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Sobre o discurso na psicanálise

Por Ale Esclapes -  Iniciei há algum tempo uma leitura mais aprofundada de Lacan e aqueles que seguem seu ensino (como alguns gostam de serem designados). É muito interessante a diferença entre as formas de escrita nas diversas escolas de psicanálise. S. Freud sempre me impressionou como escritor. Possuía um domínio da língua, tinha um estilo ao mesmo tempo que acadêmico, bastante coloquial. Um verniz positivista contrasta com a radicalidade de suas descobertas. Freud geralmente não se referia a outros, mas a psicanálise. Quando se referia a outros, geralmente era para descordar não que fosse regra, mas uma norma. Melanie Klein era na melhor das hipóteses uma escritora ruim, com textos árduos e exigentes em relação a Freud. Como investigou a fundo a questão da fantasia, que por si só aponta para uma dificuldade de simbolizar-se, algumas vezes seus textos parecem herméticos. Mas é interessante notar que a Klein do início não é a do fim. Se no início era necessário se colocar como filha de Freud, suas obras da década de 50 mostram um escrito muito mais segura de si. Seus seguidores mantém o estilo de escrita desde a década de 50, mas com um ar muito mais leve. Se em Freud a teorização era algo muito importante, para os kleinianos o caso clínico, a experiência analítica, ganha um primeiro plano. D. Winnicott foi fiel à sua própria teoria – um escritor simples, de palavras cotidianas, não preocupado com seus antecessores mas com seus pares. Exerceu aquilo que denominou de gesto criativo em relação a psicanálise. Seus textos são frescos, vívidos, cheios de esperança – muito diferente do Freud depois de 1924. Agora vem uma escrita que venho descobrindo – a lacaniana. Me parece que essa escrita emerge de uma estrutura deixada pelo próprio Lacan. Precisa conter o nome-do-pai, razão que não passa uma única página sem citar Freud. Pela teoria lacaniana, se isso não ocorresse seria uma foraclusão. Será que é essa a insistência em se dizer seguidor do ensino de Lacan? Para marcar uma posição estruturante pelo menos neurótica? De qualquer forma me parece a escrita mais determinista dentre todas – não se escapa de suas estruturas. Esse é um legado de quem namorou por muito tempo o estruturalismo – a repetição.

Minhas amebas queridas

Por Sérgio Rossoni -  “As pessoas e as coisas não nos perturbam, nós é que perturbamos a nós mesmos acreditando que elas possam nos perturbar”. (Albert Ellis – fundador da Terapia Emotiva Racional)“Não existe nada bom ou ruim, o pensamento é que torna as coisas assim”. (Shakespeare) “Nós nos tornamos aquilo em que pensamos o dia inteiro”. (Ralph Waldo Emerson - escritor, filósofo e poeta estadunidense) “As pessoas são tão felizes quanto suas mentes acreditam que são” (Abraham Lincoln) Estas frases de ilustres pensadores refletem com bastante clareza a minha ideia daquilo que venho escrevendo sobre o pensamento, e de como somos responsáveis a partir dele, por tudo em nossas vidas. Uma frase muito interessante dita por Alfred Bion, psicanalista britânico pioneiro em dinâmica de grupo, mostra como o pensar exerce papel primordial em nosso mundo externo, colocando a mente como o maior inimigo do homem. Quando colocado desta forma, parece um horror. Como assim? A mente é nossa pior inimiga? Quando regada por formas pensamento que acabamos nutrindo muitas vezes do coletivo externo, ou de nossas introjeções, sim. Por isso tenho escrito muito sobre o tipo de pensamento que nutrimos de forma incondicional, sem levar em conta os resultados práticos no corpo e nas ações externas. Nutrimos uma série de ideias que vivem impregnadas em nossa mente feito amebas – formas pensamento criadas a partir da crendice externa e interna, e que ditam todo o tempo o que fazer ou não de forma bastante crítica. O superego freudiano poderia ser comparado a elas, formando internamente regras e condutas que de certa maneira, equilibrada através de uma exausta negociação entre Ego e Id, nos fazem permanecer nos trilhos do equilíbrio (na medida do possível). Contudo, sendo o pensamento uma forma material (pois molda a matéria ao nosso redor), cabe examinarmos agora algo de grande importância – a qualidade. Isso mesmo. É na qualidade de formas absorvidas que determinados a criação de uma série de pensamentos obsessivos, agressivos, temerosos e repletos de defesas gerando regras infinitas de conduta, postura, anulando muitas vezes por completo a força de expressão do nosso espírito, ego, alma, etc. Formas pensamentos podem ser frutos de uma herança filogenética, somada a visão pessoal e introjeção do mundo externo – poderia até mesmo citar aqui Melanie Klein em relação à introjeção de objetos maus – tornando nossa vida um verdadeiro inferno. Vivemos em conferência com estas formas muitas vezes captadas do coletivo, e que no fundo, nem mesmo representam nossa essência interna. O medo, a negatividade, a agressividade, acabam por gerar crostas mentais onde nos tornamos intolerantes com a vida, negativos, cansativos e imensamente chatos para nós mesmos. Se fizer sol é ruim; se chove também; Se ganhou algum dinheiro inesperado, é melhor escondê-lo antes que apareça aquele parente interesseiro; Se não ganhou dinheiro nenhum, é porque dinheiro não dá em arvore; A vida é uma luta; Desconfie de todos... Enfim, uma série de ideias que estão todo o tempo criticando não apenas o externo, mas bombardeando e anulando você mesmo. Lembrando que, pensamento é forma, nos tornamos aquilo que pensamos, ou seja, podemos com o tempo nos tornar uma grande e irritante ameba. Mas como fazer com estas formas pensamento que não param de agir tentando controlar tudo e todos? A resposta é: Nada! Isso mesmo, nada. Cada vez que eu reajo a elas, mais e mais entro em conflito alimentando-as de certa maneira. Entender que o mundo e as pessoas não estão aqui para me servir, e que determinadas situações fogem ao meu controle, já é uma boa maneira de agir transformando a qualidade do pensar. Quando não reagimos ao briguento, ele acaba desistindo e vai embora. Formas pensamento são parecidas. Na medida em que eu as escuto, convicto de que tal pensamento é apenas fruto de uma série de ideias negativas e que não necessariamente representam a minha realidade, elas começam a perder a força dando lugar a novas ideias permeadas na realidade de fato, e não em idealizações fruto de nossas crendices fantasiosas. Note que eu não estou dizendo como devemos ser otimistas ou pessimistas. Só estou dizendo como é possível alterar nossa ótica das coisas a partir de uma análise interna, começando pelo que de fato acreditamos. Prestar atenção se determinado pensamento, regra, é mesmo seu, ou é apenas fruto de algo coletivo? Essas crenças são minhas ou dos meus antigos familiares? Olhar e analisar se aquilo que permeia nossas ideias são frutos da nossa condição interna ou não. Avaliar a qualidade destas ideias, regras, e como elas atuam em nossas vidas – positiva negativa... Por fim, não reagir a crítica interna, observando se aquilo realmente faz sentido – observando o quanto estas amebas nos impõe regras e mais regras minando a facilidade do viver, preferindo consolidar a ideia de que a vida é duraaaaaa – daí um consolo para nossa crise interior, aceitando esta ideia como verdade absoluta. A vida não é dura – é você quem determina isso como verdadeiro para você mesmo. Acho que já disse isso antes. Trabalhe seus pensamentos visando mais saúde, psíquica e física. Diante daquele problema que parece não ter solução, escute as imposições das suas amebas, mas sem reagira elas, compreendendo que são frutos do próprio medo e da falta de confiança nos processos da vida. É incrível como com o tempo e exercício, essas vozes vão se calando, as imposições vão se dissolvendo, e as soluções para problemas imensos vão surgindo quando assumimos nossa impotência diante deles, deixando que a vida atue sem a interferência das nossas amebas que sempre travam tudo. Repare na sua vida. Eu tenho a certeza de que agora você se lembrou de uma série de acontecimentos onde, quanto mais você metia a mão, mais a coisa toda travava. Pensar é um grande exercício. Não paramos para avaliar isso. Introjetamos tudo ao nosso redor e seja o que Deus quiser. Se não puder agir sozinho, busque ajuda, mas pare agora de escutar suas amebas.Até.

Escuta do Ofício com o Prof. Cristiano José - 05/02/2024

Convidado: Me. Cristiano José - Filósofo -  Me. Educação- FEUSP. Professor de Filosofia, Sociologia e História. Data/horário: 05/02/2024 (quarta-feira) 20:00hs Investimento: Evento online, gratuito e realizado por videoconferência. Necessária a inscrição prévia, número de vagas limitadas.  Organização: Grupo Ateliê de Ideias - Maria Foster, Fernanda Hisaba, Juliana Rocha, Sueli Matsuki e Tatiana Costa. Haverá emissão de certificados de participação: Ao final do evento será disponibilizado um link para um formulário de pesquisa de satisfação e emissão de certificado válido somente para o dia do evento. _______________________________Dúvidas: Tel.: (11) 3628-1262; WhatsApp (11) 9 9876 9939 ou Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Atenciosamente, Equipe EPP.

A psicanálise e a ideologia

Por Ale Esclapes -  Hoje, dia cinzento e frio em sampa, decidi por escrever artigos. Parece que escrever artigos é coisa de gente preguiçosa, mas a escrita exige uma certa reclusão que um dia assim proporciona.  A partir daí tive a ideia de escrever sobre o programa Café Filosófico (atenção nobre leitor, pois isso é muito perigoso, pois quem tem ideias são os idiotas, mas se quiser seguir em frente, é por sua conta e risco). Lembro de um dia que se falava sobre os limites na criação de nossos filhos, figuras paternas, complexo de Édipo e todo o arcabouço psicanalítico para a questão. Despois que o orador discorreu por uma hora sobre o tema, dando um cenário quase que fatídico, meio deprimente até sobre as novas gerações, a falta do limite, a psicose, etc... veio a parte de perguntas. A primeira pergunta foi: “o que fazer?” Bingo! O apresentador, meio constrangido não respondeu. Divagou que isso passava pelo poder público, pela estrutura da família, etc... e não respondeu, em sequer deu uma luz sobre o assunto.  Se o “gosto amargo de fel” estava na boca depois de uma oratória que só faltou falar do apocalipse causado pela falta de limites na sociedade, a coisa ficou pior. Essa situação ficou maturando na minha cabeça por quase um ano, até que pudesse formar uma opinião (provisória, claro) sobre a situação. Daí algumas reflexões: 1) O discurso psicanalítico corre sempre um sério risco de escorregar para uma ideologia. A ideologia que temos, ou nossos pacientes têm de chegar na posição genital, ou na depressiva, ou pós depressiva, ou maturar (até parece que self é fruta), se deparar com o vazio (sem a esperança de Winnicott – Deus me livre), e por aí vai. 2) Quando esse discurso escorrega para a ideologia, somente cabe uma pergunta do tipo: “o que fazer?”, pois imediatamente surge o desejo de se realinhar com a ideologia, como se fossemos menores (não precisa muito para um neurótico se sentir menor) e precisássemos de uma “cura ideológica”. 3) “Explicação só é boa para quem explica!” Assim dizia o avô do Armando Colognese. De que adianta explicar alguma coisa? Ou melhor, do que adianta explicar algo que não tem solução? Essa frase teve um profundo impacto em mim, na minha forma de clinicar, e na minha forma de escrever. Explicar algo cujo resultado tenha como sobra um sentimento de culpa ou vergonha, não serve para nada. Se servir como um Lexotan então, piorou. Diante de tudo isso proponho a reflexão sobre os limites do discurso psicanalítico. A sociedade está ávida por um discurso ideológico que evite as culpas e responsabilidades por suas ações (isso é do humano, logo não tem conserto, logo gostaria que isso não fosse levado para o lado ideológico), mas cabe aos psicanalistas tomarem cuidado para que a psicanálise, suas propostas e suas teorias não se tornem ideologia de massa.  Freud já deve ter nos alertados sobre isso em algum lugar, ou vários, mas deixo ao leitor o deleite de descobrir isso.

Finalmente iniciamos o ano

Por Sérgio Rossoni -  Finalmente o Carnaval acabou e o ano começou... Quem já não escutou essa frase, ou disse isso?A questão é que, o ano acaba de começar e eu sinto que o meu combustível interno esta vazio! – em outras palavras, nem bem o ano começou e eu já estou sem gás. Se você se sente assim, acho que esse texto vai te servir. Muitas vezes as promessas de um novo ano, ou mesmo o intervalo das festas coletivas, não correspondem com aquilo de que gostaríamos de fato – a tal da renovação interna. Pelo contrario, tenho observado em algumas pessoas como este período acaba sendo uma parada desesperadora onde toalhas são jogadas no chão na esperança de ver o que dá no ano que vem. O tal do “depois eu penso nisso”. Levando-se em consideração a situação atual do país, poderíamos até dar um desconto. Contudo, a tarefa árdua em se preservar deste coletivismo pesado e negativo tem se tornado um exercício cada vez mais difícil, principalmente quando sentimos certo estado de desanimo nos rodeando feita aquela nuvenzinha negra perseguindo o personagem no desenho animado. Quando neste estado, é comum nos sentirmos em um grande vazio, perdido. A confiança em alcançar nossas metas já não parece algo tão empolgante; O emprego torna-se um grande fardo repleto de duvidas, e até mesmo nossas vidas pessoais e afetivas podem ser afetadas, ou melhor, contagiadas. O problema é que sair deste estado sozinho nem sempre é possível, e muitas vezes, deixamos a vida nos levar sem perceber como a estrada em que seguimos nos conduz rumo a uma ladeira cada vez mais acentuada. Tenho escrito muito sobre o exercício do pensar, e de como nos conectamos a certas frequências onde passamos a viver momentos intensos alterando nossa realidade externa. Uma reavaliação interna, compreendendo e atuando em conexão com o corpo físico, nos serviria como respostas para uma série de conflitos gerados por formas pensamento, amebas, impregnadas por ideias coletivas nem sempre positivas; contudo, na maioria das vezes, o processo mental acaba por sobrepor-se ao intelecto físico e espiritual – nos guiamos 100% pela cabeça, quando devemos desenvolver uma escuta interna levando-se em conta as sensações físicas, a linguagem da alma através da intuição e sensações que ela desperta, compreendendo e dando um novo significado para bem estar, onde nossas perguntas internas são formuladas a partir de um novo estado capaz de conectar- se com o nosso Eu de forma serena. A falta de gás é apenas um indicio de como você vem se posicionando diante dos fatos que o afligem, sem estabelecer este contato interno, ignorando a linguagem do corpo que nos fala através de sensações positivas ou não, somado a intuição que permeia entre o inconsciente e o consciente. Daí, o conflito. Uma forma do corpo e da alma responder a sua condução automática diante das coisas, sem prestar atenção àquilo que de fato é o mais importante: Você! Costumo fazer alguns exercícios com meus clientes, onde tentamos detectar certos vazamentos energéticos; Sim, perdemos uma quantidade imensa de energia nos preocupando com o nada! Impregnando-nos com o medo coletivo, ou mesmo com as PREOCUPAÇÕES em relação ao futuro, as pessoas, aos outros... Imagine-se como um carro e tente perceber se existe algum tipo de vazamento em seu tanque de combustível – entendendo por vazamento tudo aquilo que parece sugá-lo de maneira incessante (pessoas, medos, preocupações = falta de confiança em si; crença nas ideias dos outros ao invés de escutar e validar a sua própria ideia; as metas fantasiosas e inalcançáveis tornando seu ano novo um fardo enorme fadado à frustração; enfim...). Como disse, quando estamos sem gás, sair desse estado sem ajuda pode ser uma tarefa difícil. Uma mãozinha que nos de um impulso pode ser necessário e muito bem vinda, e se por acaso você esta se identificando com este texto, procure alguém que possa ajudá-lo nessa tarefa. Atualmente existem milhares de profissionais nas áreas psi atendendo em clinicas sociais incríveis – ou seja, dinheiro não é o problema. Um bom coaching também servirá para este propósito. Então, meu recado para você é:Se esta sem gás e não consegue abastecer-se, procure um posto amigo – busque ajuda e conhecimento, mas procure encarar seu conflito para que a dor de lugar ao alivio de poder se reposicionar de uma nova maneira, uma nova forma mesmo diante dos velhos conflitos. Algumas dicas sobre clinicas sociais:- Procure no Google ou no Facebook sobre a EPP (Escola Paulista de Psicanalise); - Investigue em sua paróquia - muitas delas mantém o serviço social com psicólogos e terapeutas (Eu mesmo trabalhei um bom tempo em uma delas). - Não desanime, e nem se culpe ou critique. Entenda apenas que a falta de ânimo pode ser um aviso do quanto você esta desconectado de você mesmo. Restabeleça esta conexão e ganhe muito em todos os sentidos. Até!!!

Adolescência e maturidade

Por Ale Esclapes -  Estava conversando com outro paciente enquanto esperava meu horário no dentista quando ele me mostrou uma reportagem de uma revista sobre adolescência e disse que estava feliz por ter saído da mesma. “Foi uma época muito complicada da minha vida, essa tal adolescência.” Fiquei curioso e perguntei o porquê, o que havia acontecido de tão complicado. “Meus hormônios estavam a mil e eu queria transar todos os dias, várias vezes ao dia. Fiquei agressivo e comecei a brigar muito com minha mãe. Ela me enxia só por que eu chegava bêbado de vez em quando, mas graças a Deus isso passou”. Interessante essa visão do que seja a adolescência – uma questão meramente orgânica. Tudo relacionado a hormônios, sexo... Perguntando um pouco mais sobre o desfecho dessa adolescência descubro que ele está na terceira tentativa de faculdade, mas já possui independência – mora só e bem longe de casa. Só um detalhe no meio disso tudo - é sustentado pela mãe, que paga todas as contas. Acho um pouco questionável essa visão de adolescência baseada em hormônios. Sinceramente prefiro uma baseada em responsabilidade. Winnicott nos ensina que temos uma trajetória da dependência à independência, logo, creio que a adolescência passa quando podemos pagar nossas contas com o fruto do nosso trabalho. Não creio que exista liberdade sem responsabilidade, e isso passa por nossa capacidade de conquistar nossa independência emocional e financeira. Fico com um pé atrás com essa apropriação fisiológica do ser humano que exclui o sujeito com suas responsabilidades perante o outro e a si mesmo. Enfim estou ficando velho diante dessa mudança de valores...

As tarefas do amor - da paixão à maturidade

Por Alê Esclapes -  Etimologia da palavra “amor”: A palavra “amor” possui como referência comum a palavra latina “amore”, o que do ponto de vista da investigação, não ajuda muito. Acompanhando Zimerman (2010) será utilizado nesse trabalho a etimologia de amor como sendo “a” (contra) e “mors” (morte), ou seja, aquilo que se opõe a morte. Essa etimologia coloca algumas reflexões importantes, como por exemplo, o que seria a morte, morte de quem e do que, e como seria essa manifestação do “a-mors”, como seria a concretude do exercício dessa tarefa chamada “amar”. Outro desenvolvimento seria observar que para cada entendimento sobre o que seria a vida, o viver, teríamos o seu avesso, a morte - vida/morte em um par inseparável, assim como o conceito de amor não está separado do conceito de morte. Outro desenvolvimento ainda seria analisar a morte no indivíduo e no coletivo. Vida/morte na psicanálise: É interessante observar que para cada grande autor da psicanálise, em função do seu entendimento da realidade psíquica, poderia se entender um par vida/morte. Freud talvez foi um dos autores que mais reformulou suas teorias a respeito desse par. Desde de seu entendimento da sexualidade como a raiz da neurose, suas teorias sobre o amor se versaram através da sexualidade humana. Sua última formulação foi o par Eros/Thanatos, também chamadas pulsões de vida e de morte. Observa-se aqui o uso da palavra Eros e não outras disponíveis na língua grega, como por exemplo, Ágape. Freud sempre foi incisivo sobre a questão do prazer como “o” mediador das relações humanas. Melanie Klein já na sua maturidade como teórica e analista postula o par inveja/gratidão como o grande representante do par vida/morte. Outra forma de entender a inveja seria entendê-la como o horror a dependência que temos do outro, sendo a gratidão ao outro o seu antidoto. Donald Winnicott nos propõe a devoção materna como o protótipo do amor, pois esse seria o responsável pelo desenvolvimento sadio do seu bebê. Vários são os elementos aqui envolvidos, como a capacidade da mãe de se comunicar silenciosamente com bebê, ou seja, sua capacidade de empatia, de se presentificar quando seu bebê está em condições de cria-la, de suportar (“holding”) e prover um ambiente facilitador do desenvolvimento das potencialidades criativas de seu filho(a). Bion nos chama atenção para a verdade que nos cerca – Édipo não teria feridos seus olhos como uma “castração” como sugere Freud, mas porque a verdade lhe era insuportável. A verdade é entendida aqui como simplesmente “aquilo que se é” e não “aquilo que se deveria ser”, ou um representante de uma “verdade última”. A verdade é aquilo que se é a cada instante. Este “sendo” a cada instante possui diversas consequências, mas o que interessa aqui é que não se é “em si”, mas pelo outro. Uma das tarefas ontológicas do ser humano é o “ser no outro”, e a morte seria a não concretização dessa tarefa. A verdade é para Bion a condição sine qua non dessa travessia. Podem-se reunir aqui alguns elementos dessa tarefa que é o amor para a psicanálise a partir desses autores: prazer, gratidão, devoção e verdade. Talvez esses elementos estejam presentes no percurso entre a paixão e a maturidade de uma relação, e que a quantidade desses ingredientes variam em com o tempo.

O fenômeno esquizoide

Por Sérgio Rossoni - Em clínica psiquiátrica, o conceito de psicose é tomado a maioria das vezes numa extensão extremamente ampla, de maneira a abranger toda uma gama de doenças mentais, quer sejam manifestamente organogenéticas, quer sua etiologia permaneça problemática. Na psicanálise, o interesse incidiu, em primeiro lugar, nas afecções mais diretamente acessíveis à investigação analítica, e dentro deste campo mais restrito que o da psiquiatria, as principais distinções são as que se estabelecem entre as perversões, as neuroses e as psicoses. Neste último grupo, a psicanálise procurou definir diversas estruturas: paranoia e esquizofrenia, por um lado, e por outro a melancolia e a mania. Fundamentalmente, é uma perturbação primária da relação libidinal com a realidade que a teoria psicanalítica vê o denominador comum nas psicoses, onde a maioria dos sintomas manifestos são tentativas secundárias de restauração do laço objetal." (Laplanche e Pontalis – Dicionário de Psicanálise – Psicose – pg. 390). Para entendermos o psicótico, é importante relembrarmos sobre a posição esquizoparanóide de Melanie Klein, onde o ego utiliza a cisão como mecanismo de defesa para lidar com suas ansiedades, buscando dispersar seus impulsos destrutivos. “Na primeira infância, surgem ansiedades que obrigam ao ego criar mecanismos de defesa específicos. Neste período se encontram pontos de fixação de distúrbios psicóticos”. – (Inveja e Gratidão – Melanie Klein - pg. 20) O nascimento representa a saída da plenitude, do nirvana. O mundo real se apresenta de forma grosseira e cruel, despertando sensações como o frio, a fome, bem como necessidades como urinar, defecar, etc. É preciso chorar para obter o alimento, ou anunciar suas necessidades, apontar dores, cólicas entre outros. Na percepção da dependência do outro para sobreviver, nasce a frustração. Essa experiência é sentida como causada por objetos externos. Impulsos destrutivos são dirigidos para este objeto externo, passando posteriormente para ataques sádicos ao corpo da mãe, enquanto parte destes impulsos permanece ligada à libido no interior do organismo. Para Klein, as relações de objeto existem desde o inicio da vida, sendo o primeiro objeto o seio da mãe.A primeira relação com o objeto implica em projeção e introjeção. As relações de objeto são moldadas pela interação entre os mecanismos de projeção e introjeção desde o inicio, bem como entre objetos e situações internas e externas. Esses processos participam na construção do ego, e do superego e preparam o terreno para o surgimento do complexo de Édipo na metade do primeiro ano de vida. (Inveja e Gratidão – Melanie Klein - pág. 21) No entanto, da mesma forma que tais impulsos são projetados nestes objetos, imediatamente são introjetados novamente. Logo, estes objetos sentidos como mau (seio mau), passam a existir também no mundo interno. Tais ataques a estes objetos faz surgir o medo de uma retaliação ou um contra ataque por parte destes, que passam a ser sentidos como persecutórios. “A necessidade vital de lidar com a ansiedade força o ego arcaico a desenvolver mecanismos de defesas. O impulso destrutivo é parcialmente projetado para fora, e prende-se ao primeiro objeto externo, o seio da mãe. Outra porção deste impulso permanece ligado a libido no interior do organismo". Porem, nenhum desses processos resolve o problema da perseguição e de ser destruído. Logo, sob a pressão dessa ameaça o ego tenta se despedaçar “. (Inveja e Gratidão – Melanie Klein - pág. 24) O ego então faz uma cisão buscando como resultado a dispersão do impulso destrutivo. Na cisão, este mundo interno ainda confuso, repleto de objeto introjetados é de certa forma organizado. De um lado, objetos maus, de outro objetos bons. O bebê então percebe o seio como bom (aquele que recebe amor e lhe protege), e seio mau (aquele que o persegue e é receptor de seus ataques sádicos). O mundo é divido entre bom e mau. “O impulso destrutivo projetado para fora é vivenciado como agressão oral. Impulsos sádico- orais dirigidos ao seio da mãe. Depois vem os impulsos canibalescos com o início da dentição. O bebê vai sugar e destruir o seio. Na sua fantasia, o seio mau é destruído, e o seio bom permanece inteiro. Esse seio bom interno é responsável pela construção do ego, e contrabalança os processos de cisão e dispersão. Winnicott descreveu este processo como a capacidade do bebê adaptar-se à realidade mediante a experiência obtida através do amor e carinho da mãe “. (Inveja e Gratidão – Melanie Klein –Processo de cisão em relação ao objeto- 1946- nota de rodapé 10 – pág. 25) “A ansiedade e a frustração pode ameaçar a sensação que o bebê tem de ter dentro de si um seio bom. Logo, o bebê pode sentir que seu objeto interno bom está também despedaçado, pois fica difícil manter a cisão entre objeto bom e mau. O ego não consegue cindir objeto interno e externo sem que ocorra uma cisão correspondente dentro dele. Quanto mais o sadismo prevalece no processo de incorporação do objeto mais este é sentido como estando em pedaços e mais o ego corre o risco de cindir-se aos fragmentos desse objeto internalizado.” ”. (Inveja e Gratidão – Melanie Klein –Processo de cisão em relação ao objeto- 1946) Assim, o processo de projeção e introjeção se torna um cíclico, presente em todo desenvolvimento do ser. Neste ponto, o meio ambiente terá sua parcela na introjeção de objetos bons ou maus, de acordo com a forma que este se apresentar. Um ambiente repleto de amor, atenção, carinho, etc., poderá ser sentido como objetos bons, aumentando o número de objetos bons internos. Do contrário, um ambiente violento, cheio de falhas materna, poderá ser sentido como objetos maus, igualmente aumentando o número destes objetos no interior do bebê. O processo de cisão vem para organizar o que antes estava misturado. Agora, sentimentos bons são dirigidos ao objeto bom, enquanto ataques destrutivos dirigidos para os objetos maus. Outros mecanismos de defesa são criados. Através do processo de idealização, o objeto bom é exageradamente sentido como um protetor poderoso contra os objetos maus. Não se trata de um simples objeto bom. Agora, este objeto é MUITO bom. Na negação, a existência de um objeto mau é negada. Todas as sensações de frustração e dor são negadas. A realidade psíquica é negada. Na onipotência, o ser sente-se capaz de negar a própria realidade psíquica. “A negação onipotente da existência do objeto mau e da situação de dor é, para o inconsciente, igual à aniquilação pelo impulso destrutivo”. “Uma parte do ego, da qual emanam os sentimentos pelo objeto, é negada e aniquilada também”. “Na gratificação alucinatória ocorrem dois processos inter-relacionados: a invocação onipotente do objeto e da situação de ideais e a onipotente aniquilação do objeto mau persecutório e da situação de dor; Esses processos se baseiam tanto na cisão do objeto como do ego”. (Inveja e Gratidão – Melanie Klein – A cisão em conexão com a projeção e a identificação -pág. 26) Como vimos anteriormente, os ataques antes dirigidos ao seio da mãe passam a ser dirigidos para o corpo da mãe, já que seu corpo é percebido como uma extensão do seio.Na sua fantasia, o bebê vai lançar para dentro do corpo da mãe excrementos nocivos e destrutivos, além de sugar o seio até exauri-lo. Partes excindidas do ego são projetadas para dentro da mãe. Estes excrementos terão como objetivo controlar e tomar possa do corpo desta. Uma vez contendo partes do self mau, a mãe agora é sentida como o próprio self mau. Passa a ser o self mau, sentido como objeto perseguidor. Melanie Klein chamou este processo de identificação projetiva. “Não são só as partes más do self a serem expelidas. Partes boas também. Logo, excrementos podem significar presentes, e as partes do ego projetadas para outra pessoa representam as partes boas, amorosas do self”.(Inveja e Gratidão – Melanie Klein – Identificação Projetiva -pág. 27) “A identificação projetiva da origem a medos de ser controlado pelo objeto; Uma vez na fantasia o bebê projetando parte de seu self para dentro do objeto com o objetivo de possuir e controlar, começa a ter medo da retaliação – ser controlado. Ser perseguido dentro de seu próprio corpo pelo objeto introjetado e reintrojetado violentamente. O objeto reintrojetado é sentido como contendo os aspectos perigosos do self”. (Inveja e Gratidão – Melanie Klein – Identificação Projetiva -pg 30) O medo de ser aprisionado e perseguido dentro do corpo da mãe (resultado da identificação projetiva) estão na base da paranóia. “As relações esquizoides são de natureza narcísica. Eu projeto meu ideal do ego em outra pessoa. Passo a amar e admirar essa pessoa porque na verdade estou amando eu mesmo. Essa outra pessoa passa a ter as partes boas do meu self”. (Inveja e Gratidão – Melanie Klein – Relações de objetos Esquizóides -pg 32) Controlar o outro, é controlar seu próprio self projetado no objeto. Quando este objeto é perdido, é sentido como se o próprio self tivesse sido perdido. Surge o sentimento de solidão e o medo de separar-se do objeto. “O medo da frustração da separação, desperta a agressividade. Uma vez controlando com agressividade as partes boas do self projetadas dentro do sujeito, o objeto interno é sentido como correndo o mesmo perigo de destruição que o objeto externo, resultando num enfraquecimento do ego. Solidão”. (Inveja e Gratidão – Melanie Klein – Relações de objetos Esquizoides -pág. 33) Ainda sobre a identificação projetiva, Hanna Segal a define como:(processo através do qual uma parte do ego é excindida e projetada para dentro de um objeto, com consequente perda desta parte para o ego, bem como alteração na percepção do objeto.) (Melanie Klein hoje; Vol. I; Depressão no Esquizofrênico; Hanna Segal). Através da identificação projetiva, o psicótico projeta suas ansiedades sentidas como algo insuportável.Herbert Rosenfeld escreve em seu artigo “Conflito com o superego num paciente esquizofrênico”, a importância em se interpretar as transferências positivas e negativas, salientando que o êxito na análise depende da compreensão do analista das manifestações psicóticas na situação transferencial. Rosenfeld ainda em seu artigo desenvolve a ideia de que o objeto bom internalizado aumenta a severidade do superego, e devido a exigências rigorosas, é sentido como um objeto persecutório. “Na análise de pacientes esquizofrênicos – Podemos muitas vezes observar apenas os objetos persecutórios funcionando como superego. Isso pode ser devido às exigências extremas dos objetos idealizados. (Melanie Klein hoje Vol. I – Herbert Rosenfeld – Conflito com o superego num paciente esquizofrênico)”. O psicótico toma muitas vezes tudo o que o analista diz como algo concreto. Se interpretarmos uma phantasia de castração, ele tomará a própria interpretação como uma castração. Trata muitas vezes a fantasia como realidade, e realidade como fantasia. Quando projetado suas ansiedades para dentro de um objeto externo, via identificação projetiva, tal objeto passa a ser percebido como persecutório. Entretanto, ocorrerá uma introjeção deste objeto, sentido como uma reentrada violenta. Muitas vezes, o psicótico tentará romper a ligação com o mundo externo, temendo esta reentrada. No entanto, a introjeção deste objeto implica na existência deste tanto interno quanto externo. O objeto persecutório passa a existir na fantasia e na realidade. “Todo paciente esquizo projeta seu superego e a si mesmo para dentro do analista; mas o analista interpreta esta situação e os problemas ligados a ela até que, gradativamente, o paciente seja capaz de aceitar tanto seu amor e seu ódio quanto o seu superego como coisas que lhe pertencem.” (Melanie Klein hoje Vol. I – Herbert Rosenfeld – Conflito com o superego num paciente esquizofrênico) Freud aponta a psicose como o ego a serviço do id, que se retira em parte da realidade. Sobre este tópico, Bion escreve: “O ego não fica completamente fora da realidade. Seu contato com a realidade é mascarado pelo predomínio, na mente e no comportamento do paciente, de uma fantasia onipotente cujo propósito é o de destruir não só a realidade mas a percepção dela, e assim atingir um estado que não é vida nem morte”.(Melanie Klein hoje Vol. I – Herbert Rosenfeld – Diferenciação entre a personalidade psicótica e a não psicótica) Segundo Bion, pacientes psicóticos possuem uma parte não psicótica da personalidade, que fica assim obscurecida por sua parte psicótica. O afastamento da realidade é uma ilusão decorrente do uso da identificação projetiva contra o principio da realidade. Porém, esta fantasia torna-se um fato para o psicótico. A realidade odiada é fragmentada e projetada para fora. Estes objetos expelidos são sentidos como se tivesse vida própria, estando então o psicótico cercado por objetos bizarros. A cisão e a identificação projetiva visa o afastamento da própria realidade. As palavras são tomadas como coisas reais, pois o psicótico não simboliza. Hanna Segal escreve em seu artigo “Depressão no esquizofrênico – Melanie Klein hoje vol.1” sobre o processo pelo qual o esquizofrênico alcança a posição depressiva, vivenciando as ansiedades despertas durante este processo. No entanto, os sentimentos de culpa, sofrimento, são sentidos como intoleráveis. Assim, tais ansiedades depressivas serão projetadas para fora, ou seja, grande parte do seu ego será projetada para dentro de outro objeto através da identificação projetiva. Assim, o avanço para a posição depressiva no paciente esquizofrênico é sentido como uma ameaça. É preciso retomar o percurso contrário da sanidade, pois esta é acompanhada por sentimentos insuportáveis. É comum o paciente psicótico projetar a parte deprimida do ego para dentro do analista, provocando sentimentos depressivos no analista. A parte sadia do ego é perdida, e neste caso, o analista torna-se objeto persecutório. Hanna Segal aponta para a importância de colocar o paciente esquizofrênico em contato com seus sentimentos depressivos, e com o desejo de reparação que dele originam. É de suma importância que o analista descubra onde e em quais circunstâncias a parte depressiva do ego foi projetada, interpretando para seu paciente. A identificação projetiva por um lado, constitui uma reação terapêutica negativa (RTN), cabendo ao analista acompanhar cuidadosamente durante a transferência, a emergência da posição depressiva e sua projeção, permitindo assim ao paciente fortalecer a parte sadia da personalidade. Por outro lado, a identificação projetiva é uma defesa contra a depressão.

Daniel Paul Schreber

Por Andrea Senna -  Daniel Paul Schreber, 42 anos, casado há seis anos. Demonstrava uma carreira bem sucedida como jurista. Na Alemanha, Schreber desenvolve uma crise psicótica ao assumir um cargo que um juiz podia alcançar. É invadido por delírios e alucinações que lhe transmitiam a mensagem de que Deus iria manipular o seu corpo, transformando-o em mulher para dar origem a uma nova raça. Durante a internação psiquiátrica escreveu um livro sobre suas recordações sobre “a doença dos nervos”. Freud fez uma análise do caso Schreber, a partir da qual também funda sua teoria acerca da psicose.  1.1 Antecedentes da infância e influências de familiares: Na infância tinha que dormir com aparelhos de ferro e couro que seguravam seus pés, deixavam sua coluna reta e a cabeça era segura com uma espécie de capacete que se estendia até o queixo. O objetivo era permitir que o crescimento do crânio se desenvolvesse adequadamente. Era filho de um importante médico ortopedista, professor da Universidade de Leipzig. O pai de Schreber o obrigava a submeter a técnicas rígidas de educação postural e comportamental. Um acontecimento importante na vida de Schreber, foi quando tinha 16 anos, seu pai sofreu um acidente. Uma grande barra de ferro de um aparelho de ginástica criado por seu pai o atingiu na cabeça, deixando-o com sequelas cerebrais, o que após três anos ocasionou a sua morte. A morte de seu pai, ocasionou um contexto favorável para o seu irmão mais velho ocupar o lugar de uma referência masculina. Schreber seguiu o mesmo trajeto profissional de seu irmão, na carreira jurídica. Um acontecimento trágico foi quando o seu irmão comete suicídio. Outro fato relevante de sua vida e com relação a sua ligação com a sua mãe, ela parecia não ocupar um lugar de destaque na relação familiar. A mãe de Schreber era percebida como uma mulher deprimida, com dificuldades para se expressar afetivamente. 1.2 Os sintomas de Schreber: Primeira crise, durou em torno de um ano. Sofria de graves insônias e ideias hipocondríacas. Achava que seus órgãos internos se deterioravam, que o seu corpo emagrecia assustadoramente. Tinha sentimentos de abandono com relação a sua esposa, acreditava que ela desapareceria. Teve o acompanhamento de um renomado médico psiquiatra, Paul Emil Flechsig, que conseguiu restabelecer a  sua saúde mental. A segunda crise de Schreber foi quando passou a ter pensamentos de que seria bom ser mulher, viver a experiência do ato da cópula. Passou com frequência ter crises de insônia e seus antigos pensamentos hipocondríacos. E a terceira manifestação da doença de Schreber, vozes e delírios retomaram com força. A lembrança da morte de seu pai, fez com que o levasse a ter tentativas de suicídio, por várias vezes tentou se afogar na banheira do hospital que se encontrava internado. 1.3 A transferência de Schreber com o psiquiatra, Flechsig: Seus delírios passaram a se fazer presente, delírios de perseguição. Acreditava que estava sendo perseguido, para que sua alma fosse destruída. A presença de pensamentos de seu corpo iria ser transformado em um corpo feminino era recorrente, e esse corpo feminino seria maltratado, abusado pelo seu médico. Surge medos constantes de seu médico. Os delírios de Schreber foram estudados por Freud, e ele percebeu conexões com a ausência de filhos, a frustração por não ter sido pai e a sua fantasia sexual, pode ter desencadeado o processo de transferência com seu médico. Em vários anos do caso clínico, pode-se perceber uma transferência muito forte para o doutor Flechsig, que chega a ocupar um lugar central no delírio de Schreber. 1.4 O avanço da pesquisa psicanalítica: Os delírios de Schreber são entendidos como expressões de desejos, assim como os sonhos. Freud começa a pesquisar sobre a psicose e, mais especificamente, sobre a paranoia. Passa a considerar que os delírios não devem ser entendidos sem sentido, mas como um mecanismo de defesa. Sabe-se que após anos de sofrimento, Schreber acabou se convencendo que seria transformado em mulher, o que lhe causou maior quietude mental. A presença dos delírios de que seria copulado por Deus e seu médico era cúmplice se apresentavam constantemente. Os delírios permaneceram, mas Schreber dizia que não o incomodavam tanto. O caso clínico foi de grande relevância para o avanço dos estudos de Freud, pois passa a considerar o delírio como uma produção psíquica a ser escutada. Surge a compreensão da possibilidade de transferência em casos de psicose. 1.5 Considerações finais - Caso clínico: A grande hipótese que se estabelece frente o caso clínico, Shreber, é que na paranoia pode-se dizer que se refere a uma doença de poder, ideias de superioridade. A ausência de uma figura paterna forte pode desenvolver uma necessidade demasiada da presença de uma referência de ordem, que predominantemente simbolize a lei. Diante disso, o caso Schreber, nos remete a uma regressão ao narcisismo primário. Podemos notar que Schreber rejeita novas percepções do mundo externo e cria um mundo interno para atender os seus desejos inconscientes. Os delírios de Schreber em relação a Deus, sinaliza para Freud que era preciso persistir na crença de que era  possível se vislumbrar  a possibilidade de interpretação em sua “loucura”.

Complexo de Édipo - ontem e hoje

Por Mário de Almeida -  O termo “Complexo de Édipo” deriva de uma tragédia grega escrita por Sófocles, na qual o herói, Édipo, sem saber de sua condição de filho, mata o pai e se casa com a mãe. A criança, por volta dos três anos, na fase fálica, começa a sofrer profundas transformações. Começa a perceber as diferenças, anatômica entre os sexos e  a demonstrar interesse pelo conhecimento corporal. Começa a localizar o prazer em seus órgãos genitais e a manipula-los. É quando a  criança sente a necessidade de buscar o prazer em um elemento do sexo oposto. Com a descoberta  do órgão genital dá-se inicio ao Complexo de Édipo. O filho desenvolve um desejo incestuoso inconsciente para com a mãe e um sentimento de intensa rivalidade e hostilidade para com o pai, da mesma forma que a filha desenvolve apego para com o pai e rivalidade para com a mãe. Tudo isso ocorre no mundo da fantasia. Com a percepção das diferenças sexuais entre os meninos e as meninas  os meninos, que inicialmente pensavam que as meninas teriam um pênis pequeno que iria crescer, logo passam a entender que a menina definitivamente não tem pênis. E isso traz em um primeiro momento um sentimento de superioridade, que no futuro irá gerar um enorme mal-estar. Uma angustia, então começa a ser vivida inconscientemente. A angústia de castração instala-se porque o menino ao pensar que a menina um dia possuiu um pênis e o perdeu, sofre ao fantasiar que poderá acontecer o mesmo com ele. Todas as "broncas" recebidas (interdições) em função da excitação peniana são revividas angustiosamente, pela possibilidade de vir a perder o seu pênis. Para o menino em um segundo momento, no plano imaginário, a intervenção do pai  impedindo a concretização de seu desejo, irá possibilitar que ela "entenda" que é o pai, e não ele o objeto de desejo da mãe. É quando resolve-se, para o menino a questão edipiana. Entende que não pode dar a mãe o que ela deseja, porque ela já tem o do pai que é muito maior e mais potente que o dele. É a saída do Édipo, onde ocorre a identificação com o pai e ele vai procurar uma substituta: a Outra, sua esposa.  Isso se a criança tiver uma mãe que se interessa por outras coisas além dele. Uma mãe que permita a entrada do pai ou de outros substitutos. Este período é muito importante, pois é a partir da angústia de castração que o menino aceita a lei da proibição imposta pelo pai para salvar o próprio pênis. Precisa renunciar o amor excessivo que tem pela mãe. Temendo a ameaça de castração pelo pai, que tem um pênis maior e mais poderoso, abandona a mãe, deixando para o pai, na esperança que quando crescer arrumará uma substituta.  Quando o menino pela angústia de castração renuncia ao amor pela mãe o complexo de Édipo é desfeito. A menina não teme a castração pois sente-se já castrada por não ter pênis e também sente que nunca irá crescer um pênis. Então elabora do ponto de vista do complexo que vai querer um e o mais disponível é o do pai. Este é o inicio do Édipo para as meninas. Embora sinta ameaça da mãe sua rival, não a teme, pois não tem medo da castração ao sentir-se definitivamente sem pênis. Odeia a mãe e a culpa por tê-la feito menina e sem pênis, posto estar em plena vivência da inveja do pênis. Volta-se, então para o pai e na tentativa de ter um pênis e, vive por ele o amor edipiano. Quando o pai faz a recusa, a faz entender que nunca vai ter esse pênis ela sairá do CE  ao buscar em outro o substituto, via de regra um marido. Sem a recusa do pai ela não sairá dessa fase. Ao entender claramente que vive um desejo infinito de possuir um pênis e que nunca irá consegui o do pai, ela será então, capaz de substituir seu interesse pelo órgão pelo amor de um homem portador de um. Esse problemática da menina que sente-se abandonada pelo pai e que vai ter que desistir dele, vai ter que abandona-lo é a base do Núcleo do Reprimido da menina. Para Freud neste momento edipiano o incesto está acontecendo, pois lá no inconsciente não existe nada que faça com que isso seja censurado. Então, sempre que essas ideias que foram reprimidas e que não consideradas coisas boas aparece são brutalmente reprimidas. O Núcleo do reprimido da menina que é incesto e abandono, pois ela sente-se abandonada pelo pai, ao sofrer a recusa e vai ter que abandona-lo para se resolver, enquanto  que para o menino seria incesto e castração, pois se a ameaça de perder o pênis é terrível a ideia do incesto é intolerável. O complexo edipiano masculino é resolvido pelo medo que o menino tem da castração e pela identificação gradual com o pai, enquanto o complexo edipiano feminino é resolvido pela ameaça de ser abandonada pela mãe e pela identificação com ela.

A lei dos costumes

Por Ale Esclapes -  Em menos de dois meses duas leis que regulam as relações entre pais e filhos foram aprovadas – uma que proíbe as palmadas e outra que proíbe que os pais denigram um ao outro para seus filhos. Duas coisas me chamam a atenção nesse fenômeno – como especialistas são chamados para normatizar a vida cotidiana e como o Estado está adentrando em nossos lares. Logo quando a lei contra a palmada foi aprovada houve uma avalanche de programas com “especialistas” fundamentando a proibição. Em um dos programas Happy Hour a apresentadora Astrid se utilizou várias vezes da palavra trauma, sempre perguntando – “Você se lembra de ter lavado palmadas?” – se o entrevistado dissesse sim, pronto – “Viu? Ficou traumatizado!” Ainda bem que nossa memória não é feita apenas de traumas. Existe trauma? Claro que sim! Toda palmada traumatiza? Não sei ... Mas afinal Alexandre, você é a favor da palmada? Não. E nessa ocasião não faltou especialista. Eu pessoalmente acho que esse tipo de ser emburrece os demais. Hoje a classe média adora se consultar com um especialista com medo de errar em relação a educação de seus filhos. Será que não é porque somos de uma geração que cresceu sem limites e agora não sabemos o que fazer com nossos filhos? Será que somos de uma geração que foi do “contra” tudo que vinha do passado (com agravante da ditadura militar), mas não temos a menor ideia do que é ser “a favor”? Outro dia vi uma cena que fiquei indignado – uma mãe oferecendo uma banana e uma maçã para uma criança de 3 anos e pedindo que ela “escolhesse” entre as duas. A criança olhou uma fruta, depois a outra, mais um pouco, e se colocou a chorar! A mãe me disse – ela precisa aprender a escolher por si só (deixar uma criança de 3 anos escolher pode ser altamente ansiógeno e traumatizante – dizem os especialistas). No final das contas se utilizam especialistas ali onde para poder ensinar algo a gente precisa aprender primeiro. E o Estado tentando normatizar nossas vidas? Morro de medo de uma ditadura do cotidiano baseado na opinião de especialistas chamados para dar conta de nossa imaturidade.

Se todo mundo fizer...

Por Ale Esclapes -  ... vai fazer uma grande diferença. Esse é um “slogan” muito recorrente na atualidade. De comercial de televisão a sermão de padres, é um argumento tido hoje como muito convincente. Mas qual seria o apelo psíquico desse tipo de argumento? Primeiro que uma andorinha faz verão. Esse tipo de argumento infla o ego de quem ouve, elevando-o a ter uma importância em termos de mudança social que não têm. Mas é um apelo narcisista muito eficaz, ainda mais que os pimpolhos da última geração cresceram acreditando que tem uma importância somente justificada dentro de seus lares. Então o apelo nesse vértice parece ser muito útil contra a depressão pós-moderna. Pena que dura pouco, pois uma andorinha NÃO faz verão. Outro argumento é que um punhado de pessoas faz alguma diferença em termos de organização social. O que se denomina hoje em dia de ONG, salvo raras exceções, me parece um lado um delírio “inconsciente a céu aberto” (tautológico), e de outro, uma bela forma de distribuição de renda. Iniciativas nesse sentido sempre existiram, mas nunca mudaram o mundo. Voltando a boa e velha psicanálise, as únicas organizações sociais que realmente fizeram alguma diferença foram o Estado, a igreja e o exército (Psicologia de massas e análise do ego). Fora dessa esfera, podemos ter marola, mas jamais uma onda. Talvez poderíamos levar em consideração o efeito que a tecnologia nos últimos 200 anos, mas isso é para outro artigo. Portanto, se quiser realmente fazer alguma diferença, vote bem, participe da política, cobre os políticos – sem achar que o Estado é o grande pai que vai resolver tudo. Sem participação ativa na política mesmo, em todos os seus níveis, em termos de mudança social, nenhuma iniciativa pessoal vai fazer muita diferença.