EPP - Escola de Profissionais da Psicanálise

A Última Palestra do Recalcado

A Última Palestra do Recalcado

admin Artigos 12 janeiro 2026

Por Rodrigo Lopes Barreto - 

Boa noite pessoal! Eu tento ficar quieto no meu canto, mas insistem para eu voltar. Devo dizer que de início achei que haviam solicitado uma palestra sexy, ensaiei uma coreografia e tudo... (o palestrante olha para a plateia lascivamente, mas em seguida faz cara de enfadado e prossegue), mas depois vi que era apenas uma palestra que trata do que é meu conteúdo no âmbito dos ensaios da sexualidade e como esse conceito mudou em relação aos escritos sobre a histeria. Esse assunto é polêmico até hoje, dizem por aí que o fato de ter estrito os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade foi um dos motivos do Freud nunca ter ganhado um prêmio Nobel de medicina. Sim, já havia cancelamento no século passado... Pra quem ainda não me conhece, meu nome é Recalcado1 , sou diverso, múltiplo, o Freud era obcecado por mim, e eu sempre retorno!

Antes de irmos ao tema principal desta palestra vamos relembrar brevemente os principais tópicos tratados nos ensaios em questão, no primeiro deles o autor discorre sobre as aberrações sexuais, divididas em desvios de objeto e desvios de meta. Um objeto sexual normal seria um indivíduo da mesma espécie, adulto e do sexo oposto, uma das aberrações neste contexto seria a inversão, um invertido era uma pessoa cujo objeto sexual seria alguém do mesmo sexo (o Recalcado revira os olhos). A meta sexual normal seria a união do pênis com a vagina na copulação, levando à resolução da tensão sexual e à diminuição momentânea do instinto sexual, tudo que estiver fora deste contexto é caracterizado como perversão. As perversões podem ser extensões anatômicas para outras áreas do corpo ou objetos, ou fixação em metas sexuais provisórias como tocar, olhar, sadismo e masoquismo. Eu sei que era mil novecentos e pouco, mas que caretice!

No segundo ensaio é explorada a sexualidade infantil. Um recém-nascido traria consigo os germens dos impulsos sexuais, que se desenvolvem por algum tempo e depois sucumbem durante um período de latência, para depois regressar apenas na puberdade. A sexualidade infantil é autoerótica, ou seja, ela se satisfaz com o próprio corpo; perversa, porque a meta da sexualidade infantil é gerar prazer por meio da estimulação da zona erógena escolhida; e polimorfa, dada sua variabilidade de extensões para várias partes do corpo. Neste segundo ensaio também se detalham as fases iniciais do desenvolvimento sexual infantil. A fase oral, que consiste no prazer através do ato vital da sucção pela boca, a amamentação serve tanto à nutrição quanto à satisfação dos instintos sexuais, e depois esse prazer aprendido pode se estender à sucção de outras áreas da pele. A fase anal, onde a mucosa intestinal se apresenta como zona erógena e o prazer vem através da distensão causada pela retenção do material fecal. Eu aposto que vocês nunca mais vão pensar no intestino preso da mesma forma! (O Recalcado gargalha, a plateia ri nervosamente). A terceira fase é a fálica, onde a zona erógena se estabelece nos genitais, nesse momento a sexualidade infantil se torna mais próxima da forma definitiva adulta, e a criança toma conhecimento do seu corpo, de seus órgãos genitais e descobre os corpos e genitais dos outros também. Nessa fase se forma o complexo de Édipo, onde a criança desenvolve um desejo inconsciente pelo genitor do sexo oposto, e uma rivalidade com o genitor do mesmo sexo, e o complexo de castração, em que o menino ao descobrir o corpo feminino acha que ela teve o pênis cortado, e isso gera nele o medo inconsciente que o seu seja cortado também, ou que seu pai o corte em virtude de complexo de Édipo, já a menina, ao descobrir o pênis do menino sente inveja do mesmo. Babado forte!

Ainda no segundo ensaio, somos apresentados à fase de latência, que começa ao redor dos seis anos de idade. Todos os instintos sexuais são suprimidos! (o Recalcado faz cara de espanto) Todas as atividades sexuais, lembranças e traumas vividos até aqui sucumbem à amnésia infantil, durante esse período são formados os poderes psíquicos que depois se colocarão como entrave no caminho do instinto sexual: o nojo, a vergonha, os ideais estéticos e morais. Em contrapartida, toda a energia libidinal seria desviada para outras atividades, resultando em grande exploração e aprendizado para as crianças. O terceiro ensaio trata da fase genital, a última fase do desenvolvimento psicossexual infantil, que ocorre na puberdade e marca a passagem à maturidade sexual. O instinto sexual que até então era predominantemente autoerótico, encontra agora um objeto sexual e todas as zonas erógenas se submetem ao primado da zona genital.

Mas agora vamos ao que interessa. All about Recalcado! O que eu contenho? O que foi reprimido no inconsciente? Na minha primeira palestra nos debruçamos sobre os estudos da histeria, vimos que meu conteúdo era basicamente uma experiência traumática sexual vivida na infância. Na histeria esse trauma era sofrido de forma passiva, usualmente por mulheres, e a lembrança do trauma teria um efeito danoso maior que o trauma em si, ela era reprimida e eu surgia. Quando eu tentava retornar nas histéricas eu era somatizado em sintomas no corpo, esse processo se chamava conversão, e continha um traço mnemônico de mim. Mas a visão do tio Freud ficou bem mais abrangente...

Após estudarmos os ensaios sobre a teoria da sexualidade podemos dizer que toda a experiência do desenvolvimento da sexualidade infantil foi reprimida, as vivências, as sensações, as lembranças, os complexos... e em especial como cada pessoa vivenciou esse processo. Todas essas impressões que esquecemos deixaram os mais profundos traços na nossa vida psíquica, e vão afetar profundamente quem somos e como nos relacionamos com os outros e com nós mesmos na vida adulta. Toda essa sexualidade infantil reprimida que me compõe tenta voltar à consciência... E eu retorno, lindamente, através de sonhos, sintomas, atos falhos, chistes, e veja que interessante, toda essa vivência sexual reprimida também pode se manifestar através da transferência durante um atendimento psicanalítico.

Pra terminar preciso contar um fato curioso. Uma amiga de Catanduva foi comprar anticoncepcional, ficou desesperada ao saber que o medicamento estava em falta, me procurou sem saber o quê fazer... Vocês acreditam que eu dei um exemplar dos ensaios da sexualidade para ela ler? (o Recalcado ri) E deu certo! Nada como ler esses ensaios do Freud para cortar o clima e... (um homem acena na plateia, o Recalcado para de falar e respira fundo) Gente, esse é o Dr. Astolfo, meu advogado, ele tem medo que o Freud me processe novamente. Calma Astolfo! Não vai acontecer, essa é minha última palestra nesta prezada instituição.

Mas eu retorno, eu sempre retorno. Boa noite a todos!

Nota do autor
1- Neste trabalho retomo o personagem do Recalcado, que fez uma primeira palestra em que se dirigia ao Freud como stalker e cobrava dele parte dos direitos autorais pela obra freudiana e uma segunda palestra, de retratação, como parte do acordo após perder o processo que o Freud moveu. Insta - 🧩📚 Uma leitura viva, provocadora e cheia de humor sobre o Recalcado, os Ensaios sobre a Sexualidade e as transformações do conceito de sexualidade na obra de Freud. Insta - @rodrigolopesbarreto

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