EPP - Escola de Profissionais da Psicanálise

Freud, o Inconsciente e o Recalque

Freud, o Inconsciente e o Recalque

admin Artigos 11 novembro 2025

Por Marcio Ferreira de Carvalho - 

Sigmund Freud (Sigismund Schlomo Freud ⁕ Freiberg, Morávia, 06 de maio de 1856; † Londres, 23 de setembro de 1939) afirmava, mediante o emprego de uma sentença que simbolizava parte de suas formulações sobre a psicanálise, que a descoberta do inconsciente deveria ser creditada aos poetas e filósofos que o antecederam. Coube a ele, no entanto, o desenvolvimento da metodologia científica que permitiria aos psicanalistas a exploração deste lado mais oculto da mente humana.  

Em uma fase inicial de suas formulações, Freud interpretava que o inconsciente funcionava como um “quarto de despejos” ou um “depositário” de impulsos ou desejos que teriam sido reprimidos pela mente humana. Fossem elas de natureza sexual e ∕ ou agressiva, estas ideias recalcadas seriam, pois, consideradas incompatíveis com a consciência do indivíduo. Em muitas ocasiões seriam capazes, inclusive, de atentar contra a sua própria moral. Para permitir que este mesmo cidadão ou cidadã permanecesse funcional, tais representações, junto com as suas emoções não ab-reagidas, terminariam sendo amordaçadas pelo Eu e lançadas nas profundezas do inconsciente. Sigmund Freud em sua Segunda Tópica sobre a organização do aparelho psíquico e, posteriormente, o psicanalista suíço Carl S. Jung, aprimorarão tais conceitos. Jung afirmará que o papel do inconsciente é ser grande guia, amigo e conselheiro, principalmente através dos sonhos, da consciência. Foi com base nesta afirmativa que foi elaborada a sua obra “O homem e seus símbolos”.

O aparelho psíquico humano, a fim de enfrentar emoções negativas e conflitos internos, e objetivando, sobretudo, impedir a perpetuação da ansiedade e da angústia geradas a tais divergências, lança mão de estratégias psicológicas para proteção do self. Estas ferramentas, denominadas “Mecanismos de Defesa” são, em sua grande maioria, atos automáticos e inconscientes de proteção do Ego. George E. Vaillant, professor de psiquiatria da Universidade de Harvard, classificou estes mecanismos de defesa conforme seu primitivismo ∕ complexidade, dividindo-os da seguinte forma: 

1. Primitivos (precoces, com grande propensão à distorção da realidade): Negação; Projeção; Idealização; Clivagem do Eu; Onipotência; Identificação projetiva; Atuação; Evitamento; Conversão.

2. Intermediários (ocorrência na infância tardia e adolescência. Há distanciamento, mas com algum contato com a realidade): Repressão ou Recalque; Formação reativa; Isolamento do afeto; Racionalização; Intelectualização.     
   
3. Maduros (tardios, complexos e adaptativos): Sublimação, Compensação; Humor; Altruísmo; Supressão.
 
O Inconsciente sempre busca se expressar mesmo que isso ocorra de forma indireta, nebulosa, enigmática ou simbólica. Lembremos ainda que ele tem como características ser amoral, aético, atemporal e alógico, sendo considerado desconhecido, infinito e incognoscível à luz da psicanálise. Ainda que as representações recalcadas nesta partição do nosso aparelho psíquico costumem perder a sua força, as emoções vinculadas a tais repressões tendem a permanecer bastante vivas, buscando suplantar mecanismos de defesa e censura internos, em uma tentativa de retorno à consciência. Após um período de incubação ou latência pós-trauma uma dada situação da vida de uma pessoa termina por promover um link por vezes simbólico com o recalque. A partir deste momento, dispara-se o mecanismo de retorno do recalcado, a tentativa de emersão emocional de antigos sentimentos conflituosos que haviam sido desviados para o inconsciente. São muitas as vias empregadas por esta tentativa de regresso: a energia não ab-reagida pode se direcionar, por exemplo, para o Soma, culminando em sintomas conversivos – mais um dos mecanismos de defesa primitivos do ego. Ela pode ser, por outro lado, deslocada para um objeto menos ameaçador como no caso das fobias. Por fim, pode se transformar em uma neurose obsessivo-compulsiva por distorções do pensamento. Em situações ainda mais severas, poderemos nos deparar com casos de psicose onde há verdadeira ruptura do aparelho psíquico humano com a realidade que o cerca. 

Entre 1886 e 1995, Josef Breuer e Freud iniciam a utilização da Hipnose para reavivar memórias reprimidas no inconsciente. Com o emprego do método logo percebem, no entanto, as principais limitações para seu uso: apenas 80% dos pacientes eram “hipnotizáveis”, seus resultados eram passageiros e o acesso ao inconsciente era considerado imperfeito. Avançando em seus estudos, Breuer e Freud associam à hipnose, em 1895, uma nova ferramenta psicanalítica, o Método Catártico, objetivando liberar afetos reprimidos e promover a sua ab-reação. A suposta eficácia curativa do método, todavia, dependia de um sugestionamento concebido pelo próprio terapeuta e não pela promoção de um amadurecimento mental do paciente. No primeiro caso, o psicanalista estaria agindo como um pintor, acrescentando sentidos às ideias do paciente quando o ideal seria agir como um escultor, promovendo a remoção de excessos ou camadas para, aí sim, atingir o núcleo do recalque e permitir a elaboração e simbolização do conteúdo reprimido por parte do enfermo. Neste caso, cabe parafrasear duas citações correlacionadas. A primeira, de Platão, confere um aspecto artístico que pode ser ligado à psicanálise: “as formas perfeitas já existem no mundo das ideias, e o artista apenas as revela ao mundo sensível”; a segunda é atribuída ao escultor italiano Michelângelo Buonarroti: “O trabalho do artista é remover o supérfluo até que o essencial — a forma humana ou divina - seja revelada”.     
   
As imperfeições dos métodos descritos acima conduzirão a outras formas de exploração do inconsciente. Surge, portanto, a técnica de Associação Livre. Em um ambiente de neutralidade, destituído de pré-conceitos, críticas, julgamentos, punições ou sugestões por parte do terapeuta, o paciente livre associa falando tudo que lhe vem à mente. O psicanalista, agindo com neutralidade, mantendo-se opaco como uma superfície espelhada para este mesmo analisando, sustenta o discurso, interpretando-o e conduzindo o paciente à elaboração e simbolização do conteúdo recalcado. Sonhos, conforme amplamente estudados por Freud em sua obra magna “A interpretação do sonhos” de 1900, lapsos, atos falhos e chistes também se apresentam como manifestações indiretas do inconsciente. A posteriore, entre 1912 e 1915, Freud desenvolverá um derradeiro conceito, a Transferência, considerando-a núcleo do processo analítico.  

Gustave Le Bon, psicólogo francês, dizia que “qualquer que seja a razão, o inconsciente muitas vezes nos domina e sempre nos cega”. Cabe aos psicanalistas a tarefa de explorá-lo e a partir daí, quem sabe, pelo atrito destas duas pedras, a Psicanálise e deste mesmo Inconsciente, chisparão faíscas. Destas faíscas, obteremos o fogo e deste fogo, a luz que, por fim, eliminará a cegueira, ao emergir da escuridão*. 
      
*Adaptação de uma frase atribuída ao escritor francês Victor Hugo.  
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