EPP - Escola de Profissionais da Psicanálise

Psicanálise de Crianças e Complexo de Édipo

Psicanálise de Crianças e Complexo de Édipo

admin Artigos 19 janeiro 2026

Por Tuca Guarnieri  - 

Freud e Klein postulam suas teorias para o desenvolvimento psíquico infantil observando as crianças e os bebês.  Conceitualmente as teorias desenvolvidas por ambos, individualmente, ora se esbarram, ora se distanciam.

Freud propôs que o desenvolvimento infantil se dava por fases e as classificou como fase oral, anal, fálica, latência e genital. Cada fase ocorria em zonas erógenas específicas, de acordo com cada momento do desenvolvimento. Considerou a sexualidade uma das principais forças do comportamento humano, movida pelas pulsões, e estas iam determinando   as fases do desenvolvimento.

Klein propôs que o desenvolvimento infantil se dava por meio das relações objetais, ou seja, o desenvolvimento se dava a partir de como a criança se relacionava com os primeiros objetos que os bebês tinham contato logo após o nascimento. Enfatiza as ansiedades persecutórias que coloca o bebê na posição esquizoparanóide logo após o nascimento, e em um segundo estágio do desenvolvimento, as ansiedades depressivas que o coloca na posição depressiva. As posições esquizoparanóide e depressiva determinam o desenvolvimento psíquico da criança.
Klein trabalha a ansiedade, defesa e relações de objetos.

Dessa forma, observa-se que Freud trabalhou com fases e Melanie Klein com posições.

Freud enfatizou a repressão como mecanismo de defesa. O sujeito reprimia e recalcava no inconsciente para defender o ego de tudo aquilo que o sujeito não conseguia lidar.

Klein coloca a cisão como o primeiro mecanismo de defesa contra as ansiedades persecutórias. O bebê projeta para os objetos toda ansiedade que seu ego não consegue lidar.
Klein considera que o bebê já nasce com o ego, ainda que frágil e desintegrado.  Freud acreditava que o ego era formado gradualmente durante a infância, conforme a criança ia tendo contato com a realidade, e por meio das experiências com os primeiros cuidadores.

Neste ponto deparamos com outro distanciamento. Enquanto Freud enfatiza a importância da realidade externa na formação da psique da criança, Klein enfatiza a importância das fantasias inconscientes do seu mundo interno, apesar de não desconsiderar a relação precoce entre os cuidadores na formação da personalidade.

As fantasias também são outro ponto de divergência em ambas as teorias.

Freud as vê como uma versão que o indivíduo dá sobre si, assim como uma forma de satisfazer desejos inaceitáveis para a consciência.
Para Klein, a fantasia é uma elaboração imaginativa das funções corporais que se dá pela teoria das posições esquizoparanóide e depressiva. Essas fantasias influenciam como o bebê se relacionava com os objetos e posteriormente com o mundo. 

No complexo de Édipo encontramos outro ponto de divergência. Freud considera o Édipo um conceito central em sua teoria. O complexo de Édipo se dá na fase fálica do desenvolvimento psicossexual no qual a libido se concentra nos genitais. A criança por volta dos 3 aos 5 anos começa a ter consciência das diferenças dos órgãos sexuais. Desenvolve um desejo incestuoso pelo genitor do sexo oposto. Como consequência desse desejo, a criança desenvolve o complexo da castração que é o medo inconsciente da perda do pênis nos meninos como punição do pai por esse desejo.
Desenvolve o sentimento de culpa e a angústia da castração. As meninas passam a ter sentimento de perda, pois já se identificam como “castradas”, e passam a ter inveja e ressentimento em relação aos meninos, que possuem o pênis. 

A resolução do complexo de Édipo se dá no último estágio do desenvolvimento, ou seja, na fase genital. O menino ao identificar-se com o pai e a menina com a mãe, reprimem o desejo incestuoso e passam a identificar-se com o genitor do mesmo sexo, desenvolvendo a partir daí uma identidade sexual saudável se preparando para relações futuras.

Na identificação da criança com o genitor, a criança internaliza as normas e valores morais dos genitores como forma de evitar a culpa e a ansiedade, dando início ao desenvolvimento do superego que é a estrutura da instância psíquica que regula o comportamento e incorpora as normas morais e éticas da sociedade.

Melanie Klein observa bem no início da vida do bebê um estágio inicial do conflito edipiano. O bebê estabelece por meio da fantasia que o seio que o gratifica quando não está com ele está com alguém. Surge daí o conflito de uma triangularidade edípica-primitiva: bebê, seio e um terceiro elemento. Dentro desse édipo primitivo, Klein pontua a existência de um superego primário que se forma por meio dessa ansiedade persecutória e das projeções feitas por ele mesmo.
Esses processos são observados no bebê, do nascimento aos seis meses. Após os 6 meses, o ego passa a ter mais consistência e começa a enxergar um pouco mais da realidade para além das suas fantasias. Percebe o seio como objeto total e experimenta muito precocemente o sentimento de culpa e a necessidade de reparação, diferente de Freud que acredita que o sentimento de culpa vem do complexo de Édipo por volta dos 3 aos 5 anos de vida.

A castração segundo Klein tem ênfase na ansiedade persecutória na fantasia de ataque e destruição, e não da ameaça da perda do pênis e é simbolizada no desmame.

Para Klein no Édipo precoce, a resolução não acontece com a identificação porque é somente um conflito. O Édipo vai acontecer normalmente entre os 3 e 5 anos, segundo a teoria de Freud.

A técnica psicanalítica proposta por Freud é a associação livre, a análise de sonhos e a transferência. Estes eram os recursos por ele utilizados, pois eles lhe forneciam dados, que por meio da interpretação levaria ao conhecimento do que estava recalcado no inconsciente e que era a fonte de onde vinham os sintomas. Todo esse material obtido por meio da análise era apresentado ao paciente com o objetivo de tornar consciente o que foi resgatado do inconsciente. 

No que tange a psicanálise em crianças, Freud considerava que a análise era possível, porém não era uma prática comum em sua clínica. Reconhecia que a técnica poderia ser comprometida, pelo fato das crianças ainda em desenvolvimento apresentarem dificuldades para se comunicarem e expressarem sentimentos e emoções de forma coerente. Pensava também que por não terem um ego formado elas não conseguiriam lidar com as emoções que emergissem do processo de análise.

Um de seus casos mais famosos, apresentado em seu artigo “Análise de uma Fobia de um menino de 5 anos”, observa-se como a técnica foi aplicada.
Hans, um menino de 5 anos tinha fobia de cavalos. Freud trabalhou com o pai de Hans que lhe fornecia informações sobre seu comportamento e sonhos. Interpretou as fantasias assim como os sonhos que eram vistos como expressões do inconsciente de Hans. Identificou no menino uma manifestação do complexo de Édipo e que a fobia estava relacionada à ansiedade da castração. A análise produziu efeito com a diminuição da fobia. Freud atribuiu o sucesso à resolução do complexo de Édipo, tendo por consequência a redução da ansiedade na ansiedade de castração.

Melanie Klein acreditava que as crianças tinham uma vida emocional intensa e complexa e que por meio de técnicas específicas para trabalhar com crianças, conseguia acessar o inconsciente delas.
Para Klein, a associação livre se apresentava no brincar, nas palavras e no comportamento. Tudo era um modo de expressão e tornava-se material a ser analisado.

A criança trazia em suas brincadeiras uma tradução das fantasias do inconsciente, fazendo com que seu mundo interno fosse reconstruído e o inconsciente ganhando significado no conteúdo das brincadeiras.
A simbolização para Klein é um conceito fundamental em sua técnica que permitia ao analista entender os processos emocionais e o inconsciente da criança. A criança que não consegue simbolizar pode apresentar dificuldades de desenvolvimento, assim como de relacionamento e comportamento.
Em seu famoso caso clínico “A importância da formação de símbolos na gênese do ego”, observa-se como a técnica foi aplicada.
Dick, um menino de 4 anos que não conseguia se comunicar.
Por meio da técnica do brincar usou símbolos, no caso um trem para ajudá-lo expressar seus pensamentos e sentimentos. Ao longo do processo analítico, Dick começou a simbolizar apresentando melhoras na comunicação e na socialização. Klein acreditava que o sucesso da análise vinha com a diminuição das ansiedades e defesas que surgem por meio das fantasias.
Trabalhou com a transferência negativa, pois considerava que por meio dela a criança entrasse em contato com suas emoções, seus sentimentos negativos e desta forma conseguia elaborá-los e não os reprimir.

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