Por Fernanda Marques Lima Vendramini - Com grande curiosidade iniciei a leitura do livro “Eu me lembro”, de Selton Mello, primeiro porque é um ator e diretor da minha geração. Criança, assistindo às novelas em casa todos os dias, naturalmente passava a admirar aquela outra criança, que estava “dentro” da televisão, atuando com tanta propriedade. E a vida passa, e continuei a observar, em meio a tantos novos atores e diretores, bem como ao dia a dia atribulado e tantas responsabilidades que surgem no crescimento de um ser humano,que Selton Mello aparecia... sumia... e uma discrição rara da própria vida, sem holofotes. Não sei o que esperava ao ler o livro... penso que fui sem expectativas... e me surpreendo a cada relato, lembrança, desabafo, revelações... Quantas coisas Selton diz sobre ele que me parecia escrever sobre mim... de meus sentimentos, impressões, autoconhecimento... muita identificação da minha parte em seus relatos, apesar de termostrajetórias de vida completamente diferentes. Comprovação de que, apesar de sermos tão diferentes uns dos outros, muitas coisas podemos ter em comum. E qual não foi minha surpresa a cada momento em que Selton dizia sobre a magia, técnica, formas de atuar e dirigir, e meus insights sobre a atividade de psicanalista!? Ainda não me vejo como psicanalista, apesar de ouvir de vários facilitadores da EPP que já somos, que já atuamos desta forma, mas é certo que, diante destas impressões que fui tendo ao ler os relatosde Selton, fui dando razão às falas dos orientadores... Não tenho ainda experiência na Psicanálise, mas cheguei à conclusão que existe muito em comum entre esta e a arte, a arte de atuar e de dirigir (seja uma peça, novela, série, filme... Selton já temmuito cabedal como diretor). São tantos trechos que poderiam aqui ser transcritos e os psicanalistas lerem e pensarem: estão falando de Psicanálise? De uma sessão de terapia? Mas entendo que seria demasiado transcrever trechos sem comentar o que, de fato, parece ser mais importante para tentar demonstrar a similaridade entre a arte de atuar/dirigir e a psicanálise. Selton é da experiência e opinião de que “atuar é, na essência, algo simples”, e mais do que isto, leve, e que se tiver dor envolvida, vive-se a dor daquele momento e fim, vida que segue. Fala do “aqui e agora”, e que muitas vezes o ator se prepara tanto que não tem espaço para o acaso, não sabe lidar com o imprevisto. Penso que isto é real para a função do analista, de vivenciar cada sessão única comoela é, com atenção flutuante, de forma leve, mesmo que se tenha dor envolvida, e acabada aquela sessão, outra virá, talvez sem dor. Para Wilfred Bion e outros psicanalistas, o silêncio é importante, ele também é uma fala, tem um significado. Para Selton as pausas são interessantes... é onde, muitas vezes, se consegue ver o que opersonagem pensa, é tocar o que está por trás das palavras e também da ausência delas. Algo que me chamou muito a atenção na psicanálise é a importância e necessidade de se ter um cabedal cultural cada vez maior, para que o analista possa ser a cada dia mais assertivo na troca com o analisando, lhe dando exemplos e modelos de aproximação daquilo que diz e sente. É como se o analista passasse a prestar atenção 24 horas em todas as formas de cultura, no dia a dia, em perceber detalhes interessantes em tudo, até mesmo num “meme” de rede social. E não é que Selton também diz isto sobre aarte de atuar?! O ator, em sua visão, é uma antena, que deve estar atento ao que passa na TV, rede social, rádio, na feira, mercado, na rua, na farmácia, pois “tudo é alimento, tudo pode e deve ser usado depois”. Quem já fez ou faz análise vivencia a cada sessão o final de não ter resposta pronta, a angústia de ir embora para pensar, em procurar dentro de si um desenvolvimento e, quem sabe, uma conclusão temporária... sim, temporária, porque estamos sempre em transformação. E Selton, novamente neste ponto, diz que “atuar é quase tentar ser invisível”, que o ator “não deve entregar tudo pronto. O espectador conclui o raciocínio.” Tão psicanalítico tudo isto. Na Psicanálise existe muita discussão sobre a técnica a ser seguida, se é necessária mesmo, se é importante, se é possível misturar uma com a outra, e também se o foco for a técnica, onde fica a emoção, o sentimento. Pois bem, em determinado trecho do livro, Pedro Paulo Rangel pergunta a Selton o que prefere, o que importa, a técnica ou a emoção? E, mais uma vez, a resposta dele em atuar se coaduna com a psicanálise: “acho que as duas coisas”. A emoção está ali, presente, latente, manifesta, e a técnica vai se desenvolvendo, e cada um vai criando a sua, trabalhando, observando a si mesmo, observando os colegas, estudando sozinho ou em bando (como dizem os psicanalistas). Atuar e Psicanálise tão similares, o que me faz concluir que ambas são artes, de ouvir, de ter fé, observar o outro e a si mesmo, transformar, e se encantar com a beleza das artes em todas as suasformas.
Por Adrina Machado Gomes - Dora iniciou sua análise quando ela estava com 18 anos, foi levada para tratamento por seu pai a quem Freud atendeu com sucesso em uma época em que ele apresentava um problema oriundo da sífilis. A paciente morava com seus pais e um irmão um ano e meio mais velho que ela. Dora era carinhosamente apegada ao pai que apresentou durante a vida diversas enfermidades e tinha na filha uma cuidadora, companheira e confidente. A relação de Dora com a mãe era inamistosa há vários anos e menina não se deixava influenciar por ela. O irmão mais velho da paciente, fora seu modelo. No entanto nos últimos anos a relação entre eles havia se tornado distante. O relacionamento entre os pais de Dora não era satisfatório, o irmão procurava afastar-se o máximo possível das discussões da família, mas, quando se via obrigado a tomar partido, apoiava a mãe. Conjecturando “O Caso Dora” com os estudos dos “Três ensaios da sexualidade” é possível perceber a triangulação edípica e supor: Dora menina “apaixona-se” pelo pai, ressente-se com a mãe por não ter lhe dado um pênis, e espera que o pai lhe dê um pênis. O pai deveria então ajudar a menina a entender que ele não esta disponível para ela, que seu amor erótico é dirigido para a mamãe, mas pelo relato da história parece que o pai, talvez por não manter um relacionamento satisfatório com a esposa, tenha falhado neste corte. De modo que a menina não abandona o Édipo como o esperado. Alimenta-se uma relação triangular entre o pai, a mãe e Dora, a menina rivaliza com a figura materna, mantém-se identificada com o pai. Pode-se assim se pensar que atração sexual acaba por aproximar pai e filha, de um lado, e mãe e filho, de outro. Repete-se a triangulação entre a mãe, Dora e o irmão, quando Dora percebe que o irmão tende a proteger a mãe, sua rival, Dora ressente-se e afasta-se dele.Freud na descrição do caso destaca problemas de saúde no quadro familiar: Tio solteirão hipocondríaco, uma tia psiconeurótica grave, mãe apresenta psiconeurose da dona-de casa e o pai sifilítico de modo que Dora familiarmente tendia a neurose. Dora aos seis anos, por conta da tuberculose do pai muda-se com a família para a cidade de B, lá conhecem o Sr. e a Sra. K. O pai de Dora mantém laços estreitos com a Sra. K., que lhe prestava cuidados quando sua saúde piorava. Dora também manteve por muito tempo amizade com ela, mas a partir dos dezesseis anos após sentir-se traída pela Sra. K que contou segredos de Dora ao pai, a moça passou a desprezá-la e a alegar que ela e seu pai tinham um caso amoroso. Ë possível perceber a repetição da triangulação Edípica sendo os componentes desta vez, o pai, Dora e a Sra. K, quando o pai tende para a Sra. K deixa Dora extremamente ressentida. Pode-se também supor que devido a não resolução satisfatória do Édipo, Dora se manteve identificada com seu pai. E como sustentava um amor pela Sra. K e supunha ser correspondida (inconscientemente), com ela compartilhava segredos e falava sobre interesses e leituras sexuais, segredos que a Sra. K não hesitou em revelar para seu pai, quando viu seu relacionamento com ele ameaçado pelas denúncias da filha, o que levou Dora a entender que a Sra. K mantinha um relacionamento estreito com ela, apenas para manter seu pai por perto, a partir desse momento Sra. K perde o status de objeto de amor e passa a ser apenas uma rival que precisa ser derrotada. O pai de Dora antes da filha iniciar o tratamento conta para Freud que ele e a moça viajaram ao encontro do Sr. e Sra. K., que passavam o verão num dos lagos nos Alpes. Dora deveria passar várias semanas na casa dos K., seu pai regressaria dentro de poucos dias. Mas quando o pai se preparava para partir, a moça resolveu partir com ele. Depois de alguns dias esclareceu sua decisão, contando à mãe, para que esta transmitisse ao pai, que o Sr. K. lhe fizera uma proposta amorosa, durante uma caminhada depois de um passeio pelo lago. O pai não deu crédito a denuncia da filha e solicitou ajuda a Freud para dissuadi-la da ideia de afastá-lo da família dos K e em especial da Sra. K.Dora durante o tratamento com Freud relata que a cena do lago foi a segunda tentativa de sedução do Sr. K., a primeira tentativa ocorrera quando ela estava com quatorze anos, o combinado era que Dora, o Sr. e a Sra. K fossem a um festival religioso, mas o que de fato aconteceu foi que o Sr. K aproveitou uma oportunidade agarrou e beijou Dora nos lábios. Podemos supor que Dora alimentou durante muito tempo a atração do Sr. K por ela, percebe-se uma nova repetição de triangulação sendo os elementos: Dora, o Sr. K e a Sra. K. O sentimento que a moça nutria pelo Sr. K., acabou se traduzindo em um amor, que Dora tentou fortemente apagar. Voltaram à tona, sentimentos que havia recalcado na infância: o desejo pelo pai. Quando o Sr. K. tentou contato físico com ela, Dora passou a evitar o relacionamento entre os dois. E deixou também de aceitar o relacionamento do pai com a Sra. K. A paixão de Dora pelo pai ainda se mantinha inconsciente, ela ainda não compreendia seus sentimentos. Freud confronta Dora com á hipótese de ela ter se apaixonado pelo Sr. K, e de ainda estar apaixonado por ele, e também de seus sentimentos em relação ao pai. A paciente nega, diz não ter lembranças que sustentem essas ideias. Dora não estava mentindo, de fato as lembranças relacionadas a essas paixões foram recalcadas, esquecidas. A paciente apresentava desde criança sintomas histéricos. Com sete anos apresentou, enurese noturna, com o decorrer do tempo apresentou dispneia, tosse nervosa, afonia, enxaquecas, depressão desânimo e uma alteração do caráter se tinham tornado na época do tratamento os principais traços de sua doença, além “ideias suicidas”. Freud constatou que esses sintomas estavam relacionados ao recalcamento realizado por Dora tempos antes.Ocorre que o apaixonamento pelo pai embora aceitável pela criança bem pequena que não domina questões morais, com o passar do tempo, a partir do domínio das regras morais, essa paixão pode passar trazer culpa, quando a criança percebe que o relacionamento fantasiado não é possível, nem aceitável. Dora provavelmente deve então ter recalcado suas fantasias de incesto, tornando-as inconscientes, como forma de defesa. As fantasias, sentimentos e lembranças ficaram reprimidos, mas diante de algumas situações aparecem de forma disfarçada, como nos sintomas e sonhos relatados. O relato e esclarecimento dos sonhos e dos sintomas realizados por Freud permitem ao leitor visualizar como se formam esses sonhos e esses sintomas, e como o desejo que não pode se realizar por não poder ser aceito conscientemente se realiza de forma disfarçada. Diversos são os exemplos desse disfarce na descrição do caso: Enurese noturna “....não tem outra causa mais provável do que a masturbação...”, quanto as dores estomacais “é sabido que, com frequência, as dores gástricas surgem justamente nos masturbadores". No que se refere a dispneia “...a dispneia e as palpitações da histeria e da neurose de angústia são apenas fragmentos isolados do ato do coito, e em muitos casos, como no de Dora, pude reconduzir o sintoma da dispneia, da asma nervosa, à mesma origem casual: ao som entreouvido da relação sexual entre adultos.” Sensação de pressão na parte superior do corpo “...A pressão do membro ereto provavelmente levou a uma alteração análoga no órgão feminino correspondente, o clitóris, e a excitação dessa segunda zona erógena foi fixada no tórax por deslocamento para a sensação simultânea de pressão. Este recortes são apenas parte dos muitos exemplos esclarecedores no caso que tem muitos outros aspectos que podem ser analisados.
Por Marcia Velo Barros - Melanie Klein, considerada a primeira grande psicanalista pós freudiana, vem trazer um novo modelo para pensar a Psicanálise tendo como base os conceitos apresentados ao longo de toda obra de Sigmund Freud, além de Karl Abraham e SándorFerenczi. A Psicanalista passa a atender crianças em seu consultório, o que para Freud não era viável e com isso, faz descobertas revolucionárias para o mundo psicanalítico. Klein consegue provar com exemplos práticos de sua própria clinica com crianças a possibilidade de analisá-las, assim como aos psicóticos, o que era visto como impossível, já que, segundo Freud, esses não possuíam a condição da linguagem simbólica para apreender uma interpretação. Klein mergulha no mundo infantil de uma forma belíssima e traça um novo caminho de desenvolvimento mental no qual o Complexo de Édipo, por exemplo, se encontra muito mais precoce do que o apresentado por Freud. Para Klein ele é visto logo nos primeiros meses de vida do bebê e não mais tardiamente como apontava Freud. A psicanalista fala também em termos de Posição Esquizoparanóide e Posição Depressiva, o que difere de Freud em relação aos seus conceitos das fases do desenvolvimento libidinal (oral, anal, fálica, latência e genital). Mesmo tendo essas diferenciações quanto aos conceitos freudianos, Klein mantém as bases do “grande mestre” Freud e acrescenta suas novas descobertas. De forma sucinta, podemos dizer que Melanie Klein parte de uma divisão do primeiro ano de vida – ano esse fundamental na vida psíquica da criança, pois nesse, ela “encara” suas maiores angustias e utiliza de defesas as quais serão repetidas ao longo de sua vida adulta, sendo possível o corte do círculo vicioso com uma boa análise – o qual inicia com o trauma do nascimento e a “perda” da vida de plenitude intrauterina; é seguido da entrada na fase feminina com a teoria dos pais combinados, momento esse o qual Klein posiciona como Esquizoparanóide, o qual o bebê vive ansiedades persecutórias, inveja, amor e/ou ódio; após, o momento do desmame, vivenciado como privação e castração e a entrada na Posição Depressiva, na qual o bebê já consegue ter a ideia de uma mãe como pessoa inteira e com ela vivenciar uma ambivalência emocional. Esse foi um breve resumo que de longe passa da profundidade apresentada por Melanie Klein em sua teoria. Mas opto por ele para apresentar os pós kleinianos, novos psicanalistas, que seguiram a partir de Freud e do caminho percorrido por Klein. Melanie Klein e seus seguidores, referencias da Escola Inglesa de Psicanálise, não abandonaram as ideias freudianas, como, por exemplo, outras escolas abandonaram os conceitos de Complexo de Édipo e Complexo de Castração e a Teoria das Pulsões. Esses psicanalistas reformulam e recolocam a teoria edípica no desenvolvimento infantil, num período mais arcaico do que pensado por Freud, e continuam a pensar nas pulsões de vida e morte como impulsos que ditam a vida mental das pessoas. Dentre os psicanalistas pós-kleinianos temos, por exemplo: Hanna Segal, BethJoseph, Roger Money-Kyrle, IrmaB.Pick, Edna O’Shaughnessy e Herbert Rosenfeld. Esses psicanalistas vieram desenvolver o pensamento kleiniano moderno na Sociedade Britânica de Psicanalise no que diz respeito à uma menor ênfase na destrutividade, à interpretação mais dirigida à parte adulta da personalidade do paciente, à expansão da ideia de Identificação Projetiva no setting, a partir das ideias bionianas também e à ênfase na análise da atuação do paciente e a contratransferência do analista. Hanna Segal, em 1956 apresenta o artigo “Depressão no Esquizofrênico” no qual aponta a existência de um núcleo depressivo presente na psicose, isto é, a presença, no esquizofrênico em análise, de um núcleo neurótico, com suas ansiedades e defesas, que, quando é possível que o mesmo deixe aparente ao analista, esse pode aproveitá-lo para interpretar e atingir uma base mais sadia da personalidade. Nesses momentos, o paciente psicótico tem um maior contato com a realidade externa e a realidade psíquica. Esse núcleo é projetado no analista por Identificação Projetiva e surge a possibilidade de haver sentimento de culpa e, portanto, um maior desejo de reparação. Devido à Identificação Projetiva, o analista, na contratransferência pode perceber e interpretar usando da linguagem com os objetos totais, diferentemente de quando o paciente apresenta o núcleo psicótico, no qual a interpretação precisa ser baseada nos apontamentos dos objetos parciais. Segal enfatiza a importância de o analista ficar atento para o uso do silencio por parte do paciente como uma forma de instigar o mesmo a preencher com suas falas. Essa é a forma defensiva do psicótico de usar a linguagem como coisa em si, concretamente. É importante que o analista perceba, respeite e suporte esse vazio sem atuar junto ao paciente, pois só assim ele pode entrar em contato com suas próprias angustias. E, com isso, no retorno do silencio, interpretá-lo, i.e., interpretar a transferência, se colocando como suporte das destrutividades sem ser superegóico. Hanna Segal trabalhou também a questão do simbolismo e, no artigo de 1954, “Notas sobre a Formação de Símbolos” apresentando a diferença da comunicação do psicótico e do neurótico. Ressalta Segal que a comunicação do esquizofrênico não é simbólica, e sim confunde o objeto com o símbolo, pois as relações de objeto são parciais e fragmentadas, não havendo diferenciação entre EU e OUTRO, então o símbolo não pode ser representado e é o próprio objeto, já que não existe repressão, tudo é parte de seu EU, de um sujeito narcísico. Segundo a Autora “Esta não diferenciação entre a coisa simbolizada e o símbolo é parte de uma perturbação na relação entre o ego e o objeto” (SEGAL: 1954, 172) Difere a personalidade psicótica da neurótica, na qual o simbolismo está presente. Havendo repressão de conteúdos não aceitos socialmente, vem à tona após deslocamento e condensação, símbolos que representam os objetos reprimidos. Isso porque há uma diferenciação entre EU e OUTRO e um cuidado em apresentar apenas aquilo que o superego não rejeita. Essas representações ocorrem de várias formas, chamadas Formações do Inconsciente, que são elas: símbolos, sonhos, sintomas, transferência, atos falhos, chistes, etc. Segal chama de Equação Simbólica, portanto, a diferença entre a concretude da comunicação do psicótico e sua incapacidade de simbolização e a simbolização do neurótico que utiliza do “como se fosse” para representar o reprimido sublimado. E enfatiza a importância de o analista tentar alcançar com o paciente a posição depressiva para poder atingir a simbolização, pois apenas havendo uma separação entre o eu e o mundo é que o sujeito pode se abrir para formações simbólicas. Beth Joseph, outra psicanalista importante na Sociedade Britânica, considerada a “analista dos analistas” trabalhou vários conceitos que envolvem a ação do analista no setting, assim como alguns entendimentos sobre pacientes mais inacessíveis e esquizoides. Para isso, traz em seu artigo “Identificação Projetiva – alguns aspectos clínicos” de 1987, casos para demonstrar a importância da atenção do analista aos seus próprios sentimentos em relação ao paciente através da empatia e da continência para informar adequadamente ao mesmo o que percebeu de sua comunicação. Joseph destaca o mecanismo de defesa da Identificação Projetiva como forma de o paciente expressar o que fantasia sobre a relação com seu analista e, portanto, como se relaciona com o mundo. Segundo ela, “Por definição, identificação projetiva significa colocar partes do self para dentro de um objeto” (JOSEPH:1987,148), no caso, o analista. É uma forma de resistência à mudança, pois dói e, nesse momento de defesa arcaica, apresenta uma estrutura que inclui não apenas a projeção, mas também a onipotência, cisão e a idealização. Com isso torna impossível, ou no mínimo difícil o pensar, já que seus sentimentos de onipotência veem acrescidos de inveja e medo de dependência em relação ao analista. O paciente atua evacuando ou busca destruir o vínculo desvalorizando o analista para manter-se em seu eu narcísico. No artigo “ O paciente de difícil acesso” de 1975, Beth Joseph apresenta a cisão como um mecanismo de defesa também capaz de perturbar o progresso da análise, pois tenta impedir que a parte necessitada do paciente venha à tona. Enfatiza que esse tipo de paciente cinde sua personalidade como se houvesse vários selfs, e a parte do self não colaborativa ou sabotadora, vem esconder a parte necessitada de analise das vistas e percepção do analista. Assim enfatiza também que, quando as partes necessitadas podem ficar disponíveis, causam na contratransferência, no analista, uma confusão, apatia, surpresa ou espanto, já que são partes que estavam anteriormente excindidas e defensivamente não apareciam nas sessões. Joseph apresenta algumas formas de perceber que quem está presente no setting é a parte sabotadora. Por exemplo, quando o analista sente que está tudo muito fácil. Isso ocorre quando o paciente tenta manter sua análise numa zona de conforto, distante dos conflitos, chegando a buscar um conluio com o analista. A intelectualização é considerada também outra forma de defesa em análise, já que o paciente mantém sua comunicação no nível intelectual para não entrar em contato com suas emoções. Por isso também a importância de a fala do analista ser uma fala que se mantenha no setting e não saia, e que ele possa falar para o paciente sobre suas questões e não sobre o paciente e sobre o que ele traz (delírio do analista), mas sim o que percebe, sente e vê do que ele traz. A busca do paciente difícil é tentar manipular a sessão para que o analista atue naquilo que o paciente deseja dele e isso deve ser evitado. Assim como, o paciente pode também tentar distorcer a fala do analista, mudando de perspectiva para não se aproximar de sua angústia e, para isso, tenta perverter seu trabalho. Em 1985, Beth Joseph traz o artigo “Transferência: Uma Situação Total”, para explicar o que o analista precisa se atentar em seu trabalho. Chama de situação total “tudo o que o paciente traz para a relação” (JOSEPH:1985,77), i.e., todas as relações objetais do paciente, suas fantasias, defesas, ansiedades, vivencias, o que diz, faz, atua, etc., que são “transferidas do passado para o presente” (JOSEPH:1985,76) da relação com o analista via identificação projetiva. Isso tudo pode ser percebido pelo analista através da contratransferência, na forma como o mesmo sente o que lhe é transferido. Joseph considera isso como uma pressão feita pelo paciente sobre o analista, e é ela que torna possível que o mesmo encontre as partes necessitadas de seu paciente, pois mostra suas ansiedades inconscientes. As percepções das partes do passado do paciente que se repetem no presente, na sessão, podem ser a base das interpretações do analista, conforme o mesmo vai ligando tais fatores. Portanto, considera a transferência, dinâmica, pois algo sempre está acontecendo, mudando, e o analista deve ficar atendo a isso. É onde podem ser vistas as defesas e o nível de organização psíquica no qual o paciente funciona. Se apresenta ansiedades persecutórias e defesas mais arcaicas, está mais próximo da posição esquizoparanóide, mas se apresenta ansiedades depressivas, de perda, separação, e defesas mais elaboradas, está mais próximo da posição depressiva. As interpretações são diferentes nas diferentes posições, sendo a primeira mais fantasiosa, pois há distorção, cisão e identificação projetiva e a segunda mais realista. Beth Joseph, em 1985, no artigo “A Inveja na vida cotidiana”, apresenta seu olhar para a inveja tão presente no dia-a-dia da clínica psicanalítica. Ela diferencia o olhar reduzido de Freud sobre a inveja do pênis, específica da mulher, do olhar kleiniano de inveja como um sentimento comum a homens e mulheres ligado ao sentimento do bebê (o paciente) pela mãe (o analista) fantasiada como poderosa e capaz de tudo, pois contém o seio, o pênis do pai, o pai e gera bebês. A inveja é tida como um sentimento destrutivo, pois o desejo do bebê é de espoliar, roubar, da mãe aquilo que imagina que ela possui, já que teme depender dela. É a essência do conceito de voracidade. O conceito de inveja, portanto, é o de destruir o que o outro tem de bom, despojando o outro de suas qualidades, já que o invejoso não tem. Esse conceito difere de cobiça (desejo de ter o que o outro tem) e de ciúme (sentimento ligado ao objeto de amor percebido como interessado por um terceiro que não ele). O sujeito invejoso sofre com a percepção das capacidades do outro, mas não aceita receber ajuda do mesmo, pois isso lhe significaria dependência, o que é temido. Então o sujeito, consequentemente, não pode expressar gratidão e não se deixa aprender com outro. Em análise, a inveja é uma forma de resistência, pois impede o avanço do tratamento e as consequências são: o paciente não compreender o analista; reação terapêutica negativa, no qual o paciente piora como forma de informar ao analista sua incapacidade; paciente tenta ser seu próprio analista, interpretando e excluindo o analista; o paciente sente ressentimento, rivalidade, competitividade, faz críticas, provoca e desvaloriza o analista, assim como não tolera que o analista lhe ofereça o bom alimento interpretativo, não conseguindo, portanto, usufruir de sua análise nem ser grato por ela. Frente a isso, uma defesa comum aos invejosos é a idealização, na qual o sujeito coloca o outro como tão melhor que ele que não faz sentido invejar, pois o outro está muito distante, ou, o sujeito coloca o outro como tão inferior e desprovido de capacidades a ponto de não ter o que invejar. São fantasias que tentam impedir que o sujeito entre em contato com suas próprias incapacidade e com as capacidades do outro. Pois se o outro tem capacidades que o mesmo não tem, dele depende e isso causa insegurança em relação às próprias capacidades. Esse sentimento pode ser tão forte que o sujeito vai se distanciando e se fechando para o mundo para não entrar em suas comparações, o que impede também que o mesmo possa construir bons vínculos. Em 1986, Joseph também estudou em seu artigo “Mudança Psíquica e Processo Psicanalítico” a importância do olhar atento do analista para as mudanças psíquicas do paciente que aparecem durante a sessão e ao longo do tratamento. Como Klein, apresentou a possibilidade de haver flutuações entre as posições, e o mesmo pode aparecer em análise. Joseph fala de um ponto de equilíbrio entre ansiedades e defesas (PS↔D) que pode mudar e o analista precisa acompanhar tais mudanças. Diz que inicialmente são mudanças aleatórias, pois o paciente não tem controle do seu ego, e, com as interpretações e insights, isso vai se modificando conforme o ego pode ir se fortalecendo e se responsabilizando por seus atos e seu mundo, i.e., quando pode ir atingindo a posição depressiva e começa a entender que o outro é diferente e separado dele. Conclui então que a mudança psíquica é o oposto de compulsão a repetição, pois é “uma movimentação interna de forças, uma perturbação do equilíbrio mental e emocional estabelecido, do equilíbrio de sentimentos, de impulsos, de defesas e de figuras internas inconscientemente estabelecidas e que se reflete em seu comportamento no mundo externo” (JOSEPH: 1986,196). Perturbação essa que, se suportada, pode significar mudança nos relacionamentos com os objetos internos e externos, mudanças egóicas que proporcionam relações mais reais e verdadeiras assim como uma possibilidade de assumir e se responsabilizar por sua realidade psíquica. Um último artigo que trago da psicanalista, apresentado em 1988, “Relações de objeto na prática clínica” fala da importância do analista se incluir na relação com seu paciente e, portanto, na interpretação que informa a transferência através do olhar e percepção de sua contratransferência. O analista precisa se atentar para as projeções e introjeções do seu paciente que borram seu olhar para o mesmo como um outro diferente e separado dele. O analista se coloca como receptor e continente dessas identificações projetivas, se identificando com as mesmas e depois saindo dessa posição comum a eles e de volta se colocando como observador para poder interpretar, i.e., informar ao paciente o lugar onde o mesmo deseja que o analista estivesse e as implicações disso. Dessa forma vai podendo mostrar ao paciente essa separação paciente-analista, pois vai devolvendo a ele o que é desejo dele, mas não pertence ao mundo do analista. Assim o analista pode reconstruir a história vivida com o paciente e trazer os fragmentos perdidos e esquecidos da história do mesmo, ligando as histórias e informando como ele lidou com as ansiedades, quais defesas utilizou e os conflitos envolvidos. Outro psicanalista importante para a Escola Inglesa é Roger Money-Kyle, que em 1955 escreve o artigo “Contratransferência normal e alguns de seus desvios”. Nesse artigo, ele apresenta a diferenciação entre uma contratransferência normal e importante para a percepção do analista quanto ao que é transferido pelo paciente e a contratransferência patológica. Ele cita a relevância da contratransferência para além do que foi dito por Freud como um “ponto cego” do analista que deveria ser analisado para não atrapalhar o andamento da análise. Ele não descarta essa questão, mas ressalta também seu lado positivo, como um processo de comunicação citando Paula Heimann que coloca como um “instrumento de pesquisa” psicanalítica. Na contratransferência normal o paciente transfere para o analista via identificação projetiva, as partes excindidas de seu self. O analista reconhece essas partes em si mesmo (processo contratransferencial) por já ter vivenciado, sentido e trabalhado em sua própria análise, e, saindo dessa identificação e voltando para seu ponto observador, interpreta e informa ao paciente o que viu. Já na contratransferência patológica, o analista não consegue voltar para essa posição de observador, ficando identificado com seu paciente, pois não tem esse aspecto transferido pelo mesmo, trabalhado em análise. O analista, então, atua e fica complicado com o paciente. Essa atuação ocorre, na posição esquizoparanóide, por sentir-se perseguido pelo paciente e, por isso pode ter uma resposta sádica, ou se, na posição depressiva, pode tentar reparar onipotentemente seu paciente, se colocando na posição de pai/mãe ou se responsabilizando pelo fracasso na melhora dele, sentindo-se culpado por isso ou empobrecido por ter dificuldades de lidar com o não saber. O não saber pode perturbar o analista não analisado e é preciso pensar também qual a responsabilidade do paciente como causador dessa perturbação e o efeito sobre o mesmo. O analista também deve evitar colocar-se na posição de um superego severo que tenta culpabilizar o paciente. Portanto, na contratransferência patológica o analista não consegue alcançar a parte necessitada do paciente, oferecendo, então, amor (contratransferência positiva) ou hostilidade (contratransferência negativa). Money-Kyrle ressalta o cuidado do analista em manter o olhar para a criança inconsciente no paciente e re-conhecer-se como separado dele, apenas fazendo uma identificação parcial por empatia até que se coloque de volta como observador e informante do que viu. Irma B. Pick é outra psicanalista seguidora de Melanie Klein, que vem, em seu artigo “Elaboração na Contratransferência”, de 1985, falar também das questões éticas na Psicanálise e a relevância do analista elaborar sua própria contratransferência para não impedir o avanço de seu trabalho. Pick cita Strachey, na questão do quanto a interpretação é algo temido para o paciente e também para o analista, pois coloca-os em contato com suas angustias emocionais. Ela diz:“uma experiência de transferência completa ou profunda perturba o analista; é essa a experiência que o analista mais teme e mais deseja evitar” (PICK:1985, 47). Portanto, fala da impossibilidade de haver uma relação neutra entre analista e paciente, já que sentimentos são movimentados. Esses sentimentos estão presentes no processo contratransferencial, visto que para que o analista possa dar uma interpretação, precisa inicialmente regredir aos estágios mais primitivos de seu inconsciente para re-conhecer-se na transferência. Pick considera a interpretação como “ato criativo e integrador por parte do analista” (PICK:1985,49) e frisa a diferença entre uma resposta contratransferencial na qual o analista corresponde ao desejo do paciente e uma verdadeira interpretação, na qual o analista apenas informa sobre esse desejo. A ética do analista está no cuidado para com o paciente em não ser cruel e agressivo em suas interpretações, pois cada paciente tem suas condições e o quanto suporta recebe-las e o analista precisa ir dosando-as para que não cause mais ansiedade e defesas em seu paciente. Da mesma forma o paciente pode ser cruel com o analista em provocar reações e sentimentos nele, através de suas projeções, para ver como o mesmo reage. O analista precisa estar analisado para não fica preso em ansiedades persecutórias e/ou super-egoícas. Já Edna O’Shaghnessy, outra psicanalista de renome na Sociedade Britânica, traz seu olhar para o que chamou de “édipo invisível” nos pacientes de difícil acesso em seu artigo de 1987 “O complexo de Édipo Invisível”. Traz o valor dos conceitos de Complexo de Édipo e Complexo de Castração desde os tempos de Freud e que pela Psicanálise Contemporânea foi, por muitos psicanalistas, deixados de lado como inexistentes na clínica. Edna, portanto, fala da presença da questão edípica, mesmo que parecendo inexistente, pois por alguns pacientes é colocada como invisível. Devido à cisão da personalidade, as partes do self que regem a essas questões edípicas são defendidas e mantidas escondidas contra tudo e todos, pois elas representam a esperança de vínculos, fonte de pulsão de vida e “veneno” contra o narcisismo. Edna aponta que mesmo estando invisível aos olhos do analista, aparecem na forma de angustia de exclusão, angustia de separação, angustia por estar só na presença do outro e/ou do par edípico (pais) do qual o paciente “filho” não faz parte e nos casos de defesas como a cisão sexual parcial ou total (inibição sexual, impotência, homossexualidade, frigidez, etc.) O Complexo de Édipo é pensado por ela como um “complexo nuclear do desenvolvimento” (O’SHAUGHNESSY:1987,211) do qual ninguém escapa, mesmo que esteja invisível, pois há sempre um par edípico que o indivíduo não faz parte, portanto, todos temos que lidar com essa exclusão e castração e com o fato de não sermos o centro do mundo do outro, nesse caso devido ao tabu do incesto e da transgeracionalidade. A Identificação Projetiva é uma defesa contra essas angustias, pois busca separar internamente esse par edípico combinado por parecerem um par criativo e heterossexual. O pai fica como homem sádico e fálico e a mãe como masoquista, fraca e desprotegida. Assim o excluído sente-se fantasticamente onipotente e capaz dessa separação. Essa tentativa de destruição do par demonstra a dificuldade egóica do filho em lidar com a solidão da não participação na cena primária. O indivíduo excluído precisa, na realidade, dar conta e suportar não ser esse centro para poder ir à busca de onde lhe cabe e com quem lhe está disponível, os vínculos possíveis. Esses pacientes de difícil acesso, não vivem o Édipo, pois não apresentam sentimentos de ciúme e ligados à rivalidade, além do desejo sexual. Suas questões são anteriores a isso, pois é justamente para isso evitar devido à inveja e tentativa de cisão dos objetos internos e uma carência de um objeto bom internalizado e por se sentirem incapazes de ficarem só e desamparados. Um também importante psicanalista é Herbert Rosenfeld, que em 1971 publica o artigo “Uma Abordagem Clinica para a Teoria Psicanalítica das pulsões de vida e de morte: Uma investigação dos aspectos agressivos do narcisismo” no qual apresenta seu conceito de “gangue narcisista”. Ele parte esse artigo citando a Teoria freudiana das Pulsões de vida e de morte como forma de compreender os fenômenos da vida mental (masoquismo moral, resistência, desfusão, Reação Terapêutica Negativa, conflito de impulsos), assim como da teoria da cisão de Melanie Klein, para mostrar o quanto uma pulsão de morte pode dar início a um processo de cisão do self chegando a criar essa gangue narcisista. Entende a pulsão de morte como um impulso que leva de forma silenciosa o sujeito para a morte egóica, através de projeções desses impulsos destrutivos para o mundo externo. Essa é uma defesa narcísica diante do ódio que sente pela realidade externa, já que seu próprio ódio foi anteriormente projetado. Então, o sujeito vai retirando sua libido colocada no objeto, deixando-a apenas em seu self. A tendência, no desenvolvimento psíquico é que as pulsões fiquem fundidas, mas em alguns casos elas são separadas, devido à cisão do self. Esses casos, Rosenfeld chamou de Gangue Narcisista, sendo essas, condições narcísicas graves. São pessoas com sentimentos de superioridades e frieza, que agem com hostilidade, desconfiança, depreciação e desvalorização devido ao alto nível de inveja. Assim mantém-se numa luta infantil entre destruir e preservar os objetos e a si mesmo. Há casos que as pulsões nem chegam a sofrer fusão, se mantendo sempre separadas. Estando a pulsão de morte livre e separada da pulsão de vida (o que pode acontecer na formação do superego), acaba criando outro self (ou selfs), chamado pelo autor de organização narcísica ou self narcísico dentro do self libidinal o que pode ter várias consequências, como por exemplo: a organização narcísica pode sabotar e ameaçar o self libidinal; o self libidinal pode ser totalmente subjugado pelo self narcísico; o self narcísico pode ser enviado para o meio, via identificação projetiva, pelo self libidinal, etc. Na clínica, a Reação Terapêutica Negativa é um exemplo de defesa causada por essa organização narcísica, como forma de o self se defender da ameaça do tratamento devido a seu anseio por plenitude. Isso ocorre, pois, a análise busca que o sujeito saia dessa organização narcísica e possa perceber o outro como outro separado dele, dando ênfase ao self libidinal capaz de buscar ligações. Mas, diferentemente disso, a organização narcísica é extremamente invejosa e teme a dependência. A cisão entre self e os objetos, inicialmente, faz parte do desenvolvimento normal do bebê como forma de proteção do self e do objeto do aniquilamento por seus impulsos destrutivos decorrentes da pulsão de morte. Essa fusão é considerada patológica quando tais impulsos sobressaem em relação aos impulsos libidinais, e a pulsão de vida não tem “espaço” para mitigá-los ou neutralizá-los, como na fusão normal. Na fusão normal há uma consciência de dependência e de separação entre eu e outro que causa frustração (ódio pelas coisas ruins do objeto) e inveja (das coisas boas do objeto). Quando não é possível tolerar essa separação e a dependência do outro, o self busca essa saída narcísica com o objetivo de tentar manter relações objetais onipotentes. Rosenfeld conclui então que há narcisismo com aspectos libidinais, onde há uma supervalorização do self, “idealização do self sustentada por identificações projetivas e introjetivas onipotentes com objetos bons e suas qualidades” (ROSENFELD:1971, 250) entendidos como partes do self. A destrutividade aparece quando esse self onipotente é ameaçado por um objeto externo separado e bom, o que desponta através de sentimentos de humilhação, ressentimento e vingança. E existe também o narcisismo com aspectos destrutivos nos quais há uma “idealização das partes destrutivas onipotentes do self” (ROSENFELD:1971, 250) dirigidas aos objetos bons. Mas seu desejo de dependência fica disfarçado e excindido, impedindo tais relações e mantendo uma desvalorização e indiferença em relação ao outro. São situações nas quais a inveja é mais violenta e o desejo é de destruir a fonte de vida. Os impulsos são autodestrutivos. Há fantasia de autocuidado e de ter dedicado a vida a si mesmo, não precisando do outro. São pessoas que tentam quebrar seus vínculos caso se percebam dependentes, tem desejos suicidas e de desaparecer. Tais autores vieram desenvolver ainda mais o pensamento psicanalítico e nos presentear com seus olhares minuciosos e brilhantes a respeito da clinica psicanalítica. A fonte possível de (re) conhecimento das ideias apresentadas por eles podemos ver e viver na prática clinica e com ela manter a chama psicanalítica acessa e mantermo-nos numa busca constante de desenvolvimento, este que nunca se finda.
Por Débora Waihrich Matzenbacher - No texto, Inibição, Sintomas e Ansiedade, Freud afirma que é a angústia a responsável pela formação do sintoma e que toda essa angústia vem da infância do indivíduo, e ainda, que é ela que produz o recalque. Para Freud, existe um acontecimento ou episódio que precisam ser revelados, ou seja, coisas que aconteceram, e por não serem lembradas, elas acabam causando os sintomas e as doenças. Essa angústia é da ordem do afeto, com um caráter de forte desprazer e acompanhada de sensações físicas de atos de descarga, por isso é que para Freud é a angústia que produz o recalque e não o contrário. Diferente de Freud, o entendimento de Klein é de que não existe um fato, e sim uma fantasia que faz com que a criança sinta um mundo, interno e externo, de uma forma muito perigosa e assim, a ansiedade persecutória fica ligada à necessidade de se defender de situações que são aniquiladoras da vida, a pulsão de morte. A pulsão de morte e pulsão de vida, são pulsões que coexistem, mas, ao contrário da primeira, a pulsão de vida é a força que vai contra a ideia do aniquilamento e está presente desde o início da vida do bebê. Melanie Klein desenvolveu, em suas teorias, um conceito de posições, que se alternam entre elas, e que são nominadas posição esquizoparanóide e posição depressiva. É imerso na posição esquizoparanóide que a criança nasce. Desde esse nascimento o Ego muito imaturo do bebê fica submetido à ansiedade persecutória que é fomentada pelos instintos de vida e de morte. É nessa posição que vai acontecer o primeiro contado do bebê com o seio da mãe, ou melhor, é na posição esquizoparanóide, com a fragmentação do Ego, que o bebê estabelece seu primeiro contato com o objeto externo –seio/mãe. Esse objeto seio, é dividido em seio bom, que é aquele que gratifica e dá prazer, e seio mau, que é aquele que causa sofrimento e gera frustração, são, portanto, objetos parciais. Para Klein, na posição esquizoparanóide, “o amor e o ódio, bem como os aspectos bons e maus do seio, são mantidos amplamente separados um do outro”. Assim, na fantasia do bebê, a destrutividade e o ódio que ele direciona ao seio mau, vão se voltar contra ele, querendo então, de alguma forma alcançar a vingança, e é esse “medo da vingança”, que Klein entendia como sendo a ansiedade persecutória da criança e que tem sua origem na pulsão de morte. A partir disso a criança faz uso de mecanismos de defesa, que funcionam combinados, e que tem por objetivo fazer com que a criança se defenda dessa ansiedade persecutória. Segundo Melanie Klein, a cisão é a forma mais primitiva de defesa do Ego contra as ansiedades. O Ego do bebê é dividido, é fragmentado, uma vez que ele não dá conta da pulsão de morte e quer manter para si a “parte boa”, e para que isso aconteça ele precisa “cindir” esse objeto e mantê-los separados dentro dele, o objeto bom e o objeto mau. A idealização é outro mecanismo de defesa apontado por Klein, e está conectado à cisão do Ego. No caso da idealização os aspectos bons do seio são potencializados como uma forma de defender esse bom objeto de pulsões que poderiam o destruir. Na posição depressiva o mecanismo de defesa da idealização tem como objetivo proteger o Ego de angústias, e assim, esse último vai conseguir descarregar todo o seu sadismo, toda sua pulsão de morte, no objeto mau. A introjeção, na posição esquizoparanóide, tem como meta incorporar todos os objetos do ambiente, a começar pelo seio materno. Na posição depressiva, a introjeção está ligada ao objeto bom, quer dizer, eu vou introjetar tudo aquilo que vai me atender. Klein entendia que o desenvolvimento do Superego “pode ser reportado à introjeção nos estágios mais iniciais da infância”. Na projeção, por sua vez, em ambas as posições, esquizoparanóide e depressiva, a criança arremessa no ambiente estímulos, pulsão de morte, que o Ego não quer se responsabilizar e não quer assumir em si mesmo e o ajudam a se livrar daquilo que pode ser perigoso e mau para ele. É através, então, desses mecanismos que a criança cria e organiza o seu mundo interior, e para Klein, o protótipo do que o indivíduo vai se tornar são estabelecidos pelas relações iniciais de introjeção e projeção. Klein, apresenta também outros mecanismos de defesa, tão importantes e significativos como os citados acima, como por exemplo a onipotência, que é uma característica inerente ao self e, na posição esquizoparanóide, ela é a fantasia de se ter o controle dos objetos internos e externos, ou seja, há uma tentativa de mudar a realidade para a fantasia que o Ego acredita ter e a negação, onde a própria realidade interna, objeto mau, é negado. Na posição depressiva, a onipotência é presente tanto na culpa como na reparação, porque a criança se sente responsável por todos os ataques sádicos que lançou contra o objeto, acreditando assim que o destruiu ou pode destruir o objeto, e também, porque acredita ser capaz de reparar todo esse mal. A identificação projetiva é um funcionamento defensivo do Ego apontado por Klein, onde partes do self, portanto partes boas e partes ruins, são lançadas para dentro do outro objeto, ou seja, a mente do outro é utilizada como um “depósito de tais sentimentos”, com o objetivo de controlá-lo por dentro. Então se projeta no outro para posteriormente o Ego se identificar com o que foi projetado. A identificação projetiva aparece intimamente ligada à projeção. Numa projeção simples, o objeto que recebe a projeção não tem conhecimento do que se passa, enquanto na identificação projetiva o objeto é alterado pela projeção e passa a ver a si mesmo como se realmente tivesse aqueles sentimentos, pensamentos e emoções que foram projetados nele, bons e ruins. Por volta dos quatro meses de vida do bebê, na posição depressiva, é que acontece a integração dos objetos, bom e mau, e a cisão desses objetos vai sendo suavizada. A partir daí o Ego vai se fortalecendo e organizando, quando então ele percebe que os objetos são agora um só, portanto, o objeto agora é total. É na posição depressiva, quando o Ego atinge um maior nível de organização, que as imagos incorporadas se aproximam mais da realidade e ele acaba se identificando mais com os objetos bons. Concomitantemente com essa alteração na relação com o objeto, ocorre uma modificação em relação a sentimentos como culpa, angústia e outras emoções desagradáveis que passam a fazer parte desse novo contexto. Para Klein, a culpa aparece vinculada à ansiedade depressiva que por sua vez aparece ligada aos “danos causados aos objetos amados”. O fundamento da ansiedade depressiva é a combinação dos impulsos sádicos e dos sentimentos bons e de amor que são lançados a um único objeto. A essência da culpa é do sentimento dos impulsos sádicos que são “jogados”, e dos danos que são causados, ao objeto de amor, surgindo daí a tendência reparatória, que é a tentativa de consertar ou preservar o objeto que agora é sentido, ao mesmo tempo, como um objeto de amor e ódio. Cabe ressaltar, que o bebê sente culpa desde a fase esquizoparanóide, mas é na fase depressiva que ela vai se estabelecer. Desde o início da vida do bebê a inveja se faz presente, sendo que o primeiro objeto alvo desse sentimento é o seio que alimenta. Sente-se inveja do seio bom pela capacidade e abundância dele “ter” e “dispor” do leite que alimenta e nutri, e inveja do seio mau quando esta conserva para si o leite materno. Klein entendia a inveja como uma emoção primária, ou seja, é constitucional, nasce com o sujeito, assim então já presente na fase esquizoparanóide, e seus efeitos operam sobre o desenvolvimento da aptidão de sentir felicidade e gratidão. Salienta-se que a característica fundamental da inveja é a maldade que se deposita no outro. Ela pressupõe a relação com uma outra só pessoa e se define como um sentimento de raiva de que esse outro detêm e goza de algo que eu cobiço, sendo então, o impulso invejoso e destrutivo exatamente o de “tirar” esse algo do outro, ou danificá-lo. Essa importante característica da inveja, a maldade, é o que a distingue da voracidade que é uma inquietação insaciável de devorar, sugar e acabar com tudo o que o objeto bom tem capacidade de oferecer, mas sem essa crueldade presente na inveja. A inveja excessiva reflete diretamente no aparecimento antecipado da culpa pelo sentimento de que o seio que nutri foi danificado, ou também pelo ciúme do pai que aparece pelo fato dele “ficar” com o seio da mãe para ele, como característico do estágio do Complexo de édipo. É pelo modo como a excessividade da inveja, ou a falta ou o controle dela, que na posição depressiva, o bebê vai conseguir integrar seus sentimentos de amor e ódio e assimilar de uma melhor maneira o mundo externo. O contraponto da inveja é a gratidão que é indispensável à formação e estruturação da relação com o objeto bom, e isso só é alcançado se o bebê sentir-se satisfeito e se sua aptidão para amar for suficientemente evoluída. De todo o aqui exposto, fica claro que para Melanie Klein, a maneira como as ansiedades persecutórias e depressivas- bem como todos os seus reflexos, são vivenciados e experimentados no primeiro ano de vida da criança, são fundamentais na construção da estrutura psíquica dos indivíduos, pois são essas ansiedades que a pessoa vai vivenciar durante toda a sua vida.
Por Sergio Keuchgerian - É quase impossível encontrar alguém no planeta terra que não saiba o que é um computador e que ele tem um cérebro chamado disco rígido (popularmente chamado de HD). Assim como dificilmente você encontrará alguém que não saiba que no interior da mente humana habitam pensamentos conscientes e outros, ocultos e menos óbvios, que são comumente chamados de inconscientes. Ninguém vai achar estranho se você disser que o disco rígido do seu computador está superlotado e que terá que providenciar um outro para armazenar mais dados. E muito menos alguém vai te chamar de louco quando você ao final do relato de um sonho disser algo como “não sei como isso surgiu na minha cabeça, provavelmente saiu do meu inconsciente”. Palavras como ego, disco rígido, memória ran, inconsciente, libido, são tão corriqueiras nas conversas diárias quanto a expressão “isso nem Freud explica”. Porém, a naturalidade com a qual as expressamos esconde o difícil caminho percorrido por seus geniais criadores. Nenhum deles teve vida fácil ao tentar implantar suas ideias. No caso dos criadores dos HDs foi menos difícil, já que ele é um objeto feito de matéria e visível a olhos nus. Mas para Freud, que falava de coisas abstratas, não visíveis, de difícil capacidade comprovatória, o caminho foi árduo. Até a psicanálise ganhar status de método terapêutico e credibilidade, Freud foi quase que sistematicamente descredibilizado por seus próprios pares. Reflexo do zeitgeist de 1900, ou como, talvez, o próprio Freud diria: trabalho de resistência do inconsciente coletivo. Isto posto, passemos as questões propostas neste trabalho, que são demonstrar de maneira breve o conceito de Freud sobre o inconsciente, seu funcionamento e como se tem acesso a ele. Segundo Freud, o inconsciente não é localizável física ou anatomicamente, é um lugar psíquico com conteúdos e energia própria e integra o que ele chama de aparelho psíquico. Para Freud, o aparelho psíquico não se resume apenas ao inconsciente, mas também da consciência e do pré-consciente. Os conteúdos do inconsciente são os chamados latentes, já o conteúdo manifesto é o que reside na consciência. Esse conceito faz parte da primeira tópica do livro “A interpretação dos sonhos”, obra basilar da psicanálise. No inconsciente ficam armazenados os afetos recalcados, é onde se acumulam as frustrações, desejos reprimidos, fantasias imorais, histórias reais ou imaginadas que foram expulsas ou rejeitadas do nosso consciente com o objetivo de nos manter relativamente equilibrados no cotidiano. Algo parecido com a função do HD interno do computador, reservatório de arquivos e imagens, onde você “salva” afetos com os quais não seria possível conviver de maneira saudável ou confortável. Freud argumenta ainda, que há um conflito permanente entre o consciente e o inconsciente. Esse conflito é capitaneado pela censura, que não permite que esses conteúdos possam transitar do inconsciente para o consciente sem disfarces ou transformações que alterem suas verdadeiras aparências ou representações. Além disso, há o pré consciente que é parte integrante desse mecanismo e que também divide com a consciência esse papel de censor. Ele é tão resistente quanto a consciência e só libera o conteúdo do inconsciente, ou melhor, só deixa que ele se manifeste na consciência por meio de representações alteradas ou imagens distorcidas. Assim, para que o conteúdo latente transite para fora do inconsciente e se torne manifesto na consciência é condição si ne qua non que ele assuma disfarces. Segundo Freud, esses disfarces são mecanismos de defesa gerados pela censura que trabalha com o intuito de não permitir que esses conteúdos migrem para o território da consciência. Os mecanismos de defesa continuam ativos mesmo enquanto dormimos. Freud os denomina de trabalhos do sonho. Eles têm a função de zelar por nossa integridade psíquica, minimizando o impacto que nos causariam se chegassem ao consciente em sua forma original, isto é, sem que antes tivessem suas representações alteradas. Funcionam como filtros que não permitem que os conteúdos cheguem ao consciente sem antes passarem por transformações que alterem suas aparências. Para que isso ocorra a mente desenvolveu trabalhos entre os quais estão a Condensação e o Deslocamento. O trabalho de condensação ocorre quando várias representações psíquicas, isto é, conteúdos presentes no inconsciente (conteúdo latente) se concentram em uma só imagem ou representação do conteúdo manifesto. Já o trabalho de deslocamento ocorre quando o conteúdo latente vem carregado de muito afeto e este afeto seria de difícil aceitação caso não sofresse algum disfarce. Assim, ocorre a desconexão entre a representação do afeto real e a representação do que está manifesto, Os trabalhos do sonho ajudam a dar vazão ao conteúdo recalcado do inconsciente, revelando-o para o consciente de forma menos traumática. Sem esses mecanismos, provavelmente as revelações do conteúdo inconsciente seriam insuportáveis. Também o sono, necessário porque regenerador, seria interrompido frequentemente impossibilitando o descanso. Para Freud o conteúdo recalcado, isto é, a matéria residual menos palatável daquilo que experimentamos desde o início da vida, e que foi por nós reprimido e hospedado no inconsciente, tenta nesses embates escapar e de alguma forma retornar ao consciente. O sonho, assim como os sintomas, o chiste, os lapsos de memória e a transferência, é um dos retornos dos conteúdos reprimidos. Nele os recalques se fazem presentes de formas disfarçadas, representados por imagens, símbolos, situações e diálogos as vezes sem sentido, como resultado de um compromisso feito entre a consciência e o inconsciente. O acesso ao inconsciente não é algo que se alcance deliberadamente. A única possibilidade de se acessar o inconsciente é por meio de sua revelação ou manifestação na consciência. E essa manifestação chegará à consciência de forma alterada, distorcida. Partindo dessa premissa, a psicanálise, com o conjunto de instrumentos que integram sua metodologia pode facilitar o acesso ao inconsciente. Porém, o acesso terá que percorrer necessariamente o método investigativo. Seja por meio da associação livre ou da interpretação dos sonhos, bem como pela escuta dos significados da narrativa e das palavras, lapsos, chistes e observando comportamentos e hábitos recorrentes. Certo é que o inconsciente é parte indissociável de nossa estrutura mental. E por não ser um órgão físico, como o HD mencionado no início deste trabalho, ele tem capacidade de armazenamento ilimitado. Podemos sem medo afirmar que o inconsciente é um depositório infinito de afetos que inevitavelmente já interferiram, interferem ou vão interferir no nosso modo de ser e de ver o mundo. Trocando em miúdos e citando o próprio Freud: “a voz do inconsciente é sutil, mas não descansa até ser ouvida”.
Por Richer Bustos Olórtegui - O Neurologista, Sigmund Freud, continua seu percurso da descoberta da psicanalise já afastado de seus colegas Jean-Martin Charcot e Josef Breuer, também já tinha deixado a prática do método hipnótico e da pressão da mão nos doentes psíquicas da época pela precária eficácia. Nesses anos ele descobre um novo método de intervenção para seus pacientes que vai chamar de regra psicanalítica fundamental que é “A Associação Livre” consistindo em deixar falar ao paciente tudo o que vinha a sua mente sem criticar ou selecionar. Nesse interim os pacientes de Freud começaram também a narrar seus sonhos noturnos. Isso inspirou a ele ao estudo dos sonhos em três níveis: a revisar a literatura científica acerca dos sonhos no passado, os sonhos de seus pacientes e seus próprios que o levou vários anos, o qual foi terminado antes do virado do século XX, mas ele quis adiar sua publicação para inaugurar o novo século com o intuito de que sua obra virasse a “A Obra de Século”. Com sua nova obra “A Interpretação dos Sonhos”, bacilar para a psicanalise, Freud começa a se aproximar a um estudo menos psiquiátrico, médico, neurológico possível do funcionamento da mente humana abrindo um novo vértice para entender a natureza da mente e seu funcionamento. Nesta obra Freud introduz um conceito fundamental para a psicanálise o “Inconsciente” (já estudado, falado nos tempos dele por outros pensadores na área da filosofia, medicina, etc.), mas graças a obra da Interpretação dos Sonhos que se instala ou se oficializa. Sendo a sua primeira grande manifestação do inconsciente: o sonho que é elementar para compreender a psicanálise, o funcionamento psíquico e o aparelho psíquico. Freud no capítulo II de sua obra, a partir da análise seu próprio sonho a “injeção de Irma”, vai propor como método de interpretação dos sonhos o método da decifração de cada parcela do sonho, porque eles se apresentam desconexos e confusos. A ideia central de Freud aqui é que o sonho tem um sentido e podem ser interpretas longe de ser só uma atividade fragmentária do cérebro e finalmente dirá terminado o trabalho de interpretação de um sonho descobrimos que o sonho é a realização de um de um desejo recalcado. No estúdio do capitulo VI do texto “Interpretação dos Sonhos” Freud nos adentra a todo um processo complexo de trabalho de engenharia do sonho que entram em ação nosso consciente, pré-consciente e inconsciente com os nossos pensamentos oníricos, desejos, afetos, censuras, repressões, recalques, restos infantis, diurnos etc. fazendo possível os trabalhos de condensação, deslocamento, simbolismo e dramatização para sair à tona a nosso presente como a realização de nossos desejos reprimidos desde nossa primeira infância. Aos quais Freud os divide em dois: conteúdo manifesto que seria o relato descritivo feito por cada sonhador produto do trabalho do sonho, que tem uma marca de deformação e esquecimento causada pela nossa censura deformando assim os nossos processos de lembranças como acontecem também em nossa vida de vigília e o conteúdo latente é o sentido, o significado do sonho produto do trabalho de interpretação do psicanalista com a finalidades de achar o verdadeiro significado do sonho. Freud nos mostra, que quando dormimos, a nossa mente consciente relaxa e “abaixa a guarda” deixando agir ao inconsciente é aí que se dá os trabalhos de condensação e deslocamento. Sendo que no trabalho de condensação nosso cérebro associa os nossos pensamentos de conteúdo similar e os reproduz em um só sonho, ou seja, uma representação única representa por si só várias cadeias associativas que tem uma caraterística de síntese constituindo uma tradução resumida do trabalho onírico. Enquanto no trabalho de deslocamento, um aspecto significativo do sonho ganha menos importância e os aspectos secundários surgem com mais riqueza de detalhes. Neste processo mental a intensidade do acontecimento com maior valor psíquico é deslocada para o elemento de menor valor psíquico mostrados nos tantos exemplos de sonhos interpretados por Freud. Neste estudo é importante frisar a importância dos afetos nos sonhos na tarefa interpretativa como já disse Freud: “A análise nos mostra que o material de representações passou por deslocamentos e substituições, ao passo que os afetos permanecem inalterados”. Assim, os afetos, nesse processo onírico é o único elemento que não é alterado e por isso é de muita valia no processo de observação do tratamento psicanalítico analista – analisando e finalmente o trabalho da elaboração secundaria, que segundo Freud, acontece no pré-consciente para ajustar o conteúdo latente do sonho as necessidades da vida da vigília, dando coerência ao sonho tal como nossa vida consciente exige. Este ato é realizado ao instante de acordar. Vale lembrar que este último, partir de 1923, será retirado por Freud deste processo do trabalho do sonho para o trabalho do eu. A grande importância dos sonhos se fundamenta como afirmara Freud “O sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente” e porque faz possível a realização de nossos desejos recalcados no inconsciente. Encima de isso se dá o trabalho de interpretação dos sonhos com o intuito de explorara o inconsciente do paciente por meio da decifração dos sonhos procurando atingir os objetivos traçados por Freud para a psicanalise: de estabelecer no paciente sua capacidade de realizar e de gozar. Toda esta incrível engenharia do sonho existe graças a descoberta de Freud que são fruto de suas pesquisas com suas pacientes de si próprio e que é um legado para ajudar as pessoas na luta das doenças psíquicas. Finalmente, o primeiro retorno do reprimido, conforme já temos estudado nos blocos anteriores, se dá nos pacientes histéricos através dos sintomas manifestados por eles. Esses sintomas eram na verdade, outra forma de “retorno ao reprimido” cuja técnica proposta por Freud foi a procura da origem do sintoma, no caso foi um trauma infantil. Esse retorno do inconsciente recalcado (reprimido) no processo dos sonhos é concretizado pelos deferentes trabalhos do sonho como são: condensação, deslocamento, simbolização, elaboração secundaria, esquecimento etc. que driblam a censura para materializar no sonho e manifestar-se na vida consciente cujo objetivo da interpretação é o conteúdo latente do sonho (o verdadeiro sentido do sonho). Os dos processos da descoberta freudiana são semelhantes já que têm os mesmos objetivos: de como chegar àquilo que foi decalcado, a primeira pela análise do sintoma e a segunda pela interpretação do sonho. Esse retorno do recalcado, é por excelência, fonte do material com que o psicanalista trabalha.
Por Mauro Costa - Após ter formulado uma teoria pulsional que estava sob o domínio do Princípio do Prazer e Princípio da Realidade, Freud começa a perceber que essa teoria não era capaz de explicar alguns comportamentos, como aquele observado em soldados que participaram da 1ª Grande Guerra e que tendiam a repetir experiências dolorosas. Assim, Freud constata que tais comportamentos não eram regidos pelo princípio do prazer e que sua teoria pulsional resulta insatisfatória para explicar esses casos de repetição de experiências dolorosas. Diante dessa constatação, Freud apresenta em seu texto, Para Além do Princípio do Prazer (1920), uma reformulação de sua teoria das pulsões, introduzindo o conceito de pulsão de morte como uma oposição à pulsão sexual e à pulsão de autoproteção, que passam a serem unificadas como pulsão de vida. Para fundamentar a pulsão de morte Freud vai buscar auxílio na biologia onde, de uma forma um tanto quanto forçada, “deduz" que toda a vida tem uma origem inorgânica e que toda forma de vida tende a voltar para essa condição. Desta maneira, a pulsão de morte se contrapõe à pulsão de vida e tende para a redução completa das tensões, reconduzindo o ser vivo ao estado "originário" inorgânico. A partir desta perspectiva, as pulsões de morte seriam definidas como traumáticas, inicialmente voltadas para o interior, tendendo à autodestruição, e secundariamente dirigidas para o exterior, manifestando-se então sob a forma da pulsão de agressão ou de destruição. Outra característica inerente à pulsão de morte seria a sua tendência à repetição. Em 1919, Freud havia escrito o ensaio Das Unheimliche, que teve seu título traduzido para o português de diferentes formas, como: o estranho, o infamiliar, o inquietante. A dificuldade em encontrar uma tradução única para o termo não é de causar espanto, visto que o próprio ensaio começa com Freud fazendo uma pesquisa sobre possíveis traduções para o termo Das Unheimliche em diferentes línguas. Tal pesquisa é acrescida de uma investigação semântica e etimológica sobre quais seriam os possíveis significados e origem do termo. Essa investigação termina por revelar um paradoxo da ambivalência daquilo que é familiar e infamiliar simultaneamente. Na segunda parte do ensaio, Freud desenvolve uma apreciação investigativa sobre o paradoxo mencionado, buscando identificar onde e como esse sentimento peculiar pode ocorrer. Começa se aproximando de textos da literatura fantástica como o conto O Homem da areia, de Ernst Hoffmann. Segue, expandindo sua exploração para vários exemplos de situações onde o estranho infamiliar se manifesta. Um dos exemplos que cita é o caso de equívocos pessoais, como quando, certa vez, em viagem na Itália, chega acidentalmente a uma praça onde havia um bordel e, ao tentar se desviar, retorna por duas vezes ao mesmo local, ou, ainda, por ocasião de uma viagem de trem, quando está sozinho em um vagão, se levanta à noite e se depara com um outro homem no reflexo, infamiliar, mas que, por fim, era ele mesmo. Assim, aglutina diversas experiências como tradução desse mesmo afeto, qual seja, a experiência infamiliar e, ao aprofundar no exame da aparente contradição entre algo que é familiar e ao mesmo tempo infamiliar, se aproxima analogamente a um IN-COMODO, algo que se encontra dentro do cômodo, um lugar da casa e, portanto, familiar, mas que, ao mesmo tempo, incomoda, causa certa estranheza e desconforto, sensações de angústia, confusão, estranhamento e até mesmo de terror. Como causa para esses afetos Freud elenca uma diversidade de possibilidades a partir de experiências com pessoas, coisas, eventos e situações, dentre as quais podemos citar magia, fábulas, onipotência de pensamentos, superstição e crenças. Por fim, Freud, na terceira parte do ensaio, vai se dedicar à interpretação metapsicologia desses afetos inquietantes que foram descritos anteriormente, elencando hipóteses sobre a origem desses acontecimentos com intuito de justificar essa sensação de angustia e estranhamento. Assim, ele formula algumas possibilidades teóricas que servem de embasamento psicanalítico para de que maneira esses eventos se relacionam com o sujeito apresentando como possíveis elos de ligação às angústias infantis, os complexos reprimidos, a angústia de castração, a regressão ao ventre materno, a neurose obsessiva e, dentre todas, a destacada como principal: o Recalque. Em um outro texto de 1919 intitulado Bate-se numa criança, Freud vai se dedicar ao estudo da origem das perversões sexuais e das fantasias. Freud já havia se aproximado do tema da Perversão em Três Ensaios da Sexualidade, porém nesse artigo vai se aprofundar no assunto estabelecendo uma correlação entre as perversões e as fantasias. Inicialmente, é necessário esclarecer que Freud considera como perversão as formas atípicas de obtenção de prazer sexual, ou seja, tudo que foge do que chamava de meta sexual normal, que, para ele, era a relação sexual pênis-vagina. Dessa maneira, seriam consideradas como perversões os fetiches, o exibicionismo, a pedofilia, a ninfomania, o voyerismo, o sadismo e masoquismo, dentre outros. Da mesma forma, Freud considera em seu texto que Fantasia é uma ideia, representação ou situação imaginada ligada a sentimentos elevados de prazer, podendo ser reproduzida inúmeras vezes, de maneira inconsciente ou consciente. Outra questão que merece destaque nesse texto é o fato de nele estarem presentes os temas centrais de toda a teoria psicanalítica de Freud: sexualidade, infância e pulsão. Nesse texto, Freud vai utilizar alguns casos clínicos para levar a termo sua discussão sobre a estrutura das fantasias e a etiologia das perversões. Desta forma, centra sua análise na relação entre o paciente neurótico e a fantasia perversa. Para Freud, todas as perversões derivam do complexo de Édipo em relação ao amor incestuoso, que é o núcleo das neuroses. Quando o Édipo se resolve, permanece a carga emocional que fica como uma reminiscência, carregada com um sentimento de culpa a ela ligado. Em relação à fantasia infantil da surra contida no texto, Freud deu maior atenção àquelas ocorridas com as meninas, de modo que lista 3 fases evolutivas dessas fantasias, sendo a 1ª e a 3ª de caráter sádico e consciente e a 2ª de caráter inconsciente e masoquista. Detalhando cada uma dessas fases, Freud evidencia que na 1ª fase a fantasia é de que o pai está batendo em outra criança. Nesse caso, a fantasia é de qualidade consciente na qual quem bate é o pai, quem apanha é a outra criança odiada pela filha, e a satisfação da filha é sádica pelo sentimento de triunfo por ser a preferida do pai. Na 2ª fase, a fantasia é que o pai bate na filha. Aqui a qualidade é consciente e quem apanha é a própria filha que narra. Para Freud, essa era a fase mais importante que tem origem no sentimento de culpa da criança. Essa fase ocorre quando o recalque é realizado e o sentimento de culpa transforma o sadismo em masoquismo. O desejo original que provoca a fantasia era o de ser possuída fisicamente pelo pai, que, ao ser reprimido em sua origem foi deslocado para ser submetida fisicamente ao pai resultando na satisfação de cunho masoquista. Tal situação evidencia a transformação do sadismo em masoquismo por regressão da libido, através da influência do sentimento de culpa. Por fim, a 3ª fase na qual outros batem em outras crianças. Nesse caso, a qualidade é consciente, quem bate é o adulto em posição de autoridade e quem apanha são outras crianças, preferencialmente meninos. O prazer aqui é novamente sádico e também masoquista porque a criança que apanha também representa quem fantasia. Os textos freudianos aqui abordados fazem parte de uma série de publicações que ficaram conhecidos como Artigos Metapsicológicos e vale ressaltar que a reformulação da teoria pulsional constitui um importante marco que representa uma mudança significativa na teoria e prática psicanalítica. Contudo, o conceito de pulsão de morte foi um dos quais Freud não conseguiu impor aos discípulos e à posteridade, sendo, portanto, objeto de controvérsia entre muitos psicanalistas resultando em uma questão polêmica que perdura até hoje.
Por Fernanda Dias Belo - Que mal, porém tem eu me afastar da lógica? Estou lidando com a matéria-prima. Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Clarice Lispector Se para a espécie dotada de racionalidade, alcançar a inteligibilidade das coisas, fomentou as primeiras indagações filosóficas, foi somente com o advento da ciência, que respostas consistentes puderam ser alcançadas. Nos dias atuais, muito se sabe sobre o planeta e o humano. Todavia, apesar da descoberta que habitamos em um astro que gira em torno do sol, questões como; de onde viemos? para onde vamos? Continuam ecoando em nossa ignorância. Do mesmo modo, o funcionamento biológico do corpo humano, pode ser aprendido em detalhes por qualquer um que se debruce sobre o tema. Mas e quanto a mente? Sabemos que sinapses e substâncias químicas agem no cérebro, influenciando o estado mental das pessoas. Contudo, nenhum dos avanços conquistados nesse campo, foi suficiente para suprimir o sofrimento psíquico. A psicanálise então, se coloca como uma opção diferenciada, que pela própria natureza e complexidade do seu objeto, propõe uma perspectiva não cientifica, para apreensão dos fenômenos mente. O pai da psicanálise (Freud), concebe em seu modelo estrutural, que conflitos e/ou fixações provenientes das fases psicossexuais do desenvolvimento infantil, culminam no processo de repressão, e deslocamento libidinal. Que consequentemente, compromete o funcionamento normal da mente. Melanie Klein, por sua vez, nos interpela com sua pesquisa, a regressar a um estágio remoto da vida humana, até as primeiras experiências da vida pós-natal. Onde a consciência moral ainda não foi estabelecida, e o que existe, são sensações corporais, que anseiam por satisfação. Fantasias, ansiedades e relações objetais, são o núcleo em torno do qual Klein fundamenta sua prática clínica, e ao mesmo tempo marca as principais diferenças, entre o seu modo de pensar o acontecer psíquico, e aquele de Sigmund Freud. Suas concepções sustentam, que relações de objeto, estão presentes desde o princípio no inconsciente do bebê. Ainda que inicialmente ele se relacione apenas com partes do objeto, e as perceba como uma extensão de si mesmo. Forçosamente, a privação move o bebê a realidade de que o objeto supridor, é externo. E é nesse âmbito da ausência, e do reaparecimento do objeto, que as fantasias basilares, que constituem, e determinam o funcionamento da mente, se formam. Direcionadas ao objeto primordial; o seio da mãe. Ódio, amor, culpa e reparação, são ambivalências operantes desde o princípio da vida. Oriundas das ansiedades da posição esquizoparanóide, onde o sadismo impera, como meio de retaliação. E da posição depressiva, na qual, os descontentamentos são superados pelos aspectos bons do objeto, instituindo condições para reparação. Portanto, na ideia desenvolvida por Klein, a mente normal funciona alternando entre as duas posições, com seus respectivos afetos. Logo, a dominância de uma sobre a outra, desequilibra, ou não estabelece as condições favoráveis, para uma mente saudável. Por conseguinte, se em Freud, a análise visa preencher lacunas mnêmicas, em busca da repressão. Klein se interessa em desvelar as fantasias primordiais, que sustentam o excesso de ansiedade, de modo que esta possa ser reduzida. Ou de facilitar o contato com elas, como meio de integrar o ego cindido por defesas paranoides. A questão da ansiedade também foi abordada por Freud, em dois momentos; no primeiro como sendo efeito, e no segundo como causa da repressão. Klein pensa a ansiedade em dois tipos; objetiva e neurótica. A primeira, ligada as demandas da realidade, desperta a segunda, que pela própria natureza inconsciente, é muito mais potente. De modo que, se em Freud a ansiedade está fortemente ligada ao falo, Klein propõe que o medo maior ligado a castração, é a não continuidade da espécie, pela impossibilidade de reprodução. Isso posto, é na ansiedade neurótica, segundo Klein, que o tratamento analítico deve estar focado. E este só pode ser encerrado, quando ela é alcançada, nas suas ambiguidades. Para tornar isso possível, ela oferece uma de suas maiores contribuições a psicanálise. Pois, se a partir do caso Dora, Freud destaca a importância da transferência para a cena analítica, Klein chama a atenção para a importância da transferência negativa. Segundo ela, somente acessando as emoções profundas, a diminuição das ansiedades, a redução das defesas maníacas, e fortalecimento do ego, pode ser alcançado. Os genitores são figuras centrais na formação inconsciente, no entendimento dos dois autores. Salvo que Freud, preconizou os pais reais em suas pesquisas. Sendo estes, o objeto de identificação na dissolução do complexo de édipo. Klein por sua vez, seguindo o entendimento de um mundo interno fantástico, descreve a identificação, como resultado dos mecanismos de introjeção e projeção, correspondentes aos primeiros objetos parciais; os pais da fantasia. Assim, pela via da introjeção, o ego internaliza partes do objeto no self. Enquanto na projeção, lança para fora o que não é capaz de tolerar no próprio self. Parafraseando Clarice Lispector “o horror sou eu diante do outro”. Mas, é ela também que desperta em nós o sentimento de empatia – diante de uma catástrofe, por exemplo – a identificação segundo Klein, é o correspondente, e a comunicação do conteúdo interno com o externo, e vise versa. A síntese desses processos, é a identificação projetiva. Um dos mais explorados conceitos, da obra Kleiniana. A via aberta por Freud, que ouvia e observava, assim podemos inferir que sua epistemologia discorre do exame dos efeitos do processo civilizatório, sobre a parte incivilizada do humano, foi expandido por Klein, que observava e ouvia. E foi justamente isso que tornou possível analisar crianças. A investigação de fantasias advindas de uma fase pré-civilizada, onde o que existe são apenas impulsos instintuais. Portanto a psicanálise - assim como invoca Clarice Lispector – é o caminho possível, para nos aproximarmos de uma supra realidade mental, que segundo os pressupostos da metapsicologia, constitui e afeta a todos nós. De maneira mais, ou menos nociva.
Por Ale Esclapes - Nascido em 6 de maio de 1856 em uma pequena vila morávia de Freiberg que foi anexada pela Tchecoslováquia, migrou para Viena ainda criança, por esse motivo muitas vezes é chamado de austríaco. Filho de Jacob Freud e de sua terceira mulher Amalie Nathanson (1835-1930). Seu nome de batismo segundo a bíblia da família é “Sigismund Schlomo”, nunca tendo utilizado o Schlomo e adotando desde sua entrada para universidade em 1873 o nome de Sigmund. Interessou-se inicialmente pela histeria e, tendo como método a hipnose, estudou pessoas que apresentavam esse quadro. Mais tarde, com interesses pelo inconsciente e pulsões, entre outros, foi influenciado por Charcot e Leibniz, abandonando a hipnose em favor da associação livre. Estes elementos tornaram-se bases da psicanálise. Freud, além de ter sido um grande cientista e escritor (Premio Goethe, 1930), possui o título, assim como Darwin e Copérnico, de ter realizado uma revolução no âmbito humano: a ideia de que somos movidos pelo inconsciente. Desenvolve seus textos até quase à véspera de sua morte em 23 de setembro de 1939, Londres, onde se refugiou da perseguição nazista por ser judeu e por seus escritos. A princesa Marie Bonaparte, amiga, colaboradora e ex-analisanda foi uma peça fundamental no sentido de salvar escritos, cartas etc... nesse momento e em mais de uma ocasião na vida de Freud, inclusive em relação a intrigante correspondência do início da psicanálise que trocou com Fliess e que ele, Freud, quisera que fossem queimadas. Freud, suas teorias e seu tratamento com seus pacientes foram controversos na Viena do século XIX, e continuam a ser muito debatidos hoje. Suas ideias são frequentemente discutidas e analisadas como obras de literatura e cultura geral em adição ao contínuo debate ao redor delas no uso como tratamento científico e médico. Os primeiros anos de Freud são pouco conhecidos, já que ele destruíra seus escritos pessoais em duas ocasiões: a primeira em 1885 e novamente em 1907. Além disso, seus escritos posteriores foram protegidos cuidadosamente nos Arquivos de Sigmund Freud, aos quais só tinham acesso Ernest Jones (seu biógrafo oficial) e uns poucos membros do círculo da psicanálise. O trabalho de Jeffrey Moussaieff Masson pôs alguma luz sobre a natureza do material oculto. Freud morre de câncer na mandíbula (passou por trinta e três cirurgias). Supõe-se que tenha morrido de uma overdose de morfina. Freud sentia muita dor, e segundo a história contada, ele teria dito ao médico que lhe aplicasse uma dose excessiva de morfina para terminar com o sofrimento. Como textos que trabalhou nesse final de vida temos o “Esboço de Psicanálise”, “Algumas Lições Elementares sobre Psicanálise” e o revolucionário “Moisés e o Monoteísmo”. Foi assistido por seu médico( indicado a ele por sua grande amiga e protetora Marie Bonaparte) Max Schur até o fim dos seus dias, tendo sido ele um fiel acompanhante, que esteve anteriormente com Freud, em momentos de grande tensão na Áustria tomada pelo regime Nazista. Sabe-se que Schur fez o acompanhamento de Freud no dia em que Anna Freud foi chamada a prestar informações à Gestapo, dia em que Freud viveu intensa preocupação e que foi decisivo no sentido de convencê-lo a buscar refúgio na Inglaterra. Schur esteve ao seu lado todo tempo preocupado com sua saúde e como reagiria a tensão do momento. Descreve assim Peter Gay os momentos finais de Freud, uma das narrativas mais emocionantes a respeito: “Schur estava à beira das lágrimas, enquanto presenciava Freud encarando a morte com dignidade e sem auto piedade. Ele nunca vira alguém morrer assim. Em 21 de setembro, Schur repetiu a injeção, quando ele se tornou inquieto, e administrou uma dose final no dia seguinte, 22 de setembro. Freud entrou num coma do qual não despertou. Ele morreu às 3 horas da manhã de 23 de setembro de 1939. Quase quarenta anos antes, Freud escrevera a Oskar Pfister, indagando o que se faria, ‘quando as ideias falham ou as palavras não vêm?’. Não pôde evitar um ‘tremor diante desta possibilidade’. ‘É por isso que, com toda a resignação perante o destino que convém a um homem honesto, eu tenho um pedido totalmente secreto: apenas nenhuma invalidez, nenhuma paralisia das faculdades pessoais devido a uma desgraça física. Que morramos em nosso posto, como diz o rei Macbeth’. Ele providenciara que seu pedido secreto fosse atendido. O velho estoico conservou o controle de sua vida até o fim”. Primeiros anos:Freud inicia os estudos na universidade aos 17 anos, os quais tomam-lhe inesperadamente bastante tempo até a graduação, em 1881. Registros de amigos que o conheciam naquela época, assim como informações nas próprias cartas escritas por Freud, sugerem que ele foi menos diligente nos estudos de medicina do que devia ter sido. Em lugar dos estudos, ele atinha-se à pesquisa científica, inicialmente pelos estudos dos órgãos sexuais de enguias — um estranho, mas interessante presságio das teorias psicanalíticas que estariam por vir vinte anos mais tarde. De acordo com os registros, Freud completa tal estudo satisfatoriamente, mas sem distinção especial. Em 1877, desapontado com os resultados e talvez menos excitado em enfrentar mais dissecações de enguias, Freud vai ao laboratório de Ernst Brücke, que torna-se seu principal modelo de ciência. Com Brücke, Freud entra em contato com a linha fisicalista da Fisiologia. O interesse de Brücke não era apenas descobrir as estruturas de órgãos ou células particulares, mas sim, suas funções. Dentre as atribuições de Freud, nesta época, estavam o estudo da anatomia e da histologia do cérebro humano. Durante os estudos, identifica várias semelhanças entre a estrutura cerebral humana e a de répteis, o que o remete ao então recente estudo de Charles Darwin sobre a evolução das espécies e à discussão da "superioridade" dos seres humanos sobre outras espécies. Voltemos agora nossa atenção para o início da psicanálise Podemos dizer que muito do que levou ao entendimento da psicanálise se encontra esboçado em todo o período que chamamos de sua fase pré-científica(ou pré-psicanalítica), muito do que está contido nos primeiro modelos de psiquismo proposto por Freud nesse período é de alguma maneira incorporado em tudo aquilo que será chamada da metapsicologia freudiana. Não podemos deixar de prestar atenção no conhecido modelo da Lagoa ou no modelo da Cebola, ambos muito elucidativos dos mecanismos que operam de dentro do aparelhamento psíquico. Breve histórico pré-psicanalítico: FREUD - Diploma em Medicina - 1881 - Primeiras pesquisas com Brucke (que o apresenta a Josef Breuer) - 1876. Primeiras pesquisas com Brucke (que o apresenta a Josef Breuer) - 1876. 1884 – A quase descoberta da função anestésica da cocaína – não escreve sobre o tema e viaja para estar com sua noiva Martha Bernays. Junho - Artigo sobre a cocaína por Carl Koller: Escreve sobre a anestesia local derivada da cocaína. Outubro de 1885 - 1886 - (janeiro, fevereiro) Bolsa da Faculdade e Curso em Paris - Hipnose - Histeria - com Jean Martin Charcot. Polêmica importante para os primórdios das pesquisas de Freud existente nessa época: Charcot - só histéricos seriam hipnotizáveis. Bernheim - todos seriam suscetíveis à hipnose. Polêmica Sexualidade 1886 - Em recepção na casa de Chacot, este teria afirmado que a origem dos distúrbios nervosos seriam “sempre genitais”.
Por Fernanda Dias Belo - Aquele que está dentre os mais conhecidos dos sete pecados capitais; a inveja. Já se fazia notar em civilizações que precederam a era cristã. Sendo, portanto, recomendado a todo homem que desejasse possuir qualidades superiores, combater esse estado de emoção. Por outro lado, seu antagonista; a gratidão, é compatível com o grupo de qualidades que deveriam ser por eles, adotadas. Neste contexto, ambas são concebidas como escolha consciente e voluntária, fruto da interação do homem com o meio. Portanto, seria competência do próprio sujeito, superar a primeira, em benefício da segunda. Perspicaz, Melanie Klein inova ao apresentar a inveja e a gratidão, pelo viés rudimentar, inerente e comum ao desenvolvimento do aparelho mental humano. Contrapondo-se ao senso comum, em sua versão precoce, tais afetos, são involuntários e inconscientes. Desencadeados pela relação primordial; bebê/seio. O movimento de Inveja e gratidão, são invariavelmente, dirigidas ao mesmo objeto; o seio bom. Atuando na mente do bebê, desde seus primeiros dias de vida, essas emoções interagem em uma conjuntura ambivalente e conflituosa. Onde, a prevalência do afeto invejoso no psiquismo do bebê, acarreta implicâncias, tanto para o seu desenvolvimento inicial, quanto para as relações de objeto, no decorrer de sua vida. De modo igual, revelam a simultaneidade, das posições esquizoparanóide e depressiva atuando desde cedo, sobre o ego prematuro. Desse modo, a predominância de uma posição sobre a outra, é determinante para a experiência do bebê em relação ao objeto, a saber; inveja ou gratidão. Se diante do mal-estar, provocado pela ausência do seio bom, o bebê é capaz de tolerar o desconforto, fruir em satisfação e contentamento quando reestabelece ligação com o objeto. Sinaliza que ele está no funcionamento depressivo. Consequentemente, as condições para sentir amor e gratidão pelo objeto, estão estabelecidas. Por outro lado, quando a privação do objeto, desperta no ego ansiedades persecutórias, sua capacidade de sentir gratidão, é eclipsada pelo ódio e horror a dependência. Origina-se então, a inveja primária (inconsciente), e suas defesas esquizoparanóides. Portanto, a premissa da inveja é a percepção de que existe um objeto bom, e superior. Pois este, é detentor de potencialidades que o bebê deseja, e não possui. Sendo assim, os primeiros ataques invejosos, são direcionados ao seio bom, e ocorrem justamente, pela capacidade que o seio dispõe de nutrir, e ser uma fonte inesgotável de alimento. Por conseguinte, a frustração de não ser detentor, de tais potencialidades, desencadeia sentimentos de animosidade, e o seio que alimenta, mas não gratifica, se torna alvo de ataques sádicos, que visam danificá-lo e destruí-lo. É imprescindível ao invejoso, manter-se na ilusão de onipotência, e auto suficiência, enraizadas no aspecto narcísico da inveja. Logo, diminuir, desvalorizar as capacidades e conquistas do outro, tem por finalidade, auxiliar o invejoso a se manter isolado do sentimento de dependência e insuficiência, negando a existência daquilo que lhe causa horror; os atributos do outro, que ele não possui. Nisso consiste o caráter perverso da inveja; a negação do outro. Não existe consideração pela pessoa, que sente e sofre as consequências dos ataques a ela destinados. No limite, essa anulação do outro, conduz a uma relação de utilidade; objetificação da pessoa. sem vínculo, nem laços de afeto. Isso posto, podemos inferir, que o bebê imerso em inveja, começa a recusar o alimento, por não tolerar a condição de submissão. Mas, a necessidade de sobrevivência se impõe, e ele volta a se relacionar com o objeto, apenas como fonte de nutrição e suprimento material, mantendo-se em um “estado de interesse”. Mesmo assim, nada do que é fornecido pelo objeto, resulta em satisfação. Visto que, o estado de inveja, não é incompatível com a condição de contentamento, nem de reconhecimento do objeto, como sendo suficientemente bom (desvalorização). Isso resulta, na voracidade, enquanto um dos principais atributos da inveja. Como citado acima, a inveja e a gratidão, estão presentes nas relações humanas, desde os períodos rudimentares da história. Ao decorrer por suas características - no sentido do senso comum -, certamente podemos identificar com facilidade, em nossos círculos de convivência, pessoas que correspondem a essa condição; incluindo, nós mesmos. Contudo, a concepção geral da inveja, tem verossimilhança com o conceito de cobiça. Pois se fundamenta no preceito de ansiar o que o outro possui. Entretanto, nos moldes que Melanie Klein problematiza em sua obra, a inveja e a gratidão, são afetos concebidos na gênese do desenvolvimento humano. Do mesmo modo, ocupam uma posição de centralidade no funcionamento da mente do bebê, e do adulto. Sem jamais negligenciar o aspecto constitucional, nas conjecturas de Melanie Klein, a gratidão é intrínseca a pulsão de vida. Se resume basicamente no reconhecimento do bebê, de que o seio - apesar dos descontentamentos- preservou sua existência. Quanto a inveja, ela vai além do desejo irrefreável de gozar daquilo que pertence ao outro, e triunfar sobre o objeto. Ela almeja aniquilar, tudo aquilo que reverbera suas limitações, e incompetências. Em total confluência, com os princípios da pulsão de morte.
Por Maria Teresa Manfredo - A psicanálise, que em princípio era uma técnica criada para ser aplicada somente em adultos, passou na primeira metade do século XX por um conjunto de modificações, abarcando também a análise voltada para as crianças. A grande responsável por essa inovação técnica e teórica foi Melanie Klein. Com efeito, essas transformações não ficaram restritas ao público infantil e, rapidamente, tornaram-se pilares para também balizar novos olhares sobre o funcionamento mental de uma maneira ampla. Em “Amor, Culpa e Reparação e Outros Trabalhos”, livro que reúne textos de Klein de 1921 a 1945, podemos verificar o modo como a autora descreve o início e a evolução da sua atividade analítica dedicada à infância. Naquela época, a análise voltada para esse público era considerada algo inferior dentro da psicanálise; acreditava-se que o trilhar analítico que poderia ser realizado com uma criança pequena deveria ter apenas um caráter educativo, aproximando-se da pedagogia. Isso porque, de acordo com a técnica freudiana, a psique das crianças ainda se encontraria em estado incompleto – já que o Complexo de Édipo não estaria formado até os sete anos de idade, aproximadamente, segundo o autor. Ao longo do desenvolvimento de seus estudos analíticos, clínicos – e aqui podemos destacar, por exemplo, o capítulo “Princípios Psicológicos da Análise de Crianças Pequenas”, texto escrito em 1926, presente no livro citado acima – Klein defende que é, sim, possível a análise das crianças com cunho estritamente interpretativo, ou seja, seguindo os padrões da psicanálise. Ainda tendo como referência o livro “Amor, Culpa e Reparação e Outros Trabalhos”, é interessante ressaltar que, até a década de 1930, Klein traça um trajeto intelectual e analítico em que o uso das noções freudianas das fases do desenvolvimento psíquico (oral, anal, fálico, latente, genital), bem como do Complexo de Édipo e de castração, estão muito presentes. Pouco a pouco, com o avançar de seus estudos e observações clínicas, Klein começa a fazer uma série de descobertas que contradizem as teorias básicas de Sigmund Freud, sobretudo no que tange às fases de desenvolvimento. Por exemplo, ela começa a observar que mesmo em crianças muito pequenas, menores de cinco anos de idade, pode ser observado o Complexo de Édipo. Com isso, a autora traz a luz instâncias como a do Superego arcaico – ideia segundo a qual a força do Superego é, antes de tudo, pulsional, biológica e provém totalmente do sadismo inerente a cada bebê quando se relaciona com o mundo a sua volta. Klein identifica, ainda, um certo contraste entre a rigidez que o Superego pode desenvolver e a tolerância dos pais. Mas, para a autora, a formação do Ego não encontraria sua base nas interdições familiares. De uma forma um tanto revolucionária, porque muito inovadora, Klein argumenta que o que exerce grande influência nessa formação não seriam os pais reais, mas o que ela chama de imago dos pais, criada no psiquismo do bebê desde os primeiros meses de vida. Daí teríamos que a noção de Complexo de Ego para Klein ocorre de maneira muito distinta, já que muito mais tenra em termos etários, do que a noção de Complexo de Ego em Freud. Além de outros pontos importantes, vale destacar que, em Klein, diferentemente do que ocorre na obra de Freud, a questão moral, ou a influência social e cultural, ficam em plano secundário. Assim, pouco a pouco, Klein acaba estabelecendo a matriz das relações de objeto como pressuposto principal dentro da psicanálise. Dito de outro modo, o que passa a importar em psicanálise a partir de Klein não é a libido, tal qual postulava seu antecessor teórico de maior peso, Freud; importa, sim, como o sujeito se relaciona com outros objetos (e por objetos podemos entender as pessoas, as coisas, os acontecimentos, as situações... Tudo aquilo que dá forma ao mundo e que passa pelo juízo da criança). Ora, em termos de paradigma psicanalítico, isso significa uma expressiva revolução. Ainda assim, é possível de se perceber na obra de Klein um certo receio de ser expulsa do círculo psicanalítico da época, já que suas descobertas confrontavam as de Freud, grande fundador e portador das teorias psicanalíticas naquele período. Dessa forma, é possível fazer a seguinte leitura em muitos dos escritos de Klein, principalmente até meados da década de 1930: a autora se ocupava de uma tarefa ambígua; de um lado, refazer a teoria psicanalítica frente às suas descobertas e, de outro, não discordar diretamente de Freud. Em suma, devemos destacar que, até Melanie Klein, a psicanálise pensava desenvolvimento psíquico tal como Freud o imaginara, qual seja, em termos de fases de desenvolvimento. Paulatinamente, ao se tornar mais independente intelectualmente em relação a Freud, Klein desenvolve a noção de posição. Por conseguinte, podemos afirmar que a grande consolidação kleiniana em termos teóricos e técnicos se dá entre 1935 e 1946, com estabelecimento completo do seu famoso sistema de posições. Nele, basicamente não teríamos mais fases lineares de desenvolvimento psíquico e sim a ideia de que ora o sujeito está numa posição (esquizoparanóide) e ora noutra, (posição depressiva). Enquanto seres humanos, nossas mentes estariam sempre vibrando numa dessas duas posições, tal qual um pêndulo, a depender tanto da internalização dos objetos que tivemos em nossas experiências enquanto bebês quanto de nossas relações objetais no momento presente. Dito isso, no que tange às diferenças e aproximações entre a forma de condução dos casos clínicos entre Freud e Klein, poderíamos afirmar que, em sua escrita, Klein expõem mais os detalhes e meandros dos casos clínicos, suas dúvidas, demonstrando, por vezes, que o caminho interpretativo da mente humana pode não ser algo tão assertivo quanto os textos de Freud podem sugerir. Também, devemos observar que Klein se afasta da descrição quase investigativa que muitas vezes Freud imprimiu na exposição de seus casos clínicos; com isso, a psicanálise passa cada vez mais a ganhar em termos de complexidade.
Por Fernanda Dias Belo - “Quando as palavras não são capazes de comunicar o que sentimos, a gente não fala, só sente”. A linguagem verbal, que é a principal forma de comunicação humana, possui em si mesma, lacunas que por vezes, dificulta, ou não é capaz de transmitir com exatidão, o que se pretende comunicar. Quando falamos de amor, por exemplo, costumamos dizer; amo minha mãe, amo minha cidade, amo aquele prato, e assim por diante. Ora, certamente nominamos de amor, tudo o que nos desperta certos afetos, o que não significa necessariamente, que se trate do mesmo sentimento. Pode ser apenas, o reflexo da nossa limitação verbal, que nos leva a dar o mesmo nome, a coisas potencialmente diferentes. Ainda assim, com certa carga de precariedade, a importância das palavras, está estabelecia. E foi através da escuta do que é dito, que Freud iniciou a metapsicologia que explora os significados ocultos, no discurso do paciente. Sendo assim, sua técnica estava condicionada, e limitada a pacientes com fala articulada. O que fatalmente impossibilitou, que realizasse pesquisas clínicas diretamente com crianças. Desafio assumido por sua Filha e discípula, Ana Freud. Que utilizando-se do viés educativo, inicia uma psicanálise infantil, voltada, e com caráter pedagógico. Conduta fortemente criticada por Melanie Klein, que entende a prática de Ana Freud, como inapropriada. Na medida em que esta, desperta ansiedades - que segundo Klein, permeiam a psiquê da criança - sem que seja realizado um tratamento analítico sobre tais ansiedades. Logo, os procedimentos de Ana Freud, estariam próximo da modelação, e adaptação da criança, ao meio em que vive, em detrimento do trabalho analítico. Embates com Ana Freud à parte, Melanie Klein é a referência em psicanálise com crianças. Podemos ir além, e afirmar que ela foi a precursora. Visto que, o método que ela desenvolveu através de observações clínicas, não é somente consistente, mas é também, genuinamente psicanalítico. Considerando que seu trabalho se direciona em investigar as fantasias do inconsciente infantil, da maneira que ele mais comumente se manifesta em crianças; através das brincadeiras. A técnica do brincar de Melanie Klein, possibilitou novos avanços para a clínica psicanalítica. Não submissa a linguagem verbal, novas possibilidades se apresentaram, como tratamento de psicoses, por exemplo. Pelas quais, Freud desenvolveu certa quantidade de material teórico, mas pouco pôde fazer na prática. Uma nova formulação do entendimento, de um dos principais conceitos da psicanálise é teorizado por Klein; o complexo de édipo. Se Do ponto de vista fenomenológico, ela converge com Freud, a inovação do seu entendimento se dá, na temporalidade, dinâmica do processo, e possíveis desdobramentos, no aparelho mental. Para Freud, o desenvolvimento da criança, é dividido em fases psicossexuais, e a divisão de cada etapa é definida de acordo com a concentração de energia pulsional. Sendo assim, na fase fálica, o que prevalece é o interesse da criança pelo falo (pênis). E a partir daí, emerge o complexo de édipo – por volta dos quatro anos de idade - Onde, de acordo com Freud, no édipo positivo, o menino abandona a mãe como objeto libidinal por medo da castração. E a menina (que vive uma fase pré-edipiana), na busca de resolver sua falta fálica, abandona primeiro a mãe, e depois o pai, na sua jornada para conquistar, o que não possui. Crucial para o desdobramento do édipo, tanto no entendimento Freudiano, quanto no Kleiniano, é o Superego. Klein inclusive, concebe uma versão arcaica, que desde muito cedo, age sobre o ego fragilizado do bebê. Nessa perspectiva, para Klein, o complexo de édipo se inicia, ainda no primeiro ano de vida da criança, e o seu desenvolvimento, decorre em estágios concomitantes, amalgamados, e permeados por ansiedades oriundas da introjeção de objetos edipianos parciais (seio bom, seio mau/ pênis bom, pênis mau). Nesse contexto psíquico, o que determina a maneira que o complexo de édipo é experienciado pela criança, é a capacidade do seu ego rudimentar, suportar ansiedades persecutórias, e um superego agressivo. Portanto, Klein sustenta a teoria, que relações objetais, são apreendidas desde o início pelo aparelho mental. E que as imagos internalizadas, as fantasias, assim como as ansiedades da criança, podem ser tratadas ainda na infância. Ao contrário do seu mestre, Freud. Que acreditava não ser possível analisar crianças, mesmo concebendo a infância como origem do adoecimento de seus pacientes, era através do adulto, que ele regredia até as vicissitudes da infância. Por outro lado, a perspicácia de Melanie Klein, permitiu que ela tratasse crianças, na medida em que direcionou sua atenção, para outras formas de comunicação. E constatou que a ausência de vocabulário, ou a comunicação precária, não impossibilita o acesso do analista ao inconsciente do paciente. Pois, o que não é dito, pode ser observado e tratado por uma psicanálise, munida de técnica apropriada, que considera sobretudo, variadas formas de linguagem, e as diversas possibilidades de manifestação do inconsciente. Exatamente como fez, a senhora Klein.