EPP - Escola de Profissionais da Psicanálise

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A Prisão do Desejo: Para Além da GULA

admin Artigos 13 fevereiro 2026
Por Ale Esclapes  -  Muitas pessoas associam o pecado da gula exclusivamente ao excesso de comida, mas sua essência é muito mais ampla e profunda. A gula, em seu cerne, está intrinsecamente ligada ao vício, a uma busca incessante por preencher um vazio interior que nunca se satisfaz. Ela se manifesta em qualquer comportamento descontrolado, seja no consumo de substâncias, na busca por bens materiais ou até mesmo na compulsão por trabalho. É a incapacidade de dizer "basta", transformando o prazer em uma corrente que aprisiona a alma em um ciclo de desejo e frustração. Um dos filhotes da inveja é a avidez, um sentimento que nos impede de encontrar satisfação na vida. A pessoa ávida, ao observar a felicidade alheia, sente um desejo insaciável de possuir o que o outro tem, acreditando que ali encontrará a sua própria alegria. No entanto, essa busca é uma ilusão, pois a avidez anula o prazer e a satisfação genuínos. Como mais não me satisfaço, logo tenho que comer mais, em uma tentativa vã de preencher o vazio existencial que a própria avidez alimenta, tornando-se um ciclo vicioso de insatisfação. O drogado é o exemplo mais contundente da dinâmica do vício. Ele experimenta um prazer momentâneo e intenso, que logo é retirado, deixando um rastro de vazio e desespero. A partir desse ponto, sua vida se resume a uma busca incessante por reviver aquela sensação, custe o que custar. Isso se chama vício, uma escravidão moderna onde a liberdade é trocada pela promessa de um alívio fugaz. O indivíduo se torna refém de sua própria busca, perdendo o controle sobre suas escolhas e sua própria vida. No vício, o indivíduo está fadado ao fracasso, e, de novo, retorna a um outro pecado. "O vício antes de matar, ele humilha", diz um velho ditado, e essa humilhação é uma das consequências mais cruéis da dependência. A pessoa viciada perde sua dignidade, sua autoestima e seus relacionamentos, tornando-se uma sombra de quem um dia foi. A humilhação é um lembrete constante da perda de controle, da incapacidade de resistir ao desejo que a consome, aprofundando ainda mais o ciclo de dor e autodestruição. A superação da gula e do vício não se encontra em uma simples abstinência, mas em uma jornada de autoconhecimento e ressignificação do prazer. É preciso compreender as raízes da insatisfação que alimenta o comportamento compulsivo, questionando os vazios que tentamos preencher de forma inadequada. A busca por satisfação genuína, que nutre a alma em vez de apenas saciar o corpo, é o caminho para a libertação. Isso envolve cultivar relacionamentos saudáveis, encontrar propósito em atividades significativas e aprender a apreciar a beleza da moderação, redescobrindo o verdadeiro sabor da vida. Além da avidez, a gula também se alimenta de outros sentimentos sombrios, como a soberba e a solidão. A soberba nos faz acreditar que merecemos mais do que os outros, que temos o direito de consumir sem limites, ignorando as consequências de nossos atos. A solidão, por sua vez, nos empurra para um consumo desenfreado como forma de preencher o vazio deixado pela falta de conexão humana. Em ambos os casos, a gula se torna uma fuga, uma tentativa de silenciar a dor da alma com o barulho do consumo, aprofundando ainda mais o abismo da insatisfação. A gula se manifesta de forma proeminente na sociedade de consumo, onde o desejo é constantemente estimulado e a satisfação, perpetuamente adiada. A busca incessante pelo último lançamento, pela tendência da moda ou pelo gadget mais moderno é uma expressão contemporânea da avidez. O ato de consumir torna-se um ritual para aplacar uma insatisfação crônica, um prazer fugaz que, uma vez extinto, exige um novo objeto de desejo. Assim, o indivíduo se vê preso em um ciclo de compra e descarte, confundindo o ter com o ser e alimentando um vazio que os bens materiais jamais conseguirão preencher. No ambiente corporativo, a gula assume uma faceta socialmente aceitável: o vício em trabalho, ou 'workaholism'. Em uma cultura que exalta a produtividade e o sucesso a qualquer custo, a dedicação profissional pode facilmente se converter em uma compulsão destrutiva. O 'workaholic' busca no excesso de trabalho a mesma gratificação insaciável que o glutão busca na comida, sacrificando sua saúde, seus relacionamentos e seu bem-estar em nome de uma ambição sem limites. A exaustão e a ansiedade se tornam suas companheiras constantes, evidenciando a presença de um vício que consome a vida em vez de preenchê-la. O uso de drogas representa a manifestação mais explícita e devastadora da gula como vício. A substância química oferece uma rota de fuga imediata, um prazer artificialmente intenso que mascara temporariamente a dor e o vazio existencial. No entanto, essa euforia é efêmera e cobra um preço altíssimo, aprisionando o indivíduo em um ciclo de dependência física e psicológica. A busca pela próxima dose se sobrepõe a todas as outras prioridades, corroendo a identidade, a dignidade e os laços afetivos, e ilustrando de forma trágica a humilhação que precede a destruição final imposta pelo vício.

O demônio do meio-dia da PREGUIÇA

admin Artigos 11 fevereiro 2026
Por Ale Esclapes  -  A preguiça é, talvez, um dos pecados capitais mais profundamente incompreendidos. Longe de ser a simples falta de vontade momentânea para realizar uma tarefa, ela representa um estado de torpor existencial muito mais complexo. A preguiça, em sua essência teológica, não é o descanso merecido ou a procrastinação ocasional, mas uma recusa em engajar-se com a própria vida, uma apatia que corrói a alma e nos afasta da nossa própria humanidade, um desinvestimento radical na própria existência que nos foi dada como um presente. Nos mosteiros medievais, esse estado era conhecido como acídia e temido como o "demônio do meio-dia". Evagrius Ponticus, um monge do deserto do século IV, descreveu vividamente como esse demônio assaltava os monges nas horas mais quentes do dia, mergulhando-os em um estado de prostração e inquietação. O monge acometido pela acídia sentia aversão à sua cela, ao seu trabalho e à sua própria vocação, olhando incessantemente pela janela, desejando estar em qualquer outro lugar, incapaz de encontrar paz ou propósito no momento presente. Hoje, à luz da psicologia moderna, daríamos a esse mal o nome de depressão. A semelhança entre os sintomas da acídia e os da depressão é notável. Comportamentos como a perda de interesse e prazer em atividades cotidianas (anedonia), a fadiga persistente e falta de energia, o isolamento social e aversão ao contato humano, a dificuldade de concentração e tomada de decisões, e uma profunda sensação de desesperança e vazio são manifestações claras que transitam entre a descrição monástica da acídia e o diagnóstico clínico da depressão. A acídia era considerada um dos pecados mais graves precisamente por sua capacidade de desinvestir o monge de sua pulsão de vida. Ao sucumbir a essa tristeza paralisante, o indivíduo renunciava à sua capacidade de amar, de sentir gratidão e, no contexto da fé, de se conectar com Deus. Era uma morte espiritual em vida, uma recusa em aceitar a bondade da criação e a própria existência como um dom. Essa apatia profunda representava uma quebra fundamental na relação com o sagrado e com o próprio sentido da vida. Se um indivíduo for deixado nesse estado de acídia ou depressão profunda, ele certamente irá perecer, tanto do ponto de vista emocional quanto físico. A negligência com o autocuidado, a má alimentação, a insônia e o isolamento social progressivo levam a uma deterioração da saúde física, aumentando o risco de doenças crônicas e morte. Emocionalmente, a pessoa se afunda em um abismo de desesperança que pode culminar no suicídio. A acídia, portanto, era vista como o pecado derradeiro, pois seu caminho inevitavelmente conduzia à morte, sendo o mais difícil de ser combatido por sua natureza silenciosa e paralisante.

A Ilusão da Grandeza: Desmascarando o Orgulho

admin Artigos 11 fevereiro 2026
Por Ale Esclapes  -  O orgulho pode ser compreendido como uma armadura reluzente que encobre a corrosiva inveja e o profundo vazio existencial que ela engendra. Trata-se de uma sofisticada ilusão de grandeza, uma autoimagem inflada que busca espelhar os atributos divinos que o ser humano, em sua fragilidade, anseia possuir. Essa miragem se manifesta primordialmente em três facetas da experiência humana: a onipotência, a onisciência e a onipresença, cada qual tecendo uma teia de controle e autoengano que distancia o indivíduo da realidade e de si mesmo, criando uma casca rígida e solitária. A onipotência se revela na avassaladora sensação de que tudo é possível, de que se tem o poder de comandar o universo e de que todos ao redor devem se curvar à sua vontade. É a fantasia do controle absoluto sobre pessoas e circunstâncias, uma negação da própria finitude e das limitações inerentes à condição humana. Em suas manifestações mais extremas, essa necessidade de poder absoluto pode fraturar a percepção da realidade, dando origem a delírios de grandeza nos quais o indivíduo habita um mundo paralelo, construído unicamente para validar sua ilusória e inabalável soberania. A onisciência, por sua vez, costuma se apresentar sob a máscara da arrogância, a crença inabalável de possuir todo o conhecimento e de ter certezas sobre qualquer assunto. Funciona como um controle onipotente aplicado ao domínio dos pensamentos e das ideias, onde não há espaço para a dúvida, o questionamento ou a perspectiva alheia. Este fenômeno é particularmente visível no cenário político contemporâneo, onde discursos inflamados e repletos de certezas dogmáticas polarizam o debate e impedem o diálogo construtivo, transformando a troca de ideias em um campo de batalha de egos. A manifestação da onipresença ocorre através de um controle obsessivo e minucioso sobre o ambiente e as relações. Tudo precisa ser perfeitamente previsível, cada detalhe meticulosamente orquestrado para eliminar qualquer possibilidade de surpresa ou imprevisto. O acaso, a espontaneidade e a incerteza do mundo tornam-se fontes de profunda angústia, pois desafiam a ilusão de que se pode estar em todos os lugares e controlar todos os eventos. Essa busca incessante por previsibilidade sufoca a vida e transforma a existência em um roteiro rígido e sem vitalidade. Contudo, essa elaborada construção está, invariavelmente, fadada ao fracasso. A realidade, com sua força imprevisível e caótica, costuma passar como um trator sobre a frágil estrutura do orgulho, expondo suas rachaduras. Mesmo diante do colapso, a reação mais comum não é a rendição, mas sim dobrar a aposta na ilusão. Desistir desse lugar de suposta grandeza significaria ter que encarar o doloroso vazio e a inveja que o orgulho tão arduamente tentou ocultar, um confronto que a maioria prefere adiar indefinidamente, perpetuando o ciclo de sofrimento.

De Freud a Klein – Da Pulsão a Emoção

admin Artigos 10 fevereiro 2026
Por Karen Rodrigues -  Klein trilhou a base psicanalítica construída por Freud mas, em determinado momento apesar de seus esforços em se manter fiel ao pensamento freudiano, fez certas descobertas que começariam a contradizer tais teorias.Ela se esforça em refazer sua teoria sem discordar de forma direta de Freud, mas acaba ficando insustentável e a criança descrita nos 3 Ensaios da Sexualidade, passa a não fazer mais sentido algum para ela.A partir de então, apesar das técnicas psicanalíticas de Freud e Klein compartilharem a base da teoria do inconsciente, divergem significativamente na aplicação clínica, especialmente no tratamento de crianças, na interpretação da transferência e no foco nas fases iniciais do desenvolvimento.Klein desponta em um momento onde ficava evidente que a psicanálise deixava brechas quanto ao trabalho psicanalítico com crianças. O que se tinha até então eram adaptações do modelo de trabalho com adultos, para o trabalho com crianças; e as proposições de Anna Freud quanto a psicanálise com crianças como um modelo educativo/pedagógico. A análise voltada para o público infantil era considerada algo inferior dentro da psicanálise.E é justamente em sua clínica com crianças que Klein começa a questionar algumas das teorias e das técnicas de Freud.Freud inseriu a criança a partir de suas observações com os adultos e com base em suas teorias quanto a questão pulsional e a sexualidade. Para ele o desenvolvimento se dava por meio da organização libidinal em fases: oral, anal e fálica. Ele define a criança como perversa e polimorfa, com uma sexualidade própria e com a libido se concentrando em diversas partes do corpo, contestando a ideia de uma infância “pura”.Enquanto Freud construiu sua teoria com base pulsional, com a descarga libidinal através das pulsões, com o objeto como alvo para a realização de um desejo, Klein constrói a sua teoria das relações objetais. Nela ela dá ênfase as relações de objeto, o qual deixa de ser o alvo da pulsão, mas sim parte de uma relação capaz de provocar uma emoção. Ao se aprofundar no tema ela observa que o bebê existe em relação a objetos que são primitivamente distinguidos do ego, evidenciando que as relações objetais ocorrem desde o nascimento.Para Klein a primeira relação objetal do bebê é com o seio materno, o qual lhe causa emoções conflituosas, e dessa violência pulsional sobre o próprio bebê, se origina o superego arcaico. Um superego considerado mais cruel do que o superego em Freud, por ser um perseguidor arcaico do Eu.Ao invés de trabalhar com as fases propostas por Freud, Klein define posições onde não haveria mais fases lineares de desenvolvimento psíquico e sim, a ideia de que ora estamos em uma posição esquizoparanóide e ora em uma posição depressiva. Nossas mentes estariam sempre em movimento entre essas duas posições, conforme a internalização dos objetos que tivemos em nossas experiências enquanto bebês, quanto de nossas relações objetais no momento presente.Klein dá importância a ansiedade, que para Freud era resultado da repressão, decorrentes de traumas ou de libido não descarregadas. Já Klein via a ansiedade com uma resposta à pulsão de morte, a qual se manifesta desde o nascimento, cujos mecanismos de defesa seriam cisão de objetos em bons e maus, a projeção e a introjeção. Ela identifica dois tipos de ansiedade; a ansiedade persecutória que está ligada ao medo de ser aniquilado e a ansiedade depressiva que é o resultado do medo da perda do objeto.Outro tema fundamental da teoria freudiana, o Complexo de Édipo, também recebe uma nova abordagem na teoria de Klein.Na visão freudiana, o Complexo de Édipo surge no início da fase fálica em decorrência dos conflitos e a rivalidade na relação da criança com seus progenitores, vistos como objeto do desejo infantil, e ação de impedimento à realização desse desejo, onde temos a castração. Freud coloca o Complexo de Édipo, como o problema central de todas as neuroses.Na fase fálica, por volta dos 5 anos de idade, surge o Superego com a internalização de normas e valores sociais, como instância que pune, que cobra o Eu e dá suporte a consciência moral. O Superego como herdeiro do Édipo.Klein considera a relação das neuroses ao Complexo de Édipo, mas vai expandir o conceito, divergindo de Freud em alguns pontos. Em suas descobertas clínicas ela evidenciou em crianças ainda em idade tenra, as fantasias das reações pulsionais, em componentes pré-genitais (orais e anais), como prova da origem precoce do complexo de Édipo.Ela propõe a instalação do conflito edipiano e do superego em momentos muito primitivos da existência do bebê, por volta dos seis meses de idade, e não na fase fálica, como propôs Freud. Com um Superego arcaico que se forma já no bebê mediante as relações de objeto e ansiedades típicas de uma fase primitiva do Eu.Conforme a teoria freudiana, na transferência o paciente transfere para o analista sentimentos, atitudes e desejos relacionados a figuras do seu passado, possibilitando a exploração das relações inconscientes. A transferência como referência direta ao analista, como uma figura de substituição, sendo considerada para análise somente a transferência positiva.Em Klein, a transferência ocorre como projeção e introjeção de algo do passado que o paciente traz para o presente, como um mecanismo de defesa do ego que tenta lidar com a culpa e a ansiedade; mas também como a forma de expressão do inconsciente, onde o paciente utiliza o outro como um meio de expressão, controle e eventual transformação. A transferência é vista como a reedição das relações objetais que foram internalizadas, e não apenas como algo direto ao analista, mas tudo o que o paciente traz para a relação; como ele usa o analista além do que está sendo falado. Transferências positivas e negativas em estreita relação assim como o amor e o ódio.Quanto a técnica, Freud a pautava na associação livre, com a linguagem verbal como suporte das relações psíquicas; e na interpretação de sonhos, considerado a porta de entrada para o inconsciente. Contudo Klein, ao observar crianças, percebeu que a associação livre se apresenta também no brincar, por meio do qual o mundo interno e os conflitos eram encenados. Ela então propôs que a criança explorasse suas emoções dentro do setting por meio do brincar, incluindo a transferência negativa, em divergência a Freud que só trabalhava com a transferência positiva.Klein apresenta uma postura mais flexível do analista no atendimento a crianças, permitindo que os conteúdos possam ser abordados por meio da elucidação das fantasias persecutórias, levando a simbolização.Dois casos clínicos demonstram de forma bem evidente as diferentes abordagens desses dois grandes psicanalistas, quanto a clínica com crianças.No caso do pequeno Hans, temos um exemplo da abordagem infantil de Freud, na qual ele utilizou o pai do menino como intermediário, considerando que a criança não pudesse ser analisada diretamente. Ele interpretou a fobia de cavalos apresentada pelo menino, a qual lhe era exposta pelo pai por meio de cartas, como expressão das angústias edípicas e do medo da castração.Em Klein temos o caso Erna, que apresentava um quadro de neurose obsessiva grave com traços de psicose infantil. Klein utilizou a técnica do brincar como a principal via de acesso ao inconsciente da paciente, rompendo assim as barreias quanto a comunicação verbal. Através de brinquedos, lápis e papel, Erna expressava seus conflitos internos, seus medos e suas fantasias agressivas, permitindo que Klein interpretasse suas fantasias inconscientes e suas ansiedades, sendo esse caso fundamental para o desenvolvimento da teoria kleiniana, que revolucionaria a clínica para crianças.Klein ainda expandiu essa técnica como se observa no caso Dick, onde diante de um quadro psicótico do tipo esquizofrênico com pouca adaptação a realidade, ela decide modificar sua técnica de só interpretar o material que se expressava em diversas representações, fazendo enxertos simbólicos.A técnica freudiana visava vencer a resistência para que o conteúdo recalcado pudesse ser transferido e interpretado pelo analista, tornando-aconsciente, fortalecendo o ego do paciente para poder lidar com a realidade e com as demandas internas e externas, para que tenha controle das suas emoções.Já Klein tinha o objetivo de interpretar a phantasia, relacionando os objetos do mundo interno com os do mundo externo do paciente, integrando esses objetos e com isso diminuindo a ansiedade.Em Freud, a fantasia era considerada com um mecanismo de defesa, um meio de satisfação do reprimido que permite que o indivíduo se adapte à realidade e suporte as frustações dos desejos. Por sua vez para Klein, phantasia era vista como um elemento fundamental da experiência psíquica, como a expressão dos instintos, dos desejos e dos mecanismos de defesa, mas também um processo que molda como o indivíduo se relaciona e experimenta o mundo.A evolução da teoria psicanalítica, de Freud a Klein, representa uma ampliação da compreensão do inconsciente, que passa a considerar tanto o conflito psíquico quanto as dinâmicas emocionais precoces. Freud focou no conflito entre instintos e moralidade e Klein explorou a dinâmica emocional das primeiras relações, dando ênfases as emoções intensas e primitivas como amor, ódio, inveja e culpa.A partir de Klein o que passa a importar para a psicanálise não é mais a libido, mas a forma como nos relacionamos com outros objetos – pessoas, situações, acontecimento, coisas, ou seja, tudo o que dá forma ao mundo.

A Prisão da Inveja: Uma Análise Psicanalítica

admin Artigos 05 fevereiro 2026
Por Ale Esclapes -  A inveja é um sentimento que nos engana, pois nos faz crer que os sentimentos e suas encarnações são limitados. Se o outro tem, é porque eu não tenho. A pessoa não consegue perceber, por exemplo, que o amor é infinito, e a felicidade do outro não anula a sua. Essa percepção equivocada de escassez gera uma angústia constante, uma sensação de que a vida é uma competição onde a vitória de um representa a derrota do outro. A mente invejosa opera sob uma lógica de soma zero, incapaz de conceber a abundância e a partilha como possibilidades reais, o que a aprisiona em um ciclo de ressentimento e amargura.A inveja também faz com que não tenhamos prazer na vida e pela vida, pois com ela nunca estamos satisfeitos. Sempre queremos mais, pois a sensação de que há uma festa da qual não participamos é sempre presente. Essa insatisfação crônica nos impede de valorizar nossas próprias conquistas e alegrias, por menores que sejam. O foco se desloca do nosso próprio bem-estar para a vida do outro, que é sempre percebida como mais interessante e gratificante. Vivemos, assim, em um estado de comparação constante, onde a nossa realidade parece sempre pálida e sem graça diante da suposta felicidade alheia, o que nos rouba a capacidade de desfrutar o presente.Isso cria um vazio em quem sente muita inveja, e faz com que a pessoa queira sempre mais e mais. Esse desejo insaciável tem o nome de voracidade. A voracidade é um apetite que não se sacia, uma tentativa desesperada de preencher um vazio interior que a própria inveja alimenta. A pessoa voraz não deseja apenas o que o outro tem, mas anseia por esgotar a fonte de prazer do outro, como se pudesse, assim, aplacar a sua própria carência. É um ciclo vicioso: a inveja gera o vazio, e o vazio alimenta a voracidade, que por sua vez intensifica a inveja, tornando o indivíduo um prisioneiro de seus próprios desejos destrutivos.A inveja também faz com que tenhamos ódio de quem tem algo que não temos. Esse ódio não é apenas um sentimento de raiva, mas um desejo de aniquilar o objeto invejado, de destruir aquilo que nos lembra da nossa própria falta. O sucesso do outro se torna um espelho insuportável da nossa própria insuficiência, e a única forma de aliviar essa dor é atacando o que a causa. Esse impulso destrutivo, como apontou Melanie Klein, está presente desde o início da vida e se manifesta como um ataque ao objeto bom, uma tentativa de estragar aquilo que não se pode possuir.Por fim, a inveja gera um ciúme generalizado, pois se quem amamos dá atenção para algo além de nós, ou gosta de algo ou alguém para além de nós, sentimos ciúme. O ciúme, nesse contexto, é o medo de perder o amor ou a atenção do outro para um rival. A inveja, por sua vez, é o desejo de possuir o que o outro tem. Quando a inveja se generaliza, qualquer objeto ou pessoa que receba a atenção de quem amamos se torna um rival em potencial, despertando um ciúme patológico. A pessoa invejosa não suporta a ideia de que o outro possa ter interesses e prazeres que não a incluam, pois isso a faz sentir-se excluída e desvalorizada.Essa combinação de inveja, voracidade, ódio e ciúme, segundo Wilfred Bion, impede o crescimento mental. Para Bion, o desenvolvimento psíquico depende da nossa capacidade de criar vínculos, de aprender com a experiência e de tolerar a frustração. A inveja, ao atacar os vínculos e destruir o objeto bom, impede a formação de um mundo interno rico e criativo. A mente invejosa se torna estéril, incapaz de pensar e de se desenvolver. Superar essa combinação de sentimentos destrutivos é um dos maiores desafios da análise, pois eles representam uma barreira quase intransponível para o crescimento e a transformação pessoal.

A expansão do pensamento psicanalítico em Klein

admin Artigos 31 janeiro 2026
Por Renata Amaral Soares   -  Como a condensação temporal e o reforço espacial em Klein alteram os objetivos do tratamento psicanalítico concebidos por Freud. Em Klein, o tempo psíquico se contrai: a infância, período de latência e puberdade freudiana se tornam um instante arcaico. As fases sádico oral primária (sugar) e secundária (morder) e sádico anal primária (expulsar) e secundária (reter) estão desde o início, já no bebê. Os primeiros seis meses de vida contém a estrutura do conflito edípico, das pulsões de vida e de morte, do superego e do ego, há uma condensação e um funcionamento psíquico muito além do Id freudiano “esperando” pelo princípio de realidade para formação do ego e da criação do superego no complexo de Édipo. É como se Klein tivesse avançado na medicina e tivesse descoberto o “DNA psíquico” do organismo humano, a partir, do “desenvolvimento celular temporal” estudado e proposto por Freud. Em Klein, o trauma do nascimento “aciona o gene psíquico” da pulsão de morte, é a primeira experiência de separação e dor, o bebê sente que pode ser aniquilado a qualquer momento, gerando a ansiedade persecutória. Já está presente neste “DNA psíquico” um superego arcaico voraz, rígido, impiedoso e sem filtro, primitivo, que tem como origem os processos de projeção e introjeção dos objetos parciais; não é como o de Freud, que incorpora a figura dos pais, educadores, leis, moral e por isso é mais brando. Cada privação e frustração sentida corporalmente pelo bebê, o seio que não vem, o frio que não foi mitigado, a fralda não trocada, é percebida como uma ameaça à vida, uma destruição, o reforço da pulsão de morte, algo muito mais intenso do que um desconforto, com isso o nível de ansiedade gerado fica praticamente insuportável. Para dar conta do sentimento de frustração, de um sadismo muito cruel, o bebê cinde o objeto, sendo o primeiro deles, o seio materno, em objetos parciais: um que é bom, que me gratifica, e outro que é mau, que me frustra; o seio bom (amado) e o seio mau (odiado). Essa é a primeira relação dual de objeto que o bebê estabelece. Esses objetos cindidos são projetados para o exterior e introjetados no bebê, numa relação de dentro e fora; estabelecendo mecanismos de defesa, que diminuem a ansiedade e vão tornando a vida mais palatável. Quando o bebê sente algum desconforto corpóreo, como a fome, e na sequência o seio bom lhe é apresentado, ele pode sugar e morder até esgotar sua fonte de energia, exercendo o sadismo. E com isso, posteriormente, sentir que será retaliado e perseguido por esse seio, aumentando sua ansiedade persecutória. “Se eu destruí, serei destruído”. Esse processo constitui a posição esquizoparanóide, que ocorre nos 3 primeiros meses de vida. No segundo trimestre de vida, o bebê começa um processo de integração e passa a perceber que os objetos cindidos em bom e mau, na verdade são um só, isso apresenta uma evolução no seu desenvolvimento, a pulsão de vida vai ganhando força. Juntamente aparece o sentimento de culpa e de reparação, pois percebe que o seio mau que ele mordeu e atacou é também o seio bom que lhe alimenta. Esse processo constituiu a posição depressiva, que nesta fase passa a ter preponderância em relação à posição esquizoparanóide. O cerne do objetivo psicanalítico kleiniano está em trazer à tona, tratar e elaborar as ansiedades, como a criança/adulto lida com o próprio sadismo, uma vez que elas estão na origem de todo desenvolvimento psíquico e ocorrem frente a um superego arcaico fortíssimo e a um ego cindido ainda em desenvolvimento. Nesta fase inicial, muito antes da linguagem e da capacidade de representação mental e psíquica, não há recalque, nem repressão. Sendo assim, não faz mais sentido objetivar tratar psiquicamente as resistências para que o conteúdo recalcado venha à consciência e possa ser elaborado. Em Klein, as posições esquizoparanóide e depressiva se alternam e seguem pela vida de uma pessoa. O analisando tem um papel mais ativo no processo de seu desenvolvimento psíquico e de mecanismos de defesa ao ego cindir, introjetar, projetar, integrar e desintegrar objetos, aprender a simbolizar, lidar com o sadismo. Posteriormente, os processos arcaicos de cisão influenciam a repressão. Já o analisando de Freud dá sua versão dos fatos sobre o que ocorreu com ele, tendo como base, a cena primária, o complexo de Édipo e o princípio de castração, que influenciarão à repressão. Os mecanismos de defesa como a condensação e o deslocamento entre outros são formas de burlar a censura para que o conteúdo recalcado e reprimido chegue à consciência e possa ser elaborado. Freud tem uma visão mais determinista em relação ao analisando dado o foco no complexo de Édipo que ocorre por volta dos 5/6 anos de idade, Klein tem uma visão mais ampla baseada nas relações objetais desde os primeiros instantes de vida. Klein também bebe na fonte da transferência, não poderia ser diferente dado que este é o conceito freudiano fundante da psicanálise, porém o foco dela está na transferência negativa, na relação espacial dos mundos internos e externos do bebê/criança, e no que ocorre no setting psicanalítico, no consultório. Estimular a transferência negativa para que as phantasias inconscientes apareçam, e assim as ansiedades possam ser trabalhadas, é também objetivo do tratamento psicanalítico. Estimulando a agressividade da criança, para que no contato com a realidade e, com o desenvolvimento da capacidade de simbolização, a criança possa fortalecer o ego e ter outra relação objetal com diminuição da força do superego arcaico. A criança passa a perceber que a phantasia inconsciente sob jus desse superego arcaico é muito mais cruel do que a realidade. A criança percebe que pode ter sentimentos ruins e destruidores, o que não significa que ela será retalhada ou que papai ou mamãe irão morrer. O caso Erna é um bom exemplo disso. A phantasia kleiniana, com “ph”, é a revisão de Klein sobre o inconsciente freudiano, ela é nata, é a elaboração imaginativa das funções corporais e das projeções dos impulsos do bebê sobre o objeto, das primeiras relações que o bebê tem com o mundo, é inconsciente, expressão mental das pulsões. O bebê sente, não sabe o que é e, para diminuir a ansiedade gerada, phantasia. Em Freud a fantasia aparece em um estágio posterior, quando já há linguagem e capacidade de representação, sendo consciente, aparece para fazer sentir, para dar a versão dos fatos, de mostrar como a pessoa sente, ela vem no lugar do fato que não interessa mais. Apesar de ambos diferirem no conceito de fantasia, ela para os dois é um instrumento potente a ser trabalhado, está na base do trabalho analítico. Klein catalisa e elabora sobre os principais conceitos de Freud com ênfase numa relação espacial objetal do mundo interno e externo, em alternância das posições esquizoparanóide e depressiva, com foco nas ansiedades e phantasias inconscientes para serem trabalhadas de forma presencial no consultório. Processos relacionados a um superego arcaico bem mais severo do que o superego de Freud, que vai se desenvolvendo a partir do complexo de Édipo, mas que já atua nos primeiros instantes frente a um ego também em desenvolvimento e fraco. O analista estimula a transferência negativa, não tem mais sentido reviver os afetos na figura do analista em uma relação de transferência positiva, não tem mais experiências do passado trazidas ao presente ou sonhos analisados ou revivências de afeto. Dadas essas diferenças, ambos recorrem à transferência no trabalho analítico das pulsões de vida e de morte. Em Klein o foco da análise está nas ações realizadas no setting do consultório e não nos sonhos ou na memória. A observação do brincar em crianças, o equivalente à associação livre no adulto, abriu campo para o desenvolvimento da psicanálise teórica e clínica, fatores que em Klein são praticamente indissociáveis. A análise de uma classe de pessoas considerada inferior para a época, as crianças, trouxe muitos ganhos também para os adultos e possibilitou a expansão do pensamento psicanalítico.

O método psicanalítico em Freud: Travessias

admin Artigos 27 janeiro 2026
Por Emanuelle Duarte  -  A psicanálise, em Freud, nasce como quem abre uma fresta na rocha para ouvir o subterrâneo murmurar. Não é ciência de holofotes, mas de lamparinas: um trabalho de mineração noturna, paciente, quase sacerdotal. Seu método, longe de ser um manual de procedimentos, aproxima-se de uma ética da travessia, um modo de estar diante do outro e diante do indizível, sem recuar. Freud parece sempre escrever como quem avança por um labirinto cuja arquitetura ele próprio descobre enquanto caminha. No coração dessa travessia, há um objetivo tão simples quanto abissal: tornar consciente o inconsciente, fazer com que o sujeito, estrangeiro de si mesmo, reencontre as peças de sua história que foram expulsas para os bastidores da alma. Não se trata de devolver ao indivíduo uma suposta normalidade; trata-se de entregar-lhe uma bússola para que ele possa circular por seus próprios desertos internos sem se perder de vez.A técnica freudiana formula um método que começa por aquilo que mais parece um gesto de humildade: escutar. Mas escutar, aqui, não é colher informações; é abandonar o desejo de compreender de imediato. A atenção igualmente flutuante (recomendação que Freud faz ao analista) tem algo de místico e de profundamente clínico. O analista torna-se uma superfície receptiva, uma antena aberta para o inesperado, para o detalhe que escapa à vigilância do eu. Do lado do analisando, reina a regra fundamental: dizer tudo, sem peneiras, sem decoro, sem o filtro moral do cotidiano. É um convite quase indecente à espontaneidade. E é justamente nessa fluidez, nesse fluxo que parece não ter direção, que as formações do inconsciente se insinuam, como pequenas fendas por onde o passado retorna. Freud sabia que o inconsciente não grita, ele sussurra. E o método é, antes de tudo, aprender a ouvi-lo.Se há uma pedra no meio do caminho (como diria Drummond!) da clínica freudiana, ela se chama transferência. Freud escreve sobre ela como quem reconhece um deus ambivalente: criador e destrutivo, indispensável e perigoso. O sujeito revive no analista, e através dele, antigos amores, antigas revoltas, antigos vínculos que nunca foram realmente encerrados. A análise funciona porque a alma é teimosa: repete. E repete sobretudo na relação. Ali onde o analisando ama demais, desconfia demais, se irrita demais, ali está o rastro vivo do inconsciente. Mas o amor transferencial, escreve Freud, é uma tempestade que deve ser acolhida sem se deixar levar por ela. O analista se torna uma espécie de rocha onde as ondas quebram: firme, silencioso, não sedutor, não repelente. O método funciona quando o analista renuncia ao protagonismo e oferece ao sujeito a chance de se ver refletido na superfície da transferência: esse espelho que mente e, justamente por mentir, revela.Nada do que emerge na análise é manso. O inconsciente não se entrega docilmente: ele resiste. Em A Repressão e O Inconsciente, Freud mostra que o eu construiu verdadeiros mecanismos de defesa para impedir que certos conteúdos venham à luz. Essa resistência não é um acidente, mas a assinatura do conflito. No método psicanalítico, a resistência é tratada como um sintoma que fala, um movimento que indica onde o terreno é fértil e onde a dor é mais funda. Freud propõe que o analista não a combata, mas a interprete. Cada desvio, cada esquiva, cada silêncio que se prolonga mais do que deveria é uma pista. Uma espécie de mapa cifrado. A escuta analítica é, assim, uma arqueologia: cava-se não apenas onde há ruínas, mas onde o terreno, por resistir, denuncia que algo está enterrado.Na obra Lembrar, Repetir e Perlaborar, Freud descreve um dos movimentos mais belos (e mais árduos) da clínica. O sujeito não lembra o trauma como história; ele o repete como destino. As cenas não retornam como lembranças organizadas, mas como padrão, sintoma, gesto, transferência. A cura, portanto, não é uma visita guiada ao passado; é uma negociação com o presente onde o passado insiste em renascer. A perlaboração é o nome que Freud dá a esse trabalho paciente, quase artesanal, no qual o sujeito atravessa várias vezes o mesmo afeto, a mesma dor, até que ela perca sua força silenciosa. É repetição, mas não é circularidade: cada retorno opera uma pequena transformação, como as marés sucessivas que esculpem a rocha. Na psicanálise, nada se resolve de uma vez. Tudo se resolve no tempo, e o tempo não é cronológico, é pulsional.Freud nunca prometeu felicidade. Essa honestidade quase brutal é uma de suas grandezas. O objetivo da análise, segundo ele, é que o eu se torne mais robusto, mais apto a lidar com as exigências internas, mais senhor de seus próprios movimentos. Não se trata de eliminar conflitos, uma vez que para ele uma vida sem conflitos é simplesmente impossível, mas de reduzir o domínio do inconsciente, de devolver ao sujeito a capacidade de escolher onde antes só repetia. A psicanálise conduz o analisando a um ponto curioso de maturidade: não o da calmaria, mas o da lucidez. A cura, se é que podemos chamá-la assim, reside em aprender a suportar a própria verdade sem sucumbir a ela. O inconsciente não desaparece, mas deixa de comandar sozinho.Logo, o método psicanalítico de Freud, tecido pela associação livre, sustentado pela atenção flutuante, atravessado pela transferência e pela resistência, e lapidado pelo trabalho infinito de lembrar–repetir–perlaborar, é mais uma ferramenta do que uma forma de destino. Não há nele uma única fórmula, o que há é um gesto. Um gesto de coragem (e é o que a vida quer da gente, não é mesmo, Guimarães Rosa?). Trata-se de fazer o sujeito falar, sim, mas também de acompanhá-lo enquanto ele escuta aquilo que sua própria fala devolve. A análise é, portanto, uma travessia para dentro, um retorno ao que nunca deixou de agir, ainda que silencioso. Freud, ao instituir seu método, inventou uma maneira de caminhar na escuridão com uma vela na mão: uma luz pequena, mas suficiente para não cair e, sobretudo, suficiente para começar a ver.

Psicanálise de Crianças e Complexo de Édipo

admin Artigos 19 janeiro 2026
Por Tuca Guarnieri  -  Freud e Klein postulam suas teorias para o desenvolvimento psíquico infantil observando as crianças e os bebês.  Conceitualmente as teorias desenvolvidas por ambos, individualmente, ora se esbarram, ora se distanciam. Freud propôs que o desenvolvimento infantil se dava por fases e as classificou como fase oral, anal, fálica, latência e genital. Cada fase ocorria em zonas erógenas específicas, de acordo com cada momento do desenvolvimento. Considerou a sexualidade uma das principais forças do comportamento humano, movida pelas pulsões, e estas iam determinando   as fases do desenvolvimento.Klein propôs que o desenvolvimento infantil se dava por meio das relações objetais, ou seja, o desenvolvimento se dava a partir de como a criança se relacionava com os primeiros objetos que os bebês tinham contato logo após o nascimento. Enfatiza as ansiedades persecutórias que coloca o bebê na posição esquizoparanóide logo após o nascimento, e em um segundo estágio do desenvolvimento, as ansiedades depressivas que o coloca na posição depressiva. As posições esquizoparanóide e depressiva determinam o desenvolvimento psíquico da criança. Klein trabalha a ansiedade, defesa e relações de objetos.Dessa forma, observa-se que Freud trabalhou com fases e Melanie Klein com posições.Freud enfatizou a repressão como mecanismo de defesa. O sujeito reprimia e recalcava no inconsciente para defender o ego de tudo aquilo que o sujeito não conseguia lidar.Klein coloca a cisão como o primeiro mecanismo de defesa contra as ansiedades persecutórias. O bebê projeta para os objetos toda ansiedade que seu ego não consegue lidar.Klein considera que o bebê já nasce com o ego, ainda que frágil e desintegrado.  Freud acreditava que o ego era formado gradualmente durante a infância, conforme a criança ia tendo contato com a realidade, e por meio das experiências com os primeiros cuidadores.Neste ponto deparamos com outro distanciamento. Enquanto Freud enfatiza a importância da realidade externa na formação da psique da criança, Klein enfatiza a importância das fantasias inconscientes do seu mundo interno, apesar de não desconsiderar a relação precoce entre os cuidadores na formação da personalidade.As fantasias também são outro ponto de divergência em ambas as teorias. Freud as vê como uma versão que o indivíduo dá sobre si, assim como uma forma de satisfazer desejos inaceitáveis para a consciência.Para Klein, a fantasia é uma elaboração imaginativa das funções corporais que se dá pela teoria das posições esquizoparanóide e depressiva. Essas fantasias influenciam como o bebê se relacionava com os objetos e posteriormente com o mundo.  No complexo de Édipo encontramos outro ponto de divergência. Freud considera o Édipo um conceito central em sua teoria. O complexo de Édipo se dá na fase fálica do desenvolvimento psicossexual no qual a libido se concentra nos genitais. A criança por volta dos 3 aos 5 anos começa a ter consciência das diferenças dos órgãos sexuais. Desenvolve um desejo incestuoso pelo genitor do sexo oposto. Como consequência desse desejo, a criança desenvolve o complexo da castração que é o medo inconsciente da perda do pênis nos meninos como punição do pai por esse desejo.Desenvolve o sentimento de culpa e a angústia da castração. As meninas passam a ter sentimento de perda, pois já se identificam como “castradas”, e passam a ter inveja e ressentimento em relação aos meninos, que possuem o pênis.  A resolução do complexo de Édipo se dá no último estágio do desenvolvimento, ou seja, na fase genital. O menino ao identificar-se com o pai e a menina com a mãe, reprimem o desejo incestuoso e passam a identificar-se com o genitor do mesmo sexo, desenvolvendo a partir daí uma identidade sexual saudável se preparando para relações futuras.Na identificação da criança com o genitor, a criança internaliza as normas e valores morais dos genitores como forma de evitar a culpa e a ansiedade, dando início ao desenvolvimento do superego que é a estrutura da instância psíquica que regula o comportamento e incorpora as normas morais e éticas da sociedade.Melanie Klein observa bem no início da vida do bebê um estágio inicial do conflito edipiano. O bebê estabelece por meio da fantasia que o seio que o gratifica quando não está com ele está com alguém. Surge daí o conflito de uma triangularidade edípica-primitiva: bebê, seio e um terceiro elemento. Dentro desse édipo primitivo, Klein pontua a existência de um superego primário que se forma por meio dessa ansiedade persecutória e das projeções feitas por ele mesmo. Esses processos são observados no bebê, do nascimento aos seis meses. Após os 6 meses, o ego passa a ter mais consistência e começa a enxergar um pouco mais da realidade para além das suas fantasias. Percebe o seio como objeto total e experimenta muito precocemente o sentimento de culpa e a necessidade de reparação, diferente de Freud que acredita que o sentimento de culpa vem do complexo de Édipo por volta dos 3 aos 5 anos de vida.A castração segundo Klein tem ênfase na ansiedade persecutória na fantasia de ataque e destruição, e não da ameaça da perda do pênis e é simbolizada no desmame.Para Klein no Édipo precoce, a resolução não acontece com a identificação porque é somente um conflito. O Édipo vai acontecer normalmente entre os 3 e 5 anos, segundo a teoria de Freud.A técnica psicanalítica proposta por Freud é a associação livre, a análise de sonhos e a transferência. Estes eram os recursos por ele utilizados, pois eles lhe forneciam dados, que por meio da interpretação levaria ao conhecimento do que estava recalcado no inconsciente e que era a fonte de onde vinham os sintomas. Todo esse material obtido por meio da análise era apresentado ao paciente com o objetivo de tornar consciente o que foi resgatado do inconsciente.  No que tange a psicanálise em crianças, Freud considerava que a análise era possível, porém não era uma prática comum em sua clínica. Reconhecia que a técnica poderia ser comprometida, pelo fato das crianças ainda em desenvolvimento apresentarem dificuldades para se comunicarem e expressarem sentimentos e emoções de forma coerente. Pensava também que por não terem um ego formado elas não conseguiriam lidar com as emoções que emergissem do processo de análise.Um de seus casos mais famosos, apresentado em seu artigo “Análise de uma Fobia de um menino de 5 anos”, observa-se como a técnica foi aplicada.Hans, um menino de 5 anos tinha fobia de cavalos. Freud trabalhou com o pai de Hans que lhe fornecia informações sobre seu comportamento e sonhos. Interpretou as fantasias assim como os sonhos que eram vistos como expressões do inconsciente de Hans. Identificou no menino uma manifestação do complexo de Édipo e que a fobia estava relacionada à ansiedade da castração. A análise produziu efeito com a diminuição da fobia. Freud atribuiu o sucesso à resolução do complexo de Édipo, tendo por consequência a redução da ansiedade na ansiedade de castração.Melanie Klein acreditava que as crianças tinham uma vida emocional intensa e complexa e que por meio de técnicas específicas para trabalhar com crianças, conseguia acessar o inconsciente delas.Para Klein, a associação livre se apresentava no brincar, nas palavras e no comportamento. Tudo era um modo de expressão e tornava-se material a ser analisado.A criança trazia em suas brincadeiras uma tradução das fantasias do inconsciente, fazendo com que seu mundo interno fosse reconstruído e o inconsciente ganhando significado no conteúdo das brincadeiras.A simbolização para Klein é um conceito fundamental em sua técnica que permitia ao analista entender os processos emocionais e o inconsciente da criança. A criança que não consegue simbolizar pode apresentar dificuldades de desenvolvimento, assim como de relacionamento e comportamento.Em seu famoso caso clínico “A importância da formação de símbolos na gênese do ego”, observa-se como a técnica foi aplicada.Dick, um menino de 4 anos que não conseguia se comunicar.Por meio da técnica do brincar usou símbolos, no caso um trem para ajudá-lo expressar seus pensamentos e sentimentos. Ao longo do processo analítico, Dick começou a simbolizar apresentando melhoras na comunicação e na socialização. Klein acreditava que o sucesso da análise vinha com a diminuição das ansiedades e defesas que surgem por meio das fantasias.Trabalhou com a transferência negativa, pois considerava que por meio dela a criança entrasse em contato com suas emoções, seus sentimentos negativos e desta forma conseguia elaborá-los e não os reprimir.

A Última Palestra do Recalcado

admin Artigos 12 janeiro 2026
Por Rodrigo Lopes Barreto -  Boa noite pessoal! Eu tento ficar quieto no meu canto, mas insistem para eu voltar. Devo dizer que de início achei que haviam solicitado uma palestra sexy, ensaiei uma coreografia e tudo... (o palestrante olha para a plateia lascivamente, mas em seguida faz cara de enfadado e prossegue), mas depois vi que era apenas uma palestra que trata do que é meu conteúdo no âmbito dos ensaios da sexualidade e como esse conceito mudou em relação aos escritos sobre a histeria. Esse assunto é polêmico até hoje, dizem por aí que o fato de ter estrito os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade foi um dos motivos do Freud nunca ter ganhado um prêmio Nobel de medicina. Sim, já havia cancelamento no século passado... Pra quem ainda não me conhece, meu nome é Recalcado1 , sou diverso, múltiplo, o Freud era obcecado por mim, e eu sempre retorno!Antes de irmos ao tema principal desta palestra vamos relembrar brevemente os principais tópicos tratados nos ensaios em questão, no primeiro deles o autor discorre sobre as aberrações sexuais, divididas em desvios de objeto e desvios de meta. Um objeto sexual normal seria um indivíduo da mesma espécie, adulto e do sexo oposto, uma das aberrações neste contexto seria a inversão, um invertido era uma pessoa cujo objeto sexual seria alguém do mesmo sexo (o Recalcado revira os olhos). A meta sexual normal seria a união do pênis com a vagina na copulação, levando à resolução da tensão sexual e à diminuição momentânea do instinto sexual, tudo que estiver fora deste contexto é caracterizado como perversão. As perversões podem ser extensões anatômicas para outras áreas do corpo ou objetos, ou fixação em metas sexuais provisórias como tocar, olhar, sadismo e masoquismo. Eu sei que era mil novecentos e pouco, mas que caretice!No segundo ensaio é explorada a sexualidade infantil. Um recém-nascido traria consigo os germens dos impulsos sexuais, que se desenvolvem por algum tempo e depois sucumbem durante um período de latência, para depois regressar apenas na puberdade. A sexualidade infantil é autoerótica, ou seja, ela se satisfaz com o próprio corpo; perversa, porque a meta da sexualidade infantil é gerar prazer por meio da estimulação da zona erógena escolhida; e polimorfa, dada sua variabilidade de extensões para várias partes do corpo. Neste segundo ensaio também se detalham as fases iniciais do desenvolvimento sexual infantil. A fase oral, que consiste no prazer através do ato vital da sucção pela boca, a amamentação serve tanto à nutrição quanto à satisfação dos instintos sexuais, e depois esse prazer aprendido pode se estender à sucção de outras áreas da pele. A fase anal, onde a mucosa intestinal se apresenta como zona erógena e o prazer vem através da distensão causada pela retenção do material fecal. Eu aposto que vocês nunca mais vão pensar no intestino preso da mesma forma! (O Recalcado gargalha, a plateia ri nervosamente). A terceira fase é a fálica, onde a zona erógena se estabelece nos genitais, nesse momento a sexualidade infantil se torna mais próxima da forma definitiva adulta, e a criança toma conhecimento do seu corpo, de seus órgãos genitais e descobre os corpos e genitais dos outros também. Nessa fase se forma o complexo de Édipo, onde a criança desenvolve um desejo inconsciente pelo genitor do sexo oposto, e uma rivalidade com o genitor do mesmo sexo, e o complexo de castração, em que o menino ao descobrir o corpo feminino acha que ela teve o pênis cortado, e isso gera nele o medo inconsciente que o seu seja cortado também, ou que seu pai o corte em virtude de complexo de Édipo, já a menina, ao descobrir o pênis do menino sente inveja do mesmo. Babado forte!Ainda no segundo ensaio, somos apresentados à fase de latência, que começa ao redor dos seis anos de idade. Todos os instintos sexuais são suprimidos! (o Recalcado faz cara de espanto) Todas as atividades sexuais, lembranças e traumas vividos até aqui sucumbem à amnésia infantil, durante esse período são formados os poderes psíquicos que depois se colocarão como entrave no caminho do instinto sexual: o nojo, a vergonha, os ideais estéticos e morais. Em contrapartida, toda a energia libidinal seria desviada para outras atividades, resultando em grande exploração e aprendizado para as crianças. O terceiro ensaio trata da fase genital, a última fase do desenvolvimento psicossexual infantil, que ocorre na puberdade e marca a passagem à maturidade sexual. O instinto sexual que até então era predominantemente autoerótico, encontra agora um objeto sexual e todas as zonas erógenas se submetem ao primado da zona genital.Mas agora vamos ao que interessa. All about Recalcado! O que eu contenho? O que foi reprimido no inconsciente? Na minha primeira palestra nos debruçamos sobre os estudos da histeria, vimos que meu conteúdo era basicamente uma experiência traumática sexual vivida na infância. Na histeria esse trauma era sofrido de forma passiva, usualmente por mulheres, e a lembrança do trauma teria um efeito danoso maior que o trauma em si, ela era reprimida e eu surgia. Quando eu tentava retornar nas histéricas eu era somatizado em sintomas no corpo, esse processo se chamava conversão, e continha um traço mnemônico de mim. Mas a visão do tio Freud ficou bem mais abrangente...Após estudarmos os ensaios sobre a teoria da sexualidade podemos dizer que toda a experiência do desenvolvimento da sexualidade infantil foi reprimida, as vivências, as sensações, as lembranças, os complexos... e em especial como cada pessoa vivenciou esse processo. Todas essas impressões que esquecemos deixaram os mais profundos traços na nossa vida psíquica, e vão afetar profundamente quem somos e como nos relacionamos com os outros e com nós mesmos na vida adulta. Toda essa sexualidade infantil reprimida que me compõe tenta voltar à consciência... E eu retorno, lindamente, através de sonhos, sintomas, atos falhos, chistes, e veja que interessante, toda essa vivência sexual reprimida também pode se manifestar através da transferência durante um atendimento psicanalítico.Pra terminar preciso contar um fato curioso. Uma amiga de Catanduva foi comprar anticoncepcional, ficou desesperada ao saber que o medicamento estava em falta, me procurou sem saber o quê fazer... Vocês acreditam que eu dei um exemplar dos ensaios da sexualidade para ela ler? (o Recalcado ri) E deu certo! Nada como ler esses ensaios do Freud para cortar o clima e... (um homem acena na plateia, o Recalcado para de falar e respira fundo) Gente, esse é o Dr. Astolfo, meu advogado, ele tem medo que o Freud me processe novamente. Calma Astolfo! Não vai acontecer, essa é minha última palestra nesta prezada instituição. Mas eu retorno, eu sempre retorno. Boa noite a todos! Nota do autor1- Neste trabalho retomo o personagem do Recalcado, que fez uma primeira palestra em que se dirigia ao Freud como stalker e cobrava dele parte dos direitos autorais pela obra freudiana e uma segunda palestra, de retratação, como parte do acordo após perder o processo que o Freud moveu. Insta - 🧩📚 Uma leitura viva, provocadora e cheia de humor sobre o Recalcado, os Ensaios sobre a Sexualidade e as transformações do conceito de sexualidade na obra de Freud. Insta - @rodrigolopesbarreto

Freud, o Inconsciente e o Recalque

admin Artigos 11 novembro 2025
Por Marcio Ferreira de Carvalho -  Sigmund Freud (Sigismund Schlomo Freud ⁕ Freiberg, Morávia, 06 de maio de 1856; † Londres, 23 de setembro de 1939) afirmava, mediante o emprego de uma sentença que simbolizava parte de suas formulações sobre a psicanálise, que a descoberta do inconsciente deveria ser creditada aos poetas e filósofos que o antecederam. Coube a ele, no entanto, o desenvolvimento da metodologia científica que permitiria aos psicanalistas a exploração deste lado mais oculto da mente humana.   Em uma fase inicial de suas formulações, Freud interpretava que o inconsciente funcionava como um “quarto de despejos” ou um “depositário” de impulsos ou desejos que teriam sido reprimidos pela mente humana. Fossem elas de natureza sexual e ∕ ou agressiva, estas ideias recalcadas seriam, pois, consideradas incompatíveis com a consciência do indivíduo. Em muitas ocasiões seriam capazes, inclusive, de atentar contra a sua própria moral. Para permitir que este mesmo cidadão ou cidadã permanecesse funcional, tais representações, junto com as suas emoções não ab-reagidas, terminariam sendo amordaçadas pelo Eu e lançadas nas profundezas do inconsciente. Sigmund Freud em sua Segunda Tópica sobre a organização do aparelho psíquico e, posteriormente, o psicanalista suíço Carl S. Jung, aprimorarão tais conceitos. Jung afirmará que o papel do inconsciente é ser grande guia, amigo e conselheiro, principalmente através dos sonhos, da consciência. Foi com base nesta afirmativa que foi elaborada a sua obra “O homem e seus símbolos”. O aparelho psíquico humano, a fim de enfrentar emoções negativas e conflitos internos, e objetivando, sobretudo, impedir a perpetuação da ansiedade e da angústia geradas a tais divergências, lança mão de estratégias psicológicas para proteção do self. Estas ferramentas, denominadas “Mecanismos de Defesa” são, em sua grande maioria, atos automáticos e inconscientes de proteção do Ego. George E. Vaillant, professor de psiquiatria da Universidade de Harvard, classificou estes mecanismos de defesa conforme seu primitivismo ∕ complexidade, dividindo-os da seguinte forma:  1. Primitivos (precoces, com grande propensão à distorção da realidade): Negação; Projeção; Idealização; Clivagem do Eu; Onipotência; Identificação projetiva; Atuação; Evitamento; Conversão. 2. Intermediários (ocorrência na infância tardia e adolescência. Há distanciamento, mas com algum contato com a realidade): Repressão ou Recalque; Formação reativa; Isolamento do afeto; Racionalização; Intelectualização.         3. Maduros (tardios, complexos e adaptativos): Sublimação, Compensação; Humor; Altruísmo; Supressão.   O Inconsciente sempre busca se expressar mesmo que isso ocorra de forma indireta, nebulosa, enigmática ou simbólica. Lembremos ainda que ele tem como características ser amoral, aético, atemporal e alógico, sendo considerado desconhecido, infinito e incognoscível à luz da psicanálise. Ainda que as representações recalcadas nesta partição do nosso aparelho psíquico costumem perder a sua força, as emoções vinculadas a tais repressões tendem a permanecer bastante vivas, buscando suplantar mecanismos de defesa e censura internos, em uma tentativa de retorno à consciência. Após um período de incubação ou latência pós-trauma uma dada situação da vida de uma pessoa termina por promover um link por vezes simbólico com o recalque. A partir deste momento, dispara-se o mecanismo de retorno do recalcado, a tentativa de emersão emocional de antigos sentimentos conflituosos que haviam sido desviados para o inconsciente. São muitas as vias empregadas por esta tentativa de regresso: a energia não ab-reagida pode se direcionar, por exemplo, para o Soma, culminando em sintomas conversivos – mais um dos mecanismos de defesa primitivos do ego. Ela pode ser, por outro lado, deslocada para um objeto menos ameaçador como no caso das fobias. Por fim, pode se transformar em uma neurose obsessivo-compulsiva por distorções do pensamento. Em situações ainda mais severas, poderemos nos deparar com casos de psicose onde há verdadeira ruptura do aparelho psíquico humano com a realidade que o cerca.  Entre 1886 e 1995, Josef Breuer e Freud iniciam a utilização da Hipnose para reavivar memórias reprimidas no inconsciente. Com o emprego do método logo percebem, no entanto, as principais limitações para seu uso: apenas 80% dos pacientes eram “hipnotizáveis”, seus resultados eram passageiros e o acesso ao inconsciente era considerado imperfeito. Avançando em seus estudos, Breuer e Freud associam à hipnose, em 1895, uma nova ferramenta psicanalítica, o Método Catártico, objetivando liberar afetos reprimidos e promover a sua ab-reação. A suposta eficácia curativa do método, todavia, dependia de um sugestionamento concebido pelo próprio terapeuta e não pela promoção de um amadurecimento mental do paciente. No primeiro caso, o psicanalista estaria agindo como um pintor, acrescentando sentidos às ideias do paciente quando o ideal seria agir como um escultor, promovendo a remoção de excessos ou camadas para, aí sim, atingir o núcleo do recalque e permitir a elaboração e simbolização do conteúdo reprimido por parte do enfermo. Neste caso, cabe parafrasear duas citações correlacionadas. A primeira, de Platão, confere um aspecto artístico que pode ser ligado à psicanálise: “as formas perfeitas já existem no mundo das ideias, e o artista apenas as revela ao mundo sensível”; a segunda é atribuída ao escultor italiano Michelângelo Buonarroti: “O trabalho do artista é remover o supérfluo até que o essencial — a forma humana ou divina - seja revelada”.          As imperfeições dos métodos descritos acima conduzirão a outras formas de exploração do inconsciente. Surge, portanto, a técnica de Associação Livre. Em um ambiente de neutralidade, destituído de pré-conceitos, críticas, julgamentos, punições ou sugestões por parte do terapeuta, o paciente livre associa falando tudo que lhe vem à mente. O psicanalista, agindo com neutralidade, mantendo-se opaco como uma superfície espelhada para este mesmo analisando, sustenta o discurso, interpretando-o e conduzindo o paciente à elaboração e simbolização do conteúdo recalcado. Sonhos, conforme amplamente estudados por Freud em sua obra magna “A interpretação do sonhos” de 1900, lapsos, atos falhos e chistes também se apresentam como manifestações indiretas do inconsciente. A posteriore, entre 1912 e 1915, Freud desenvolverá um derradeiro conceito, a Transferência, considerando-a núcleo do processo analítico.   Gustave Le Bon, psicólogo francês, dizia que “qualquer que seja a razão, o inconsciente muitas vezes nos domina e sempre nos cega”. Cabe aos psicanalistas a tarefa de explorá-lo e a partir daí, quem sabe, pelo atrito destas duas pedras, a Psicanálise e deste mesmo Inconsciente, chisparão faíscas. Destas faíscas, obteremos o fogo e deste fogo, a luz que, por fim, eliminará a cegueira, ao emergir da escuridão*.         *Adaptação de uma frase atribuída ao escritor francês Victor Hugo.  

Um Inimigo Imaginário

admin Artigos 07 novembro 2025
Por Juliana Oliveira Macedo Malassise -  Cresci escutando esta voz. Uma voz alta, forte, cruel. Ela me dizia que não estava bom, que Eu não era suficiente, que Eu não era boa o bastante. Na vida adulta, demorei, mas percebi que Eu não era esta voz. Mas ela estava ali desde o momento que eu acordava ao momento que eu dormia. Você tem que ser perfeita, você tem que ser melhor, você tem que emagrecer, você tem que trabalhar mais, você não chegou aonde queria. Mas porque Eu tenho que lidar com este julgamento que não sou Eu, que não me representa e que definitivamente não vai me fazer feliz. Vivo com um inimigo imaginário, ele mora na minha psique, no meu consciente, e é meu pior inimigo. Sinto culpa. Sinto culpa de dormir, de descansar, de comer. Sinto culpa de falar alto, de falar baixo, de me posicionar, de não me posicionar. Meu inimigo me diz todos os dias que estou errada e que não vou conseguir. Me machuca, dói. Eu sofro, mas sinto que mereço sofrer, gosto de sofrer. Meu inimigo busca um ideal, um ideal inalcançável, um ideal do Eu. Eu teria que ser super para conseguir, teria que ser um Super-eu. Freud diz que esta voz representa o herdeiro do complexo de Édipo, minhas primeiras identificações, as vozes da infância introjetadas, minha família. Eles eram meus investimentos libidinais, sabiam tudo, me ensinaram tudo. Eu os idolatrava e fazia qualquer coisa para conseguir sua admiração, sua aprovação, seu amor. No entanto, o mundo aos poucos foi me mostrando novidades, diferentes pontos de vista, reflexões. Escolhi o que me identificava, me dilui e floresci. E com isso meu Eu foi crescendo, se fortalecendo e se adaptando aos princípios da realidade. No entanto, Eu e esta voz vivemos um conflito sem fim. Meu inimigo imaginário insiste em coisas que não fazem mais sentido pra mim, distantes do meu Eu. E por mais que Eu fuja, tente esquecer, parte delas continuam ali, pois são primárias, imediatas e diretas. A voz do meu inimigo representa a sociedade, a moral, as instituições, a religião. Tudo que quer controlar o Eu de forma imperativa, categórica, reativa e coerciva. Me sinto doente, a voz dentro de mim é patológica, me adoece. Sou neurótica, psicótica, perversa. Nesta melancolia, estou sufocada. Afinal meu inimigo imaginário não se cansa, quer minha energia, meu prazer, julga minhas fantasias e me poda. Sinto que minha libido se derrete, estou gelada e sem forças para continuar essa briga, vivo em luto, estou destruída. Me destruí. Meu Super-eu me destruí. O inimigo dentro de mim me julgou e me condenou, Eu sou a culpada. Agora só quero dormir, desligar, aquietar e silenciar essa voz. Não quero ser mais Eu, só quero o descanso, a paz e o inorgânico. Não entendo, mas sinto Isso. Mas graças ao Eros, meu Eu é mais forte, retoma sua construção, sua transformação. Dizem que as pessoas não mudam, mas o Eu muda. O Eu é o líder, o rei, o racional. O Eu escolhe, programa, reprograma, substitui, desloca, configura. Eu já cheguei ao fundo do poço, e sei como é estar lá. Como consequência, tenho que renascer, resistir mais uma vez, buscar o meu prazer, minha vida. O amor e o ser amada. Assim, construo equilíbrio interior e exterior. Eu decido meus investimentos, me acolho, supero meu inimigo imaginário e me adapto ao mundo, sublimando mais uma vez. Todavia meu Eu gostaria de ter controle de tudo, é exaustivo. Minimizar riscos, fugir do medo e da sua angústia. Mas a realidade da psique humana é muito mais complexa e Eu não tenho controle. Existe algo abstrato que me move, Isso que é estranho quando aparece, que é inexplicável, mas ao mesmo tempo familiar. Isso é tão infinito, quanto meu mundo exterior e me impulsiona em direções que Eu não entendo. Esta força visceral e ambivalente exerce forte poder sobre mim, por mais que Eu tente domá-la. Isso aparece em meus sonhos, meus atos falhos, em comportamentos que Eu não entendo, em coisas que simplesmente faço sem saber o porquê. Está no meu princípio de prazer e nos meus desejos mais profundos e incompreensíveis. Isso não fala, Isso simboliza. Isso pulsa vida e morte, amor e ódio. Freud afirma na segunda tópica, que a psique é formada por três instâncias, o Isso, o Eu e o Super-Eu. Eu estou no meio desta sagrada trindade, na qual Isso é tudo, menos santo. O Super-eu compete para ser Pai, sua voz soa onipotente. E Eu? Ora busco satisfazer Isso, ora me defendo, esqueço, recalco, introjeto. Ora sou compulsiva, repito o padrão, escutando meu inimigo. Depois lembro, elaboro e construo, escolhendo meus objetos. Também fantasio, sonho, desligo. Ora sei o que fazer, ora não sei por que estou fazendo Isso. Mas sustento o não saber. Afinal, Eu sou Pai. Tenho que reforçar minha autoestima, e aceitar a frustração, o erro. Simplesmente confio. No meu Eu, no Isso, e por que não? No meu inimigo. Antes de enlouquecer, me aproprio da minha função egóica e invisto libido em mim. Um narcisismo necessário. Assim vivo este conflito. Esta guerra civil. Ao equilibrar prazer e realidade, Eu me liberto.

A Palestra de Retratação do Recalcado

admin Artigos 27 outubro 2025
Por Rodrigo Lopes Barreto -  Boa noite a todos! Meu nome é Recalcado, creio que seja do conhecimento de todos que havia um litígio jurídico em andamento com o Sr. Freud, a quem jocosamente chamava de stalker, e faz parte do acordo a realização desta palestra de retratação no lugar do pagamento de danos morais. Hoje venho falar das primeiras proposições que o Sr. Freud fez de como eu poderia ser lembrado. Desde a antiguidade já se falava da influência do estado anímico sobre o corpo, e o Sr. Freud foi muito engenhoso ao juntar e organizar todo esse conhecimento, estamos falando do final do século XIX, época de avanços no conhecimento médico, mas limitados às alterações físicas do homem, todo sofrimento que estava sob influência de oscilações de ânimo e preocupações era visto com desdém. O Sr. Freud tinha pouco apoio em Viena, e seu interesse no tratamento da histeria o levou a fazer um estágio em Paris, no Hospital Salpêtrière, onde Charcot fazia uso de hipnose. Foiuma época muito divertida da minha vida, eu voltava em cada sintoma espalhafatoso, até crises convulsivas cheguei a simular, me divertia mais que os impressionistas nos cabarés de Paris.Impactado por essa visita, em conjunto com Breuer, o Sr. Freud propôs os primeiros esboços de tratamento anímico, fazendo uso do método de hipnose e sugestão. A hipnose levava o doente a um estado anímico de alta entrega, e então se aplicava o método da sugestão e do convencimento. A expectativa era que o paciente obedecesse a um comando verbal que cessaria o trauma e ao acordar os sintomas fossem resolvidos, mas o método começou a demonstrar falhas. Pra começar, alguns pacientes eram resistentes à hipnose e o método catártico era ineficaz nas neuroses de angústia e neurastenia, além disso, por ser um tratamento sintomático e não causal, novos sintomas apareciam no lugar dos eliminados... e por último (o Recalcado revira os olhos), corria a boca pequena que o Sr. Freud não era um bom hipnotizador. Meu advogado sofre!Há controvérsias, mas para alguns autores o Sr. Freud iniciou o desenvolvimento no tratamento psicanalítico logo após abandonar a hipnose. Ele tem ciência da capacidade dos estados anímicos se transformarem em processos corporais, da importância do vínculo com o paciente, e começa a entender a força da palavra. Esperava-se que o sintoma histérico desaparecesse de imediato quando despertássemos com clareza a lembrança do acontecimento motivador, liberando o afeto que o acompanha. Eu seria escoado ao consciente através da fala, e por fim processado e ab-reagido. O método era trabalhoso, demorado e necessitava de empatia por parte do médico, e de confiança e intelecto por parte do paciente. O Sr. Freud estimulava, insistia e demandava dos pacientes esforço para lembrar dos eventos traumáticos, pedia que se deitassem, fechassem os olhos e se concentrassem. Nesse período ele também lançava mão de uma pressão com o dedo na região frontal, o método era aplicado em situações de estagnação da fala, pedindo que eles dissessem a primeira coisa que lhes viesse à cabeça. Essa técnica funcionaria como uma hipnose momentaneamente forçada, dissociando a atenção do doente de sua reflexão consciente e permitindo que emergissem as lembranças. Com essa técnica ele esperava vencer por um instante a defesa, minha inimiga e uma força psíquica que se opõe ao meu retorno ao consciente. Não posso deixar de tocar em uma questão polêmica. Recalcado que sou, sofri muito quanto o Sr. Freud relacionou meu conteúdo à sexualidade infantil. Para ele, a sexualidade infantil está ligada com o que esquecemos, as causas das doenças histéricas se encontram nas intimidades da vida psicossexual e os sintomas são a expressão de seus mais secretos desejos reprimidos. O sintoma histérico é convertido em sintoma somático. No começo, o sintoma não é bem-vindo na vida psíquica, mas depois, alguma corrente psíquica acha cômodo servir-se do sintoma, que fica ancorado no inconsciente, a tentativa de cura-lo encontra grande resistência, que no fundo mostra que a intenção de se livrar do sofrimento não é legítima. O sintoma serve a algo psíquico que seria recriminado pela consciência, ele seria uma linguagem para aquilo que não pode ser contado, causa dor por um lado, mas por outro faz gozar. No fundo, no fundo, o histérico ama o seu sintoma e olha que legal pessoal, segundo o Sr. Freud um ‘não saber’ de um histérico, seria um ‘mais ou menos consciente não querer saber’ e a tarefa do terapeuta seria vencer essa resistência por meio do trabalho psicanalítico. Como havia dito na outra palestra, sou uma ideia patogênica, quanto maior essa ideia, mais graves e intensos são os sintomas que gero com o meu retorno, e o objetivo do tratamento psicanalítico era eliminar as resistências que obstruem o caminho até mim. A técnica pretendia fazer com que eu passasse pelo estreito da consciência, e isso tinha que ser feito com cuidado, forçar o paciente poderia me enterrar ainda mais. Seria necessário respeitar o tempo de formulação do paciente e ter ciência que num primeiro momento os sintomas do meu retorno poderiam piorar antes da ab-reação. Foi nesse sentido que o Sr. Freud me comparou a um corpo estranho, porque não tenho nenhuma conexão com o tecido que me circunda, mas lhe imponho uma reação, e podemos dizer que o infiltrado inflamatório ao redor que dificulta o acesso é a resistência. Gente, olha o Tio Sig usando modelo desde aquela época. Arrasou! Já no século XX, o método psicanalítico Freudiano segue evoluindo, fica evidente que não se tratava de apenas uma única impressão traumática, mas uma série delas, e a fala do paciente ganha cada vez mais importância. Dizem as más línguas que devemos isso à minha amiga Baronesa Fanny Moser, ao que tudo indica ela, tomada pelo espírito do ‘eu tô pagando’, solicitou que o Sr. Freud a deixasse falar em paz... (nova revirada de olhos)... e foi isso que ele fez, deitou os pacientes num divã, evitou o contato físico e tudo que possa lembrar a hipnose e se sentou em uma cadeira atrás deles. O tratamento poderia ser aplicado a uma quantidade ilimitada de doentes, e a partir deste momento o Sr. Freud buscava as ocorrências involuntárias do paciente que vinham do convite a falar livremente, mesmo que achando sem importância e sem sentido, evidenciando lacunas, que seriam preenchidas vencendo as resistências. Os fatos esquecidos são fruto do processo que me recalcou para evitar sensações desagradáveis ao paciente. Forças psíquicas querem me trazer de volta ao consciente, e a resistência se ergue contra o meu restabelecimento. As ocorrências involuntárias citadas acima são derivadas de formações psíquicas recalcadas deformadas pela resistência, quanto maior a resistência, maior a deformação. Nessa relação das ocorrências involuntárias com o material psíquico recalcado reside o cerne para a técnica terapêutica. Visando chegar até mim e me tornar consciente ele desenvolveu uma série de interpretações de atos involuntários, não planejados e de equívocos na vida do doente ao falar e agir, baseado no que lhe era informado tecia teorias, conceitos e os apresentava ao paciente, a reação do mesmo mostrava se havia chegado a um ponto muito incômodo e encontrado uma resistência mais forte. Fundamental também foi o aprofundamento na questão dos sonhos para compreender os processos psíquicos das neuroses e apoiar o processo psicanalítico, para o Sr. Freud todo sonho era a realização de um desejo. O conteúdo manifesto do sonho era fruto da defesa, que deforma, desloca e distorce para omitir o conteúdo onírico, e mesmo assim, o sonho estaria intimamente relacionado comigo, em última análise ele é um meio para contornar a censura e uma forma indireta de chegar até mim. Outra questão importante é o conceito da transferência. O paciente transfere para o médico as ideias penosas que emergem na consciência, e desperta o mesmo afeto que havia impelido o paciente a banir esse desejo ilícito. Para Freud ficou claro o quanto ela pode ser prejudicial ao tratamento se negligenciada, vide o caso Dora, mas por outro lado, perceber e comunicar a transferência pode fazer dela um poderoso recurso no tratamento psicanalítico. Em resumo, o método psicanalítico visaria suspender amnésias, me tornar reversível, tornar o inconsciente acessível ao consciente e reestabelecer no paciente a capacidade de realizar coisas e gozar a vida. A palavra vai tomando o lugar do pensamento consciente, lacunas aparecem, são preenchidas e assim atualizamos o passado no presente. Tudo vira linguagem e aos poucos desfazemos o processo psíquico que tanto sofrimento causou. Dívida paga Sr. Freud! Obrigado! Nota do autor1- No primeiro texto que publiquei neste blog (PALESTRA DO RECALCADO), criei um personagem chamado RECALCADO, ele dava uma palestra sobre o seu retorno, chamava Freud de stalker e chegava a pedir participação nos direitos autorais por se dizer muso inspirador da psicanálise. Havia uma questão jurídica em andamento entre os dois.  
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