EPP - Escola de Profissionais da Psicanálise

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Políticas identitárias e psicanálise

admin Artigos 19 julho 2024
O psicanalista bem como as instituições às quais ele está ligado, estão inseridos na sociedade, e desta forma, ambos estão permeáveis a discussões de cunho político, sociológico, antropológico, científico, etc. Essa permeabilidade ou cesura é como uma pele: precisa permitir que o corpo entre em contato com o meio que o rodeia, o proteja, indique se está calor ou frio etc., mantendo a integridade do corpo. Na última década vemos um acirramento de discussões políticas no campo social que acabam afetando e demandando das Sociedades e Instituições Psicanalíticas um posicionamento. Muitas vezes somos demandados por questões que nunca havíamos pensado, e que no sentido bioniano do termo, nos exige um aprender da experiência, um pensar sobre algo que muitas vezes esteve sempre presente. A EPP-Escola Paulista de Psicanálise e o Instituto Ékatus possuem um programa de atendimento em psicanálise e às vezes somos demandados por pedidos de analistas pretos (essa é palavra usada nos formulários de inscrição do programa), LGBTQI+, cristãos, héteros, etc. Nesse ponto faz-se necessário uma profunda reflexão sobre o que é ser um psicanalista. O psicanalista é uma pessoa que tem como ofício a psicanálise. Nesse ofício um ser humano oferece um espaço de escuta e oportunidade de crescimento para outro ser humano. Se explora aquela emoção não nomeada, se buscam novos significados para as experiências emocionais, se busca um mundo emocional cada vez mais complexo, com aumento da liberdade e a possibilidade de ir sendo si mesmo. Nesse ofício o psicanalista não tem sexo, idade, orientação sexual, cor, cheiro, preferências políticas. A pessoa do psicanalista sim, o psicanalista não. Assim como o paciente. Uma ideia em circulação é que caso a pessoa do psicanalista seja gay ou cristã ele estaria mais capacitado para escutar o sofrimento da pessoa do paciente gay ou cristão. Se assim o fosse, somente homens poderiam ser psicanalistas de homens, mulheres de mulheres, pessoas de 30 anos de pessoas de 30 anos. Nada disso é garantia de uma melhor escuta psicanalítica: é como se mulheres não pudessem ser machistas, gays homofóbicos etc.  O preconceito é mais democrático do que a sabedoria. Essa forma de uso da ideia de políticas identitárias é falsa a partir do vértice psicanalítico na opinião dessa instituição – quanto mais identificado o analista com seu paciente, pior para o processo psicanalítico. Esse é um dos principais fatores de contratransferência, ou pontos cegos do analista e que levam ao fracasso de uma análise. A pessoa do psicanalista é um profissional treinado para o exercício da sua tarefa. Não está impermeável a preconceitos, posicionamentos religiosos, políticos, sociológicos, econômicos etc. Mas ele tem dois dispositivos para cuidar desses aspectos: análise pessoal e supervisões contínuas. Também é fato que o próprio movimento psicanalítico já usou de forma preconceituosa as teorias psicanalíticas: durante décadas pessoas LGBTQIA+ foram impedidas de serem analistas por diversas sociedades psicanalíticas. Ainda hoje não é difícil encontrar um analista que classifique como psicótico qualquer pessoa que se identifique como “trans”. Mas a própria psicanálise e o movimento psicanalítico têm seus recursos para trabalhar esses pontos contra-transferenciais - o tripé psicanalítico: análise pessoal, estudo constante e supervisão.  Frente ao exposto a EPP-Escola Paulista de Psicanálise e o Instituto Ékatus têm alguns posicionamentos, a saber: - Não monitoramos ou questionamos nossos alunos e membros quanto à sua sexualidade, orientação sexual, crenças pessoais, posicionamentos políticos, cor etc. São assuntos de fórum pessoal a serem tratados em suas respectivas análises; - Não divulgamos fotos dos membros ou alunos, para que justamente sua aparência não seja usada de forma preconceituosa – todos aqui somos psicanalistas! - Buscamos oferecer sempre uma formação de excelência, para que o profissional aqui formado seja capaz de manter uma escuta psicanalítica, e esteja sempre cuidando de sua contratransferência. Em outras palavras, mantemos o tripé psicanalítico vivo, que consideramos até o momento o único instrumento capaz de fazer frente as demandas sociais. Entendemos que possam existir preferências por parte dos pacientes acerca do profissional que irá atendê-lo (sexo, orientação sexual, cor, religião, etc.), mas em nosso programa de atendimento em psicanálise, não serão atendidos tais pedidos. O único critério utilizado nesse programa é a compatibilidade de horários entre analista e paciente. __________________EPP- Escola Paulista de Psicanálise e Instituto Ékatus

O Faroeste dos desejos - resenha do filme “Ataque dos Cães” (alerta de spoiler)

admin Artigos 18 julho 2024
Por  Katia Peixoto dos Santos "The Power of The Dog" é uma adaptação da obra literária homônima, escrita pelo norte-americano Thomas Savage e publicada em 1967. O filme é um drama Western que deixa de lado os revólveres, rifles e portas bang bang para apostar nas imagens, ora de planos de detalhes minuciosamente trabalhados, ora de panorâmicas de paisagens desoladoras instigadas por cortes atemporais. A fotografia, da australiana Ari Weigner, dá precisão cirúrgica ao roteiro e a direção da neozelandesa Jane Campion. O filme ganha sentido pela leitura atenta de nós, espectadores, nos detalhes imagéticos. Em "Ataque dos Cães", a antiga frase de Confúcio; Uma imagem fala mais do que mil palavras, rege o drama. A adaptação do roteiro nos traz uma trama simples com apenas um núcleo cênico central, o do protagonista, portanto o foco fílmico gira em torno, praticamente, de quatro personagens, interpretados por atores incríveis que conseguem dar o tom dramático, ao ponto, aos personagens. São eles: Benedict Cumberbatch, como Phil Burbank; Jesse Plemons como George Burbank; Kodi Smith-Mc Phee como Peter Gordon e Kirsten Dunst como Rose Gordon. Apesar de conter um roteiro simples "Ataque dos Cães" nos propõe alguns questionamentos profundos, isso acontece na medida em que começamos a vivenciar as fragilidades, as vulnerabilidades, as angústias, as dores e os desejos das personagens. Cada personagens traz consigo a vontade latente de ter o que deseja a qualquer custo, assim todas elas se mostram auto-centradas, frias, descontentes e enigmáticas. Peter, mesmo demostrando suas habilidades e virtudes durante o percurso fílmico, está mais preocupado em fazer sua mãe feliz. Lembrando do ditado popular; cão que ladra não morde, talvez possamos por dedução, pensar que Peter representaria o contrário disso. Peter é o personagem que conduz a trama mas não está em algumas cenas principais, será que podemos pensar que ele seria a figura central da história? Seria Peter o narrador off desta trama? Fazendo uma pequena analogia com a vida, seria possível alguém dar um desfecho de algo sem precisar estar em todos os ambientes do qual controla, apenas por ter em mente planos diabólicos e executáveis? E como se comporta Phil? O homem rude que vive sob a influência fúnebre de seu amigo, possível amante, Bronco Henry? É mórbido e sacro o altar de Bronco, o santo Henry ao qual Phil lhe dá fortes poderes, até mesmo de o fazer acreditar que os dois poderiam representar o modelo de Rômulo e Remo, os irmãos que fundaram Roma, criados e amamentados por uma loba. Logo, semi-animais ou semi-humanos? Até que ponto esse modelo delirante sustenta Phil e o afasta da realidade? Em que medida sua relação com Bronco é sacra ou profana ou as duas coisas? E Bronco Henry, quem é esse ser que mesmo morto rege a vida de Phil e o faz viver em eterno luto? A quem dar o poder de nos fazer ser e sentir? Rose, ah Rose, quanto dela está perdido no seu olhar triste, angustiado e patético? Quem foi a Rose que tocava piano no cinema mudo da década de 1920? O que o piano representa para Rose? George, o irmão de Phil, um homem bondoso, bem aprumado porém não tão inteligente quanto Phil, não tão belo como Phil, nem tão atlético como Phil, nem tão …. como Phil. Mas o que Rose pode ver nele? O consolo e a segurança que sempre almejou? Luxo? Amor? Descanso? Muitos são os questionamentos propostos a nós, espectadores. É como num jogo de quebra-cabeças que para encontrar as peças que cabem nos espaços, é preciso procurar com atenção para formar um sentido, uma imagem conhecida nossa e das personagens. São muitas peças e cada uma delas um questionamento, outras imagens incompletas que nos levam a outras peças e a outros questionamentos. Porque os cães atacam? Por defesa? Por medo? Para receberem a recompensa? Pelos três motivos anteriores? Quem pode te salvar de um ataque de cães? Você próprio? Seus pais? Seu filho? Ninguém? A partir dessas questões vão surgindo outras que respondem essas e assim as peças do quebra-cabeças vão se formando, mas também cuidado, podem aparecer peças aparentemente erradas que não se encaixam, que se bifurcam no jogo trazendo outros questionamentos. O que fazer quando os desejos estão sufocados e aniquilados pela dureza do dia-a-dia e pela carência de afeto? O que fazer para proteger uma mãe que já sofreu tanto? O que fazer para resgatar um amor do passado que se foi? Como lidar com o luto? O que fazer para sair de um trabalho que esgota sua vida e adoece sua alma e se tornar rica? O que é preciso fazer para que isso possa se tornar realidade? Será possível matar seu pai alcoólatra para proteger sua mãe? Quem são os assassinos? É possível matar qualquer pessoa que faça sua mãe sofrer? Um homem rude é mesmo um sensível incompreendido? O filme responde cada uma dessas questões nas ações fílmicas, mas, volta a nos questionar, agora num jogo de esconde-esconde e novamente esconde encontra. Com calma, sem pressa, em cada olhar sutil das personagens, nas portas entreabertas, no corpo que exala fedor para isolar-se de outros, pelo casamento às pressas, pela música de Strauss que não sai e pela mesma música que implode dentro do ser, pela frieza dos afetos, pelo gosto amargo do rum que abafa a dor, pela sutileza da maldade na expertise, pela vulnerabilidade do coelho assustado, pela força e beleza do cavalo. Enfim, pela vida que corre e que aos poucos vai sendo capaz de satisfazer os desejos de cada personagem, de cada ser, de cada pessoa. Alguns desejos vão se tornando realidade, seria um momento feliz, porém para que esse possa existir é necessário sacrificar aquele que por um breve momento se descuidou, acreditou, amoleceu, se apaixonou, dormiu em seu posto de guarda - soldado - pois em sua essência, acreditou que aquele cão, logo após alguns rápidos e significativos afagos, não seria capaz de atacá-lo. A dura pedra quebrada pela água certeira que a fura pela astúcia sem compaixão e com extrema persistência. Vale muito a pena assistir "Ataque dos cães” e nos deixar embrear nas questões, nas soluções de cada personagem. Cada um de nós pode montar o seu próprio quebra-cabeças e propor novas construções em análises. Bom filme!!!___________Direção: Jane CampionPlataforma: Netflix

É possível amar o que se desconhece?

admin Artigos 17 julho 2024
Por Ale Esclapes Amar e ser amado tem uma relação direta com o que algumas pessoas chamam de autoestima. Mas não são tarefas emocionais nada fáceis. Vou me concentrar nesse vídeo em apenas alguns aspectos desse desafio. As mais úteis definições que conheço para o vínculo de amor eu aprendi um colega Argentino chamado Leandro Stitzman – amar implica ver a pessoa como ela é e ódio implica vê-la como ela não é. E isso é uma tarefa dificílima, pois entre o amor e o ódio existe nossa fantasia sobre o outro – como ele deveria ou não ser, e isso gera uma tormenta emocional imensa. Tolerar e aceitar o que o outro é e não é implica um luto da minha fantasia. E é justamente essa é a grande tarefa nesse momento, e notem que não tem nada a ver com o outro. É comigo.  Vemos isso em Freud no conceito de transferência, onde o paciente transfere para baseado no mecanismo do recalque suas fantasias para o analista e do ponto de vista de Klein ele se dá pelos mecanismos de projeção e introjeção, mas observem que é possível estabelecer essa análise sem o peso de toda a teoria desses autores.  A pergunta que se faz a partir dessa reflexão é: é possível se amar uma fantasia? Ou dito de outra forma, como amar aquilo que não consigo tolerar que seja o que se é, ou ainda, como amar aquilo que desconheço? Essas e outras reflexões estão no Livro Framework, e principalmente no como pensar psicanaliticamente sem o peso das teorias, editado pela EPP, e caso você queira se aprofundar nesses temas com o próprio autor, nos dias 26, 27 e 28 de maio, teremos um encontro de três dias, presencialmente para essas e outras discussões. O link para mais informações estão na bio, no feed ou na descrição desse vídeo. https://youtu.be/3ZzswyvdGP8  

Algunas ideas sobre la experiencia de lectura de M. Klein

admin Artigos 16 julho 2024
Por Sua Baquero -  Estudiar: lo que pasa entre el leer y el escribir. (…) Jorge Larrosa. La experiencia de la lectura. En el capítulo sobre “La técnica de análisis tempranos” que se encuentra en el libro El psicoanálisis de niños, Melanie Klein va a presentar dos casos: Pedro (3 años y 9 meses) y Ruth (4 años y 3 meses), haciendo una breve referencia a un tercero, Trude (3 años y 3 meses).  En ese texto, la autora reflexiona sobre diversos aspectos de su técnica de juego, señalando sus potencias y a la vez describiendo algunas situaciones excepcionales requeridas en la atención de los casos expuestos, indicando para el lector una descripción de setting analítico como un espacio también de experimentación.   Al inicio de lo que se nos cuenta, Klein describe el tamaño de los juguetes, su variedad, material y ubicación dentro del consultorio y finaliza incluyendo juegos más de tipo imaginativo, uso de agua, fuego, tijeras y papel que, conforme a la edad y el género de los pacientes se irá modificando, dejando entrever como al final de cuentas, incluso en el análisis de adultos, en el consultorio todos jugamos: con narraciones, palabras, imágenes.  Otra parte importante de lo que se lee estará dedicada a la reflexión sobre la interpretación, su profundidad y el momento adecuado para realizarla. Animando a los practicantes de su técnica a manifestar las interpretaciones tan pronto surjan y en lo posible desde el inicio, la autora enfatiza como estas son una estrategia efectiva en la disminución de la ansiedad y un buen inicio en el ahondamiento del proceso analítico. A continuación, se presentan dos tablas que proponen una organización de las principales ideas de Klein en torno a: i) precisiones sobre la técnica del juego y ii) algunas innovaciones creadas durante el desarrollo de las sesiones de los casos presentados y atendiendo a las particularidades de los mismos. Aspecto de la técnica de juego    ValorIdentificación del léxico utilizado por los padres para referirse a los genitales, defecación y etc.    Comunicar con precisión las diferentes interpretaciones que surgen durante la implementación de la técnica. Esto se hace con los pacientes de todas las edades. Interpretaciones iniciales    Dada la inmediatez con que se va a manifestar la transferencia (positiva o negativa) en el caso de los niños, Klein va a recomendar que la interpretación comience en cuanto sea posible, independientemente que más adelante vuelva a salir material similar para ser nuevamente reelaborado.  En el caso de Trude, Klein va a señala como una interpretación realizada en un encuentro inicial de una hora, facilitaría la disminución de su transferencia negativa, lo que mejorará sustancialmente la retoma del proceso posteriormente. Así, oportunidad y profundidad son factores que el analista deberá considerar orientándose técnicamente sin timidez.  Pensamiento de juego    Este concepto, le da a la técnica un valor más profundo que una mera forma, acaso un hacer, un actuar. Existen contenidos, ideas, que se identifican principalmente por repetición independientemente de su multiplicidad de formas y también por la intensidad de los sentimientos ligados a su contenido, por tanto pareciera que cuando el niño juega también piensa. Fuente: Elaboración Propia

A música marcando a história da vida - resenha da série “O maestro e o mar” (alerta de spoiler)

admin Artigos 15 julho 2024
Por Ana Cristina Ibañes -  A série de 09 episódios nos mostra o poder da música na vida das pessoas, quem nunca teve uma música que marcou sua vida? A história começa no final da pandemia da Covid 19 onde o maestro Orestes é convidado para fazer um festival de música na cidade. A primeira pessoa que ele vê é uma linda jovem que o ajuda a ir até o local de sua casa. Se você acredita em amor à primeira vista, foi exatamente isso que aconteceu, o desenrolar desse lindo romance só assistindo para saber. A segunda pessoa que ele encontra é Maria uma senhora encantadora que durante cada episódio irá cativar a todos, uma mulher sofrida com um casamento abusivo, mas, mesmo assim ela não perde o encanto de uma mulher com um coração imenso. A história se desenvolve com o preconceito de opção sexual de dois jovens e a diferença de idade em um relacionamento amoroso, caso esse que se repete em duas gerações. O abuso doméstico através da violência física onde a própria justiça não faz nada. A lavagem de dinheiro, onde todos sabem que é errado, mas, continuam porque convém a família. Um personagem em especial que é o marido da Maria, um homem extremamente violento, que repete a violência trazida de seu pai e ele tenta passar para seu filho. Quando ele ouve uma música isso mexe com ele e ele tenta fugir de suas lembranças. Acaba tendo um final trágico, que com certeza trará a continuação dessa série tão cativante e que nos traz muitos pensamentos.___________Direção: Christoforos PapakaliatisPlataforma: Netflix

Tons em “O maestro e o Mar”: Explorando clichês e profundidades – resenha da série: O Maestro e o Mar (alerta de spoiler)

admin Artigos 14 julho 2024
Por Giuliana Sagulo -  Comecei a assistir a série grega O Maestro e o Mar, de 2022, porém, na metade do segundo episódio perdi totalmente o interesse.  Parecia ser uma série clichê daquelas que retrata um homem bonito apaixonado por uma garota ainda mais bonita, enfrentando obstáculos para viver esse amor à luz do pôr-do-sol na Grécia. E mais: um homem atraente e mais velho, apaixonado por uma garota linda com toda espontaneidade e frescor da juventude. Mais clichê impossível! A série se resume a isso? Sim. Não. Talvez.  Mais alguns amores impedidos, desencontros, belas paisagens, fotografia, luzes e.… música. O próprio nome já sugere a importância desse recurso na trama, e foi isso que me motivou a uma segunda chance, afinal, não é só um roteiro que me inspira, mas aquilo que pode se extrair dele.  E foi uma boa escolha.   Já nos primeiros episódios algumas coisas se tornaram evidentes, como a relevância de personagens para além do casal-deuses-gregos protagonistas, Orestis e Klelia.  Em cada um dos 9 episódios há um narrador-personagem que compartilha sua própria história, suas dores, seus questionamentos, fazendo de nós, expectadores, ouvintes (analistas?). Esperei ansiosa ouvir Haris e Maria.  Haris, avó de Klelia, deixa clara a identificação com a neta, e aos poucos percebemos que isso vai além do amor pela música.  Ela se revela uma mulher que destoa dos demais habitantes locais. Uma mulher madura, elegante, bela, atenta aos detalhes ao seu redor e que no passado fez parte da cena musical da Ilha de Paxos.    Maria é comovente. Uma mulher que parece ter a vida sufocada dentro de si mesma, mas que se ilumina com a possibilidade de ajudar Orestis na organização do festival da cidade. Poderia ter a caracterização típica de uma senhora fofoqueira da pequena comunidade. No entanto, do começo ao fim, a atriz interpreta lindamente uma personagem que expressa em seus olhos tristeza e entusiasmo, dor e contentamento, amor e ódio, além do desejo de encontrar momentos de felicidade fora da realidade caótica de um casamento violento. Até Charalambos, o marido que não aceita o filho homossexual também tem sua história contada. Quase senti pena ao compreender de onde vem tanta dureza. (Quase?  Acho que senti mesmo. Havia sofrimento, muito sofrimento nele.)  Ele é incrivelmente odioso. Envolvido em crimes com o não menos detestável, porém mais requintado, prefeito da cidade, Fanis. Um homem de aparências que “impõe” à sua família um padrão “Doriana” de apresentação. Sua esposa, Sofia, está dopada por remédios que evitam o contato com a realidade de suas vidas tão miseráveis quanto solitárias, ainda que ao final do último episódio nos dê o alívio de parecer despertar do transe.  Aliás, creio que o que a série, entre outras possibilidades, se propõe a discutir seja justamente o mundo instagramável e o quanto fingir para atender a supostas expectativas sociais é cruel, tedioso e doentio. É preciso, de fato, nos desprendermos de nosso narcisismo para podermos crer que ser insignificante pode ser libertador.  O curioso é notar que nos momentos de “devaneios”, onde são colocadas as outras possíveis formas de se viver, onde as pessoas apenas se mostram sorrindo espontaneamente, se dão com coisas muito simples, como poderem assumir seus amores. Pessoas lindas, lugares maravilhosos e rostos sérios, cheios de mágoas, segredos, ressentimentos.  Adoentados da mente e do corpo.  Ainda durante os 8 primeiros episódios, ao final de cada um, anuncia-se um crime. Aos poucos descobre-se a vítima e ansiamos pelo momento de descobrir quem, entre tantas pessoas que a odiavam, a matou e por quê.  As nuances de cada personagem são percebidas e sentidas pelo expectador de forma mais intensa de acordo com a música escolhida para cada momento.  Claro que podemos pensar nas artes de forma geral como uma ferramenta para sublimar as dores que cada um carrega.  No entanto, num filme ou série, a escolha das faixas não é aleatória, sobretudo numa que se propõe a discutir justamente as emoções que as músicas evocam. Sentir e pensar através do som.  Seja com Queen nos luaus dos jovens garotos que não podem flertar, com cantores gregos que desconhecemos, com A-Ha no walkmam do jovem Charalambos ou com clássicos eruditos.  São as músicas que contribuem para atmosfera, humor e emoção entre os atores e seu público. Por que não pensar que ouvidos atentos às “músicas” que nossos pacientes “cantam” nos permitem uma conexão emocional profunda com eles?  Em cena ou na musicalidade da fala de um analisando, é preciso perceber o tom, o ritmo, as mudanças de enredo. Se pensarmos nos atendimentos on-line também uma experiência audiovisual, a música ou a musicalidade das falas podem conter elementos ricos para o processo analítico.  Talvez como numa ópera, a série pode ter se desenvolvido com um início mais lento e reflexivo, com partes declamadas. Num segundo momento, a orquestra acompanha essas vozes ganhando intensidade e velocidade. Depois, alguns personagens cantam juntos, conferindo ainda mais intensidade, ritmo e dramaticidade.  Enfim, o nono e último episódio é este momento. O festival se realiza enquanto cenas de passado e futuro se alternam. Essas cenas dramáticas, do ponto de vista do volume das músicas, das idas e vindas no tempo, na constatação de que, no fim das contas, tudo poderá se repetir. As pessoas talvez sigam amarradas nas imagens de si mesmas, nos interesses escusos ou nas dores do passado....  Retomando a questão dos clichês.... Talvez seja impossível escapar deles na trajetória de qualquer indivíduo. A repetição é o que confere a eles o status de clichê, tanto os que inadvertidamente reproduzimos quanto aqueles que nos são legados de gerações passadas.  Isso que nos parece tão familiar nos convida a contemplar não apenas o aspecto ridículo de algumas repetições, como os preconceitos, mas também a refletir sobre (in)verdades, (des)amores, (im)possibilidades e (des)encontros.  Surpreendentemente, alguns clichês podem conter beleza própria. Ao mergulhar em suas possíveis complexidades podemos descobrir, que apesar da familiaridade, permanecem autenticamente nossos. ___________Direção: Christoforos PapakaliatisPlataforma: Netflix

Entrevista sobre Ansiedade Algorítmica para Record News

admin Artigos 12 julho 2024
Por Estúdio News - Record TV -  O fato das redes sociais e aplicativos de mensagens facilitarem nossa comunicação, pode trazer consequências para grande parte das pessoas, muitas delas acabam aumentando seu nível de ansiedade e estresse. Na maioria das vezes, quem passa por um quadro de ansiedade não consegue perceber sozinho, pois ela começa “pequeninha”, segundo Ale Esclapes, psicanalista e diretor da EPP - Escola Paulista de Psicanálise e do Instituto Ékatus. O primeiro passo para entender se você ou alguém próximo está passando por um quadro de ansiedade é prestar atenção no que está em excesso e fazendo mal. Danilo Gabas, psicólogo da Faculdade de Ciências da Unesp Bauru, destaca que o Brasil se configura hoje como o país, no mundo, que mais tem a população ansiosa, “9,3% dos brasileiros sofrem com o transtorno de ansiedade crônico, ou seja, que tem uma alteração importante na funcionalidade, e no top 10 está em 7ª posição mundial em prevalência de transtorno depressivo. Esse aumento de ansiedade importante no nosso país, em nível mundial, é importante ser discutido, as redes sociais com certeza fazem parte desse processo por serem um fator de risco”. A felicidade é um dos principais sentimentos exibidos nas redes, mas Ale Esclapes pontua que a vida não é só de momentos felizes o tempo todo e mostrar aquilo que você não é pode criar uma crise de despersonalização, além disso, o psicanalista diz que a questão pode se agravar em relação aos adolescentes. A nomofobia, medo irracional de ficar sem o seu celular e a síndrome de FOMO ‘o medo de ficar de fora’, comum principalmente entre adolescentes, são ocasionados pelo uso excessivo do aparelho celular e das redes sociais. “Se pararmos para pensar como nossa vida está atrelada às redes sociais, como estamos sujeitos aos algoritmos que essas redes sociais têm dentro da construção delas, a gente consegue entender um pouco das fobias associadas a esse uso”, diz Danilo Gabas. Saindo um pouco das redes sociais, outra questão atrelada aos sintomas de ansiedade está no uso de dispositivos de mensagens, completa Ale, “a pessoa manda uma mensagem e quer a resposta na hora, no mesmo momento, ou seja, temos uma diminuição da capacidade de espera, temos a diminuição da tolerância, o outro vai ter um tempo diferente de mim, vai ter o tempo dele para resolver, ele não está à minha disposição”. Veja a entrevista completa: https://youtu.be/FIY97SDAP7c  

Ciência é psicanálise?

admin Artigos 11 julho 2024
Por Ale Esclapes -  Psicanálise é ciência? Ciência é psicanálise? A polêmica foi reaberta com a entrevista da bióloga Natália Pasternak afirmando o óbvio: ciência não é psicanálise! Fizemos uma seleção de alguns vídeos para que você possa formar a sua opinião sobre esse tema.  https://youtu.be/Qj2Na8OVRLcSérie Christian Dunker - Psicanálise é ciência? https://youtu.be/x_6NMVGGBQE https://youtu.be/CoP4rUheVyU https://youtu.be/DX_3LzEpjHM https://youtu.be/8D09T7i6RZ4  

Philadélfia pensando em questões atuais

admin Artigos 10 julho 2024
Por Giuliana Sagulo -  Assisti Philadélfia em 1993 , quando foi lançado.  Lembro-me que, apesar de muito jovem à época, o filme me emocionou bastante. Ao assisti-lo novamente, 30 anos depois, tive novas experiências emocionais, talvez devido à minha própria maturidade ou ao tempo que passou. Essas experiências me fizeram refletir sobre como a sociedade talvez tenha amadurecido pouco, já que ainda enfrentamos os mesmos medos, rejeições, conflitos e intolerâncias. O filme é estrelado por Tom Hanks, vencedor do Oscar de melhor ator, no papel de Andrew, Denzel Washington como Joe Miller, o advogado que, após superar seus próprios preconceitos, decide defendê-lo em sua luta nos tribunais contra a discriminação no local de trabalho, e Antonio Banderas, como marido de Andrew. A direção é de Jonathan Demme, conhecido por "O Silêncio dos Inocentes".  Já é possível presumir que se trata de uma obra que aborda temas sensíveis como discriminação e preconceitos, especialmente contra pessoas com o HIV/AIDS. É importante lembrar que, há 30 anos a discussão sobre orientação sexual e homossexualidade era um tabu ainda maior que hoje e a contaminação era frequentemente associada a esse grupo de pessoas.  Andrew era amado por sua família, que o acolhia e aceitava. No entanto, é essencial reconhecer que a marginalização de indivíduos na sociedade frequentemente tem suas raízes nos próprios lares e nas comunidades das quais fazem parte. A família, sendo um protótipo da sociedade, desempenha um papel de extrema relevância na formação de atitudes e crenças que influenciam nossa percepção da diversidade e afetam nosso comportamento diante daqueles que desafiam os padrões estabelecidos. As expectativas impostas pelos pais aos seus filhos muitas vezes são responsáveis por iniciar a discriminação e a rejeição desde o berço, perpetuando-se ao longo da vida e na sociedade em geral.  Ao assistir pela segunda vez, mais atenta,  fui tocada pelas sutilezas dos olhares, pelos silêncios, pela música, pelas cores. Uma cena que merece destaque é aquela em que Joe finalmente compreende que Andrew, antes de tudo, é um ser humano sofrendo, não apenas por causa da doença que o debilitou fisicamente, mas também pelo sentimento de desamparo que todos nós podemos sentir em momentos de extrema dor e solidão. (Não foi isso que vivenciamos recentemente, de forma literal, ao perdermos pessoas queridas em meio a uma pandemia em que não pudemos ritualizar a morte e o luto ? Sozinhos estivemos quem ficou. Sozinhos estavam quem foi. Concretamente. Subjetivamente.)  A compreensão da “humanidade” de Andrew  parece se dar especificamente na cena da opera, na qual, segurando o suporte com soro e medicamentos, move-se  lentamente, em uma espécie de dança suave, enquanto ouve a música e explica à Joe o significado da peça (La Mamma Morta- Maria Callas).  Emocionado diz: “Trago sofrimento aos que me amam”, mas diz também : “Eu sou o amor”.  Joe, então, desafia suas próprias crenças e preconceitos ao se envolver emocionalmente com Andrew. Podemos considerar que, como homem negro, também conhece o preconceito em primeira mão. Finalmente ele abre sua escuta e permite a conexão que somente as emoções proporcionam. Esse momento é marcado pela mistura de medo, desamparo, dor mas também, quem sabe , alguma esperança. Nós, psicanalistas, assim tentamos fazer ao ouvir pessoas?  Andrew também parece compreender as "impossibilidades" de seu interlocutor, mas não se impõe de maneira rude ou "militante". Usa sutileza, doçura e determinação para falar de aceitação.  Penso que o filme permite estabelecer paralelos com as lutas da contemporaneidade.   Enquanto sociedade, ainda não aprendemos completamente o respeito às diversas orientações sexuais, nem superamos a crença de que a homossexualidade é "contagiosa" ou uma doença, e novas questões se impõem. Vivemos em tempos de ondas conservadoras que pregam intolerância e estigmatização.  O enfrentamento do preconceito , a busca por apoio, aceitação  é uma luta compartilhada por pessoas com HIV/AIDS e transexuais, por exemplo.  Assim como Andrew,  as pessoas transexuais podem enfrentar resistência e negação de suas identidades o que resulta em exclusão social, falta de acesso a oportunidades e discriminação generalizada. Não era contra isso, afinal, que Andrew lutou?  Não pretendo aprofundar as questões sócio-políticas desses temas aqui, até porque cada um possui características e desafios específicos. Mas como analista, meu objetivo é refletir sobre o reconhecimento das dores daqueles que nos procuram, questionar minhas crenças e limitações, considerar meu viés pessoal e as influências da sociedade, e como tudo isso afeta minha percepção e abordagem clínica.  Há 30 anos Filadélfia continua sendo um filme atual e relevante. ___________Direção: Jonathan DemmePlataforma: Google Play

O pensar e suas infinitas transformações

admin Artigos 09 julho 2024
Por Débora Waihrich Matzenbacher -  Existe um linha de estudos, teorias e conceitos, que nos orienta sobre o modelo médico que Freud adotava, a teoria da transferência, em relação àquele que Bion apresentou, baseado e fundamentado na observação, abstração, e na comunicação, a teoria das transformações. Para Freud, basicamente, a característica principal da transferência é que ela traz algo do passado, para uma relação presente, ou seja, algo do passado está se transferindo para o presente na figura de outra pessoa e sob circunstâncias diferentes. Pode-se acrescentar, tranquilamente, que a transferência, “são novas edições e reproduções dos impulsos e fantasias, que são despertados e tornados conscientes, à medida que a análise avança, com a substituição de uma pessoa do passado, pela pessoa do médico.” No entendimento Freudiano, quando o indivíduo se propõe a fazer uma análise, ele irá relembrar inúmeras situações da sua infância, assim como desejos e acontecimentos que haviam sido esquecidos e recalcados. Essas lembranças, na verdade, se dão através da atuação do paciente, quando ele repete algo inconsciente, na figura do analista, sem saber exatamente o que se repete, sendo a própria resistência do paciente uma parcela dessa repetição. Assim, portanto, não é algo que ele lembre, mas sim que ele reproduz, e o que Freud entendia como sendo o processo de transferência do paciente, e essa última, consequentemente, o principal remédio para diminuir o vício do paciente à repetição. Subsequente à isso, ocorre a elaboração, isto é, a busca do paciente em perceber a origem dessas repetições e a partir disso “elaborar” de uma maneira diferente aquele conteúdo que estava reprimido. Pode-se acrescentar que elaborar tem o sentido de ressignificar certas perspectivas e panoramas da vida do indivíduo, possibilitando uma reinvenção de um futuro mais atraente para ele. Quando se fala em transferência Freudiana, não se pode deixar de apontar a importância da chamada “construção em análise”, porque é justamente nesse texto que Freud corrobora a ideia de que uma construção não acontece sem uma interpretação do analista. Deve-se levar em conta, todavia, que a interpretação ocorre a contar de um dado ou fato isolado, ou seja, o paciente relata, o analista interpreta. Já na construção, entra em cena a história primitiva, pessoal do paciente, isto é, o analista “confronta” o paciente com fatos e acontecimentos que teriam efeito sob ele. Junta-se portanto, pedaços de um passado possível do paciente, com narrativas atuais, e se constrói um novo fragmento que é comunicado ao paciente. Para Klein, a transferência está relacionada com as ansiedades arcaicas do indivíduo, que são originárias das fantasias e dos impulsos sádicos, a pulsão de morte. Klein chamava atenção, ainda, à maneira com que o indivíduo se relacionava com os objetos, bom e ruim, pois estes estão no núcleo da sua vida emocional e serão externados no vínculo estabelecido entre o paciente e o analista, a identificação projetiva. Assim, dentro desse contexto ambivalente de amor e ódio, originam-se os conceitos de transferência positiva e transferência negativa. Para ela “as interpretações deveriam abarcar tanto as relações de objetos iniciais que são revividas e evoluem ainda mais na transferência, como os elementos inconscientes nas experiências da vida corrente do paciente.” O que Freud nominava de transferência, Bion chamava de transformação. O propulsor da transformação é a experiência emocional vivida e sentida na sessão, isto é, aquela emoção que o analista consegue intuir do paciente, uma emoção dentro de uma experiência. Essa experiência emocional se transforma a cada instante, uma vez que sempre tem-se um novo Ò acontecendo. Esse Ò é tudo aquilo que é infinito, incognoscível e desconhecido, ou seja, daquilo que o paciente nos comunica não se pode supor que saibamos aquilo que ele está trazendo. O analista, portanto, precisa ter capacidade de intuir ao menos um dado desse Ò. Essa é a ideia inicial para a teoria da transformação de Bion. As transformações, a contar da experiência emocional, modificam-se a todo instante. Esse “processo” ocorre da seguinte forma: o paciente fala, e essa declaração chamamos de Ò, porque não se pode supor que o analista saiba o que esse paciente está falando e trazendo, uma vez que a fala do paciente é um infinito de desconhecido. A partir desse relato então, o analista intui algo e essas intuições mentais do analista, enquanto ele pensa, se chamam transformações alfa do analista. Quando, então, o analista pensa e aí verbaliza, à essa ação dele, dá-se o nome de transformação beta do analista. Quando o analista comunica, o paciente pode considerar aquela fala como um novo Ò, e é nesse ponto que a transformação ocorre, quer dizer, a transformação que o paciente faz daquilo que o analista falou. Quando o paciente pensa sobre a fala do analista, dá-se o nome de transformação alfa do analisando, subsequentemente, quando este faz uma devolutiva ao analista dá-se o nome de transformação beta do analisando. E durante a sessão, vivenciam-se diversas e inúmeras experiências emocionais, o que deixa a sessão sempre “viva”, permitindo assim a explorarão desse desconhecido do paciente, o Ò. O Objetivo é que sempre haja um crescimento do analista e do paciente no vértice do não saber. Bion propõe que, na sessão, o analista observe, abstraia e, a partir disso, retorne ao paciente com uma interpretação, sobre aquilo que foi observado. A abstração, portanto, é algo que o analista transforma e então comunica. Em ato contínuo, cabe ao analista observar qual a transformação que vai ser feita a partir da comunicação, quer dizer, de que maneira o paciente irá reagir, se ele consegue transformar aquilo que recebeu numa capacidade de expandir o seu pensar ou, ao contrário disso, num ressentimento, num tipo de sarcasmo ou mágoa. Esse processo último Bion nomina de resistência, quer dizer, quando o paciente tem medo de sofrer os efeitos dessa realidade ou até mesmo de entrar em contato com ela. A transformação está relacionada com os elementos de psicanálise continente/conteúdo, que são espaciais, e a função PS-D, que é temporal. Esses elementos de psicanálise servem para o treinamento do pensamento, para a capacidade de observar as cosias e, ainda, para criar capacidade inconsciente. O modo como o indivíduo organiza e trabalha os pensamentos, Bion chamava de continente, ou seja, a capacidade que se tem de pensar e a forma que se pensa. Já o conteúdo, são pensamentos à espera de um continente. Então, aqui, “implica uma mutualidade que é um continente para o conteúdo do outro e vice-versa.” Isso se dá de forma simultânea e dinâmica, quer dizer, analista e analisando ao mesmo tempo são continente e conteúdo na mesma relação. Bion partia da premissa de que os pensamentos sempre existiram mas a capacidade de pensar é escassa. Assim, os pensamentos forçam um continente, que é um espaço mental, que acaba surgindo da força desses pensamentos. A função PS-D está relacionada ao aumento do continente do paciente, e ela é temporal uma vez que “existe um determinado tempo para uma mente desorganizada em algum fato, se organizar”. Então a mente do paciente está em PS quando ela está desorganizada em algum ponto, ou seja, algum conteúdo que está desorganizado no continente. Assim que surge um novo fato selecionado, que vai dar outro significado àquilo que já existia, quer dizer, um elemento que organiza aquele fato que estava desorganizado, a mente se organiza e vai para D. Em Bion, a função PS-D é a abstração das posições esquizo e depressiva de Klein. Sendo assim, quando se pensa na transferência de Freud, fica-se restrito ao que está acontecendo com o paciente no momento da sessão, mas esperando que este reviva um passado com o analista. Já na transformação de Bion, fica-se disponível para tudo aquilo que a mente do paciente produz, ou seja, atenta-se para a questão de como é que o paciente pensa, com o analista, no aqui e agora, dentro do setting analítico.

Filadélfia sob um olhar parental

admin Artigos 08 julho 2024
Por Raquel Mariano e Fernanda Hisaba -  O Filme Filadélfia, lançado em 1993, dirigido por Jonathan Demme, embora tenha 30 anos, retrata temas que são atuais até o presente momento, pois lança uma grande discussão sobre preconceito, AIDS, homossexualidade, discriminação, justiça, e nos faz refletir sobre como a temática foi tratada na década de 90 e como é na sociedade atual. Filadélfia nos conta a história de um brilhante advogado, Andrew Beckett (Tom Hanks, vencedor do Oscar de melhor ator), recém promovido a sócio em uma das maiores firmas de advocacia da cidade, e que é demitido após a direção descobri-lo portador do HIV sintomático e, dado o contexto da época, provavelmente homossexual. Andrew entendeu que sua demissão foi motivada pelo preconceito à sua condição, dando início a um grande drama em busca de um advogado que o ajude provar a sua verdade frente ao tribunal. A causa de Andrew repercutiu grandemente na Filadélfia e consequentemente, não só ele e seu companheiro foram expostos, mas toda a sua família, que compartilha da experiência vivida pelo protagonista, assim como o advogado Joe (Denzel Washington, em uma comovente atuação), que inicialmente personifica a percepção da vulnerabilidade em cada um de nós diante do desconhecido e até então letal HIV e o preconceito e a discriminação ante à diversidade de orientação sexual. Para além destes temas tão evidentes e que seguem em permanente discussão, outro vértice se nos aponta. A música tema do filme, Streets os Philadelphia, de Bruce Springsteen (vencedora do Oscar de melhor canção) introduz com profundidade e delicadeza a condição do humano, carente de empatia e aceitação por parte da sociedade e do grupo familiar em que se encontra inserido, na luta pela afirmação de seus valores e da plenitude de suas escolhas, em todos os seus aspectos. Tudo se inicia com a gestação de um filho em nossa mente. Já nesse espaço, imaginamos como ele vai ser, como será seu desenvolvimento, com quem será parecido, se gozará de boa saúde, dentre outros inúmeros quesitos. No processo gestacional, outras tantas inquietações permeiam a mente dos pais: “nascerá perfeito? Será um bom filho? Terá sucesso?”, dentre tantas outras perguntas. Sabemos apenas que se tudo ocorrer bem no parto, teremos um filho para cuidar e educar, que vai crescer, vai bater asas e buscar seu espaço nesse mundo, fazer suas escolhas que nem sempre estarão de acordo com as nossas. É possível amar esse filho que não nos sai à semelhança, em desacordo com nossas expectativas, diverso daquele dos nossos sonhos? Amar talvez envolva justamente poder entrar em contato com essa diversidade. Colocarmo-nos disponíveis para acompanhar as conquistas e as derrotas, os amores e as dores, ainda que isso resulte em um sofrimento que não fez parte das nossas esperanças. Sob esse ponto de vista, Filadélfia nos traz um inquietante contato com o protagonista, um filho amoroso, um irmão gentil, um companheiro dedicado e um profissional de sucesso, que escolhe para si um caminho áspero, e encontra em seu círculo o apoio necessário para afirmar diante de um mundo hostil aquilo que lhe é caro. Num determinado momento do filme, há uma reunião familiar onde um vídeo sobre Andrew é passado, mostra ele pequeno, saudável, com seus irmãos correndo e brincando na praia. E agora te pergunto: O que será que os pais de Andrew sonharam para ele? ___________Direção: Jonathan DemmePlataforma: Google Play

Psicanálise e psicopatologia

admin Artigos 07 julho 2024
Por Ale Esclapes -  É indissociável a noção de patologia de normalidade. Uma não consegue existir sem a outra – a patologia é um desvio de rota, é um erro, é algo que não deveria estar lá, e como um câncer, deveria ser arrancado. A psicanálise nasceu de uma ciência e em uma época em que o conceito de patologia fazia todo o sentido, a saber, a medicina. Mas psicanálise não é medicina e nem psicologia. Nessas áreas pode fazer todo o sentido palavras como psicopatologia, distúrbio, psicose, etc. Mas em psicanálise, faz sentido? Imagine um encontro no qual paciente e analistas estão de acordo em que o paciente não deveria ser como ele é, mas algo diferente. Estaríamos pensando em um tipo de “tratamento”, “antipaciente”. Assim como temos na psiquiatria os “antidepressivos”, os “antipsicóticos”, os “ansiolíticos”, teríamos como meta uma psicanálise “antipaciente”. Bion no capítulo 2 de Atenção e Interpretação vai deixar claríssimo, mais uma vez em sua obra, que uma epistemologia usada para coisas inanimadas não serve para serem animados, ou seja, com almas. Mas a psicopatologia dita psicanalítica está por aí, travestida de distúrbio, trauma, estrutura, perversão, anamneses, de explicações. Essa forma de pensar fica ali, bem quietinha no fundo da cabeça desse “analista”, e, aqui e acolá aparece na sessão. Imagine um encontro em que nem sequer o seu analista lhe aceita como você é! Se o paciente se aceita ou não como ele é, é um exercício de sua liberdade, mas eticamente eu, na minha forma de pensar a psicanálise, não tenho esse direito, e preciso juntamente com o paciente, explorar o que se passa ali. Para mim essa atitude antipaciente, é algo entre o cruel e o desumano. Aqui jaz uma das grandes diferenças para mim entre a psicologia, a psiquiatria e a ética psicanalítica.
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