EPP - Escola de Profissionais da Psicanálise

A expansão do pensamento psicanalítico em Klein

A expansão do pensamento psicanalítico em Klein

admin Artigos 31 janeiro 2026

Por Renata Amaral Soares   - 

Como a condensação temporal e o reforço espacial em Klein alteram os objetivos do tratamento psicanalítico concebidos por Freud.

Em Klein, o tempo psíquico se contrai: a infância, período de latência e puberdade freudiana se tornam um instante arcaico. As fases sádico oral primária (sugar) e secundária (morder) e sádico anal primária (expulsar) e secundária (reter) estão desde o início, já no bebê. Os primeiros seis meses de vida contém a estrutura do conflito edípico, das pulsões de vida e de morte, do superego e do ego, há uma condensação e um funcionamento psíquico muito além do Id freudiano “esperando” pelo princípio de realidade para formação do ego e da criação do superego no complexo de Édipo. É como se Klein tivesse avançado na medicina e tivesse descoberto o “DNA psíquico” do organismo humano, a partir, do “desenvolvimento celular temporal” estudado e proposto por Freud.

Em Klein, o trauma do nascimento “aciona o gene psíquico” da pulsão de morte, é a primeira experiência de separação e dor, o bebê sente que pode ser aniquilado a qualquer momento, gerando a ansiedade persecutória. Já está presente neste “DNA psíquico” um superego arcaico voraz, rígido, impiedoso e sem filtro, primitivo, que tem como origem os processos de projeção e introjeção dos objetos parciais; não é como o de Freud, que incorpora a figura dos pais, educadores, leis, moral e por isso é mais brando. Cada privação e frustração sentida corporalmente pelo bebê, o seio que não vem, o frio que não foi mitigado, a fralda não trocada, é percebida como uma ameaça à vida, uma destruição, o reforço da pulsão de morte, algo muito mais intenso do que um desconforto, com isso o nível de ansiedade gerado fica praticamente insuportável.

Para dar conta do sentimento de frustração, de um sadismo muito cruel, o bebê cinde o objeto, sendo o primeiro deles, o seio materno, em objetos parciais: um que é bom, que me gratifica, e outro que é mau, que me frustra; o seio bom (amado) e o seio mau (odiado). Essa é a primeira relação dual de objeto que o bebê estabelece. Esses objetos cindidos são projetados para o exterior e introjetados no bebê, numa relação de dentro e fora; estabelecendo mecanismos de defesa, que diminuem a ansiedade e vão tornando a vida mais palatável. Quando o bebê sente algum desconforto corpóreo, como a fome, e na sequência o seio bom lhe é apresentado, ele pode sugar e morder até esgotar sua fonte de energia, exercendo o sadismo. E com isso, posteriormente, sentir que será retaliado e perseguido por esse seio, aumentando sua ansiedade persecutória. “Se eu destruí, serei destruído”. Esse processo constitui a posição esquizoparanóide, que ocorre nos 3 primeiros meses de vida.

No segundo trimestre de vida, o bebê começa um processo de integração e passa a perceber que os objetos cindidos em bom e mau, na verdade são um só, isso apresenta uma evolução no seu desenvolvimento, a pulsão de vida vai ganhando força. Juntamente aparece o sentimento de culpa e de reparação, pois percebe que o seio mau que ele mordeu e atacou é também o seio bom que lhe alimenta. Esse processo constituiu a posição depressiva, que nesta fase passa a ter preponderância em relação à posição esquizoparanóide.

O cerne do objetivo psicanalítico kleiniano está em trazer à tona, tratar e elaborar as ansiedades, como a criança/adulto lida com o próprio sadismo, uma vez que elas estão na origem de todo desenvolvimento psíquico e ocorrem frente a um superego arcaico fortíssimo e a um ego cindido ainda em desenvolvimento. Nesta fase inicial, muito antes da linguagem e da capacidade de representação mental e psíquica, não há recalque, nem repressão. Sendo assim, não faz mais sentido objetivar tratar psiquicamente as resistências para que o conteúdo recalcado venha à consciência e possa ser elaborado.

Em Klein, as posições esquizoparanóide e depressiva se alternam e seguem pela vida de uma pessoa. O analisando tem um papel mais ativo no processo de seu desenvolvimento psíquico e de mecanismos de defesa ao ego cindir, introjetar, projetar, integrar e desintegrar objetos, aprender a simbolizar, lidar com o sadismo. Posteriormente, os processos arcaicos de cisão influenciam a repressão. Já o analisando de Freud dá sua versão dos fatos sobre o que ocorreu com ele, tendo como base, a cena primária, o complexo de Édipo e o princípio de castração, que influenciarão à repressão. Os mecanismos de defesa como a condensação e o deslocamento entre outros são formas de burlar a censura para que o conteúdo recalcado e reprimido chegue à consciência e possa ser elaborado. Freud tem uma visão mais determinista em relação ao analisando dado o foco no complexo de Édipo que ocorre por volta dos 5/6 anos de idade, Klein tem uma visão mais ampla baseada nas relações objetais desde os primeiros instantes de vida.

Klein também bebe na fonte da transferência, não poderia ser diferente dado que este é o conceito freudiano fundante da psicanálise, porém o foco dela está na transferência negativa, na relação espacial dos mundos internos e externos do bebê/criança, e no que ocorre no setting psicanalítico, no consultório. Estimular a transferência negativa para que as phantasias inconscientes apareçam, e assim as ansiedades possam ser trabalhadas, é também objetivo do tratamento psicanalítico.

Estimulando a agressividade da criança, para que no contato com a realidade e, com o desenvolvimento da capacidade de simbolização, a criança possa fortalecer o ego e ter outra relação objetal com diminuição da força do superego arcaico. A criança passa a perceber que a phantasia inconsciente sob jus desse superego arcaico é muito mais cruel do que a realidade. A criança percebe que pode ter sentimentos ruins e destruidores, o que não significa que ela será retalhada ou que papai ou mamãe irão morrer. O caso Erna é um bom exemplo disso.

A phantasia kleiniana, com “ph”, é a revisão de Klein sobre o inconsciente freudiano, ela é nata, é a elaboração imaginativa das funções corporais e das projeções dos impulsos do bebê sobre o objeto, das primeiras relações que o bebê tem com o mundo, é inconsciente, expressão mental das pulsões. O bebê sente, não

sabe o que é e, para diminuir a ansiedade gerada, phantasia. Em Freud a fantasia aparece em um estágio posterior, quando já há linguagem e capacidade de representação, sendo consciente, aparece para fazer sentir, para dar a versão dos fatos, de mostrar como a pessoa sente, ela vem no lugar do fato que não interessa mais. Apesar de ambos diferirem no conceito de fantasia, ela para os dois é um instrumento potente a ser trabalhado, está na base do trabalho analítico.

Klein catalisa e elabora sobre os principais conceitos de Freud com ênfase numa relação espacial objetal do mundo interno e externo, em alternância das posições esquizoparanóide e depressiva, com foco nas ansiedades e phantasias inconscientes para serem trabalhadas de forma presencial no consultório. Processos relacionados a um superego arcaico bem mais severo do que o superego de Freud, que vai se desenvolvendo a partir do complexo de Édipo, mas que já atua nos primeiros instantes frente a um ego também em desenvolvimento e fraco. O analista estimula a transferência negativa, não tem mais sentido reviver os afetos na figura do analista em uma relação de transferência positiva, não tem mais experiências do passado trazidas ao presente ou sonhos analisados ou revivências de afeto. Dadas essas diferenças, ambos recorrem à transferência no trabalho analítico das pulsões de vida e de morte.

Em Klein o foco da análise está nas ações realizadas no setting do consultório e não nos sonhos ou na memória. A observação do brincar em crianças, o equivalente à associação livre no adulto, abriu campo para o desenvolvimento da psicanálise teórica e clínica, fatores que em Klein são praticamente indissociáveis. A análise de uma classe de pessoas considerada inferior para a época, as crianças, trouxe muitos ganhos também para os adultos e possibilitou a expansão do pensamento psicanalítico.

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