ideia patogênica. Per via di levare seria, por outro lado, o modo de atuar do método psicanalítico que, tal como o ato de esculpir em pedra, em vez de acrescentar algo, procura retirar, extrair, fazer aflorar a expressão e a gênese dos sintomas e do contexto psíquico que levou à patologia.
A chamada técnica catártica, utilizada para fins terapêuticos pela primeira vez por Joseph Breuer, também foi utilizada por Freud e descrita conjuntamente por ambos em Estudos sobre a Histeria. Diferentemente da hipnose, a técnica consistia em evocar lembranças associadas ao trauma, trazendo à consciência elementos inconscientes. Baseava-se também na teoria do trauma psíquico, mas introduziu uma mudança na relação entre médico e paciente, pois, pela primeira vez, o paciente devia tomar a iniciativa de investigar seu passado, em vez de submeter-se às ordens do médico na sugestão hipnótica. Ainda que sob hipnose, o paciente era orientado a recordar do momento das primeiras manifestações da doença, bem como do contexto em que o sintoma foi produzido. Quando a cena traumática era revivida na sessão, o afeto ligado a essa lembrança era trazido à consciência e liberado por meio da expressão verbal, percurso que geralmente suprimia o sintoma.
O procedimento catártico pressupunha, entretanto, que o paciente fosse hipnotizável e fundava-se na ampliação da consciência instaurada na hipnose. Embora a técnica ajudasse a trazer lembranças, pensamentos e impulsos que até então estavam fora da consciência, mostrou-se insuficiente quando as observações revelaram um quadro mais complexo da doença: não se tratava de uma única impressão traumática, mas de uma série de impressões de difícil identificação e solução que influíam na gênese dos sintomas.
A partir da constatação de que grande parte dos pacientes neuróticos não era passível de ser hipnotizada, de um interesse maior na investigação das origens da doença e de um pedido direto de uma paciente para que ele a deixasse falar livremente sem fazer perguntas, Freud passa a aplicar mudanças técnicas no procedimento catártico, abandonando o recurso à hipnose e introduzindo gradualmente o método da associação livre.
Conforme descrito em seu artigo O Método Psicanalítico de Freud, de 1904, ele atendia os pacientes acomodando-os confortavelmente em um divã, sem outras distrações, enquanto posicionava-se fora do campo visual dos pacientes, sentado em uma cadeira atrás deles. Diferentemente da técnica catártica, Freud não exigia que os pacientes fechassem os olhos, não os hipnotizava e evitava também qualquer contato e procedimento que pudessem lembrar a hipnose. A sessão transcorria como uma conversa entre duas pessoas “igualmente despertas”, sendo que uma delas não realizava esforços físicos nem recebia estímulos que pudessem desconcentrá-la de sua atividade anímica.
A associação livre tornou-se a regra fundamental da técnica psicanalítica e, ao passo que excluía um material rico em lembranças e imaginação e uma ampliação da consciência comum às sessões de hipnose, possibilitava, por outro lado, a descoberta de um importante material de investigação: as ocorrências involuntárias dos doentes. Ao contrário do que acontecia nas sessões de hipnose, Freud pedia aos pacientes que falassem à vontade, passando de um assunto a outro, instruindo-lhes para que contassem tudo que lhes vinha à mente, mesmo que fosse algo aparentemente sem importância, sem sentido ou não relacionado ao assunto em questão. Pedia também que não excluíssem pensamentos ou ocorrências que parecessem vergonhosos ou embaraçosos.
Durante suas investigações, Freud observou lacunas nas lembranças dos pacientes em relação à narrativa da doença, em razão de esquecimento de fatos e causas, confusões temporais, que deixavam as narrativas incompreensíveis. Essas amnésias eram para ele resultado de um processo de recalque motivado por sensações de mal-estar diante da resistência que há contra a reprodução dessas lembranças.
No texto Recomendações aos Médicos que Exercem a Psicanálise, de 1912, Freud enumera várias recomendações sobre o método psicanalítico para ajudar os profissionais da área médica a manter o instrumental necessário a uma escuta precisa e fluente. Para ele, o analista deve tentar manter um estado de atenção que denominou de “atenção flutuante”, em que o terapeuta deve recordar dos relatos de cada paciente sem dar atenção diferenciada nem se fixar em nenhum conteúdo específico do discurso do paciente. Desse modo, o analista poderá suprimir pré-julgamentos conscientes e defesas, mantendo-se atento ao seu próprio inconsciente durante o processo de escuta. Lembrar tudo em igual medida constitui uma espécie de contrapartida necessária à exigência feita ao paciente para que conte tudo o que lhe vem à mente, sem criticar ou selecionar nada em particular. O objetivo seria manter as influências conscientes afastadas da capacidade de memorização para que apenas a “memória inconsciente” participe da sessão, o que pressupõe que o analista deve ouvir sem se preocupar se vai lembrar ou não.
Freud também aconselha o analista a não tomar notas extensas durante a sessão, o que prejudicaria o estado de atenção flutuante, causando impressão negativa no analisando, além de ser outra forma de selecionar e fixar a atenção em algum elemento trazido pelo paciente. As notas tomadas para fins científicos também influenciariam o estado de atenção flutuante e devem ser feitas após a sessão, embora a qualidade de um relato colhido de tal modo seja questionada. A solução proposta por Freud é que os registros sejam trabalhados somente após o término da análise, caso contrário, é possível que o analista construa expectativas e planos que prejudiquem o tratamento.
Freud convida o analista a observar o trabalho do cirurgião que deixa de lado seus afetos de modo a se concentrar em realizar a cirurgia da melhor forma possível. A ambição terapêutica, de “curar”, seria um sentimento perigoso que poderia expor o terapeuta às resistências do paciente e ao jogo de forças que justamente se pretende desarticular para que o tratamento tenha êxito. Certa posição de reserva e frieza favoreceria a vida emocional do analista e ofereceria melhor assistência ao analisando. Além disso, aconselha o analista a não se fixar em expectativas ou na ideia de reconhecimento ou retraimento perante as críticas, afetos que também prejudicariam o trabalho de análise.
Ainda no mesmo texto, a importância da atenção flutuante do analista como contrapartida à regra fundamental da associação livre é reafirmada. Para ilustrar essa ideia, Freud faz uma analogia com a comunicação telefônica: as ondas sonoras emitidas são transformadas em oscilações elétricas pelo transmissor que, por sua vez, são revertidas em ondas sonoras pelo receptor. O analista funcionaria como receptor, posicionando seu inconsciente a partir da associação livre para sintonizar o inconsciente do analisando, reconstituindo as ocorrências trazidas por ele à sessão.
Outra recomendação feita por Freud é que o analista não mantenha em si resistências que o impeçam de entrar em contato com o que seu inconsciente captou durante a sessão. As resistências funcionariam como outra forma de seleção e deformação do material trazido pelo paciente e, por esse motivo, recomenda que o analista também se submeta a uma análise a fim de conhecer seus complexos e resistências. Cada recalque não solucionado em si mesmo corresponderia a um ponto cego na percepção analítica do médico.
A análise traz muitos benefícios aos analistas que a buscam sem a pressão da doença e com um propósito de examinar o oculto em si mesmos, nos diz Freud. O desprezo pela autoanálise traria consequências desastrosas: a dificuldade em compreender os pacientes e aprender com eles, o risco de trazer danos ao processo de análise do doente, a projeção de suas autopercepções na ciência, contribuindo para o descrédito da Psicanálise e induzindo outros inexperientes a equívocos semelhantes.
O cuidado com a transferência é uma recomendação enfatizada por Freud: o analista deve evitar falar sobre sua vida íntima e seus conflitos interiores com o analisando, caso contrário, o paciente pode acabar relatando o que já sabe, sem propriamente revelar o inconsciente. Compartilhar afetos traria ainda mais dificuldades ao doente na superação de resistências e poderia criar uma tentativa de inversão na relação entre ele e o analista, estimulando o paciente a analisar o analista. O médico deve manter uma opacidade frente ao analisando, atuando mais ou menos como uma superfície espelhada, sem mostrar nada além daquilo que é mostrado a ele pelo paciente.
Além disso, devem-se evitar as ambições pedagógicas, assim como afastar a ambição terapêutica, pois é necessário respeitar as limitações do doente, considerando como diretriz suas capacidades, em vez de levar em conta os desejos do analista em relação ao analisando. Uma última ressalva é sobre o engajamento intelectual do doente, que deve se concentrar na tarefa proposta pela regra psicanalítica da associação livre, e o médico não deve propor tarefas, como a leitura de textos sobre a Psicanálise, pois o analisando deve construir um percurso próprio dentro da análise, sem recorrer à intelectualização de suas experiências. O respeito à regra psicanalítica, e não o conhecimento teórico sobre a Psicanálise é o caminho que conduz à eficácia terapêutica.
No texto Fragmentos da Análise de um Caso de Histeria, publicado em 1905, conhecido como o relato do Caso Dora, Freud apresenta detalhadamente o uso da interpretação dos sonhos em um caso clínico, reafirma também a etiologia da sexualidade na causa das neuroses, além de antecipar ideias a respeito da sexualidade infantil.
Esse caso clínico é emblemático em razão de sua importância para o desenvolvimento da Psicanálise. São apresentadas pela primeira vez ideias sobre o Complexo de Édipo e sua Dissolução, a Bissexualidade humana e o desenvolvimento do conceito de Transferência. Freud descreve de maneira mais amadurecida suas ideias psicanalíticas, além de apresentar resultados da interpretação de dois sonhos dentre outros fragmentos trazidos pela paciente que ele pretendeu proteger sob o pseudônimo de Dora.
Parecia, no entanto, prever os tropeços que acompanhariam o caso ao afirmar “Quem, como eu, desperta os piores demônios que, perfeitamente domados, habitam o peito humano, a fim de combatê-los, tem de estar preparado para não sair ileso dessa luta”. (FREUD, 1904, p. 71) Freud deixa entrever no texto um distanciamento em relação às suas recomendações aos praticantes da Psicanálise. Em vários pontos de sua interpretação, é Freud quem realiza a livre associação em lugar da paciente, que é retratada como uma expectadora e ouvinte de suas conclusões. O médico aqui se torna muito ativo e mais “falante” do que a paciente, contrariando a regra fundamental, além de utilizar materiais de outras sessões na interpretação, conduta que ele mesmo já havia reprovado em suas recomendações aos médicos. Freud parece interessado em confirmar ideias que já postulara, como as causas da histeria na sexualidade (ou seja, na ausência de relações sexuais “normais”), além de demonstrar uma inclinação pessoal a respeito da homossexualidade, condenando-a a uma condição patológica. No posfácio do texto, Freud reconhece que se descuidara quanto à transferência, que falhara em perceber antecipadamente e que afirma ser o motivo da interrupção prematura do tratamento pela paciente.
Entretanto, em uma afirmação positiva para o desenvolvimento da Psicanálise, Freud conclui nesse relato de caso que o tratamento psicanalítico é constituído da análise da transferência, fato que, dentre outros aspectos, diferencia a Psicanálise dos demais métodos terapêuticos.
Obras Consultadas:
ESCLAPES, Alexandre. O Caso Dora – Reveries #4. 2018. (46m40s). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=BCM0G2moV5s>. Acesso em 8 de jan. 2019.
FREUD, Sigmund. 1856-1939 A interpretação dos sonhos / Sigmund Freud; tradução de Walderedo Ismael de Oliveira; Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001.616 pp.
––––––––––. Fragmentos da análise de um caso de histeria. (1905 [1901]) in: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. VII.
__________. (1904 [1903]) O método psicanalítico de Freud. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1989.
___________. (1910) Psicanálise “silvestre”. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Vol. XI. Rio de Janeiro: Imago, 1970.
___________. (1912) Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XII, 2006.
__________. (1905 [1904]) sobre a psicoterapia. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1989.
ROUDINESCO, Elisabeth, Dicionário de psicanálise/Elisabeth Roudinesco, Michel Plon; tradução Vera Ribeiro, Lucy Magalhães; supervisão da edição brasileira Marco Antonio Coutinho Jorge; Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
Por Ivana Ferigolo Melo -
O filme mistérios da carne (2004) expõe, a partir de uma narração marcada retrocessos no tempo cronológico, o período existencial de dois meninos de mais 15 anos que têm suas vidas intensamente marcadas por um acontecimento, por eles vivenciado, aos 8 anos de idade, período em que a criança, segundo Freud, encontra-se na fase de latência, incorporando leis morais, desenvolvendo atividades intelectuais e artísticas, que têm por finalidade reprimir ou sublimar os impulsos sexuais que se manifestam de várias formas (polimorfismo) entre os 2 e 5 anos de idade.
O acontecimento que ambos os meninos, um chamado Brian e outro Neil, experimentam aos 8 anos de idade e que lhes deixa marcas indeléveis em seus decursos existenciais é o abuso sexual que sofrem do técnico do time de beisebol em que jogam. Embora vítimas da mesma experiência, Brain e Nail processam de forma diferente o trauma sexual sofrido em suas infâncias, ou seja, apresentam uma formação de reação oposta para um mesmo fenômeno experimentado na fase de latência.
Brian parece reprimir, recalcar, o ocorrido e o mecanismo utilizado por sua psique para afastar da consciência a experiência insuportável é o registro de uma amnésia de 5 horas de duração. Após a experiência sexual traumática, o pequeno Brian esquece o ocorrido, perde a consciência, acorda cinco horas depois no porão escuro de sua casa com o nariz sangrando e não consegue lembrar posteriormente o que lhe sucedera nesse interstício. A experiência insuportável à consciência, o recalcado, que Brian empurra para o inconsciente retorna à consciência em forma de sonho mediante dois processos (trabalhos do sonho): condensação e deslocamento. Pouco tempo após a traumática experiência, Brian, que conta com o afeto constante de sua mãe, está na sala vendo filme e visualiza um objeto que se desloca no céu, o qual, sendo estranho, desconhecido, soa como ameaça. Brian impressiona-se com o objeto e afirma ser um óvni. Após registrar essa visão impressionante, ele passa a sonhar constantemente com óvnis abduzindo-o e acorda muito alterado. Os óvnis recorrentes em seus sonhos têm olhos pretos enormes e mãos humanas, ou seja, correspondem a figuras originadas de um processo de condensação, em que várias cadeias representativas (olhos e mãos humanas, face e corpo de ETs) estão sintetizadas em uma única imagem. O fato de o óvni abduzi-lo, imprimir uma força sobre ele, dominá-lo, no sonho, traduz-se como um trabalho de deslocamento, que expressa a permanência da ideia (significante) de dominação, de força exercida pelo pedófilo, que, no sonho, é deslocada para o óvni, ou seja, atrelada a outra representação (óvni), a qual reúne, simbolicamente, um traço (significado) do pedófilo: a força, o poder de dominação. Percebe-se que, por reprimir, via ação da censura, a experiência traumática, Brian passa a registrar a angústia do trauma e que o conteúdo recalcado, uma vez que é inadmissível a sua consciência, retorna disfarçado, via condensação e deslocamento, pelo sonho, quando, segundo Freud, a atividade de vigília diminui, mas não cessa. Ou seja, o afeto, atrelado à representação do trauma sexual aparta-se dessa representação e associa-se à imagem do óvni (deslocamento) já modificado pelo trabalho de condensação. É possível concluir, assim, que, devido à censura, em virtude de Brian ter já, aos 8 anos, período de latência, introjetado regras morais e por contar com o afeto e cuidados constantes da mãe, ele rejeita completamente o acontecimento sexual, recalca-o, esquece-o, mas ele retorna angustiando-o no sonho e, também, em forma de transferência, determinando, assim, sua vida sexual.
Brian não busca relações sexuais após a puberdade. Apresenta um comportamento assexuado. Quando Avalyn, outra personagem que tem interesse por óvnis, tenta uma relação sexual com ele, é rejeitada. A inadmissão de Brian ao ato de pedofilia sofrido na infância, como indica Freud, marca sua vida sexual na puberdade e na vida adulta, levando-o a rechaçar toda e qualquer atividade sexual e a preferir relações afetivas. Dessa forma, ele reedita tanto a relação que tem com a mãe, a figura que sempre lhe deu afeto e proteção, como o rechaço a qualquer tipo de relação sexual. Ou seja, Brian realiza transferências, ao longo da vida, tanto da relação afetiva com a mãe e como da rejeição de sua primeira e traumática experiência sexual.
Angustiado com o retorno do recalcado via sonho e com o desconforto que a amnésia de 5 horas registrada após sofrer a pedofilia lhe causa, Brain lança-se em uma constante busca para saber o que lhe ocorreu naquele período em que perde a consciência. Sua meta ao longo do filme é tomar consciência do recalcado, do obscuro, da verdade inadmissível. Para tanto, empreende, na perspectiva de Freud, uma cruzada pelo conhecimento do conteúdo inconsciente que implica, se alcançado, o alívio, a cura. No final, parece atingir sua meta, pois consegue encontrar Neil (menino que sofria abusos do técnico de beisebol e que participa do abuso sofrido por Brian) e fazer com que ele lhe relate o ocorrido. Na casa do abusador, Brian, deitado no colo de Neil, escuta a narrativa com dor e visualizando o espaço onde tudo ocorrera, fator que aguça a memória. Ali, ele toma ciência do que não suportara, mas aguenta, mostra-se apto a conviver com o reprimido, vence a resistência, demonstrando, na perspectiva de Freud, a possibilidade de recolocar a energia, a libido, vinculada ao trauma a disposição da vida.
Neil, conforme mencionado, processa a experiência sexual com o pedófilo de maneira muito diferente de Brian. Filho de uma mãe que não o acompanha, não lhe ampara afetivamente, não lhe dá limites, e sem contar com a presença do pai, ele parece encontrar no pedófilo o amparo, o afeto, a atenção que não dispunha em casa. Para seduzir Neil, o técnico de beisebol lhe oferece-lhe comida, atenção, brinquedos. Busca-o em casa para os jogos, serve-lhe lanche após as partidas, ou seja, cumpre o papel que a mãe de Neil não cumpre. Além disso, a mãe de Neil não demonstra pudores, mantém relações sexuais com namorados sem muitas reservas e Neil presencia, aos 8 anos de idades, tais relações, registrando excitações, que, nessa fase (fase de latência) deveriam, segundo Freud, adormecer ou ser canalizadas para outras atividades não sexuais (sublimação) pela ação da censura, oriunda tanto da condição orgânica do indivíduo que não consegue manter relações sexuais dentro da norma nessa idade como da introjeção de acepções morais, as quais costumam ser absorvidas, segundo Freud, no período dos 5 anos até a puberdade.
Ao não contar com a presença repressora do pai, ao não passar pela castração, não introjetar regras morais e contar com pouca atenção e afeto da mãe, Neil, aos 8 anos, não ingressa no período de latência. Registra, consequentemente, a continuidade das excitações sexuais da fase fálica e carência de amparo, de afeto. Dessa forma, a experiência com o pedófilo não lhe causa dor. Fornece-lhe, pelo contrário, prazer (o prazer oriundo da satisfação do impulso, da tensão sexual) e proteção. Consequentemente, Neil vivencia experiências sexuais precoces e não as reprime, não as recalca. Carrega-as para o decorrer da vida em forma de sintoma, reeditando-as, incessantemente, desfrutando de relações sexuais perversas (fora da norma), as únicas que pode registar no período de latência, já que, segundo Freud, nessa fase, a criança, por uma condição orgânica (tamanho dos órgãos genitais, ausência de formação de material sexual), não conta com a possibilidade de realizar atos sexuais normais, mas somente de gozar do prazer de experiências perversas, sem fins reprodutivos. Neil reafirma, dessa forma, a tese de Freud presente na obra Três ensaios sobre a sexualidade: o pressuposto de que as experiências sexuais da infância exercem influência determinante no devir da vida sexual do indivíduo tanto na fase da puberdade como na adulta.
Como a experiência sexual para Neil não fora negativa, mas satisfez seus impulsos sexuais fálicos que não passaram pela fase de latência, que não foram detidos, sublimados, além de ter vindo acompanhada de afeto e cuidado, ele, sintomaticamente, busca, de forma narcísica e perversa, a reedição dessa primeira relação. Procura tanto o prazer sexual perverso (fora da norma) como o afeto e a proteção que o pedófilo lhe proporcionara. Cresce sem limites, sem considerar o outro, mostra-se perverso e sádico, pretendendo, sempre, que os outros lhe satisfaçam de forma variada e plena. Ele mesmo afirma, no decorrer do filme, que se sentia protegido com o técnico. Neil vivencia um desiquilíbrio por excesso de libido sexual não sublimada, nem reprimida e, nas constantes relações sexuais que ele mantém na fase da puberdade e posteriormente, parece querer encontrar, também, proteção, recompensa. Por isso, faz do sexo uma profissão e do dinheiro a recompensa capaz de lhe trazer alguma segurança. Sua busca parece ser a conjunção do prazer sexual perverso, fora da norma com a proteção a segurança.
Devido à diferença na forma como processam as mesmas experiências registradas na fase de latência, Brian e Neil apresentam estruturações psíquicas diferentes. Brian apresenta uma estrutura neurótica. A de Neil tende para uma condição perversa, sem travas morais, éticas. Nas palavras de Wendy, personagem que no filme é melhor amiga de Neil, ele (Neil) é perigoso, é um buraco profundo, vazio, não tem coração, não reserva lugar para o outro. A meta de Neil é o prazer e a proteção sem limites, a realização de transferências constantes da figura do pedófilo para outros, a reedição das perversas experiências sexuais vividas na infância. O que ele não encontra, porém, é a proteção, o cuidado, na reedição de sua experiência sexual primeira, o dinheiro não cumpre essa função e os outros, não são o técnico de beisebol, e, muitas vezes, agridem-no, tornando desprazerosas algumas de suas relações. Neil, devido ao excesso de pulsões e à vazão que dá a elas, registra um desiquilíbrio que lhe causa certa angústia: a angústia, o desconforto, oriundo do excesso de libido sexual. Parece que no final do filme ele se dá conta de que não se preenche e de como é esgotadora sua narcísica busca: é quando ele aceita um trabalho diferente do que realiza com a profissão garoto de programa, quando resolve contar para Brian o que aconteceu, demonstrando, também, certa consideração pelo outro.
O filme Mistérios da carne expressa de forma clara e bem trabalhada a grande tese de Freud, aquela que sustenta serem as experiências sexuais da infância determinantes para transcurso da vida sexual na puberdade e na fase adulta. Explicita, ainda, que, em função da relação da criança com o pai e com a mãe e pela maneira como passa pelas fases infantis, como a fase fálica e a de latência, o ser humano poderá processar de forma diferente as experiências sexuais e, consequentemente, apresentar particularidades na estrutura psíquica bem como sintomas diversos. Trata-se de um filme muito rico em material para práticas de reconhecimento e compreensão da teoria Freudiana. Mostra, através de personagens com traços psíquicos e comportamentos opostos, a estruturação e o funcionamento da psique do indivíduo que Freud tentou descrever em duas grandes obras de seu amplo repertório teórico: A interpretação dos sonhos e Três ensaios sobre a sexualidade.___________Direção: Gregg Araki Plataforma: Prime Video
Por Ivana Ferigolo Melo -
Até chegar ao método psicanalítico, Freud trilhou outros percursos, utilizando-se de técnicas muito usadas por Charcot e Breuer. A hipnose, uma das primeiras técnicas manejadas por Freud (já utilizada por Charcot), consistia em colocar o paciente em estado de sono, de consciência reduzida ou amortecida, no intuito de exercer comando sobre ele, de induzi-lo, de sugerir-lhe ideias que, acreditava-se, substituiriam pensamentos patogênicos, impedindo-os de agir.
Nesse método, que se efetivava, também, a partir da sugestão (de ideias, de comportamentos), ignora-se a origem das enfermidades, não há preocupação em desvelar e tratar a causa do sintoma, mas de neutralizá-lo mediante a impregnação, na psique do paciente, de registros mentais que tornariam ineficazes as ideias causantes da enfermidade.
A eficácia da hipnose não ocorreria, portanto, sem a participação do método sugestivo, pois era por meio da sugestão, ou seja, da inserção de novas ideias (não patogênicas) na mente do paciente, que se buscava cura-lo. A técnica ou o método catártico, por sua vez, aposta que o alívio do sofrimento viria por outro caminho que não pela via de sugestão. É um método que consiste em levar o paciente a narrar em estado de baixa consciência ou consciente, sob certa sugestão ou indução do médico (como pressões na testa e palavras de estímulo para aguçar sua memória), as possíveis vivências causantes do sintoma, com o objetivo de fazer com que as energias represadas e atreladas a ideias patogênicas extravasem.
O ponto central do método catártico consiste em conseguir o melhoramento do paciente a partir da expurgação (ab-reação), via narração, dos afetos vinculados a certas experiências, atrelados a algumas memórias, que foram represados, que não foram extravasados no ato de ocorrência dos fatos vividos, mas retidos. O propósito do método catártico seria aliviar o paciente por meio da liberação de intensidades represadas e vinculadas a memórias traumáticas. Nesse jogar para fora o represado, encontra-se a diferença entre o método catártico e o da sugestão via hipnose. Ao passo que o método catártico propõe a retirada da mente de energias represadas, o da sugestão hipnótica busca inserir na mente conteúdos, pensamentos, ideias.
A psicanálise, emparentada no aspecto da narração ao método catártico corresponde a uma técnica que visa levar o paciente a relatar (não só experiências, mas também fantasias) em estado desperto, com sinceridade e liberdade de associação (livre associação), ou seja, evitando posicionamentos críticos, freios conscientes e encadeamento lógico, racional, tudo o que lhe vem à mente para tentar trazer o conteúdo inconsciente à consciência. A ideia que está na base dessa técnica não é a da cura por ab-reação, mas o conhecimento profundo de si, procedimento que pode ser muito desprazeroso ao paciente, uma vez o levaria a tomar consciência do inaceitável, daquilo que rejeitou, recalcou, reprimiu ou repudia.
Para tentar nortear a atividade da psicanálise, em seu texto “Dez recomendações ao médico para o tratamento psicanalítico, de 1912, Freud elabora e difunde orientações que vão dirigidas ao médico (analista), mas que dizem respeito, também, à postura esperada do paciente no tratamento psicanalítico. Defende que, durante a análise, cabe ao analista a adoção de uma atitude de atenção equiflutuante, ou seja, uma postura de deixar-se levar, sem condicionamento consciente, nem crítico, nem racional, nem moral, pelo relato do paciente, evitando, assim, concentrar-se em certos fragmentos do relato em detrimento de outros.
Para Freud, tudo o que é narrado pelo paciente tem importância e, sendo assim, a performance mais adequada do analista é tentar acolher e recolher toda e qualquer informação, que, se não fazem sentido ou pareçam irrelevantes em dado momento, em outro, poderão mostrar-se de suma importância. A partir dessa perspectiva, Freud acrescenta que o analista deve evitar tanto fazer anotações diante do paciente como realizar longos apontamentos durante o tratamento, justamente para não desenvolver um trabalho de seleção do relatado, que pode resultar na eliminação de fragmentos importantes do narrado ou transmitir ao paciente a ideia de que certas questões são mais importantes que outras.
O trabalho do analista, para Freud, deveria (embora isso seja muito complexo) assemelhar-se ao do cirurgião, deixando de lado a compaixão, os afetos, e se propondo escutar o paciente com certo distanciamento, para evitar expor-se ou ser influenciado por ele. Para isso, Freud ressalta que o analista deve estar bem analisado, no intuito de evitar que seus traumas também influenciem e realizem enfaticamente seleções nas escutas.
A regra fundamental e mais relevante para o tratamento psicanalítico é a de que o paciente conte tudo, sem travas, e que o analista escute tudo sem realizar seleções, pois, o mais importante, o mais revelador, do relato, ou seja, aquilo que a escuta precisa capturar, em função das resistências, é o que é dito de forma ligeira, lacônica, distorcida, sem nexo, ou aquilo que, aos olhos do paciente, é tomado como irrelevante, descabido. O Material do sonho, nesse sentido, também deve ser considerado, pois seu combustível é o recalcado, ou seja, o desconhecido, aquilo que se procura desvelar na psicanalise.
Como o material buscado pela psicanálise é o reprimido, outra recomendação importante realizada por Freud no texto acima mencionado é a de que o paciente deva desejar o tratamento, quere-lo de vontade própria, não por indução de familiares ou de pessoas próximas. Para que o relato e a escuta não sejam prejudicadas, Freud ressalta, como já mencionado, que é necessária a manutenção de um distanciamento entre analista e paciente e que o analista evite dar conselhos ao paciente, corrigir seu comportamento, influenciar suas decisões.
A intimidade poderia prejudicar o processo de transferência, de repetição ou nova edição de impulsos e fantasias recorrentes no paciente, que, aos olhos de Freud, é muito importante no tratamento, uma vez que pode dar indícios de como o paciente age, de quais são suas motivações afetivas. No caso Dora, por exemplo, Freud indica, no prefácio, que busca embasar-se em suas recomendações para o tratamento psicanalítico e, de fato, sugere, em muitos momentos, aderir a elas.
Afirma, no prefácio, que não anotou, a não ser o conteúdo dos sonhos, as informações referentes ao caso antes de o curto tratamento (que durou cerca de 3 meses) ser interrompido. Pelo relato do caso, percebe-se, ainda, que ele manteve certo distanciamento da paciente, não se envolveu emocionalmente e reuniu vastas informações que Dora fora lhe trazendo e que, a princípio, não teriam muito nexo, sobre as quais, ele, o analista, fora trabalhando, tentando encontrar conexões.
No entanto, é possível perceber que ele não se atenta para três questões fundamentais de suas recomendações, as quais parecem influenciar na interrupção do tratamento. Freud deixa claro, no relato do caso, que não é Dora quem o procura, mas o pai que a leva até ele e que ela manifestava certo desdém pelos médicos. Assim, aceitando o caso, Freud burla uma das suas recomendações centrais: a de que o paciente deve decidir, com sinceridade, pelo tratamento.
Sabemos, também, que Freud não realizou análise nem a realizava enquanto analisava pacientes e, no entanto, ele recomenda que todo o analista deva estar bem analisado. Além disso, Freud mesmo reconhece, no posfácio de O caso Dora, que ele não se atenta para ou não domina a tempo os primeiros sinais da transferência realizada por Dora.
Após a interrupção do tratamento, quando relata o caso, ele manifesta ter clareza de que Dora dava indícios de estar substituindo o pai e o senhor K por ele (Freud), reeditando a relação dela com o pai e com o senhor K com Freud no setting, mas ele reconhece, com certo tom de lamento, que não capturou a transferência a tempo e deixa entrever que essa falha pode ter influenciado na interrupção do tratamento. Diante da desistência de Dora, Freud não a pressiona, a respeita, cumprindo a recomendação de que o analista não deve interferir nas decisões do paciente.
É possível concluir, assim, que, no caso Dora, o grau de aderência de Freud às suas recomendações é regular, algumas são levadas em consideração, outras não.
Por Patrícia de Pádua Castro -
Em 1904 [1905] com o artigo O método psicanalítico Freudiano, Freud faz sua primeira exposição sobre a técnica psicanalítica e suas especificidades. Outros três artigos, Sobre psicoterapia (1905 [1904]), Sobre psicanálise selvagem (1910) e Recomendações ao médico para o tratamento psicanalítico (1912), trazem mais esclarecimentos, indicações, contraindicações e recomendações técnicas para exercício do método psicanalítico, além de abordar as diferenças entre a psicanálise Freudiana e as técnicas de sugestão hipnótica de Charcot e método catártico de Breuer.
O desenvolvimento da técnica psicanalítica originou-se a partir de observações empíricas em modificações sucessivas feitas aos métodos de Charcot e Breuer. O método de sugestão hipnótica de Charcot foi comparado por Freud como a técnica artística da pintura, onde a deposição da tinta sobre a tela é análoga aos acréscimos no inconsciente do paciente por sugestão médica. Se a sugestão for forte o suficiente será capaz de prevalecer sobre a manifestação patogênica, impedindo-a. Porém este método apresenta as limitações de só ser aplicável a um número restrito de pacientes – aqueles capazes de serem hipnotizáveis e de aceitarem a sugestão –, e no fato da sugestão ser incapaz de ser mantida por tempo indeterminando, retornando a doença ou criando-se um substituto a ela. Neste método não há preocupação em buscar a origem, força e importância dos sintomas. Posteriormente, com o método catártico, Breuer abandona a técnica de sugestão e com o paciente sob hipnose busca-se alcançar uma expansão da consciência, onde a fala do paciente - sob a condução do médico - o leva a uma “viagem” a seu passado e os sintomas são afastados por regressão até a primeira lembrança do trauma, oportunizando a ab-reação dos afetos e suspensão destes. O método esbarra no problema de não haver uma única impressão traumática, mas uma série dessas ocorrências que culminam na formação do sintoma. Este método diferencia do proposto por Charcot pelo fato da suspensão dos sintomas encontrarem uma nova rota psíquica de escoamento energético, diferentemente da proibição sugestiva pelo médico aplicada anteriormente. Embora seja aplicável a um número maior de pacientes, pois elimina a necessidade dos pacientes aceitarem a sugestão, ainda é necessária a condição de o paciente ser hipnotizável.
Após ter acompanhado os trabalhos de Charcot em Salpetriére e trabalhar juntamente com Breuer, Freud vai modificando gradualmente a sua prática e abdica da hipnose, adotando, no método psicanalítico, a postura do paciente deitado no divã de maneira relaxada, e o analista na posição de observador, assentado em uma cadeira atrás do paciente, e nestas posturas estabelece-se então uma conversa entre duas pessoas igualmente despertas. Com essa nova técnica a escuta do sofrimento até o trauma primário é substituído pelo livre falar do paciente que permite acesso ao inconsciente por meio das ocorrências involuntárias, interpretação de sonhos, por atos falhos e não planejados, denunciados pela fala, ação e semelhantes.
Este procedimento apresenta a vantagem de poder ser aplicável em um número ilimitado de pacientes (embora Freud descreva algumas restrições ao método devido a determinadas características dos pacientes a serem atendidos), além do mais com essa técnica é possível reconhecer as resistências e superá-las – o que não ocorria com a hipnose, uma vez que estas eram apenas contornadas –, e isso é um dos fundamentos de sua teoria, o que possibilita a compreensão do comportamento do paciente em sua vida, sendo o ambiente terapêutico, o lugar e o momento, onde é possível diferenciar o discurso do paciente da sua prática.
Com o tratamento psicanalítico pretende-se suspender as amnésias, reverter os recalques, tornar o inconsciente acessível ao consciente buscando reestabelecer no paciente “a capacidade de realizar e gozar” ou “trabalhar e amar”. Para isso, exige-se apenas do paciente que cumpra a “regra psicanalítica fundamental” falar aquilo que lhe ocorrer na mente, sem julgamento, sem selecionar pensamentos por mais que possam parecer vergonhosos e embaraçosos. Em contrapartida o analista deve ouvir sem crítica ou seleção, sem expectativas e inclinações, para que um “inconsciente possa ir de encontro ao outro”.
Embora não fosse pretensão de Freud estabelecer recomendações como regras inflexíveis, ele faz uma série de esclarecimentos e orientações a respeito da execução da técnica psicanalítica. Primeiramente para evitar a prática da “psicanálise selvagem” uma vez que a técnica não é autoexplicativa e não há possibilidade de aprendê-la apenas por meio de livros; demanda empenho de tempo e esforço do médico, sendo possível aprendê-la somente com quem já as domina, e como o médico irá trabalhar com as resistências dos pacientes é necessário que ele supere as suas próprias resistências, eliminando “pontos cegos” em sua percepção analítica, para isso aquele que pretende exercer tal prática deve submeter-se primeiramente à análise junto com um especialista. Com isso, desenha-se o tripé analítico da formação em psicanálise: teoria, prática (supervisão) e análise pessoal.
Para elucidar mais algumas dessas orientações práticas para condução da técnica psicanalítica tomemos o “Caso Dora (1905 [1901])” como exemplo, no qual Freud narra os cuidados que tomou para conservar o sigilo do tratamento, preservando a identidade da paciente por meio de alterações de nomes e aguardando um período após o término do tratamento para a publicação em revista especializada. A lembrança da história clínica foi redigida após o fim do tratamento e por isso não é um relato fiel, mas confiável, o que vai de encontro com duas de suas recomendações técnicas: não fazer anotações de grandes extensões nas sessões, e não abordar um caso cientificamente enquanto o tratamento não estiver concluído. Ambas as recomendações convergem no objetivo de se manter uma escuta equiflutuante sem selecionar algo no meio do material ou fixar a atenção em algum ponto. Porém, ainda no prefácio Freud deixa claro o seu desejo de mostrar como a interpretação dos sonhos da paciente favoreceu “desvendar” a história clínica, citando que não foi sem motivo que publicou sua obra sobre sonhos em 1900, o que contraria uma das recomendações que é ouvir sem expectativas e inclinações. Em dois momentos neste texto introdutório Freud diz estar convicto de algo, primeiramente quando menciona estar convicto da importância dos sonhos nos casos de histeria e em outro ao referir-se à vontade de validar a etiologia psicossexual da histeria. Essas convicções faz com que Freud selecione ao meio do material apresentado pela paciente aquilo que ele busca e segundo as suas palavras “[...] se na seleção seguimos as nossas expectativas, corremos o risco de nunca encontrarmos algo diferente daquilo que já sabemos [...]” [1].
Ainda no relato do caso, Freud diz que a paciente aceitou o tratamento por insistência (autoridade) do pai, que foi quem o procurou inicialmente, o que contrapõe ao fato de que a psicanálise [...] não pode ser aplicada em pessoas que não se sintam impelidas à terapia por si próprias através de seu sofrimento, mas que se submetem a ela apenas por uma imposição de seus parentes”[2]. Outro ponto a ser destacado é de que no decorrer da exposição do caso Freud, ao descrever algumas características e comportamentos da Dora, ele não aparenta ter muita empatia e interesse pela a pessoa dela, o que é um obstáculo em um tratamento analítico uma vez que “não se deve esquecer o valor de uma pessoa”2. A dedicação de Freud à própria teoria somada ao baixo interesse pela pessoa da paciente faz com que ele não dê a devida atenção à transferência – embora a tenha percebido e reconheça a sua importância no tratamento psicanalítico –, postergando os momentos oportunos de trabalhá-la nas sessões, o que culminou em “uma análise fragmentária”.
Por fim, com esses recortes do “Caso Dora” é possível perceber a importância da sistematização da técnica, e que embora não seja um conjunto de regras inflexíveis, serve como uma orientação de como proceder na relação analista e paciente. A postura de Freud apresentada neste caso, considerando o baixo grau de aderência às suas próprias recomendações, ilustra o jargão psicanalítico “Freud não lia Freud” ou, no dito popular, “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.
[1] Recomendações ao médico para o tratamento psicoanalítico (1912)[2] Sobre psicoterapia (1905[1904])
Por Fernando Alencastro -
SQN são as inicias de "Só Que Não", uma expressão comum na internet, principalmente como hashtag em algumas redes sociais (#SQN). O usuário usa o #sqn para negar totalmente o que acabou de afirmar na sua publicação. Inicialmente, a hashtag #SQN começou a se popularizar no Twitter, sinalizando o tom irônico do tweet. Como dito, o objetivo é justamente dizer o contrário daquilo que o usuário verdadeiramente pensa.
O “só que não” pode ser aplicado à premissa de Freud em relação à histeria, posto que sua famosa Teoria da Sedução se consiste na afirmativa de que pacientes histéricos sempre teriam como causa desse histerismo a sexualidade. Foi à época uma teoria inovadora, que diferia das demais porque apresenta como novidade a sexualidade como causa exclusiva e única, portanto a própria etiologia da histeria.
Freud baseou sua teoria a partir de reportes de pacientes histéricas que teriam lhe feito relatos identificando como causa de sua histeria algum acontecimento relacionado à sexualidade. A comunidade cientifica e intelectual recebeu de forma muito duvidosa referida teoria.
Portanto, a base da teoria de Freud era de que os pacientes histéricos foram abusados sexualmente em sua infância. SQN Freud, pois o próprio reconheceu que a sexualidade de forma exclusiva não era a causa da histeria. O próprio autor da teoria reconheceu seu equivoco anos depois de lançada se dizendo “enganado pelas histéricas”.
O episodio da me faz inferir que Freud ao evoluir da hipnose para sugestão e depois livre associação e depois afirmar que os pacientes histéricos foram abusados em sua infância e depois se afirma enganado pelas histéricas, tudo isso aconteceu por teimosia de Freud em olhar a sua hipótese de fora pra dentro e não de dentro pra fora.
Freud teve algumas diretrizes e provavelmente generalizou hipóteses de pesquisa que lhe remeteram para uma proporcionalidade por amostragem suficiente para afirmar a etiologia única da histeria sendo a sexualidade. SQN de novo Freud.
Percebe-se o elemento teimosia na personalidade de Freud principalmente pelo largo período que leva para reconhecer o equivoco de sua teoria. Credito também a teimosia como fundamento do equivoco. Freud teimou em afirmar a sua teoria (olhou de fora pra dentro) ao querer afirmar. A teoria partiu de sua mente para o mundo e não pontualmente da observação à constatação.
Na minha percepção, Freud se desviou da observação e quis constatar sua teoria, daí dizer que ele olhou de fora (sua teoria) para dentro (a observação), o que provavelmente lhe levou ao equívoco, pois teimou em querer comprovar sua tese.
A teimosia é uma das características do signo solar astrológico de Freud, Touro.
A partir do reconhecimento pelo próprio Freud de seu equívoco, ainda que tardiamente, o episódio do equívoco da teoria da Sedução possibilita que o estudante de psicanálise possa fazer as leituras de Freud de forma isenta e justa, ou seja, sem considerá-lo um mito, ou uma pessoa que acertou sempre em suas teorias e tratados.
A importância de se ler Freud sem as amarras do compromisso com sua verdade absoluta (coragem adquirida a partir do equivoco da TS) liberta seu leitor e estudioso, possibilitando percepções distintas da do Mestre em conclusões sobre a que teve no caso Dora, por exemplo, quando diversos leitores discordam da paixão dela identificada por ele ao senhor K.
Vida que segue. Freud avança para a fantasia histérica a partir de acontecimentos da infância e seus traumas. A reconstrução do passado de cada pessoa é algo bem complexo. Uma recordação com afeto pode ser muito eficaz principalmente se o paciente retrata o evento de forma detalhada.
Freud propõe então a teoria da Fantasia histérica, a partir da qual depois do recalcamento ocorre a instalação dos sintomas e então a criação das fantasias, que vem a ser uma ficção do que aconteceu ao paciente na sua infância.
A partir de agora, para Freud, existe uma ficção. E aqui o nobre mestre evoluiu em relação ao conceito anterior de que o conteúdo do que fora dito pelo paciente era a mais pura das verdades.
As ideias que se tornam patógenas preservam todo o seu frescor e força afetiva porque foi negado a elas o desgaste normal pela ab-reação e pela reprodução em estados de associação sem inibição.
Os estados hipnoides são graus diversos de organização psíquica e condição da histeria e disse também Freud que a hipnose é uma histeria artificial.
A relação do analista e do paciente passa a ser uma procura insistente do elemento patogênico x a expressão espontânea do paciente mediante o método da psicoterapia analítica que ocorre com o fenômeno da transferência.
A descoberta do mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos leva a uma ação curativa pelo método psicoterapêutico. A questão foi muito bem elucidada quando da afirmativa de que “o trauma psíquico age à maneira de um corpo estranho expulso para fora do espaço da consciência”.
Este artigo apresenta uma versão com título em linguagem de WhatsApp, de forma singela e despretensiosa, a partir da Teoria da Sedução e sua etiologia da sexualidade - SQN Freud e se trata de um exercício de aprendizado (ou não) deste aluno sobre o tema proposto.
Por Priscilla M. S. Honorato -
Quem nunca ouviu aquela velha historinha dos três pequenos e travessos porquinhos, em que dois deles desejavam apenas brincar, sem se preocupar com as adversidades da vida? Esse conto, fez e faz parte de nossas vidas. Traz-nos a magia de viver uma grande e prazerosa brincadeira, a compreensão sobre a necessidade de se cumprir as obrigações exigidas pela vida e um amadurecimento saudável.
E o que dizer sobre o lobo? Será que ele deveria ser bonzinho? Crianças tem medo de lobo? Será que posso contar, com segurança, sobre um Lobo Mau que devora porquinhos indefesos? Muitas questões estão presentes numa simples história.
Pois bem, vamos compreender mais um pedacinho do mundo fantástico dos contos de fadas.
Os Três Porquinhos, conto original dos Irmãos Grimm, através de sua magia, vem envolver a criança em um mundo que para ela é real, levando-a a refletir sobre as vantagens de se vencer a preguiça, pois, se assim não for, perecerá. Percebe-se que no decorrer da trama, dois dos porquinhos desaparecem, mas tal fato não é visto pela criança como traumático, visto que esta percebe tal situação como um desprendimento das formas anteriores de sua existência, mudando seu estágio de vida e amadurecendo. Tais personagens representam a própria criança, que, espelhando-se neles, assemelhando-se às suas atitudes. À medida que a criança evolui, ela se identifica com o terceiro e mais velho porquinho, que, apresenta maior destreza em realizar suas atividades e maior capacidade de suportar o desejo incontrolável de brincar, em prol de um benefício vindouro. A criança é capaz de perceber uma evolução psíquica na medida em que sua identificação vai caminhando de porquinho para porquinho, de modo que ela venha a suportar a sedução do Lobo, que os tenta oferecendo nabos e maçãs.
Para compreendermos de forma clara o conceito de Freud sobre os princípios do funcionamento psíquico, Laplanche (2001) sintetizou dizendo que o princípio do Prazer está para o aumento das quantidades de excitação mediante o desejo de evitar o desprazer, que reduzir-se-á por meio do prazer. E, o Princípio da Realidade que trabalha na busca da felicidade não utilizando-se de caminhos curtos, adiando seu resultado em função das condições impostas pelo mundo exterior. O indivíduo, ao se encontrar em maior nível de amadurecimento, é capaz de suportar esta necessidade imediata de prazer, prolongando esse tempo de recompensa, suportando assim, as adversidades da vida.
No conto dos Três Porquinhos a criança é levada a tomar a decisão por conta própria, qual seja o caminho ela deseja seguir. Deste modo, ela consegue auxílio para solucionar suas questões sobre o que fazer com seu desejo de prazer imediato.
Onde se enquadra a maldade do lobo, e qual sua importância na história?
Vemos que depois de esforços infrutíferos, travados pelo Lobo, é que ele parte para a matança. Segundo a ilustração de Bettelheim ( 2014 p.64),
“O lobo, ao contrário, é obviamente um animal ruim, pois deseja destruir. A ruindade do lobo é algo que a criança reconhece dentro de si: desejo de devorar e sua consequência. Assim, o lobo é uma exteriorização, uma projeção da maldade da criança- e a história mostra como se pode lidar com isso construtivamente.”
Não obstante, torna-se claro a diferenciação que a história faz entre o comer (uma busca inteligente por comida) e o devorar (tudo o que se fizer presente), i.e., demonstrar à criança a necessidade de escolher seus atos, fazendo-a compreender que a reação instantânea do lobo não terá uma recompensa muito agradável.
A vitória do porquinho mais velho leva a criança a reflexão da importância de crescer e tomar decisões pautadas nas consequências que elas oferecem. O final é feliz e o lobo recebe o que merece, reforçando à criança a necessidade de agir com boas maneiras. Este processo permite que a criança extraia suas próprias conclusões, provendo um amadurecimento satisfatório e verdadeiro. Pois, dizer a ela como realizar este amadurecimento é substituir o seu cativeiro de imaturidade por um cativeiro de obediência.
Por Joseval Campos dos Santos -
Nosso modelo atual de sociedade com relações mais abertas, onde os diálogos são mais possíveis vem aos poucos trazendo à tona a ponta do iceberg já conhecido em sua superfície e que agora começa a se aprofundar – abuso sexual de crianças e adolescentes. As relações familiares menos autoritárias, assim como os mecanismos de proteção legal e os centros de acolhimento, são instrumentos que de alguma forma encorajam os atores desse drama psíquico.
Mesmo sabendo que esses casos são apenas um simulacro da amplitude do problema, já tem servido para fomentar discussões, definir políticas e abrir canais de discussões na sociedade.
O abuso sexual vai muito além do conceito socialmente visível, pois todo ato invasivo não autorizado, seja objetivo ou subjetivo pode ser considerado como abuso, especialmente por personagens mais maduros e com maior poder físico e psicológico. Geralmente protegemos e alertamos crianças e adolescentes sobre a representação de perigo dos estranhos. Mas “baixamos a guarda” com pessoas do convívio familiar que supostamente mantém relações de segurança e proteção. Justamente ai configura-se o lugar do perigo, pois o abusador precisa de proximidade, confiança, tempo e oportunidade para agir livremente. Esses ingredientes dificultam a descoberta espontânea, a denúncia do abusado e a crença por partes de pais e responsáveis.
A dinâmica traumática do abuso, em virtude do poder do agressor, invasivo e ameaçador, termina por vezes desenvolvendo na criança um importante déficit de poder, ou uma visão distorcida do mesmo. O poder ameaçador de figuras que deveriam oferecer proteção e afeto termina formatando personalidades difusas que flertam corriqueiramente com a patologia.
Em virtude da imaturidade, o psiquismo quase sempre transborda para caminhos devastadores, dada a incapacidade em lidar adequadamente com esse contingente sexual, invadido de forma inadequada e antecipada. É relevante frisar, que o abuso sexual firma-se como um dos acontecimentos mais horrendos para o psiquismo infanto-juvenil em virtude de envolver figuras de proximidade e muitas vezes de vínculos afetivos.
A criança ou adolescente abusado, vale-se das mais variadas estratégias de defesa, buscando minimizar as dores psíquicas, esses mecanismos num primeiro momento em que o psiquismo ainda encontra-se imaturo ou fragilizado possuem um papel importante na manutenção de “áreas sadias” que futuramente podem servir de suporte para vencer os traumas. No entanto, se os traumas não forem analisados adequadamente, o mecanismo de defesa improvisado para proteger o psiquismo pode criar raízes permanentes, indo de uma fantasia protetora provisória para o campo da realidade.
A fantasia, portanto, exerce um papel fundamental nos traumas, especialmente de abuso sexual, pois protege o psiquismo de forma que ele não transborde, o que levaria o indivíduo à psicose. Contudo, quando as fantasias se instalam além do tempo necessário, invadindo a realidade e passando a ser confundida com ela podem também suprimir do indivíduo a capacidade de distinção entre o real e o imaginário. Bergeret (1998)
A psicanálise mostra-se como ferramenta eficiente na interpretação desses fenômenos psíquicos, podendo servir como suporte para que o indivíduo abusado sexualmente possa elaborar adequadamente esses conteúdos, abrindo a possibilidade de ressignificação dos acontecimentos traumáticos, ou seja, uma simbolização tardia, mas que permite tocar a vida com certo equilíbrio.
Para Guiter (2000) a experiência traumática do abuso sexual associa-se, portanto, a dificuldades graves nas relações primárias ou vinculares, às experiências concretas de vivências altamente ansiogênicas, ao estabelecimento de um funcionamento psíquico desorganizado, resultando em falhas estruturais importantes.
Estudos psicanalíticos das mais variadas linhas, apontam que o abuso sexual agride à autoestima da criança e do adolescente, provocando rebaixamento da visão de si mesma e de suas capacidades, aprofundando, no caso das meninas, a dor da castração e ampliando a angústia de castração no caso dos meninos, que podem no lugar da dor do abuso, preencher com a fantasia de que são “efetivamente” castrados, assumindo uma posição passiva frente à sexualidade, em virtude da forma inadequada como foram introduzidos na vida sexual. No caso das meninas podem construir uma imagem de pênis mal, que agride e causa dor.
Dentro dessa dinâmica o indivíduo pode desenvolver diversas estratégias psíquicas de defesa, visando minimizar as dores do abuso. As possibilidades são diversas e variadas, quase sempre marcadas por forte baixa estima, submissão, exercício de poder exagerado ou negação da sexualidade, promiscuidade em busca do prazer/dor original, personalidade diversa, afeminada no caso dos meninos e masculinizada no caso das meninas, sem que signifique uma homossexualidade em primeiro plano.
O abuso em todas as suas formas é um encontro perverso entre um psiquismo maduro e um psiquismo frágil ainda em formação, ou seja, uma experiência dramática e injusta. Nesse sentido, a criança ou adolescente ainda não possui maturidade para entender os acontecimentos, não possui recurso para simbolizar os fatos, provocando um turbilhão de sensações, que transitam entre a culpa e o prazer.
O abusado experimenta ao longo da vida uma miscelânea de sentimentos contraditórios e por isso, marcado por muitas ansiedades. Sua vida afetiva dificilmente será tranquila e “linear”, pois as ansiedades despertadas pelo trauma provocam forte instabilidade de sentimentos. O abuso sexual provoca uma fratura no psiquismo do abusado em função da incapacidade do ego de organizar a experiência traumática. O psiquismo fraturado fica instável, numa sensação constante de incompletude crônica.
A dualidade entre dor e prazer na cena do abuso, deixa uma tatuagem no psiquismo da vítima, despertando no indivíduo uma tempestade de sentimentos contraditórios que transitam entre o certo e errado, bem ou mal, prazer e desprazer. Essas emoções são perturbadores do psiquismo imaturo e se não forem bem equacionadas na análise deixarão o abusado num limbo de dor e sofrimento.
É muito importante que se tenha em mente que o abusador não possui cara, uma roupa específica, um jeito peculiar, são figuras de psiquismo obscuro que gravitam na órbita de “segurança” das famílias numa relação de vínculo e confiança. Eles agem no intervalo da falsa proteção e alongam o abuso mediante o uso do poder e da ameaça, mantendo a vítima numa condição de cárcere psicológico e sequestro emocional, dificultando ou impossibilidade a saída do cativeiro. Devemos ampliar o espaço da escuta, pois um grito silencioso pode está à nossa volta buscando um ouvido sensível e um olhar de compreensão.
Bibliografia:
Guiter, J. B. (2000). Traumas precoces. Abuso sexual, daño en la constitución del psiquismo infantil. Revista de Psicoanálisis, 57, 405- 432.Bergeret, J. (1998). A personalidade normal e patológica. 3ª ed. Porto Alegre: ArTmed.
Por Ivana Ferigolo Melo -
No texto comunicação preliminar, Freud, partindo das teorias de Breuer e de Janet, relata suas primeiras constatações teóricas sobre as causas (etiologia) da histeria e expõe algumas técnicas de tratamento que utilizou para tratar essa enfermidade.
Discordando de Janet, para quem a histeria se constitui a partir de uma divisão da consciência oriunda de uma deficiência natural, inata, ele se fundamenta na concepção teórica de Breuer, quem sustenta que a histeria constitui-se a partir da conformação psíquica de estados de consciência com baixa capacidade de associação, os quais ele chama de estados hipnoides (consciência paralela de pouca capacidade associativa). Diferentemente de Janet, Breuer, médico com quem Freud trabalha em conjunto no início de sua carreira, afirma que estes estados hipnoides, os quais delimitam uma divisão da consciência, não são inatos, mas adquiridos, desenvolvidos, e se registram, porque as ideias que os conformam são representações excluídas da consciência a partir de diferentes mecanismos de defesa. Dessa forma, na perspectiva de Freud, a histeria, doença de sintomas somáticos, mas de origem psíquica, constitui-se a partir da conversão de excitação psíquica em inervações somáticas, caracterizando-se, por tanto, por dores corporais.
A conversão da excitação de ordem psíquica para inervações somáticas, mecanismo constitutivo da histeria, dá-se, na ótica de Freud, pelo fato de o indivíduo não tolerar certas representações, ideias ou experiências vividas e via defesa, artifício consciente que consiste em expulsar, afastar, da consciência o que é insuportável, recalca-las, reprimi-las. A repressão ocorre, para Freud, mediante a dissociação do afeto atrelado a representação insuportável, o que torna a ideia fraca, um traço mnêmico frágil. No entanto, a excitação dissociada da representação, não se anula, necessitando ser extravasada por algum outro canal. No caso da histeria, o extravasamento, a descarga da excitação, ocorre, como se disse, mediante uma conversão da excitação para inervações somáticas, manifestando-se por meio de sintomas físicos, dores musculares, enrijecimento de partes do corpo, cegueira, etc.
Na perspectiva de Freud, expressa na Comunicação preliminar, as causas específicas, a etiologia específica (aquilo que é recalcado porque não é suportável) da histeria é sexual, ou seja, são experiências sexuais passivas ocorridas realmente na tenra infância e que eclodem na puberdade quando teria início a atividade sexual dos indivíduos. Essa tese de Freud conforma o que se chama de teoria da sedução, uma teoria que sustenta serem experiências sexuais reais, vividas pelos sujeitos, a causa desencadeadora da histeria. Por esse viés teórico, todo o paciente histérico teria sido seduzido na tenra infância, passando por experiências sexuais que logo seriam recalcadas e participariam da conformação do sintoma e do adoecimento do indivíduo após a puberdade.
Posteriormente, a partir da continuação de seu trabalho de acompanhamento e tratamento de pacientes histéricos e de uma mudança que foi registrando na forma de tratar a histeria, mudança que consistiu em ir deixando, aos poucos, o método da hipnose e ir adotando o da livre associação, Freud dar-se-ia conta de que muitas coisas que os pacientes relatavam eram fantasias, ficções, imaginações, representações construídas sobre o período infantil e não fatos realmente vivenciados. Foi constatando, então, que muitos dos acontecimentos envolvendo sexualidade, sedução, que as pacientes relatavam não haviam ocorrido de verdade, mas eram invenções por elas realizadas muito ligadas a desejos. Assim, a teoria da sedução foi perdendo consistência diante da descoberta do fator da fantasia como grande determinante da histeria.
O surgimento desse novo elemento, a fantasia, converte, obviamente, a teoria da sedução em um equívoco, e, é possível pensar, que o equívoco que levou Freud a desenvolver a teoria da sedução estava relacionado ao método que ele, seguindo Breuer e Charcot, por exemplo, utilizava para tratar a histeria: o método da hipnose. Freud, assim como seus antecessores, acreditava totalmente que, a partir, da hipnose chegava-se a verdade absoluta sobre o indivíduo, alcançar-se-ia a verdade recalcada, enviada para fora da consciência.
Provavelmente, o equívoco de Freud materializado na teoria da sedução, que ele mesmo corrige posteriormente a partir da descoberta do fator da fantasia como elemento etiológico da histeria, deu-se em função de uma tentativa, que é recorrente, quando se estuda e se tenta teorizar sobre uma enfermidade: a tentativa de descobrir e afirmar as verdadeiras e universais causas de uma doença. Tal tentativa, em geral, conduz a descobertas e a constatações, as quais podem ser questionadas diante do surgimento de um elemento novo, que, geralmente, aparece quando os estudos não param no tempo. Penso, assim, que o equívoco de Freud materializado na teoria da sedução emparenta-se a outros equívocos cometidos na historia da histeria pelo fato de os estudos sobre essa enfermidade serem muito antigos e terem passado, portanto, por muitas mudanças, constituindo-se continuamente de forma provisória, já que nunca se estacaram, fecharam-se, mas trataram de, em cada época, afirmar o descoberto como uma verdade.
Por Terezinha Cavalcante Feitosa -
Este paper faz uma análise do Complexo de Édipo no menino de acordo com a concepção de Násio (2007 p. 19-44). As afirmações de autor (op.cit) sobre o Édipo no menino leva-nos a refletir tanto sobre nós quanto sobre aqueles que escutamos. A reflexão sobre o tema instiga, durante a escuta do analisado, verificar como se deu o “afastamento” dos pais, ou seja, o processo de castração, posto que, se esse processo for mal conduzido o sujeito poderá desenvolve determinado sintomas, e/ou dificuldades relacional tanto no que diz respeito ao aspecto afetivo quanto social, que na maioria das vezes os persegue durante toda a vida.
Nesse sentido, verifica-se que a relação das crianças com os pais, nessa fase, entre três quatro anos, é na verdade uma relação imaginária. O que ocorre na maioria das vezes é uma relação homossexual, isto é, a relação da criança consigo mesma, por meio da masturbação, que mesmo inconsciente descarrega suas aflições edipianas. Diante dessas circunstâncias torna-se necessário, ao escutar, ficar atento aos detalhes de uma narrativa, pois nela pode está contido o objeto cristalizado no inconsciente que passou pelo processo de sublimação! Como diz Násio “a experiência vivida do terremoto edipiano fica registrada no inconsciente da criança e perdura até o fim da vida como uma fantasia que definirá a identidade sexual do sujeito, determinará diversos traços de sua personalidade e fixará sua aptidão a gerir os conflitos afetivos. No caso de a criança ter experimentado, por ocasião da crise edipiana, um prazer precoce demais, intenso demais e inesperado demais, isto é, no caso de a experiência de um prazer excessivo ser traumática, a fantasia daí resultante seria a causa certa de uma futura neurose”.
Assim, pode-se imaginar uma criança desnuda cuja finalidade é exibir seu pênis, ou seja, mostrar que está com desejo de possuir a mãe bem como de ser possuído por ela. Alguém de forma bastante grosseira pede para que a mesma ponha roupa, caso contrário, o cachorro pode comer, ele pode voar, e ainda pode ser decepado pela mãe ou pelo “homem do saco”. Partindo dessa premissa podem-se compreender determinados comportamentos masculinos em relação aos relacionamentos seja ele afetivo ou social.
A leitura nos conduz ainda a reflexão do comportamento, ou seja, as atitudes adotadas pelos meninos em relação às mães, ou até mesmo amigas, namoradas dos pais quando estes são pais solteiros. Recordo-me de um menino de quatro anos filho de pai solteiro. O pai, tinha uma namorada e contava orgulhoso o assedio do filho a qual a criança chamava de tia. Quando este ia dormir na casa do pai, uma das primeiras coisas que o menino perguntava era se o pai ia buscar a titia. Notava-se na fala do pai que a criança disputava a atenção da moça. Por vezes, em forma de chantagem tais como: só vou comer quando a titia chegar, conta o pai entusiasmado. Quando a titia chegava, a criança costumava se esconder para que esta o encontrasse. Ao encontrá-lo “escondido” ele imediatamente pegava a mão da moça e convidava para sentar perto dele e assistir desenhos! Acariciava os cabelos e às vezes chegava a morder e correria sorrindo como se tivesse feito algo grandioso. Ao deitar, só dormia se a titia deitasse com ele, ou seja, no seu mundo de fantasia era como se fossem enamorados.
Nesse caso, presume-se que a namorada do pai substitui a mãe. O desejo do menino se manifesta nas atitudes em relação à moça que assume o papel de mãe nos dias em que este fica com o pai. É provável que ao pedir para que a moça assista desenhos infantis, acariciar os cabelos e até dar-lhe um beijo demorado na face seja um jogo de sedução para conquistá-lo, em outras palavras, ele está dizendo: eu desejo você e você pode me possuir.
Além desse fato, recordo-me de duas crianças da pré-escola entre 4 e 5 anos que se masturbavam durante as aulas, ao ponto da professora presenciar eles ejaculando. Em principio a professora sentia-se constrangida, pois não sabia como lidar com a situação, ao mesmo tempo tinha receio de comunicar aos pais, uma vez que não sabia como abordar o tema. Sua atitude era do senso comum, isto é, de pensar que as crianças estivessem envolvidas com pornografias e/ou que os pais fossem pessoas com baixo valor moral. Como se sabe nenhuma das hipóteses são verdadeiras, mas apenas uma manifestação normal para crianças daquela idade.
Durante minhas escutas com homens analisados, pude perceber em um deles que o complexo de Édipo foi dolorido e muito mal resolvido. Pode-se visualizar a dor da castração tanto na fala quanto no olhar provocando comportamentos neuróticos ao ponto de sujeito ter ódio de se mesmo. Diante disso, pode-se perceber a complexidade do comportamento sexual das pessoas, não seria insensato dizer que cada analisado é um mapa que deve ser decifrado em suas minúcias.
Bibliografia: NÁSIO, J. D. Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, 156p.