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Notação, atenção e interpretação

Por Alê Esclapes -  A partir de três trabalhos de Freud (Projeto para uma psicologia cientifica, A interpretação dos sonhos, e Dois princípios do funcionamento mental), Bion explora os conceitos de notação e atenção. A notação seria uma palavra mais ligada a armazenamento de informações. Não gostaria nesse artigo de discutir as particularidades desse processo, mas gostaria de deixar claro o aspecto de armazenamento de uma informação que é possível a partir da percepção. Já a atenção é um ato intencional que visa utilizar o aparelho de percepção a fim de buscar algo. Esse algo pode se relacionar tanto ao mundo interno quanto ao mundo externo. Existe, portanto nesse movimento da atenção uma intenção, um desejo. É importante essa distinção, pois a notação, por si só não é fruto de um desejo, conquanto a atenção sempre o é. Aqui reside o fundamento de um importante artigo de Bion sobre memória e desejo. A memória é a atenção voltada as notações do passado, ou em outras palavras, a memória é fruto do desejo. Observe-se aqui que memória não tem uma função de arquivo, mas dinâmica. A partir desse posicionamento Bion coloca uma questão ética: pode o desejo do analista influir na análise? Cabe no enquadre aparecer outro desejo que não o do analisando? Daí a sua famosa indicação aos analistas: conduzir um tratamento sem desejo e sem memória. Memória aqui é o passado do desejo, ou em uma outra interpretação, nascem do mesmo impulso. Então, em que deveria residir a interpretação do analista? Em sua atenção? Em sua memória? Bion toma uma posição radical em relação ao tema: a interpretação deve residir sobre a notação, e não sobre a atenção ou memória. Inclui-se na memória toda a teoria que o analista dispõe sobre psicanálise, sendo que esta deve acontecer a cada sessão. Uma determinada teoria serve para explicar um determinado caso, uma determinada sessão, mas depois deve ser esquecida. Qualquer interpretação que contenha elementos teóricas, uma construção, esta contaminada com os desejos e a memória do analista. O linguajar comum, deve ter elementos suficientes para que se elabore uma interpretação baseada no que se nota no enquadre. Apesar de simples, essa questão da ética bioniana é um dos aspectos mais difíceis de sua técnica, uma vez que o analista precisa mais do que nunca estar focado no aqui e agora, imediato e mediato que ocorre entre analista e analisando, pois somente isso pode servir como elementos para notação. Exige-se uma presença do analista ao mesmo tempo que todo seu aparelho perceptual, incluindo-se aqui sua intuição, devem estar aberto para serem impressionados pelo analisando. Uma interpretação que não seja baseado nisso, não tem para Bion, valor terapêutico.

Sexualidade: um breve ensaio

Por Marcelo Moya -  E também aqui "há trabalho suficiente para se fazer nos próximos cem anos – nos quais nossa civilização terá que aprender a conviver com as reivindicações de nossa sexualidade" S. Freud. O que a sexualidade teria a ver com cada um de nós? Como lidar com este tema que há séculos se arrasta cercado de contradições, encantos, desencantos e até de mistérios? O que sabemos e o que ainda podemos aprender sobre isso? Qual o lugar da sexualidade neste mundo contemporâneo de múltiplas faces? Ainda é um tabu ou porventura teria assumido dimensões perversas na civilização? O tema da sexualidade, mesmo com os avanços acerca de seu debate na sociedade moderna e dos resultados até agora alcançados principalmente em relação à sexualidade feminina e a homossexualidade, contudo, ainda se mantém paradoxal seja por sua amplitude, por sua abrangência ou por sua complexidade. Mas afinal, o que é sexualidade? O termo, que muitas vezes é confundido com o sexo propriamente dito ou limitado à genitalidade, é bastante amplo e com inúmeros fatores implícitos e subjetivos tais como o afeto, o contato, o gesto, os sentimentos, o desejo e o amor. Distante de uma definição absoluta, num senso comum podemos considerar a sexualidade como um conjunto de aspectos fisiológicos e simbólicos, de natureza orgânica e psíquica de uma pessoa. Tão cerceada pela ética ou pela moralidade, polêmica ou como objeto de investigação, a sexualidade é um assunto que sempre despertou interesse, haja vista que ela se encontra presente em todas as fases da vida, e sua influência abrange o ser humano como um todo desde o seu nascimento até a morte. Retratadas pelas mais variadas formas de expressão dos sentimentos humanos como por exemplo as artes e os relacionamentos interpessoais, o assunto da sexualidade ocupa na contemporaneidade um lugar de destaque, e sua relevância vem de encontro às permanentes lacunas da sociedade atual. Debruçar-se no estudo da sexualidade requer uma longa jornada, mas os primeiros passos dependem significativamente de pelo menos três fatores essenciais, a saber, compreender o lugar da sexualidade na história da civilização, passando por Freud com suas novas configurações sobre o tema e lançar um olhar atento e crítico para as grandes demandas de nosso mundo contemporâneo. “Sem pecado, nada de sexualidade, e sem sexualidade, nada de História.”. Esta afirmação do filósofo e teólogo dinamarquês, Sören Kierkegaard (1813- 1855) justifica que a história da civilização está amplamente associada às vivências e expressões sexuais da espécie humana e associadas a fatores culturais, sociais, econômicos, éticos, morais e religiosos dentro de um contexto histórico. A sexualidade é construída historicamente desde as formas mais primitivas de vida, e foi evoluindo nos períodos posteriores da humanidade sustentando a obtenção de prazer e formação de modelos sociais como casamento e família, tendo principalmente na arte, um acervo documental de seu desenvolvimento. O filósofo e historiador Michel Foucault (1926-1984) justifica que a sexualidade é um dispositivo histórico como uma forma de experiência dinâmica dentro de uma cultura permeada de saberes, normas e subjetividades cujo objetivo é a expressão e experimentação do prazer. No entanto, foi na modernidade que a sexualidade assume novos traços na individualidade e subjetividade do sujeito. Ele também vai afirmar que a sexualidade não é o sexo e sim é um modo de ser que se incorpora a um corpo mediante as práticas dentro de uma realidade histórica, e que é ela é também resultado do sentido e do valor de cada um, de sua conduta, da série de deveres que adota, dos prazeres que conhece ou aos quais aspira, seus sentimentos, seus sonhos. Falar da sexualidade implicaria supor que,  ela assume, nas suas manifestações, formas historicamente singulares. Mas ao falar sobre sexualidade, torna-se imprescindível um percurso por Freud, sem o qual não seria possível ampliar horizontes e superar paradigmas herdados da própria história, pois foi a partir de Freud em seus estudos sobre o funcionamento das neuroses a  descoberta de que os desejos reprimidos estariam ligados a conflitos de natureza sexual dos primeiros anos de vida, e que isto seria determinante na estruturação da nossa personalidade, colocando definitivamente o tema da sexualidade no centro das principais discussões do psiquismo. Em sua obra Os Três Ensaios da Sexualidade (1905), Freud se lança a um minucioso estudo sobre os fatores sexuais ligados à etiologia das neuroses, abordando temas como a homossexualidade sob o ponto de vista da inversão sexual, bissexualidade, perversões, libido, sadismo, masoquismo, entre outros, considerando que os sintomas neuróticos surgem a partir de pulsões sexuais, chegando finalmente ao estudo da sexualidade infantil e suas respectivas fases libidinais, o que lhe custou, inclusive, um alto preço de seu prestígio até então. Em Complexo de Édipo e Castração, questões como o corpo, o desejo, as fantasias e o prazer se instalam no centro das discussões de Freud acerca sexualidade, sendo que é na criança edipiana, seja menino ou menina, as fantasias e angústias serão recalcadas emergindo a partir de então o sentimento de culpa e a moralidade, determinantes na constituição da identidade sexual do sujeito. No entanto, ao fim de suas investigações, Freud ao considerar que suas recentes descobertas acerca da sexualidade ainda eram insuficientes diante das demandas psíquicas do sofrimento humano, afirma: “E também aqui “há trabalho suficiente para se fazer nos próximos cem anos – nos quais nossa civilização terá que aprender a conviver com as reivindicações de nossa sexualidade.”, deixando assim, uma porta aberta para investigações futuras e novas descobertas. Embora as obras de Freud estejam sempre entremeadas de um teor profundamente sexual, foi em suas obras sociológicas na aurora de sua vida como por exemplo Totem e Tabu, que temas como o incesto e a repressão sexual volta a se tornar central e determinante para descrever o sentido e a compreensão dos sintomas e sofrimentos da civilização humana no decorrer de seu desenvolvimento. E é a partir das concepções psicanalíticas de Freud que chegamos no contexto contemporâneo onde o conceito de sexualidade assume novos formatos, tendo na busca de prazer e descoberta das novas sensações o intuito de obter satisfação plena, deixando de se sujeitar apenas a fatores biológicos dos desejos do corpo, para se aliar às novas configurações sócio culturais da pós modernidade. O tema da sexualidade assumiu um lugar de destaque no mundo contemporâneo, se tornado objeto de debates, questionamentos e pesquisa. O indivíduo tem sido intensa e constantemente estimulado a buscar novas experiências de obtenção de prazer. Novos canais de estímulo sexual surgem a partir dos formatos midiáticos de exploração visual que alimentam, por exemplo, o culto e exposição do corpo, cenário notoriamente provocador de sensualidades. O contexto contemporâneo se tornou bastante apropriado para buscar novas reflexões acerca da compreensão e aceitação da sexualidade, seja de maneira individual ou coletiva, com objetivo de ajudar o sujeito a superar suas dúvidas e tabus, aprender a lidar de maneira saudável com os próprios desejos e sensações e de se evitar assim o surgimento ou aumento dos próprios conflitos de origem sexual, proporcionando o amadurecimento  da sociedade em torno dos temas mais latentes com a sexualidade feminina, a homossexualidade e a bissexualidade. Portanto, sexualidade é um tema que não se esgota e um diálogo com a história, com Freud e com o mundo moderno permite uma análise crítica e de reflexão acerca das novas formas do sujeito se relacionar consigo mesmo e com o outro a partir de seus desejos influenciados pelo narcisismo da pós modernidade. A sexualidade é um traço marcante da construção da identidade cultural. O sociólogo Gilberto Freyre (1900–1987), por exemplo, coloca o tema da sexualidade no centro da formação histórica e social do país, e afirma que a sexualidade contribuiu para a construção cultural ou seja, faz parte da própria essência do povo. Finalizando, certa vez haviam quatro filhos cuja mãe se chamava Afrodite, que representava as diversas formas de amar. Eram companheiros constantes da deusa, sempre retratados ao seu lado. O primeiro se chamava Eros, o deus do amor inconsequente, da união, da afinidade que inspira ou produz simpatia entre os seres, para os unir em outras procriações. O segundo, Anteros, oposto ao primeiro, era o deus da desilusão, da manipulação, do amor não-correspondido da antipatia, da aversão, que desune, separa, desagrega, o terceiro se chamava Himeros, o deus do desejo sexual e o último, Pothos, o deus das paixões. Mitos que nos apontam a força propulsora da sexualidade nas relações interpessoais e seu lugar essencial no desenvolvimento e valorização do ser humano. É por essa razão, entre tantas outras, que compreender a sexualidade é compreender a própria a vida. Como disse certa vez o romancista francês Boris Vian (1920-1959), “sexualmente, quer dizer, com a minha alma.”  Sugestões Bibliográficas: FOUCAULT, Michel. História da sexualidade, volumes I e II. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1988. FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Porto Alegre: L&PM Editores, 2012. LANGER, Maire. Maternidade e sexo. Porto Alegre: Artes médicas, 1986. NASIO, J.D. Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa.  Rio de Janeiro: Zahar, 2007. STEARNS, Peter. História da Sexualidade. São Paulo: Editora Contexto, 2010. 

O processo analítico à luz do pensamento tibetano sobre o viver e o morrer

Por Márcia Velo Barros -  Um dia desses, procurando algumas ideias na internet, me deparei com o intrigante texto “Autobiografia em Cinco Capítulos” de Sogyal Rinpoche2. Ele me chamou a atenção e, então, questionei-me o quanto ele se parece com o processo analítico.Aqui escrevo-o na integra: Biografia em Cinco Capítulos: Capítulo 1. Ando pela rua.Há um buraco fundo na calçada.Eu caio...Estou perdido... sem esperança.Não é culpa minha.Leva uma eternidade para encontrar a saída.  Capítulo 2. Ando pela mesma rua.Há um buraco fundo na calçada.Mas finjo não vê-lo.Caio nele de novo.Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.Mas não é culpa minha.Ainda assim leva um tempão para sair. Capítulo 3. Ando pela mesma rua.Há um buraco fundo na calçada.Vejo que ele ali está. Ainda assim caio... é um hábito.Meus olhos se abrem.Sei onde estou.É minha culpa.Saio imediatamente. Capítulo 4. Ando pela mesma rua.Há um buraco fundo na calçada.Dou a volta. Capítulo 5. Ando por outra rua. Pensa-se o processo analítico como aquele no qual é possível, dada a condição psíquica de cada analisando, uma aproximação do caminho que se segue, das expectativas que se tem quanto às realidades, externa e psíquica, para uma abertura à questionamentos e, como bem dizia Wilfred Bion, para uma possível transformação. Quanto mais abertos estivermos para uma intima aproximação de nossa verdade, e quanto mais sinceros pudermos ser conosco mesmos, mais teremos a chance de nos desenvolver psíquica e emocionalmente. Está aí um grande desafio, porém muito intrigante e curioso. A transformação humana não depende das pessoas à volta, não depende do analista, mas sim do próprio sujeito que é senhor em sua casa e livre para fazer as próprias escolhas, trilhar os caminhos que quiser e puder. O processo analítico, para se desenvolver, depende de que o analisando tome contato consigo mesmo para que possa perceber suas responsabilidades, questionar sua direção, seus pensamentos rígidos, suas expectativas e fantasias. Isso não é algo que o analista lhe entrega pronto, mas sim algo construído na relação analítica com cuidado pela dupla. Diante do texto podemos ver que conforme o sujeito aproxima o olhar para seu movimento repetitivo, pode questionar-se cada vez mais, pode responsabilizar-se por repetir na mesma dor de cair no (mesmo) buraco, até que possa ir buscando outras alternativas mais saudáveis, adaptando-se ao que a realidade impõe. O buraco ali é algo que ele não controla, é algo que ele não pode mudar, mas seu rumo sim, esse sim ele pode transformar. Deixar de repetir antigos hábitos destrutivos e dolorosos não é responsabilidade de ninguém mais que do próprio sujeito. Portanto, com um processo analítico o sujeito tem a chance de, questionando-se, tentar andar por outra rua, buscar outro caminho, novos horizontes, novo olhar, talvez mais leve, mais livre, e próprio. Não digo que seja algo poético e fácil. Não!! Ninguém nesse mundo tem condições de prometer o paraíso, mas é algo possível e transformador.

Algumas considerações clínicas sobre os autores pós- kleinianos

Por Andreia Rodrigues dos Santos -  H. S. em seu trabalho demonstra que existem aspectos depressivos na esquizofrenia. Dentro da posição esquizoparanóide, pode haver um núcleo depressivo que é atingindo pelas interpretações das ansiedades persecutórias e seus mecanismos de defesa. O acesso a P.D. é momentâneo e cíclico. O núcleo depressivo muitas vezes é projetado via Identificação projetiva (I.P.) para o analista e é através da contratransferência produzida. E o analista através do uso da contratransferência vai ser capaz de formular suas interpretações. H. S. faz suas interpretações na P. S. = usando objetos parciais e P. D. usando objetos totais. Ela não discuti, ela informa o que ocorre, cobre o vazio fazendo uso concreto da palavra. Usa a fala como coisa em si, e não algo portador de um significado (cobre o vazio da sessão). Equação simbólica = não há separação entre o entre o sujeito e o objeto e há a I. P. – símbolo no lugar do objeto – formação de objetos na esquizofrenia. Beth Joseph diz que a I. P. é um mecanismo de defesa do Ego, resultado de uma estrutura ou faz parte de uma estrutura, Existe um ponto de equilíbrio nas defesas do Ego do ponto de vista Kleiniano, a saber: - a onipotência, -cisão (ou dissociação). – idealização, - I. P. . I.P. = Sistema de defesa contra inveja/dependência, tentativa de apagar a diferença entre o Eu e o outro (ataque ao outro), eu narcísico. Na I. P. há descarga, não há trabalho no pensar, é uma evacuação mental. São defesas impiedosas em relação ao objeto. Defesas menos arcaicas (P.D.) há par eu e tu bem estabelecido, dai a I. P. como comunicação. Na I. P. uma das consequências é o horror a diferença entre o eu o outro. Na clinica o analista é o receptor de todas essas projeções, analista não vai saber a diferença entre ele e o paciente, mas num determinado momento o que se espera é que o analista possa assumir o posição de observador (o terceiro Édipo) e sair da posição da identificação e poder olhar a situação apenas como observador e a partir desse lugar ele poderá formular a sua interpretação. Analista precisa nessas relações de objeto na pratica clinica, saber o que ele esta recebendo da I. P. , que lugar ele esta ocupando e poder a partir dai transformar esse conhecimento num interpretação para o paciente. Explico esse dois autores juntos para fazer uma abordagem teórica e clinica da contratransferência. Irma B. Pick = contratransferência e suas explicações clinicas – ela faz um levantamento de quadros sobre a contratransferência bem como suas implicações clinicas. O Inter jogo entre os modelos para o entendimento da mente (P. S. e P. D.) e a I. P. .Roger Money – Kyrle = Contratransferência : Roger divide com Paula Heimam o reconhecimento no meio psicanalítico de ter postulado o conceito de que a causa da contratransferência é um processo ativo do paciente em relação ao analista. Esse conceito foi fundamental para Bion colocar a I. P. como um processo de comunicação na contratransferência.Contratransferência normal: situação onde o paciente transfere para seu analista na I.P. partes excindidas de seu self que por uma propriedade chamada de empatia, esse analista re-conhece (nele mesmo) e interpreta a situação a seu paciente. Contratransferência patológica: sair da situação clinica como observador, ou seja, ele não consegue re-conhecer, ele não consegue ir para o lugar do observador, dai ele passa a atuar na transferência e não a interpretar a transferência. Isso acontece 1) Partes do analista na P. D. o analista se coloca no lugar daquele que vai reparar onipotentemente seu paciente e na P. S. a transferência tem caráter persecutório (analista vê o paciente como um objeto que o persegue, calunia (contratransferência sádica). 2) Analista no lugar de pai/mãe que impediria que o paciente possa elaborar a situação entre ele e seus objetos internos que representam seus pais. 3) Fracasso (sensação) diante do paciente, uma sensação de não melhora. Profundo sentimento de culpa gerada pelo superego analítico. O analista precisa fazer a I. P. de partes de seu próprio self, precisa dar conta de sua ansiedade. Analista precisa re-conhecer o que é dele e o que é do paciente = identifica, reconhece e interpreta. A interpretação, tanto para o paciente quanto para o analista é temida. Por isso é preciso ter ética e bom senso. Usar a I. P. com inteligência e saber suportar a angustia analítica do não saber. Edna vai falar de uma questão de uma cisão na personalidade onde partes do self onde está guardado o Édipo e Castração esta cindido e difundido contra tudo e todos (self) protegido. O núcleo do Complexo de Édipo é o que aproxima as pessoas – melhor antidoto contra o narcisismo puro e simples. Manter esse self é importante porque ele é uma esperança de se ligar ao outro. Alguns sentimentos continuam preservando na clinica e tem como raiz o édipo com : exclusão (angustia de exclusão) Separação (angustia de separação)Estar só na presença do outro ou do par edípicoCisão sexual Par edípico Pai/Mãe e filho = filho percebe que o pai e mãe formam um casal e fazem coisas das quais ele não participa e que essa atividade tem a ver com sexo e com formação de novos bebes; então o mundo dessa criança é separado em dois. Nesta posição nova ele esta excluído. Ele percebe que não pertence aquela geração – há a percepção da transgeracionalidade. Rosenfeid trabalha a questão de como a pulsão de morte pode a partir de um processo de cisão do self criar uma entidade clinica chamada de gangue narcisista. Organização narcísica – no ego e no ID, na formação do superego há uma defusão das pulsões de vida, do erotismo. Defusão: pulsão de vida e pulsão de morte são defundidas na formação do superego. Com a pulsão de morte livre no sistema, se desenvolve um self (selves – dentro de um self podem existir outros selfs), este self estabelece uma relação narcísica com o self libidinal (pulsão de vida). Uma das facetas da RTN é causada por essa organização narcísica que por meio de uma promessa de plenitude ou por meio de ameaças subjuga essa self libidinal de forma a atrapalhar o andamento da analise. Em uma analise, analista faz com que o individuo saia da sua organização (de seu narcisismo) e possa contemplar de uma vida onde existe um outro separado de si. Isso vai contra a organização narcísica que quer a dependência com esse outro. O reino da inveja que ganha uma organização – um self que pode se comunicar (um ser dentro de outro ser), que pode ter vida própria. Não há fusão da pulsão de vida com a pulsão de morte, dai uma parte da pulsão de morte acaba não sendo fundida com nenhum outro processo e esta parte não fundida começa a criar um self separado, chamado de gangue narcisista. Esse self subjuga o self libidinal e forma uma relação patológica enviando para o meio ambiente via I.P. – inveja ganha uma organização própria. A organização narcísica é uma defesa contra o sentimento de inveja que é o medo da dependência. A inveja( medo de depender de ) tende a eliminar qualquer relação objetal. O caso que apresento de onde eu tirei algumas conclusões seque abaixo, é um caso do aluno Marcos Campelli apresentado em supervisão. Paciente homem, 47 anos, vive sozinho. Teve um relacionamento, mas não chegou a casar-se. Separou-se e arrumou outra namorada 16 anos mais nova a qual, após separar-se, não consegue “tirar da cabeça”. Quando pequeno, viveu adotado por parentes e hoje vive de negócios deixados como herança. A: Boa tarde; o que temos para hoje? P: Nesta semana, acabei mandando um e-mail para ela [a ex-namorada]. Essa questão romântica, meio, sei lá, fora de hora... Eu sei o quanto ela não gosta, sei o quanto. ela.. Talvez seja uma coisa até chata e aborrecedora pra ela. E sei disso porque acontece comigo. Tem uma mulher que, não sei por que cargas d'água começou a tentar entrar em contato comigo. Eu fui muito polido no começo, bem delicado e educado com ela, e depois disse “olha, não tenho interesse nenhum”. E ela tem um relacionamento, tá namorando ou tá casada, eu nem quis saber direito, realmente não me interessou saber. E aí eu fiz esse paralelo entre essas duas situações. Eu vi o quanto esse tipo de interação chateia e aborrece, mesmo. Você ficar recebendo assim eventualmente “ó, bom, dia, não sei o quê, e tal...”. “Não é de ti que eu gostaria de receber bom dia”, não sei se é isso que me irrita ou se tem algum outro motivo, mas eu vejo que é uma interação forçada e insistente. Falei outro dia com certa veemência [com essa mulher], e pensei “ah, agora ela vai parar de insistir”. Mas agora ela retomou, a pouco tempo, começou a me procurar de novo. E aí eu faço esse paralelo, sei o quanto isso é irritante e chato. Por isso eu me sinto extremamente mal, pelo fato de eu ter mandado o e-mail, o fato de eu ter insistido e procurado a [ex-namorada] várias vezes, sabendo que ela não tinha vontade nenhuma disso. Eu não sei como me comportar. Um ano depois que tínhamos separado eu a procurei, ia com frequência na casa da mãe dela quando ela não estava, mas houve 2 ou 3 vezes que ela estava e não saiu do quarto, não interagiu comigo de forma alguma, daí remontei à isso de ela realmente não querer falar comigo, por isso que eu me sinto assim... Não a tenho encontrado, não a tenho visto. Às vezes a vejo em alguma foto. Na academia que frequento, ela também vai em outro horário, e eu sou amigo do dono e lá outro dia eles tiraram fotos e eu a vi nas fotos. Eu a bloqueei no FB, achei por bem já que ela havia me bloqueado. Quero crer que fiz isso por salvaguarda, quanto menos eu a vejo, menos eu sinto. E tenho tido algumas recaídas. Mas, a coisa tem seguido bem, eu creio, tem sido melhor, não tenho sofrido tanto quanto antes. Ah, aconteceu ontem À noite: vi uma notícia na TV, e comecei a chorar copiosamente, algo mexeu comigo e eu não sabia por quê. Era um caso de abandono, ou de criança, não lembro direito. Mas eu lembro que chorei copiosamente, de molhar o chão e ter que passar pano... Explosão de sentimento, mesmo. Não me lembro exatamente o que desencadeou, foi no Jornal Nacional. Seria bom se eu lembrasse com exatidão, mas, não lembro. A: Mas, foi num telejornal, então? P: Sim. E é difícil lidar com isso. A: E você se deixava afetar em situações semelhantes também enquanto namorava? P: Sim, mas... Acho que aí era sobre quando era notícia envolvendo morte e criança. A: Me parece que houve dois momentos importantes: um no qual você deu um “gelo” numa mulher que não tem interesse, e comparou seu sentimento em relação à essa mulher, com um sentimento que você acha que sua ex-namorada tem em relação à você – incômodo, chatice; e outro no qual, através de um veículo de informação, você recebeu uma informação a mais a respeito de si mesmo: “criança abandonada”.(Falou em seguida sobre gostar muito da ex por causa da aparência física, ele a considera muito bonita, mas no plano das ideias, não batem; e falou pedindo desculpas, disse que acha a mulher que ora o assedia muito feia, além de estar enrolada, e há outra mulher na academia com quem está estreitando algum relacionamento, com flertezinho, trocas de olhares, curtidas em FB, mas não consegue desgarrar-se do que sente pela ex, e ele mesmo confessa que vai “encontrar algum motivo para que isso não vá para frente porque gosto de gostar da ex”. Falou que conheceu uma Argentina via Internet, por quem encantou-se pela imagem, usou o termo “platônico”, interessaria conhecer mas mora a 110 quilômetros... Outra em Santa Catarina, mas interação foi muito formal e polida). A: Me parece que recursos para conhecer pessoas, não lhe falta? P: Sim. Mas ainda gosto da imagem corporal, física da [ex-namorada]. Quanto às outras, tem essa questão geográfica que me chateia. A: E esse e-mail que você escreveu, você teve retorno? (hipótese: você foi informado sobre o que sua ex-namorada pensa, ou você está fantasiando o que ela possa estar pensando, e sofre com essa fantasia?) 22:30 P: Escrevi anteontem. Não recebi retorno. A motivação primordial que me levou a escrever esse e-mail, na verdade, foi porque eu me lembrei de uma outra mulher com quem namorei na minha adolescência e com quem tive um breve encontro entre um ínterim no relacionamento com a [ex-namorada]. Então, escrevi um primeiro e-mail (para essa outra mulher), e acabei escrevendo um segundo e-mail para a [ex-namorada]. Eu gosto de escrever, de falar, de expressar alguma coisa, e não tenho para quem expressar isso. Mesmo que ela delete/exclua, ao menos enviei. E tem uma coisa que eu queria te perguntar: tem vários e-mails que eu escrevi para ela, o que que eu devo fazer com isso? A: Qual o ganho que você tem tido ao manter esses e-mails, e qual o ganho você terá ao apagá-los? P: eu os mantenho porque foram tão bem escritos, e de forma tão carinhosa... Me chateou muito quando apaguei fotos, eu me arrependo. Por isso que eu não quero deletar esses e-mails. Eu tinha uma pilha grande de cartas da época de adolescência e faculdade, e não sei por que cargas d'água eu as queimei. Não que isso me faça falta, mas eu gostaria de ter conservado.(Paciente em seguida mostrou tatuagem que fez com as iniciais de seu nome, duas das quais coincidem com o do nome da ex-namorada, no lado interno do calcanhar esquerdo. Hipótese: paciente gosta de quem é e vê gratificação nestas cartas e e-mails, e conservando essa “beleza” pode fortalecê-lo para próximos relacionamentos? Ou não consegue superar o luto?). 35 P: Eu não sinto que uso isso para me penitenciar. Eu me lembro muitas vezes do sufocamento que aqueles sentimentos me provocavam [quando escrevia cada carta]. Consigo ver aquilo como um alicerce para uma coisa melhor que aconteceu depois. Passou, foi suportado e transpus. Essas cartas ainda estão carregadas de sentimento forte, mas acho que com o tempo me ajudarão como as outras me ajudaram. Eu te perguntei se deveria descartá-los, mas, acho que na verdade eu quero mantê-las. Acho que as próprias sentenças que eu uso ao escrever, vejo uma identidade pessoal minha ali... Não é algo que escrevi num afã de momento, de desespero, são coisas que me orgulho de ter escrito. Antes eu tentava buscar um estilo mais coloquial, porque achava que o interlocutor pensasse ser muito rebuscada a forma que eu gosto de escrever, mas... Sabe, quando me separei da minha ex-esposa, seguimos nos comunicando por e-mail e telefone, então, escrevíamos muito. Eu não queria que ela passasse por constrangimento desnecessário. Mas, voltando à situação aqui, a [ex-namorada] tem uma tatuagem que diz “que céu poderá satisfazer teu desejo de céu?”. É um extrato de uma frase de Manuel Bandeira do poema “A Morte Absoluta”, eu até cogitei tatuar a mesma frase, mas... Achei que ela não gostasse desse “plágio”, ela pudesse sentir como uma ideia roubada, ou sei á o quê... E é um poema triste, fala sobre a gente sumir desaparecer de forma que ninguém mais se lembre da gente, e que me faz pensar. Daí tatuei as iniciais porque isso na verdade remete à ela.A: Teu desejo “de” céu, e não “do” céu, é isso? P: Isso. A: Humm, então, esse céu é indefinido. Por quê tem que ser um céu específico? Se esse céu está nublado, por quê não outros? P: É que eu queria um céu que me fizesse sentir o mesmo. Quando a vi pela primeira vez, não consegui olhar para mais ninguém, nem me lembro das pessoas que estavam perto. Foi desde o primeiro momento que tive só olhos para ela, eu não sabia o por quê, e eu sou extremamente tímido, mas tinha que ser ela... Eu acho chato e deprimente chegar e falar alguma besteira para abordar alguém, gosto da troca de olhares... O mesmo que sinto quando a vejo atravessando a rua, como na semana passada. Essa vontade grande, enorme de ir lá e abraçá-la, cobri-las de beijos... Aleluia ela não ter ido mais nos outros lugares que frequento, porque quando a vejo, esse desejo vem. Sei lá. Me sinto meio tarado... Mas não é tanto sexual quanto carinhosa, afetiva... E sempre foi assim. A: O impacto daquele sol radiante do primeiro momento ainda é profundo, mesmo que o tempo tenha mudado. P: E sinto que não vai mais acontecer. Por isso que busquei a terapia, queria aprender a lidar com isso. Já me ajudou bastante, tem coisas que eu não conseguia caminhar antes, e agradeço bastante por estar conseguindo passar melhor por este tipo de situação. A: Nosso tempo se esgotou. Você trouxe para a sessão de hoje que tem qualidades as quais considera que lhe são caras, nas quais você se reconhece, e que tem prazer ao expressá-las. Trouxe também que dispõe de meios para conhecer pessoas e fazer os seus testes. E você trouxe também que sente que vem fazendo progressos. Esses progressos, o que são? Seriam do tipo “deixei de sentir coisas”, ou do tipo “ainda sinto coisas, mas passei a escolher melhor o que fazer daquilo que sinto”? Nos vemos na semana que vem! O que conclui com a pouca pratica que possuo é que o paciente não consegue elaborar ligações afetivas sem que haja a possibilidade do abandono (ele precisa ser abandonado e trabalha para isso em seus relacionamentos – repetição). Como I.P. paciente chora ao ver passar na TV a historia da menina abandonada. Isso desperta nele o Édipo, do abandono da mãe. Ao mesmo tempo em que, ele não consegue abandonar as lembranças (e-mails) que tem de seus relacionamentos, pois esses reforçam o seu abandono.

Psicanálise e Zen-Budismo

Por Alê Esclapes -  O trabalho desenvolvido por Bion pode ser dividido em três ou quatro fazes, variando de acordo com o estudioso. Em uma primeira fase Bion vai de debruçar sobre as questões kleinianas de identificação projetiva e o pensamento esquizofrênico. Em uma segunda fase Bion mantém o seu objeto de estudo, mas muda o seu enfoque, se tornando mais “bioniano” que “kleiniano”, ainda que todos os elementos desse possam ser vislumbrados sem nenhuma dificuldade naquele. Uma tentativa de sistematização quase que matemática (o que lembra Lacan) da psicanálise é tentada por Bion.  Numa terceira fase, mais amadurecida e já ciente que essa tentativa não teria o sucesso pretendido, Bion vai abandonando lentamente o modelo matemático. Em uma quarta fase Bion se mostra mais “místico”, mais “holístico” em suas proposições. Não se deve aqui de forma alguma confundir o termo místico com modas e tendências da “nova era”. Bion vai encontrar algumas respostas a suas perguntas em São João da Cruz e Santa Edith Stein. Outro pensamento que sempre permeou o seu trabalho foi o pensamento Zen Budista, sendo nesse último que pretendo escrever, ou melhor dizendo, falar sobre onde podemos encontrar elementos Zen Budistas no pensamento de Bion. Os limites desses artigos se encontram primeiramente na não especialização do autor sobre Zen Budismo, tendo apenas estudos iniciais sobre o tema. O segundo se trata de identificar o que Bion queria dizer (sobre psicanálise) em sua última fase, que por ser mística, é motivo de diversas interpretações. Os artigos, portanto, são no máximo um exercício sobre as obras de Bion e do Zen Budismo, e não pretendem ser muito mais que isso. Nessa série de artigos será tratado um único texto do Zen Budismo – os preceitos budistas de acordo com Bodidharma ou Bodaidaruma, considerado o primeiro grande mestre do Zen budismo. Esse texto trata do juramento que o praticante faz para se tornar um “seguidor” oficial do Zen Budismo, ou “preceituado”. Em uma cerimônia especifica o praticante faz um juramento e recebe o seu nome budista. Maiores informações podem ser conseguidas no site do Zendo Brasil – www.zendobrasil.com.br . Segue abaixo o texto a ser trabalhado nessa série de artigos: Preceitos budistas de acordo com a escola Soto Zen do Japão. “Receber é transmitir,Transmitir é despertar,E despertar para a mente Buda,É o verdadeiro Jukai.” A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,No eterno Darma, não surgir o ponto de vista da extinção,É chamado não matar. A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,No Darma que não pode ser apanhado, não surgir o pensamento de ganho,É chamado não roubar. A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,No Darma do não-apego, não surgir o ponto de vista do apego,É chamado não ser ganancioso. A natureza própria inconcebivelmente  maravilhosa,No inexplicável Darma, não expor uma palavra,É chamado não mentir. A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,No Darma intrinsecamente puro, não surgir ignorância,É o chamado não ficar intoxicado. A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,No Darma sem faltas, não falar sobre erros e faltas,É não falar sobre erros e faltas. A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,No Darma da equinimidade, não falar do eu e dos outros,É chamado de não se rebaixar nem se elevar aos outros. A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,No Darma genuíno que está em toda a parte, não pegar uma coisa,É chamado de não ser avarento. A natureza própria inconcebivelmente  maravilhosa,No Darma do não-eu, não conceber uma realidade do eu,É chamado de não ser dominado pela raiva. A natureza própria inconcebivelmente maravilhosa,Não surgir a distinção de Budas e dos seres,É chamado não falar mal dos Três Tesouros. Bodaidaruma Daiossho(Tradução do texto em inglês de Maezumi Roshi pela Moja Coen Roshi).

Uma breve abordagem sobre os autores pós-kleinianos

Por Yuri Moreira Avallone -  O objetivo deste trabalho é fazer uma leve abordagem do material trabalhado nos estudos sobre os Pós kleinianos, vamos tratar aqui apenas de partes dos artigos e não estes como um todo. Começando por Hanna Segal, dentro do artigo “Depressão no esquizofrênico”... ...ela nos traz entre outras abordagens uma que me chamou mais a atenção, Hanna Segal não interfere na sessão, não se envolve, fica sempre na sua posição de observadora, quer o paciente destrua seu consultório ou permaneça  calado, e é sobre esse silêncio que trataremos. Em alguns casos a fala do analista é levada pelo silêncio do paciente, esse silêncio algumas vezes causa na sessão um vazio, que pode parecer insuportável, e muitas vezes a fala do analista entra apenas para acabar com essa angústia. O analista deve suportar esse silêncio e o vazio trazido na sessão, pois esse vácuo pode ser no sentido de mostrar algo que está dentro do paciente, e quando é interrompido pelo analista impede que algo se manifeste.   Trouxe dois casos que pude presenciar como ouvinte de supervisão, dos quais não entrarei em detalhes além do necessário para exemplificar o conteúdo do artigo tratado acima. Vamos ao primeiro, na supervisão do dia 15/08/16 às 19:10 o colega M. C. trouxe o caso de uma jovem de poucas palavras que falava o mínimo e se calava, permanecendo um silêncio sepulcral no setting; o analista por sua vez não suportado esse silêncio acabou por dirigir a análise por intermédio de perguntas que levou a paciente por uma direção onde ele tinha o desejo de ajudar, aliviando assim sua angústia (do analista).  O caro colega por não suportar esse silêncio pôs a perder a livre associação. No segundo caso ocorrido na supervisão do dia 18/08/16 às 21:10, o colega L. foi convidado a falar e citou um caso em que o paciente falava muito pouco, tendo grandes intervalos de silêncio, o analista conseguiu suportar esse silêncio, controlou suas angústias de ter que falar algo para preencher o vazio criado na sessão. Ao terminar a sessão o paciente pediu para usar o banheiro, e quando saiu, em tom de riso falou ao analista, “ACABEI COM SEU SABONETE“, realmente ele tinha usado metade do frasco. O fato do colega ter suportado a angústia do silêncio mexeu com o paciente, na atitude de jogar o sabonete houve uma transferência. Continuando com Hanna Segal, vamos falar sobre o artigo “Equações simbólicas”, onde o símbolo tem aspecto concreto, porque ele não está no lugar de algo, ele é algo. Ela nos traz que em algum momento não há separação entre sujeito e objeto, o símbolo não pode ser tratado como algo que está no lugar do objeto, mas sim como o próprio objeto. Temos aqui a diferença entre concretude e simbolização; para trazer mais luz ao artigo, ela nos dá o exemplo de um paciente, que para ele, tocar violino é a mesma coisa que se masturbar. Isso é típico da posição esquizoparanóide, principalmente pelo uso da identificação projetiva; conforme o sujeito caminha para a posição depressiva essa concretude vai dando lugar a simbolização, havendo a separação do sujeito e objeto. Falaremos a seguir um pouco sobre os artigos de Betty Joseph, começando pelo artigo “Identificação Projetiva” ela nos diz que existe um ponto de equilíbrio nas diversas defesas do ego, a cisão, a idealização, a identificação projetiva. Se você mexer em um desses pontos acaba por mexer num todo, pode mexer na cisão e ter uma consequência no narcisismo e ou na onipotência e assim por diante. Neste artigo ela também nos traz que o paciente através da identificação projetiva envia para dentro do analista partes do self, atacando a própria percepção do outro, anulando o analista, não existe eu-outro e sim apena eu. Em seu artigo Betty Joseph nos traz um caso em que toda interpretação que fazia, o paciente dissolvia essa interpretação em pedaços, rearranjava da forma que lhe convinha e tomava essa interpretação como se fosse dele, como resultado disso em seu mundo de fantasia ele anula o analista, tirando-lhe toda a importância, isso é uma forte defesa contra a inveja. Ela também nos traz a identificação projetiva como comunicação do paciente para o analista, no caso do paciente N, durante uma sessão a analista começou a sentir desespero, e de repente toda a sessão mudou e houve progresso; esse desespero que sentiu não era dela e sim do paciente que estava lhe atacando com suas desesperanças, mas se ela não estivesse preparada para receber essa desesperança, se não soubesse o que fazer com essa desesperança, provavelmente fracassaria, é de extrema importância que o analista suporte essa dor, não entre em desespero e mantenha-se em sua posição. Entra aqui mais uma vez a importância do analista ser bem analisado, porque o analista mal analisado não vai conseguir separar o que é dele e o que é do outro e vai fracassar. Continuando com Betty Joseph no artigo “O paciente de difícil acesso”. Vou tentar conceituar aqui o paciente de difícil acesso,  este perfil de paciente sempre divide a personalidade em duas, uma chamada de necessitada, que é a que o analista deve procurar atingir com suas interpretações e está muito bem escondida nesse tipo de paciente, mas o analista vai ter que acessar para que a sessão tenha um bom desenvolvimento. A segunda parte da personalidade é chamada de não colaborativa que é a que o inconsciente apresenta ao analista para tentar sabotar a sessão, então temos no mesmo paciente o self 1 e o self 2, quando o segundo self está presente acaba gerando uma confusão mental no analista. Betty Joseph nos traz algumas situações de pacientes de difícil acesso. Uma das situações é quando a sessão aparentemente fica muito fácil, confortável para ambos, o analista deve ficar atento a isso porque não existe análise sem conflito, se isso estiver acontecendo podemos dizer que há um conluio entre ambos, quando está muito fácil estamos nos relacionando com uma parte não colaborativa do self. Betty nos traz a intelectualização da sessão, e o analista pode perceber que a sessão está intelectualizada quando está falando sobre o paciente e não ao paciente, a fala do analista segue num sentido que não está atingindo os sentimentos do paciente. Há também o paciente que sutilmente manipula a sessão chamando a atenção do analista para uma área que deseja, notei um essa situação num caso trazido para a supervisão pela colega M. S no dia 07/07/16 20:00, onde a paciente tentou seduzir a analista, lágrimas nos olhos, lamentos  levando-a para onde queria, a analista chegou a ficar penalizada com isso. Citei aqui apenas as que me chamaram mais atenção, mas existem outras situações em pacientes de difícil acesso.   “Transferência: a situação total” Betty Joseph. Neste artigo ela nos chama a atenção para a transferência como descreveu Melanie Klein em seu artigo “As origens da transferência” – “É minha experiência que, para se esclarecer os detalhes da transferência, é essencial que se pense em termos de situações totais transferidas para o presente, bem como em termos de emoções, defesas e relações objetais.” A autora diz que na situação clínica o analista deve prestar atenção nas emoções revividas pelo paciente na transferência, para poder identificar o que se repete, e também deve ficar muito atento às suas próprias emoções na contratransferência, que podem indicar algo em relação aos sentimentos de seu paciente, ou seja, estar atento a situação total. Da supervisão vou trazer apena um comentário feito à analista pelo supervisor no dia 11/07/16 às 19:20 “ A pepita de ouro numa sessão é o que acontece entre analista e paciente.” Dando continuidade a Betty Joseph citaremos o artigo “A inveja na vida cotidiana”. A inveja envolve basicamente duas pessoas, e inveja-se o que a outra pessoa possui, suas qualidades, conquistas, capacidades. Neste artigo a autora vai nos chamar a atenção para o sentimento de inveja dentro da sessão. Dentro do setting, quando o paciente percebe que o analista pode ou o está ajudando, esse sentimento aparece, (porque a inveja tem horror a dependência) se manifesta de várias formas: destruir no outro o que eu não tenho, o paciente tenta fazer o analista acreditar que suas interpretações não significam nada, são inúteis, e que o analista não é bom e está ali a toa. Outra situação é a reação terapêutica negativa onde o paciente tende a piorar, porque piorando ele quer dizer que o analista não tem capacidade nenhuma. No caso trazido pelo colega L.R. na supervisão do dia 07/07/16 às 21:25, a paciente falava pelos cotovelos, tomando todo o tempo da sessão dando pouco espaço para o analista interpretar, e quando esse o fazia ela não acatava suas interpretações, a paciente demonstrou sentir angústia de castração, e tentou durante toda a seção mostrar para o analista que ele também é um castrado e que não pode ajuda-la. Vamos falar a seguir de Roger Money-Kyrle e Irma B. Pick sucessivamente; Roger Money trouxe o artigo de 1955 “Contratransferência normal e alguns de seus desvios” neste material Roger nos diz que “pois é somente porque o analista pode reconhecer no paciente seu self inicial já analisado que ele pode analisar o paciente” para ilustrar um pouco cito um uma questão trazida pelo supervisor na supervisão do dia 25/08/16, a colega A. R. comentou com o grupo que tem dificuldades para encontrar o que está por trás do discurso do paciente, dúvida que muitos dos colegas afirmaram ter, a explicação veio na forma de pergunta. “Qual o sabor da laranja?” Além de ser uma resposta muito subjetiva, o sujeito só vai reconhecer o sabor da laranja após ter provado uma; quer dizer, o analista só reconhecer a angústia do paciente se já a tiver conhecido. É de fundamental importância para o analista conduzir uma boa sessão que sua análise pessoal esteja em dia. Neste artigo vimos que na contratransferência normal, o paciente faz a identificação projetiva e o analista se identifica, mas consegue sair da situação clínica e ir para a situação de observador para poder interpretar essa transferência; na transferência patológica o analista fica preso na situação clínica e não consegue interpretar. Roger nos traz duas situações que complicam a vida do analista na sessão, em uma delas o analista fica preso na situação clínica e a contratransferência pode ser de cunho esquizoparanóide, onde ele acredita que o paciente o calúnia, o persegue e quer mostrar sua ignorância, ou depressivo onde o analista se coloca no lugar onipotente do reparador. A segunda situação que nos é trazida é a do fracasso, onde o analista se sente fracassado por uma não melhora de seu paciente. Contratransferência é tudo aquilo que é gerado ao analista pelo paciente, o analista tem que saber o que fazer com esse sentimento, tem que sair da identificação, reconhecer a transferência ou contratransferência e separar o que é dele e o que é do paciente. Na supervisão do dia 29/08/16  às 19:15 a colega M.T.S. trouxe um caso onde a paciente reclamava que os pais a oprimiam e manipulavam, casou-se para sair da casa dos pais mas o marido também a controlava, agora namora uma mulher que também a controla, a analista se identificou com a situação e se colocou como o falo para a paciente, não conseguiu sair e se colocar em posição de observadora, ficou presa na situação clínica. Continuando com a contratransferência patológica temos a seguir um artigo de Irma Brenman Pick  “Elaboração na contratransferência” 1985, o qual nos traz mais situações que ocorrem na clínica, Irmã compartilha da mesma opinião de Strachey que diz, “a interpretação é algo que tanto o paciente como o analista temem”. Ela também nos diz que a vivência no setting é necessária, e o analista não pode acolher essa vivência sem senti-la, vivencia-la, e é justamente aí que entra o temor, pois é difícil sair da situação clínica e se colocar na posição de observador, e quando consegue estar fora da situação clínica para fazer sua elaboração, tem que ter empatia para com seu paciente, não pode ser frio, e ela nos diz mais, que interpretar em determinadas situações poderia ser um pouco cruel, o analista precisa elaborar uma interpretação ética, onde se possa colocar junto ao paciente, demonstrando que se importa com ele, se compadece de seu sofrimento, mas com o devido cuidado do par analítico não formar um conluio para se proteger dentro da análise, por exemplo, ambos podem negar conhecimentos desagradáveis mas permanecerem numa situação confortável.  “O analista, como o paciente, deseja eliminar o desconforto bem como comunicar e partilhar experiências; são reações humanas comuns. Em partes, o analista tem um impulso de encorajar, e algo disso será expresso na interpretação. Isso pode variar desde uma indulgência implícita, acariciando o paciente com palavras, até respostas hostis ou distantes ou gélidas que parecem significar que a carência da experiência que o paciente lamenta não tem importância alguma; uma afirmação de que a experiência mecânica de objeto parcial é tudo o que é necessário.” Este trecho citado acima pode nos trazer mais esclarecimento. Entre os autores estudados temos Edna O’Shaughnessy com o artigo “O Complexo de Édipo invisível. Edna vai nos dizer que determinados pacientes demonstram não ter complexo de Édipo  e castração, parecendo assim sem importância, mas ao contrário do que demonstram esses complexos estão lá, muito bem escondidos, é um caso de cisão de personalidade, onde parte do self fica guardado, protegido, é um pedaço do self onde se encontram o núcleo do complexo de Édipo e castração.  Os kleinianos dizem que “sua abordagem quando o complexo de édipo é o que estou chamando de “invisível”, é a de que ele é assim não porque não seja importante, mas porque é tão importante, e sentido pelo paciente (por qualquer que sejam suas causas) como tão inegociável, que este se utiliza de meios psíquicos para faze-lo e mantê-lo invisível.” Isso acontece quando os primeiros estágios do complexo de Édipo e castração são alcançados após um desenvolvimento perturbado, que por algum motivo o sujeito não suportou essa descarga emocional, tendo passado por muita dor psíquica;  então para evitar um retorno desse desconforto sentido na situação edípica inicial o sujeito cindi esse núcleo do Édipo e o esconde muito bem, para que não possa ser encontrado. Vamos ilustrar um pouco mais esse tema, vamos voltar lá na infância do paciente:  A cena primária traz dois traumas principais, o primeiro é a estimulação além do limite em que o ego pode suportar, o segundo é que a cena primária exclui a criança, que até o momento acreditava ser o centro da casa, e em determinado instante percebe que o papai ea mamãe formam um casal, do qual ele não faz parte e que eles fazem sexo, o que nunca farão sexo com ele, além da exclusão o sujeito passa a invejar a figura do casal parental. O sujeito não apenas sente uma excitação além do suportado, que não consegue lidar como também se sente excluído, de fora, sozinho; e o sujeito prefere viver com determinados problemas, ao encarar novamente essa situação edípica que lhe traz demasiada dor. Vou citar aqui um caso trazido na supervisão do dia 25/08/16 às 19:00 pela colega M.S.A. que acredito possa ter algo relacionado a esse artigo, paciente homem com discurso muito narcísico onde diz fazer oque quer, do jeito que quer, quando quer, acredita que seus relacionamentos o atrapalham, são estorvos, “não quero abrir mão de mim só quero encontrar um relacionamento compatível”. Na discussão da sessão ficou na dúvida em que posição do Édipo ele se encontrava ou se havia Édipo. Para finalizar os Pós-Kleinianos estudados temos Herbert Rosenfeld com o artigo “Uma  abordagem clínica para a teoria psicanalítica das pulsões de vida e de morte: uma investigação dos aspectos agressivos do narcisismo”; o núcleo deste artigo é o conceito de organização narcísica. Organização narcísica é quando a pulsão de morte por um processo chamado fusão patológica (na fusão das pulsões a pulsão de morte sobressai de forma agressiva e violenta a pulsão de vida, enquanto que na fusão normal a energia destrutiva fica atenuada e neutralizada), um ou mais self que se formam dentro do self principal, como se tivessem vida própria esses selfs se juntam para sabotar o relacionamento EU – OUTRO e ficar em uma situação que a dependência possa ser evitada, temos casos gravíssimos em que o self principal é totalmente subjugado por essas organizações narcísicas, e como resultado o paciente parece alienado ao mundo, incapaz de pensar podendo assim perder o interesse pelo mundo externo e quer ficar só na cama, sente-se perdido. Na análise desse tipo de paciente encontramos hostilidade e desconfiança além de muita resistência e uma força que se defende a todo custo da cura e que está decidida a agarrar-se à doença e ao sofrimento. Segundo Rosenfeld quando esse paciente na clínica percebe a realidade e que de certa forma está dependendo das interpretações do analista, ele quer morrer, negar o fato de seu nascimento a depender do outro, e com certa frequência o paciente quer desistir da análise, começa agir de forma autodestrutiva no seu meio social e profissional em alguns casos podem tornar-se suicidas, preferem desaparecer no esquecimento ao invés de reconhecer sua dependência, a morte é idealizada como uma solução para todos os problemas. O autor nos diz que “No entanto, analiticamente podemos observar que o estado é provocado pela atividade das partes invejosas e destrutivas do self, que se tornam gravemente cindidas e difusas do self libidinal cuidadoso, que parece ter desaparecido. Todo o self fica temporariamente identificado com o self destrutivo, que busca pelos pais e pelo analista, destruindo o self libidinal dependente, vivido como a criança.” Organização narcísica é uma defesa contra a inveja, que é o medo da dependência. Como foi colocado no início, este texto trata-se de apenas uma abordagem parcial dos trabalhos desenvolvidos pelos autores citados.

As perversas chuvas de verão

Por Ale Esclapes -  Donald Meltzer definiu de uma forma muito particular a perversão na psicanálise, e John Steiner seguindo seus passos fez uma excelente contribuição à psicanálise ao se inspirar em Bion. Esses três autores nos legaram uma nova interpretação do mito de Édipo – este mito seria menos sobre desejos que sobre verdades. Todos na peça sabiam da profecia, todos a viram serem cumprida, mas até que a situação estivesse em uma situação insuportável, todos agiam “como se” ela não existisse. Será que Jocasta não sabia que estava destinada a casar com um homem mais novo que seria seu filho? Édipo não sabia que mataria seu pai? Sim, todos sabiam, o que não impediu o destino de se cumprir. Mas todos agiram “como se” não soubessem. E essa seria para esses autores, a forma básica do pensar perverso – agir “como se” a verdade não existisse. E o que vemos hoje em relação às mortes com as chuvas é pura perversão. O governo age como se não fosse sua responsabilidade fazer cumprir a lei de ocupação de solo. Como se não fosse sua obrigação retirar as famílias que invadem áreas de risco, não importando sua classe social. Como se não tivesse feito promessas na inundação do ano passado, e do outro, do outro, etc ... A população age como se não soubesse que construir casas ao lado de córregos e rios não fosse perigoso. Se espantam quando rios transbordam, porém jogam lixo indiscriminadamente em qualquer local, como se esse lixo não retornasse na forma de inundações e doenças para os mesmos. Constroem casas constantemente em locais de risco como se isso não fosse de sua responsabilidade. E no final de tudo termina como no mito de Édipo. O governo nega tudo até não ter mais alternativa, a população se coloca no papel de vítima como o povo em Tebas. Por fim todos somos devorados pela Esfinge. E daqui algum tempo, tocaremos nossas vidas como se nada disso tivesse acontecido e não fosse acontecer novamente.

Uma breve análise do complexo de Édipo no menino

Por Andreia Rodrigues dos Santos -  Por volta dos 03, 04 anos a criança já teve experiências de perder objetos que achava vitais em sua vida, ou seja, a criança edipiana é perfeitamente capaz de se representar à perda de um objeto que lhe era importante e temer que isso se repita. Nessa fase o prazer do menino já é voltado para o pênis. Representante do desejo o pênis é então dito falo. Falo não é o pênis enquanto órgão – falo é um pênis fantasiado, idealizado, símbolo da onipotência e de seu avesso, à vulnerabilidade. - Os três desejos incestuosos: Quando o menino se vê excitado sexualmente e orgulhoso de seu poder, esse menino de 4 anos se vê desejoso de ir de em direção ao Outro, em direção aos seus pais (ou tutores). Sexual, quer dizer mais que genital, sexual quer dizer: ‘Deixa-me olhar teu corpo nu! Arranca-lo, senti-lo, beija-lo, devora-lo e ate mesmo destruí-lo. A criança deseja os corpos daqueles que ama: o pai, a mãe, o adulto tutelar; numa tentativa infantil de realizar em desejo incestuoso irrealizável, cujo objetivo não é o prazer em si, mas o gozo – o gozo nesse termo seria a fusão total. No desejo incestuoso mítico no menino (desejo de possuir o outro, desejo de ser possuído pelo outro e desejo de suprimir) o menino cria fantasias que lhe dão prazer ou angustia, mas que satisfazem imaginariamente seus loucos desejos. A fantasia tem como função substituir uma ação ideal que tenta proporcionar um gozo não humano por uma fantasia que baixa a tensão do desejo e suscita prazer, angustia ou ainda outros sentimentos penosos. A queda da tensão psíquica também pode se traduzir por um sofrimento consciente. As sensações despertam o desejo, o desejo remete à fantasia e a fantasia se atualiza através de um sentimento, um comportamento ou uma fala: dai entra a análise. Vamos as fantasias: fantasia de possuir o outro: fantasia de possessão, Ex: apoderar-se da mãe e tê-la só para si; fantasia de ser possuído pelo outro: criança tornar-se objeto (criança imagina-se possuído – a criança seduz para ser seduzida e na fantasia se isso prevalece causa uma histeria masculina difícil de ser tratada chamada de pedra de castração; fantasia de suprimir o outro: tomo pra mim. - As três fantasias de angustia de castração: as fantasias de prazer também desencadeiam profundas angustia – o menino tem ser punido – seu maior medo é perder o falo que ele tem- essa angustia é inconsciente, ela nunca deixa de ser inconsciente. A angustia é o avesso do prazer, apesar de indissociáveis. A castração é tudo aquilo que me tira o prazer, é a frustação. O Édipo mal resolvido suscita as neuroses adultas, a evitação da castração causa neuroses, tiques, manias, perversões. A angustia de castração e o seu retorno como recalcado na vida a adulta é a medula espinhal da neurose masculina.  O prazer e o medo de ser punido esta na base dessa neurose, logo o Édipo é uma neurose.   O menino ao ver o corpo nu de uma menina percebe que ela não tem um pênis, com isso o menino acha que a menina fez algo e perdeu seu pênis, desde então o menino deve com medo de perder o seu também, logo ao inverso da fantasia de prazer, tem-se as três fantasias de angustia: se a angustia é possuir a mãe= o pai pode castrar (pai repressor); se a angustia de prazer é de sedução (de ser possuído pelo outro) – pai sedutor castra. O pai é um amante que o menino deseja – o castrar aqui significa perder a virilidade, tornando-se mulher objeto do pai; se a angustia de prazer é uma fantasia de afastar o pai rival – a ameaça incide novamente no pênis-falo (pai odiado). A resolução do complexo de Édipo no menino: a dessexualização dos pais: angustiada, a criança se esquiva dos pais para manter seu pênis-falo. É o pênis que ele protege e é a mãe que ele abandona. Ao renunciar a mãe, dessexualiza globalmente os dois pais, e recalca os desejos, fantasias e angustias. Aliviado, pode agora abrir-se á outros objetos de desejo, mais legítimos e adaptados as suas possibilidades reais. Para o homem, o sexo, a virilidade e a força são coisas a serem defendidas a todo custo, e quando esse complexo mal resolvido retorna como neurose, a culpa e o medo colocam o homem numa posição onde as possibilidades permeiam ao pai castrador, ao pai rival e ao pai odiado. Os frutos do Édipo: o supereu e a identidade sexual: o supereu é instituído graças a um gesto do psiquismo: o menino abandona os pais como objetos sexuais e os mantem como objetos de identificação. Na impossibilidade de tê-los promete ser como eles, e os sentimentos que exprimem são pudor, senso de intimidade, vergonha e delicadeza moral.

O Édipo no menino – o complexo que todos deveriam entender

Por Paula Carosio Araújo Saldanha -  Venho elucidar o que aprendi com o tema “Édipo do Menino” estudado no livro de J.D. Násio- Édipo o Complexo do qual nenhuma criança escapa”, e mais, como devemos aplicar esse conhecimento na prática clínica. Com a leitura da primeira parte do livro o qual trata-se especificamente do menino, vi o quanto é importante o entendimento de todo o Complexo de Édipo vivido por uma criança para que possamos analisar nossos pacientes na vida adulta. O édipo portanto, sendo essa chama de sexualidade vivida por uma criança em relação aos seus pais, a matriz da identidade sexual que será definida na crise edipiana; a base da neurose infantil e modelo para todas as neuroses adultas, é essencial para toda organização dos conceitos psicanalíticos, é o conceito soberano. Sabe-se que para os meninos o pênis, por volta de seus três a quatro anos, é seu objeto mais amado e precioso, motivo pelo qual também representa seu órgão mais frágil e temido. Todo esse poder, vulnerabilidade e fraqueza, denomina-se o nome de “Falo”. Se desde a infância o menino teme a perda desse objeto/Falo essencial para ele, Násio irá traz nesse livro, portanto que a capacidade da criança de entender a perda de algo tão importante, de entender a falta são indispensáveis para a compreensão de como se formam a fantasia de angústia de castração no menino e como ele sairá do Édipo. Quando se pensa em alguns casos clínicos verifica-se que o Édipo está presente em 90% dos casos. Em participações a grupo de estudos e grupos de discussões de casos clínicos sobre as neuroses adultas vemos a importância que se faz do Falo para o paciente masculino. Toda a relação de poder, seja no trabalho, seja para com a mulher e filhos ou até em relacionamento com amigos, o homem tem a necessidade, um desejo operante em suas vidas. Esse desejo Násio classificou em desejo de possuir, ser possuído ou suprimir o Outro. E o descreve como os três desejos incestuosos: “O desejo virtual, nunca saciado, cujo objeto é um dos pais e cujo objetivo seria alcançar não o prazer físico, mas o gozo.” Posteriormente aos desejos, Násio descreve as fantasias de prazer como uma ação que baixa a tensão do desejo que suscita prazer ou angústia. Essas fantasias se tornam uma proteção, nem sempre prazerosa, porém com uma função de descarga para que outro mal pior não apareça. Observa-se que essas fantasias ocorrem diariamente na vida dos pacientes e nós, analistas, temos que reconstruir as cenas fantasiadas. Sendo que cada desejo incestuoso irá corresponder a uma fantasia de prazer específica. A fantasia de possessão corresponde ao desejo de possuir o outro; a fantasia de ser possuído que obviamente corresponde ao desejo de ser possuído pelo outro, é uma fantasia de sedução, inclusive causa de histeria masculina; e por fim a fantasia de suprimir o Outro, o sujeito fantasia com a destruição do outro provocando grande prazer sexual. Chegamos agora na angústia de castração, mais frequente e mais visivelmente observada em consultório. Todas as fantasias citadas acima causam grande prazer, porém podem desencadear uma grande angústia. A angústia de ser punido com a mutilação do Falo inconsciente é manifestado na criança através de medos e pesadelos. Essa angústia de castração Násio diz ser a medula espinhal do psiquismo do homem. Essa angústia é o avesso do prazer, portanto todo homem vive um conflito entre prazer e medo de punição. Esses sentimentos são base de todas as neuroses. As três fantasias de angústia de castração consequência aos desejos e fantasias são: o pai é um repressor temido; o pai é um tarado temido; o pai é um rival temido. Essa angústia será recalcada na infância e veremos que a neurose na idade adulta é o retorno da angústia de castração mal recalcada na infância. Nas sessões analíticas foi observada que de uma maneira geral que os homens vivem esse conflito com perda do poder que julga possuir. Quando os pacientes trazem problemas de trabalho, relacionamentos é visível essa disputa e medo de perda do Falo. E quando ficam preocupados com essa disputa ou perda, acabam negligenciando outras coisas mais importantes e necessárias em suas vidas. Existe duas consequências de todo esse processo vivido no Complexo de Édipo pelo menino; a formação do supereu e a confirmação de uma identidade sexual. O supereu é formado no momento em que o menino percebe que não pode ter os pais escolhe ser como eles, em seus ideais, fraquezas e ambições. Na fase adulta do homem observamos sua moral, intimidades e todos os seus sentimentos refletidos desde a formação do seu supereu. A identidade sexual é forjada ao mesmo tempo descobrirá a masculinidade e a feminilidade que não necessariamente correspondem à realidade fisiológica e anatômica de um homem e de uma mulher. Concluo dizendo novamente a importância do entendimento do Complexo de Édipo no menino para entendermos o adulto e suas neuroses, angústias, frustrações. Como é vivido a angustia de castração e seu recalcamento em cada paciente é essencial para uma analise eficaz de um psicanalista.

Evento: Como se forma um psicanalista? - com as psicanalsitas Lilian R. Afonso e Débora Matzenbacher - 20/02/2024

Afinal, como se forma um psicanalista? Quais são os critérios? O que é um psicanalista? Qual a diferença entre psicanálise, psicologia e psiquiatria? Esse evento foi para você que não tem nenhuma informação sobre essa área, ou que já fez uma pesquisa e não entende as razões de uma Formação em Psicanálise ser oferecida por instituições com investimento total que pode superar R$ 500 mil e ter duração de 10 anos, e outras com valores que chegam a ser oferecidos em até 12x de R$99,00 com duração de seis meses. Nesse encontro vamos abordar esses e outros temas ligados a formação do analista. Data/horário: 20/02/2024 (terça-feira) 20hs Convidados: Lilian R. Afonso e Débora Matzenbacher - São psicanalistas, membros efetivos da EPP-Escola Paulista de Psicanálise e do Instituto Ékatus. Investimento: Evento online, gratuito e realizado por videoconferência. Necessária a inscrição prévia, número de vagas limitadas.  Organização: Grupo Ateliê de Ideias - Ale Esclapes; Adriane Watanabe; Fernanda Hisaba; Giuliana Sagulo; Lilian Afonso e Mauro Costa. Haverá emissão de certificados de participação: Ao final do evento será disponibilizado um link para um formulário de pesquisa de satisfação e emissão de certificado válido somente para o dia do evento. _______________________________Dúvidas: Tel.: (11) 3628-1262; WhatsApp (11) 9 9876 9939 ou Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Atenciosamente, Equipe EPP.

Do Eu ao Édipo

  O conceito mais básico de objeto é de representação de coisas – Consiste num investimento, se não de imagens mnésicas mas afastadas, derivados dela. Deriva da coisa essencialmente visual, percebida pelo inconsciente. (Laplanche e Pontalis – Dicionário da Psicanálise). A representação de coisas pode ser exemplificada como um ator, enquanto a phantasia uma peça de teatro. Como mecanismo de defesa, a cisão vem separar objetos bons e maus. O neurótico e borderline apresentam uma dissociação, sendo esta na verdade uma cisão que evoluiu atingindo o valor simbólico. Agora, os objetos já simbolizados podem ser separados. Exemplo: Seio bom/ Seio mau. Nessa fase, somente existe o “ou”. Exemplo: O pai é bom ou mau. Ainda não ocorreu a evolução para o “e’, onde o mesmo objeto torna-se bom e mau. No processo de cisão, ocorre um processo de integração entre psique, soma e meio ambiente. A cisão ajuda a organizar o que antes estava desorganizado, separando o bom do mau, e mais adiante vai evoluir para a ambivalência, passando então a existir o “e”, aplicando-se ao mesmo objeto: Seio bom e mau. A phantasia tem força de realidade. Klein aponta para os objetos reais e imagos irreais vivendo lado a lado na criança pequena. “Esses objetos reais e irreais são vivenciados ao mesmo tempo; são excessivamente objetos bons ou maus, mas num plano diferente”.(Melanie Klein – Psicanálise de Criança-  Cap. IX -  pg171). Os objetos maus serão sentidos como ameaçador e perseguidor. Na cisão, o ego divide os objetos e assim modifica o medo que sentia do superego, modificando-o, projetando-o para um objeto externo.   “Certas pessoas assumem o objeto ameaçador; a mãe assume o papel de objeto protetor”. (Melanie Klein – Cap. IX - pg173– Psicanálise de Criança). Existe uma relação entre o conceito de neurose e introjeção e identificação. Na introjeção, eu tenho a representação de coisas como objeto. Diante deles, o ego tentara suprimir (destruir, projetar) ou possuir estes objetos onipotentemente, em uma tentativa de conservar seu narcisismo primário. Entendemos por introjeção uma incorporação. O bebê vai introjetar tudo aquilo que é bom e projetar no meio tudo o que é mau. Uma boa mãe introjetada ajudara na formação de um objeto bom, enquanto seus medos e ansiedades podem ser expelidos para objetos externos, como por exemplo as fobias. Logo, objetos externos podem se tornar perseguidores e maus. Nesta fase, se as imagos boas protetoras (objetos bons) não forem suficientes para contrabalançar esta relação entre imagos boas e más, a criança sofrerá uma perseguição paranoica. Klein define fobia como medo de sua própria pulsão destrutiva e dos seus pais introjetados, e a ansiedade fóbica surge quando seu objeto é percebido.  Em relação às imagos introjetadas, em sua phantasia o bebê ataca o corpo de sua mãe e posteriormente vai ter medo da retaliação contra seu corpo por parte dessa mãe má interna. Essas ansiedades são sentidas dentro do corpo, logo, é em seu interior que as restituições devem ser feitas. Porém, não se pode ter certeza quanto às destruições causadas e as reparações feitas ao corpo da mãe. Estas duvidas dão origem as necessidades compulsivas de arrumar aquilo que foi desarrumado, criando para isto regras e manias compulsivas. É essencial que se arrume aquilo que foi estragado. “No neurótico obsessivo, a coerção infligida contra outras pessoas é o resultado de uma projeção multiforme: Tenta se livrar da compulsão intolerável que esta sofrendo – trata seu objeto como se fosse o id ou seu superego e deslocando a coerção para fora; Assim, satisfaz seu sadismo – atormenta e subjuga seu objeto; Esta pondo para fora em seus objetos externos, seu medo de ser destruído por seus objetos introjetados. Esse medo despertou nele uma compulsão de controlar e governar suas imagos” – (Melanie Klein – Cap. IX – pg186- Psicanálise de Criança). Se tudo deu errado e o objeto causador de ansiedade continua muito presente, a criança então vai se identificar com ele – tornar-se igual a ele, buscando assim não ser destruído por este objeto. O problema nessa identificação é que a criança se torna então igual a sua mãe, porém ela não é sua mãe. No entanto, nasce um registro que dita “você tem que ser igual a sua mãe”. Assim, esse registro é o que entendemos por superego. Logo, ao final de toda identificação, nasce o superego.Este registro que aponta e diz para o ser que ele tem que ser igual a sua mãe, entendemos como ideal do ego (aquilo que esperam que eu seja). Toda identificação possui um superego embutido. A criança não é a mãe, mas "tem que” ser. Todo ser humano introjeta (psicose)  e depois se identifica (neurose) com seus objetos. “A neurose obsessiva é um meio de modificar situações de ansiedade arcaicas e que o superego severo da neurose obsessiva não é outro senão o superego aterrorizador não modificado”. (Melanie Klein – Cap. IX – pág. 184– Psicanálise de Criança). A repressão começa na primeira identificação (antes da fala); Aqui começa o processo simbólico. No entanto, a mãe não resolverá o problema do bebê. A plenitude não será alcançada através da mãe. Um terceiro elemento surge como promessa de alcançar a plenitude – O falo (tudo aquilo que não é minha mãe, mas esta possui); Ao final da posição depressiva, o bebê deve ter um registro do seio, ideal do ego e do falo. Como herdeiro do narcisismo do bebê, o falo agora é aquele que resolverá todos os seus problemas, e o lançara em direção à plenitude, tendência da pulsão de morte. Inicia-se o processo de simbolização com palavras. Primeiramente, o bebê nomeia o falo como leite, depois coco, depois chocalho até finalmente chegar no pênis. Os mesmos desejos anteriores de suprimir, possuir e identificar, surgirão novamente agora em relação ao falo. A relação antes vivida a dois, passa agora a ser formada pelo triangulo – bebê / mãe / falo. Como o bebê já passou anteriormente pelo processo de suprimir, agora ele vai diretamente para o “possuir”. Logo, em sua phantasia, ele possuiu o falo. Sente-se potente internamente, detentor do seu próprio herdeiro do narcisismo. Do ponto de vista corporal, começam a surgir estímulos das zonas erógenas, ganhando primeiro plano os genitais. O que antes era objeto de amor, agora é ressignificado, tornando-se objeto sexual – epifania sexual. Os pais tornam-se objetos sexuais. Logo, a partir do seu desejo sexual, o bebê deduz que seus pais também sentem este desejos e prazeres, começando a entender que o mundo é feito de objetos sexuais.   Os pais tornam-se “seus” objetos sexuais. Surgem duas mães distintas: aquela que alimenta, dá o leite, carinho, ou seja, uma mãe assexuada, e uma mãe aquela que é objeto sexual. Um fator importante acontece para tornar este novo cenário confuso. As crianças descobrem as diferenças sexuais. A partir de agora, não é mais um ser único. O cenário enlouquece. Inicia-se o édipo e a castração. No menino, tal processo se dá da seguinte forma: suas sensações   erógenas do pênis apontam para sua mãe. No entanto, esta pertence ao pai, que também possui um pênis. A confusão se dá pelo fato da mãe seduzir a criança a deixar a masturbação e de certa forma se oferecer como objeto de desejo. Porém, a figura do pai aparece e impede a realização desse desejo. Assim, a criança fica em um estado confusional. Não pode se masturbar, e não pode desejar a mãe. Logo, a pedra de toque da neurose está exatamente neste ponto, onde uma espécie de promessa é formulada da seguinte maneira: “Se você (bebê) esperar uns dez anos para se resolver, eu vou te amar”. Assim, se o bebê fizer esse sacrifício, será amado pelos pais.  A mãe se coloca diante do bebê como se dissesse: não me tome como objeto de desejo, mas sim de amor. em relação ao pai, a criança pode suprimir, possuir ou identificar-se com este opositor. Sua identificação poderá ser de duas formas: coito ativa/passiva e tornar-se igual. O menino também entra em uma simbiose com o pai, desejando devora-lo e ser devorado, dar e comer, e este desejo gera a principal angustia do Édipo – desejar o pai... O genitor do mesmo sexo torna-se o maior problema do édipo. Ao final do Édipo, os pais serão dessexualizados, porém a angustia não cessará, mas será adiada. O menino tem o falo, identificou-se com o pai. Prefere o falo (aquele que lhe dará a esperança de retornar à plenitude) à sua mãe. Sua grande angustia de castração é perder este falo (perder o narcisismo), a perda da autoestima.

Considerações sobre a teoria dos sonhos

Por Janete Vilella -  A Psicanálise é um termo que serve para se referir a uma teoria, a um método de investigação e a uma prática profissional (clínica). No desenvolvimento da Psicanálise, Freud produziu tudo isso ao mesmo tempo. Porém, ela é, antes de tudo, um método, um instrumento de pesquisa, sendo que a obra mais importante e decisiva na sua historia, é a “Interpretação de Sonhos”, exatamente por estar voltada para o estudo de problemas clínicos. A grande originalidade de Freud foi valorizar os sonhos como possibilidade de conhecimento do inconsciente. Freud tinha como objetivo demonstrar que os sonhos podiam ser interpretados ou seja, que os sonhos tinham um “sentido”. Para Freud, os sonhos, juntamente com os atos sintomáticos, os esquecimentos, os lapsos, os chistes, são fenômenos dotados de “sentido”; não ocorrem ao acaso e são ótimos meios de se chegar aos processos inconscientes. Sabia que estava contra a corrente da ciência do seu tempo, que acreditava que os sonhos não eram um ato mental e sim um processo somático, ou seja, o sonho acontecia motivado por indicações registradas no aparelho mental. Freud sabia que fora da ciência acreditava-se que havia no sonho um sentido oculto e  que esse interesse popular pelo sonho e por sua interpretação  vinha desde o  mais remoto tempo, sendo que para interpretá-los dois métodos eram usados: 01-Simbólico: em que o sonho é analisado em seu aspecto  geral, sendo o conteúdo confesso  mudado para um outro de igual teor, inteligível. 02-Decifração: em que o sonho é analisado, não em seu aspecto geral, mas em cada um de seus componentes, ou seja, cada parcela do conteúdo dos sonhos. Quanto mais Freud se empenhava em estudar seus casos clínicos, mais profundamente  observava a influencia que os processos inconscientes tinham na vida das pessoas.  Percebeu que seus pacientes ao falar sobre seus problemas, contavam também os seus sonhos. Esses relatos lhe mostravam que, ao rastrear a trilha que levaria ao sintoma, podia-se seguir uma ideia patológica e o sonho fazia parte dessa cadeia psíquica. O sonho poderia ser tratado como um sintoma, portanto, poder-se-ia aplicar ao sonho o mesmo método de interpretação criado para os sintomas. Ficou claro para Freud que os sonhos realmente tem um sentido e que é possível ter-se um método científico para interpreta-los. Acabara de encontrar a chave para chegar aos conteúdos mais reprimidos do indivíduo. Percebeu o mestre que, ao narrar seus sonhos o paciente deixava de ter uma atitude crítica sobre o que falava ou pensava. Assim, duas mudanças muito importantes  aconteciam durante a narração do sonho: Havia um aumento da atenção que o paciente dispensava as suas próprias percepções psíquicas  e,  a eliminação da crítica pela qual ele filtrava  os pensamentos que lhe ocorriam. Dessa atitude do paciente, percebeu Freud, dependeria o êxito do tratamento psicanalítico. O método de interpretação de sonhos de Freud era diferente do método simbólico e, embora se aproximasse do método da decifração  tem sobre ele diferenças profundas. Embora analise os sonhos em suas várias partes, como um conjunto de informações psíquicas, não tem, como na decifração , um código fixo para cada parte do sonho. Pelo contrário, Freud constatou que cada parcela de conteúdo variava para cada pessoa e cada contexto.  Seu método, portanto, era interpretativo / associativo. Associativo por que se formava uma cadeia associando as representações verbais. Mas, foi ao analisar seu próprio sonho, no qual aparecia Irma, sua paciente, que Freud percebeu que os sonhos são a realização de desejos e que todo desejo é representado por uma forma verbal. No sonho, os desejos não são descarregados na ação e sim satisfeitos de forma alucinatória. Freud chamou a esses sonhos  sem conflitos, de sonhos infantis. A partir dessa constatação, Freud começa a desenvolver a noção de censura, de repressão, recalcamento, considerando essa última como um dos pilares da Psicanálise.