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A criação de símbolos na neurose obsessiva

Por Sérgio Rossoni -  Podemos entender por aparelho psíquico a expressão que ressalta certas características que a teoria freudiana atribui ao psiquismo: a sua capacidade de transmitir e de transformar uma energia determinada e a sua diferenciação em sistemas ou instâncias. (Laplanche e Pontalis – Dicionário de Psicanálise – pág. 29). Em última análise, a função do aparelho psíquico é manter ao nível mais baixo possível a energia interna de um organismo. (Laplanche e Pontalis – Dicionário de Psicanálise – pág. 30). Para W.R. Bion, um dos mais importantes psicanalistas, o aparelho psíquico se resume da seguinte forma: soma (conjunto das partes que constitui um todo) psique, e o vínculo que os liga. Parte da análise Bioniana será baseada na forma como meu corpo se liga à minha mente e vice-versa.  Um vínculo se forma ligando ambas as partes. Exemplo: A criança sente fome; A mãe lhe dá o seio; A imagem deste seio é a psique. É formado então um primeiro vinculo, ou como Freud nomeou, Representações de coisas. (consiste num investimento, se não de imagens mnésicas diretas da coisa, pelo menos nos traços mnésicos mais afastados, derivados dela- Laplanche e Pontalis – Dicionário de Psicanálise – pág. 450). Assim, um vinculo é criado entre a necessidade de comer com a imagem do seio. Os vínculos que vão se criando formam a base da psique (aparelho psíquico como um todo). É importante entendermos o conceito de vínculo para Bion: designa uma experiência emocional na qual duas pessoas, ou duas partes de uma mesma pessoa estão relacionadas uma com a outra. Bion considera que três emoções básicas são fatores sempre presentes em qualquer vínculo: as de amor (L), as de ódio (H) e conhecimento (K). (David Zimermam – Bion da teoria à prática – pág. 102). Para Bion, o vinculo entre mãe e bebê não pode ser descrito somente em termos de amor e ódio. É necessário ter um terceiro tipo de vinculo que é o desejo da mãe em compreender o seu bebê (K). Entre as sensações corpóreas também vão se criando vínculos. Citando o mesmo exemplo anterior da criança sentir fome, cria-se um vínculo entre comer e defecar. Desta forma, cria-se uma espécie de rede formada por diversos vínculos que vão se desdobrando, conectados através da experiência vivida. Exemplo: o sentir fome faz com que o indivíduo busque o alimento, que uma vez ingerido e saciado seu desejo e necessidade vai fazer mais tarde, com que sinta necessidade de defecar, etc. Sem a experiência, é impossível realizar as conexões, e é graças à psique que entendemos essas experiências corpóreas. Enquanto o soma entende ponto a ponto (comer – defecar), a psique junta estes pontos permitindo uma compreensão entre estes pontos. Assim, o que liga seio à fome é a função vincular. Num primeiro estágio, cria a representação de coisas (seio, comida, etc), passando para um segundo estágio onde estas representações de coisas são juntadas (seio sacia a fome). Para D.W. Winnicott, ao nascer o self é desintegrado. Aos poucos, os objetos vão se integrando, e por detrás de cada objeto, segundo Bion, existe um vínculo. No esquizofrênico, a capacidade vincular é extremamente prejudicada. Podemos entender por Phantasia, o conjunto de representações de coisas (conjunto de conexões), que vão criando vínculos na medida em que vão se combinando (seio – fome). Porém, os vínculos se formam a partir da experiência proporcionada pela mãe (holding), e acabam formando a psique. A forma como estes vínculos vão se juntando é o que Melanie Klein denominou de posição. O desejo de voltar para o estado uterino, faz com que primeiramente o organismo tente jogar seus objetos para fora. Nascer é ruim; Sentir fome, sede, necessidade de defecar, etc, estão longe da plenitude antes vivida no útero. É preciso lança-los para fora buscando o retorno à plenitude. Através da projeção o bebê os lança em direção ao mundo externo (em algo ou alguém), tentando controlá-los através de mecanismos de defesa como a onipotência. Porém, o meio ambiente faz com que estes objetos retornem (introjeção), criando assim um ciclo de projeção e introjeção. É preciso então separar objetos maus e bons para se obter uma certa ordem interna. Onipotentemente, o bebê realiza esta separação, ou seja, faz uma cisão. Agora, o mundo e seus objetos são bons ou maus. Melanie Klein definiu este período do desenvolvimento de posição esquizoparanóide. Os objetos maus serão lançados novamente para fora, e através da identificação, o bebê vai incorporar os objetos bons, tornando-se o próprio objeto bom. Lembrando que objetos bons e maus são projetados e introjetados, sendo a experiência no mundo real, o holding materno, o amor, etc, fatores fundamentais para que este mundo interno seja constituído mais de objetos bons do que maus. Num segundo estádio, com seu self mais integrado, o bebê agora percebe o objeto como único. A figura da mãe é percebida como única. Os objetos são únicos. Logo, entende que o objeto mau é o mesmo objeto bom. Surge então a culpa por ter em sua phantasia atacado e destruído aquele objeto anterior mau, que pode agora ser entendido também como objeto bom. Melanie Klein nomeou este estágio de posição depressiva. A dor da perda, a culpa, a gratidão, levam então o ser para um novo estádio, onde o bebê começa a assumir sua parcela de responsabilidade diante dos fatos bons e ruins. Podemos agora exemplificar a psique como uma espécie de moeda que contêm a soma de todos os objetos bons e maus. Posição depressiva pode ser entendido como o vinculo que se forma entre a psique, e todos os outros objetos. Quando tudo é juntado em uma mesma “moeda”, é criado um símbolo. Os símbolos permitem que um todo seja reconhecido nas partes fragmentadas e dispersas, e que, a partir de um todo, se venham a descobrir as partes. O símbolo é a unidade perdida e refeita, porém esse reencontro unificador não deve se dar nos moldes originais, mas sim no reencontro de um mesmo com um diferente, visto que, na situação psicanalítica, simbolizar consiste em captar o sentido em um outro nível, a partir de um outro vértice. (David Zimermam – Bion da teoria a pratica – cap. 13 – pág. 159) A capacidade de suportar perdas esta associada à posição depressiva, ou seja, é essencial que a criança para suportar perdas e frustrações, tenha feito a passagem da posição esquizoparanóide para a posição depressiva. A capacidade de criar símbolos depende da capacidade do ego de suportar perdas e substituí-las por símbolos. (David Zimermam – Bion da teoria a pratica – cap. 13 – pág. 159) Bion, ao estudar os processos criativos inerentes aos do conhecimento, vem discordar de que estes tenham um movimento único, progressivo da posição esquizoparanóide para a depressiva. O processo criativo consiste em um movimento alternativo, alterando-se de um lado a outro por entre as posições de Klein. Todos nós possuímos um núcleo neurótico e psicótico. Estaremos eternamente flutuando entre as duas posições Kleinianas, nos sentindo em um momento, perseguidos por um objeto mau, vitimas de ataques, etc, passando em outro momento a nos sentirmos culpados por desfazer ataques, gratos pelo amor recebido, etc. Assim, o ser revive o ciclo das posições – jogar fora objetos maus, ficando com os bons (posição esquizoparanóide), passando para a posição depressiva; Após a posição depressiva, surge o que Winnicott denominou de objeto transicional (algo entre a phantasia e a realidade).Objeto Transicional- Surge para o bebe uma bola de lã, um boneco, um cobertor, uma melodia, etc – algum objeto que diminua sua ansiedade, principalmente sua ansiedade depressiva. Algo que simbolize a mãe “boa”; Algo que nunca “falte”. (D.W. Winnicott – O brincar e a realidade) Por realidade compartilhada, entende-se a capacidade de ambos entenderem o valor do objeto, sendo o objeto transicional aquele que chega na realidade compartilhada, resultando na comunicação entre as pessoas. Por empatia, entendemos a capacidade de perceber a identificação projetiva que o outro está fazendo das representações de coisas. Principio básico da contratransferência. Na análise, deve-se interpretar e informar ao analisando sobre suas transferências. Como resultado, espera-se que o analisando obtenha insights e elaborações, posicionando-se diante de velhas situações e angustias, sob uma nova óptica. Aquilo que interpretamos, nada mais é do que o desejo da realização de uma phantasia, e o processo de elaboração pressupõem a perda desta phantasia. Vivemos em torno de um grande dilema – o desejo da realização de nossas phantasias, versus a realidade. Nossa mente (forma racional de trabalho do aparelho psíquico),também chamada pela filosofia de razão, pode ser utilizada estrategicamente para resolver este dilema. A mente pode ser usada para buscar a verdade, bem como para encobri-la, buscando na mentira um falso caminho para a realização dos desejos phantasiosos. Segundo Bion, a razão é utilizada na maioria das vezes para falsear ao invés de falar a verdade, aliada aos mecanismos de defesa diversos. A mente é utilizada para que o indivíduo se mantenha na phantasia, afastado da realidade dura. Logo, como analista, é necessário que eu descubra qual é a função da mente do analisando, ou seja, como ela trabalhando a favor dos desejos do mesmo. Segundo Melanie Klein, o neurótico obsessivo se utiliza à razão precocemente a serviço de suas phantasias. Dentro da visão Kleiniana, toda problemática do ser gira em torno da pulsão de morte. Assim, a mente serve para controlar esta pulsão, servindo de solução para a pulsão de morte. No neurótico obsessivo, a mente trabalha de forma dissociada. Ego forte = ego que assegura plenamente o exercício das pulsões modificadas e controladas por ele, de um modo compatível com as exigências da realidade exterior. É forte o ego que pode, sem maior desordem, fazer frente às demandas atuais e normalmente previsíveis da realidade exterior. Os mecanismos neuróticos servem para apaziguar os impulsos destrutivos e violentos. Logo, a neurose é uma defesa contra tais impulsos psicóticos. Utilizando mecanismos neuróticos, o ego tenta através da neurose solucionar o problema da angustia. Neurose Obsessiva é uma tentativa depressiva de dar conta das questões que angustiam. Como característica, os neuróticos obsessivos utilizam um critério racional para resolver a síntese entre o bom e mau. Cria um mito, e passando a crer na sua verdade daquilo que é bom e mau. Na neurose obsessiva, a razão é utilizada para dissociar, transformando uma determinada ansiedade, em algo suportável, idealizando, dissociando, etc. Afastar o mau é sua estratégia principal. A razão é utilizada para banir o mau. A neurose é uma relação masoquista por parte do ego – para manter-se em equilíbrio com o superego, rompendo suas relações libidinais, o ego se submete a uma serie de expiações. No final, todo o jogo de defesa e agressões acabam se voltando contra ele mesmo. As defesas também são lembretes em relação aos seus temores. Assim, todo tempo o ego é lembrado do objeto temido. Se por um lado o ritual espanta o mal, também vive lembrando que este existe. Logo, o ritual reforça o mal ao mesmo tempo em que o espanta. Na neurose obsessiva, a mente vai se unir a um superego muito forte, amplificando e reforçando seus critérios. Criando uma ilusão de óptica, não se pode distinguir a fonte destes critérios, não sendo possível precisar sua origem é proveniente do superego. Criação e criador se fundem. Critérios de uma cultura, civilização, família, já estão contidos no superego. A sociedade cria teorias para justificar seus critérios que são pré-existentes.

James Holmes

Por Ale Esclapes -  Algumas pessoas me perguntam o que a psicanálise tem a dizer sobre James Holmes, o atirador que matou 12 pessoas em Denver, nos EUA. Frustrando um pouco os interlocutores, que gostariam de ouvir algo como “provavelmente algo aconteceu na relação entre ele e seus pais”, etc ... eu simplesmente digo – creio que precisamos de algo, alguma teoria que devolva ordem ao caos que esse tipo de evento cria em nós. Sem explicação, uma simples ida ao supermercado pode virar um tormento ou uma crise de pânico.  E nessa hora, corremos o risco de trocar um simples “não sei / não sabemos” por alguma teoria que faça o efeito de um ansiolítico. Analistas às vezes tem esse tipo de comportamento, humano demasiado humano, de andar com uma teoria embaixo do braço para fugir daquele lugar no real que simplesmente pode não ter sentido. Bion chamou esse sentimento de “arrogância”. Tudo que não podemos fazer por nós é sacar algum tipo de explicação que não explica nada, pois até agora nada foi explicado em relação a esses casos. Temos simplesmente “teorias”, em alguns casos alguns padrões. Não faltarão aqueles que vão apresentar a “morte da família”, ou a “sociedade em desordem”, ou um efeito colateral da “nova ordem simbólica” para explicar tais fatos. São os mesmos que desconhecem o holocausto dos armênios (só para citar um evento antecessor, mas longe de ser o único), e juram de pé junto que o holocausto começou com o povo judeu – ou fazem questão de não saber. Esse tipo de horror assola o humano desde que somos humanos. Tudo isso é humano, e tudo isso nos pertence. Talvez nos reste ver onde se encontra o “James Holmes” em nós mesmos, antes de sair procurando na parta ao lado. Se ele pode fazer isso, nós também podemos. E inevitavelmente pode-se perguntar – qual foi a última vez que você disse a quem ama – “eu te amo”?

Queem Rania

Por Ale Esclapes -  Vi um documentário na GNT sobre algumas ações de mídia da Rainha da Jordânia, Vossa Majestade Rainha Rania, no qual através do Youtube V.Sa. Majestade criou uma série de vídeos para combater o preconceito em relação ao papel da mulher em seu país e sobre o mundo árabe junto ao ocidente. Uma ação moderna, que mostra ao ocidente uma Jordânia idem, com pessoas que afinal não são lá muito diferentes de nós. Mas o que me marcou foi ver uma apresentação de alguns jovens em um centro multimídia para a rainha. Eles cantaram rap! Um rapaz e uma moça, com véu islâmico e tudo, cantando rap – que maravilha! Não que esteja fazendo apologia do rap, ou de costumes ocidentais. O ponto aqui é como a internet e o que ela nos proporciona. Cada vez mais estamos nos globalizando, em todos os sentidos. Vou deixar de fora a globalização econômica, pois não a vejo como ponto principal do que ocorre, algo para além do dito “mercado”. Outro dia vi alguns documentários sobre Japão, e vi japoneses, de quimono, também cantando rap. É a globalização cultural que me chama atenção. Se por um lado nossas diferenças de lado, aquelas que podem nos fazer guerrear e matar outros seres humanos, por outro perdemos um pouco da identidade cultural. No programa Café Filosófico de domingo a psicóloga Rosely Sayão falava algo nesse sentido – como os pais têm receio de limitar a circulação de seus filhos se adotarem uma postura cultural mais ampla sobre eles. Judeus não devem parecer tão judeus assim, árabes nem tão árabes assim, etc ... Essa globalização cultural pode virar pasteurização se o essencial de cada cultura não for preservado, pois essa identidade cultural de valores é para onde o ser humano caminha na sua jornada. Retirar isso dele é retirar a sua possibilidade de lá na frente, logo depois dos 60, 70 anos, não ter aonde chegar. E no presente não deixar claro os limites da personalidade dos nossos jovens.

To be or not to be...

Por Ale Esclapes -  Existe um perfil na clínica contemporânea envolvendo mulheres e homens com uma posição razoável nas empresas, entre trinta e quarenta e cinco anos, e que traz um profundo sofrimento. Para falarmos sobre esse perfil precisamos entender dois conceitos muito importantes na vida de uma pessoa: a) Existe uma parte da pessoa que simplesmente “é” – e esse “ser” é algo singular e individual, é um “ser” que nos diferencia de todos os outros seres do planeta. São nossas potencialidades, nossos dons, etc ... Esse “ser” é algo muito escondido, e muitas vezes nem nós mesmos sabemos quem “somos”. b) Existe uma outra parte que se relaciona com outras pessoas, com a sociedade, que tem que se relacionar com o chefe, a mãe, etc... Vamos chamar essa parte de “persona”. Esse nome é utilizado há muito tempo no teatro quase como um sinônimo de personagem.  Existe um sofrimento muito comum nos dias de hoje no qual a persona torna-se maior que o “ser”. Nessa hora a pessoa não se sente “sendo” alguém, mas REPRESENTANDO alguém. Isso acaba trazendo um sofrimento muito grande, e que se manifesta na forma de um vazio existencial, de culpa, etc... É muito comum hoje em dia a angústia trazida por pais que precisam trabalhar mais de doze horas por dia, fazer MBA, falar inglês, espanhol e mandarim (sic). A questão que esses pais trazem justamente é uma crise no “ser” pai, e não “representar” o papel de pai ou mãe. Isso porque primeiro não sobra tempo para “ser” pai, somente para, como numa peça de teatro que dura no máximo uma hora e meia, representar esse papel. Nessa hora aparece a culpa por não “ser” pai ou mãe, ao mesmo tempo em que não se deseja abandonar a “persona” profissional. Quando esses pacientes narram o seu dia, e falam com certo orgulho que trabalham 12 horas ou mais por dia, imediatamente pergunto PARA QUE trabalhar tanto. A resposta clássica é: pela minha família ou meus filhos. A questão aqui é esses pacientes não têm tempo para ficar com suas famílias, logo volta-se a pergunta: PARA QUE trabalhar tanto mesmo? Muitas vezes esse quadro envolve um luto que não se realiza, algo que ali esta mas que não permite que o “ser” possa se manifestar em toda a sua potencialidade: a “persona”. A pessoa sufoca o “ser” e muitas vezes cria cicatrizes profundas em pessoas que amam por não conseguirem abandonar uma “persona” profissional, que quando se olha bem de perto, não tem nada a ver com a família ou filhos, mas sim com sonhos, desejos, ambições, que advém disfarçados na “persona” de pai ou mãe. Para que você trabalha mesmo?

Myrian Rios e o pré-conceito

Por Alê Esclapes -  Primeiramente gostaria de deixar claro que esse post não pretende tratar de preconceito aos gays, mas pré-conceito à ignorância.Posto o objeto de estudo convido o leitor a visitar a página: http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/famosos/2011/06/27/278404-myrian-rios-dispara-eu-tenho-direito-de-nao-querer-um-homossexual-como-meu-empregado e se possível que se assista ao vídeo da deputada estadual do Rio de Janeiro, e se não for abusar da boa vontade, dos comentários deixados no site.  Vamos fazer uma brincadeira simples (mas muito séria) com a frase da Nobre Deputada, trocando uma única palavra e ver o que acontece. Primeiramente a frase dita, e em negrito o que será substituído por outra palavra: “Não sou preconceituosa e não discrimino. Só que eu tenho que ter o direito de não querer um homossexual como meu empregado, eventualmente... Por exemplo, digamos que eu tenha duas meninas em casa e a minha babá é lésbica. Se a minha orientação sexual for contrária e eu quiser demiti-la, eu não posso. O direito que a babá tem de querer ser lésbica, é o mesmo que eu tenho de não querer ela na minha casa. São os mesmos direitos. Eu vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus até se ela não vai cometer pedofilia contra elas, e eu não vou poder fazer nada ...Se eu contrato um motorista homossexual, e ele tentar, de uma maneira ou outra, bolinar meu filho, eu não posso demiti-lo. Eu quero a lei para demitir sim, para mostrar que minha orientação sexual é outra”. Agora uma pequena substituição: “Não sou preconceituosa e não discrimino. Só que eu tenho que ter o direito de não querer um negro como meu empregado, eventualmente ... Por exemplo, digamos que eu tenha duas meninas em casa e a minha babá é negra. Se a minha cor de pele for contrária e eu quiser demiti-la, eu não posso. O direito que a babá tem de querer ser negra, é o mesmo que eu tenho de não querer ela na minha casa. São os mesmos direitos. Eu vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus até se ela não vai cometer pedofilia contra elas, e eu não vou poder fazer nada ...Se eu contrato um motorista negro, e ele tentar, de uma maneira ou outra, bolinar meu filho, eu não posso demiti-lo. Eu quero a lei para demitir sim, para mostrar que minha cor de pele é outra”. Que tal outra: “Não sou preconceituosa e não discrimino. Só que eu tenho que ter o direito de não querer um nordestino como meu empregado, eventualmente ... Por exemplo, digamos que eu tenha duas meninas em casa e a minha babá é nordestina. Se a minha ascendência for contrária e eu quiser demiti-la, eu não posso. O direito que a babá tem de querer ser nordestina, é o mesmo que eu tenho de não querer ela na minha casa. São os mesmos direitos. Eu vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus até se ela não vai cometer pedofilia contra elas, e eu não vou poder fazer nada ...Se eu contrato um motorista nordestino, e ele tentar, de uma maneira ou outra, bolinar meu filho, eu não posso demiti-lo. Eu quero a lei para demitir sim, para mostrar que minha ascendência é outra”. E mais outra: “Não sou preconceituosa e não discrimino. Só que eu tenho que ter o direito de não querer um pobre como meu empregado, eventualmente ... Por exemplo, digamos que eu tenha duas meninas em casa e a minha babá é pobre. Se a minha classe social for contrária e eu quiser demiti-la, eu não posso. O direito que a babá tem de querer ser pobre, é o mesmo que eu tenho de não querer ela na minha casa. São os mesmos direitos. Eu vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus até se ela não vai cometer pedofilia contra elas, e eu não vou poder fazer nada ...Se eu contrato um motorista pobre, e ele tentar, de uma maneira ou outra, bolinar meu filho, eu não posso demiti-lo. Eu quero a lei para demitir sim, para mostrar que minha classe social é outra”. E mais outra: “Não sou preconceituosa e não discrimino. Só que eu tenho que ter o direito de não querer um feio como meu empregado, eventualmente ... Por exemplo, digamos que eu tenha duas meninas em casa e a minha babá é feia. Se a minha estética for contrária e eu quiser demiti-la, eu não posso. O direito que a babá tem de querer ser feia, é o mesmo que eu tenho de não querer ela na minha casa. São os mesmos direitos. Eu vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus até se ela não vai cometer pedofilia contra elas, e eu não vou poder fazer nada ...Se eu contrato um motorista feio, e ele tentar, de uma maneira ou outra, bolinar meu filho, eu não posso demiti-lo. Eu quero a lei para demitir sim, para mostrar que minha estética é outra”. Em outras palavras, não adianta tentar “travestir” preconceito como pré-conceito, como um “direito”. De acordo com nossa constituição, a senhora não tem o direito de ser preconceituosa. O mundo está cheio de armadilhas naquilo que não é dito, mas subentendido. O preconceito esta na estrutura do pensar e aquele que apoia um tipo de preconceito, assina embaixo a possibilidade de sofrer do mesmo mal.

O anel que tu me deste

Por Ale Esclapes -  ... era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas, era pouco e se acabou.” Essa é uma pequena metáfora da confusão emocional que se estabelece entre mãe e filho, e que marca essa relação pelo resto da vida, deixando marcas profundas em cada um dos pares. E tudo isso com uma pequena contribuição do pieguismo social. Uma das maiores angústias da mulher (se não a maior) é saber se pode ou não gestar um filho. Muitas vezes todas as suas frustrações (que no ser humano não são pequenas) são direcionadas para esse evento, como se ter um filho resolvesse todas as angustias da vida. Em muitos casos também, esses indivíduos não conseguiram atingir o “status” de adulto, e não tendo podido velar e enterrar a infância com dignidade, tentam pular a fase adulta, tornando-se mãe, retornando aos dois únicos personagens da vida da infância: a mãe e o filho, numa eterna brincadeira de boneca.  Freud escreveu em “Uma introdução ao narcisismo” que amamos nossos filhos de acordo com o que gostaríamos de ser, de acordo com o que fomos, ou do que somos – em suma, amamos nossos filhos como uma extensão de nós mesmos, como um espelho que deveria refletir nossa imagem. Existe uma enorme dificuldade de vermos os filhos como seres separados, com um sentido de vida independente do nosso, com desejos que muitas vezes não levam em consideração os de seus pais. “Cria-se filhos para o mundo!” Todo mundo sabe disso, mas da boca para fora – para dentro a conversa é outra. Esses dois quadros dão uma boa ideia de pelo menos um dos principais ingredientes do amor materno (e paterno): REDENÇÃO! (mas não o único). O filho pelo seu lado é tratado principalmente na primeira infância como o centro da casa. Para essa criança ela não é apenas o centro da casa, mas o centro do universo (pelo menos do universo que essa criança conhece). Todas as suas necessidades são prontamente supridas por uma mãe que enxerga, entre outras coisas, a redenção dela nessa criança. É o amor incondicional materno que cria uma ilusão que um dia fomos “os mestres do universo”. Porém tudo isso é falso e necessário, e esse par tem um encontro marcado com a verdade – que não somos o centro do universo e que nossos filhos não são nossa redenção. Quanto mais cedo isso ocorrer (e formos capazes de assimilar isso) poderemos assumir a responsabilidade por nossas vidas. Essa confusão de sentimentos é necessária, pois somente uma mãe que acredita que seu bebê é sua redenção pode lhe dar amor incondicional, acordar seis vezes por noite para dar-lhe de mamar, etc ... E sem esse amor incondicional, sem essa sensação de que um dia fomos o centro do universo, estaríamos condenados a loucura, e a sofrermos de uma eterna baixa estima.

Quando acontece a contratransferência no setting analítico

Por Ana Cristina Campos D'almeida -  Com este estudo pretendo desenvolver uma reflexão sobre o aspecto multidimensional do encontro analítico, bem como enfatizar a importância da existência de uma comunicação não linear e o quanto esta comunicação traduz os movimentos de transferência e contratransferência que fluem neste encontro e que lhe dão vida e significado. Proponho também, um olhar sobre a qualidade de nosso sentimento enquanto analista em querer entender determinados conhecimentos adquiridos através de leituras e estudos e experimentá-los no setting.  Palavras Chaves: Inconsciente, objetos subjetivos, transferência, contratransferência, vinculo analítico, Impacto emocional, comunicação verbal e não verbal, desejo de entendimento, intuir e o sentir analítico. Introdução: Este trabalho não se trata de um caso em específico, mas de sentimentos e metas (sic) que me propus a viver no setting, a partir de estudos que realizei durante a formação em psicanálise, e que influenciaram minha postura como analista no início de meu estágio clínico. Isso tudo tem relação também com as sensações que sentia durante a sessão analítica, sensação de sonolência, peso, boceja e cansaço decorrentes do que estava acontecendo no setting. Reconheço através destas sensações que passei a compartilhar com meu paciente, um nível de sensações e sentimentos que iam para além da comunicação verbal, estendendo-se para um nível de comunicação visceral, trazendo com isto, uma nova qualidade, uma nova ordem a este encontro analítico. Quero compartilhar também o que inicialmente estas sensações mobilizavam em mim, enquanto analista, centrada que estava em minhas metas estabelecidas (ledo engano) a partir dos estudos realizados, presa em conceitos e ideias, que hoje reconheço idealizadas, as quais provocaram um desejo de entendimento daqueles estudos, através dos movimentos do setting. Foi somente a partir das orientações do revisor, na elaboração deste artigo³, que passei a reconhecer que para mim, primeiro vinha o conceito que me encantou após a vivência no setting, a qual passava a estar moldada em função do conceito elegido por conceito por mim.  A contratransferência do analista Esta parte do meu trabalho está centrado no momento em que abria a porta do meu consultório para receber meu paciente: proponho um olhar, uma reflexão para este meu instante mental. Era na fase inicial de meu estágio clínico, minha mente repleta de metas, com desejos e sonhos a experimentar, povoada por desejos de entender, de vivenciar aquilo que eu supus que fosse a partir de materiais tirado de leituras. Havia uma leitura que me encantava mais do que todas as demais, o livro era este: ‘Quem é o sonhador que sonha o sonho? : Um estudo de presenças psíquicas’ (GROTSTEIN, 2003) Fiquei realmente encantada com esta perspectiva, a existência de presenças psíquicas, e passei a procura-las da mesma forma que os caçadores de fantasmas o fazem. Meu desejo de entender do que se tratava isto e de como eu poderia sentir estas presenças, orientou toda a minha ação analítica, naquela fase inicial de atendimento. Para mim, naquele período meu paciente era um manancial de presenças psíquicas e eu seria aquela que as decifraria para ele. Esta busca, portanto, passou a ser uma meta que se estendeu a todo atendimento realizado naquele período. Até que ao realizar a primeira versão deste estudo compreendi que esta busca por presenças psíquicas era de fato a expressão do meu desejo de entendimento, sendo, portanto, a extensão de minha própria contratransferência, e, foi através deste reconhecimento que consegui me reorientar e reorganizar meu sentido e significado como analista. Percebi-me atuante no setting tanto quanto o meu paciente, e penso que até mais, já que entre ele e eu havia uma busca de minha parte por entender o que seriam estas supostas presenças psíquicas (as que li no livro acima citado), imersa em um processo de idealização a partir de uma breve leitura sobre o assunto. Ao perceber isso tudo, consegui ter alguns insights sobre minha atuação, pois compreender isto foi forte para mim, mas profundamente libertador pois aprendi a estudar – ou seja, ler, entender e seguir a diante e não ficar presa em especulações. Para esta postura de receber meu paciente com o desejo de entender aquilo que estudei anteriormente – aprendi que tem um nome – Contratransferência. Depois de meu revisor da primeira versão desse trabalho ter me mostrado o real significado do que estava acontecendo comigo, e do que isto poderia resultar das sessões realizadas, senti vontade de começar tudo novamente, só que desta vez não era mais a partir de uma ideia que me encantou e que me gerou desejos e suposições, mas de um fato clínico gerado por mim, enquanto analista. Senti a necessidade de estudar para entender e transformar minha postura enquanto analista. Passei a refletir qual o sentido e o propósito do encontro analítico. “O que é um encontro analítico? Uma relação que produz um impacto emocional mútuo – troca de informações – tanto no âmbito verbal como não verbal.” (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 30) Ao reconhecer que um encontro analítico é uma relação que produz impacto emocional mútuo – refleti, qual o impacto emocional que eu proporcionava ao meu paciente se na realidade estava utilizando aquele setting para testar minhas suposições? Neste momento refleti sobre o que eu estava de fato gerando em meu paciente? Foi quando me deparei com a contratransferência – “O que é Contratransferência? Uma escuta por meio dos sentimentos do analista, o que o paciente diz e o que o paciente não diz, por ignorá-lo no nível do Cs. Uma teoria de dupla, de vínculo dos fenômenos que ocorrem no par analítico e não apenas no paciente”. (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 30)No encontro analítico existe um par, existe uma interação e é a partir desta, que surge o vínculo que une os dois. Reconheço-me procurando por presenças psíquicas, querendo ter a experiência de estar diante do sonhador e ao mesmo tempo completamente alheia a interação que se construía entre eu, analista e o meu paciente, interação esta que só se dá a partir do momento presente do setting. Na realidade este desejo de entender pode ser denominado de ... “Contratransferência Indireta – transferência do analista em relação a totalidade dos objetos, que de modo indireto, são transferidos para o paciente”. (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 30)  Compreendo hoje, que o que influenciou meu sentimento para que tal fato ocorresse foi minha excessiva onipotência, na medida em que o cenário em mim, já estava todo montado cabendo ao meu paciente apenas concretizá-lo.  Nesta hora em que estou escrevendo isto eu penso, onde estava minha neutralidade? Na medida em que eu estava completamente imersa em uma fantasia de entendimento e experimentação de algo que apenas estudei e me encantei ao ler? Fica aqui uma reflexão...  A contratransferência como comunicação: O outro item também em relação à contratransferência que pretendo tratar é sobre as sensações que sinto durante o setting, tais como o sono, o peso, o cansaço e o bocejo. Em determinados momentos do encontro terapêutico, minha luta passa a ser comigo mesmo e com as sensações que passam a fazer parte do momento terapêutico e da resistência que tenho de fazer para preservar o ritmo da sessão. Em uma destas ocasiões meu paciente falava de seu sentimento de não dar conta de seus compromissos, um sentimento de incapacidade e inadequação, como se tudo o que fizesse fosse insuficiente e insatisfatório, e começou a me descrever que situações seriam estas e sua sensação de incapacidade em lidar com elas, à medida que descrevia cada uma destas situações, fui sentindo um peso, uma sonolência que sinceramente me era difícil permanecer alerta e concentrada no que ele falava. Sentia realmente o peso da inércia e da inadequação. E a luta titânica para me manter alerta era algo descomunal. Compreender que este estado de sensações e sentimentos é na realidade um aspecto emocional do meu paciente que passo a sentir visceralmente em mim, eu pude realmente compreender o que se passava com ele. “Não só o psicanalista, mas também o psiquiatra contemporâneo, não podem ignorar a importância da utilização e da consulta aos próprios sentimentos em relação ao paciente. Alguns aspectos do paciente só poderão ser compreendidos a partir da consulta dos sentimentos mobilizados no psiquiatra... Inconscientemente este medo é captado e sentido como um mal estar no psiquiatra, que o compreenderá não como um sentimento apenas seu, mas como algo construído pela interação de ambos para expressar uma emoção inconsciente do paciente.” (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 49) Mais uma vez volto a reconhecer a importância da interação que existe entre o analista e analisando, e que esta interação funciona como um cálice a ser construído durante o setting, o qual será o receptáculo para as projeções de nosso paciente, e que poderemos aprofundar nosso entendimento sobre como se sente nosso paciente, sentindo sua ação sobre nós. "[...] Ainda dentro desta concepção, sobre pressões que os pacientes exercem sobre o analista para que este assuma determinado papel, Betty Joseph (1986, 1989), entre os kleinianos, também trouxe importantes contribuições ao descrever a "transferência situação total" Jacó Zaslavsky". Porto Alegre (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 36) "Muito da nossa compreensão da transferência surge por intermédio da nossa compreensão de como os pacientes agem sobre nós, para que sintamos coisas pelos mais variados motivos (...) como atuam inconscientemente conosco na transferência, tentando fazer com que atuemos como eles. (...) se trabalhamos apenas a parte com a parte verbalizadas, nós não levamos realmente em conta as relações objetais que estão sendo atuadas na transferência (...) só podemos apreender através dos sentimentos provocados em nós, através da nossa contratransferência, usada no sentido amplo da palavra". [Joseph, 1885. P.164] citado por (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 49) É neste espaço, neste vínculo que surge a partir desta interação, analista e paciente que deverá fluir nossa atenção, de forma plena e flutuante onde nosso sentir e nossa intuição deverão estar presentes.Será a partir desta interação que se originará todo o material terapêutico sentido, bem como, verbalizado e experimentado visceralmente pelo analista e atuado pelo paciente através da transferência e só, após este processo, por meio da interpretação do que está se passando entre os dois, analista e paciente se tornarão conscientes. Assim passando de uma comunicação pré-verbal, inconsciente e primitiva e que na maioria das vezes influencia muito a maneira de estar com os outros, e consequentemente, com o analista, para uma comunicação verbal – onde ao tornar-se consciente – pensar – o analista que a sentiu poderá interpretar para o paciente o que está se passando entre os dois.  Stern (2000), baseando-se em observações e estudos da interação mãe-bebê, afirma que nas psicoterapias dinâmicas são construídos e organizados dois tipos de conhecimento de representações e de memórias: o explicito(consciente e simbólico) e o procedural(Inconsciente, não simbólico e não verbal)denominado de conhecimento relacional implícito [...] este é a base da relação mãe-bebê [...] diz Stern que continua ao longo da vida, inclusive muitas das maneiras de estar com o terapeuta, que chamamos de transferência. (ZASLAVSKY; SANTOS, 2006, p. 48–49) Confesso que naquele momento terapêutico, em que eu, analista sentia sonolência, vontade de bocejar, cansaço, estava muito mais resistindo àquelas sensações, numa luta feroz em me manter alerta, do que propriamente decifrando tais sensações como reflexas de uma comunicação não verbal de cunho afetivo. E que na verdade resistir faz parte do processo, pois mostra na prática ao paciente como proceder, ou seja, que você não se poes de joelhos frente a essas sensações e se mantém de pé. Isso é uma verdadeira comunicação. Desta forma, tornava-me um receptáculo maciço das identificações projetivas de meu paciente ao mesmo tempo em que ao agir com resistência a estas sensações e sentimentos. Passo a reconhecer que podemos no permitir sentir estas sensações e sentimentos, e o que realmente importa é o destino que damos a elas, até porque não podemos escolher nada sobre isto – o paciente o faz e pronto.Esta é uma realidade intrínseca ao encontro analítico. Possuímos duas alternativas: ou podemos resistir a estas comunicações não verbais (evacuando-as por exemplo), ou compreender através delas o que realmente se passa com o nosso paciente em sua realidade emocional e através desta compreensão, passar interpretar sua forma de se relacionar conosco, naquele momento, naquele setting. Compreendi que tampouco devo me preocupar com a forma de como o meu paciente vai receber minhas interpretações, se ele se sentirá confortável, se rejeitará o que tenho a dizer, se será produtivo ao seu bem estar,“Todo aquele que esteja acostumado a lembrar do que os pacientes falam e a ficar querendo e seu bem-estar, terá dificuldade de avaliar o dano infligido à intuição analítica, inseparável de toda e qualquer desejo” (BION, 2006, p. 45) Que devo priorizar é o meu senso de verdade, o meu intuir analítico sobre o que está acontecendo aqui e agora no setting. Até porque independentemente do que for dito, ou da forma como for dito pelo analista, haverá o jeito próprio e determinante de meu paciente receber minhas interpretações, suas fantasias...“São novas edições ou fac-símiles dos impulsos e das fantasias que são despertados e tornados consciente durante o andamento da análise. (...) Em outras palavras, toda uma série de experiências psicológicas é revivida, não como algo que pertence ao passado, mas que se aplica ao médico no presente momento”. (KLEIN, 1991, p. 71) Ou seja, reconhecer que para cada interpretação que é fornecida ao meu paciente, ele poderá reagir de forma automática ou de forma repetitiva e impulsiva (entre outras), em acordo com suas velhas e primitivas formas de atuar. Estamos sempre tecendo e reconhecendo a qualidade e o nível das relações de objeto de nosso paciente, que são o centro de sua vida emocional, que será estabelecido no vínculo terapêutico. Ele (nosso paciente) estará revivendo seus vínculos anteriores, revi vencias estas que sentiremos através das sensações e dos sentimentos despertos em nós, analistas, para que assim possamos compreender a natureza destes sentimentos e de que forma estes determinam o seu agir em sua realidade cotidiana, que com certeza é a mesma no setting.  Conclusão: Através deste estudo refleti sobre a importância e do impacto de nossas motivações, enquanto analistas e sobre o efeito destas na qualidade do vínculo que construímos com o nosso paciente durante o setting.  Reconheço que existe um espaço terapêutico, um vínculo que construo junto com meu paciente a cada sessão analítica, e que este vínculo se renova em cada sessão. Também reflito sobre a importância e o impacto de nossas motivações inconscientes, enquanto analistas e o quanto estas motivações determinam a qualidade e da relação analítica.Percebo que meus desejos e memórias, enquanto analista podem vir a inibir a formação ou a qualidade deste vínculo que é tão essencial para que exista um encontro terapêutico centrado no aqui e agora. Para que o sentir e o intuir analítico possam respirar. Aprendi que aquilo que meu paciente verbaliza vem acompanhado de um discurso emocional o qual se traduz em minha dimensão visceral, através de sentimentos e sensações e que estas estão profundamente alinhadas com o que está acontecendo no setting e que serviram de base, na medida em que eu, analista passar a reconhecê-las como fonte de informação e não apenas resistir a elas. Informações estas que poderão servir como referências para as minhas interpretações. Passei a considerar que ficar almejando o bem-estar de meu paciente, de procurar ficar lembrando o que o meu paciente falou é permanecer presa em minha memória e meus desejos – fato este que poderá causar danos à minha intuição analítica. E principalmente compreendi que quando estudo um assunto específico e por este assunto sinto-me encantada e cativada, o máximo que posso fazer com isto é entender este e depois esquecer, soltar. Para que o meu intuir possa fluir livre de qualquer tipo de informação, mesmo a que mais me encantou. Que apenas o aqui e agora possam ser direcionar o meu movimento analítico. Proponho com este estudo e reflexão que este assunto não se encerre, mas que possa expandir-se, tal como um vértice que se abre onde possamos circular em compreensão de nossas possibilidades como analistas.   Bibliografia: BION, W. R. Atenção e interpretação. Tradução P. C Sandler. Rio de Janeiro: Imago, 2006.GROTSTEIN, J. S. Quem é o sonhador que sonha o sonho: um estudo de presenças psíquicas. Rio de Janeiro: Imago, 2003. KLEIN, M. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991.ZASLAVSKY, J.; SANTOS, M. J. P. DOS. Contratransferência teoria e prática clínica. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Paraíba masculina, mulher macho...

Por Ale Esclapes -  É comum nos consultórios hoje em dia um perfil de mulheres bem sucedidas, com filhos, separadas, que trazem como sofrimento não poderem acompanhar o crescimento dos seus filhos, sentindo-se profundamente culpadas. Outro perfil é o da mulher com mais de trinta e cinco anos, com o relógio biológico dizendo “ou agora ou nunca” (no que tange a ter ou não um filho) e que não sabem como sair dessa boca de sino. Em comum temos o resultado de um movimento de emancipação da mulher que se iniciou no século passado, passou por diversos movimentos, e hoje desemboca no século vinte e um.  De uma forma muito generalizada (com os riscos de toda a generalização) o que se conseguiu foi um melhor acesso a mulher ao “falo”, que até então era um pertence mais do homem. Observe-se aqui que não estou falando de masculino e feminino, mas de homens, mulheres e “falo”. O que se buscou foi que homens e mulheres deveriam ter o mesmo direito ao “falo”. O que não contaram as mulheres é o preço que homens pagaram para ter o dito cujo do “falo”. Será que se imagina que homens nunca sofreram por não verem seus filhos crescerem enquanto trabalhavam o dia todo? Ou por sempre terem que ser “produtivos”, e “o provedor da casa”? Alguns vão dizer que homens estão acostumados e que os “pais” não são tão apegados aos seus filhos. Mentira – o que se desenvolve é uma pele grossa de onipotência para dar conta de tamanho fardo. São estratégias que precisaram ser cuidadosamente formuladas ao longo dos séculos para se manterem em pé. Alguns anunciam o fim do falo como organizador, quando este nunca esteve tão presente. O que talvez as mulheres não soubessem é que não existe lanche de graça e nem um mundo perfeito. O “falo” pode ser tentador, mas tem o seu preço psíquico, que é alto. Talvez você esteja se perguntando – mas afinal o que é esse tal de “falo”? É acreditar que ser o provedor, ter poder ou mando, ser o centro, ter um carrão, uma carreira, ou essas coisas que sempre foram ligadas ao homem branco, heterossexual e ocidental há uns cem anos atrás vão levar alguém a plenitude e a felicidade. Essa ilusão como qualquer droga cobra um preço alto, e o mais triste nisso tudo é que homens e mulheres estão desesperados a procura dele.

Pulsão, o Eu e o Objeto

Por Sérgio Rossoni -  "Pulsão – Processo dinâmico que consiste numa pressão ou força (carga energética) que faz o indivíduo tender para um objetivo".Laplanche e Pontalis – Vocabulário de Psicanálise – pg. 394.A partir do conceito de pulsão, Freud definiu como Pulsão de vida esta carga energética que visa conduzir o ser para seu estado de plenitude. A pulsão de vida aponta para o “outro”; Nela podemos incluir o amor, o sexo, etc. O ser humano tende a retornar para essa plenitude “uterina”, vivendo ilusoriamente na busca desse prazer inalcançável. No início, o bebê acha que sua mãe pode fazê-lo alcançar essa plenitude. Posteriormente, percebe que essa meta é impossível. Passa então a crer que sua mãe possui algo que possibilitará seu retorno para esse estado (falo). Porém, o retorno para este estádio é impossível. Lacan o denominou de “falta”, Winnicott de “estado transicional”, e Freud de “miséria do mundo”. Contrapondo-se às pulsões de vida estão às pulsões de morte, que fazem o movimento contrário da pulsão de vida, arrancando o bebê da “falta” e lançando-o novamente para uma dura realidade, que será negada para que novamente possa ser implantada uma condição ilusória de perfeição. Ao nascer, além da perda da sensação de plenitude, o bebê passa a sofrer demandas impostas pela realidade: fome, sede, etc. A fome é saciada quando o bebê recebe da mãe o leite. Nesse momento, o “receber o leite” torna-se uma experiência de satisfação, sendo seu oposto uma experiência de não satisfação, composta pela privação, frustração e pela falta, sendo esta última sem solução devendo ser assimilada pelo analisando. Já a satisfação apresenta dois momentos: A necessidade (considerada mau), e a Completude (considerada bom). Voltar para a plenitude e perfeição é impossível. Perder essa ilusão é um luto narcísico. No entanto, o objeto bom vai apontar em direção a esse objetivo, dando-lhe esperança. Logo, o objeto bom é a memória do meu narcisismo. Do ponto de vista social, esse objeto bom é mal. Ele mantém o ser em sua estrutura narcisista. Quanto ao objeto mau, é ele quem na verdade vai apontar o outro, arrancando o ser da falsa sensação de plenitude e lançando-o para a realidade. Assim, ainda do ponto de vista social, objeto mau equivale ao bem. As frustrações necessárias são imprescindíveis para o avanço do bebê e uma maior adaptação junto à realidade. Um fator importante a ser analisado é: o quanto o bebê suporto suas frustrações!  Se a criança não suportar nada, ela nega e fica no delírio (universo perfeito), catatônico; autista. Já no caso em que a criança suporta o mínimo necessário, então começa a apresentação de frustrações maiores (reino de frustrações e falta). Nesse sentido, se faz importante a mãe suficientemente boa (Winnicott) para ajudar a criança a equilibrar a realidade fazendo-a perceber e se adaptar a essa realidade para o resto da vida. A necessidade está a serviço da pulsão de vida enquanto a completude está a serviço da pulsão de morte. Ao nascer, o bebê sente que tudo a sua volta é uma extensão dele próprio. Não existe uma linha divisória entre ele e o mundo. Não existe dentro e fora. Nesse sentido, o caminho é estabelecer uma membrana entre o “eu” e o mundo, e assim o bebê pode estabelecer e diferenciar entre dentro e fora, o “eu” e o “não-eu”. “Desenvolve-se a possibilidade de um sentimento de responsabilidade pela experiência instintiva e pelos conteúdos do EU, e um sentimento de independência em relação ao que está fora. Surge um sentido para o termo "relacionamento", indicando algo que ocorre entre pessoas, o EU e os objetos. A consequência é o reconhecimento de que há algo equivalente ao EU na mãe, o que impli­ca em senti-la como uma pessoa; o seio, então, é visto como parte de uma pessoa”. WINNICOTT, D. W.  -  parte III - Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990. Existe um ego (aparelho minimamente formado para me levar até o outro). Isso está ligado aos instintos. O ser nasce com uma noção de alguns elementos básicos para se virar no mundo real. Ele já nasce com algo que aponta o outro. Todo ser tem uma ideia inata de que existe o outro. Freud definiu como “redescoberta do objeto”. Ego é uma instância psíquica. Nasce do biológico. É corporal. No início, o ego é desfragmentado. O bebê não sabe que sua mão é dele, assim como seu pé, etc. Ele tem ideia de um outro. São as experiências de satisfação as responsáveis pela integração do ego. “À medida que o self se constrói e o indivíduo se torna capaz de in­corporar e reter lembranças do cuidado ambiental, e portanto de cuidar de si mesmo, a integração se transforma num estado cada vez mais con­fiável’. - WINNICOTT, D. W. – parte IV - Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990. No entanto, o ego corre o risco de não se integrar quando o sofrimento é sentido como um sentimento maior que o da satisfação (ansiedade psicótica). Não integrar significa pulsão de morte. Logo, a função do ego é a de fugir da pulsão de morte. Para Winnicott, a tendência a integração é inata no ser. “Não há dúvida de que existe uma tendência biológica em di­reção à integração”. WINNICOTT, D. W. – parte IV - Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990. Logo, o ser mais integrado passa a ter um novo medo: o da desintegração.  A integração provoca um sentimento de sanidade, enquanto a perda da integração que havia sido adquirida produz uma sensação de enlouquecimento. A desintegração é um processo de defesa ativa, e cor­responde a uma defesa tanto contra a integração quanto contra a não ­integração. A desintegração se dá ao longo das linhas de cisão estabe­lecidas pela organização do mundo interno, através do controle dos objetos e das forças que nele atuam. WINNICOTT, D. W. – parte IV - Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990. O medo da desintegração é um medo esquizoide. Mesmo o esquizoide já passou por um período de integração.  Podemos entender integração como uma sensação de unidade. O esquizoide tem essa unidade, e luta para não perdê-la. Ele vai ganhando experiência de unidade, avançando até chegar na posição depressiva. A base do psiquismo é a Phantasia (elaboração imaginativa da função corporal). Se o ser não possui sensação de unidade, ele não pode ter phantasia – isso porque as funções corporais não foram postas sobre o domínio do ego. Logo, vira um terror sem nome. Não existe um símbolo para apontar isso, mas somente a percepção do medo. Medo do vazio. O medo de desintegrar pode ser entendido como o medo de cair no terror sem nome. Esse terror sem nome é psicótico. Pode-se entender como psicótico tudo aquilo que antecede a triangulação (eu-mãe-outro). Na medida em que vai ocorrendo a integração, o “outro” vai surgindo. Assim, mais uma batalha se inicia entre as pulsões de vida e morte. Enquanto a pulsão de vida aponta para o “outro”, a pulsão de morte vai apontar para o próprio ser (narcísico). A pulsão de vida vai se manifestar através da satisfação, da ilusão da onipotência, e vai se tornar um objeto na phantasia – objeto bom. Começam as relações objetais pelas phantasias. As experiências de satisfação tornam-se objetos bons, enquanto a falta, a frustração e a privação tornam-se objetos maus. O ego não quer se desintegrar – as experiências de satisfação formam o núcleo do ego (objeto bom), mas se esse núcleo for muito grande, torna-se muito narcisista. É necessário um equilíbrio entre as duas pulsões. Na medida que os objetos parciais vão se integrando, o ego vai sendo desintegrado (vice-versa). As experiências de satisfação são sentidas pelo ego, que passa então a promover a integração na phantasia, que passa a integrar o aparelho psíquico. Entre a função corporal e a phantasia existe algo mais. O processo emocional caminha com o deslocamento do real. Representação de coisas filogeneticamente definida – seio. Essa representação de coisas será percebida de acordo com as experiências de satisfação que dela prover. “As experiências recorrentes de gratificação e frustração são poderosos estímulos para os impulsos libidinais e destrutivos, para o amor e o ódio”; KLEIN, M. Algumas conclusões teóricas sobre a vida do bebe 1952. In Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991. O resultado dessas experiências de agressão e frustração, bem como de gratificação e amor é a criação para o bebê de um seio bom que alimenta e dá prazer, e um seio mau que é perseguidor e fonte de frustração.Este modelo de seio bom e mau como objetos separados e diferentes, é resultado da falta de integração do ego, da cisão dentro dele. A cisão é um mecanismo de defesa tipicamente psicótico, e atua na representação de coisas. A criança está diante do outro –só que isto implica em matar o narcisismo. Para evitar a morte do narcisismo, ela lança mão da cisão. A realidade é negada (ela é insuportável; dura), e assim, na cisão tudo é dividido entre bom e mau. O seio bom torna-se o objeto ideal. O bebê o conserva. Esse objeto bom o protege contra o objeto mau, perseguidor, destruidor.  O bebê ataca o seio mau desejando destruí-lo. Seus ataques sádico orais bem como ataques com urinas venenosas e fezes explosivas. São dirigidos para o seio mau. No entanto, o bebê acredita que o seio mau introjetado também têm toda essa voracidade destrutiva, e deseja igualmente destruí-lo. Ter um objeto mau para destruir significa um alívio para a ansiedade do terror sem nome. Neste estádio, o bebê pode ter nomeado seu inimigo. A paranoia é um estágio acima da esquizofrenia. Se a ansiedade não for nomeada, o ser trava. O bebê fica próximo ao terror sem nome (Bion). Esse bebê tende na phantasia destruir o objeto mau e conservar o objeto bom. Significa que o objeto mau vai também destruir o ser (retaliação). “Mas esse medo é contrabalançado pela relação do bebê com seio bom além de outros aspectos da mãe (seu amor, seu sorriso, carinho, etc); São esses elementos que vão diminuir a ansiedade do bebê diante do medo de ser aniquilado pelo seio mau, e o sentimento de perda do nirvana ao nascer. Estes fatores positivos aumentam a confiança no objeto bom”. KLEIN, M.  Algumas conclusões teóricas sobre a vida do bebe 1952. In Obras Completas de Melanie Klein: Volume III Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991. Pg 89. Assim, esse objeto mau precisa ser projetado para fora. Acontece então o que Melanie Klein denominou de identificação projetiva. Quando isso ocorre, significa que o bebê atingiu um certo conceito de unidade. Quando o objeto é projetado para o exterior, um pedaço do ego vai junto, começando então a esfacelar-se. O impulso de projetar aquilo que é mau é incrementado pelo medo de perseguidores internos. Quando essa projeção é dominada por esses medos, o objeto que recebe a projeção do self mau, torna-se o perseguidor. A reintrojeção desse objeto externo reforça o medo de perseguidores. Na projeção, as partes boas e más são projetadas e introduzidas no objeto externo; Logo, quando o bebê reintrojeta, ele traz para ele as partes boas e más. Essa reintrojeção das partes boas e do self bom diminui a ansiedade persecutória. O teste de realidade então corresponderia a uma salvação, confirmando ou não se tratar de uma mãe perseguidora ou suficientemente boa. Neste período, para a criança obter satisfação, ele também destrói o seio, mas a mãe não confirma essa destruição. Logo para o bebê, sua satisfação não destrói o outro. Nesse momento a phantasia cede à realidade. Se todo processo correr bem, se as experiências de satisfação forem confirmadas, os objetos bons vão se solidificando nas phantasias. Objeto bom e mau vão se integrando. O objeto que era “eu” vai tornar-se aos poucos “não-eu”, e mais uma vez essa integração vai sofrer um impedimento. Surge uma nova batalha entre as pulsões de vida e morte. O objeto resultante dessa integração é apontado como o outro, logo é preciso destruí-lo. O Objeto bom poupado anteriormente passa a não ser mais poupado. Quando o objeto se presentifica, surge a inveja. “Definição de Melanie Klein para inveja - A inveja, por sua vez, é uma relação de duas partes, na qual o sujeito inveja o objeto por alguma posse ou qualidade. A inveja surge logo que o bebê se dá conta do seio como fonte de vida e de experiência boa; a gratificação real que ele experimenta no seio, reforçada pela idealização - tão poderosa na tenra infância -, faz com que sinta que o seio é a fonte de todos os confortos, físicos e mentais, reservatório inesgotável de alimento e calor, amor, compreensão e sabedoria. A bem­ aventurada experiência de satisfação que esse maravilhoso obje­to pode dar, aumentará seu amor e seu desejo de possuí-la, pre­servá-la e protegê-la; a mesma experiência, porém, também des­perta no bebê o desejo de ele próprio ser a fonte de tal perfeição; ele experimenta penosos sentimentos de inveja, os quais acarre­tam o desejo de danificar as qualidades do objeto que lhe pode dar esses sentimentos penosos”.  – Hanna Segal – Introdução a obra de Melanie Klein – Capitulo IV. O bebê inveja aquilo que sua mãe tem de bom e ele não. “O bebê, em sua inveja deseja danificar o seio, projetando nele suas pró­prias partes más e danificadoras”. – Hanna Segal – Introdução a obra de Melanie Klein – Capitulo IV. No entanto, o mesmo seio que desperta a inveja, é o seio que dá amor, alimento, despertando também a gratidão do bebê. Este seio ideal é introjetado e a menos que a inveja seja avassaladora, a gratidão irá superá-la. A gratidão permite ao bebê sentir-se dependente do objeto (seio), fazendo-o reconfigurar a ideia de destruição. Caso a inveja vença, o bebê cria uma estrutura narcísica. Essa estrutura vai negar as qualidades do outro e a dependência em relação a esse objeto. No narcisismo, “eu” próprio passo a ser o objeto bom. Essa estrutura narcísica esta em maior ou menor grau presente em todas as pessoas, e caminha lado a lado com a inveja. A inveja se posiciona entre o “eu” e o “outro”, impedindo assim o contato do bebê com sua mãe suficientemente boa. Na inveja, o bebê deseja destruir tudo aquilo que a mãe possui e ele não, inclusive o pênis interno. Caso todo o processo seja realizado de forma positiva, e a inveja estiver sob controle, o bebê evolui para uma maior integração dos objetos, dando inicio a posição depressiva. Na posição depressiva surge um novo problema: O bebê sente-se culpado pelos ataques e destruição feitos ao objeto amado.  O objeto bom na verdade é a minha ilusão narcísica. Ilusão essa que o bebê tem de alcançar a plenitude tão desejada, como um ser único e superior. No entanto, quando o outro começa a existir e o bebê percebe que depende desse objeto, percebe a mãe diante de si como um ser separado dele, sua ilusão narcísica necessita ceder, dando lugar a essa nova percepção – a existência desse objeto. Ao final da posição depressiva, o “outro” deixa de ser a representação do meu narcisismo e passa a ser o outro. No derradeiro momento que nasce o outro, morre o meu narcisismo. Nesse período, enquanto o objeto está se unificando em um só, a gratidão, a culpa, a dor narcísica retornam. Surge a relação bi-pessoal (eu e o outro). O bebê introjeta esse objeto e identifica-se com ele. Assim, evita perdê-lo. Na identificação, eu me torno igual ao objeto bom. Na posição depressiva ocorre uma integração maior dos objetos, consciência, capacidades intelectuais, relação com mundo externo se desenvolvem com regularidade. A relação com a mãe torna-se mais estabelecida. O bebê a percebe como objeto completo. Fortalece-se a identificação com ela. Diminui a discrepância entre o mundo interno e externo (figuras internas e externas). Surge na relação o terceiro elemento. O bebê passa a vivenciar uma relação entre o “eu”, minha mãe e o outro (pai).  Ao final da posição depressiva, o bebê deve estar identificado e podendo ter algo. A pulsão de vida é a esperança de alcançar a tão desejada plenitude. Uma doce ilusão.

Sem memória e sem desejo

Por Alê Esclapes -  Um famoso psicanalista chamado Bion escreveu uma frase célebre que até hoje é discutida entre os psicanalistas – “O analista deve estar na sessão sem desejo e sem memória”. Eu me pergunto se todos nós não deveríamos estar no mundo “sem desejo e sem memória”. Mas antes de responder a minha própria pergunta, gostaria de analisar um pouco mais a fundo o que chamamos de memória. Desde o nascimento, ou até mesmo antes, nosso corpo é bombardeado de sensações corpóreas, como quente, frio, dor, fome, desconforto, prazer, desprazer, e assim sucessivamente. Muitos de nós entendemos a memória como fiel depositária de todas essas sensações. Quando crescemos adquirimos a fala, e através dela um novo universo se revela. A comunicação com o outro que até então era por meio do corpo a corpo, pode ser mediada por algo que não nos toca diretamente. E a partir daí está também criado um mundo psíquico onde as palavras, juntamente com imagens e sensações, vão formando nossa memória. O tempo passa e nossas experiências com nossos pais, mães, irmãos, amigos, professores, além de ir formando um conjunto de experiências vão definindo quem somos nós. Uma bela pergunta nessa hora seria “qual a sua face antes de seus pais nascerem?”. Mas não vamos nos focar hoje nessa pergunta. Tem um elemento importante que compõe a experiência da lembrança que é a “atenção”. A cada segundo, podemos prestar atenção em apenas uma coisa. Podemos fazer várias coisas ao mesmo tempo dizem alguns. Mas num segundo, ou numa fração de segundo, podemos fazer apenas uma coisa, pensar uma coisa. O pensar é a sucessão desses pensamentos ao longo do tempo. Se eles fazem ou não sentido ao pensador, também é outro ponto importante, que fica para outra hora. Quando escolhemos algo em detrimento de todas as outras, ou seja, quando nossa atenção está direcionada, nesse ínfimo segundo para algum lugar, alguma pessoa, alguma situação, ou algum outro pensamento, todas as outras possibilidades se fecham nesse instante. Essa seleção do que pensar pode ser atribuída a uma coisa chamada “desejo”. Nossa seleção é direcionada pelo “desejo”. Isso significa que quando olhamos para trás, no universo infindável de coisas que guardamos desde o nascimento em nossa memória, fazemos uma seleção. Nossa atenção vai e seleciona os fatos e dados e cria aquilo que chamamos de “lembrança”. Lembrança seria, nesse sentido, nossa atenção selecionando pela atenção e pelo desejo aquilo que nos interessa, nos faz sentido, e descarta aquilo que não nos interessa, que não nos serve. A memória, ou lembrança, seria como uma conjugação do verbo “querer” no tempo passado. Toda vez que uma pessoa fala-nos livremente do seu passado, está falando inevitavelmente de seu desejo presente. Ela fala algo muito mais do que simplesmente lembranças. Fala do que gostaria de ter sido, do que gostaria de ser, do uso que essas lembranças podem servir no presente. Mas nunca, jamais, uma lembrança, uma memória, é ingênua. Ela é sempre a presentificação do desejo. Agora podemos pensar numa frase que Nietzsche escreveu em sua “Quarta consideração extemporânea – da utilidade e inutilidade da história para a vida”. Assim como muitas vezes somos dominados pelo desejo, muitas vezes somos dominados pelas lembranças, pelo passado. Mas aqui reside uma armadilha: muitas pessoas acreditam que o passado tem vida própria, que não podem escapar de suas lembranças, quando na verdade não conseguem escapar de seus desejos. Nesse caso o amo (o Eu) se rendeu ao seu escravo (o desejo), que passa a comandá-lo. Não é mais o cachorro que abana o rabo, mas o rabo que abana o cachorro. Ou como disse Nietzsche – “O passado atormenta do homem”.

A fobia do pequeno Hans

Por Adilton Medeiros Costa -  No histórico do pequeno Hans Freud nos mostra um caso clínico de fobia, nos proporciona uma riqueza de detalhes referentes à teoria da sexualidade infantil. Assim como deixa claro o narcisismo primário e sua evolução para a relação de objeto. Hans era um menino de quatro anos e meio vivia cheio de questionamentos sobre: os órgãos sexuais, sobre as diferenças anatômicas entre o homem e a mulher. Sobre o nascimento de bebês e envolvido por uma série de fantasias ligadas a masturbação, a escopofilia, ao Édipo e ao sentimento de castração. A vivência da sexualidade infantil despertou em Hans o temor de castração e intensa ansiedade que foi deslocada para um objeto fobigeno no mundo externo e desencadeou o desenvolvimento de uma fobia. O que Freud quis enfatizar é que o conhecimento das teorias da sexualidade infantil é imprescindível para se compreender as doenças psíquicas e que sendo elas mal orquestradas formam o complexo nuclear de uma neurose. No presente caso Hans desde os três anos investigava sobre seu órgão sexual que chamava de pipi, o de sua mãe, comparava com o tamanho do órgão sexual de animais grandes, queria ver o pipi de sua mãe, de amigas; também gostava de ser olhado fazendo pipi, e mais tarde começou a se sentir envergonhado com esse ato o que sugere que seu exibicionismo sucumbiu a uma repressão. Aos três anos e meio sua mãe ameaçou de cortar fora o seu pipi quando o viu se masturbando, esse acontecimento, mais tarde, somado aos fatos: de sua mãe não ter pipi e ao Édipo proporcionaram intenso temor de castração. O que mais marcou Hans foi o nascimento de sua irmã o que lhe gerou imensas indagações e desconfiança de seu pai ao ser informado que foi a cegonha que a trouxe, assim como ficou tomado de ciúmes pela mesma. Com o nascimento da irmã ele se viu ocupado com a origem das crianças, além de seus interesses autoeróticos e o amor edipiano. Aos quatro anos já se interessava por meninas abraçando-as e fazendo-lhes declarações de amor, mas também já demonstrava o desejo da bissexualidade infantil, gostava muito de um amigo que também abraçava falava de seu amor por ele.Ocasionalmente Hans dormia na cama com os pais, devido o seu terror noturno, fato este que facilitou a intensificação do amor edipiano pela mãe e aumentar a hostilidade para com o pai. A afeição erótica pela mãe fez com que ele desejasse que seu pai caísse e morresse como um cavalo que ele viu cair, mas ao mesmo tempo sentia culpa pela agressividade para com o pai, às vezes batia na mão dele e depois a beijava apresentando hostilidade e afeição para com o mesmo.O que aconteceu com Hans foi que a afeição erótica reprimida pela mãe se  transformou em ansiedade que foi deslocada para medo de cavalos e a hostilidade para com o pai posteriormente se transformou em medo do cavalo mordê-lo.Freud contou esse caso clínico para comprovar suas hipótese sobre a gênese e a evolução da sexualidade infantil, Aparece nesse caso o que acontece com todas as crianças umas mais cedo outras mais tarde e o que diferencia dos neuróticos é que para superar seus complexos fazem uso de substituições excessivas. Em suas teorias sobre a sexualidade Freud nos diz: a) Sobre o autoerotismo -  De início toda criança é autoerótica se satisfaz consigo mesma, o prazer é nas zonas erógenas do corpo. O de Hans era no pênis e na excreção anal. b) Sobre a bissexualidade – Toda criança está sujeita à ela e todos um dia na vida fizeram em seu inconsciente uma escolha de objeto homoerótico, pois de início a criança tanto faz ser cuidada por uma figura feminina ou masculina o prazer será mesmo, por isso Hans gostava de meninas e meninos. c) Dos instintos componentes – Hans vivenciou os instintos de exibicionismo e escopofilia que é o prazer de ser visto realizando funções excretoras e o de olhar, esses instintos são o caminho mais frequente à excitação sexual em suas formas passiva e ativa. Outro instinto componente que apareceu no caso Hans foi o agressivo, o sadismo que mais tarde foi substituído pelo instinto de compadecimento. Quando ele via um cavalo ser maltratado se penalizava, também quando batia no pai logo o beijava, mostrando a transformação do ódio em amor, a troca dos impulsos hostis pelo de afeição. d) As manifestações sexuais masturbatórias – consistem na natureza dos instintos que surgem das zonas erógenas, o de Hans era o pipi e o anal, o primeiro levou a um temor de castração e o segundo a teoria cloacal que era a fantasia que sua irmã era o simbólico de um bolo fecal (parecido com um lunf) e) As pesquisas sexuais infantis – o que leva ao instinto do saber e Hans investigava toda a sexualidade, fazia comparação, indagava a origem de sua irmã e isso o levou a desacreditar e a desconfiar que seu pai mentia quando lhe disse que sua irmã fora trazida pela cegonha, pois ele percebeu a alteração na sua mãe grávida. f) A descoberta das diferenças anatômicas – primeiro Hans negou a ausência de um pênis na mãe, pois se a mãe não tinha pênis é porque perdeu e ele também poderia perder o seu, o que intensificava a ameaça de castração, só mais tarde ele pode elaborar e aceitar essa diferença. g) O Édipo – Na infância as meninas se apaixonam pelos pais e querem se desfazer das suas rivais, as mães, e os meninos pelas mães e disputam com seus vivais, os pais, e Hans se apaixonou pela mãe e desejava inconscientemente que seu pai morresse, mas esses sentimentos aumentou o seu temor de castração o que levou a reprimir a corrente erótica para com a mãe e ao mesmo tempo a corrente hostil para com o pai. Hans deu uma saída mais saudável para o conflito edipiano quando fantasiou que ele se casaria com a mãe e teria filhos com ela e o pai se casaria com sua avó paterna. Quando ele se fazia de cavalo e mordia o pai nas brincadeiras já expressava alí uma tentativa de identificação com o mesmo. Ele abriu mão do amor edipiano, voltou-se para seu pai e se identificou com ele, fez assim a saída do Édipo e evoluiu para a escolha de objeto.No narcisismo primário Freud nos diz que de início a libido do indivíduo é investida em si mesma, é autoerótica, não necessita de objeto, acontece no momento em que a criança é narcisada, ela é o centro das atenções, tudo gira em torno dela e para ela, mas depois tem que ir para a relação de objeto para não ficar patológico, e foi o que aconteceu com Hans na medida que ele vai se voltando para as meninas parte de sua libido era investida na relação de objeto. A fobia de Hans era produto de uma deformação, um deslocamento do medo de ser castrado.Na fobia a angústia vai fazendo deslocamentos e quando encontra um objeto que tenha uma representação psíquica ele foca o medo para esse objeto, fantasiando assim que controla o medo.O medo de cavalos impunha uma restrição da liberdade, impediu de sair à rua mas obtinha com isso o lucro secundário da doença ficava mais perto da mãe. A angústia do fóbico tem a ver com a angústia de aniquilamento que para o homem equivale à perda do pênis.Todo tratamento de Hans foi realizado por seu pai, Freud o viu apenas uma vez, Hans foi um caso de tratamento psíquico bem sucedido. Crítica pessoal:A obra O Pequeno Hans com suas ideias, ainda atuais, e consistentes lança uma luz, fazendo-nos compreender melhor o psiquismo infantil para análise da patologia de crianças, para a construção de propostas pedagógicas empregadas nas escolas e também para os pais curiosos que desejam educar os seus filhos organizando melhor o aparelho psíquico dos mesmos, coerente com o que lhe é peculiar.

O caso Dora - uma análise

Por Hélio de Lima Júnior -  Freud em seus estudos, nota-se seu interesse sobre a importância dos sonhos e uma descrição de algumas das peculiaridades do pensamento inconsciente. Há apenas vislumbres do orgânico - as zonas erógenas e a bissexualidade. Neste estudo vem enfocar o  caso de histeria: de Dora, Freud(1901- 05); pois trata-se de uma histeria com tossis nervosa e afonia, cujas origens podem ser encontradas nas características de uma chupadora de dedo; e o papel principal nos processos psíquicos em conflito é desempenhado pela oposição entre uma atração pelos homens e outra pelas mulheres. No caso de Dora, Freud (1901-05), pois é uma moça de dezoito anos, que tinha um único irmão, um ano e meio mais velho, fora o modelo que ela ambicionara seguir. Nos últimos anos, porém, as relações entre ambos se haviam tornado mais distantes. O rapaz procurava afastar-se o máximo possível das discussões da família, mas, quando se via obrigado a tomar partido, apoiava a mãe. Assim, a costumeira atração sexual aproximara pai e filha, de um lado, e mãe e filho, de outro. No caso Dora, Freud(1901-05) neste texto vem focalizar da sua análise com Freud; que inicialmente lhe contou  da amizade que ela e o seu pai tinham feito por um casal ali radicado já há muitos anos. O Sr. K. e a Sra. K.  A Sra. K. cuidara do seu pai durante sua longa enfermidade, tendo assim feito jus à sua eterna gratidão. O Sr. K. sempre fora extremamente amável com Dora, levando-a para passear, dando-lhe pequenos presentes, mas ninguém via nenhum mal nisso. Dora esclareceu o estranho comportamento do Sr. K. contando à mãe, para que esta por sua vez o transmitisse ao pai, que o Sr. K. tivera a audácia de lhe fazer uma proposta amorosa, durante uma caminhada depois de um passeio pelo lago. A experiência de Dora com o Sr. K. - suas propostas amorosas a ela e a consequente afronta a sua honra - parece fornecer, no caso da paciente, o trauma psíquico que Breuer e Freud declararam ser a condição prévia indispensável para a gênese de um estado patológico histérico. O Sr. K. combinara com Dora e com sua mulher para que, à tarde, elas fossem encontrá-lo em sua loja comercial, na praça principal para dali assistirem a um festival religioso. Mas ele induziu sua mulher a ficar em casa, despachou os empregados e estava sozinho quando a moça entrou na loja. Ao se aproximar a hora da procissão, pediu à moça que o aguardasse na porta que dava para a escada que levava ao andar superior. Em seguida voltou e, ao invés de sair pela porta aberta, estreitou subitamente a moça contra si e depois  lhe um beijo nos lábios. Era justamente a situação que, numa mocinha virgem de quatorze anos, despertaria uma nítida sensação de excitação sexual. Mas Dora sentiu naquele momento uma violenta repugnância, livrou-se do homem e passou correndo por ele. O caso da paciente Dora ainda não fica suficientemente caracterizado acentuando-se apenas a inversão do afeto; é preciso dizer, além disso, que houve aqui um deslocamento da sensação. Na paranoia, a projeção da censura em outrem sem qualquer alteração do conteúdo, e sem nenhum apoio na realidade, torna-se manifesta como processo de formação do delírio. A afonia de Dora, portanto, admitia a seguinte interpretação simbólica: quando o amado estava longe, ela renunciava à fala; esta perdia seu valor, já que não podia falar com ele.Nos relatos de Dora, ela expõe sobre o relacionamento do pai com a Sra. K. pois, que ela só amava seu pai porque ele era um homem de posses, como se expressou um homem sem recursos. Isso só poderia ser entendido num sentido sexual - que seu pai, como homem, era sem recursos, era impotente. A maneira de se obter satisfação sexual, precisamente nas partes do corpo que nela se achavam em estado de irritação - a garganta e a cavidade bucal.  Mas era irrecusável a complementação de que, com sua tosse espasmódica - que, como de hábito, tinha por estímulo uma sensação de cócega na garganta -, ela representava uma cena de satisfação sexual. Primeiro sonho de Dora: “Uma casa estava em chamas. Papai estava ao lado da minha cama e me acordou. Vesti-me rapidamente. Mamãe ainda queria salvar sua caixa de joias, mas papai disse: `Não quero que eu e meus dois filhos nos queimemos por causa da sua caixa de joias.’ Descemos a escada às pressas e, logo que me vi do lado de fora, acordei.” Segundo sonho: Narrou Dora: “Eu estava passeando por uma cidade que não conhecia, vendo ruas e praças que me eram estranhas. Cheguei então a uma casa onde eu morava, fui até meu quarto e ali encontrei uma carta de mamãe. Dizia que, como eu saíra de casa sem o conhecimento de meus pais, ela não quisera escrever-me que papai estava doente. "Agora ele morreu e, se quiser, você pode vir". Fui então para a estação e perguntei umas cem vezes: `Onde fica a estação?’ Recebia sempre a resposta: `Cinco minutos.’ Vi depois à minha frente um bosque espesso no qual penetrei, e ali fiz a pergunta a um homem que encontrei. Disse-me: `Mais duas horas e meia.’ Pediu-me que o deixasse acompanhar-me. Recusei e fui sozinha. Vi a estação à minha frente e não conseguia alcança-la. Aí me veio o sentimento habitual de angústia de quando, nos sonhos, não se consegue ir adiante. Depois, eu estava em casa; nesse meio tempo, tinha de ter viajado, mas nada sei sobre isso. Dirigi-me à portaria e perguntei ao porteiro por nossa casa. A criada abriu para mim e respondeu: `A mamãe e os outros já estão no cemitério.” (Freud, 1901 – 05). No primeiro sonho nota-se que a joia não interessa a Dora, mas o estojo. No caso da enurese, está relacionada com identificação com o irmão. A senhora K. é aquela capaz de sustentar o desejo do seu pai e também de acolher o desejo do Sr. K. E o segundo sonho ressalta que o pai simbólico e o pai morto se alcança a partir do lugar do vazio. De um lado a castração de um pai idealizado, e de outro da assunção ou não do sujeito feminino ser privado do prazer. Freud,  na questão edípica enfatiza sobre à censura da menina à sua mãe por não tê-la criado como menino. Tal como o primeiro sonho significara o afastamento do homem amado em direção ao pai, ou seja, a fuga da vida para a doença, esse segundo sonho anunciou que ela se desprenderia do pai e ficaria recuperada para a vida. Na infância há grande ocorrência de traumas, que provoca a neurose. Nota-se neste caso o registro das identificações imaginárias, que emergiu a identificação com o pai ideal. O que é ser homem o que é ser mulher? Para Dora sua identificação ao homem portador de pênis lhe serve de instrumento imaginário para apreender o que ela não chega a simbolizar, o que seria uma mulher. A histérica ama por procuração, ela é alguém cujo objeto é homossexual, ela aborda este objeto homossexual, por identificação a alguém do mesmo sexo. (Laznik, 2008). Entretanto Dora ama seu pai, ela o ama por aquilo que ele não lhe dá. A Sra. K. é objeto de preenchimento naquilo que lhe falta, pois a Sra. K encarna a função feminina. O sintoma histérico é a mascara do desejo inconsciente. A Sra. K. será o desejo de Dora, na medida em que ela é o desejo do pai, desejo este barrado. A impotência do pai permite a Sra. K. ocupar o lugar do desejo insatisfeito. Portanto, a incapacidade para o atendimento de uma demanda amorosa real é um dos traços mais essenciais da neurose; os doentes são dominados pela oposição entre a realidade e a fantasia. Aquilo que por mais intensamente anseiam em suas fantasias é justamente aquilo de que fogem quando lhes é apresentado pela realidade, e com maior gosto se entregam a suas fantasias quando já não precisam temer a realização delas.