Por Alê Esclapes -
Melanie Klein foi uma das maiores psicanalistas da história. Seguidora de Freud, com genialidade e amor à verdade erigiu uma escola com pensamentos próprios e distintos. Como disse uma amiga, quando Klein em 1935 insistia que era uma freudiana: "agora já é tarde - você é uma Kleiniana".
Suas teorias vieram de seus trabalhos com crianças, o que possibilitou a investigação psicanalítica dos primeiros meses de vida, abrindo as portas para o tratamento de pacientes psicóticos.
Outros desenvolvimentos se seguiram à psicanálise de crianças, como o estudo dos estados maníaco depressivos, a identificação projetiva como defesa do ego, e a inveja primária na constituição da personalidade. Sua teoria das posições depressiva e esquizoparanóides são a primeira grande sistematização da teoria psicanalítica.
Vida: Melanie Reizes nasceu em Viena em 30/03/1882 e morreu em Londres em 22/09/1960, aos 78 anos. A vida pessoal de Klein é repleta de perdas e decepções: seu pai se chamava Moriz Reises, nunca foi bem sucedido na vida, estampando essa melancolia em suas atitudes. Sua mãe, Libussa aparentemente era extremamente dominadora e invasiva, trabalhando em uma loja de plantas e animais exóticos para ajudar na renda familiar. Sua gravidez não havia sido desejada, tendo Klein teve um relacionamento distante com seu pai; era bastante apegada à sua mãe e a irmã Sidonie, que morre aos 8 anos de idade. Outras perdas serão sentidas na vida de Melanie Klein.
Casou-se cedo aos 17 anos com o engenheiro químico Arthur Stevan Klein com quem ficou casada até 1926, com então 44 anos. Klein sofria com as constantes viagens do marido, bem como com seus problemas com depressão. Teve 03 filhos: Mellita, Hans e Erich. Mellita se mostrará sua adversária ferrenha no campo psicanalítico, e Hans morre em um acidente de alpinismo em 1934 (suspeita-se que tenha sido um suicídio). Klein morre em 1960, ironicamente, não de câncer, cuja cirurgia fora bem sucedida, mas por complicações em função de uma queda enquanto se recuperava dessa cirurgia. (Ela recusara a ajuda da enfermeira durante a noite).
Obra: Em 1914 inicia sua análise com Sandór Ferenczi em Budapeste e em 1919 torna-se membro da Sociedade Psicanalítica da Hungria. Inicia sua análise com Karl Abrahan em 1924 que morre 11 meses depois. Em 1925, a pedido de Ernest Jones, muda-se para Londres, e em 1927 torna-se membro da Sociedade Britânica de Psicanálise.
Klein desde 1923 apresentava divergências, ainda que veladas, em relação a alguns postulados freudianos, em especial ao desenvolvimento psíquico antes dos três anos de idade. Porém essa divergência, que inicialmente era velada, ficou explicita com a publicação de um livro de Anna Freud (Tratamento psicanalítico de crianças) onde esta acusava Klein de não fazer psicanálise. Uma série de artigos são publicados em resposta a Anna Freud, e em 1932 Klein publica seu livro “Psicanálise de Crianças”, livro que até hoje é a base para trabalhos com crianças. Mais abaixo trataremos das divergências teóricas entre ambas.
Em 1935 Klein publica “Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos” que apresentava o conceito de “posição depressiva”. Mesmo D. Winnicott, um dos seus mais magistrais contestadores, admirou essa descoberta, classificando-a como a mais importante depois da descoberta do inconsciente. Ainda que Klein, até mesmo por questões políticas, insistisse em se considerar “freudiana”, a partir deste trabalho, já se pode falar em pensamento Kleiniano, tamanha as introduções de novos conceitos que este artigo trouxe.
Em 1940 publica “O luto e suas relações com os estados maníacos-depressivos”, onde amplia os conceitos já introduzidos pela posição depressiva, postulando que o luto não seria mais que uma repetição das sensações dessa posição.
O complexo de Édipo à luz das ansiedades arcaicas (1940) Klein introduz as ansiedades persecutórias e depressivas na dinâmica do complexo de Édipo, ampliando sua atuação no psiquismo infantil. Ao localizar o complexo de Édipo com o surgimento da posição depressiva, aos seis meses de idade, Klein dá um salto na compreensão da formação do superego infantil, bem como de eventuais distúrbios ligados ao Édipo.
Com “Notas sobre alguns mecanismos esquizoides” aprofunda a compreensão das defesas do ego em relação às ansiedades persecutórias, ampliando os conceitos da posição esquizoparanóide. Ele também introduz o importante conceito de identificação projetiva como base para as relações objetais.
Acréscimos importantes sobre esse tema são feitos por W. Bion. Esse trabalho e “Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos” formam os eixos principais de sua teoria.
Em “Inveja e Gratidão” de 1957, seu mais controverso trabalho, Klein postula a presença do sentimento de inveja presente desde o nascimento no bebê, e analisa suas consequências para as posições esquizoparanóides e depressivas, bem como para o Complexo de Édipo. Ela também faz nesse trabalho um importante avanço em relação às resistências ao tratamento analítico.
Teoria: São três os pilares fundamentais da teoria Kleiniana - Primeiramente existe um mundo interno, formado a partir das percepções do mundo externo, colorido com as ansiedades do mundo interno. Com isso os objetos, pessoas e situações adquirem um colorido todo especial. O seio materno, primeiro objeto de relação da criança com o mundo externo, tanto é percebido como bom quando amamenta, daí o nome de “seio bom” a esse objeto no mundo interno, quanto é percebido como “seio mau”, quando não alimenta na hora em que a criança assim deseja. Como é impossível satisfazer a todos os desejos da criança, invariavelmente ela possui os dois registros desse seio, um bom e um mau. Esse conceito também é muito importante no estudo da formação de símbolos e desenvolvimento intelectual.
Em segundo lugar os bebês sentem, logo quando nascem, dois sentimentos básicos: amor e ódio. É como se a vida fosse um filme em branco e preto, ou se ama, ou se odeia. É fácil, portanto, perceber que a criança ama o “seio bom” e odeia o “seio mau”. O problema é que na fantasia da criança, o “seio mau”, esse objeto interno, vai se vingar dela pelo ódio e destrutividade direcionados a ele. Esse medo de vingança é chamado de ansiedade persecutória. Quando nos defrontamos diante de um perigo, como por exemplo, quando caminhando em um parque nos defrontamos diante de uma cobra, temos o instinto de fugir. Essa reação diante do perigo é chamada em psicanálise de defesa. O conjunto de ansiedade persecutória e suas respectivas defesas são chamados por Klein de “posição esquizoparanóide”.
Com o desenvolvimento o bebê percebe que o mesmo objeto que odeia (seio mau) é o mesmo que ama (seio bom). Ele percebe que ambos os registros fazem parte de uma mesma pessoa. Agora o bebê teme perder o seio bom, pois teme que seus ataques de ódio e voracidade o tenham danificado ou morto. Esse temor da perda do objeto bom é chamado por Klein de “ansiedade depressiva”. O conjunto de ansiedade depressiva e suas respectivas defesas são chamados por Klein de “posição depressiva”.
O conceito de posições é muito importante na escola kleiniana, pois o psiquismo funciona a partir delas, e todos os demais desenvolvimentos são invariavelmente baseados em seu funcionamento. Nesse sentido, o desenvolvimento em fases, proposto por Freud (fase oral, anal e genital), é aqui substituído por um elemento mais dinâmico que estático, pois as três fases estão presentes no bebê desde os três primeiros meses de vida. Klein não nega essa divisão, muito pelo contrário, mas dá a elas uma dinâmica até então ainda não vista em psicanálise.
Alias, é essa palavra que distingue o pensamento kleiniano do freudiano. Para Klein, o psiquismo tem um funcionamento dinâmico entre as posições esquizoparanóide e depressiva, que se inicia como o nascimento e termina com a morte. Todos os problemas emocionais, como neuroses, esquizofrenias e depressão são analisados a partir dessas duas posições. Por isso, em uma análise kleiniana, não basta trabalhar os conteúdos reprimidos, é preciso “equacionar” as ansiedades depressivas e persecutórias. É necessário que o paciente perceba que o mundo não funciona em preto e branco, e que é possível amar e odiar o mesmo objeto, sem medo de destruí-lo. Em outras palavras, não adianta trabalhar o sintoma (neurose) se não trabalhar os processos que levaram seus surgimentos (ansiedades persecutória e depressiva).
Análise infantil e a controvérsia Melanie Klein e Anna Freud:Klein conseguiu desenvolver estudos sobre as ansiedades arcaicas porque dedicou quase toda a sua vida à análise de crianças. Seu primeiro paciente foi seu próprio filho, Hans, que apresentava sérios distúrbios de aprendizagem. Aos poucos Klein foi percebendo estruturas psíquicas que estavam fora do esquema freudiano, e, a partir da investigação dessas estruturas chamadas “arcaicas”, foi possível o desenvolvimento de suas teorias. Alguns paradigmas precisaram ser quebrados para que isso fosse possível e isso lhe rendeu uma série de inimizades.
O primeiro e principal paradigma para a época era a questão da possibilidade da análise infantil. Para Freud era impossível a análise de crianças muito pequenas, pois as mesmas não possuíam uma estrutura de linguagem suficientemente desenvolvida para a elaboração e livre verbalização de ideias.
Sua maior opositora nesse campo foi Anna Freud, que na época também trabalhava com crianças. Robert Young descreve essa relação da seguinte forma “Onde Anna Freud disse que crianças muito pequenas não podiam realizar livre associação, Klein viu um rico mundo de fantasias refletidas no brincar. Onde Anna Freud viu a si mesma como uma professora com suas obrigações educadoras, Klein foi mais fundo, interpretando ansiedades sobre seios e outras partes do corpo, sobre ódio, sofrimento, luto e inveja que chocaram os não-kleinianos.”
Em 1939, com o advento do nazismo, a família Freud se muda para Londres, e um antagonismo que já existia entre Klein e Anna Freud, em função da convivência entre as duas na mesma sociedade psicanalítica, causa um racha na Sociedade Britânica de Psicanálise. Uma série de reuniões e artigos são publicados entre 1940 e 1944, chamados Controvérsia Freud Klein, para se tentar chegar a um acordo, porém, até a presente data esse racha persiste na sociedade Britânica.
Desenvolvimentos Posteriores:Mesmo quando Klein era viva, o movimento Kleiniano foi, dizendo do ponto de vista psicanalítico, ambivalente. Ao mesmo tempo em que Klein evitava um confronto direto com Freud, a partir de 1935 era impossível manter essa posição. Certo radicalismo se instaurou na Sociedade Psicanalítica Britânica, que praticamente foi dividida em três partes: os freudianos, os kleinianos e os neutros. É importante aqui frisar que essa divisão, apesar de meramente técnica, também tinha aspectos políticos, que devem ser levados em consideração quando se estuda psicanálise. Não se pode dizer que outros psicanalistas não tenham contribuições importantes, somente porque não rezam essa ou aquela cartilha. Ciência não se faz dessa maneira, e se assim o fosse, o ego do psicanalista estaria acima das necessidades dos pacientes. A verdade deve ser um dos princípios que norteiam o movimento psicanalítico, acima de tudo.
Entre os neutros estava Dr. D. Winnicott, um importante psicanalista, que também trabalhou com crianças. As maiores contribuições de Winnicott para a psicanálise foram sobre o “ambiente e os processos de maturação”, ou seja, a figura da mãe como responsável pelo desenvolvimento da criança. Klein estava tão absorta no mundo de fantasias da criança que não se aprofundou na relação mãe – bebe. Coube a Winnicott esse desenvolvimento. Outros pontos também são importantes, como por exemplo, os objetos transicionais, falso self, etc. Apesar de suas discordâncias, e de alguns autores atribuírem uma rivalidade teórica maior do que realmente existiu, Winnicott é de extrema importância em um trabalho psicanalítico sério, e suas contribuições para a psicanálise são de extremo valor.
Por Sérgio Rossoni -
O principal instrumento do psicanalista é a interpretação com base teórica de referência existencial inconsciente. “No tratamento, comunicação feita ao sujeito, visando-lhe dar acesso a esse sentido latente, segundo as regras determinadas pela direção e evolução do tratamento”(Laplanche e Pontalis – Interpretação – página 245 – Dicionário da Psicanálise – 4º ed. - São Paulo – Martins Fontes).
Espera-se através da interpretação do analista que o paciente obtenha “insights” que promovam uma nova posição diante de situações passadas, revividas na atualidade através do processo transferencial.
Além da interpretação, outras ferramentas utilizadas pelo psicanalista visando promover elaborações/insights no paciente são o apoio, a sugestão, e o manejo. Etchengoyen destaca três dos instrumentos mais importantes utilizados na Psicoterapia: Informação, o esclarecimento e a interpretação.
Informação = algo desconhecido pelo paciente. Exemplo: “fumar faz mal a saúde”.
Interpretar = dar informação ao paciente sobre sua transferência, e espera-se que através da interpretação o analisando tenha um insight.
Esclarecimento = informação técnica; não é transferência do paciente.
Tão importante quanto informar, interpretar e esclarecer é a Pontuação: quando o analista deseja chamar a atenção do paciente para um foco que ele (paciente) não esta vendo. Saber pontuar é ensinar o ego a interpretar. Informar, pontuar e esclarecer é mais uma questão dinâmica do que técnica.
Para Melanie Klein a transferência opera ao longo de toda vida. “Na medida em que ela começa a abrir caminho dentro do inconsciente do paciente, seu passado vai sendo gradualmente revivido. Desse modo, sua premência em transferir suas primitivas experiências, relações de objeto e emoções é reforçada, e elas passam a localizar-se no psicanalista. Disso decorre que o paciente lida com os conflitos e ansiedades que foram reativados, recorrendo aos mesmos mecanismos e mesmas defesas, como em situações anteriores”. (KLEIN, M. As Origens da Transferência. Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991).
Klein nos explica detalhadamente os processos de projeção/introjeção, que iniciam as primeiras relações de objeto (mãe/seio), originando as posições esquizoparanóide e posteriormente a posição depressiva, objetos bons e maus, amor e ódio, nos dando uma visão clara sobre a transferência:
“A transferência origina-se dos mesmos processos que, nos estágios iniciais, determinam as relações de objeto. Desta forma, na análise temos que voltar repetidamente às flutuações entre objetos amados e odiados, externos e internos, que dominam desde o começo da infância”. (KLEIN, M. As Origens da Transferência. página 76 - Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991).
É através da transferência negativa que se pode mergulhar profundamente nas camadas inconscientes da mente. Ambas as transferências (positivas e negativas) encontram-se interligadas.
“Na transferência o papel do analista pode ser de objeto bom, objeto mau, ambos os pais, bondosos ou perseguidores”. (KLEIN, M. As Origens da Transferência. página 77 - Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991).
Interpretar sempre é informar ao paciente sobre sua transferência.
Por Ale Esclapes -
"A maioria das mulheres não se casariam com homens gordos", diz estudo. "Pesquisa do Hospital do Coração mostra que homens da classe "A" são os que mais rejeitam união com mulher obesa". "Na avaliação de 81% dos entrevistados, o excesso de peso também interfere no sucesso profissional".
Essa foi a matéria de capa do caderno cotidiano da Folha de São Paulo. Somos preconceituosos com os obesos. Fiquei meio perdido com isso.
Explico: vamos supor que refizéssemos a matéria: maioria não casaria com quem tem câncer terminal. Será que pareceria estranho?
Ou ainda: maioria não casaria com quem tem doença degenerativa, soaria tão estranho assim? O que é mesmo preconceito na MÍDIA?
Antes de continuar, fiz uma pesquisa sobre esse assunto no próprio jornal – existem cerca de 20 reportagens que classificam a obesidade como doença – alguns como doença grave; isso só nos últimos 30 dias.
Daí eu fico me perguntando qual é a mensagem e tento resumi-la mais ou menos desse jeito –“Não seja obeso, que isso é uma doença. Ah, você já é obeso? Seu IMC é maior que 21? tststststs Caso grave! Tudo bem, mas você acha o maior tesão um gordinho, certo? Não!? Seu preconceituoso!”
Ah, mas você pode estar pensando – o problema não é o obeso, mas a obesidade. Sei ... é a mesma lógica da igreja para certos assuntos. O problema é o pecado, não o pecador. O problema é que quem vai arder no fogo do inferno é o pecador e não o pecado.
Tempos esquizofrênicos...
Ps.: I - Isso para nem dizer que querem normatizar por quem a gente deve sentir ou não tesão.
PSII. Esse post não é sobre preconceito, mas sobre meios de comunicação e poder.
Por Alê Esclapes -
Virtualidade e Ciência Social: A maior relatividade da economia é flutuar sobre os sentidos da massa sem conseguir atravessá-la, sem conseguir racionalizar os processos subjetivos com os quais a massa trabalha. Prefere-se falar em 'processos subjetivos' quando se fala em determinação de preço, em valor utilidade como se fosse uma mera quantificação de produtos em consumo.
As relações psicológicas entre o homem e os objetos são tratadas ou de forma obscura, ou de forma meramente matemática. Sob um princípio primeiro de anulação ou aceitação, sob o estigma da escolha dentro do mercado - e aí reside o maior poder do consumidor segundo os economistas - resume-se na maior força das massas. O que se precisa discutir é quais os efeitos dessa dinâmica no corpo social, como o processo econômico age no corpo social, como é influenciado por uma dinâmica social maior a nível arqueológico e como a economia como ciência age sobre esse corpo.
O mercado como forma de transação de mercadoria, tem outras funções sociais que não apenas garantir o bem-estar social (a maior das utopias), mas garantir uma dinâmica social sem precedentes na história. No mercado não adquire-se apenas bens, mas a si mesmo, por um processo de identificação do homem com o produto adquirido; na base de uma identificação o homem perpetua o capitalismo. Não se trata de uma alienação marxista, mas de uma necessidade psicológica. Na pulsão de um desejo por si o homem consome sua atemporalidade através dos objetos, e no próximo instante vê-se sozinho. A massa não se importa de onde ou como venham esses objetos - sua única preocupação é consumi-los. O capitalismo como forma sedutora de si mesmo é a forma de organização econômica mais magnífica que já apareceu, não por si, mas pelo produto comercializado - o objeto tecnológico.
A liberdade do mercado visa não somente garantir um sistema econômico mas também garantir uma possibilidade de identificação. Sem liberdade de escolha não é possível uma interação do homem com os objetos, pois é através dessa liberdade que o homem consegue interagir com esses objetos - é a necessidade de funcionalidade de interação que determina uma necessidade de liberdade de mercado. Quanto mais diversidade de produtos estiverem a disposição no mercado, maiores são as chances de perpetuação do sistema - mas existem outras questões que serão discutidas mais adiante. Os sistemas socialistas não conseguiram esse fenômeno porque não conseguiram propiciar uma interação entre o homem e seus objetos. Um mercado com produtos iguais está fadado ao fracasso; é um retorno ao modelo medieval. É um exemplo que a utopia do bem estar social não funciona na prática.
Somente a saciação das necessidades psicológicas é uma realidade.
A teoria prega que os consumidores com sua liberdade de escolha são os maiores determinantes dos fenômenos de mercado, salvo em outras situações como os monopólios e os oligopólios. Marx coloca que os consumidores são alienados porque desconhecem o real valor da mercadoria que estão adquirindo, por um processo iniciado na produção. Mas não seriam os consumidores também terminais digitais? Fala-se em liberdade de escolha mas esquece-se que só se pode escolher entre aquilo que se encontra a disposição.
Liberdade de escolha só tem valor quando vem acompanhada de liberdade de transcendência. Mas pode-se argumentar que a oferta tenta se moldar à demanda. De qualquer modo os consumidores não passam de terminais digitais, onde respondem a um estímulo pré determinado, e através dessa resposta o mercado realoca seus recursos a fim de manter o sistema. Independente das alienações e das utopias a massa não passa de um conjunto de terminais digitais de consumidores.
O sistema capitalista é uma superestrutura funcional na medida em que fornece uma identificação infinitesimal a massa. É através dele que é possível se desenvolver uma relação estrutural em forma de social com o objeto técnico. A realocação que o mercado sofre não é uma tentativa de tornar-se mais semelhante a massa, mas de servir como espelho dela. O resultado é um simulacro a ser consumido dentro do mercado, que imediatamente depois precisa de outro, indefinidamente. O capitalismo é o consumo da massa por si mesma. A nova face do mercado não é uma forma de alienação, mesmo porque a massa não se importa de ser alienada - a única coisa que lhe importa é ter uma identificação. A utopia não passa de uma forma de identificação a ser consumida. Na imaterialidade do mercado o sistema de identificação social vai se fortalecendo na medida em que as forças de mercado vão evoluindo.
Com o desenvolvimento do sistema capitalista outros sistemas também o foram, como por exemplo, a propaganda. A propaganda é uma forma de identificação de massa, onde esta reflete seus desejos e visões para consigo mesma. A propaganda não mostra nada além dos desejos da massa. Este sistema é uma das formas de identificação desenvolvidos no âmbito social. O sistema de série e modelo é outro. Quando vê-se um Gaultier na passarela não se está interessado na peça em si, mas no que esta pode representar; o que na verdade representa. Existe todo um conceito por trás de um Gaultier que faz com que não se consuma sua peça, mas seus conceitos. E como quanto mais carregado é um conceito menos pessoas o absorvem. A esses conceitos carregados pode-se chamar de modelo, sendo os menos carregados de série. O mesmo conceito que hoje se apresenta nas passarelas é o que se apresentará nas ruas amanhã. Produz-se conceitos para serem consumidos como forma de identificação.
Mas o consumo desses conceitos por si só é incapaz de resolver os problemas de identificação das massas - o regime capitalista não consegue substituir as relações do homem para consigo e para com os seus semelhantes. O objeto técnico proporciona apenas um vislumbre de identificação, um momento extemporâneo. O burguês (e entenda-se toda a sociedade, inclusive os ‘excluídos') é uma presa fácil de ideologias, principalmente aquelas que visam dar um sentido ás massas, a dizer quem elas são, como o nazismo ou o nacionalismo. Mas a dependência que o homem adquiri com os objetos é que cria um eixo de relação entre essa relação psicológica e o sistema capitalista. Faz-se necessária uma análise do desejo e da necessidade.
Na teoria geral econômica existe o conceito de necessidades (ou desejos) ilimitadas (os) - "a economia é, pois, a ciência que estuda as formas de comportamento humano resultantes da relação entre as ilimitadas necessidades a satisfazer e os recursos que, embora escassos, se prestam a usos alternativos" Lionel Robbins citado em [ROSSETI, J.,14,56]. Existe basicamente um consenso entre os economistas sobre esses dois pontos, expressando-os de diversas maneiras, mas sempre de maneira clara e concisa. Obscura é a explicação do por que no que tange as Necessidades Ilimitadas. Geralmente acaba na redundância do ‘é porque é', ou porque a observação assim o diz. Primeiramente essa questão de observação está ultrapassada a pelo menos duzentos anos desde Kant e Schopenhauer - definitivamente os olhos não são a via mais adequada para análises científicas, e nem a racionalidade sem a análise do desejo não se apresenta como funcional na busca de uma verdade humana provisória. São as necessidades realmente ilimitadas? Em função do quê essas necessidades são ilimitadas? Difícil falar em necessidades ilimitadas em um corpo que possui necessidades limitadas - comer, beber, dormir e procriar. Mais difícil ainda é falar em necessidades ilimitadas na Idade Média ou explicar porque certas pessoas só tomam Coca-Cola para matar a sede quando precisa-se apenas de água, ou porque procura-se consumir pratos cada vez mais elaborados sendo que o organismo pode consumir alimentos básicos e ficar satisfeito. Maslow não explica a dependência do homem para com os objetos que ele consome; no máximo hierarquiza a realização de propostas de consumo; mas é difícil explicar por Maslow as antenas parabólicas numa favela paulistana. Alienação das massas ou democratização das antenas parabólicas para todas as camadas sociais? O mundo já não é mais o mesmo desde Maslow e os Clássicos (teóricos em economia).
As necessidades que os clássicos se referiam obviamente não podem ser de um nível corporal mas de um caráter cultural. As necessidades econômicas são culturalmente produzidas. Era de pensamento comum na Idade Média uma não valorização do corpo - o que importava era a alma (pensamento Socrático). A sociedade era hermeticamente fechada com cada grupo social responsável por uma função específica (sistema funcional), ou seja, cada um sabia seu papel na sociedade, e era isso que segurava a sociedade, não a ideia do bem-estar social, complemente ausente em tal período. Quando se instaura um sistema capitalista, não existe função social, não existe classe social nos parâmetros da Idade Média, não havia quem orasse por alguém, e começava a se vislumbrar um artefato chamado técnica.
O burguês é um ser sem função social definida - cabe-lhe somente produzir e consumir. Esse período de transição do velho capitalismo para o novo aqui é demarcado pela socialização do objeto técnico, ou seja, do consumo pela massa de objetos artesanais (aqui inclui-se qualquer objeto de funcionalidade simples como um abridor de latas, independente de seu modo de fabricação) para o consumo de objetos técnicos (aqui inclui-se qualquer objeto de funcionalidade complexa, o qual remete sua interpretação por parte do homem para a subjetividade já exposto no Capítulo 2, como um barbeador elétrico ou um rádio), não pode ser analisado de maneira adequada em função da presença ainda forte dos objetos artesanais na maioria da sociedade. Mas o caráter de transferência da necessidade de identificação de um aspecto social (posição funcional na sociedade) para os objetos já era possível ser visualizado, pois não só o objeto técnico é revestido de conceito, mas os chamados ‘modelos' também o eram. Essa transferência se democratiza com o objeto técnico.
Uma necessidade que antes não era ilimitada, passa a sê-la por uma falta de identificação social das massas. Inaugura-se o modelo de necessidades ilimitadas, sendo o papel do projeto ‘social' assegurar a seus integrantes o acesso a esses bens. A democracia desses conceitos foi o berço da economia, que na soleira dessas transformações sociais foi encarregada de executar tal tarefa, estudando a produção, circulação e consumo das riquezas (leia-se aqui dos objetos). A economia nasceu com as necessidades ilimitadas por objetos (que anteriormente eram canalizadas para a alma).
A Economia do Sentidos
Não se pode fazer uma única análise do capitalismo, como se fosse um todo histórico único. Mesmo que seus mecanismos básicos não tenham se modificado substancialmente, os outros elementos que envolvem o sistema se modificaram radicalmente, principalmente no que tange ao sistema diferencial da técnica. Com o desenvolvimento da tecnologia, cada vez mais os consumidores foram enviados para um nível subjetivo de relação com os objetos consumidos, culminando esse processo no aparecimento da propaganda moderna - pois essa vende essencialmente aquilo que o objeto não tem, dando-lhe um sentido. Esse movimento não seria possível se o homem não estivesse apto a trabalhar com esse sistema. O que interessa é que a massa cada vez mais foi levada a trabalhar a um nível subjetivo. E é nessa subjetividade que o mundo começa a girar como forma de interpretação. A interpretação do mundo gira cada vez mais em torno de uma irrealidade. Trata-se de uma virtualidade do mercado, ou seja, o mercado vive mais da irrealidade dos materiais que de sua materialidade. Todo o espaço urbano é assim recortado, com uma virtualidade que só se justifica por ela mesma.
Os consumidores são assim transformados em terminais digitais virtuais. Consomem a irrealidade da propaganda, ocupam o espaço urbano com o objetivo de identificação de uma suposta posição social - tudo por um sentido de vida. E cada vez mais é preciso consumir, é preciso identificar-se, quer seja pelo fim programado dos objetos, quer seja por um novo ciclo psicológico de necessidade, quer seja para manter vivo o sistema. A liquidez e a virtualidade vão tomando conta do sistema capitalista. Todos os seus instrumentos vão adquirindo esse estado virtual e líquido. Não é mais necessário sair de casa para fazer compras, o dinheiro que já era a imaterialidade da mercadoria é substituído por cartões - cada vez mais é a imaterialidade do imaterial. Agregue-se a esse fato que a cada vez mais esses instrumentos precisam girar, precisam entrar em estados de liquidez acelerando cada vez mais esse estado virtual, que por sua vez exige maior liquidez. Virtualidade e liquidez fazem o eixo que hoje move o capitalismo.
Essa virtualidade e essa liquidez fizeram uma coisa que Marx não previa. Afinal não ganharam nem proletário e nem burguesia. Ganhou o capital. O capital que circula hoje no mundo, sem nacionalidade definida, é que efetivamente ganhou. E mais - o volume de capital que gira hoje no mundo é tão grande que não pode mais retornar aos seus países de origem. Se o volume de dinheiro que circula retornasse a seus países de origem, a crise monetário-financeira nesses países seria tão grande que se configuraria uma catástrofe. Esse capital orbita pela terra e seu lugar é justamente esse. O capital não precisa mais do velho burguês para gerá-lo, o faz por si s ó flutuando pelas bolsas de valores do mundo.
As necessidades também são outras: ‘excluídos' são aqueles que não tem acesso a essa virtualidade. O projeto do bem estar social é muito bonito, mas pouco prático e muito idiota. A massa não quer bem estar social, quer um sentido que possa ser consumido. Talvez infra-estrutura básica e distribuição de riquezas sejam importantes, mas basta um olhar para uma megalópole como São Paulo para se observar que no frio desprezo social de ambas as partes (ricos e pobres) não pode residir nenhum projeto de social e sim de integração numa ordem superior, como por um pedido agonizante de existência, de sentido. Estar antenado no mundo consumindo um sentido é mais importante para um favelado que infra-estrutura básica. Economia dos sentidos.
A Morte
A democratização de um nível médio de tecnologia associados a um conceito de consumo de níveis relativamente baixos de conceitos são responsáveis por um dispêndio cada vez maior para tornar-se uma igualdade na base do consumo em uma diferença funcional. O exemplo clássico das latas de massa de tomate em uma prateleira de supermercado ilustra bem o conceito: o que diferencia as diversas latinhas vermelhas nas estantes de supermercado? Óbvio que existe a questão do preço e qualidade, mas tem algo mais como ‘O elefante mais amado do Brasil', ou a ‘Pura polpa de tomates' ou algo parecido. Existe aí um dispêndio de energia que visa tornar esses produtos aparentemente iguais em diferentes. Não existe funcionalidade na igualdade, porém o capitalismo sobrevive da funcionalidade. Como o sentido contido nos objetos tende a atender um número cada vez maior de consumidores, este conceito tende a ser cada vez mais vazio, ou com um conteúdo menos complexo. Este fenômeno tende a acelerar a igualdade desses produtos na base do consumo, necessitando portando de um dispêndio cada vez maior de energia para diferenciá-los.
A luta da propaganda é diferenciar iguais. O cérebro humano trabalha não com uma relação de igualdade, mas com uma relação de diferença. É essencial que os elementos sejam diferentes. Todo uma estrutura social é posta em marcha para tornar que essa grande massa seja constituída de elementos diferentes, não em sua realidade absoluta, mas num mundo de aparências, em um mundo virtual. O mercado nesse caso passa a operar de forma virtual, trabalhando de forma a dar um sentido funcional único a seus constituintes. Mais importante que o próprio produto é o no que ele pode diferenciar seus consumidores. A etiqueta da Zoomp vale mais que a peça que a ostenta, e em alguns casos mais que uma vida. Existe uma carência social por sentido, e o produto que conseguir proporcioná-lo com maior eficiência a seus consumidores, terá um valor maior que seus concorrentes. A relação entre custo e valor final do bem tende a ficar cada vez maior em certos produtos, não em relação a uma exploração via mais-valia, mas pela agregação da variável ‘sentido social'. E esse fenômeno tende a tomar conta do mercado, mesmo nos produtos destinados às camadas mais baixas da população - esses ‘produtos conceituais' tendem a dividir o espaço na vida dessas pessoas juntamente com outros produtos (e o esgoto a céu aberto).
Assim como o produto cultural é levado a um patamar cada vez mais baixo como já foi anteriormente discutido, essa relação entre conceito agregado ao objeto e a cultura tendem a um patamar mais diminuto de absorção de identidade pela massa. Esse fenômeno acelera a liquidez na base do sistema, sendo cada vez mais necessário a grande massa estar antenada, pois "a esperança não vem do mar, mas das antenas de TV" [ALAGADOS, 44]. São as parabólicas na miragem social da favela que simbolizam hoje esse fenômeno. Na falta de identificação que o social capitalista traz, no vazio de uma cultura desprovida de passado e de futuro cada vez mais curto, os indivíduos (os mesmos de Adam Smith) possuem um mundo em que devem lutar por um indivíduo que torna-se cada vez mais rarefeito pela carência social de sentido. É o paradoxo do indivíduo moderno - ser alguém no mercado ao mesmo tempo que é empurrado pelo mesmo mercado a ser ninguém.
O mesmo sistema que fez surgir essas figuras - ‘Homo-Economicus', a Ciência Econômica, o bem estar social - condenou-os ‘a priori' ao fim por uma carência de sentido. O fim é a ausência de sentido.
O Capitalismo Perdido
O capitalismo possui no indivíduo ou sujeito seus alicerces. É no individualismo, na igualdade de oportunidades desse sujeito, é no bom egoísmo, que se encontram suas bases. Como se verificou, existe toda uma tecnologia para a produção desse sujeito, quer como objeto social, quer como objeto científico, e que no sistema capitalista adquiri uma dinâmica particular na história. No estudo do objeto tecnológico observa-se que o sujeito passa a ser produzido e consumido dentro de um sistema endógeno ao capitalismo, determinante de fenômenos econômicos modernos como a catalisação das necessidadesiIlimitadas para os objetos de consumo.
Analisando a relação homem / objeto de consumo, verifica-se que a partir das mudanças ocorridas nesse objeto - mudança de objeto tradicional para objeto tecnológico - uma nova relação psicológica de identificação, ou uma transferência ocorre dos homens para os objetos, determinando uma necessidade de consumo cada vez maior desses objetos, e paradoxalmente, estes não conseguem substituir as relações humanas, gerando um burguês que naturalmente não possui nem a si e nem aos objetos de consumo por inteiro. Outro fenômeno ocorrido diz respeito ao fato do consumidor ser transformado em um terminal digital de sensações, ou seja, o objeto tecnológico somente permite uma relação com ele pré-definida, restando ao consumidor adaptar-se a ela.
Através de uma análise do consumo do Produto Cultural, ou Cultura como forma de identificação do indivíduo, verifica-se uma diminuição cada vez maior tanto da qualidade quanto volume de material disponível na cultura para a identificação do sujeito, ou seja, uma desintegração da Cultura. Analisando o fenômeno globalmente, verifica-se que a massa, sem material para identificar-se, comporta-se como um ‘buraco negro' de sentidos. Esse fenômeno não só causa uma Hiper-Realização do Sistema Capitalista pela catalisação das Necessidades Ilimitadas nos objetos de consumo, como paradoxos sociais como o gasto cada vez maior de recursos para diferenciar àquilo que endogenamente dentro do sistema vai se tornando igual, desintegrando-se, bem como a implosão do próprio sentido do Social.
O burguês produzido dentro de um sistema, na medida em que esses instrumentos de produção ou, mais especificamente, o produto que visa ser um parâmetro de identificação para o burguês - o ‘outro' - alocam-se em um espaço virtual, o burguês e o Sistema Capitalista tendem a ocupar um espaço virtual. Esse fenômeno determina a demanda pelo consumo de uma virtualidade, ou seja, dentro do mercado o valor subjetivo tende a uma supervalorização, e meios de comunicação cada vez mais virtuais como a Internet tendem a predominar. Em função disso, qualquer problema na área de comunicação de massa, ou uma ocorrência que impeça o sistema de identificação virtual global de funcionar, caracterizam uma catástrofe (tanto econômica quanto social).
O que se verifica é que o eixo formado entre Sistema de Produção (objeto técnico) / Sistema de Consumo / Cultura, no que tange a produção do Sujeito ou Indivíduo, catalisa as Necessidades Ilimitadas culturalmente produzidas nos objetos de consumo, bem como tende cada vez mais a aniquilar esse Sujeito pela carência de sentido endogenamente produzida. O capitalismo que nesse sentido possui sua existência firmada no Indivíduo, paradoxalmente, extingue-o em seu processo de produção/consumo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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(23) FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Trad. Luís Felipe Baeta Neves. 4. Ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
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(37) PARKER, Richard G. Corpos, Prazeres e Paixões. Trad. Maria Therezinha M. Cavallari. São Paulo: Best Seller, 1991.
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(39) WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Trad. Luiz Henrique Lopes Santos. 2. Ed. São Paulo: Edusp, 1994.II.I REFERÊNCIAS CINEMATOGRÁFICAS
(40) ATÉ O FIM DO MUNDO (UNTIL THE END OF THE WORLD). Alemanha/França/Austrália, 1992. Direção Win Wenders. Produção Jonathan Taplin e Anatole Dauman.(41) BLADE RUNNER - O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (BLADE RUNNER). EUA, 1982. Direção Ridley Scott. Produção Michel Deeley.(42) ENIGMA DO OUTRO MUNDO (THE THING). EUA, 1984. Direção John Carpenter. Produção David Foster e Lawrence Turman.(43) 2001 - UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO (2001 - A SPACE ODYSSEY). Inglaterra, 1966. Direção e Produção Stanley Kubrick.III.I REFERÊNCIAS FONOGRÁFICAS(44) ALAGADOS. Os Paralamas do Sucesso. Brasil, 1987. Letra Herbert Viana. Produção EMI-Odeon Fonog. Ind. e Eletr. Ltda.(45) UNTIL THE END OF THE WORLD. U2 . Irlanda, 1991. Letra Bono. Produção Daniel Lanois e Brian Eno. Tema do filme Até o Fim do mundo.
http://www.artigonal.com/psicologiaauto-ajuda-artigos/a-producao-do-sujeito-no-sistema-capitalista-a-virturalidade-do-sistema-3867001.html
1Psicanalista, facilitador, escritor e diretor da Escola Paulista de Psicanálise-EPP e do Instituto Melanie Klein-IMK. Autor do Livro: A pobreza do Analista e outros trabalhos 1997-2015 e também Organizador da Coleção Transformações & Invariâncias (atualmente no 5º Vol.). Realiza atendimentos presenciais e on-line.
Por Janete Vilella -
Quando escreveu a Interpretação de Sonhos, Freud havia chegado a muitas conclusões, entre elas a constituição do aparelho psíquico. A Primeira Tópica do aparelho psíquico vai dar respaldo a toda sua teoria sobre os sonhos. A concepção de consciente e inconsciente empresta lógica a todo trabalho da elaboração onírica.
A narração feita pelos pacientes mostrava que os sonhos eram destituídos de sentido, tanto para o sonhador como para o analista. A causa para essa deformação onírica somente poderia ser explicada por uma força coerciva. Freud, ao afirmar que todos os sonhos tem um sentido, como todas as outras produções do inconsciente, acreditava que empregando a associação livre nos relatos dos sonhos, poderia chegar à interpretação dos mesmos. Isso porque, na associação livre subentende-se que há certa estabilidade nos laços que unem cada representação. Mas, a associação livre está subordinada a uma lógica que se forma de modo inconsciente. Nós só tomamos consciência desse processo, após a sua realização. Existe uma causalidade associativa que não depende da vontade para se manifestar.
Dificuldades para interpretar os sonhos - a Censura
No Cap. V, da Interpretação de Sonhos, Freud narra vários sonhos de seu paciente, e ao comentá-los demonstra que a dificuldade para se compreender o sentido dos sonhos era muito grande. Freud se deparava com sonhos simples, de fácil interpretação, e que comprovavam sua tese de que os sonhos são realização de desejos, estando nesta categoria, na sua maioria, os sonhos infantis e aqueles que não precisam de um trabalho de análise para sua interpretação. Mas, existem sonhos de difícil decifração; sonhos desagradáveis, os pesadelos. Como afirmar nesses casos que o sonho seria a realização de desejos?
Freud desenvolve então a noção de censura, que seriam tendências que dominam a consciência de uma pessoa, com a finalidade de inibir outras tendências que lhe são opostas, forçando assim essas tendências para o inconsciente, fazendo com que dali não saíssem. Mas, só a existência da censura não resolvia o problema; havia uma força coerciva que impedia que o fato traumático fosse consciente. Só a existência dessa força poderia explicar porque alguém esqueceria um fato que lhe causava sofrimento, problemas de conduta Freud definiu essa força, chamando-a de resistência.
Ainda assim, se essa força, a resistência, não permite que o fato traumático chegue ao consciente, o que, ou, que outra força retirou o fato traumático do consciente mandando-o para o inconsciente, para evitar a dor, o sofrimento, que seriam insuportáveis ao paciente? A essa segunda força, Freud deu o nome de repressão O trauma reprimido estará sempre tentando voltar à consciência, mas a resistência impedirá, causando os sintomas neuróticos, ou os sonhos. Freud refere-se à repressão, como a pedra angular em que repousa toda a estrutura da psicanálise.
A censura refere-se ao conflito psíquico provocado pelo recalque. Nos sonhos ocorre uma diminuição do rigor da censura e o aparecimento de sentimentos, representações, imagens desagradáveis, que podem ser justificados por um fracasso no processo de elaboração onírica.
Os desejos que provocam sonhos, não são, a maior parte das vezes, desejos aceitáveis pela consciência; pelo contrário, são desejos que ela repreende e rejeita. Sendo assim, o retorno do desejo reprimido pode causar prazer e desprazer. O pesadelo é considerado por Freud como o exemplo típico do conflito entre censura e desejo. A tese freudiana passa a ser então de que o sonho é uma realização disfarçada de um desejo recalcado e esse desejo é sempre originário, ou parte sempre do inconsciente.
O sonho se apresenta de dois modos; um, o conteúdo manifesto, é o sonho que pode ser lembrado e relatado. Outro, o conteúdo latente, seria o conteúdo oculto e inconsciente, que provoca o sonho, e que leva a análise. A elaboração onírica é, portanto o trabalho de transformar os pensamentos latentes em conteúdos manifestos, distorcendo esses pensamentos de tal forma que o sonho, ou os pensamentos nele apresentados, vai ser inacessível ao sonhador. O trabalho inverso, isso é, partindo do manifesto para chegar ou latente, Freud chamou de interpretação.
Como vimos na primeira tópica desenvolvida por Freud, para tentar burlar a censura e procurar a descarga do desejo via pré-consciente/consciente, o conteúdo latente precisa de um mecanismo e a elaboração onírica pode usar vários deles; deslocamento, condensação, dramatização e elaboração secundária, sendo os dois primeiros os mais comuns.
A condensação seria um “resumo” do conteúdo latente. Esta noção de condensação significa que cada elemento do conteúdo manifesto depende de várias causas latentes, dando a entender que o sonho pode ter vários significados, ou seja, que um “significante” no sonho ( um cachorro p.ex.) pode significar várias coisas. O sonho pode criar uma pessoa coletiva, onde podem se reunir diferentes traços de diferentes pessoas, ( vários significantes que juntos vão representar uma única coisa ) ou, em outros casos, reforçar traços comuns e apagar as diferenças. Esse mecanismo também aparece nos lapsos e nos chistes.
Quanto ao segundo mecanismo, o deslocamento, é o processo pelo qual uma carga afetiva, (emoção), ou uma ideia (representação) se destaca do objeto originário, para um segundo objeto acessório, que vai funcionar como uma alusão ao primeiro objeto. Pode também ser feito um deslocamento para um objeto sem importância. Em outras palavras, o representante ideacional e verbal do desejo (quebrar a janela), vai ter o significante tão distorcido que vai conseguir chegar ao consciente em forma de sonho ou de sintomas.
Os outros dois mecanismos, dramatização, onde há no sonho o predomínio das imagens e não da fala e a elaboração secundaria, em que é feita uma remodelação do sonho, com a intenção de torna-lo coerente, também são efeito da censura. Todos os mecanismos que deformam o sonho o fazem em função da censura. O sonho é um sinal e um sinal porque ele é um efeito e todo efeito é um sinal de sua causa. Isso acontece com todas as produções do inconsciente, tanto nos estados normais como nos patológicos.
Na Interpretação de Sonhos Freud cita ainda, quais podem ser as fontes do sonho, a probabilidade do sonho ser origem, também, de um processo interno, as características da memoria no sonho, e descreve muito pormenorizadamente o processo da angustia no sonho, destacando o caráter sexual e a atuação da libido nesse tipo de sonho.
Para Freud, a interpretação dos sonhos deveria ser iniciada sempre coma a avaliação dos fatos acontecidos com o sonhador no dia ou dias anteriores ao sonho. Esses fatos serão sempre um dos componentes do conteúdo do sonho e essa condição é sempre confirmada.Ao contrário do que a maioria pensa, os sonhos são guardiães do sono, conforme comprova Freud em sua teoria.
Por Sandra Valeriote -
Emily, filha única, na infância convive em um ambiente onde percebe os pais vivendo em um mundo da fantasia. Ela convive harmoniosamente com os pais, porém não participa do mundo deles e nem faz cobranças para que eles venham participar do seu. Passa a venerar uma mulher adulta, que lhe transmite a existência de um mundo real. Porém essa desaparece causando nela uma intensa sensação de abandono.
Emily acaba sendo abandonada também pelos pais, no caso desses através de suicídio - que demonstrou terem os dois partidos como num “conto de fadas”. Além, é perceptível que a existência dela, na decisão do suicídio, não foi levada em consideração.
Ela chega a fase adulta com duas necessidades em nível extremamente elevado - em uma demonstrava possuir a extrema necessidade de não se apegar a mais ninguém na vida, em outra a extrema necessidade de ter alguém que pertencesse somente a ela.
Emily obtêm sucesso em relação a primeira necessidade – não se apega a ninguém! Para a segunda necessidade ela identifica estará concretizando ao “produzir” um filho... Nesse caso, falhando a tentativa de engravidar artificialmente, e tendo que partir para a gravidez com contato humano, para não correr riscos em relação a apego ela estuda como a aranha descarta os seus machos, para assim fazer.
Ela consegue engravidar, como também manter sua necessidade saciada durante os 6 primeiros anos de vida do filho; mas o filho começa a descobrir a vida real, se interessa por essa, identifica ser um ser pensante, e se opõe fortemente ao mundo fantasioso estabelecido pela mãe.
Pois bem! A própria Emily sabe da existência de dois mundos: o real e o imaginário. E, ela própria identifica sua não vivência no mundo real – considerando esse um mundo anormal. Nesse caso, é perceptível a influência dos pais nesse entendimento que ela carregou para a fase adulta. Ou seja, ela não participou do mundo dos pais na infância, mas na fase adulta fez a escolha que eles fizeram - de viver no mundo da fantasia.
A impressão é que por mais que ela não tenha participado do mundo fantasioso em que os pais viviam, pelo menos nesse mundo foi onde ela identificou a existência da “felicidade eterna”... Tendo em vista que a única pessoa que ela teve um grande apego fora desse mundo a abandonou sem nenhuma explicação, causando-lhe uma intensa dor.
Então, não havendo nenhuma demonstração da parte dela de desejar vir a ter alguma interação com o mundo real, o filho, já decidido em não mais viver no mundo fantasioso, acaba causando (sem saber, pela questão de ainda se encontrar na infância) que ela decida que o melhor caminho seria prendê-lo no mundo da fantasia, através da morte – que para ela (parecia) nada mais era que um “dormir” felizes para sempre como num conto de fadas. Ou seja, do mesmo modo que ela entendeu ter acontecido com seus pais.
Concluo com o pensamento de que Emily corria um sério risco, pela “obsessão” que passou a dominá-la, de assassinar alguém, se preciso fosse, para proteger o mundo que ela criou para viver com aquele que ela gerou para possuir [o filho]. E, essa possibilidade ela demonstrou ao matar uma ave que o filho veio a gostar.___________Direção: Joan Micklin SilverPlataforma: Prime Video
Por Alê Esclapes -
Durante muito tempo a homossexualidade foi entendida como uma perversão do ponto de vista da psicanálise, e talvez ainda hoje alguns teóricos tenham essa visão. Mas isso ainda é uma interpretação da lógica freudiana baseada na noção pênis com vagina contida nos “Três ensaios da sexualidade” – uma visão no mínio discutível.
Se olharmos a própria lógica dos conceitos psicanalíticos veremos que na formação do superego reside uma diferença fundamental entre esses conceitos – a dinâmica super-egoíca nas perversões é muito diferente que na homossexualidade. Por sua vez, não se pode apontar uma diferença dinâmica entre a homossexualidade e a heterossexualidade no que tange ao superego.
Freud coloca no seu artigo “A negação” que diferente do funcionamento neurótico, cujo mecanismo de defesa do ego básico é a repressão, na perversão é o mecanismo da “denegação” que a caracteriza. Ambos os mecanismos operariam na base dos Complexos de Édipo e Castração.
Donald Meltzer no seu brilhante “Estados sexuais da mente” nos dá uma interpretação um pouco mais ampla desses mecanismos perversos e nos diz que eles agem na base do “como se”. Baseado em uma interpretação bioniana do Complexo de Édipo onde o imperativo seria a mentira, e não a questão da Castração (no caso dos meninos), ele nos fala de uma parte da personalidade que funciona “como se” a realidade não existisse. Isso em si não pode ser ligado a homossexualidade – não tem nem o menor sentido, a não ser se colocarmos como regra da vida o pênis com a vagina e tratarmos todo o mais como uma aberração, esquecendo um outro conceito da psicanálise – que o homem é um ser de desejos e não de instintos.
O perverso mata, “come criancinhas”, como se nada disso tivesse consequências danosas aos envolvidos. Não existe culpa, pois esses mecanismos agem muito antes da formação do superego. Logo, a Le i não pode ser inscrita no superego.
Na homossexualidade ao contrário, não existe esse mecanismo. Sabe-se que existem homens e mulheres, sabe-se a diferença entre eles, sabe-se da Lei e sabe-se que o desejo é por alguém do mesmo sexo. O que muitas vezes o que existe é o contrário do que um certo credo psicanalítico propaga – como o desejo é contrário as expectativas da sociedade, se advêm um forte sentimento de culpa, as vezes de inadequação – com certeza não é fácil “sair do armário”. Esse próprio sentimento denuncia que a homossexualidade não tem nada a ver com a perversão. E é esse mesmo sentimento que coloca homossexuais e heterossexuais sobre a mesma estrutura de funcionamento super-egoíca.
Portanto do ponto de vista da própria psicanálise só se pode colocar homossexualidade e perversão sobre o mesmo teto se tiver em mente que o valor absoluto seja pênis com vagina. Estruturas perversas podem estar presentes independente da orientação sexual – basta olhar os presídios e manicômios para se atestar essa obviedade.
Por Sérgio Rossoni
Conforme definição, entendemos o conceito de phantasia como a imaginação elaborativa das funções corporais. “Roteiro imaginário em que o sujeito está presente e que representa, de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos, a realização de um desejo, em última análise, de um desejo inconsciente”. (Laplanche e Pontalis – pg. 169 – Vocabulário de Psicanálise).
Logo, podemos ampliar nosso conceito de phantasia definindo-a como um mecanismo de defesa contra a ansiedade, e através dela, o ser busca a realização de seu desejo inconsciente. Por um lado, a angustia real da não realização do desejo maior, o alcance da plenitude, é contrabalançada pela phantasia que visa a esperança desta realização. Se a phantasia luta contra a realidade que angustia, por sua vez, o ego vai criar uma serie de mecanismos de defesa (cisão, dissociação, idealização, introjeção e projeção, repressão, etc.), ou resistências conforme definição de Freud, visando garantir o sucesso desta realização em busca do prazer maior, procurando afastar mais ainda esta realidade indesejada, ou seja, afastar mais e mais a realidade nua e crua do ser.
Hanna Segal destaca que no interpretar os mecanismos de defesa para o analisando, interpretamos e o ajudamos a reviver suas phantasias contidas nos mecanismos.
Partindo do ponto de vista lacaniano, todos nós temos ou uma estrutura neurótica, ou psicótica, diferentemente da escola inglesa que defende o conceito de que todos nós possuímos estas estruturas ao mesmo tempo. Assim, todos nós temos um pouco de cada uma destas partes em diferentes graus. Logo, surgem outras definições claras a respeito da phantasia como ruptura ética em relação ao desenvolvimento do indivíduo; Forma que o indivíduo encontra para dar conta de sua fratura ética (algo que aponta para uma falha).
A phantasia nasce de uma falha, e aponta para o outro o que ele está fazendo e espera que aconteça. Ao mesmo tempo, é uma forma de compromisso entre o ego que vai tentar através de suas resistências, fugir da realidade, e o superego que por outro lado vai tentar jogar o ser no real de forma as vezes cruel e direta. A esperança phantasiosa se faz necessária para equilibrar estes dois mundos – imaginário e real.
Destes mecanismos de defesa, a idealização é a última cartada do ser, em busca desta ilusão. Ao final do período edípico, o ser se identifica com seu suposto rival, na esperança de um dia obter seu desejo phantasioso realizado. A identificação faz parte da esperança. Neste período (final do Édipo), a criança realiza então o que chamamos de idealização secundária, sendo a primária a identificação com sua mãe, tendo então a percepção de si próprio.Podemos entender então que o superego bem como o ideal do ego, são frutos destas identificações. Na primária, surge o ideal do ego (aquilo que esperam que eu seja). Na secundária, surge o superego dizendo: “Você vai ter que ser igualzinho a ele”. Quando eu olho para este superego, estou diante, vendo esta identificação.
O neurótico vai fazer uma identificação parcial, enquanto o histérico uma identificação excluindo os órgãos genitais.É importante diferenciar identificação de introjeção. Na introjeção, eu coloco para dentro, e somente assim, eu poderei me identificar. Aquilo que foi introjetado e é sentido como um objeto mau, eu vou projetar para fora, embora na projeção, acabe projetando partes também boas também do objeto internalizado. Posteriormente vou reintrojetar tudo novamente. A projeção é um mecanismo neurótico de deslocamento (nível simbólico), enquanto a identificação projetiva é psicótica. Da negação ou recusa, entendemos o mecanismo de onipotência, onde o ser, simplesmente nega a realidade, como se se joga fora um pedaço desta, e colocasse em seu lugar aquilo que desejar. Entendemos assim a onipotência, pelo fato desta defesa nos fazer sentir que dominamos por completo nossos objetos, fazendo com eles o que quisermos. A cisão implica em dividir objetos bons e maus. Assim como as outras defesas são necessárias para contrabalançar a dura realidade, é a cisão responsável por colocar em ordem a bagunça inicial do mundo interno do ser.
No início, objeto bom e mau não são percebidos como duas coisas distintas. É necessário esta cisão para simbolizar este conceito e organizar assim o mundo interno. Quando o ser separa suas imagos através desta cisão, surge também a idealização. Eu idealizo os objetos bons e protetores, contra os maus perseguidores. Mais tarde, no que Melanie Klein nomeou de Posição Depressiva, o ego mais integrado, vai perceber os objetos bons e maus como um só. Logo, nasce a culpa pela destruição deste objeto e a gratidão. Nesta fase, começamos a entender o conceito de “assumir suas responsabilidades’, bem como lidar com as perdas, a reparação, a culpa, etc.
Assim, podemos dividir a ansiedade em três partes:
01. Confusional – antes da cisão, o mundo é um todo. Objetos bons e maus não se distinguem
02. Persecutória – Já posso identificar os objetos através da cisão. Agora, eu tenho um objeto bom que me protege, e um objeto mau que me persegue.
03. Depressiva – Percebo que o objeto bom e mau são um só. Sinto-me culpado por tê-lo destruído, e grato por tudo que recebi. Desejo reparar os danos que causei.
No final, o que devemos discutir e analisar é a phantasia do analisando. Através de suas phantasias, mergulhamos em seu mundo interno recalcado, percebendo suas defesas equalizando suas ansiedades.
Por Paula de Freitas Marcondes -
Se a base saudável de nosso psiquismo vem de nossa infância e se situa mais especificamente na mãe suficientemente boa, segundo Donald Winnicott, como devemos analisar uma pessoa que foi inicialmente abandonada por sua progenitora?
Qual a possibilidade de reparação para este abandono inicial? A mulher que adota pode vir a ser esta mãe boa o suficiente? Portanto, como se falar em adoção a partir de teorias psicanalíticas?
Entregar uma criança para adoção pressupõe mil justificativas, mas o que podemos perceber como mais comuns são:
1) Esta criança não era desejada;2) Essa mãe não tinha condições psíquicas de lidar com um filho;3) Situações socioeconômicas levaram a tal decisão. Portanto, nem sempre a criança foi totalmente rejeitada, mas sim a necessidade de criá-la é que não pode ser atendida. Através dos estudos do módulo de Dinâmicas Familiares pretendo achar respostas para as indagações iniciais.
Winnicott descreve o desenvolvimento psíquico através de três etapas fundamentais: a integração, a personalização e percepção da realidade. Para passar por elas, e chegar ao estágio de perceber o próprio self, é de suma importância que o desenvolvimento psíquico da criança seja saudável. Para que isso aconteça, o que há de mais importante é a presença de uma mãe suficientemente boa. O que significa ser uma mãe boa o suficiente? É aquela que está presente, sustentando as transformações deste bebê. Todos os dias esta mãe está ali cuidando, dando amor e suprindo as necessidades básicas deste pequeno ser em formação. Não é a perfeição que traz o bom resultado, é a constância de uma relação em equilíbrio e este equilíbrio pressupõe os não acertos também. O bebê só será capaz de adquirir a noção de seu corpo e, posteriormente se ver como indivíduo, se houver a segurança que esta mãe se faz presente. Mas quem é esta mãe? Só a biológica pode fornecer esse amor? O dito popular “mãe é quem cria e não quem põe no mundo” tem sua razão. Uma mãe adotiva presente diariamente, sustentando os choros do bebê, dando os cuidados essenciais e desenvolvendo uma relação com este bebê também é a mãe suficientemente boa de Winnicott. A rejeição inicial pode e deve vir a ser trabalhada posteriormente - talvez em idade adulta - para que esse indivíduo entenda sua origem. Mas isso não diminui o fato de que houve uma mãe constante e que deu amor para este bebê, além das condições para que ele desenvolvesse seu psiquismo de forma positiva. Alessandra Piolontelli desenvolveu uma pesquisa onde a continuidade pré e pós parto é colocada em evidência. Os fetos têm padrões individuais de desenvolvimento dentro do ventre e muitas destas características e movimentos de um feto puderam ser notados durante o desenvolvimento de uma criança em sua primeira década de vida. Podemos olhar isso, em uma criança de lar adotivo, de duas formas:
1) Esse desenvolvimento é interrompido com a mudança de lar;2) Esse desenvolvimento é uma prova de que há comportamentos da criança que são anteriores ao cuidado materno pós nascimento. Se há a interrupção, cabe a nova mãe descobrir e aprender quem é esse filho que ela não teve a oportunidade de sentir em seu ventre. Qual é essa transgeracionalidade que foi interrompida? Se há comportamentos intrínsecos ao bebê, há características do desenvolvimento psíquico que ocorrerão independente do fato da mãe suficientemente boa ser ou não biológica. Há uma “re-trans-geracionalidade” que também será transmitida para esta criança no novo seio familiar em que ela foi inserida. Ambas as alternativas mostram a possibilidade de uma mãe adotiva superar o trauma de uma rejeição inicial enfrentada por este bebê. Se René Spitz lida com a questão do objeto na relação mãe-bebê e coloca esse objeto de relacionamento como resultado dessa interação, fica mais claro ainda a chance de uma mãe adotiva desenvolver um vínculo com seu bebê de forma construtiva. É da satisfação desta relação inicial que o bebê poderá tomar conhecimento desta mãe e vir a sorrir e entender o sorriso dela. Assim como Melanie Klein, René mostra que é da relação objetal satisfatória que se dará o desenvolvimento psíquico adequado deste ser. Se analisarmos pelas fases de Margareth Mahler podemos entender que eventuais falhas desta mãe não-biológica podem vir dos momentos iniciais, principalmente a autista e a simbiótica, nas quais eventuais faltas podem levar ao autismo ou esquizofrenia. A partir de um estudo de fases conseguimos concluir também que o momento da adoção desta criança pode ser fundamental para entender o desenvolvimento posterior de sua psique. Essa criança foi adotada recém-nascida? Ficou os primeiros meses de vida em um orfanato? Teve uma mãe biológica no início e depois perdeu? Foi adotada quando já era maior? Cada pergunta remete a análise individual de cada fase que esta criança passou com ou sem uma mãe presente. E isso resultará em formas de desenvolvimento menos ou mais problemáticas. Porque segundo Mahler, “a criança ganha confiança na sua mãe, de que sua mãe a entende, que sua mãe está ali e sempre estará ali”. Isso é a segurança, isso possibilita que a criança não sinta o vazio, o medo da morte. Já Bowlby nos mostra que o “vínculo é uma necessidade psicológica e que os primeiros vínculos vão dar a tônica de todos os outros vínculos do indivíduo até sua sepultura”. A força dessa frase reside em outra afirmação dita por ele de que “os problemas vinculares devem ser investigados no real e não no psiquismo. Nesse real eu encontro respostas às suas perguntas e não no imaginário.” Se levarmos essas afirmações para um lar adotivo podemos compreender que o mais importante para a superação de um primeiro abandono é o vínculo que será estabelecido neste novo lar e eventuais problemas a serem lidados devem ser enfrentados com o que ocorre na vida real e não só em um imaginário de abandono. Novamente é possível afirmar que uma mãe presente, como amor e cuidados constantes e sendo apoiada por uma família são de fato o que uma criança precisa para o desenvolvimento saudável. E isso independe do fato de ser essa família biológica. A estrutura familiar se mostra tão importante quando os genes familiares. Lacan explica que “a significação de um indivíduo está em função de uma estrutura e não nele mesmo.” E esta estrutura é o lugar que este filho adquire frente a este pai e a esta mãe. O rompimento de laços afetivos primórdios deixa marcas, mas a qualidade das vivências com uma nova família serão essenciais para a estruturação deste indivíduo. Finalizando com Winnicott - sempre um otimista em relação ao potencial que a criança tem para o desenvolvimento - o ambiente em que uma pessoa será criada é de fundamental importância. Se esse ambiente é com a mãe e família biológica, mas não é adequado, o potencial para desenvolvimento saudável pode vir a fracassar do mesmo jeito e até mais do que com uma família adotiva. Se levarmos em conta que uma pessoa ou um casal que adota uma criança geralmente o faz pela enorme vontade de ter um filho, já vemos um grande ponto positivo na recepção desta criança neste novo lar. Além de tudo isso, levando em conta que cada indivíduo é singular assim como a sua forma de encarar o mundo e lidar com seu sofrimento e as pessoas reagem de forma única aos eventos psíquicos, podemos dizer que tanto pais adotivos quanto biológicos podem ser ou não ser bem sucedidos em dar o suporte necessário aos seus filhos. Para isso é essencial proporcionar um ambiente favorável onde haja, principalmente, amor. Ser pai e mãe de fato pressupõe esse amor, essa entrega. E essa doação significa também mostrar a verdade para esta criança e jamais renegar que há uma história dela que ficou para trás, que tomou um novo rumo.
Por João Jorge Correa -
A princípio, na literatura, entende-se o sintoma como sendo uma expressão do recalcado e seria, por sua vez, a realização de fantasias constituídas por conteúdos de caráter sexual provenientes das pulsões do sujeito.
É possível afirmar que o sintoma carrega consigo um sentido que é tipicamente inconsciente e que insiste em informar algo para o sujeito que na maioria das vezes sequer tem conhecimento do conteúdo dessa informação, todavia “sofre” os seus efeitos.
Assim, se no sintoma está parte da realização sexual do sujeito por intermédio das suas fantasias oriundas das pulsões, e que informa algo, podemos indicar como sendo, o sintoma, um espaço onde está compartilhado o sofrimento. Entretanto, o sujeito não consegue discernir a compreensão desse processo. O sonho, por sua vez, seria uma forma de caminho ao inconsciente. De caminho em direção aos desejos inconscientes e que ao fazer esse movimento busca promover certa descarga, que é sempre parcial. Freud em seus escritos arrisca dizer que os sonhos são uma espécie de alucinação. Em relação aos sonhos, em diferenciação no que tange os sintomas, aqueles são linguagens que se constroem a partir de imagens e aí estaria o princípio, ou um dos princípios, que marcam algumas dificuldades para sua compreensão: como imagens são diferentes de palavras e apresentam maior ambiguidade e afloram contradições torna-se muito complexa a tarefa do analista promover a interpretação dos sonhos.
Esta dificuldade ampara-se nas próprias distorções produzidas no sonho o que afeta sobremaneira os mecanismos e instrumentos de análise e decifração devido à quase irreconhecibilidade dos processos oníricos. Pode-se dizer que o sonho é a realização de um desejo, mas não um desejo qualquer uma vez que estão retidos no inconsciente. Em outras palavras, o sonho é a realização de um desejo que se dá através do inconsciente que tem acesso as estruturas de linguagem através de alucinações, porém sem motilidade. Para se chegar ao sonho existem dois caminhos: um se daria através de deslocamentos e o outro por intermédio de condensação. Estas duas trajetórias possíveis constituem o que se convencionou chamar de processos de elaboração dos sonhos. Esses dois elementos estão relacionados com as estruturas de linguagens onde encontramos os significados e os seus respectivos significantes. Teoricamente, podemos nos deparar com um significante e uma série de significados para si. A interpretação dos sonhos proporcionaria, em síntese, a compreensão destes processos de deslocamento e condensação. De alguma forma pode-se afirmar que o sintoma está envolvido nesse dilema dialógico entre significado, significantes, deslocamentos e condensação. Ele (sintoma) se envolve na medida em que busca expressar algo que o sujeito não diz e que, também, devido ao recalcamento, não dá conta de explicar o que se passa. Assim, o sintoma se “manifesta” no corpo, ou seja, o corpo “fala”, indica, sugere aquilo que o sujeito não consegue verbalizar. Enfim, o sintoma pode ser qualificado como integrante do campo dos pensamentos que deixaram de ter significado até o analista conseguir ouvi-lo e promover seu entendimento. Por fim, cumpre apontar uma ideia relevante apresentada por Freud: os sintomas também podem ser qualificados como instrumentos da realização de desejos e, o que os diferencia dos sonhos nessa ação é que no que tange aos sintomas existe uma espécie de compromisso entre o desejo em si e os elementos censuradores dos processos secundários.
Freud denomina de primários os processos que ocorrem no inconsciente e, opostamente, de secundários aqueles que pertencem ao campo consciente. Trata-se de processos que influenciam a forma como o sujeito lida com a realidade e com as contradições e complexidades dela advindas, bem como almejam a satisfação de impulsos que nesses processos se originam. Em função desse quadro Freud busca a compreensão das inter-relações que ocorrem entre processos primários e secundários e, a partir de seus estudos, aponta (dentre outros elementos) dois mecanismos básicos que atuam na constituição do psiquismo do sujeito: a condensação e o deslocamento. É na obra “Interpretação dos Sonhos” que o autor em questão aborda estes dois conceitos fundamentais. O conceito de deslocamento diz respeito à possibilidade das ideias tomar de empréstimo como recurso da sua manifestação o sentido alheio que pertence à outra ideia. Isto quer dizer que de alguma forma ideias, imagens e/ou fatos de aparente baixa importância para o sujeito adquirem uma significação mais amena, enganando os instrumentos de censura desse sujeito e surgindo no conteúdo dos sonhos.
Da mesma forma ocorre o processo inverso: ideias, imagens e/ou fatos nítidos e significativos no conteúdo do sonho que se elevam a essa condição pela associação com fatos, imagens e/ou ideias importantes e relevantes. O deslocamento constitui-se num mecanismo de substituição, por assim dizer, sobre elementos importantes que sofreram uma resistência. Neste sentido, o conceito de deslocamento está diretamente associado e relacionado aos mecanismos censuradores, sendo eles, por sua vez, que comandam as substituições de ideias que possam constituir-se em conflito. Já o conceito de condensação trata-se de um mecanismo que promove o significado de uma ideia, imagem e/ou fato completos a partir de uma pequena porção que os constitui. A condensação constitui-se com elemento central no trabalho do sonho. Ela seria o elemento diferenciador entre o conteúdo manifesto (carente de conteúdo) e o conteúdo propriamente latente (rico em detalhes e elementos constituintes). É por intermédio da condensação que se dá a aglomeração, isto é, a reunião dos diversos conteúdos que se encontram dispersos.
Por Sergio Rossoni -
Não sou bem resolvido, tenho muitos preconceitos. Um deles é contra a classe média. Além disso, sou cheio de maus hábitos: charutos, cachimbos, álcool, comida com sangue e não ando de bike. Para mim, o vício e a culpa são o centro da vida moral. Enfim, não sou uma pessoa muito saudável. Por isso, não sou de confiança. Mas não pense que sofro do fígado; sou apenas um fraco.
Tenho uma amiga, muito inteligente, que costuma me chamar de "flagelo da classe média".Quando falo "classe média", não olhe para seu saldo bancário, olhe para dentro de si mesmo. Classe média é um estado de espírito, e não apenas uma "alíquota" do imposto de renda ou o tipo de cartão de crédito que você tem.
Por maior que seja a variedade entre os seres humanos no que tange à raças diversas, cores, cultura e costumes, nossos temores e angustias mais profundas enraizadas em nosso inconsciente são as mesmas em todos os homens.Medo da morte, da solidão, angustia do abandono, perguntas sem respostas (de onde vim, para onde vou?), sentir-se frágil diante do mundo externo, etc, estão presentes no ser desde o início da vida, ou melhor, o inicio da vida é a largada para a origem dos medos. Medo de perder a vida, ser destruído, o grande conflito entre o que conhecemos com o nome de pulsão de vida versus pulsão de morte.
Nos defendemos destes medos e inseguranças criando phantasias, entre outros mecanismos de defesas. Um exemplo disso, citando Melanie Klein, é o processo de idealização que um bebê de um objeto (mãe), criando em seu mundo interno a imagem de uma mãe muito boa que irá defende-lo contra uma mãe má, ou objeto mau. De certa forma, nossos medos e angustias são os mesmos. Quando identificamos a phantasia de um ser, estamos automaticamente acessando a phantasia de todos.
Todos nós queremos o nirvana; todos nós tememos a morte, a destruição; Todos nós tememos a solidão, o abandono, etc.
Durante certo tempo, dentro de um tratamento analítico, as phantasias apresentadas pelo analisando são básicas, idênticas a todos, podendo ser facilmente identificadas pelo analista, já que os medos e angustias não variam muito. Questões edípicas (medo da solidão), por exemplo, aparecem constantemente em diversos casos, bem como outros medos em comum, facilitando o trabalho do analista de forma geral. No entanto, após um período, as phantasias começam a ganhar complexidade, de acordo com a história de cada um.
Cabe ao analista interpretar estes conteúdos trazidos pelo analisando e informá-lo sobre suas phantasias e seus mecanismos de defesa utilizadas pelo ego. Para Melanie Klein, interpretar é o resultado da somatória entre conjunto de palavras, o setting, a transferência e a intuição do analista. Sendo assim, o analista deve se perguntar sempre em relação ao seu analisando: Qual é o seu medo? Qual é o seu desejo?
Tais perguntas podem ser utilizadas dentro de um contexto que sirva para o analisando visualizar sua situação. No entanto, normalmente não deve-se utilizar tais perguntas de forma direta e certeira. Lembremos que o analisando no inicio não tem a menor noção do que sejam suas phantasias ou medos, etc.
Logo, para se formular uma interpretação é necessário saber qual é a phantasia do analisando, acessando assim seus conteúdos e medos, bem como as defesas utilizadas pelo ego. Não é possível interpretar somente com base nas defesas do ego. As mesmas defesas são utilizadas para phantasias distintas. Para se chegar a uma conclusão, deve-se observar o todo: phantasia + medo +defesa. Toda interpretação deve conter ansiedades e defesas.Até meados de 1923, Freud teve seu estudo dirigido para o desejo libidinal. Após 1923, em o ego e o id, bem como em inibições, sintomas e ansiedades, sua faceta passa a ser as defesas utilizadas pelo ego.
Tais defesas são expressas em phantasias, que pode ser entendida como a forma com que eu acho que as coisas a minha volta funcionam. No entanto, as coisas a nossa volta nem sempre acontecem da forma como desejamos. Daí, frustrações, medos, etc. O mundo não corresponde à minha phantasia. Assim, as defesas servem como escudos contra a realidade nua e crua. No entanto, tais defesas são necessárias em certa medida para se obter um certo equilíbrio entre o mundo real e o mundo interno do ser. Muitas vezes, retirar tais defesas de imediato podem lançar o homem em direção ao caos.
Seria como retirar a muleta do aleijado, que necessita do acessório para andar. Por outro lado, viver na phantasia desequilibra o ser, causando dor e frustração. Gostaria de dar um exemplo: Minha phantasia é achar que sou o melhor em tudo o que faço. Minha frustração é que perceber que o mundo não me reconhece como eu gostaria. Minha realidade é que sou normal, nem gênio, nem ignorante, nem melhor nem pior, etc. Sou um ser normal idêntico à milhares, carregando em mim qualidades e defeitos. Meu alívio é perceber que ser bom em tudo é impossível, algo phantasioso. Meu ego pode utilizar, por exemplo, da onipotência, como defesa contra meu medo em perceber o quanto sou frágil, com medo de ser destruído, etc.
Assim, posso interpretar a phantasia = sou o melhor
Defesa = onipotência
Realidade = Sou igual a todos no mundo. Não existe super homem.
Segundo Freud, nossas angustias e medos são estão enraizados no passado, ligadas à primeira infância. Freud com as fases ou Melanie Klein com as posições, entre outros psicanalistas, deixam claro sobre a origem de nossas dificuldades terem suas raízes no nascer, algumas até mesmo já embutidas no ser. No entanto, tudo é revivido sempre, através da transferência. Minhas defesas permanecem atuando todo tempo diante de problemas atuais que se assemelhem aos do passado, fazendo com que eu assuma a mesma postura. Assim, o passado é importante, mas ele continua vivo no presente, no aqui e agora. Não é necessário que o analista mergulhe somente na historia passada de seu analisando. Um exame é importante, porém, mais importante do que isso é perceber que as phantasias e defesas continuam agindo no presente, da mesma forma. O analista deve se ater ao fato do aqui e agora.
Toda phantasia se apresenta como um tipo de medo. Na histeria, por exemplo, está contido o medo de crescer, medo do mundo externo, medo de qualquer coisa que aponte o contrário da minha crença de que sou o melhor do mundo em tudo, medo de que as pessoas não façam aquilo que eu desejo, medo de ficar sozinho, medo de encarar minha imperfeição, medo de que o outro não me dê atenção, que neste caso seria uma obrigação do outro. Meu mundo externo é mau, repleto de coisas más, contrario do meu mundo interno. Neste caso o objeto bom está internalizado, sendo o mundo externo mau.
Por Sérgio Rossoni -
Classe de neuroses que apresentam quadros clínicos muito variados. As duas formas sintomáticas mais bem identificadas são a histeria de conversão, em que o conflito psíquico vem simbolizar-se nos sintomas corporais mais diversos, paroxísticos ou mais duradouros, e a histeria de angustia, em que a angustia é fixada de modo mais ou menos estável neste ou naquele objeto exterior (fobias).
Pretende-se encontrar a especificidade da histeria na predominância de um certo tipo de identificação e de certos mecanismos (particularmente o recalque, muitas vezes manifesto), e no aflorar do conflito edipiano que se desenrola principalmente nos registros libidinais fálico e oral”. – Laplanche e Pontalis – pág. 211 – Vocabulário de Psicanálise. O histérico testemunha um intenso amor materno por parte de sua mãe, porém, inconscientemente, existe uma recusa por parte do self materno do desejo pelo corpo sexual do bebê. Os genitais causam repulsa e estranheza nesta mãe que pretende ver em seu filho, somente uma espécie de ser assexuado. Na identificação posterior, o histérico(a) vai buscar seu significado para sua mãe, representando então aquilo que acredita ser o desejo da mãe.
Na época em que ocorre a epifania sexual, onde a criança descobre que o mundo é constituído por objetos sexuais a partir de seus impulsos libidinais, enquanto para a criança não histérica sua mãe passa a ser vista não mais como objeto materno, mas principalmente como objeto de desejo, para a criança histérica a sexualidade torna-se uma ameaça diante da relação mãe-bebê. O histérico vai dessexualizar sua mãe, persistindo na ideia original do desejo materno. O pai torna-se o grande vilão no período edípico. Aquele que ameaça esta relação perfeita de conto de fadas, onde somente existe uma espécie de pureza histérica. Posteriormente, a criança histérica aceitara o pai, na medida em que é impossível não aceita-lo, já que este é de fato o marido de sua mãe, porém, criará a imagem de um pai igualmente dessexualizado.
O histérico irá lutar para preservar a criança inocente, opondo-se ao crescimento do self, criando a imagem de uma mãe “Madona”, e tornando-se o garotinho(a) perfeito(a), atendendo assim ao desejo do outro. Este outro, sua mãe ideal, repudia por completo a sexualidade e deseja seu garotinho(a) eterno. Logo, na phantasia histérica, o ser vive representando este papel. Ocorre uma espécie de substituição da satisfação sexual pela satisfação sagrada, santificada. O gozo é algo que eleva seu espírito ao céu. Cristopher Bollas em seu livro “Hysteria” descreve que “Fazer amor para o histérico implica em uma troca do corpo pela alma”. Ainda em seu livro “Hysteria”, Bollas descreve: “Amor do histérico é a preocupação autoerótica projetada no outro, e logo, que esse outro se destaca da figura ideal na mente, vem a decepção. Não compartilha conhecimento erótico – o outro é uma figura com quem se masturba.
Buscam nas preliminares a finalidade da sexualidade. Sua satisfação esta ligada a frustração e desistência”.
O corpo passa a ser um objeto erótico do histérico. Sua satisfação sexual esta nas preliminares, uma vez que sua mãe repudiou seu órgão genital e de certa forma distribuiu este desejo sexual para outras partes do corpo. O cuidado excessivo com o corpo pode representar a construção deste personagem autoerótico, que seduz, eleva-se aos céus como ser puro e mantém sua relação infantil representando o personagem criado pelo desejo de sua mãe.
David Zimerman descreve algumas características clínicas do histérico: “Existência de uma mãe histerogênica – próxima e distante, dedicada e indiferente; Usa a criança como uma vitrine sua para se exibir aos outros; Projeta nos filhos sua própria estrutura histérica. Meninos: as mães são sedutoras; desenvolvem um clima de expectativas narcisistas Meninas: Pai sedutor e frustrador ao mesmo tempo; Ansiedades existentes: angustia de castração; cair em um estado de desamparo; baixa autoestima; medo da perda do amor dos pais ambíguos entre outra”. (David Zimerman – Histeria – Manual de técnica Psicanalítica)
J.D. Nasio define histeria como um desejo sexual infantil vivido na cabeça de um adulto e cujo objeto não é um homem ou uma mulher, mas uma criatura forte ou fraca. O histérico vive seu parceiro como uma criatura castrada e onipotente, e não como um homem e mulher. Complementa dizendo que a histeria sofrida por um adulto foi provocada outrora por um violento abalo ocorrido em sua sexualidade de criança. (J.D. Nasio – Édipo)
Para o histérico, o mundo é cruel, privando-o das coisas boas. Assim, coloca-se sempre na posição de vitima e mártir. Seu objeto bom está internalizado. O mundo externo contém os objetos maus. em seu livro “Édipo”, J.D. Nasio define Falo para a mulher como “medo de deixar de ser amada’. O histérico resolve esta questão representando seu personagem assexuado, como uma criança pura e perfeita, obtendo assim o amor eterno de sua mãe “madona’.