EPP - Escola de Profissionais da Psicanálise

A Palestra de Retratação do Recalcado

A Palestra de Retratação do Recalcado

admin Artigos 27 outubro 2025

Por Rodrigo Lopes Barreto - 

Boa noite a todos! Meu nome é Recalcado, creio que seja do conhecimento de todos que havia um litígio jurídico em andamento com o Sr. Freud, a quem jocosamente chamava de stalker, e faz parte do acordo a realização desta palestra de retratação no lugar do pagamento de danos morais. Hoje venho falar das primeiras proposições que o Sr. Freud fez de como eu poderia ser lembrado. Desde a antiguidade já se falava da influência do estado anímico sobre o corpo, e o Sr. Freud foi muito engenhoso ao juntar e organizar todo esse conhecimento, estamos falando do final do século XIX, época de avanços no conhecimento médico, mas limitados às alterações físicas do homem, todo sofrimento que estava sob influência de oscilações de ânimo e preocupações era visto com desdém. O Sr. Freud tinha pouco apoio em Viena, e seu interesse no tratamento da histeria o levou a fazer um estágio em Paris, no Hospital Salpêtrière, onde Charcot fazia uso de hipnose. Foi
uma época muito divertida da minha vida, eu voltava em cada sintoma espalhafatoso, até crises convulsivas cheguei a simular, me divertia mais que os impressionistas nos cabarés de Paris.

Impactado por essa visita, em conjunto com Breuer, o Sr. Freud propôs os primeiros esboços de tratamento anímico, fazendo uso do método de hipnose e sugestão. A hipnose levava o doente a um estado anímico de alta entrega, e então se aplicava o método da sugestão e do convencimento. A expectativa era que o paciente obedecesse a um comando verbal que cessaria o trauma e ao acordar os sintomas fossem resolvidos, mas o método começou a demonstrar falhas. Pra começar, alguns pacientes eram resistentes à hipnose e o método catártico era ineficaz nas neuroses de angústia e neurastenia, além disso, por ser um tratamento sintomático e não causal, novos sintomas apareciam no lugar dos eliminados... e por último (o Recalcado revira os olhos), corria a boca pequena que o Sr. Freud não era um bom hipnotizador. Meu advogado sofre!

Há controvérsias, mas para alguns autores o Sr. Freud iniciou o desenvolvimento no tratamento psicanalítico logo após abandonar a hipnose. Ele tem ciência da capacidade dos estados anímicos se transformarem em processos corporais, da importância do vínculo com o paciente, e começa a entender a força da palavra. Esperava-se que o sintoma histérico desaparecesse de imediato quando despertássemos com clareza a lembrança do acontecimento motivador, liberando o afeto que o acompanha. Eu seria escoado ao consciente através da fala, e por fim processado e ab-reagido. O método era trabalhoso, demorado e necessitava de empatia por parte do médico, e de confiança e intelecto por parte do paciente. O Sr. Freud estimulava, insistia e demandava dos pacientes esforço para lembrar dos eventos traumáticos, pedia que se deitassem, fechassem os olhos e se concentrassem. Nesse período ele também lançava mão de uma pressão com o dedo na região frontal, o método era aplicado em situações de estagnação da fala, pedindo que eles dissessem a primeira coisa que lhes viesse à cabeça. Essa técnica funcionaria como uma hipnose momentaneamente forçada, dissociando a atenção do doente de sua reflexão consciente e permitindo que emergissem as lembranças. Com essa técnica ele esperava vencer por um instante a defesa, minha inimiga e uma força psíquica que se opõe ao meu retorno ao consciente.

Não posso deixar de tocar em uma questão polêmica. Recalcado que sou, sofri muito quanto o Sr. Freud relacionou meu conteúdo à sexualidade infantil. Para ele, a sexualidade infantil está ligada com o que esquecemos, as causas das doenças histéricas se encontram nas intimidades da vida psicossexual e os sintomas são a expressão de seus mais secretos desejos reprimidos. O sintoma histérico é convertido em sintoma somático. No começo, o sintoma não é bem-vindo na vida psíquica, mas depois, alguma corrente psíquica acha cômodo servir-se do sintoma, que fica ancorado no inconsciente, a tentativa de cura-lo encontra grande resistência, que no fundo mostra que a intenção de se livrar do sofrimento não é legítima. O sintoma serve a algo psíquico que seria recriminado pela consciência, ele seria uma linguagem para aquilo que não pode ser contado, causa dor por um lado, mas por outro faz gozar. No fundo, no fundo, o histérico ama o seu sintoma e olha que legal pessoal, segundo o Sr. Freud um ‘não saber’ de um histérico, seria um ‘mais ou menos consciente não querer saber’ e a tarefa do terapeuta seria vencer essa resistência por meio do trabalho psicanalítico. Como havia dito na outra palestra, sou uma ideia patogênica, quanto maior essa ideia, mais graves e intensos são os sintomas que gero com o meu retorno, e o objetivo do tratamento psicanalítico era eliminar as resistências que obstruem o caminho até mim. A técnica pretendia fazer com que eu passasse pelo estreito da consciência, e isso tinha que ser feito com cuidado, forçar o paciente poderia me enterrar ainda mais. Seria necessário respeitar o tempo de formulação do paciente e ter ciência que num primeiro momento os sintomas do meu retorno poderiam piorar antes da ab-reação. Foi nesse sentido que o Sr. Freud me comparou a um corpo estranho, porque não tenho nenhuma conexão com o tecido que me circunda, mas lhe imponho uma reação, e podemos dizer que o infiltrado inflamatório ao redor que dificulta o acesso é a resistência. Gente, olha o Tio Sig usando modelo desde aquela época. Arrasou!

Já no século XX, o método psicanalítico Freudiano segue evoluindo, fica evidente que não se tratava de apenas uma única impressão traumática, mas uma série delas, e a fala do paciente ganha cada vez mais importância. Dizem as más línguas que devemos isso à minha amiga Baronesa Fanny Moser, ao que tudo indica ela, tomada pelo espírito do ‘eu tô pagando’, solicitou que o Sr. Freud a deixasse falar em paz... (nova revirada de olhos)... e foi isso que ele fez, deitou os pacientes num divã, evitou o contato físico e tudo que possa lembrar a hipnose e se sentou em uma cadeira atrás deles. O tratamento poderia ser aplicado a uma quantidade ilimitada de doentes, e a partir deste momento o Sr. Freud buscava as ocorrências involuntárias do paciente que vinham do convite a falar livremente, mesmo que achando sem importância e sem sentido, evidenciando lacunas, que seriam preenchidas vencendo as resistências. Os fatos esquecidos são fruto do processo que me recalcou para evitar sensações desagradáveis ao paciente. Forças psíquicas querem me trazer de volta ao consciente, e a resistência se ergue contra o meu restabelecimento. As ocorrências involuntárias citadas acima são derivadas de formações psíquicas recalcadas deformadas pela resistência, quanto maior a resistência, maior a deformação. Nessa relação das ocorrências involuntárias com o material psíquico recalcado reside o cerne para a técnica terapêutica.

Visando chegar até mim e me tornar consciente ele desenvolveu uma série de interpretações de atos involuntários, não planejados e de equívocos na vida do doente ao falar e agir, baseado no que lhe era informado tecia teorias, conceitos e os apresentava ao paciente, a reação do mesmo mostrava se havia chegado a um ponto muito incômodo e encontrado uma resistência mais forte. Fundamental também foi o aprofundamento na questão dos sonhos para compreender os processos psíquicos das neuroses e apoiar o processo psicanalítico, para o Sr. Freud todo sonho era a realização de um desejo. O conteúdo manifesto do sonho era fruto da defesa, que deforma, desloca e distorce para omitir o conteúdo onírico, e mesmo assim, o sonho estaria intimamente relacionado comigo, em última análise ele é um meio para contornar a censura e uma forma indireta de chegar até mim. Outra questão importante é o conceito da transferência. O paciente transfere para o médico as ideias penosas que emergem na consciência, e desperta o mesmo afeto que havia impelido o paciente a banir esse desejo ilícito. Para Freud ficou claro o quanto ela pode ser prejudicial ao tratamento se negligenciada, vide o caso Dora, mas por outro lado, perceber e comunicar a transferência pode fazer dela um poderoso recurso no tratamento psicanalítico.

Em resumo, o método psicanalítico visaria suspender amnésias, me tornar reversível, tornar o inconsciente acessível ao consciente e reestabelecer no paciente a capacidade de realizar coisas e gozar a vida. A palavra vai tomando o lugar do pensamento consciente, lacunas aparecem, são preenchidas e assim atualizamos o passado no presente. Tudo vira linguagem e aos poucos desfazemos o processo psíquico que tanto sofrimento causou. Dívida paga Sr. Freud! Obrigado!

Nota do autor
1- No primeiro texto que publiquei neste blog (PALESTRA DO RECALCADO), criei um personagem chamado RECALCADO, ele dava uma palestra sobre o seu retorno, chamava Freud de stalker e chegava a pedir participação nos direitos autorais por se dizer muso inspirador da psicanálise. Havia uma questão jurídica em andamento entre os dois.

 

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