EPP - Escola de Profissionais da Psicanálise

O demônio do meio-dia da PREGUIÇA

O demônio do meio-dia da PREGUIÇA

admin Artigos 11 fevereiro 2026

Por Ale Esclapes  - 

A preguiça é, talvez, um dos pecados capitais mais profundamente incompreendidos. Longe de ser a simples falta de vontade momentânea para realizar uma tarefa, ela representa um estado de torpor existencial muito mais complexo. A preguiça, em sua essência teológica, não é o descanso merecido ou a procrastinação ocasional, mas uma recusa em engajar-se com a própria vida, uma apatia que corrói a alma e nos afasta da nossa própria humanidade, um desinvestimento radical na própria existência que nos foi dada como um presente.

Nos mosteiros medievais, esse estado era conhecido como acídia e temido como o "demônio do meio-dia". Evagrius Ponticus, um monge do deserto do século IV, descreveu vividamente como esse demônio assaltava os monges nas horas mais quentes do dia, mergulhando-os em um estado de prostração e inquietação. O monge acometido pela acídia sentia aversão à sua cela, ao seu trabalho e à sua própria vocação, olhando incessantemente pela janela, desejando estar em qualquer outro lugar, incapaz de encontrar paz ou propósito no momento presente.

Hoje, à luz da psicologia moderna, daríamos a esse mal o nome de depressão. A semelhança entre os sintomas da acídia e os da depressão é notável. Comportamentos como a perda de interesse e prazer em atividades cotidianas (anedonia), a fadiga persistente e falta de energia, o isolamento social e aversão ao contato humano, a dificuldade de concentração e tomada de decisões, e uma profunda sensação de desesperança e vazio são manifestações claras que transitam entre a descrição monástica da acídia e o diagnóstico clínico da depressão.

A acídia era considerada um dos pecados mais graves precisamente por sua capacidade de desinvestir o monge de sua pulsão de vida. Ao sucumbir a essa tristeza paralisante, o indivíduo renunciava à sua capacidade de amar, de sentir gratidão e, no contexto da fé, de se conectar com Deus. Era uma morte espiritual em vida, uma recusa em aceitar a bondade da criação e a própria existência como um dom. Essa apatia profunda representava uma quebra fundamental na relação com o sagrado e com o próprio sentido da vida.

Se um indivíduo for deixado nesse estado de acídia ou depressão profunda, ele certamente irá perecer, tanto do ponto de vista emocional quanto físico. A negligência com o autocuidado, a má alimentação, a insônia e o isolamento social progressivo levam a uma deterioração da saúde física, aumentando o risco de doenças crônicas e morte. Emocionalmente, a pessoa se afunda em um abismo de desesperança que pode culminar no suicídio. A acídia, portanto, era vista como o pecado derradeiro, pois seu caminho inevitavelmente conduzia à morte, sendo o mais difícil de ser combatido por sua natureza silenciosa e paralisante.

  • EPP
  • Sigmund Freud
  • Psicopatologia Psicanalise
  • Sintoma Psicanálise
  • Casos Clínicos de Psicanálise
Artigo anterior: A Ilusão da Grandeza: Desmascarando o Orgulho Anterior Próximo artigo: De Freud a Klein – Da Pulsão a Emoção Próximo

Copyright ©2026 epp-psicanalise.com


main version