Por Ale Esclapes -
Paira no ar uma insustentável obrigação de sermos felizes, o tempo todo. Ela nos intoxica como um gás que faz sofrer lentamente, e tem como o corolário da falta de ar a depressão. O sentimento de depressão, tão comumente associado a uma doença, faz parte sim do repertório de emoções de todo e qualquer ser humano.
O sentimento de depressão é o sentimento que temos quando alguma ilusão que acreditamos ser verdade morre.
Quando descobrimos que o mundo existia antes de nós, que não somos o centro da casa, e que aqueles que chamamos de nosso, na verdade não nos pertence, nos deprimimos.
Quando descobrimos que não somos autossuficientes, que somos seres dependentes e desamparados, que precisamos dos outros para as suprir nossas condições mais básicas, nos deprimimos.
Quando acreditamos que aquele emprego vai nos levar ao topo, que aquele vestido mais nos fazer desejáveis, que aquele carrão vai fazer que eu seja mais potente, e nada disso se concretiza, nos deprimimos.
Quando aquele casamento que acreditamos que vai nos curar dos males do mundo, que vai nos dar aquilo que nossos pais nos negaram, e nos devolver ao nirvana da simbiose, acaba, simplesmente termina, nos deprimimos.
Quando temos que escolher um amor, um rumo na vida, uma única profissão, seguir um único sonho, ter uma única esperança, acreditar em algo, nos deprimimos por não podermos ter todas as outras profissões, sentidos, sonhos, e tudo mais que precisou ser descartado. Escolher é um ato por si só, depressivo.
Quando nos descobrimo-nos, a uma certa altura da vida, que nosso rumo talvez não esteja na rota correta, que temos que mudar o leme, levantar as velas e partir para novos mares, nos deprimimos pelo tempo perdido, tempo que não volta mais.
Quando abandonamos essas falsas promessas de felicidade, essas ilusões passageiras, adquirimos sabedoria. Não existe sábio que não tenha passado pela dor da depressão, do choro, do lamento. Quando nos tornamos sábios da vida com suas reais possibilidades, deixamos de ser deprimidos.
Mas se a sociedade nos obriga a sermos felizes como uma realização instantânea e não uma aquisição emocional, só nos resta uma sociedade depressiva e seus antidepressivos.
Por Francine Brandão -
A primeira palestra O Holocausto e a Subjetivação do Outro trata de uma visão sobre o holocausto a partir de Hanna Arendt, uma sobrevivente da segunda guerra que se refugiou nos EUA e se dedicou a compreender os regimes totalitários, o nazismo e as consequências desses eventos para a humanidade.
Destaca as formas com que um regime totalitário priva o ser humano de sua individualidade, de seu próprio ser, através de uma destruição simultânea de seu ambiente, casas, negócios, centros religiosos, ou seja, tudo aquilo que tem um significado para o indivíduo. Suas armas são a mentira, a fabricação de uma realidade imposta perversamente, o biopoder- poder sobre a vida onde se torna possível a criação de corpos dóceis que lhes são necessários, usado inclusive para a implantação do capitalismo-, a privação de um sonhar, onde já não se tem esperança e a morte passa a ser desejada. Os inocentes morriam como coisas e sem alma, com uma crueldade que escapa à compreensão humana. É a produção de um inferno na terra. Destaca também a importância de tal relato e estudo para que o que se deu não aconteça mais, e deixa a reflexão sobre nossa realidade contemporânea onde o sentido de se viver em cidades deveria ser o bem comum, mas vive-se como se estivéssemos em campos de concentração onde o biopoder é aplicado até hoje. Acontece um paradoxo: um poder que deve ser usado para proteger a vida é o mesmo que autoriza o holocausto.
A palestra Sobrevivendo à Desumanização nos traz questionamentos sobre a capacidade de escuta analítica: qual o limite da escuta analítica? Como escutar toda experiência humana? Será que nós, analistas, temos teorias para tanto, ou seria pura arrogância? Como não soar arrogante diante do sofrimento de cada ser humano? Precisamos ter cuidado para não reduzir o sofrimento do outro a simples teorias. Para as experiências dos campos de concentração não há vocabulário para interpretação analítica porque são da ordem do indizível. Aponta para os métodos de desumanização utilizados nos campos, a saber: uma sociedade que divida as pessoas em grupos - quem tem e quem não tem privilégios; solidariedade substituída pelo egoísmo( como única possibilidade de salvação) ; quem tem privilégios oprime os que não têm; submissão a atos amorais- que a própria pessoa considera imoral, mas que é a única possibilidade de sobrevivência; que os condenados nunca saibam porque foram condenados; nada era feito de graça; a quem tem, será dado e a quem não tem será retirado; redução do social para o individual e a partir daí operar a desumanização; nada deve fazer sentido- ausência de sentido ( o ser humano precisa de um sentido para se constituir como sujeito; se se retira isto, dá-se um passo a mais na desumanização); transformação em animais; redução aos seus instintos mais baixos, já não se pode pensar ( significava criar o inferno: tem água mas não se pode beber, tem banco mas não se pode assentar ,ou seja, o indivíduo se reduz a suas necessidades básicas, destituído de uma alma, de um passado e de um depois. Qual era a organização social? Era reduzir os seres humanos a animais e retirar deles a compaixão, empatia e solidariedade, e desqualificar esses valores como sendo valores de pessoas fracassadas e vencidas. Como sobreviver a isto? Nos campos não havia regra e só se podia contar com a sorte. O palestrante conclui: - Quando se atem ao título do artigo imagina-se que se apegando a valores morais maiores como o bem, o sonho, a esperança ... esses seriam fatores de sobrevivência... mas aqui não é bem isto e isto espanta! Aquele que melhor se adaptasse teria mais chance de sobrevivência. Esses métodos podem estar mais perto de nós do que se imagina.
A próxima palestra, O Mal Estar na Cultura, é um recorte da obra freudiana ( 1929-1930) que enfoca o ser humano em sua busca de felicidade e satisfação de seus desejos e também de suas necessidades básicas de autopreservação, que é condição de sua realização. O ser humano é um ser de desejos e não de instintos, o que o diferencia do animal, e para a realização de tais desejos há necessidade de esforço por parte do indivíduo porque, tanto a realidade interna (limitações pessoais) quanto o meio externo ( natureza) colocam obstáculos, o que traz também sofrimentos. Uma das alternativas que os seres humanos encontraram para facilitar essas conquistas foi viver em grupos(família, sociedade), mas isto tem um custo: controle da agressividade, sacrifício parcial da liberdade, atraso ou não da realização de certos desejos, etc. Há uma cota de agressividade inata no indivíduo que quando provocado reage e precisamos dar conta desta agressividade. Aqui entra o superego como uma instância na qual o ser humano traz para dentro de si as regras de seu próprio processo civilizatório fazendo com que o indivíduo possa lidar com suas próprias questões: haverá uma tensão entre ego e superego que gera a culpa. Esta tem duas origens: uma interna advinda do superego e outra externa advinda de uma autoridade externa. A má consciência seria uma consciência frouxa, sem rigor, onde o superego busca uma oportunidade para que um castigo aconteça no real, colocando a agressividade para fora. Fica, então, a grande questão: se o superego é uma continuidade e carrega uma severidade de uma autoridade externa, quer dizer que em sua formação e no surgimento da consciência fatores constitucionais inatos e influenciados do meio ambiente atuam de forma combinada. O que estamos fazendo com nossa agressividade?
Em A Violência Invisível a palestrante começa com uma questão importante: se queremos cultivar uma cultura de não violência, precisamos conhecer com intimidade nossa mente e nosso corpo, coisas íntimas de nós mesmos. Praticamos violência contra nós mesmos, contra nossa mente quando não a estimulo, quando a impregno de sombras e fantasmas e contra nosso corpo desrespeitando-o de várias formas. Violentamo-nos porque não nos conhecemos. É preciso se observar e esquecer-se de si mesmo, daquele eu menor, do nosso egoísmo, do eu em primeiro lugar, é a transcendência do corpo e da mente. Isto é iluminar-se, é ir além. A violência silenciosa é quando vivemos a dualidade, a separação do eu e do outro que considero estranho a mim e não um outro semelhante a mim. Quanto de discriminação trazemos em nós e que negamos? Deve-se abrir o olhar de compaixão do não-outro que é o mesmo do não-eu: enquanto existe um eu violento, agressivo, existe o outro que se opõe a mim. Mas, quando transcendo o eu, crio a paz ao meu redor. É preciso viver o hoje, deixar o ontem e o depois. Um meio para a não-violência são as práticas meditativas que nos dá uma percepção clara da essência do eu, que é o não-eu, que é a transcendência do eu e do outro. E violência é não permitir o crescimento ou o desenvolvimento do potencial de uma pessoa, é não reconhecer as necessidades básicas do outro, é impor nossas próprias necessidades. É deixar de questionar. O olhar para si, a percepção das próprias emoções faz com que se possa controlar essas emoções e não reagir de acordo com elas. Não é negar as emoções, mas aprender a lidar com elas. Isto é não-violência e compaixão. A não-violência seria o abandono do eu para o nós, uma percepção do coletivo e não do individual.
Em A Parte Obscura de Nós Mesmos trata sobre o tema da perversão e da sociedade perversa. O que seria perversão? Será que não seria utopia acabar com as perversões? Será que a busca de perfeição não poderia transformar a própria sociedade em perversa sendo isto a causa de tantos sofrimentos atuais? Será que o caminho não seria de aceitação do mal? Mas o que é considerado perversão? Hoje, na psicanálise, perversão está relacionada à crueldade, ao sadismo, ao comportamento anti-social (que não é timidez, nem reserva). É ter prazer em destruir. Há de se perceber que existe um grau de agressividade inata do ser humano que precisa ser aceito dentro de cada um; o mal faz parte de mim e pode ser uma violência silenciosa (imposição de nossos desejos, bulling, etc). O perverso usa o outro como objeto e é uma defesa contra a psicose e está ligada ao abalo das relações de segurança e confiança na maternagem. As defesas se levantam frente ao vazio, á sensação de aniquilamento, ao desconhecido. O desafio do tratamento então seria levar o indivíduo a se relacionar com o mundo sem se sentir ameaçado.
Trabalhando com a Violência trouxe o relato de um delegado de polícia com seus desafios diários de se trabalhar em uma sociedade capitalista, violenta, onde acontecem desde estelionatos à crimes bárbaros. Coloca a questão da lei penal que considera boa no Brasil, porém, falha na sua execução e também o papel dos meios de comunicação e redes sociais na propagação do mal e da violência.
Educação e Violência mostra as dificuldades que se tem de recuperar um menor infrator que não é vítima apenas de sua própria demência mas de uma cultura de violência muitas vezes gerada pela pobreza numa sociedade altamente consumista. Como desconstruir o que foi construído? Eis o grande desafio. Aponta a espiritualidade como porta de saída.
Por fim, Violência como Sintoma Contemporâneo traz a reflexão sobre o sonho da modernidade que morria juntamente com os judeus em Auschwitz, pois com toda tecnologia existente ali, o que se produziu foi uma transformação de homens em não homens, uma fábrica que visava destruir. Ficam as perguntas: O que fazemos com nossa própria destrutividade? A sociedade educa ou corrompe o indivíduo? Importante é focar em que somos seres bons e maus e para isto não há desculpas. Frente a este fato cabe à própria pessoa se responsabilizar pelo seu psiquismo, seu inconsciente, sua questão com a dependência, seu lado perverso.
Em minha opinião, o mundo capitalista tem oprimido o ser humano que responde a este fato de duas maneiras: ou sobrevivendo como vítima de um sistema que traz, em algum grau, as características do sistema imposto em Auschwitz que descaracteriza o ser humano em suas bases mais rudimentares, fazendo com que viva como “seres anestesiados” e completamente submissos; ou, o ser humano pode assumir uma postura de “senhor de sua própria história” trilhando um caminho de percepção de si mesmo, de seus sofrimentos, de suas mazelas, de seu narcisismo, egoísmo, perversões, preconceitos, percepção de seu próprio ser donde emana o bem e o mal, ou seja, assumindo a responsabilidade por sua própria vida, tendo-a em suas mãos independentemente do que a vida lhe trouxe ou trará. Seria optar pela segunda alternativa e trabalhar para que mais pessoas tenham condições de fazer esta escolha. Tarefa difícil? Sim. Todas as pessoas terão condições de fazer esta escolha? Talvez não. No entanto, é como passarinhos apagando o fogo de uma grande floresta com pequenas gotinhas trazidas em seu bico. Isto tem um nome: esperança! E isto pode dar um sentido para nossa vida. No entanto é necessário assumirmos que somos seres interdependentes e que todos têm algo a contribuir. Aprendemos uns com os outros e amadurecemos a partir do enfrentamento de desafios. Neste ponto a psicanálise pode dar a sua contribuição na medida em que faz com que voltemos o olhar para o nosso interior e que, a partir daí, paremos de negar a agressividade ou violência latente que existe em cada um de nós. Se hoje percebemos em nossa sociedade a banalização do mal talvez seja porque perdemos a capacidade de contato com aquele que nos é mais próximo: nós mesmos. Já não podemos ter compaixão por nós mesmos. Como, então, estender esta compaixão ao próximo? O “conheça-te a ti mesmo” é o caminho para reconhecermos nossa impotência e é ponte para a transcendência que, a meu ver, é a grande porta de saída para o ser humano, porém, estreita demais e onde poucos adentram.
Por Sérgio Rossoni -
"A contratransferência costuma ser considerada como um dos conceitos fundamentais do campo analítico, ao mesmo tempo que a sua conceituação é uma das mais complexas e controvertidas entre as distintas correntes psicanalíticas”. David Zimerman – Cap. 21 – Contratransferência – Fundamentos Psicanalíticos.
A contratransferência é um instrumento de trabalho do analista. Existem duas visões Psicanalíticas sobre ela: Uma repetição do analista; atuação do analista, e o sentimento do analista pelo analisando. Algumas contratransferências básicas são: uma visão pré-concebida do ser humano; Como o ser deve ser, se relacionar; Uma admiração exagerada baseada em uma transferência materna/paterna; Erótica.
Abordando esta última, Freud defende a ideia de que a contratransferência não deve ser utilizada dentro do setting. Sua definição de contratransferência é: “sentimentos e reações neuróticas inconscientes do analista de característica resistêncial (pontos cegos), configurando-se em um obstáculo ao trabalho analítico e, portanto, deveriam ser evitados ou removidos” zaslavsky, Jacó (capítulo 2) tendências do conceito de contratransferência até os anos de 1970-contratransferência: teoria e prática clínica. porto alegre: Artmed, 2006.
No decorrer do assunto, várias opiniões se distinguem do conceito Freudiano, como por exemplo a apresentada por Jacó Zaslavsky em seu livro “Contratransferência: teoria e prática clínica” de que “A contratransferência permite que o analista escute, por meio de seus sentimentos, não só o que o paciente diz, mas, mais ainda, o que ele não diz, por ignora-lo no plano do consciente” ZASLAVSKY, JACÓ [Ogs] Contratransferência: teoria e prática clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006. (Capítulo 2).
Também conhecida como identificação projetiva (termo introduzido por M. Klein), campo analítico, encenação, terceiro analítico, a contratransferência possibilita uma interação entre analista/analisando.
Rosenfeld (1947) descreveu um fato clínico onde ele conseguiu entender uma paciente psicótica pelos sentimentos próprios dele.
“Bion observou em seus trabalhos que a identificação projetiva também tinha a função de uma forma de comunicação primitiva, não-verbal, pelos efeitos da contratransferência. Nos últimos tempos, Bion assumiu a posição de que a contratransferência é um fenômeno inconsciente, não podendo ser usado conscientemente pelo analista durante a sessão. Preferia entender o fenômeno transferêncial-contratransferencial pelo seu modelo continente-conteúdo, cuja função do analista é acolher, transformar e devolver as identificações projetivas que o paciente viu-se obrigado a emitir dentro dele. ”David Zimerman – cap. 21 – Contratransferência – Fundamentos Psicanalíticos.
A contratransferência não se refere apenas aos sentimentos do analista na sessão, mas significa a utilização, de forma ampla, da subjetividade do próprio analista/terapeuta/clínico para a compreensão mais ampla e profunda do seu paciente. Zaslavsky, Jacó (cap. 2) tendências do conceito de contratransferência até os anos de 1970-contratransferência: teoria e prática clínica. porto alegre: Artmed, 2006.
Madeleine e Willy Baranger lançam o conceito de "campo analítico", derivado de ideias como transferência, neurose de transferência, a própria evolução do conceito de identificação projetiva, contratransferência, situação analítica, segundo olhar, pressupostos básicos de Bion e fantasia inconsciente.
O analista, apesar de sua neutralidade, intervém como parte integrante do processo". Zaslavsky, Jacó (capítulo 2) tendências do conceito de contratransferência até os anos de 1970-contratransferência: teoria e prática clínica. porto alegre: Artmed, 2006.
“Podemos perceber a contratransferência através de um mal-estar, e o primeiro passo deve ser tentar compreender qual o papel que o paciente tem na sua gênese, tomando cuidado, nesses momentos, para não fazer uma interpretação "expulsiva", apenas para nos livrarmos desse mal-estar, como alerta Manfredi (1994).” Zaslavsky, Jacó (cap. 2) tendências do conceito de contratransferência até os anos de 1970-contratransferência: teoria e prática clínica. porto alegre: Artmed, 2006.
A contratransferência é considerada como o resultado de uma interação entre o inconsciente do analista com o inconsciente do analisando, interagindo entre si. “Enquanto alguns conceitos levam a crer que a parte mais importante da contratransferência é inconsciente, sendo reconhecida somente a partir de seus derivados conscientes, alguns psicanalistas acreditam que é possível que o terapeuta perceba conscientemente, mesmo durante a sessão, os efeitos contratransferências nele despertados, e fazer um proveitoso uso disso.” David Zimerman – cap. 21 – Contratransferência – Fundamentos Psicanalíticos.
Por Ale Esclapes -
Para essa mulher o casamento dos sonhos seria um marido que discutisse a relação, que conversasse antes e depois do sexo, que lhe levasse para jantares fantásticos nos melhores restaurantes da cidade, lhe surpreendesse com flores e chocolates, e lhe dissesse que a ama pelo menos três vezes ao dia.
Gustavo* tem 40 anos, e veio fazer terapia para tornar-se um homem melhor. Seu casamento estava muito mau. A bastante tempo sua mulher não lhe dirigia atenção, e quando isso acontecia, era somente para realizar cobranças. Não aguentando mais esta situação, ele preferia ficar no escritório até bem tarde – assim pelo menos não precisava encarar o mau humor da esposa. Ressentia-se muito por estar distante dos dois filhos. Procurava compensar dedicando-lhes totalmente os finais de semana. Também lhe servia para ficar longe da esposa chata. No início era difícil falar das amantes, mas aos poucos adquiriu confiança e foi-lhe mais fácil falar delas.
Mas uma culpa implacável o atormentava. Sentia que seu casamento não era bom por sua causa, e queria reverter esse processo. Queria que a terapia o ajudasse a ser um pouco mais aquilo que a esposa esperava dele.
Esse pequeno quadro mostra as duas faces de um mesmo contexto chamado casamento. Um casamento em pedaços. Enquanto um procurava um apoio na realidade para suas fantasias infantis de Cinderela, o outro procurava um apoio para seu profundo medo de estar sozinho no mundo.
Sandra precisou aprender que seu marido não era o príncipe encantado, não lhe levaria aos céus, e que preferia fazer sexo a falar de sexo. E que fugia do sexo porque a Cinderela foi feliz para sempre, mas em nenhum trecho da estória estava escrito que ela teria que deitar-se com o príncipe encantado. Que seu desejo era de um casamento infantil, baseado nas suas brincadeiras casinha. Brincar é bom quando se é criança, mas não quando se é adulto.
E principalmente: teve que aprender a renunciar a suas fantasias em detrimento a realidade – e não adiantava culpar seu marido por isso.
Gustavo teve de aprender a assumir sua condição de ser solitário no mundo, e estava revivendo uma fantasia tão infantil quanto a de sua esposa: a do garoto desamparado que precisa fazer o que mamãe quer para que ela o ame. A ironia desse casamento é que não existem contos de fadas, e ele nunca iria conseguir transformar seu casamento num. Era avassalado pela culpa – de não ser um marido perfeito, de ser infiel, de não se dedicar aos filhos, etc...
Equalizar esses desejos, não permitir que seus respectivos medos e fantasias não transbordasse para a relação foi essencial para salvar o casamento e permitir que eles pudessem desfrutar do que esse casamento poderia trazer de bom. Este não poderia ser um conto de fadas e nem salva-los da solidão do mundo, mas tinha muitas coisas boas.
Por Sueli Kozue Matsuki -
Neste documento está redigido o resumo do texto de Melanie Klein sobre Desenvolvimento de uma criança (1921). Deve ser levado em consideração que a questão temporal do texto se remete à época em que foi escrito bem como o texto está em 1ª pessoa, correspondente à Melanie Klein:
O desenvolvimento de uma criança se divide em duas partes. A primeira demonstra que a educação sem esclarecimentos pode causar a repressão excessiva na mente da criança é a segunda mostra que a mente da criança já possui por si só fortes tendências para a repressão. Ela acredita que a análise de crianças pode evitar e curar a doença mental. No artigo "Desenvolvimento de uma Criança", é defendido que deve ser permitido às crianças, os esclarecimentos de ordem sexual já nós primeiros anos de vida para se evitar doenças a posteriori. Nesse artigo é relatado experiências vividas por Melanie Klein. Em um dos casos, um menino de quatro anos e nove meses tinha várias indagações, tais como: "Onde eu estava antes de nascer?", "Como as pessoas são feitas?" E quando não se satisfazia com a respostas recebidas da mãe, ele procurava outra resposta e em determinado momento até experimentou fazer um troca de pais porque se satisfez mais com a resposta recebido pela "Senhora L" do que com a resposta recebida da própria mãe. Esse fato mostra que a criança usa de fantasias para tentar entender o que ainda não tem conhecimento.
Até o momento do presente estudo, é possível distinguir três períodos no desenvolvimento mental de uma criança, partindo do momento que em que ela conseguiu se expressar fluentemente: o período que antecedeu ao surgimento das perguntas sobre o nascimento, o segundo período, que tem início com essas perguntas e termina com a solução da ideia da divindade; e o terceiro período, que acabara de se iniciar.
No terceiro período, a força da necessidade de fazer perguntas continua forte, porém agora direcionada ao nascimento, mas não somente ao seu, passa a expandir para o nascimento, por exemplo, de animais. A partir da pergunta: "Como as crianças são feitas?", desenvolve-se uma pesquisa sobre a existência em geral.
Posteriormente nasce o Interesse por fezes e urina: fica maravilhado com a "caca" que sai de seu corpo e confirma com sua mãe que ela tem faz isso, porque se ela não fizer, ninguém mais faria, o que configura o complexo de Édipo, ou seja, a mãe é a personificação do ideal do Ego.
A criança passa pela fase do Princípio da realidade. Faz as seguintes descobertas: nem sempre a mãe e o pai tem a mesma opinião e que de vez em quando os pais também fazem coisas erradas.
Há manifestação da necessidade de ter os limites de seus direitos e poderes definidos com clareza.
Ainda assim, suas perguntas e comentários provam diversas vezes que houve apenas uma redução e que ainda se dão lutas entre o senso de realidade embrionário e o seu profundo sentimento de onipotência – ou seja, entre o princípio de realidade e o princípio do prazer – o que frequentemente leva a formações de compromisso.
Nos desejos de Fritz era possível sentir a onipotência, pois expressava o desejo de satisfazer sua vontade naquela hora, não depois. Em alguns momentos ele demonstrava uma certa adaptação às noções de possibilidade e realidade. Porém era possível verificar também atitude de ambivalência, pois apesar de às vezes ficar contente ao constatar que o papai e a mamãe também não sabem alguma coisa, em outras ocasiões este fato lhe causa desagrado e ele tenta modifica-lo através de provas em contrário. Essa ambivalência é explicada pelo fato de o menino colocar a si mesmo no lugar do pai poderoso (que espera ocupar um dia) , identificando-se com ele ao mesmo tempo em que procura se livrar do poder que restringe o seu ego – sem dúvida também é responsável por esse comportamento em relação à onisciência dos pais.
A necessidade premente de adquirir novo conhecimento se desenvolveu precocemente em Fritz, estimulando seu sentido de realidade e o declínio da onipotência.
Fritz tinha também o otimismo altamente desenvolvido, em determinadas situações era maior que a realidade, e assim sempre achava que seus amigos nunca lhe fariam nenhum tipo de mal; porém em determinada situação teve uma grande desilusão que encadeou nele sentimentos agressivos. Contudo, ao arranjar novos amiguinhos ele pareceu ter superado essa história.
Ser honesto com as crianças e responder com franqueza todas as suas perguntas traz uma liberdade interna que influencia o desenvolvimento mental de forma profunda e benéfica. Isso protege o pensamento da tendência à repressão, isto é, do retraimento da energia pulsional responsável por parte da sublimação, que é o principal perigo que o ameaça. Também evita a repressão paralela de associações ideacionais ligadas aos complexos reprimidos, através da qual a sequência do pensamento é destruída.
Ao examinarmos o dano impingido à capacidade intelectual, isolando certas associações do livre intercâmbio do pensamento, creio que é necessário levar em consideração o tipo de dano sofrido: em que dimensão os processos de pensamento foram afetados e até que ponto a direção do pensamento, isto é, sua extensão e profundidade, foi claramente influenciada. O tipo de dano que, neste período de formação do intelecto, e responsável pela aceitação de ideias no consciente ou sua rejeição como algo insuportável tem grande importância, pois este processo se torna um protótipo para o resto da vida. O dano pode ocorrer de tal maneira, que a “penetração mais profunda” e a “quantidade” contida na dimensão da extensão podem estar intrincadas, de certa maneira, uma na outra.
Se a curiosidade natural e o impulso de inquirir sobre fatos e fenômenos desconhecidos ou apenas conjeturados encontram uma resistência externa. Então indagações mais profundas (onde a criança teme inconscientemente se deparar com coisas proibidas e perversas) são igualmente reprimidas. Isso afeta o impulso de investigar a fundo qualquer questão mais complexa, que fica inibido. Estabele-se, então, uma aversão à investigação cuidadosa, o que faz com que o prazer inato e irreprimível de fazer perguntas se ocupe apenas daquilo que se encontra na superfície, levando, assim, a uma curiosidade puramente superficial. Ou, pode-se então, desenvolver o tipo de pessoa dotada que encontramos com muita frequência no nosso dia-a-dia e no campo da ciência que apesar de inteligente e possui grande número de ideias, não consegue levar adiante a questão mais profunda de sua execução. Se a criança conseguiu vencer certo período de inibição no que diz respeito a esse impulso investigativo, fazendo com que ele permanecesse ativo ou retornasse mais tarde, ela pode, tolhida agora por aversão a enfrentar novas questões, direcionar toda a eficiência da energia que lhe resta para os aspectos mais profundos de alguns problemas específicos. É dessa maneira que se desenvolve o tipo de “pesquisador” que atraído por determinado problema, dedica a ele o trabalho de uma vida inteira, sem desenvolver nenhum interesse particular fora da esfera limitada que lhe satisfaz. Um outro tipo de homem culto é o investigador que, possuindo, grande poder de penetração, consegue desenvolver um conhecimento verdadeiro e fazer novas e importantes descobertas, mas é um total fracasso no que diz respeito às grandes e pequenas realidades da vida cotidiana, ou seja, que não possui o menor senso prático. Para explicar esse fato, não basta dizer que ao ficar absorvidos por grandes tarefas, ele deixa de dirigir sua atenção para as pequenas.
O impulso para o conhecimento e o senso de realidade são ameaçados por outro perigo iminente: não um retraimento, mas uma imposição, o inculcamento de ideias prontas, impingidas de tal forma que o conhecimento que a criança tem da realidade não ousa se rebelar e nunca tenta sequer chegar às suas próprias inferências e conclusões sendo afetado de forma definitiva e prejudicial.
Aquele que se desenvolve numa oposição a alguém numa oposição a alguém não é menos dependente do que aquele que se submete de forma incondicional à autoridade; a verdadeira independência intelectual se forma entre estes dois extremos. O conflito que o senso de realidade embrionário tem que travar contra a tendência inata à repressão, o processo através do qual o conhecimento do indivíduo é dolorosamente adquirido (semelhante à maneira como se dão as aquisições da ciência e da cultura na história da humanidade), juntamente com os obstáculos inevitáveis encontrados no mundo externo, tudo isso já é mais do que suficiente para substituir a resistência que deverá agir como estimulo ao desenvolvimento, sem por em risco a sua independência.
Apesar da experiência e o insight adulto terem encontrado a solução para algumas das questões proibidas e aparentemente sem resposta da infância (condenadas, portanto, à repressão), isso não dissolve os obstáculos levantados diante do pensamento infantil, nem faz com que eles percam sua importância. Pois apesar de mais tarde o indivíduo adulto aparentemente conseguir superar as barreiras erguidas diante de seu pensamento infantil, a maneira que se encontra para lidar com suas limitações intelectuais, seja o desafio ou o medo – continua a ser a base que orienta e dá forma ao seu pensamento, e permanece intocada pelo seu conhecimento posterior.
A submissão permanente ao princípio de autoridade, a quantidade de dependência e limitação intelectuais que se tornam indeléveis, estão baseadas neste primeiro e importantíssimo contato com a autoridade, na relação entre os pais e a criança. A sua própria sensação de onipotência faz com que a criança atribua também ao seu próprio ambiente. Assim, a ideia de Deus, que dá a autoridade a mais total onipotência, vai ao encontro do sentimento de onipotência, vai ao encontro do sentimento de onipotência da própria criança, ajudando a estabelecê-lo e dificultando seu declínio. Sabemos que também nesse ponto o complexo dos pais é importante e que a maneira como o sentimento de onipotência é fortalecido ou destruído pela primeira afeição séria da criança determina seu desenvolvimento enquanto um otimista ou um pessimista, assim como a vivacidade e a iniciativa ou o ceticismo paralisante de sua mentalidade. Para que o resultado do desenvolvimento não seja a utopia sem limites nem a fantasia, mas o simples otimismo, é preciso que o pensamento execute em tempo uma correção.
II. ANÁLISE DE CRIANÇA PEQUENAS
O aprendizado decorrente da análise de adultos e crianças pode ser aplicado ao estudo da mente de crianças com menos de seis anos, pois é fato bem conhecido que a análise das neuroses revela traumas e fontes de danos em acontecimentos, impressões ou desenvolvimentos que ocorreram numa idade muito inicial, ou seja, antes dos seis anos.
O objetivo é evitar os fatores que a psicanálise nos ensinou a considerar extremamente danosos à mente das crianças. Nesse ponto, é estabelecida a necessidade incondicional de que a criança, desde o seu nascimento, não compartilhe do quarto dos pais; também teremos menos exigências éticas compulsórias em relação à pequena criatura em desenvolvimento do que as pessoas tiveram conosco. Devemos deixar a criança agir naturalmente para que possamos analisar suas ações.
Aparentemente, apesar de todas as medidas educacionais que visam, entre outras coisas, satisfazer sem reservas a curiosidade sexual, é comum essa necessidade não ser expressa com liberdade. Essa atitude negativa pode tomar as formas mais variadas, até chegar a uma absoluta má vontade em aprender. Algumas vezes, ela se manifesta num interesse deslocado para alguma outra coisa, que apresenta com frequência um caráter compulsivo. Esta atitude sé se estabelece depois de um esclarecimento parcial e neste caso, ao invés do vivido interesse exibido até então, a criança passa a manifestar forte resistência em aceitar novos esclarecimentos e simplesmente os rejeita.
É raro encontrar uma criança que não apresente alguns traços neuróticos. É o desenvolvimento posterior desses traços assim como sua multiplicação, que constitui a doença. Fiquei particularmente espantado com a aversão do menino a ouvir histórias, totalmente oposta ao prazer que demonstrava antes.
Quando comparei o gosto altamente estimulado de fazer investigações, que se seguiu ao esclarecimento parcial e que depois se converteu em ruminações ou indagações superficiais, com a posterior aversão a fazer perguntas e a relutância até de ouvir histórias, e quando, além disso, também me lembrei de algumas perguntas que acabaram se estereotipando, fiquei convencida de que o forte impulso investigativo da criança tinha entrado em conflito com sua igualmente poderosa tendência à repressão.
A partir da tendência geral de suas fantasias e jogos, somada a comentários eventuais, tive a impressão de que parte dos complexos do menino tinham se tornado conscientes ou pelo menos pré-conscientes e julguei que isso era o bastante.
Já haviam se passado dois meses desde que eu começara a lhe fornecer interpretações ocasionais. Nesse ponto, minhas observações foram interrompidas por um intervalo de mais de dois meses. Durante essa época, a ansiedade (medo) ebio à tona, isso já fora pressagiado pela recusa do menino em continuar os jogos de ladrões e índios de que tanto gostava ultimamente, quando estava brincando com outras crianças. A ansiedade que se manifestava agora, portanto, pode ter sido um dos sintomas tornados evidentes pelo progresso da análise. Ela provavelmente também se devia às tentativas de Fritz de reprimir com mais força tudo aquilo que estava se tornando consciente.
Depois desse período de aproximadamente seis semanas em que a observação foi retomada juntamente com a análise (que se concentrou principalmente nos sonhos de ansiedade), a ansiedade desapareceu por completo. A brincadeira e a sociabilidade não deixavam nada a desejar.
Fritz passou por uma fobia de crianças de rua sozinho, pois a análise foi interrompida por causa de uma viagem. Porém, também apresentou, nessa época, uma forte relutância em continuar a análise, além de uma aversão a contar histórias e ouvir contos de fadas (provavelmente como consequência dessa tentativa de se curar sozinho – ele me garantiu com orgulho que agora não tinha medo de nada!). A presença de uma resistência tão ativa à análise e a relutância de ouvir contos de fada me parecem o bastante para prever que sua educação provavelmente oferecerá outras ocasiões para a tomada de medidas psicanalíticas de vez em quando.
Os danos e as inibições que afetam o desenvolvimento de uma criança são inumeráveis, sem falar nos indivíduos que mais tarde tornam-se vítimas da neurose.
Ainda que reconheçamos a necessidade de introduzir a psicanálise na educação da criança, isso não significa deixar de lado princípios educacionais que até agora se mostraram eficientes e são aprovados de forma geral.
Pude ainda aprender outra coisa com esse caso: as vantagens, ou mesmo, a necessidade de introduzir a análise bem cedo na educação, a fim de preparar relação com o inconsciente da criança assim que for possível entrar em contato com seu consciente. Assim, é provável que se possa remover facilmente as inibições ou traços neuróticos logo que eles começam a se desenvolver. Não há dúvida de que uma criança normal de três anos e provavelmente crianças ainda mais novas, que muitas vezes demonstram interesses tão vividos, já tem a capacidade intelectual para compreender as explicações que lhe são dadas tão bem quanto qualquer outra coisa.
Freud afirma que “não é possível traçar uma linha bem definida entre pessoas neuróticas e normais – quer se trate de crianças ou adultos – que a nossa concepção de doença é exclusivamente prática e uma questão de acumulação, que é preciso que a predisposição e as eventualidades da vida se combinem para que os limites dessa acumulação sejam ultrapassados e que, como consequência, vários indivíduos passam constantemente da classe das pessoas saudáveis para a dos pacientes neuróticos”. Para Freud toda neurose do adulto é calcada em uma neurose que ocorreu na sua infância, mas não foi severa o bastante para chamar atenção e ser reconhecida como tal.
O medo latente da criança, que depende da repressão, é mais fácil de ser explicado com sua ajuda e pode ser tratado de forma mais cuidadosa através da analise.
Por Ale Esclapes -
Para Winnicott (1979/1983), cada ser humano traz um potencial inato para amadurecer, para se integrar; porém, o fato de essa tendência ser inata não garante que ela realmente vá ocorrer. Isto dependerá de um ambiente facilitador que forneça cuidados suficientemente bons, sendo que, no início, esse ambiente é representado pela mãe.
É importante ressaltar que esses cuidados dependem da necessidade de cada criança, pois cada ser humano responderá ao ambiente de forma própria, apresentando, a cada momento, condições, potencialidades e dificuldades diferentes.
Assim, podemos pensar que, se amadurecer significa alcançar o desenvolvimento do que é potencialmente intrínseco, possíveis dificuldades da mãe em olhar para o filho como diferente dela, com capacidade de alcançar certa autonomia, podem tornar o ambiente não suficientemente bom para aquela criança amadurecer. Não basta, apenas, que a mãe olhe para o seu filho com o intuito de realizar atividade mecânicas que supram as necessidades dele; é necessário que ela perceba como fazer para satisfazê-lo e possa reconhecê-lo em suas particularidades.
Num artigo intitulado “A mãe dedicada comum”, escrito em 1966 e publicado numa coletânea de conferências e palestras radiofônicas, Winnicott descreveu um estado psicológico especial, um modo típico que acomete as mulheres gestantes no final da gestação e nas semanas que sucedem o parto. Nessa palestra, o autor relata como, em 1949, surgiu quase que por acaso a expressão "mãe dedicada comum", que serviu para designar a mãe capaz de vivenciar esse estado, voltando-se naturalmente para as tarefas da maternidade, temporariamente alienada de outras funções, sociais e profissionais.
Trata-se, pois, de uma condição psicológica muito especial, de sensibilidade aumentada, que Winnicott chega a comparar a uma doença, uma dissociação, um estado esquizoide, que, no entanto, é considerado normal durante esse período.
Winnicott afirma que, na base do complexo de sensações e sentimentos peculiares dessa fase, está um movimento regressivo da mãe na direção de suas próprias experiências enquanto bebe e das memórias acumuladas ao longo da vida, concernentes ao cuidado e proteção de crianças.
Tão gradualmente como se instala, em condições normais, o estado de “preocupação materna primária” deve dissipar-se. Essas condições incluem a saúde física do bebe e da mãe, após um parto não traumático, uma amamentação tranquila e pouca interferência de elementos estressantes.
Após algumas semanas de intensa adaptação às necessidades do recém–nascido, este sinaliza que seu amadurecimento já o torna apto a suportar as falhas maternas. A mãe suficientemente boa deve compreender esse movimento do bebe rumo à dependência relativa e a ele corresponder, permitindo-se falhas que abrirão espaço ao desenvolvimento.
De fato, na obra de Winnicott (1979/1983; 1988/2002) encontramos que a capacidade das mães em dedicar a seus filhos toda a atenção de que precisam, atendendo suas necessidades de alimentação, higiene, acalento ou no simples contato sem atividades, cria condições para a manifestação do sentimento de unidade entre duas pessoas. Da relação saudável que ocorre entre a mãe e o bebe, emergem os fundamentos da constituição da pessoa e do desenvolvimento emocional afetivo da criança.
A capacidade da mãe em se identificar com seu filho permite-lhe satisfazer a função sintetizada por Winnicott na expressão holding. Ela é a base para o que gradativamente se transforma em um ser que experimenta a si mesmo. A função do holding em termos psicológicos é fornecer apoio egóico, em particular na fase de dependência absoluta antes do aparecimento da integração do ego. O holding inclui principalmente o segurar fisicamente o bebe, que é uma forma de amar; contudo, também se amplia a ponto de incluir a provisão ambiental total anterior ao conceito de viver com, isto é, da emergência do bebe como uma pessoa separada que se relaciona com outras pessoas separadas dele.
Winnicott (1979/1983) também coloca que a mãe, ao tocar seu bebé, manipulá-lo, aconchegá-lo, falar com ele, acaba promovendo um arranjo entre soma (o organismo considerado fisicamente) e psique e, principalmente ao olhá-lo, ela se oferece como espelho no qual o bebé pode se ver.
Na visão winnicottiana, já nos primórdios da existência, é fundamental para a constituição do self o modo como a mãe coloca o bebe no colo e o carrega; dá-se, assim, a continuidade entre o inato, a realidade psíquica e um esquema corporal pessoal.O holding é necessário desde a dependência absoluta até a autonomia do bebe, ou seja, quando os espaços psíquicos entre este e sua mãe já estão perfeitamente distintos.
Winnicott (1976/1983), visando mostrar a pais leigos a importância do que eles faziam naturalmente, traz uma descrição mais concreta do que está envolvido no holding:
Protege da agressão fisiológica, leva em conta a sensibilidade cutânea do lactente – tacto, temperatura, sensibilidade auditiva, sensibilidade visual, sensibilidade à queda (ação da gravidade) e a falta de conhecimento do lactente da existência de qualquer coisa que não seja ele mesmo. Inclui a rotina completa do cuidado dia e noite, e não é o mesmo que com dois lactentes, porque é parte do lactente, e dois lactentes nunca são iguais. Segue também as mudanças instantâneas do dia-a-dia que fazem parte do crescimento e do desenvolvimento do lactente, tanto físico como psicológico (Winnicott, 1979/1983, p.48).
Em sua teoria, conforme colocado anteriormente, afirma que o “estado de preocupação materna primária” implica em uma regressão parcial por parte da mãe, a fim de identificar-se com o bebe e, assim, saber do que ele precisa, mas, ao mesmo tempo, ela mantém o seu lugar de adulta. É, ainda, um estado temporário, pois o bebe naturalmente passará da “dependência absoluta” para a “dependência relativa”, o que é essencial para o seu amadurecimento.
A dependência absoluta refere-se ao fato de o bebe depender inteiramente da mãe para ser e para realizar sua tendência inata à integração em uma unidade. À medida que a integração torna-se mais consistente, o amadurecimento exige que, vagarosamente, algo do mundo externo se misture à área de onipotência do bebe. Ser capaz de adotar um objeto transicional já anuncia que esse processo está em curso e, a partir daí, algumas mudanças se insinuam. O bebe está passando para a dependência relativa e pode se tornar consciente da necessidade dos detalhes do cuidado maternal e relacioná-los, numa dimensão crescente, a impulsos pessoais.
No início da passagem da dependência absoluta para a dependência relativa, os objetos transicionais exercem a indispensável função de amparo, por substituírem a mãe que se desadapta e desilude o bebé. A transicionalidade marca o início da desmistura, da quebra da unidade mãe-bebê.
Na progressão da dependência absoluta até a relativa, Winnicott (1988/2002) definiu três realizações principais:
• Integração,
• Personificação e
• Início das relações objetais.
É nesse período de dependência relativa que o bebe vive estados de integração e não integração, forma conceitos de eu e não – eu, mundo externo e interno, estágio de concernimento, podendo então seguir em seu amadurecimento, no que o autor denomina independência relativa ou rumo à independência. Aqui, o bebe desenvolve meios para poder prescindir do cuidado maternal. Isto é conseguido mediante a acumulação de memórias de maternagem, da projeção de necessidades pessoais e da introjeção dos detalhes do cuidado maternal, com o desenvolvimento da confiança no ambiente.
É importante ressaltar que, segundo Winnicott, a independência nunca é absoluta. O indivíduo sadio não se torna isolado, mas se relaciona com o ambiente de tal modo que pode se dizer que ambos se tornam interdependentes.
Por Sérgio Rossoni -
"Desvio em relação ao ato sexual “normal”, definido este como coito que visa a obtenção do orgasmo por penetração genital, com uma pessoa de sexo oposto.Diz-se que existe perversão quando o orgasmo é obtido com outros objetos sexuais (homossexualidade, pedofilia, bestialidade, etc.)
... ou por outras zonas corporais (coito anal, por exemplo) e quando o orgasmo é subordinado de forma imperiosa a certas condições extrínsecas (fetichismo, travestismo, voyeurismo e exibicionismo, sadomasoquismo); estas podem mesmo proporcionar, por si só, o prazer sexual.” (Laplanche e Pontalis – Dicionário de Psicanálise – Perversão – pag. 341).
A definição acima condiz com a teoria Freudiana, que coloca a perversão em relação à libido sexual. Freud denomina que toda criança é perversa polimorfa, ou seja, obtém prazer de outras formas que não sejam através do pênis e vagina. Assim, para Freud, tudo que se relacionasse com o prazer libidinal, põem sem obter tal prazer à partir do contato pênis com vagina, seria considerado perversão. Neste sentido, podemos entender a perversão como uma bagunça com o lavo sexual.
O fetichismo está ligado à perversão. Existe neste caso uma negação à castração (negação = está lá, mas o sujeito nega-se a ver). A phantasia da mulher com pênis simboliza dentro deste contexto esta negação. Ainda neste exemplo, o travesti representa esta phantasia de negação à castração.
Através de um deslocamento, o desejo pelo pênis passa para alguma outra parte do corpo do ser, ganhando este um contexto libidinal. Exemplo: O homem que possui satisfação sexual pelo pé da mulher. Este obtém seu prazer libidinal à partir deste contato com esta parte do corpo, que passa a simbolizar o pênis imaginário da mulher. Assim, o lugar onde este pênis imaginário foi parar (pé, mão, cabelo, etc.), entende-se por fetiche.
Porém, no fetichismo existe a presença de algo que está faltando: o pênis imaginário. Sobra a castração.No masoquismo, Freud entende como a pulsão de morte que volta para si mesmo. Enquanto o sadismo representa a parte ativa desta pulsão, o masoquismo corresponderia a parte passiva. Como nem o sadismo, nem o masoquismo está a serviço da reprodução, são inclusos na categoria da perversão.
A castração representa a aceitação de limites. A criminalidade é outro aspecto da perversão, uma vez não existindo limites em vários graus. A lei torna-se o limite. Negar a castração é negar a existência de limites.
A ausência de culpa, característica do perverso, denuncia a ausência de um superego ativo. Não existe a castração. Não se alcança a posição depressiva. O perverso irá procurar prazer usando o outro, sem importar-se com as consequências para o outro.
Até aqui, examinamos a perversão sob a ótica libidinal freudiana. D.W. Winnicott, apresenta a perversão sob outro ângulo, concluindo que perversão seria tudo aquilo que dá prazer, porém não é real.
Neste ponto, o objeto transicional (o cobertor azul que representa para o bebê a mãe, mas ao mesmo tempo não é a mãe), é tido como perversão. Algo que está entre a phantasia e a realidade. Não contêm o conteúdo real. O travesti seria o objeto transicional entre a phantasia dos pais combinados (porém, este contém o conceito libidinal).
No uso do objeto, para que a criança se satisfaça, é necessário exaurir o outro: mãe. O bebê suga o seio da mãe para que assim obtenha seu prazer. Existe ai um processo sádico, onde o prazer do bebê terá um custo: o prazer do outro. A mãe deverá sobreviver aos ataques do filho, para que mais tarde, este se sinta responsável pelo seio, alcançando a posição depressiva.Assim, Winnicott defende a teoria de que existe um estágio no desenvolvimento do ser, onde o prazer de um custo o prazer do outro.
Para Winnicott, perversão seria tudo aquilo que dá prazer, porém sem ser real. A criatividade seria uma forma de perversão, assim como o objeto transicional. Um objeto ressignificado, por exemplo, o cobertor azul que se torna a mãe, é algo perverso.Assim, Winnicott apresenta um conceito de perversão mais adocicado, suave, tirando o foco do conceito libidinal e denso, e ampliando um olhar sobre a perversão a partir de um conceito mais dócil, criativo e leve.
A perversão mata como verdade para nascer como aparência.
Uma das formas de evacuar a neurose é a perversão. Enquanto o neurótico cria critérios para dar conta de sua pulsão de morte, perseguido por um severo superego que exige que o ego busque o ideal, o perverso obedece aos instintos, livre de um superego castrador.Assim, a perversão é o sonho do neurótico, que poderia então de forma livre, expor seus impulsos agressivos.
Outra abordagem sobre a perversão, é o conceito de John Steiner que diz: Perversão é quando eu finjo não ver algo, pois tenho interesse em negá-lo. Por interesses próprios, eu transformo uma mentira em verdade. O período em que eu não quero enxergar a verdade, é uma perversão.O neurótico utiliza o discurso do perverso.
Para Meltzer, a perversão é a parte narcísica (má) da personalidade, que domina a parte boa. A grande questão que Meltzer coloca é em relação à tomada da personalidade por esta parte narcísica má. Como se deu este processo? Podemos encontrar a resposta para esta questão na palavra sedução! A parte narcísica má seduz a parte boa, com promessas de plenitude, apresentando mentiras como verdades. Após o período de sedução, uma vez tomando conta da personalidade boa, a parte má passa a ditar regras, mandar e desmandar, tornando-se a parte boa subordinada à parte má severa.A perversão é um problema clínico. Não é sexual.
Problemas como adição (uso de drogas) é a última instancia para tomar conta da pulsão de morte. A destruição do próprio ser, disfarçada de algo bom.
A busca pela plenitude, pelo ideal, ganha na mente sua defesa mais poderosa criando maneiras diversas para que se atinja tal busca. Criando mentiras, ilusões, phantasias, critérios para preservar seu objeto bom, ou ainda criando maneiras de destruir seu objeto, a mente trabalha arduamente com o propósito de conduzir o ser ao mundo ilusório do prazer.
Desta forma, o ser vive a maior parte de seu tempo maquinando maneiras para acreditar em uma promessa. A mente está neste caso, a favor da promessa de uma ilusão, debatendo-se todo o tempo contra o desprazer do real.
Nesta guerra, em alguns momentos o ser é mais neurótico, em outros momentos, mais psicótico ou mais perverso, utilizando o mecanismo que melhor der conta contra o desprazer.
O movimento de perversão pode ser entendido pelo fato de que, neste caso, o amor (prazer libidinal), destrói o outro. Como na perversão a ausência da culpa prevalece, o perverso vai procurar obter prazer libidinal, sem importar-se com o bem estar do outro. No caso da pedofilia, por exemplo, o prazer libidinal destrói a criança.
No inicio do desenvolvimento do bebê, o mundo é dividido entre objetos bons e maus, o que Melanie Klein denominou de posição esquizoparanóide, passando posteriormente para um novo estádio onde o bebê passa então a perceber o objeto bom e mau como único. Tal estádio, Melanie Klein denominou de posição depressiva, onde surgem os sentimentos de culpa e reparação ao objeto anteriormente danificado. No entanto, antes de alcançar a posição depressiva, o bebê passa por um estádio que podemos entender como “posição perversa”. Para exemplificar a “posição perversa”, entendemos que o bebê ao mamar, procura satisfazer sua necessidade de alimento, bem como sua necessidade libidinal. Após satisfazer-se, o bebê vai procurar mamar até que o seio seja exaurido, buscando o seu prazer libidinal. Neste ponto, o bem estar do outro (seio), não importa ao bebê, podendo este até mesmo ser destruído para que suas satisfação seja alcançada. Assim, o amor libidinal pode destruir o seio, sendo assim a característica da perversão. Quando existe o fator libidinal, utilizando o outro como mero instrumento para se obter o desejo, instala-se a perversão. Desta posição perversa até a posição depressiva, o bebê deve assumir a responsabilidade pelos seus atos, ou seja, a responsabilidade por destruir o seio. Logo, a posição depressiva onde tais sentimentos de culpa e reparação surgem, pode ser entendido como um estado mental onde se vê o outro como ser, assumindo a culpa pelos ataques antes desferidos ao ser amado.
Na perversão, este estado não existe, ou seja, o perverso enxerga o outro somente como um objeto cujo objetivo é ser uma ferramenta para sua obtenção do prazer. Após atingir tal prazer, o perverso vai descartar seu objeto agora sem mais utilidade.Na perversão, a phantasia é vivida na realidade. Um mundo é criado. Uma gaiola dourada, cuja presa é o próprio perverso, que fica a mercê de suas presas, como um vampiro à espreita de sua caça, com um desejo que nunca se esgota.
Por Ale Esclapes -
Iniciei há algum tempo uma leitura mais aprofundada de Lacan e aqueles que seguem seu ensino (como alguns gostam de serem designados). É muito interessante a diferença entre as formas de escrita nas diversas escolas de psicanálise.
S. Freud sempre me impressionou como escritor. Possuía um domínio da língua, tinha um estilo ao mesmo tempo que acadêmico, bastante coloquial. Um verniz positivista contrasta com a radicalidade de suas descobertas. Freud geralmente não se referia a outros, mas a psicanálise. Quando se referia a outros, geralmente era para descordar não que fosse regra, mas uma norma.
Melanie Klein era na melhor das hipóteses uma escritora ruim, com textos árduos e exigentes em relação a Freud. Como investigou a fundo a questão da fantasia, que por si só aponta para uma dificuldade de simbolizar-se, algumas vezes seus textos parecem herméticos. Mas é interessante notar que a Klein do início não é a do fim. Se no início era necessário se colocar como filha de Freud, suas obras da década de 50 mostram um escrito muito mais segura de si. Seus seguidores mantém o estilo de escrita desde a década de 50, mas com um ar muito mais leve. Se em Freud a teorização era algo muito importante, para os kleinianos o caso clínico, a experiência analítica, ganha um primeiro plano.
D. Winnicott foi fiel à sua própria teoria – um escritor simples, de palavras cotidianas, não preocupado com seus antecessores mas com seus pares. Exerceu aquilo que denominou de gesto criativo em relação a psicanálise. Seus textos são frescos, vívidos, cheios de esperança – muito diferente do Freud depois de 1924.
Agora vem uma escrita que venho descobrindo – a lacaniana. Me parece que essa escrita emerge de uma estrutura deixada pelo próprio Lacan. Precisa conter o nome-do-pai, razão que não passa uma única página sem citar Freud. Pela teoria lacaniana, se isso não ocorresse seria uma foraclusão. Será que é essa a insistência em se dizer seguidor do ensino de Lacan? Para marcar uma posição estruturante pelo menos neurótica? De qualquer forma me parece a escrita mais determinista dentre todas – não se escapa de suas estruturas. Esse é um legado de quem namorou por muito tempo o estruturalismo – a repetição.
Por Sérgio Rossoni -
“As pessoas e as coisas não nos perturbam, nós é que perturbamos a nós mesmos acreditando que elas possam nos perturbar”. (Albert Ellis – fundador da Terapia Emotiva Racional)“Não existe nada bom ou ruim, o pensamento é que torna as coisas assim”. (Shakespeare)
“Nós nos tornamos aquilo em que pensamos o dia inteiro”. (Ralph Waldo Emerson - escritor, filósofo e poeta estadunidense)
“As pessoas são tão felizes quanto suas mentes acreditam que são” (Abraham Lincoln)
Estas frases de ilustres pensadores refletem com bastante clareza a minha ideia daquilo que venho escrevendo sobre o pensamento, e de como somos responsáveis a partir dele, por tudo em nossas vidas.
Uma frase muito interessante dita por Alfred Bion, psicanalista britânico pioneiro em dinâmica de grupo, mostra como o pensar exerce papel primordial em nosso mundo externo, colocando a mente como o maior inimigo do homem.
Quando colocado desta forma, parece um horror. Como assim? A mente é nossa pior inimiga?
Quando regada por formas pensamento que acabamos nutrindo muitas vezes do coletivo externo, ou de nossas introjeções, sim. Por isso tenho escrito muito sobre o tipo de pensamento que nutrimos de forma incondicional, sem levar em conta os resultados práticos no corpo e nas ações externas.
Nutrimos uma série de ideias que vivem impregnadas em nossa mente feito amebas – formas pensamento criadas a partir da crendice externa e interna, e que ditam todo o tempo o que fazer ou não de forma bastante crítica. O superego freudiano poderia ser comparado a elas, formando internamente regras e condutas que de certa maneira, equilibrada através de uma exausta negociação entre Ego e Id, nos fazem permanecer nos trilhos do equilíbrio (na medida do possível).
Contudo, sendo o pensamento uma forma material (pois molda a matéria ao nosso redor), cabe examinarmos agora algo de grande importância – a qualidade.
Isso mesmo.
É na qualidade de formas absorvidas que determinados a criação de uma série de pensamentos obsessivos, agressivos, temerosos e repletos de defesas gerando regras infinitas de conduta, postura, anulando muitas vezes por completo a força de expressão do nosso espírito, ego, alma, etc.
Formas pensamentos podem ser frutos de uma herança filogenética, somada a visão pessoal e introjeção do mundo externo – poderia até mesmo citar aqui Melanie Klein em relação à introjeção de objetos maus – tornando nossa vida um verdadeiro inferno.
Vivemos em conferência com estas formas muitas vezes captadas do coletivo, e que no fundo, nem mesmo representam nossa essência interna.
O medo, a negatividade, a agressividade, acabam por gerar crostas mentais onde nos tornamos intolerantes com a vida, negativos, cansativos e imensamente chatos para nós mesmos.
Se fizer sol é ruim; se chove também; Se ganhou algum dinheiro inesperado, é melhor escondê-lo antes que apareça aquele parente interesseiro; Se não ganhou dinheiro nenhum, é porque dinheiro não dá em arvore; A vida é uma luta; Desconfie de todos...
Enfim, uma série de ideias que estão todo o tempo criticando não apenas o externo, mas bombardeando e anulando você mesmo.
Lembrando que, pensamento é forma, nos tornamos aquilo que pensamos, ou seja, podemos com o tempo nos tornar uma grande e irritante ameba.
Mas como fazer com estas formas pensamento que não param de agir tentando controlar tudo e todos?
A resposta é: Nada!
Isso mesmo, nada.
Cada vez que eu reajo a elas, mais e mais entro em conflito alimentando-as de certa maneira.
Entender que o mundo e as pessoas não estão aqui para me servir, e que determinadas situações fogem ao meu controle, já é uma boa maneira de agir transformando a qualidade do pensar.
Quando não reagimos ao briguento, ele acaba desistindo e vai embora.
Formas pensamento são parecidas. Na medida em que eu as escuto, convicto de que tal pensamento é apenas fruto de uma série de ideias negativas e que não necessariamente representam a minha realidade, elas começam a perder a força dando lugar a novas ideias permeadas na realidade de fato, e não em idealizações fruto de nossas crendices fantasiosas.
Note que eu não estou dizendo como devemos ser otimistas ou pessimistas. Só estou dizendo como é possível alterar nossa ótica das coisas a partir de uma análise interna, começando pelo que de fato acreditamos.
Prestar atenção se determinado pensamento, regra, é mesmo seu, ou é apenas fruto de algo coletivo? Essas crenças são minhas ou dos meus antigos familiares?
Olhar e analisar se aquilo que permeia nossas ideias são frutos da nossa condição interna ou não.
Avaliar a qualidade destas ideias, regras, e como elas atuam em nossas vidas – positiva negativa...
Por fim, não reagir a crítica interna, observando se aquilo realmente faz sentido – observando o quanto estas amebas nos impõe regras e mais regras minando a facilidade do viver, preferindo consolidar a ideia de que a vida é duraaaaaa – daí um consolo para nossa crise interior, aceitando esta ideia como verdade absoluta.
A vida não é dura – é você quem determina isso como verdadeiro para você mesmo. Acho que já disse isso antes.
Trabalhe seus pensamentos visando mais saúde, psíquica e física.
Diante daquele problema que parece não ter solução, escute as imposições das suas amebas, mas sem reagira elas, compreendendo que são frutos do próprio medo e da falta de confiança nos processos da vida.
É incrível como com o tempo e exercício, essas vozes vão se calando, as imposições vão se dissolvendo, e as soluções para problemas imensos vão surgindo quando assumimos nossa impotência diante deles, deixando que a vida atue sem a interferência das nossas amebas que sempre travam tudo.
Repare na sua vida. Eu tenho a certeza de que agora você se lembrou de uma série de acontecimentos onde, quanto mais você metia a mão, mais a coisa toda travava.
Pensar é um grande exercício. Não paramos para avaliar isso. Introjetamos tudo ao nosso redor e seja o que Deus quiser.
Se não puder agir sozinho, busque ajuda, mas pare agora de escutar suas amebas.Até.
Convidado: Me. Cristiano José - Filósofo - Me. Educação- FEUSP. Professor de Filosofia, Sociologia e História.
Data/horário: 05/02/2024 (quarta-feira) 20:00hs
Investimento: Evento online, gratuito e realizado por videoconferência. Necessária a inscrição prévia, número de vagas limitadas.
Organização: Grupo Ateliê de Ideias - Maria Foster, Fernanda Hisaba, Juliana Rocha, Sueli Matsuki e Tatiana Costa.
Haverá emissão de certificados de participação: Ao final do evento será disponibilizado um link para um formulário de pesquisa de satisfação e emissão de certificado válido somente para o dia do evento.
_______________________________Dúvidas: Tel.: (11) 3628-1262; WhatsApp (11) 9 9876 9939 ou Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Atenciosamente, Equipe EPP.
Por Ale Esclapes -
Hoje, dia cinzento e frio em sampa, decidi por escrever artigos. Parece que escrever artigos é coisa de gente preguiçosa, mas a escrita exige uma certa reclusão que um dia assim proporciona. A partir daí tive a ideia de escrever sobre o programa Café Filosófico (atenção nobre leitor, pois isso é muito perigoso, pois quem tem ideias são os idiotas, mas se quiser seguir em frente, é por sua conta e risco).
Lembro de um dia que se falava sobre os limites na criação de nossos filhos, figuras paternas, complexo de Édipo e todo o arcabouço psicanalítico para a questão. Despois que o orador discorreu por uma hora sobre o tema, dando um cenário quase que fatídico, meio deprimente até sobre as novas gerações, a falta do limite, a psicose, etc... veio a parte de perguntas. A primeira pergunta foi: “o que fazer?” Bingo!
O apresentador, meio constrangido não respondeu. Divagou que isso passava pelo poder público, pela estrutura da família, etc... e não respondeu, em sequer deu uma luz sobre o assunto. Se o “gosto amargo de fel” estava na boca depois de uma oratória que só faltou falar do apocalipse causado pela falta de limites na sociedade, a coisa ficou pior.
Essa situação ficou maturando na minha cabeça por quase um ano, até que pudesse formar uma opinião (provisória, claro) sobre a situação. Daí algumas reflexões:
1) O discurso psicanalítico corre sempre um sério risco de escorregar para uma ideologia. A ideologia que temos, ou nossos pacientes têm de chegar na posição genital, ou na depressiva, ou pós depressiva, ou maturar (até parece que self é fruta), se deparar com o vazio (sem a esperança de Winnicott – Deus me livre), e por aí vai.
2) Quando esse discurso escorrega para a ideologia, somente cabe uma pergunta do tipo: “o que fazer?”, pois imediatamente surge o desejo de se realinhar com a ideologia, como se fossemos menores (não precisa muito para um neurótico se sentir menor) e precisássemos de uma “cura ideológica”.
3) “Explicação só é boa para quem explica!” Assim dizia o avô do Armando Colognese. De que adianta explicar alguma coisa? Ou melhor, do que adianta explicar algo que não tem solução? Essa frase teve um profundo impacto em mim, na minha forma de clinicar, e na minha forma de escrever. Explicar algo cujo resultado tenha como sobra um sentimento de culpa ou vergonha, não serve para nada. Se servir como um Lexotan então, piorou.
Diante de tudo isso proponho a reflexão sobre os limites do discurso psicanalítico. A sociedade está ávida por um discurso ideológico que evite as culpas e responsabilidades por suas ações (isso é do humano, logo não tem conserto, logo gostaria que isso não fosse levado para o lado ideológico), mas cabe aos psicanalistas tomarem cuidado para que a psicanálise, suas propostas e suas teorias não se tornem ideologia de massa. Freud já deve ter nos alertados sobre isso em algum lugar, ou vários, mas deixo ao leitor o deleite de descobrir isso.